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domingo, 29 de julho de 2012

História dos dois viajantes

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Quando pensamos no Oriente, em termos literários, possivelmente nos lembraremos dos contos fabulosos de As mil e uma noites. Para quem não se recorda, vale a pena relembrar lendo uma sinopse da obra:

A história conta que Xariar, rei da Pérsia da dinastia dos Sassânidas, descobre que sua mulher é infiel, dormindo com um escravo cada vez que ele viaja. O rei, decepcionado e furioso, mata a mulher e o escravo, convencendo-se por este e outros casos de infidelidade que nenhuma mulher do mundo é digna de confiança. Decide então que, daquele momento em diante, dormirá com uma mulher diferente cada noite, mandando matá-la na manhã seguinte: desta forma não poderá ser traído nunca mais.

Passam-se assim três anos durante os quais o rei desposou e sacrificou inúmeras moças, trazidas à sua presença pelo vizir (equivalente a um primeiro ministro) do reino. Certo dia, quando já quase não havia virgens no reino, uma das filhas do vizir, Xerazade, pediu para ser entregue como noiva ao rei, pois sabia de um estratagema para escapar ao triste fim que alcançaram as moças anteriores. O vizir apenas aceita depois de muita insistência da filha, levando-a finalmente ao rei. Antes de ir, Xerazade diz à irmã, Duniazade, que lhe peça que conte uma história quando for chamada ao palácio do rei.


Xerazade, ao chegar à presença do rei, pede-lhe que permita a vinda de sua irmã, para despedir-se. O rei o permite, e Duniazade vem ao palácio e instala-se na câmara nupcial. Após o rei possuir Xerazade, Duniazade pede à irmã que conte uma história para passar o tempo. Após respeitosamente pedir a permissão do rei, Xerazade começa a contar a extraordinária "História do mercador e do gênio", mas, ao amanhecer, ela interrompe o relato, dizendo que continuará a narrativa na manhã seguinte. O rei, curioso com o maravilhoso conto de Xerazade, não ordena sua execução para poder saber o final da história na noite seguinte. Assim, repetindo essa estratégia, Xerazade consegue sobreviver noite após noite, contando histórias sobre os mais variados temas, desde o fantástico e o religioso até o heróico e o erótico. Ao fim de inúmeras noites e contos, Xerazade já havia tido três filhos do rei, e lhe suplica que a poupe, por amor às crianças. O rei, que há muito havia arrependido-se dos seus atos passados e convencido-se da dignidade de Xerazade, perdoa-lhe a vida e faz dela sua rainha definitiva. Duniazade é feita esposa do irmão do rei, Xazamã. (fonte: Wikipedia)

No prefácio da edição francesa de Os mil e um dias, lê-se que essa obra pode ser considerada por alguns como sendo uma imitação de As mil e uma noites, embora nada confirme essa suposição, uma vez que se ignora qual das duas tenha sido compilada primeiramente.


De Os mil e um dias sabe-se o seguinte: Um dervixe chamado Mocles, superior de um convento mevlevi, famosa ordem sufi islâmica, traduziu para o persa as comédias indianas das quais existe uma versão turca na Biblioteca Nacional da França cujo título é Al farady haad al chidda (A Alegria depois da aflição). Em seguida, transformou as comédias em contos e deu-lhes o título de Hezarich Rouz (Os mil e um dias). Mostrou (isso se passou em 1675) o manuscrito desse trabalho a um estudioso orientalista francês, François Pétis de la Croix e graças a ele a obra foi traduzida para o francês e daí para o resto do mundo.


Em uma antiga nota sobre Os mil e um dias, o autor revela que As mil e uma noites “possuem o objetivo de divertir um sultão por meio de contos para impedi-lo de matar sua mulher que os conta. O objetivo de Os mil e um dias é mais razoável (sic): trata-se de provar a uma princesa predisposta contra os homens que eles podem ser fiéis no amor”.

Neste post, você lerá um dos contos de que mais gostei, que por coincidência traz o relato de dois viajantes e que também foi usado por La Fontaine em uma de suas fábulas. Uma preciosidade, sua leitura abre espaço para boas reflexões filosóficas acerca da vida, da dualidade (no sentido daquilo que possui duas naturezas) pela qual somos influenciados e que muitas vezes implica na tomada de uma decisão importante em algum momento de nossas caminhadas. Prosseguir ou desistir? Às vezes não sabemos: uma parte de nós quer seguir adiante, enquanto outra, mais racional, pede que calculemos os riscos, as perdas e os perigos. Vai da história de cada um, e o certo é que entre as duas opções sempre existirá um meio termo. O segredo para ver se essa é a atitude mais correta é simples: se na vida só optarmos pelos meios termos, sem nunca corrermos os riscos que as jornadas impõem, então é hora de revermos nossas ações: pode ser que na próxima vez encontremos um tesouro que nunca imaginaríamos encontrar porque simplesmente deixamos de dar o próximo passo. Salaam Aleikum!



História dos dois viajantes

Permiti, disse no dia seguinte Sutlymeme, que eu vos conte agora uma pequena história que prova que numa viagem não existem somente os perigos. Furrukhnaz quis ouvir e a escrava falou assim.

Salem e Ganem eram amigos e faziam juntos uma longa viagem. Um dia chegaram a uma montanha muito alta e, contornando-a, encontraram uma fonte cuja água fresca era excelente. Perto da fonte havia um canal, margeado e sombreado por ciprestes, pinheiros e plátanos, no meio de um campo salpicado de flores, o que tornava o lugar ainda mais agradável.

Tudo isso convidava os dois viajantes a parar e descansar um pouco, para se recuperarem do cansaço de um deserto árido que acabavam de atravessar. Escolheram um lugar cômodo, onde sentaram-se sobre a relva.
Depois de algum tempo de descanso, passearam ao redor da fonte e ao longo do canal. Aproximaram-se também de um lugar por onde a água da fonte caía em um grande lago. Em sua margem viram um mármore branco ornado com caracteres de lápis-lazúli tão bem feitos que era fácil perceber a excelência do artesão que os gravara. A inscrição era concebida nos seguintes termos:

“Viajante, que honras estes lugar com tua presença, temos uma habitação magnífica para te receber se quiseres ser nosso hóspede, mas com a condição de que atravesses este canal a nado, sem temer a profundeza nem a rapidez da corrente. Quando estiveres do outro lado, colocarás sobre teus ombros o leão de mármore que está aos pés da montanhas, e, sem hesitar, o levarás correndo e de um só fôlego até o pico, sem considerar nem os leões que rugem, que poderias encontrar, nem os espinhos que cobrem os caminhos. Depois de executadas essas tarefas, serás feliz para sempre. Não chega ao abrigo quem não caminha. Quem não trabalha, não consegue o que deseja. A luz do Sol preenche todo o universo; os menos delicados e os mais determinados recebem essa luz e suportam os raios mais vivos e mais ardentes.”

Ao terminarem de ler, Ganem disse a Salem:

- Vem, entremos nesse canal e enfrentemos o perigo que nos é proposto. Façamos o esforço, testemos se a promessa dessa inscrição é verdadeira. Tentemos, vejamos o que nos acontecerá.

- Caro amigo, respondeu Salem, não seria muito sensato expor-se a um perigo tão evidente, por causa de um simples escrito que promete uma felicidade bastante incerta. Um homem sensato não gostaria de colocar sua vida em risco por um bem tão imaginário quanto este. Nunca um sábio se engajaria a um perigo presente e visível, por um prazer que só tem aparência. Acredita em mim, mil anos de delícias não valem o sofrimento de expor sua vida um único momento.

Ganem não se deixou convencer por essas máximas.

- Amigo, replicou ele, a paixão de viver ao bel-prazer sem nada arriscar é o precursor de uma vida desprezível e vergonhosa, mas corremos para a glória e felicidade expondo-nos aos perigos. Quem é fraco não experimenta nem a alegria nem o prazer de haver sofrido, e quem teme a dor de cabeça priva-se da doçura do bom vinho. Quem tem coragem não limita sua felicidade, não leva uma vida miserável de privações. O verdadeiro repouso é aquele que se goza quando se é elevado acima dos outros. Não discutamos mais. É tanto por nossa honra como por nosso interesse em não continuar a viagem sem ter subido ao alto dessas montanhas, apesar da corrente rápida, apesar dos leões e dos espinhos. Sofreremos um pouco, mas, depois disso, pode-se acreditar que em recompensa por nossas dores e pelos desertos pelos quais passamos encontraremos belos campos.

- Faze o que quiseres, replicou Salem. Por mim, vejo-me obrigado a repetir que não existe menos loucura em fazer o que desejas, do que em querer viajar por um deserto do qual não se tem certeza de encontrar logo o fim, ou em navegar num mar no qual não se encontra nunca a terra firme. Em qualquer empreendimento que seja, é importante saber qual é a saída, qual o ponto de partida, a fim de não trabalhar inutilmente e não arriscar a vida, que devemos amar mais do que tudo no mundo. Escuta ainda o pensamento de um sábio que diz: “Em qualquer lugar onde tenhas que entrar, não avances nunca o pé sem que antes tenhas sentido firmemente o lugar onde queres colocá-lo, e sem que a abertura por onde tens que sair não seja larga o bastante.”

Além disso, talvez esse escrito não seja muito correto, ou ainda o tenham colocado aí simplesmente para se divertir e para abusar da simplicidade dos idiotas. Talvez ainda a água seja intransponível, e não seja possível chegar à outra margem. Espero que consigas, mas depois da travessia talvez ache o leão de pedra tão pesado que não conseguirá nem mesmo levantá-lo do chão. E se conseguires levantá-lo, tens certeza de poder leva-lo numa única corrida até o alto da montanha? No final de tudo isso, não sabes qual o resultado da tantas dificuldades. Por mim, declaro que não te farei companhia num perigo dessa natureza. O que posso fazer é convencer-te, como estou tentando, a abandonar um intuito tão mal concebido.

Apesar da insistência de Salem, Ganem resistiu, dizendo:

- Não posso ouvir teu pedido, e nada é capaz de me impedir de executar a decisão que tomei. Nem demônios nem espíritos, sejam quais forem, me desviarão com suas sugestões. Sei que não estás ao meu lado nessa viagem. Não queres me seguir. Vejo que não queres fazer isso por mim. Vem ao menos, aproxima-te somente para ver, e acompanha o que vou fazer com tuas rezas e teus votos. Permite que eu te faça lembrar o que disse um poeta: “Sei que não tens temperamento para beber vinho. Não deixes, no entanto, de vir à taberna e nela entrar, para ver os bebedores com o copo na mão”.

Quando Salem viu que Ganem estava irredutível, disse-lhe ainda:

Por essa zombaria, que me ofende, percebo que meus conselhos não te atingem. Não queres desistir de um desígnio que não tem nenhum fundamento. Não me sinto bastante forte para testemunhar a sua execução com meus próprios olhos. Além disso, não tenho curiosidade para ver um espetáculo pelo qual tenho uma repugnância natural. Assim, deixo-te fazê-lo e me afasto de algo que me faria sofrer.

Após dizer essas palavras, pegou seus pertences, despediu-se de Ganem e retomou o caminho.

Assim que ganem ficou sozinho, recuperou-se do que acontecera. Aproximando-se do canal, disse:

- Tenho que mergulhar neste mar para nele perecer, ou para trazer a pérola que espero.

Com essa resolução, jogou-se na água, que era muito profunda e rápida. Mas dominou a situação tão bem que chegou com sucesso à outra margem. Tomou fôlego, pôs o leão de mármore nos ombros e subiu até o alto da montanha num pé só, apesar das dificuldades que encontrou e do peso do fardo, que colocou por terra ao chegar.

Do outro lado, ao pé da montanha, Ganem viu uma linda cidade, cujos arredores, salpicados de casas bem construídas, com grandes jardins, formavam um belo espetáculo. Enquanto estava distraído, considerando a agradável paisagem, o leão de mármore rugiu de forma tão terrível que ecoou por todo o campo e fez a montanha tremer.

Ao ouvirem o grito, os habitantes saíram em multidão e caminharam na direção da montanha, o que deixou Ganem tão admirado quanto o rugido do leão. Os mais importantes e os mais distintos avançavam à frente dos outros. Rendiam profundos louvores a Ganem e lhe faziam grandes cumprimentos, desejando-lhe toda a prosperidade. Em seguida, apresentaram-lhe um belo cavalo ricamente paramentado. Montou atendendo às suas súplicas. Fizeram-lhe cortejo até a cidade, com todo o povo indo adiante. Conduziram-no a um palácio magnífico e fizeram-no banhar-se em água de rosas. Depois disso perfumaram-no com essências de almíscar e âmbar. Vestiram-no com um manto real e o proclamaram rei, prestando-lhe homenagens.

Até certo momento Ganem não considerara extraordinárias as honras que lhe rendiam. Percebia-as como resultado da consideração singular que esse povo teria em relação aos estrangeiros, mas quando viu que o proclamavam rei, perguntou a razão de sua escolha para comandar e reinar.

- Senhor, respondeu um dos chefes, os antigos filósofos deste país colocaram a inscrição que viste na fonte. Ela é um talismã construído sob as constelações e feito segundo as regras dessa arte. Quando algum valente, depois te ter vencido a água a nado, traz ao alto da montanha o leão de mármore (o que só acontece quando o rei deste lugar morre), a cidade. Como Vossa Majestade pôde ver, vem até ele, ao rugir do leão, e o coloca no trono no lugar do antecessor. Faz muitos anos, até mesmo vários séculos, que esse costume está em uso entre nós.

Por essas palavras, Ganem percebeu que todas as desgraças e todos os sofrimentos que passara foram degraus para chegar a essa alta fortuna. Quando as belas ações têm a glória como objetivo, a glória, por sua vez, faz reciprocamente todo o caminho necessário para tornar-se a recompensa.

Dessa aventura, podeis facilmente concluir que só se pode gozar da doçura depois das amarguras. É uma máxima tão antiga quanto o mundo. Podeis encontrá-la em todos os livros da moral.


Leia: Os mil e um dias: contos orientais. Traduzido para o francês por Pétis de la Croix. Trad. português: Glória Magalhães. Labortexto Editorial: Oficina do Livro, 2001.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sonho de uma flauta, by Hermann Hesse

. (Carol Bruce. Flute player)

Se você é daquelas pessoas acostumadas a frequentar sebos, ou mesmo se é das que cultivam o hábito de entrar em livrarias apenas para dar uma olhada descompromissada nos títulos dispostos aleatoriamente pelas bancadas, vai entender bem o que aconteceu comigo outro dia.

Estava dentro de um sebo procurando uma obra fora de catálogo do Osman Lins, um autor que logo iremos conhecer melhor aqui no Odepórica, e ao fuçar as obras dispostas na parte de trás da primeira fileira de livros, achei por acaso uma que me despertou interesse pelo título impresso na lombada: Sonho de uma flauta.

Como estou estudando flauta entusiasticamente nesse ano, tirei o livro da prateleira para ver de que se tratava e me surpreendi quando vi que o autor era ninguém menos do que Hermann Hesse, um escritor que admiro bastante. Fui sentar num banquinho no fundo da livraria para folhear com calma a obra e ali mesmo li o conto que lhe dá o título. Uma preciosidade. “Preciso transcrevê-lo no blog” – pensei, e saí contentão da livraria com minhas aquisições, o Hesse, o Osman, e o Lobato, com sua deliciosa obra D. Quixote das crianças (capa dura, ilustrada e por apenas 3 reais, pode isso?).

Certas obras, pensei depois na volta a casa, parecem que se materializam à nossa frente. O que fazia o alemão do Hermann Hesse ao lado do pernambucano Osman Lins? Seria um sinal? Pode ser, quem sabe, afinal a vida não é mesmo cheia de mistérios? Em comum, as duas obras tratam do tema das viagens, embora, no caso do autor alemão, as viagens são sempre mais metafísicas do que físicas. Em comum, também, as duas obras têm as capas, que são feias de doer, como quase todas as capas de livros dos anos 70, você já reparou nisso? Ou será exagero meu?

Enfim, vamos ao que interessa e já vou avisando: o texto aqui transcrito é longo para os padrões eletrônicos blogais, mas é curtinho em se tratando de livro impresso. Talvez valha a pena imprimi-lo, para ler com calma num momento agradável, quem sabe num parque? Os textos do Hesse são assim, mais contemplativos, pedem uma atenção especial, mas em troca deixam na alma da gente uma sensação gostosa de reencontro com a essência daquilo que somos. Experimente, e se quiser comente depois aqui no blog, que tal? Namastê!

Sonho de uma flauta

(Judith Leyster, Young Flute Player)

“Toma” – disse meu pai, e entregou-me uma pequena flauta de osso – “leva isso e não esqueças teu velho pai, quando alegrares com tua música as pessoas nas terras distantes. Já é tempo de agora veres o mundo e aprenderes alguma coisa. Mandei fazer a flauta para ti, porque não sabes mesmo nenhum outro ofício e só gostas de cantar, Mas pensa também em só tocar sempre canções bonitas e agradáveis, senão seria pena pelo dom que Deus te concedeu.”

Meu querido pai entendia pouco de música, não era um sábio; pensava que eu tinha apenas de soprar a linda flautinha e tudo estaria bem. Eu não queria decepcioná-lo, por isso agradeci, botei a flauta no bolso e me despedi.

Nosso vale me era conhecido até o grande moinho; depois então começava o mundo, e ele me agradou bastante. Uma abelha cansada do vôo pousou na minha manga, e eu a levei comigo, a fim de que no meu primeiro descanso tivesse um mensageiro para mandar de volta, como um cumprimento à minha terra.

Bosques e prados acompanhavam meu caminho, e o rio corria junto, vigorosamente; eu vi, o mundo diferia pouco de minha terra. As árvores e flores, as espigas de trigo e as moitas de avelã falavam comigo, cantei com elas suas canções e elas me compreendiam, exatamente como lá em casa; com isso minha abelha também despertou, subiu devagar até meus ombros, voou e tornou a cruzar duas vezes comigo, com seu zumbido profundo e doce, e então voltou para a minha terra.

Aí apareceu diante do bosque uma mocinha, que carregava uma cesta no braço e um largo e sombrio chapéu de palha na cabeça loura.

“Bom dia” – disse-lhe eu – “aonde vais?” “Devo levar a comida aos ceifeiros” – disse ela, e caminhou ao meu lado. “E para onde queres ir ainda hoje?” “Vou para o mundo, meu pai me mandou. Ele acha que devo tocar flauta para as pessoas, mas isso ainda não sei direito, preciso primeiro aprender.” “Bem, bem. E que sabes então direito? Alguma coisa é preciso saber.” “Nada de especial. Sei cantar canções.” “Que canções?” “Canções de todo tipo, sabes, para a manhã e para a tarde e para todas as árvores e bichos e flores. Agora, por exemplo, eu poderia cantar uma bonita canção de uma mocinha que vem saindo do bosque e traz comida para os ceifeiros.”

“Podes fazer isso? Então canta um pouco!” “Sim, mas como te chamas mesmo?” “Brigite”.

(Flute Player by The Gr4 yFox)

Então cantei a canção da linda Brigite com o chapéu de palha, o que ela traz na cesta, e como as flores olham para ela, e a trepadeira azul da grade do jardim sente saudades dela, e tudo o que se podia dizer. Ela prestou atenção seriamente e disse que estava bom. E quando lhe contei que estava com fome, ela levantou a tampa de sua cesta e apanhou para mim um pedaço de pão. Como mordi um pedaço e continuei firmemente a andar, ela disse:

“Não se deve comer andando. Uma coisa depois da outra.” Nos sentamos na grama e eu comi meu pão e ela cruzou as mãos morenas em volta da perna e ficou me olhando. “Queres cantar ainda alguma coisa para mim?” – perguntou então, quando terminei. “Quero, sim. Que deve ser?” “Sobre uma moça que está triste porque o amado partiu.” “Não, isso não posso. Não sei como é isso, e a gente também não deve ficar tão triste. Eu só devo cantar canções gentis e alegres, disse meu pai. Vou cantar para ti sobre o cuco ou a borboleta.” “E do amor não sabes nada?” – perguntou ela, então. “Do amor? Ora, claro, isso é o mais bonito de tudo.”

Imediatamente comecei a cantar sobre o raio de sol que ama as papoulas vermelhas e como ele brinca com elas e fica cheio de alegria. E sobre a fêmea do tentilhão, quando espera por ele e quando ele vem, ela voa para longe e parece amedrontada. E continuei a cantar sobre a menina dos olhos castanhos e sobre o rapaz que chega, canta e por isso recebe um pão de presente; mas agora ele não quer mais pão, ele quer um beijo da donzela e quer olhar os seus olhos castanhos, e continua a cantar tanto tempo e não termina, até que ela começa a rir e lhe fecha a boca com seus lábios.

Aí Brigite debruçou-se e fechou-me a boca com os lábios e fechou os olhos e tornou a abrir e eu olhei as estrelas castanho-douradas bem perto, eu próprio estava refletido ali dentro e um par de brancas flores do prado também.

(Eanger Irving Couse. Flute Player, 1930)

“O mundo é muito bonito” – disse eu – “meu pai tinha razão. Mas agora quero te ajudar a carregar isso para que cheguemos até tua gente.” Tomei-lhe a cesta e continuamos a andar, seu passo combinava com o meu e sua alegria com a minha, e o bosque suave e fresco falava da montanha em volta; eu nunca havia caminhado com um prazer tão grande. Durante longo tempo cantei alegremente, até que tive de parar de tanta satisfação; eram coisas demais que rumorejavam e contavam-se sobre o vale e a montanha e a grama e a folhagem e o rio e a floresta.
Aí pensei: se pudesse compreender e cantar ao mesmo tempo essas mil canções do mundo, das gramas e flores e gente e nuvens e tudo, da floresta velha e do pinheiral e também de todos os bichos, e além disso ainda canções dos mares longínquos e montanhas, e as das estrelas e luas, e se tudo isso pudesse ressoar e cantar em mim ao mesmo tempo, então eu seria o querido Deus, e a cada nova canção deveria ficar no céu como uma estrela.

Mas enquanto eu assim pensava, estava silencioso e maravilhado, porque aquilo antes nunca me ocorrera, Brigite parou e segurou a alça da cesta.

“Agora devo ir lá em cima” – disse ela – “lá no campo está nossa gente. E tu, para onde vais? Vens comigo?” “Não, ir contigo não posso. Preciso ir pelo mundo. Obrigado pelo pão, Brigite, e pelo beijo; vou pensar em ti.”.

Ela segurou a cesta de comida, e sobre a cesta seus olhos novamente se inclinaram para mim em sombras castanhas, e seus lábios prenderam-se aos meus e seu beijo foi tão bom e carinhoso, que quase fiquei triste de tanto prazer. Então gritei rápido: “Vai com Deus” – e marchei apressadamente pela estrada acima.

A moça subiu devagar a montanha, e sob as folhas de faia penduradas na orla do bosque, parou e olhou na minha direção, e quando lhe acenei com o chapéu, ela tornou a balançar a cabeça e desapareceu silenciosamente, como uma miragem, para dentro da sombra do bosque.

(Hendrik Terbrugghen. The flute player, 1621.)

Eu, porém, continuei tranquilamente meu caminho, e estava imerso em meus pensamentos, quando a estrada dobrou numa curva. Lá havia um moinho e, perto, um barco na água; dentro estava sentado um homem sozinho e parecia apenas esperar por mim, pois quando tirei o chapéu e entrei no barco, este, em seguida, começou a andar e deslizou rio abaixo. Eu estava sentado no meio do barco, e o homem atrás, no leme, e quando lhe perguntei para onde íamos, ele levantou os olhos cinzentos e encarou-me com um olhar velado;

“Para onde quiseres” – disse, com uma voz abafada. “Rio abaixo e para o mar, ou para as grandes cidades, podes escolher. Tudo me pertence.” “Tudo te pertence? Então és o rei?” “Talvez” – disse ele. “E, ao que me parece, tu és um poeta, não? Então canta-me uma canção de viagem!”

Fiz um esforço, estava com medo do homem grisalho e sério, e nosso barco deslizava rápido e silencioso pelo rio. Cantei sobre o rio, que carrega o barco e reflete o Sol e rumoreja mais forte nas margens dos rochedos e completa alegremente seu passado.

O rosto do homem continuou impassível, e quando prestei atenção, ele balançava a cabeça como um sonhador. Então, para meu espanto, ele próprio começou a cantar, e também cantava sobre o rio, e sobre a viagem do rio através dos vales, e sua canção era mais bela e poderosa que a minha, mas tudo soava diferente.

O rio, tal como ele o cantava, vinha como um destruidor vacilante pela montanha abaixo, escuro e selvagem; furioso, ele se sentia dominado pelos moinhos, coberto pelas pontes, detestava cada navio que precisava carregar, e, em suas ondas e nas longas e verdes plantas aquáticas, rindo, balançava os corpos brancos dos afogados.

Isso tudo não me agradou, e entretanto era tão belo e cheio de um acento invisível, que fiquei completamente desorientado e angustiado e me calei. Se era certo o que esse velho, sensível e inteligente cantor, cantou com sua voz velada, então todas as minhas cantigas não passavam de tolices e brincadeiras bobas de criança. Então o mundo, por causa delas, não era bom e luminoso como o coração de Deus, e sim escuro e triste, mau e sombrio, e quando os bosques murmuravam, não era de alegria, e sim de martírio.

Seguimos adiante, e as sombras foram longas, e de cada vez que comecei a cantar, meu canto soava menos claro, e minha voz tornava-se mais baixa, e cada vez o cantor desconhecido respondia com uma canção que tornava o mundo ainda mais enigmático e penoso, e me tornava ainda mais tímido e triste.

(James Kitamirike. The flute player)

Minha alma doía e eu me arrependia de não ter ficado em terra, perto das flores ou da linda Brigite, e para sentir-me seguro no crepúsculo que crescia, recomecei a cantar e cantei na luz vermelha da tarde a canção de Brigite e de seu beijo.

Aí o crepúsculo começou, e eu emudeci, e o homem no leme cantou, e ele também cantava sobre o amor e a alegria do amor, sobre olhos castanhos e azuis, sobre lábios vermelhos e úmidos, e era lindo o que ele cantava, cheio de dor, sobre o rio escurecido, mas em sua canção também o amor se tornara sombrio e temível, e um segredo mortal, no qual os homens aflitos e feridos tocavam com seu desejo e sua saudade, e com o qual se martirizavam e se matavam uns aos outros.

Escutei e fiquei tão cansado e aflito, como se já estivesse viajando desde muito tempo e houvesse passado por grande miséria e desgraça. Vinda do estranho, sentia cair sobre mim uma torrente silenciosa e fria de tristeza e receio, a penetrar no meu coração.

“Pois bem, a vida não é o que há de mais elevado e mais belo” – gritei afinal amargamente – “e sim a morte. Então te peço, rei triste, canta-me uma canção da morte!”

O homem no leme cantou somente sobre a morte, e cantou melhor do que eu jamais ouvira cantar. Mas a morte também não era o que havia de mais elevado e mais belo, nela também não se encontrava consolo. A morte era vida e a vida era morte, e elas estavam entrelaçadas numa perpétua e furiosa luta de amor, e isso era a última coisa e o sentido do mundo, e dali vinha um clarão, que parecia querer valorizar toda miséria, e de outro lado vinha uma sombra que perturbava toda alegria e beleza e as envolvia na escuridão, a alegria ardia mais íntima e bela, e o amor queimava mais profundamente nessa noite.

(Sergei Rubinshtein. Flute player)


Escutei e fiquei bem quieto, não tinha mais nenhuma vontade dentro de mim além da vontade do estranho. Seu olhar repousou sobre mim, tranqüilo e com uma certa bondade triste, e seus olhos cinzentos estavam cheios da dor e da beleza do mundo. Ele me sorriu, e então achei nele um coração, e pedi na minha dor:

“Ah, vamos voltar! Sinto medo aqui na noite e queria retornar para onde posso encontrar Brigite, ou para a casa de meