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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Vagamundagem psicodélica: a filosofia de estrada de Ed Buryn

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Duvido que você conheça essa figura: Ed Buryn. Eu o descobri por acaso, ao ler uma citação sua no blog do Rolf Pots. Clicando aqui e ali fui encontrando outras citações e não demorou muito já havia me tornado um admirador desse veterano vagamundo, hoje um senhor pacato de 70 e poucos anos que vive em Nevada City (Califórnia) e faz um trocado vendendo livros usados online e deitando cartas de tarô, de um baralho criado por ele mesmo, inspirado na obra de William Blake.

Fui atrás de literatura e consegui garimpar na Amazon um exemplar das viagens que o Ed Buryn fez pela Europa e pelo Norte da África (Vagabonding in Europe and North África); os livros do Ed estão fora de catálogo, de modo que não é uma tarefa muito fácil conseguir exemplares há muito esgotados. Com a sorte ao meu lado, comprei aqui mesmo num sebo virtual outra obra do Ed, Vagabonding in the USA, e agora posso dizer com muito orgulho que possuo suas duas principais publicações.

O Ed Buryn é famoso nesse meio underground de viajantes vagamundos outrora jovens nas décadas de 60 e 70. Foi quase um guru da moçada hippie daqueles anos psicodélicos - que achava que viver era cair na estrada - porque publicou guias que não eram apenas apanhados de dicas para viajantes mochileiros. Seus escritos traziam poucas informações sobre destinos específicos, sendo antes de tudo um guia de estilo de viagem; também fizeram a cabeça num sentido mais elevado: tinham um conteúdo espiritual cuja mensagem central era a de mostrar que a viagem, quando bem programada, podia servir como um meio de transformação interior. Fazem parte do vocabulário alternativo desses livros os termos que marcaram aquela geração power-flower: expansão da consciência, Energia Cósmica, busca espiritual, iluminação, vibração e outras delícias semânticas.



O estilo de viagem apregoado pelo Ed Buryn ainda me parece muito cativante e plausível, mesmo com todas as mudanças tecnológicas que tornaram os deslocamentos mais práticos e, convenhamos, menos aventureiros em relação ao passado (nem tão distante assim). Para o velho hippie, o bom vagamundo é aquele que viaja de maneira independente, priorizando o encontro com a gente local, economizando o mais que puder e planejando o mínimo possível seus deslocamentos, deixando que o acaso o guie como uma folha levada pelo vento.

Viajar com baixo orçamento é especialmente importante; o dinheiro compra luxo e conforto, distorcendo assim a realidade e isolando os viajantes dos agentes de transformação presentes nos deslocamentos: desafios inesperados, riscos, surpresas e desconfortos. Uma viagem significativa também requer o encontro, o contato entre as pessoas; Buryn encorajava seus leitores a relacionarem-se com estranhos, mas sem esquecer de visitar seus parentes, ex-namorados/as, e outras pessoas que pudessem ensinar algo mais sobre eles próprios. Quanto menos planejados esses encontros, tanto melhor. Liberdade era o lema; flexibilidade, essencial.



Nada disso me parece utopia, sinceramente. Lembrei-me de um caso insólito que aconteceu comigo há quase dez anos. Eu fazia um trabalho voluntário que era basicamente servir de hospitaleiro a peregrinos e viajantes que chegavam da França após a travessia dos Pirineus, fronteira natural com a Espanha. Todos os dias, para afastar o tédio da solidão, eu saía de Arrés, o povoado aragonês onde ficava o meu refúgio de montanha, e descia até um pueblo distante uns três ou quatro quilômetros, chamado Puente la Reina de Jaca.

A paisagem era linda e no outro pueblo havia um bar onde eu me sentava e bebia uma taça de vinho, às vezes duas. Depois saía para fumar um cigarrinho no ponto de ônibus da rua principal, que por acaso era a estrada que ligava um país a outro. Essa era minha diversão diária e eu era muito feliz a meu modo. Melancolicamente feliz.

Naquele dia, ouvindo pela milésima vez uma fita do Neil Young no meu walkman, sentado naquele banco de parada de ônibus em frente à ponte sobre o rio Aragon, avisto um peregrino pomposo, tiozinho de uns sessenta anos, descendo a trilha na direção oposta à minha. Roupa e botas de boa qualidade, cajado high-tech (que eu detestarei até a morte) e ósculos escuros. Devia ser francês, espanhol jamais. Magro, cabelos grisalhos com volume, tinha numa das mãos uma coisa esquisita que eu nunca havia visto. Achei que fosse um rádio, tipo walkie-talkie.

Atravessei a carretera e fui ter com o tiozinho, que parecia estar perdido. Só falava francês (bingo!) e você sabe, francês só fala a própria língua, mas consegui entender alguma coisa, e essa coisa era que ele estava indo para Arrés, onde pretendia pernoitar naquela noite.

Bom, eu estava em Arrés, como já disse, de modo que lhe expliquei que o acompanharia até lá. Mas que nada. O velhote, pomposo e esnobe, me disse que preferia seguir as indicações do seu aparelho, um tal de GPS (juro que eu nunca havia visto um). Fiz aquela cara de quem não está entendo nada e vendo que o fulano ia tomando a direção errada, me desesperei e tentei epileticamente mostrar que a direção para o pueblo era a que eu havia indicado.

Nem adiantou, e lá se foi o tiozinho pateteando estrada afora sabe-se lá para onde com seu aparelhinho burro. Apertei o play do meu walkman e o som da gaita do Neil me embalou na volta a casa, seguindo dessa vez a trilha pela montanha; cheguei ao refúgio uma hora depois, fiz meu almoço, sentei para escrever, fiquei olhando o sol se por no vale e quando começava a escurecer, bate na porta um francês, nada pomposo, suado e com cara de pastel que, sabe-se lá o motivo, deixou-se levar pela conversa de um tal de GPS... Fazer o quê?

Isso me marcou tanto que desde aquele episódio vejo com certo preconceito o uso da tecnologia em minhas andanças, a ponto de não conceber a ideia de um dia carregar um telefone celular comigo em uma viagem, por mais prático e útil que isso seja – e eu sei que é. Mas se não uso celular nem no meu dia a dia, quanto mais viajando.



Na primavera passada fiz um percurso de sete dias pela Galícia com minha irmã. No primeiro dia nos desencontramos (vacilo dela) e o acaso fez com que nos encontrássemos onde não havíamos combinado, já tarde da noite em um albergue. Nem preciso comentar a quantas estava meu humor.

Para ela, aparentemente estava tudo bem. Havia enviado um email do seu “aifone” dizendo para que não me preocupasse. Demorei para entender, como é que isso me ajudaria se eu estava no meio do nada e sem telefone ou acesso a internet, mas para ela, acredito, o que valeu foi a intenção. Coisas da modernidade.

Por isso eu entendo a postura do Ed Buryn e aprecio muito suas ideias, porque sem conhecê-lo já as botava em prática. Talvez tenhamos uma visão romântica sobre a experiência da viagem, mas sei que há muitos que ainda prezam essa maneira simples e mais desapegada de viajar.

Outra coisa interessante a respeito do Ed Buryn é que, apesar de viver numa época em que o uso das drogas era quase que uma experiência obrigatória entre malucos e malucas, ele não fazia apologia a elas (embora não fosse contra, muito pelo contrário); sua “viagem” se dava através de outras alternativas, no caso as deambulações. (Interessante aqui é notar a associação que existe entre o uso de uma droga alucinógena com o ato de viajar, mostrando, ou insinuando, que em ambos os casos existe um contato mais profundo com o Eu).


O Ed dizia que os seres humanos são capazes de filtrar os fluxos de energia e de informação disponibilizadas pelo universo, através de hábitos, rotinas e padrões sociais de percepção, mas que a sociedade moderna acabou por inibir o acesso a essa energia, algo como ter “os canais bloqueados”, numa linguagem puramente new age.

Daí que o jeitinho hippie de retomar esse acesso ao fluxo de energia cósmico, de provocar uma limpeza nas “portas da percepção” foi o de apelar para as drogas, naturais, sintéticas e outras tais. Só que o Ed Buryn tentou mostrar, empiricamente, que havia outros caminhos, entre eles a vagamundagem. Para ele, vagamundear tinha o mesmo efeito das drogas alucinógenas: ao expor o viajante às dificuldades, ao desconhecido, ao inesperado, ela rompia os padrões petrificados da percepção. Isso forçava as pessoas a se livrarem das raízes dos hábitos, libertando a Energia neles estagnada. Vagamundagem é uma forma de psicodelia natural, por ser capaz de expandir a consciência das pessoas e deixá-las chapadas. Beleza.




Não sejamos preconceituosos: tirando esse discurso hippie datado – e limpando algumas arestas – a filosofia do Ed Buryn traz conceitos simples e eficazes que colaboram para olhar as viagens sob uma ótica diferente, mesmo que aparentemente antiquada.

Você lerá abaixo pequenos trechos pinçados quase todos eles do livrão (é grande mesmo) Vagabonding in America. Uma pena que minha cópia, de 1973, esteja toda carcomida por traças ordinárias e cafonas que deixaram seu rastro sem piedade pelas páginas amareladas e soltas desse meu exemplar. As fotos dessa postagem foram todas tiradas do livro que tenho em mãos e por sorte foram poupadas do banquete traçal. Boa viagem e Namastê!


Viajar não é apenas deslocar-se de um canto a outro do planeta valendo-se de algum tipo de transporte. Não tem a ver com o local para onde você se dirige ou como faz para chegar até lá. Nem mesmo como fazer para cair fora de um lugar. De fato, é justamente o oposto disso... é um meio de chegar até ele. Viajar é uma metáfora da vida, um caminho para experienciá-la mais intensamente e de maneira mais consciente. Viajar não é tanto uma ação, senão um estado de iluminação da consciência, abrindo-o a novas experiências, a novos olhares para o mundo a para sua participação nele.

Rotinas e hábitos são o Conhecido, protegendo-nos do Desconhecido. Hábitos também são chamados de lar. Os hábitos domesticam a pureza selvagem da existência com os confortos civilizados da vida diária. Infelizmente, como sabemos, os hábitos domesticam gradualmente toda a impetuosidade e energia da vida. Muita energia se perde com a rotina e com os hábitos padronizados, mantendo-os vivos, enquanto sua vida se esvai. Desta forma, se você quiser descobrir novamente o lado selvagem da vida, você tem que deixar o “lar”; você tem que quebrar ou dissolver seus hábitos com o objetivo de libertar a energia bloqueada presa a eles.


O viajante luxuoso e seu primo pobre, o turista comum, estão constantemente atados à grana e a outros produtos de valor. São vítimas de uma alimentação inflacionada e pobre de nutrientes; são apresentados a entretenimentos caros e vulgares; zombam de si próprios; são conduzidos como um rebanho para atrações que os aborrecem. Isso não é viajar; isso é uma carnificina da alma. Isso é como o dinheiro, uma forma artificial de energia, distorce a realidade para seus próprios fins. Viajar de forma econômica, seja de que maneira for, enfraquece o poder do dinheiro, que ao fim e ao cabo só beneficia a Indústria do Turismo.

Aprenda a aceitar as mudanças e dê as boas vindas ao acaso.

As pessoas não querem mudar a não ser que sejam forçadas a isto. Temos sido condicionados a estruturar e controlar nossas vidas com o intuito de resistir às mudanças, até mesmo a bloqueá-las se possível, para segurança, criar regras, fazer planos, organizar, fazer cumprir, e por aí vai. O problema com isso tudo é isso já não funciona mais. Nós estamos desenergizados e confusos, com medo do mundo, incertos quanto a nós mesmos. Por que? Porque nosso senso de controle é uma completa ilusão; ele não se enquadra no mundo da forma como ele é, por ser uma versão barata e obsoleta que nós criamos para poder “controlá-lo”.

Vagamundear é uma técnica efetiva para acabar com essa ilusão e você sabe que isso funciona porque faz com que você se sinta bem. Você pode novamente tornar sua vida alegre e você consegue isso prestando atenção à mudança e ao acaso, que se manifestam em qualquer momento, com todas as pessoas e em todos os lugares. O vagamundo aceita mudanças e dá as boas vindas ao acaso, porque essas atitudes são os sinais de que a energia flui, são o centro da vida. Estar aberto à mudança e ao acaso – o espírito da vagamundagem – te eleva automática e infalivelmente e expande seus potenciais de modo que você possa topar com suas demandas encantadoras.

Muitos viajantes comuns tentam controlar tudo, com a intenção de proteger suas ilusões dos desagradáveis choques da realidade. O que eles conseguem com isso é perturbação e paranóia. Ao pré-planejar cada aspecto de suas viagens, seja nas férias ou na viagem de suas vidas, eles acham que conseguem lograr o inimaginável fluir do processo natural (também conhecido como Destino ou vontade de Deus). O que eles manipulam são imitações insignificantes da realidade, um mero fragmento de energia. Vagamundos têm um melhor conhecimento e reservam os detalhes de suas viagens com um agente chamado Acaso. Abrir mão do controle de sua vida te liberta da ilusão de querer controlá-la, e em troca essa liberdade te conecta com uma energia impressionante, com um potencial ilimitado.

Ao não saber para onde se vai, você presta mais atenção onde se encontra, seja lá onde for.


Seu tempo livre é o que mede a qualidade de sua vida. Ter como objetivo a busca de mais liberdade pessoal é tão válido quanto – e ultimamente mais prático ainda – atingir uma meta de riqueza financeira e de abundância material. Hoje, nossa sociedade fornece mais oportunidades do que nunca para sobreviver com estilo, para viver bem sem ter que se transformar num robô cultural. Viver à margem da sociedade é mais fácil e muito mais recompensador do que viver num meio pressurizado estatisticamente, onde se encontram todas as regras.

Mas tenha cuidado, pois um gostinho de liberdade quase que inevitavelmente leva a desejá-la ardentemente; ela te engancha, o que é maravilhoso. Muitas pessoas não entendem isso porque já se esqueceram de como era sentirem-se livres. Elas acham que isso é impossível, quando na verdade a liberdade está bem diante delas, bastando apenas desejá-la para se obtê-la. As pessoas temem a luta pela liberdade, mas nunca dão o crédito à sua recompensa.

Não há nenhuma experiência que valha, a não ser a sua própria. Abandone as muletas que o mantém atrelado à experiência alheia, deixe de ser guiado e conduzido por outro alguém. Você é seu próprio perito. As únicas viagens as quais sou perito são as minhas próprias, que podem ter pouco a ver com as suas. Eu não posso ser o seu perito, apenas o seu assessor, e eu te aconselho: transforme-se em seu próprio perito.

O dinheiro é a riqueza do materialista e opera milagres no domínio físico. O tempo é a riqueza do peregrino, e opera milagres em todos os domínios.


O desejo de viajar reflete uma atitude positiva. Você quer ver, quer crescer com a experiência, e presumivelmente deseja tornar-se mais completo como ser humano. Vagamundear leva isso a um passo além: promove a chance de sustentar e fortalecer essa atitude positiva. Enquanto vagamundo você começa a encarar seus medos de vez em quando, ao invés de evitá-los continuamente em nome da conveniência. Você constrói uma atitude que faz com que a vida seja mais recompensadora, o que em troca torna mais fácil o seu empenho. É um parecer positivo e que funciona. Vagamundagem é um modo de encarar esses medos e de começar esse processo de regeneração.

Tenha em mente que a vantagem especial de vagamundagem é a experiência de não saber o que acontecerá a seguir, o que você pode obter com tarifas baixas em todos os casos. Esse tipo de incerteza feliz mantém você no momento presente, a melhor postura para ver e aprender. Você não sabe quem irá encontrar, quais experiências terá se sair da rota, que coisas aprenderá que não se encontram nos guias turísticos... os desafios que você vai encarar não oferecem alternativa a não ser a de enfrentá-los. E ao fazer isso, sua vida estará sendo plenamente vivida.



Vagabonding in Europe and North Africa. Ed Buryn. Random House, 1a ed. 1971.
Esse livro é basicamente um guia prático de como se dar bem numa viagem mais longa, ou seja, não se dirige ao leitor turista mas ao vagamundo – daí o título. Algumas dicas hoje soam hilárias, por conta das grandes mudanças ocorridas nos últimos quarenta anos, e por isso mesmo valem como um testemunho histórico das viagens numa época marcada pelo movimento da contracultura.

Os capítulos aparecem nessa ordem: Introdução (definição de vagamundo); Pré-requisitos; Aonde ir; Quando ir; Como chegar; Com quem ir; Roupa e Bagagem; Sobre como descolar uma carona e suas técnicas; Caminhando e Pedalando; Trens e Ônibus; Rodando de carro ou motocicleta; Sobre Trailers; Encontrando um lugar para dormir; Vivendo um tempo no exterior (estudo, trabalho, comunidades alternativas..); Contato com as pessoas; Outros.

No final há um apêndice com a lista de cada um dos países visitados pelo Ed Buryn na Europa e no norte da África. Nada muito extenso e segue mais ou menos a linha do que se lê nos guias despojados da Lonely Planet. O que vale a pena nessa leitura, o que a torna diferente de tantas outras nessa linha, são os comentários do autor, seu humor (as fotos são um barato!) e sua visão particular do mundo.

Em Vagabonding in America, Ed Buryn caprichou muito mais na escrita, filosofou, contou contos e aumentou muitos pontos. É um documento de uma época, com farto repertório contracultural. Quase tudo o que você leu nessa postagem (com exceção de uma passagem) foi transcrito dessa obra, incluindo as fotos em sépia. Há tanta coisa boa nesse livro que daria para escrever mais umas três postagens no estilo desta. Mais para frente, quem sabe!


O Ed Buryn tem um blog, mas não o atualiza há tempos. Mesmo assim, vale a pena dar uma bisbilhotada. Em outro link encontrei um artigo dele que fala sobre uma técnica de meditação sentada para a Cura. Se você curte essa onda, clic aqui.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, by Cesar Augusto de Carvalho

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Tive uma grata surpresa ao deparar-me com a obra Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, fruto de um longo trabalho de pesquisa de Cesar Augusto de Carvalho, sociólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina. Primeiro, porque o tema me fascina e depois porque o autor teve muita coragem em defender sua tese de doutorado valendo-se, na escrita, de uma linguagem distante das amarras do modelo acadêmico com sua formalidade que muitas vezes (nem sempre, claro) encobre um desenvolvimento intelectual confuso e isento de grandes novidades.

Duas grandes sacadas aqui: a primeira delas foi que, ao optar por uma escrita clara e objetiva, o pesquisador conseguiu ir além da banca de defesa da tese, levando assim o resultado de sua pesquisa a um público muito mais amplo do que o do limitado espaço acadêmico; a outra foi o fato de que, ao agir dessa maneira, o autor se relacionou com seu objeto de igual para igual, pois não há nada mais distante do universo da contracultura do que atitudes formais e caretas, sobretudo no âmbito da comunicação. Aliás, como bem lembra o autor, nem sempre a linguagem científica e racional consegue explicar tudo:

“Não me oponho às metodologias científicas estabelecidas. Dou-me ao direito de propor uma narrativa que pratique a tolerância discursiva, a pluralidade e a relatividade do conhecimento. (...) Se quiser pode chamar minha proposta de rebelde, mas não entenda essa rebeldia no sentido convencional de recusa ou rejeição. Não nego, nem tenho como o fazer, que toda a história da contracultura foi movida por rebeldes. Mas eram rebeldes que radicalizavam sua oposição ao mundo, rejeitando-o, negando-o e procurando viver à margem. A rebeldia proposta é de outra ordem.”

Uma rápida passada d’olhos no sumário da obra adianta um pouco aquilo que você irá encontrar no transcorrer da leitura: antes da viagem, em direção ao centro, a linguagem do silêncio, drogas, dietas e relacionamentos, vida natural, encontrando um rumo.... não entrega muito, é verdade, mas já serve para podermos imaginar do que se trata.

Um resumo da obra vai bem: na segunda metade dos anos 1980 um professor universitário, cheio de questionamentos, interessou-se pela pesquisa sobre os paradigmas do conhecimento e tinha um grande interesse em “pensar alternativas aos dispositivos científicos que pudessem ser criados sem que houvesse o predomínio da lógica racional.” Matutando essa ideia, achou que seria interessante encontrar respostas às suas indagações intelectuais se conhecesse de perto o universo dos jovens que estavam indo morar nos lugares mais distantes do país com a proposta de criar uma sociedade alternativa (inspirados, quem sabe, pela famosa canção de Raul Seixas).

Daí para por os pés na estrada não demorou muito. Grana curta, o lance era traçar um destino easy rider montado numa nada endiabrada motoca 125 cc. Hum, atrevido esse professor. O roteiro foi construído de maneira quase ingênua, confiando numa desatualizada (o que ele só se daria conta depois) edição do Guia do peregrino, lançado pela Editora Três em 1985. Tudo bem, temos que nos atentar ao fato de que naquele período ainda não existia a poderosa ferramenta da internet.

A viagem tinha uma duração pré-determinada de seis meses e em algumas localidades o professor aventureiro poderia contar com a ajuda de colegas quanto à estadia e contatos relacionados com seu objeto de pesquisa. O resto o acaso daria conta.

Os principais lugares visitados foram os seguintes: Campo Grande, Corumbá, Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Porto Velho, Rio Branco e Manaus. Praticamente toda a viagem pode ser enquadrada em dois grandes blocos de acontecimentos: o primeiro, que marca a fase inicial, o “centro” na Chapada, é dedicado ao contato com os remanescentes de comunidades alternativas; o segundo, contemplado com mais intensidade pelo pesquisador, dedica-se ao contato com integrantes de seitas que cultuam o Santo Daime. São essas duas perspectivas que irão nortear toda a narrativa da obra.

Como leitor comum e interessado na temática da contracultura, gostei muito do resultado da obra como um todo. Mas numa visão mais crítica, enquanto pesquisador, achei que a pesquisa teve algumas falhas e que, de certo modo, foi pouco calçada bibliograficamente, levando-se em conta que estamos diante de uma tese de doutorado. Acredito que o autor poderia ter explorado muito mais o seu objeto se contasse com uma orientação mais exigente, causando-me estranheza, nas referências bibliográficas, a quase total ausência de textos estrangeiros.

Mas aqui nada disso tem muita importância, o que nos interessa neste blog são as narrativas de viagem e as reflexões dos autores a respeito da arte de viajar. Nesse ponto gostei do que li e dou nota dez ao Cesar pela sua posição de abertura frente ao novo, ao desconhecido; em muitos aspectos o professor/escritor/pesquisador Cesar Augusto de Carvalho pareceu seguir as diretrizes de um bom trabalho etnográfico, fazendo-me lembrar um pouco da dinâmica do trabalho de campo tal como proposta por Hans-Jürgen Greschat, fantástico pesquisador alemão que se dedica ao estudo das religiões, já citado aqui no blog em um post anterior.

Feita a introdução, vamos agora curtir alguns trechos de Viagem ao mundo alternativo. Como de hábito, escolhi as passagens nas quais o tema da viagem aparece mais evidenciado. Boa leitura e Namastê!

Com o pé na estrada – notas do autor


“A viagem, portanto, seria uma oportunidade única para conhecer as comunidades alternativas, cujas imagens foram formadas pelas informações midiáticas à época. Seria, também, a possibilidade de levantar informações para responder às angústias teóricas e existenciais que me assaltavam. Como todo viajante otimista, isso me possibilitaria dar novo significado ao sentido da vida.”

“Mas nenhuma viagem transcorre sem, pelo menos, a possibilidade de perigos. E o perigo maior não é o que está ligado a eventuais acidentes, mas sim aquele que coloca o viajante em uma rota sem destino, que o faz se perder. E a razão é simples. Em uma viagem excessivamente longa, como a proposta, o meu lar seria a própria estrada. Por mais tempo que permanecesse aqui ou ali, seria impossível o apego a objetos ou pessoas. Estaria em constante deslocamento, exatamente como o fogo que arde rapidamente e consome o mato seco.”


“O fogo não é apenas uma figura de linguagem, é o próprio comportamento do viajante. E a razão disso, hoje, parece fácil compreender. Enquanto se vive em um cotidiano rotineiro, objetos, hábitos e coisas ganham uma significação precisa, ainda que muitas vezes sem vida. Já o constante deslocamento do viajante obriga-o a passar pelas coisas sem lhes dar muita importância. À medida que esses deslocamentos se intensificam, o risco de o viajante não chegar ao seu destino é cada vez maior. E isso só não acontece quando ele encontra o que busca.”

“Acredito ser esta a principal razão que transforma o ato de viajar em um símbolo mítico, porque é constante o processo de mudança de valores. Só o cansaço pode levá-lo a prender-se a algo: ‘ Viajo constantemente, o que significa que não tenho apego a nada nem a ninguém’ (Pedro Almodóvar, 1998)”.

“A própria viagem física, que ocorre entre diferentes pontos geográficos, serve para redimensionar o sentido da vida quando as experiências do viajante o levam a importantes mudanças de mentalidade.”

A temática

Até o final do século XIX, os relatos descrevem de forma objetiva as cenas e objetos que o viajante encontra em seu deslocamento temporal e espacial; no século XX os relatos mudam o foco para os mapas dos conflitos, angústias e dramas que se desenham durante a jornada interior do viajante. Nesta acepção, os deslocamentos não são condições necessárias para produzir mudanças significativas na estrutura de personalidade. Muitas vezes, sem sair de seu quarto, o adolescente se redefine: “Ah... que viagem, estar aqui, parada”, diria Alice Ruiz sobre esse mergulho interior.


Jornada, a viagem é rito de iniciação responsável pela mudança de percepção e de vida do indivíduo. A partir da década de 50, quando ganha amplitude e importância jamais vistas, torna-se marco importante da juventude do pós-guerra. On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac é exemplo clássico: no romance, dois personagens cruzam os Estados Unidos, do Leste ao Oeste. Vagões de trens de carga, motos, carros, ônibus, não importa o veículo a ser utilizado, nem o destino, importa o movimento. O movimento incessante dos personagens, de um lugar a outro, sem parada.

Nos anos 60, a viagem consolidou-se estilo de vida, marca. Cair na estrada era um desejo de qualquer jovem. Receptiva ao novo segmento de mercado, a indústria fonográfica soube aproveitar-se. O sonho de uma Califórnia aconchegante cantado pelos The Mamas and the Papas na música “California Dreamin’” foi sucesso imediato ao ser lançada no Verão do Amor, em 1966.


O universo simbólico apontava para a prática recorrente da juventude: mochila nas costas e o compromisso de estar em movimento. Muitas vezes, o final da viagem se revela surpreendente ao redefinir os rumos de vida e história do viajante. É quando a viagem revela-se rito de iniciação da jornada do herói, o viajante. A viagem de Che Guevara pela América Latina no início dos anos 50 enquadra-se na narrativa típica de construção do herói mítico. Quando Che Guevara, depois de viajar oito meses, separa-se de seu companheiro, reconhecendo a necessidade de manter-se afastado por um tempo, pois precisava assimilar tudo o que havia vivenciado. Sete anos depois ele seria um dos guerrilheiros comandados por Fidel Castro que tomaria o poder em Cuba, e transformaria a ilha no primeiro país socialista da América Latina.


(...) Os diários de viagens de Che Guevara só foram publicados depois de sua morte, mas permitem a compreensão do processo de mudança pelo qual passou em sua busca, em princípio uma simples aventura – “coisa de jovem” -, no final, a construção de um personagem redefinido, com um novo papel no mundo. Antes mesmo de ser morto, Che Guevara já era um modelo de herói a alimentar o imaginário da juventude mundial. E muitos jovens sentiram-se motivados a perseguir sua trilha, que coincidia com o auge do movimento hippie nos anos 60.

Viagem, uma lição ambígua


“A viagem pode começar como uma fuga declarada, movida pela profunda necessidade de mudança interior; o indivíduo vê, como única saída, o cair na estrada, o perder-se, o fugir...”

“Perder-se é uma possibilidade real que o viajante encontra em seu percurso. Sempre em movimento, vivendo como estrangeiro em terras estranhas, com gente estranha, só tem a si próprio como referência. É uma situação perigosa, pois a pior batalha a ser travada é contra si mesmo, segundo os ensinamentos de Buda. Insatisfeito consigo próprio, o objeto de valor a ser encontrado é o desconhecido, o inacessível, o impossível de ser alcançado, e o indivíduo torna-se outsider, o marginal por excelência da literatura existencialista: ‘Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus’ (Ginsberg).”

Drogas e viagens


“Viajar tem também o significado de estar sob o efeito de drogas. E, nesse caso, a jornada interior pode produzir ilusões que, longe de fazer o viajante enfrentar a si mesmo, transformam-se em caminhos de fuga. As drogas alucinógenas, todavia, não foram compreendidas nesse contexto na sociedade pós-guerra. Elas eram muito mais uma possibilidade de abrir as portas da percepção para outros horizontes e, com isso, ajudar o usuário a redefinir seu self. As drogas serviram, assim, para romper os rígidos paradigmas mentais estruturados com base na racionalidade dominante, constituindo-se numa alternativa, não isenta de riscos, de integração social.”



Leia: Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80. Cesar Augusto de Carvalho. Editora Unesp. 2008.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Satori em Paris, by Jack Kerouac

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A editora L&PM presenteia mais uma vez os admiradores de Jack Kerouac com o recente lançamento de Satori em Paris, obra publicada originalmente em 1966 e inédita por aqui. Graças ao empenho da L&PM, aos poucos vemos crescer nossa coleção de obras da literatura beat, sobretudo os títulos do mestre Kerouac.

Tentarei ser imparcial aqui, e sinto que para isso terei que comentar Satori em Paris valendo-me de duas abordagens. Primeira delas: ler a obra sob a ótica de alguém que nunca leu Kerouac. Segunda: ler Satori sob a ótica de quem conhece a vida e a obra do autor.

Kerouac partiu para o andar de cima em 1969, aos 47 anos. Satori em Paris é um de seus últimos livros, já muito distante da euforia e vibração de On the road, seu trabalho mais conhecido. Encharcado de álcool, em Satori Jack pouco ou quase nada lembra o aventureiro jovem e inconseqüente que vagabundeava pelos Estados Unidos nas décadas anteriores, quando a estrada era o seu yoga, a sua união com a transcendência.

Pintura: Jack Kerouac, The Gary Buddha

Pode-se dizer que, até certo ponto, Satori em Paris não deixa de colher semelhanças com outras deambulações do escritor; até arrisco afirmar que nunca antes dessa viagem Kerouac havia definido tão objetivamente o motivo de sua partida. A história é simples: em 1965, contando com quarenta e três anos, Jack viaja à França com o intuito de colher informações sobre seus ancestrais, um homem na meia-idade em busca de suas origens, de seu próprio nome, Kerouac:

“Fui à França e à Bretanha apenas para olhar esse meu velho nome que tem cerca de trezentos anos e jamais mudou em todo esse tempo, pois quem mudaria um nome que significa simplesmente Casa (Ker), No Campo (Ouac) – ”

Dez dias é o tempo que dura a sua jornada; apenas dez dias, e pouca coisa realmente acontece nesse curto período de tempo. Por isso escrevi aquilo sobre a ótica de leitura de Satori pois, para um leitor ainda virgem na leitura de Kerouac (ou mesmo aquele que leu apenas On the road), não consigo imaginar sequer um único motivo para indicar essa leitura. Consigo inclusive enumerar alguns motivos para não indicá-la, fosse esse o caso.

O principal motivo para deixar essa obra de lado já aparece no título: Satori. Não se iluda: se houve algum satori nessa experiência de Kerouac em Paris, ele ficou de fora da história. Palavrinha bonita esta, Satori. No Zen, significa “percepção interior do ser em uma ordem mais elevada”. O satori implica numa expansão da consciência, um estado de iluminação espiritual, a mesma noção de samadhi, para o hinduísmo.

Desenho: Jack Kerouac, Face of the Buddha, 1956

Bom, nada disso acontece nesse relato de viagem. Pelo menos, não dessa forma. Por conta disso, se você não acompanha a trajetória kerouakiana vai achar esse relato uma perda de tempo, por isso deixe Satori em Paris de lado e tente Vagabundos iluminados, Viajante solitário ou Big Sur, três ótimas escolhas pós leitura On the road.

Muito bem. Agora vamos pensar em Satori em Paris de uma maneira diferente, supondo que você já conheça um pouco de literatura beat em geral e de Kerouac em particular. De primeira, um fato: duvido que esta obra esteja entre as mais queridas dos leitores de Kerouac, mas mesmo assim há alguns pontos em Satori que devem interessar a quem busca entender um pouco mais a personalidade desse grande escritor.

A viagem é um ponto relevante: Kerouac busca a estrada para encontrar respostas. Ainda que não tenha efetivamente seguido o curso completo do itinerário a que se havia proposto cumprir – por conta das bebedeiras constantes - parece que no final sentiu ter atingido seu objetivo. Até escreveu uma passagem bonita, que transcrevo abaixo:

“Eu já estava com saudade de casa. Contudo este livro é para provar que não importa como você viaje, quão ‘bem-sucedida’ seja sua jornada, ou abreviada, você sempre aprende alguma coisa e aprende a mudar seus pensamentos.”

A questão do satori. É preciso entendê-la dentro do contexto dessa narrativa. Kerouac aproximou-se do budismo em 1954, após uma fase de grande esgotamento intelectual e provavelmente psíquico também; sentindo-se sozinho e desamparado, encantou-se com uma máxima do budismo que afirma que “toda a vida é sofrimento”. Foi um gatilho que disparou na hora certa: o budismo, uma filosofia que, finalmente, era capaz de traduzir suas mais profundas questões interiores.

Jack começou a ler os grandes textos do budismo e também do hinduísmo e toda aquela sabedoria oriental lhe fazia muito sentido e, podemos supor, dava-lhe certo conforto espiritual. Traduziu do francês os sutras do budismo e chegou a escrever uma biografia do Buddha. Levou tudo aquilo muito a sério, ainda que jamais tenha deixado a birita de lado. O budismo, como não poderia deixar de ser, ainda mais em se tratando de um autor tão intenso quanto Kerouac, acabou entrando no corpo de sua obra, pelo que podemos afirmar que na bibliografia kerouakiana existe uma “fase (zen) budista”, tal como a fase azul ou rosa de um Picaso ou a fase católica de um Bob Dylan.

Entretanto, e isso é muito relevante, Jack jamais abandonou sua fé católica, por mais simpático que tenha sido à doutrina budista. Acredito que nesse ponto Jack não se diferencie em nada dos adeptos da Nova Era, onde a mistura de várias idéias, condutas e práticas espirituais não entram em conflito com a religião do praticante. Em outras palavras: pode-se ser católico, frequentar a missa aos domingos, mas isso não impede a pessoa de participar de outras práticas religiosas, como a umbanda o candomblé ou o kardecismo, fato tão corriqueiro aqui no Brasil. Acredito que Kerouac não via o budismo como uma outra religião (coisa que, teoricamente, não é mesmo), mas sim como uma sabedoria que vinha preencher um espaço que sua religião não era capaz de preencher.

E é isso o que justifica aquilo que eu estou tentando escrever aqui tomando certo cuidado com as palavras. Pois, a partir do momento em que você interpreta o conhecimento de uma tradição espiritual fora do contexto em que ele foi escrito, por exemplo, buscando idéias aleatórias fazendo-as se encaixar um sua própria linha de pensamento ou discurso (“toda a vida é sofrimento”), corre no mínimo dois grandes riscos: o primeiro, a deturpação do conhecimento, e o segundo, talvez menos perigoso, pecar pela superficialidade.

E Kerouac foi superficial em Satori em Paris? Absolutamente. Mas um leitor desavisado vai achar que sim. Só que, no contexto da obra e da vida de Jack (uma frase absurda já que em Kerouac a vida e a obra estão completamente conectadas), o uso dos termos budistas soam totalmente plausíveis, fazendo sentido onde aparentemente não há sentido algum.

E essa complexidade kerouakiana faz parte do jogo, meu amigo, por isso é que considero a leitura dos livros de Kerouac um desafio muito mais do que uma diversão. Daí que, para arrematar, dou a dica: o satori de Jack aconteceu sim, no contato dele com o outro (no caso, os outros). Uma questão, portanto, de alteridade, a mensagem que o filósofo Martin Buber nos deixou, a de que o ser humano só se realiza na relação com o outro. Pegou?

Por isso, se você gosta de Kerouac, experimente ler Satori em Paris como quem busca conhecer um pouco melhor a alma de um homem que apesar de haver sucumbido ao vício, conseguiu ser lúcido o suficiente para escrever sobre as condições mais profundas da alma humana. Finalizo com as palavras do escritor:

“Meus modos, por vezes abomináveis, podem ser meigos. Virei um bêbado enquanto envelhecia. Por quê? Porque gosto do êxtase da mente. Sou um Desgraçado. Mas amo o amor.”


Leia: Satori em Paris. Jack Kerouac. Tradução de Lúcia Brito. Coleção L&PM POCKET. Verão de 2010.
As fotos desse post foram tiradas de um blog bacaníssimo: http://rarerarefind.blogspot.com/






sexta-feira, 7 de maio de 2010

Clássicos da Literatura Odepórica: Zen e a arte da manutenção de motocicletas, by Robert Pirsig

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Há anos tinha vontade de ler essa clássica obra dos anos 1970, Zen e a arte da manutenção de motocicletas: uma investigação sobre valores, de Robert M. Pirsig. Já nem me lembrava mais dela, para falar a verdade, mas circulando pela Livraria Cultura outro dia descobri que havia saído uma nova edição e todo contente fui logo folheando o livro, namorando com o indicador alguns parágrafos, lendo a introdução e as orelhas, e sem medo de ser feliz, tomei coragem e fui passar o livro na maquininha de código de barras e quase tomei um choque, perdi o rumo, fiquei desolado de verdade e pensando, mais uma vez, por que é que no Brasil os livros custam tão caro! Covardia, puxa vida.

Como de hábito, fui vasculhar na internet, naquele bom site dos sebos, e encontrei uns dois volumes, mas um estava com rasuras e o outro valia quase o preço do novo, então deixei pra lá mesmo. Mas não é que o destino foi legal comigo? Pois um dia, caminhando pela Domingos de Morais, topei com um rapaz vendendo de maneira improvisada vários livros distribuídos pela calçada, todos por dez reais, e entre eles, gritando meu nome, o ZAMM (para os íntimos) e em ótimo estado, apesar de ser uma edição de 1984. Beleza.

Fui lá eu todo contente e empolgado devorar a obra. Gostei do comecinho, um cara e seu filho na moto, por uma estrada antiga das planícies americanas, vento úmido e morno na cara, o cheiro dos pântanos entrando pelas narinas enquanto se comem os quilômetros de velhas estradas vicinais... A moto avançando, o fruir da paisagem, vontade louca de fazer o mesmo, saudades da minha XL 95....

Quem já teve moto sabe muito bem o que o Robert quis dizer quando escreveu as seguintes linhas:

“Quando a gente passa as férias viajando de moto, vê as coisas de um jeito completamente diferente. De carro a gente está sempre confinada, e como já estamos acostumados, nem notamos que tudo que vemos pela janela não passa de mais um programa de televisão. Sentimo-nos como um espectador, a paisagem fica passando monotonamente na tela, fora do nosso alcance.”

“Já na motocicleta, não há limites. Fica-se inteiramente em contato com a paisagem. A gente faz parte da cena, não fica só assistindo, e a sensação de estar presente é esmagadora. Aquele concreto zunindo a uns quinze centímetros da sola dos pés é real, é o chão onde se pisa, está bem ali, tão indistinto devido à velocidade que nem se pode fixar a vista nele; e, no entanto, para tocá-lo basta esticar o pé. A gente nunca se desliga daquilo que está acontecendo.”

A história que se seguirá é de certa maneira simples e fácil de resumir: um homem na faixa dos quarenta anos decide, no verão de 1968, empreender uma viagem de moto de Minnesota a São Francisco junto com um casal de amigos, John e Sylvia, levando na garupa seu filho, Chris, na época com onze anos.

É basicamente um romance de estrada, mas não é só isso. Aliás, a estrada, de fato, serve apenas como cenário para uma encenação literária muito mais complexa do que o deslocamento dos personagens. O narrador, em primeira pessoa, não é nomeado na obra, mas você facilmente percebe que quem viveu a história foi o próprio Robert, sendo Chris o seu filho na vida real, assim como o casal de amigos. Definitivamente, estamos diante de uma narrativa de viagem de cunho autobiográfico.

Enquanto a viagem acontece no plano da ação, Robert cria uma regra que determina todo o andamento da leitura. Recorre a uma estranha palavra - chautauqua -, uma espécie de palestra popular em voga no século XIX nos EUA, que visava “edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador”, segundo as palavras do próprio autor, para introduzir alguns conceitos profundos (pelo menos para os não-iniciados) sobre filosofia, ou mais especificamente, sobre o conceito de Qualidade dentro do sistema filosófico.

E aqui, precisamente, temos um problema: se você imaginava, assim como eu, que encontraria nessa obra um tanto de aventura e outro tanto do barato zen, à moda de um Kerouac e seus vagabundos iluminados, pode esquecer. Mas veja lá, o próprio autor adverte em nota que sua obra não trata mesmo disso, de modo que o zen só aparece pincelado, bem de leve, ao longo da narrativa.

Até aí, tudo bem. Mas o que pode assustar uma pessoa desavisada é o peso que tem, no corpo da obra, as longas divagações filosóficas do autor. Devo admitir que, a princípio, fui me aborrecendo com o Robert Pirsig por conta de suas longas e por vezes chatíssimas chautauquas. Muitas delas eu até pulava, porque o que mais me interessava ler era a descrição da viagem e as relações interpessoais, muito mais interessantes para mim.

Claro está que o problema não se encontra na obra, e sim no limite intelectual do leitor, pouco aficionado por filosofia. Mas isso não quer dizer que eu não tenha gostado do livro, não mesmo. Só que, ao envolver-me com a leitura, tomei mais empatia pelos outros personagens do que pelo próprio narrador, a quem considerei – tenho vergonha de admitir – um daqueles caras cuja inteligência avançada é proporcional à falta de charme e chatice; acho que se você também não se empolga muito com esse tipo de gente irá entender o que digo. (Agora, relendo o que acabei de escrever, penso que exagerei um pouco na dose; o narrador não é tão chato e desprovido de charme assim).
Outra peculariedade que causará estranheza é a presença de um personagem crucial na construção da história: o fantasma Fedro, não no sentido caricato que se tem dos fantasmas do além-túmulo, mas um tipo de duplo do narrador, que você mais tarde, na terceira parte da obra, irá compreender melhor de quem se trata. Preste muita atenção na presença de Fedro nesta narrativa, que é uma das chaves de leitura de todos os acontecimentos que compõem os aspectos biográficos do autor.

No meu caso, entretanto, o que mais me chamou a atenção foi a relação do narrador com seu filho Chris. A bem dizer, esta obra trata fundamentalmente da relação narrador(Robert)/Fedro/Chris. Se você é do tipo que curte psicologia, certamente irá aproveitar muito essa leitura.

A relação vivida entre o narrador e seu filho é bastante peculiar. A viagem, em si, já me parece estranha (por conta da presença de uma criança) se levarmos em consideração o ritmo empreendido; são muitos dias de viagem em cima de uma moto, sofrendo as duras instabilidades climáticas, calor e frio alternadamente, dormindo a maior parte do tempo em beira de estradas, sem nenhum objetivo definido. Os planos, para o narrador, “são propositalmente vagos; queremos mais viajar do que chegar a algum destino”.

Fico pensando se esse “queremos” inclui de fato o desejo de Chris; em algum momento da narrativa fica claro que o garoto não parece entender bem a dinâmica da viagem, que aos olhos de um adulto sugere uma aventura encantadora, mas será o mesmo para um garoto de 11 anos? Provavelmente não, e no fundo seu pai percebe isso, embora não pareça se importar muito com a opinião dele. Seguir viagem é o que interessa, e talvez, como sugere o final da obra, haja um motivo para que tudo tenha acontecido daquela maneira.

Ainda assim, a impressão que temos é a de que o narrador é um pai impaciente, que demonstra algumas vezes não se conformar com o fato de que seu filho de 11 anos não tem a capacidade de acompanhar o seu raciocínio lógico; é bem provável que seja isso, que tenha lhe faltado um pouco de psicologia infantil e um olhar mais apurado certamente encontrará outras inúmeras possibilidades de interpretação. A dica, talvez, seja a de ler (ou reler) a obra sob o ponto de vista do garoto, o que me parece uma opção bastante atraente.

Enfim, mesmo com todas as complexidades que envolvem essa trama sob duas rodas, senti uma leve tristeza ao terminar a leitura. Não sei bem explicar o motivo, talvez minha tristeza (ou seria melancolia?) tenha sido causada por conta de algumas passagens meio deprês da obra, relacionadas quase sempre com o passado do autor/narrador. (nota: leia a pequena biografia de Robert Pirsig no final desse post e você entenderá o que estou dizendo. Aliás, entenderá melhor ainda a obra como um todo).

Selecionei pequenos trechos para que você tenha uma ideia do estilo da escrita do autor. Primeiro, sobre a arte da manutenção de motocicletas:

“Nem todos compreendem que a manutenção das motocicletas é uma operação completamente racional. A maioria das pessoas pensa que é uma questão de ‘queda’ ou de ‘afinidade pelas máquinas’. Estão certas, mas essa ‘queda’ é quase inteiramente um processo racional, e a maioria dos problemas são causados por ataques de burrice, falhas no uso apropriado do raciocínio. A motocicleta funciona inteiramente de acordo com as leis racionais, e o estudo da arte da manutenção das motocicletas é, no fundo, um estudo em miniatura da arte da própria racionalidade.”

Como você pode imaginar, a motocicleta e suas implicações mecânicas (funcionalidade, conserto, manutenção) são metáforas utilizadas pelo autor para introduzir questões profundas de ordem interior. Só que, ao invés de explorar o campo da espiritualidade, Pirsig opta pela sabedoria dos antigos filósofos para atingir algum grau de compreensão mais elevada, no que parece dar-se muito bem. Ainda assim, em alguns poucos trechos da narrativa é possível captar o espírito do zen que, afinal, dá título à obra, como na breve passagem abaixo assinalada, num momento em que o narrador faz alguns ajustes na motocicleta:

“O primeiro tucho está em ordem, não precisa ser ajustado, e eu passo para o seguinte. O sol ainda vai demorar muito para brilhar sobre estas árvores... Quando estou fazendo isso, sinto-me como se estivesse na igreja. O calibrador é uma espécie de ícone sagrado, e estou realizando com ele um rito religioso. É membro de um conjunto denominado ‘instrumentos de precisão’, que tem um profundo significado no sentido clássico. (...) A motocicleta é isso, um sistema de idéias moldado em aço. Nela não há peças nem formas que não sejam fruto do pensamento de alguém...”

Sobre montanhas e viajantes

“Depois de uma boa noite de sono, Chris e eu enchemos as mochilas com o maior cuidado, e já estamos subindo pela encosta há uma hora. Aqui no fundo do desfiladeiro a floresta é formada quase que exclusivamente por pinheiros, com alguns choupos e arbustos de folhas largas. De vez em quando, a trilha leva a uma clareira forrada de relva e iluminada pelo sol, à beira do regato do desfiladeiro, mas em seguida penetra novamente na densa sombra dos pinhais. O chão da trilha está coberto de uma camada fofa e úmida de agulhas de pinheiro. O silêncio é completo.”

“Montanhas como esta, e histórias de viajantes que as escalam, encontram-se tanto na literatura Zen, como nos mitos das mais importantes religiões. A alegoria da montanha física, que representa a escalada espiritual que a alma deve empreender para alcançar seu objetivo é estabelecida de maneira fácil e natural. A maioria das pessoas, como aquelas que moram no vale lá embaixo, ficam contemplando as montanhas espirituais a vida inteira, mas nunca se resolvem a escalá-las, contentando-se em ouvir as peripécias que lhes contam os que lá estiveram; assim, evitam as agruras da subida. Outros viajam acompanhados por guias experientes, que conhecem as rotas mais propícias e menos perigosas para atingir o destino desejado. Poucas dessas pessoas logram êxito, mas às vezes, com força de vontade, sorte e motivação, algumas conseguem chegar ao cume e, uma vez lá, têm o privilégio de descobrir que não há um único caminho nem um número fixo de rotas. Existem tantos caminhos quantas são as almas.”

“Na Índia, Fedro escreveu uma carta sobre uma peregrinação feita por ele, em companhia de um guru e seus seguidores, ao monte Kailas, onde fica a nascente do Ganges e a morada do deus Siva, no alto do Himalaia. Ele não chegou até a montanha. Desistiu no quarto dia, exausto, e a peregrinação prosseguiu sem ele. Para justificar-se, disse que tinha força física, mas que só isso não bastava. Tinha também a motivação intelectual, mas isso também não era suficiente. Ele não achava que tinha sido arrogante, mas que estava fazendo a peregrinação para enriquecer sua própria experiência, para aumentar seus conhecimentos. Estava tentando usar a montanha e a peregrinação para atender a objetivos individuais. Para ele, a entidade visada era ele mesmo, não a peregrinação nem a montanha; ele não estava preparado para enfrentar aquela experiência. Deduziu que os outros peregrinos, que chegaram ao destino, provavelmente captaram a santidade da montanha de maneira tão intensa que cada passo era um ato de adoração, um ato de submissão àquela santidade. A santidade da montanha infundida nos seus espíritos permitia-lhes suportar a jornada com muito mais facilidade do que ele, que era fisicamente mais forte.”

“Aparentemente, não há qualquer diferença entre a escalada egocêntrica e a escalada desprendida. Ambos inspiram e expiram à mesma velocidade. Ambos param quando estão cansados. Ambos prosseguem depois de descansar. Mas como são diferentes! O alpinista egocêntrico é como um instrumento descalibrado. Está sempre atrasado ou adiantado na caminhada. Corre o risco de deixar de ver a beleza dos raios de sol passando através das copas das árvores. Ele prossegue mesmo cansado, a passos trôpegos. Descansa nas horas erradas. Fica olhando para cima, para ver o que o aguarda, mesmo quando já sabe o que existe adiante, porque já olhou para lá há apenas um segundo. Vai muito depressa, ou muito devagar em relação às condições reais e, ao falar, fala sempre sobre outro lugar e outras coisas. Está aqui, e, ao mesmo tempo, não está. Rejeita o presente, não se conforma com ele, quer prosseguir, mas, ao atingir o ponto desejado, fica tão insatisfeito quanto está agora, porque o lugar antes distante se transformou no ‘aqui’, no lugar presente. Aquilo que ele procura, aquilo que ele deseja, está ao redor dele, mas ele não aceita, justamente porque está ali pertinho. Cada passo requer um tremendo esforço, tanto físico quanto espiritual, porque ele imagina que o seu objetivo é externo e distante. Parece que é esse o problema do Chris.”

Pois é, essa emblemática afirmação final refere-se a uma caminhada extenuante nas montanhas onde pai e filho tentaram (sem logro) atingir o cume. Ô Seu Robert Pirsig, o moleque só tem onze anos! E a gente, que só de ler sobre essa escalada já se cansa! Enfim, quem somos nós para dar palpite na educação dos filhos alheios, certo? Pois é, e eu que comecei a leitura empolgado e que de vez em quando desanimava com as divagações filosóficas do motociclista quarentão, acabei sendo pego de surpresa nas últimas páginas, quando parte do mistério sobre o passado do narrador nos é revelado. Claro que não vou entregar o final, mas garanto a você que as últimas linhas desse romance fazem toda a leitura valer a pena – especialmente se você conseguir captar, no último diálogo entre pai e filho, a mensagem cifrada que eu, sinceramente, não sei se foi escrita de maneira consciente pelo autor. Mas isso, para mim, também não tem a mínima importância...

Pequena e descompromissada biografia do Robert Pirsig



Robert M. Pirsig, escritor e filósofo estadunidense, nasceu em 1928. Foi uma criança precoce, com um QI de 170 aos 9 anos de idade. Por conta disso, adiantou-se nos estudos e aos 15 já havia ingressado na Universidade de Minnesota.

Serviu o exército na Coréia. Em 1950 foi para a Índia estudar filosofia oriental em Benares. Entre os anos de 1960-63 foi internado em instituições mentais, tendo sofrido um sério colapso nervoso. Foi tratado a base de terapia de eletrochoque e teve o diagnóstico de esquizofrenia paranóica e depressão.

Do primeiro casamento teve dois filhos: Chris, em 1956 e Ted, dois anos depois. Casou-se pela segunda vez em 1978 e teve uma filha, Nell, em 1981. Publicou poucos livros depois de ZAMM, nenhum deles tendo atingido o mesmo êxito de seu livro famoso.

Raramente aparece na mídia; evita o assédio público e viaja rotineiramente de barco pelo Atlântico, tendo vivido em diversos lugares dos Estados Unidos e em algumas cidades europeias.

Em 1979, contando com apenas 23 anos de idade, Chris é assassinado durante uma tentativa de assalto, à saída do San Francisco Zen Center.

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Leia: Zen e a arte da manutenção de motocicletas – uma investigação sobre valores, de Robert Pirsig. Minha edição tem uma capa muito feinha, é de 1984 e saiu por aqui pela Editora Paz e Terra. A tradução é de Celina Cardim Cavalcanti.
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As fotos que você vê aqui (John, Robert, Sylvia e Chris) foram tiradas pelo autor do livro com sua própria máquina fotográfica durante a viagem em 1968, Ano do Macaco no horóscopo chinês.
A foto lá de cima é a capa de um audiobook lançado lá fora; o cara das unhas sujas lendo o livro, esse eu não sei quem é, mas achei que tem bem o "espírito da coisa"...

domingo, 15 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 3, final

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A estrada do arco-íris

Nascido em 31 de maio de 1819, descendente de lavradores ingleses, Walt Whitman morreu em março de 1892, solitário e tranqüilo numa colônia em Nova Jersey. Havia crescido em Brooklyn, então uma pequena aldeia estabelecida em frente de Nova York, do outro lado do East River. Entre as rochas de sua ilha nativa, lia clássicos gregos, Shakespeare, Hegel, Cervantes, Dante e a Bíblia, sempre “na presença total da natureza, solitário sob o sol, em frente à paisagem ampla e o azul distante do mar.” Desta maneira, cresceu disposto a levar uma vida aventureira. Foi professor numa escola primária, carpinteiro, tipógrafo, jornalista e enfermeiro. Mas acima de tudo, aprendeu a amar a estrada: fez duas longas viagens a pé, a primeira até os Grandes Lagos na fronteira com o Canadá, a outra até New Orleans, ao sul. “Como Adão ao amanhecer/ saio do bosque fortalecido pelo descanso noturno”, escreveria num de seus poemas estradeiros. Nenhum deles, porém, pode se comparar ao Canto da Estrada Aberta:

A pé e de coração leve
eu enverdo pela estrada aberta,
saudável, livre, com o mundo à minha frente,
à minha frente o longo atalho pardo
levando-me aonde eu queria.
(...)
Ó estrada minha e de todos,
o que posso lhe dizer
é que não tenho medo de deixá-la,
por mais que a ame: você me expressa melhor
do que eu expresso a mim mesmo,
você há de ser para mim
mais do que o meu poema.

Ao final do canto traduzido por Geir Campos, Whitman adverte aqueles que pretendem segui-lo e fazer da estrada sua vocação:

Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:
você não acumulará riquezas, assim chamadas,
distribuirá com mão pródiga
tudo o que venha a adquirir ou ganhar,
nem bem chegando à cidade à qual era destinado
dificilmente se há de estabelecer
e ter alguma satisfação
sem que ouça um apelo irresistível
a de novo partir (...)

Outro velho andarilho, contemporâneo de Whitman, está na raiz estradeira da América: o fauno, o wildman Henry David Thoreau, nascido em Concord, Massachusets, (nas proximidades da insignificante e têxtil Lowel, de Kerouac) a 12 de junho de 1817. Aos 28 anos, abandonou a cidade e transferiu-se para o lago de Walden, há uns vinte quilômetros de Concord e lá construiu com as próprias mãos uma cabana, onde viveu durante oito anos e dois meses, “para encurralar a vida a um canto e arrancar dela seu sentido mais íntimo”. Antes, durante e depois da estadia em Walden, Thoreau realizou caminhadas inacreditavelmente longas, e extensas excursões de canoa pelos rios límpidos da região. Deixou textos admiráveis, como Walking:

“Desejo dizer uma palavra em nome da liberdade absoluta, em nome da natureza, em nome da amplidão, que contrastam tanto com a liberdade e a cultura opressivas da cidade. Em todo o decurso da minha vida só encontrei uma ou duas pessoas que compreendiam a arte de caminhar, isto é, de andar a pé – que tinham o gênio, por assim dizer, do sautering, palavra esplendidamente derivada de ‘pessoas vadias que erravam pelo país, na Idade Média, sob o pretexto de irem à la Sainte Terre’, até as crianças exclamarem ‘lá vai um Sainte-terrer’. (...) Os que se deixam ficar em casa, quietos e calados, sempre e sempre, podem ser os maiores errantes, mas o saunterrer não é mais errante do que o rio sinuoso cujo propósito é encontrar o caminho mais curto para o mar. (...) Sou capaz de andar facilmente dez, quinze, vinte, qualquer número de milhas, começando da minha porta, sem parar em qualquer casa, sem atravessar uma estrada exceto nos trechos em que as próprias raposas e doninhas são obrigadas a fazê-lo e, do alto das colinas, posso ver a civilização e suas construções. O homem, seus negócios, a Igreja, o Estado, a escola, o comércio, a agricultura, a política – folgo em ver a insignificância do espaço que ocupam na paisagem. Ah, mas cada vez derrubam-se mais florestas, surgem novas cercas... Temo o dia que há de chegar em que não poderemos caminhar pelas matas sem ter que cruzar por propriedades particulares.”

Os beats amam Thoreau, e Kerouac – ao abandonar a Columbia University – parece ter tomado ao pé da letra uma das muitas frases antológicas deste ultra rebelde: “Quanto mais ar e luz solar em nossos pensamentos, tanto melhor.”

Mais tarde, o espírito estradeiro americano amplia seu raio de ação com a marcha para Oeste, depois capitalizada pelo fascistíssimo princípio do “Destino Manifesto”: a expedição de Lewis e Clark em 1805, a corrida do ouro em 1860, na Califórnia e depois no Alaska, o massacre das tribos selvagens das Grandes Planícies abrem novos espaços para a colonização. Surgem as primeiras grandes estradas continentais americanas: a Bozeman Trail, a Parkman Trail, e os “fios que falam” do telégrafo dividindo o céu límpido da pradaria; as ferrovias do Leste e do Oeste se encontram afinal. O país está unido de costa a costa (apenas o México insiste em atrapalhar um pouco reivindicando a propriedade de seus territórios, o Texas, O Novo México, o Colorado e a Califórnia – uma guerra rápida e fácil termina com essa questiúncula) “Pobre México, tan lejos de Dios, tan cerca de Norte América.”

Bem, e as novas estradas se povoam de andarilhos, garimpeiros, ratos do deserto, aventureiros sem escrúpulos, jogadores, prostitutas, trapaceiros, xerifes corruptos, índios bêbados, pistoleiros imbatíveis, guias intrépidos, especuladores de terra, jornalistas abelhudos, militares obtusos (“Índio bom é índio morto”), religiosos beatos, vendedores de elixir, caçadores de peles e toda essa fauna impressionante que Hollywood reduziu a estereótipos medíocres – mas que, é claro, existiram de fato e foram estradeiros de primeira.

Na virada do século, os velhos ratos mochileiros começaram a ser enxotados das cidades que ajudaram a fundar, “mas que se tornaram tão prósperas que já não precisavam mais de mochileiros”. Na segunda década do século, a agricultura altamente mecanizada, a concentração de terras e o capitalismo selvagem expulsam milhares de habitantes de Oklahoma e demais estados do Meio Oeste de suas propriedades. Eles partem para a Califórnia formando filas imensas pelas estradas. As fronteiras do estado são fechadas. Lá ninguém entra (pelo menos não sem grana). Muitos colhem algodão e maçãs em troca de um prato de comida.

Por mais indigna que seja uma época, sempre sobram homens íntegros nela: Woody Guthries e Joe Hill são apenas dois exemplos. Bound for Glory, a emocionante biografia de Guthrie (em cujo violão estava escrito à faca: “Essa máquina mata fascistas”) oferece um retrato bastante fiel deste período sombrio, quando o Oeste foi tomado por andarilhos, desempregados e marginais em geral, viajando sobre os trens de carga, enfrentando a fúria dos guardas-freios e dos fura-greves. Na mesma época, as garotas da indústria têxtil de Chicago entram em greve. Seu lema: “We want bread. And roses too.” Várias foram assassinadas pela polícia. Uma tragédia americana, como tantas. A Depressão de 29 aumentou ainda mais a população de estradeiros americanos – a maioria, claro, sem muita convicção na nova atividade.

John Steinbeck, que se declarava andarilho na alma, foi um escritor que penetrou no mundo destes vagabundos de beira de estrada, enxovalhados por um modelo econômico exclusivista. Criou clássicos admiráveis: Ratos e Homens, Tortilla Flat, Cannery Row e a saga atormentada da família Joad em Vinhas da Ira. Em Viajando com Charley (ed. Record, 1979), Steinbeck diz:

“Quando eu era muito jovem e sentia o impulso intenso de estar em algum outro lugar, as pessoas mais velhas me garantiam que a maturidade haveria de curar tal anseio. Quando, com o passar dos anos, pude ser classificado como um homem amadurecido, o remédio prescrito foi a meia-idade. Então, depois dela, afirmaram que mais alguns anos abrandariam minha febre. Agora, aos 58 anos, talvez a senilidade possa dar um jeito. O fato é que nada funcionou. Os quatro apitos roucos da chaminé de um navio ainda deixam meus cabelos arrepiados. O ruído de um jato, um motor esquentando, o som do galope de um cavalo trazem de volta o antigo estremecimento. Em outras palavras: não melhorei nada. Uma vez vagabundo, sempre vagabundo. Receio que a doença seja incurável...”

Portanto (e isso sem citar os naturalistas, caminhantes e escritores John Muir e John Burroughs, o super ídolo beat Jack London, o desertor de navios baleeiros Herman Melville, o jornalista revolucionário John Reed, o implacável assassino de animais selvagens Ernest Hemingway e centenas de outras estrelas norte-americanas com um pé ou uma gota de sangue na estrada), quando os beats arrombaram a cena literária na América, a estrada estava longe de ser uma novidade. Antes deles, porém, ela nunca fora tão importante no ato da criação artística. A não ser talvez, no Japão dos séculos XVI e XVII.

A estrada mística

Luas e sóis são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e que vão são viajantes também. Aqueles que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre em viagem, e seu lar é lá onde essas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos morreram pelos caminhos e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou idéias contínuas de meter o pé na estrada (...) Os espíritos do caminho me fizeram inúmeros sinais, e eu descobri que não podia continuar trabalhando e tinha que partir.

Matsuó Basho (1644-1694) foi o mais célebre dos poetas andarilhos do Japão, e autor do hai-ku inigualável sobre a rã que salta numa antiga cisterna, quebrando o silêncio e provocando uma profunda ressonância. Neste trecho de Sendas de Oku, o mais famoso de seus relatos de viagem, traduzido por Paulo Leminski (publicado pela Brasiliense numa biografia de Basho feita para a coleção Encanto Radical), o venerável poeta fala nos “homens de antigamente”, também estradeiros em busca de um satori (o súbito despertar), como ele próprio.

Essa frase já é suficiente para comprovar que a estrada mística seguida por Gary Snyder, o budista beat da poesia americana, não chega a ser propriamente uma novidade. Por outro lado, poucas vidas beats são tão inovadoras e límpidas como a de Snyder, poucas estradas tão luminosas e repletas de visões, revelações e espíritos mágicos. Ecologista, profundo conhecedor da ecologia tribal dos índios da América, lunático zen, Snyder traçou uma longa e serena trajetória pelas rotas de seu vasto país. Jamais ficou à margem de freeways vorazes onde roncam os motores todos da América: seu caminho foi trilhado entre as florestas do Noroeste, pelas montanhas ao redor de San Francisco (“velhas rotas percorridas por Jack London, há meio século”) nos vales soberbos de rios cristalinos fluindo murmurantes entre rochas recobertas de musgos e liquens e, por duas vezes, esse caminho levou-o ao Japão para o treinamento formal zen. Ao contrário das descrições kerouakianas das periferias da América industrial, os poemas de Snyder transmitem outra vibração:

Terminamos de abrir a última parte da trilha lá pelo meio dia
Lá em cima, no topo do espinhaço
Seiscentos metros acima da enseada
Alcançamos a passagem, e seguimos
Além do bosque de pinheirais brancos,
No ar puro e fresco,
Comemos truta fria e frita
Sob sombras cintilantes
Uma região de gamos gordos
E eles vieram até o nosso acampamento
Na sua própria trilha
Eu segui a minha até aqui
Dez mil anos.

Depois de ter seguido uma estrada bastante semelhante à de Kerouac (provavelmente por influência de seu amante fortuito Neal Cassady), Allen Ginsberg teve o que chamou de “iluminação auditiva de Blake”. Deu então uma guinada em direção a essa estrada mística de Snyder e ela o levaria a fazer uma viagem de dezoito meses pela Índia e países do Oriente bem como aproximar-se bastante do zen-budismo. Em busca da iluminação, porém, o maior poeta beat não se limitou a seguir apenas esse caminho.

A estrada da droga

Na verdade, Allen Ginsberg figura entre os beats mais estradeiros. Sua vida e obra estão repletas de poemas, trechos & visões da estrada. O antológico Long Poem of these States, por exemplo, foi escrito segundo o próprio poeta “num fluxo onírico autoconsciente de carros ônibus aviões, pelas estradas destes Estados”. Seus diários narram também passagens por quase todos os países do mundo. E antes da fama, Ginsberg costumava pegar muitas caronas pela América.

Viajar com a cabeça feita sempre foi uma de suas predileções. Por isso, sempre curtiu as drogas da estrada: haxixe no Marrocos, ópio na Índia, peiote e cogumelos no México, maconha em qualquer lugar, yage no Peru, ácido na Grã-Bretanha e daí pra fora.

Seguindo os passos do mais drogado de todos os beats, William Burroughs, Ginsberg esteve no Peru em 1963 em busca do yage, o poderoso cipó alucinógeno dos índios do alto Amazonas. A correspondência alucinada que os dois mantiveram foi publicada pela L&PM na coleção Alma Beat. Ela mostra os sacrifícios que Burroughs era capaz de fazer pela sensação de experimentar um novo barato. Na sua alma – beat, sem dúvida – Burroughs não é exatamente o que se pode chamar de estradeiro. Mas em busca das droga (com preço barato e qualidade acima de suspeitas) e de sexo (homossexual), passou boa parte de seus jovens anos girando pelo planeta: fixou residência no México e no Marrocos onde obtinha ambos com facilidade. Seus livros, porém falam muito mais em suas estações no inferno do que dos caminhos que percorria para penetrar nelas...


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Esse texto é um excerto da obra Alma Beat, capítulo 5, "Beats e a estrada", de autoria de Eduardo Bueno. Publicado em 1984 pela L&PM, infelizmente encontra-se fora de catálogo.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 2

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Em 1978, tive a sorte de fazer uma viagem de carona de Nova York a San Francisco (depois, é claro, de ter lido On the Road nos bancos amarelos ensolarados de um parque no outono azul de Porto Alegre). A grandiosidade da prosa de Kerouac me envolveu como se tudo fosse um filme em três – ou mais – dimensões. Era tudo tão igual, tão real. Os arredores cinzentos desolados sob a névoa poluída na periferia de Nova York, prédios meio avermelhados de tijolos à vista com escadas de incêndio, troleibus rangendo na manhã desesperançada, o “insólito vazio fosforescente do túnel Lincoln” e o livro ali, no bolso do meu casaco militar (“I touch your book and feel absurd”). Lembram de Ginsberg, comprando imagens, seguindo Walt Whitman entre carnes no frigorífico, delícias congeladas, frutas de néon e bebês nos abacates? Pois era mais ou menos assim...

Depois de “meses delirando em cima dos mapas”, Jack concluiu que o melhor seria seguir por uma única estrada até Frisco. E se deu extremamente mal, como a absoluta maioria das pessoas que cai na estrada pela primeiríssima vez (oh, aquele trevo na saída de Florianópolis, oito horas de espera, a noite úmida, a chuva fina). Mas depois foi tudo uma interminável sucessão de imensos e loucos caminhões com motores potentes roncando dentro da noite americana, caixeiros viajantes com seus Fords e suas opiniões absurdas e conversas chatas (“um dos maiores tormentos de se viajar de carona é ter que falar com incontáveis pessoas, distraí-las, até que elas se convençam que não cometeram um erro ao ter te apanhado”), cowboys motorizados reacionários, sujeitos muito loucos em caminhonetes caindo aos pedaços com o painel coberto de mapas e barras de chocolate meio derretidas, loiras num cupê (com idade suficiente para serem sua mãe), tortas de maçã em bares de beira de estrada cheios de moscas com lento ventilador de hélice, ônibus Greyhound velozes ondulantes passando como num sonho em direção a cidade na qual você daria tudo para chegar.

E trechos como: “A maior carona da minha vida estava prestes a surgir, um caminhão com uma plataforma atrás, o motorista vinha recolhendo toda e qualquer alma solitária que encontrasse por aquela estrada”. (Stop. Rewind. Remind: A periferia de Istambul – algo como Nova Iguaçu com minaretes, Osasco com mesquitas ou Cachoeirinha repleta de bazares turcos – chuva fina, dia gris – vento soprando na manta hindu lilás – cabelos úmidos, gola de casaco levantada junto ao pescoço – parado em frente a uma vulcanizadora, à beira de uma estrada estreita e esburacada, com o acostamento de terra sujo com graxa e cascas de frutas estranhas – um livro de Thoreau num bolso, uma harmônica noutro – de repente, o imenso caminhão verde escuro range os pneus e pára aos solavancos a uns cem metros de distância – corrida descabelada, mochila com 33 quilos, vermelha, às costas, uns quinze livros dentro – pé no estribo do caminhão; motorista loiro, barbudo, jovem sorridente, mãos enormes, pulsos grossos, costas largas, camiseta de física com botão anti-nuclear, cabeça feita – oh, man, demais: ‘Pra onde você tá indo?’ “Pra Basel, Suíça, mas só te levo até a fronteira com a Iugoslávia.” “Legal, vamo nessa!” E lá fomos nós, e o caminhão, pra completar, tinha um gravador, e fitas de Miles Davis e Doors – cruzando lentamente a Turquia e seus campos de papoula, as ruínas de Tróia – entrando na Grécia e todos nós conversando sobre John Huston e Wim Wenders, e Plotino e Diógenes, o cínico – conquistei claro, a carona até onde queria ir, Veneza – a três mil e oitocentos quilômetros da periferia funesta de Istambul – cruzando as montanhas litorâneas recobertas de neve da Iugoslávia (era novembro) – avançando dia e noite – comendo em bares de caminhoneiros que vinham do Iraque – oh, a maior, mais vibrante e inesquecível carona da minha vida, com um americano chamado Michael, um australiano (Bill?), eu e Ron, motrorista suíço que recolhia toda e qualquer alma solitária naquela estrada desamparada.”

Bem, antes que seja tarde demais: claro que importante mesmo foi o que a estrada significou dentro da ruptura que os beats provocaram no panorama até então europeizado da literatura americana; os críticos (mesmo aqueles que desde o início perceberam a importância do grupo na inovação da linguagem literária deste lado do planeta) sempre consideraram que aquilo que realmente valeu no trabalho dos beats foi a forma “espontânea”, o estilo novo com que eles descreveram sua “omnívora percepção dos fenômenos” nas ocasiões em que eram tomados por aquilo que Ferlinghetti chamou de “Febre da Observação” (e isso geralmente acontecia, não por acaso, quando eles estavam justamente na estrada). Mas a estrada como coisa em si, o ato de estar ou cair na estrada sempre foi visto como um fenômeno menor por aqueles que gostam de desvendar um pouco dos aspectos literários do riquíssimo universo beat. Pois bem, o que eu estou a fim de fazer neste texto um tanto desarticulado é justamente o oposto: uma Ode à estrada Aberta, um cântico àquela permanência às vezes absurdamente longa nos acostamentos do asfalto; um elogio à vagabundagem à beira dos caminhos. Algo, aliás, que possui raízes bastante profundas na tradição de rebeldia norte-americana.

Antes de cavoucar nessas raízes históricas, porém, quero terminar o papo sobre Kerouac e sua estrada. E, infelizmente, a conversa acaba de jeito melancólico (como o final de On the Road e de sua própria vida). A última grande viagem de Jack pela América foi no verão de1960, para encontrar-se com Lawrence Ferlinghetti em San Francisco e tratar da publicação do seu Book of Dreams. Em Chicago, apanhou o Califórnia Zephyr, um trem expresso, comprando uma cabine só para si, com sanduíches e café preparados por sua mãe Gabrielle, a Memére. Já bastante abatido pelo álcool, com úlcera estomacal, diarréia e problemas circulatórios, Kerouac não saiu da cabine por três dias e noites. Imaginava como ficariam surpresos os garotos que agora liam On the Road ou Dharma Bums se vissem o quão confortavelmente ele viajava. “Eles devem pensar que eu tenho eternos 26 anos, mantenho o rosto voltado para o vento e para a chuva, sempre escalando montanhas ou pedindo carona à beira de estradas. Sequer imaginam que tenho quase 40, moro com minha mãe e estou à beira de um colapso físico e mental”, escreveu em Big Sur, um relato amargurado.

E já essa primeira parte é dedicada à “estrada dos loucos”, não dá pra deixar de falar em Neal Cassady. Filho de “um dos bêbados mais trôpegos da Larimer Street” de Denver, Neal passou a infância em becos imundos, esmolando na esquina das grandes avenidas e entregando a grana para o pai, que jazia atirado entre garrafas estilhaçadas, cobertores em farrapos em ruas estreitas sem saída na parte baixa do centro de Denver. Aos seis anos, depôs num tribunal para livrar o velho do xadrez. Segundo Kerouac, Neal era “o cara perfeito para a estrada, já que nasceu na estrada quando seus pais estavam passando por Salt Lake City, 1926, num calhambeque caindo aos pedaços.”.

Em 1943, depois de fugir de vários reformatórios, essa “nova espécie de Santo Americano”, fez sua primeira grande viagem. E nas páginas de On the Road ele conta tudo: “Eu trabalhava na lavanderia Nova era, em Los Angeles, aí falsifiquei meus papéis e fui até o autódromo de Indiana, que ficava a uns três mil quilômetros, com a determinação expressa de assistir a clássica corrida de Memorial Day, pedindo carona de dia e roubando carros à noite pra ganhar tempo.” E depois: “No outono seguinte, aos 17 anos, refiz o mesmo percurso para assistir o jogo entre Notre Dame e Califórnia em South Bend, Indiana – e tinha apenas a grana para a entrada, nem um centavo a mais, e não comi absolutamente nada na ida e na volta, a não ser o pouco que consegui mendigar de todos os tipos malucos com os quais ia cruzando pela estrada, e das putas também. Fui o único sujeito em todos os Estados Unidos da América que se sujeitou a tamanhas dificuldades somente para assistir um jogo de baseball.”

Mais tarde, Neal pôde percorrer com mais conforto (mas não menos demência) as estradas da América: conseguiu comprar alguns carros, como o lendário e flamante Hudson 49 de uma das viagens de On the Road, ou o Cadillac que ele e Jack deveriam levar de Denver a Chicago (e realmente levaram, só que o reduziram a escombros – “mais parecia uma bota enlatada do que uma limousine flamejante; pagara o preço da noite), ou o velho Ford modelo 1937 com as portas amarradas por uma corda, no qual ambos viajaram para o México na primavera de 1950.

Maior motorista de todos os tempos (“Cody, como qualquer outro motorista que dirigia por aquelas estradas cheias de buracos e tremendamente perigosas, apoiava o cotovelo na janela e, mais do que ninguém dava a impressão de sentir-se particularmente calmo, tranqüilo e à vontade atrás do volante, com seu pescoço grosso, musculoso, erguido e eficiente – como são os pescoços dos grandes motoristas de ônibus – e era assim que eu o via enquanto olhava por cima de seu ombro para a estrada que à noite mostra apenas uma pequena parte de si mesma”, escreveu Kerouac no sublime Visions of Cody sendo que Cody Pomeroy,claro, é Neal Cassady e o livro, a obra suprema da prosa “espontânea” de Jack), Neal continuou na estrada mesmo depois que Kerouac careteou de vez.

Tornou-se chofer do ônibus mais alucinado de todos os tempos: o ônibus pintado com a bandeira dos Estados Unidos no qual viajavam o escritor Ken (Um estranho no ninho) Kensey e seus Merry Pranksters, além do conjunto Greatful Dead, dando concertos gratuitos e promovendo coloridíssimos happeanings, nos quais aproveitavam para distribuir ácido para todos os participantes, graciosamente.

No dia 4 de fevereiro de 1968, pouco antes de completar 42 anos, Neal Cassady foi encontrado estendido à beira dos trilhos de trem, no deserto mexicano. Misturara (propositadamente?) uma dose descomunal de álcool e anfetaminas. Quando o encontraram, “era puro espírito já.” Foi uma morte bastante diferente daquela que, setenta e seis anos antes levara o maior poeta da América.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os beats e a estrada, by Eduardo Bueno. Parte 1

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Depois do último post sobre o Kerouac resolvi mergulhar ainda mais na literatura beat e já li tanta coisa interessante que nem sei por onde começar. E tudo tem tanto a ver com a proposta do Odepórica que me dá vontade de ficar o dia inteiro lendo, escrevendo, viajando.... muito bom mesmo, mas é preciso manter um foco, paciência, então vou começar com um texto que vou postar em três partes, um texto muito gostoso de ler – e muito visual, você irá perceber.

O autor: Eduardo Bueno, jornalista e escritor gaúcho, que carrega no currículo a belezura de haver traduzido em 1984, junto com A. Bivar o clássico On the road, nosso Pé na estrada. E pensar que o Brasil demorou tanto tempo para ler Kerouac, um espanto isso. Para nossa sorte e comodidade, Bueno é apaixonado pela cena beat e você encontrará muita coisa traduzida por ele na literatura beat publicada aqui pela L&PM.

A obra: Alma beat: ensaios sobre a geração beat, editada no inverno de 1984 pela L&PM, claro, uma coletânea com artigos de vários escritores, que cito a seguir porque merecem: Antonio Bivar, Cláudio Willer, Eduardo Bueno, Leonardo Fróes, Pepe Escobar, Reinaldo Moraes e Roberto Muggiati. Todos com textos muito originais, com fotos e breves biografias dos autores da geração beat. Foríssima de catálogo, uma pena, o jeito é sebar. Recomendadíssima para os amantes da literatura beat.

Na estrada da beatitude

“Qual a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada da droga, qualquer estrada... Há sempre uma estrada em algum lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância.” (Neal Cassady)

Visões da América. Refinarias fumegando sob estrelas opacas da noite industrial, água oleosa de rio poluído sem peixes refletindo o céu rubro do entardecer, longas retas de estradas desertas conduzindo em direção a montanhas purpúreas que pertencem a outros estados, imensos céus azuis cristalinos com nuvens brancas silenciosas acima das macieiras carregadas, garota loira gorda de jeans montada num cavalo marrom no acostamento ensolarado à beira da estrada onde uma enorme jamanta vermelho metálico passa levantando poeira e agitando os tufos de capim do deserto escaldante; velhos restaurantes de beira de estrada com a grelha gordurosa fritando hamburgers, e bacon, e ovos sob luz de néon esverdeada na noite cálida do sul da Califórnia; ratos percorrendo caminhos de terra nos fundos de um posto de gasolina onde cães assassinos rosnam por trás de cercas de arame farpado; vagabundos maltrapilhos tomando café numa lata junto a uma fogueira próxima aos trilhos do trem ao lado de um imenso silo amarelo de zinco; luzes e sirenes de viaturas policiais brilhando/zumbindo no silêncio morto da noite como se estivessem fugindo de algum crime inconfessável; um índio parado ao lado de uma máquina de fliperama numa estação rodoviária com o piso recoberto de tickets, baganas e saliva (provocando aquela melancolia que só mesmo as rodoviárias poderiam possuir), andarilhos desamparados de rosto fino e nariz aquilino cruzando e tornando a cruzar o país – para o sul no inverno, rumo ao norte no verão – carregando um pequeno pedaço de papel amassado com a imagem de Santa Teresa num dos bolsos da mochila. Policiais de óculos escuros e botas reluzentes e rosto macilento aguardando soturnos, sombrios e insondáveis em postos fronteiriços palitando os dentes no calor abafado do meio-dia; um grupo de índios Omaha, pequenos e mirrados, prostados à beira da estrada, com olhos fixos e vazios, acocorados sob a chuva fina, perdidos na imensidão descolorida, sem ter para onde ir ou o que fazer...

Eis aí o que buscavam os beats em sua peregrinação: visões da América ao longo dos caminhos, estradas e trilhas. “Todas essas caronas, todo esse sacolejar ferroviário, todos esses regressos eternos à América!” Longas loucas cenas americanas que pareciam estar ali à espera desde sempre, à margem da super-freeway rasgando o coração industrial de alguma grande cidade da costa Leste, ao lado de extensas estradas de duas pistas cruzando desertos de areia e artemísia, nas trilhas secundárias e tortuosas entre montanhas de pico nevado.

Um bando de garotos inquietos, universitários de saco cheio, intelectuais avessos aos gabinetes e seu imenso país continental com um apelo irresistível: “Toda aquela terra crua e rude se esparramando numa única, inacreditável e elevada vastidão até a Costa Oeste, e toda aquela estrada seguindo em frente, e todas as pessoas sonhando nessa imensidão enquanto a estrela do entardecer vai caindo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria...” profetizava Jack Kerouac no final nostálgico, melancólico de On the road, ao pensar em Dean Moriarty, e também no velho Dean Moriarty (o pai que ele e Neal “Dean” Cassady jamais encontraram), ambos perdidos na “pavorosa imensidão da América...”

A estrada dos loucos

Jack, como se sabe, não foi o mais estradeiro dos beats. Mas sem dúvida foi quem criou a mística literária da estrada e incorporou-a definitivamente à narrativa beat. Nunca chegou a viajar tanto quanto gostaria (ou quanto geralmente se imagina que tenha viajado). Além das rotas de On the Road (quatro viagens entre julho de 1947 e abril de 1950, pelo grande triângulo Nova York-San Francisco-Cidade do México, com constantes paradas em Denver, Colorado), houve poucas aventuras estradeiras na vida de Kerouac.

Mesmo antes de virar um barrigudo meio reacionário tomando cerveja e vendo TV na casa da mãe em Massachussets, Jack já tinha abandonado as caronas. Até 1959, porém, continuava tomando velhos ônibus de segunda classe, ou utilizando seus passes ferroviários em pesados e escuros trens de carga, (ou às vezes embarcando num cargueiro lerdo em direção ao Marrocos e a Europa). Esteve várias vezes na Califórnia e no México (onde escreveu Doctor Sax, México City Blues, Tristessa e Desolation Angels). Em Lonesome Traveler, descreve sua “viagem épica” até lá, mais de três mil quilômetros num ônibus “que era uma lata velha, alto e frágil, com os bancos de madeira e passageiros de poncho e chapéu de palha com suas cabras ou porcos ou galinhas, avançando aos trancos e solavancos por uma interminável estrada de terra com breves paradas para desentorpecer as pernas nas cabanas do deserto de Sonora onde grandes índias gordas cozinham tortillas em fogões de pedra enquanto eu aproveitava pra fumar um baseado escondido nos fundos das estações rodoviárias, entre os cactus, acocorado no chão poeirento sob o sol abrasador.”

Mas de carona mesmo, Kerouac fez apenas uma grande viagem: a de Nova York a Denver, e a descreve em ínfimos detalhes nos capítulos 2 a 9 de On the Road. Aos 25 anos, de saco cheio da escola (“minha vida de vagabundagem pelo campus tinha completado seu ciclo e já não significava nada para mim”), recém-curado de “uma doença séria, da qual nem vale a pena falar” e com o “sentimento de que tudo estava morto”, Jack encontrou-se pela primeira vez com o já lendário Neal Cassady, de 21 anos, na época “um delinqüente juvenil envolto em mistério” e que tinha larga experiência pelas estradas da América. Das conversações intermináveis pelos túneis, ruas, cais de Nova York, explode em Kerouac o desejo irresistível de finalmente cair na estrada. “Mais tarde ele (Neal) me abandonaria em sarjetas famintas e camas enfermas, mas o que me importava? Eu era um jovem escritor e tudo o que eu queria era cair fora. Em algum lugar, ao longo da estrada, eu sabia que haveria garotas, visões e tudo mais; em algum lugar a pérola me seria ofertada.”

E assim, em julho de 1947, com 50 dólares no bolso, Kerouac caiu fora em direção à dourada Costa Oeste, a seis mil quilômetros de distância. E o que narra então faz bater os corações (estradeiros ou não) ainda hoje, trinta anos depois que o livro foi escrito e quase quarenta depois de suas cenas terem sido vividas.