

Leia: Os mil e um dias: contos orientais. Traduzido para o francês por Pétis de la Croix. Trad. português: Glória Magalhães. Labortexto Editorial: Oficina do Livro, 2001.


(Carol Bruce. Flute player)
(Judith Leyster, Young Flute Player)
(Flute Player by The Gr4 yFox)Então cantei a canção da linda Brigite com o chapéu de palha, o que ela traz na cesta, e como as flores olham para ela, e a trepadeira azul da grade do jardim sente saudades dela, e tudo o que se podia dizer. Ela prestou atenção seriamente e disse que estava bom. E quando lhe contei que estava com fome, ela levantou a tampa de sua cesta e apanhou para mim um pedaço de pão. Como mordi um pedaço e continuei firmemente a andar, ela disse:
“Não se deve comer andando. Uma coisa depois da outra.” Nos sentamos na grama e eu comi meu pão e ela cruzou as mãos morenas em volta da perna e ficou me olhando. “Queres cantar ainda alguma coisa para mim?” – perguntou então, quando terminei. “Quero, sim. Que deve ser?” “Sobre uma moça que está triste porque o amado partiu.” “Não, isso não posso. Não sei como é isso, e a gente também não deve ficar tão triste. Eu só devo cantar canções gentis e alegres, disse meu pai. Vou cantar para ti sobre o cuco ou a borboleta.” “E do amor não sabes nada?” – perguntou ela, então. “Do amor? Ora, claro, isso é o mais bonito de tudo.”
Imediatamente comecei a cantar sobre o raio de sol que ama as papoulas vermelhas e como ele brinca com elas e fica cheio de alegria. E sobre a fêmea do tentilhão, quando espera por ele e quando ele vem, ela voa para longe e parece amedrontada. E continuei a cantar sobre a menina dos olhos castanhos e sobre o rapaz que chega, canta e por isso recebe um pão de presente; mas agora ele não quer mais pão, ele quer um beijo da donzela e quer olhar os seus olhos castanhos, e continua a cantar tanto tempo e não termina, até que ela começa a rir e lhe fecha a boca com seus lábios.
Aí Brigite debruçou-se e fechou-me a boca com os lábios e fechou os olhos e tornou a abrir e eu olhei as estrelas castanho-douradas bem perto, eu próprio estava refletido ali dentro e um par de brancas flores do prado também.
(Eanger Irving Couse. Flute Player, 1930)
(Hendrik Terbrugghen. The flute player, 1621.)
(James Kitamirike. The flute player)
(Sergei Rubinshtein. Flute player)
Escutei e fiquei bem quieto, não tinha mais nenhuma vontade dentro de mim além da vontade do estranho. Seu olhar repousou sobre mim, tranqüilo e com uma certa bondade triste, e seus olhos cinzentos estavam cheios da dor e da beleza do mundo. Ele me sorriu, e então achei nele um coração, e pedi na minha dor:
“Ah, vamos voltar! Sinto medo aqui na noite e queria retornar para onde posso encontrar Brigite, ou para a casa de meu pai.” O homem levantou-se e espiou a noite, e sua lanterna iluminou claramente seu rosto magro e firme.
“Para trás não há caminho” – disse sério e amável. “A gente precisa ir sempre para a frente, quando quer penetrar o mundo. E da garota dos olhos castanhos já tiveste o melhor e o mais belo, e quanto mais longe estiveres dela, melhor e mais lindo isso vai se tornar. Ainda assim, segue sempre para onde quiseres, vou te ceder meu lugar no leme!”
Eu estava triste demais, e, entretanto, vi que ele tinha razão. Cheio de saudade pensei em Brigite e na minha terra e em tudo que me fora próximo e luminoso e que me pertencera, e que eu agora havia perdido. Mas queria tomar o lugar do desconhecido e dirigir o leme. Assim devia ser.
Por isso levantei-me em silêncio e fui andando pelo barco até o lugar do leme, e o homem veio em silêncio ao meu encontro, e quando já estávamos perto um do outro, olhou-me firmemente no rosto e entregou-me sua lanterna.
Entretanto, quando me sentei ao leme com a lanterna do meu lado, estava sozinho no barco; percebi isso com profunda estranheza, o homem desaparecera, e, contudo, eu não estava amedrontado, já pressentira isso. Pareceu-me que o lindo dia da caminhada e Brigite e meu pai e minha terra tinham sido apenas um sonho, e que eu era velho e aflito, e que desde sempre e sempre viajava sobre esse rio noturno.
Compreendi que não devia chamar pelo homem e a percepção da verdade atingiu-me como a geada.
Para certificar-me do que imaginava, debrucei-me sobre a água e ergui a lanterna, e do escuro espelho de água um rosto duro e sério me olhou com olhos cinzentos, um rosto velho, sábio, e vi que aquele era eu.
E como nenhum caminho voltava atrás, continuei seguindo sobre a água escura dentro da noite.


Perambulando por um sebo aqui em São Paulo, achei quase que por acaso um livro de contos muito bom de uma escritora que eu só conhecia de nome, Marina Colasanti. Fui pesquisar e descobri que essa autora, de origem ítalo-brasileira, já nasceu com os pezinhos na estrada, e que apesar de viajar muito, escolheu o Brasil para viver e construir seus sonhos. Sorte nossa.
O livro que o destino me pôs nas mãos numa manhã calorosa de um sábado de dezembro tem o sugestivo título de 23 histórias de um viajante e descansava na prateleira de guias de viagem, quando deveria estar na prateleira de contos ou romances, mas quem frequenta sebos adquire um sexto-sentido na hora das buscas por um título; já achei, só para se ter uma ideia, livros de relatos de viagem em seções como culinária, romances, esotéricos, comunicação, geografia, poesia... e acho que se tivesse paciência, ainda encontraria literatura odepórica nas prateleiras de administração e marketing ou engenharia mecânica, vai saber.
E nessa caçada literária, deparei-me com a boa surpresa do dia que foi o texto da Marina. Suas histórias de um viajante são narrativas cheias de poesia e simbolismos, muitos deles, imagino, melhor compreendidos numa segunda ou terceira leitura. Escrevendo como quem costura uma colcha de retalhos, Marina Colasanti começa sua narrativa contando a história de um príncipe que vive num reino cujo castelo se encontra cercado por altas muralhas. Numa manhã um viajante chega a cavalo e, para seguir o seu destino, precisa ultrapassar as fortificações que protegem as terras do príncipe e que lhe impedem de prosseguir caminho.
- Quem bate? – perguntaram.
- Sou um viajante – respondeu. E era verdade, vinha de longe, e longe ia.
- O que deseja?
- Passagem por essas terras.
- E que mais?
- Nada mais.
A seteira foi fechada. Os mensageiros partiram rumo ao castelo. Está desarmado e só quer passagem, foi dito ao príncipe. E o príncipe ouviu sem interesse. É um viajante, foi acrescentado.
A palavra abriu caminho na atenção do príncipe, e era cheia de portas. Um viajante, disse seu pensamento, um homem que anda pelo mundo, um homem para quem o mundo é um leque que se pode abrir.
O príncipe permite que o viajante entre e pernoite no castelo. Durante o jantar, o jovem monarca pede ao viajante para contar algumas das histórias que este certamente deveria haver escutado ou vivenciado em suas andanças. E o viajante contou.
E nesse imaginário medieval, Marina vai narrando, pela boca do viajante, aventuras e situações que nos levam a refletir um pouco mais aqui e ali sobre as múltiplas faces da vida, tanto daquele que viaja, quanto daquele que se isola dentro de suas muralhas, seja por opção, seja por necessidade. A estrutura escolhida pela autora me fez refletir mais uma vez sobre a força que possuem essas narrativas imaginárias de viagem; mesmo após centenas de anos, ainda hoje nos encantamos com esse universo mítico dos viajantes, dos mistérios que carregam, do poder que possuem de transformação não só de si mesmos mas também do outro, se este outro estiver aberto ao novo. Um viajante é um estrangeiro, é um peregrino e é, como sugere Marina, um destino.
E como tenho, mais uma vez, que escolher uma passagem (nesse caso, um conto) para postar aqui no Odepórica, peguei a mais linda, na minha opinião, das histórias desse viajante solitário. Eu, que não conhecia o texto de Marina Colasanti, me encantei com a maneira suave com que ela trabalha as palavras, às vezes beirando à poesia, outras vezes mais misteriosa, meio mulher esfinge... uma preciosidade que procurarei conhecer melhor e convido você leitor e leitora desse blog a fazer o mesmo.
Boa viagem.
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A 23ª história: No caminho inexistente
Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.
O mar estava para sempre gravado na sua memória, disse ele à filha que nunca o havia visto. E contou como podiam ser altas as ondas, e obedientes ao vento. E como, coroadas de espuma, faziam e desfaziam seu penteado. O mar, contou ainda, ocupa nossos olhos por inteiro e, se o vemos nascer, o fim não vemos. O mar sempre se move e sempre está parado. O mar, à noite, veste-se de lua.
O mar pareceu duas vezes belo à menina, pelo que era e pelas palavras do pai. Olhou à sua frente, viu as altas dunas e chamou-as ondas no seu coração. Elas obedeciam ao vento e no alto entregavam-lhe seus cabelos para que os desmanchasse com dedos ligeiros.
Sentaram-se os dois, o pai olhando no escuro o mar que guardava na memória, a filha deixando que o mar de luz sem fim ocupasse todo o espaço do seu olhar. Parado diante dela, ainda assim se movia. E quando a noite chegou, vestiu o cetim que a lua lhe entregara.
Dormiram ali os dois, pai e filha, deitados na areia, sonhando com o que haviam visto. E ao amanhecer seguiram caminho, afastando-se do deserto.
Andaram, que o mundo é vasto. Até que um dia, numa curva do caminho, desembocaram na praia.
O velho, sentindo a areia nas sandálias, alegrou-se, certo de ter chegado ao deserto, talvez o mesmo deserto que atravessara quando jovem.
Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo-se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.
No deserto, disse ainda o pai à filha tentando explicar o mundo sobre o qual não podia fazer perguntas, anda-se sempre em frente porque não há caminhos, e a pegada do pé direito já se apaga quando o pé esquerdo pisa adiante.
Levantaram-se, caminhando. E porque o velho pisava seguro no deserto da sua lembrança, e porque a menina pisava tranqüila no deserto que lhe havia sido entregue pelo pai, seguiram adiante serenos por cima da água que lhes acolhia os pés acarinhando os tornozelos, enquanto suas pegadas se apagavam no caminho inexistente.
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Leia: 23 histórias de um viajante. Marina Colasanti. São Paulo: Editora Global, 2005. A Marina Colasanti tem uma vasta carreira literária, com muitas obras publicadas aqui e acolá. E de tudo há um pouco: contos, crônicas, artigos, ensaios, literatura infanto-juvenil e poesia. Dos vários prêmios que recebeu, quatro Jabutis, pela Câmara Brasileira do Livro.

Leia: A longa viagem de prazer (El largo viaje de placer). Juan José Morosoli. Tradução: Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2009. Se você se interessou em conhecer um pouco mais da obra e da vida de J.J. Morosoli, sugiro a leitura do texto publicado no site de literatura uruguaia de onde tirei as informações para este post: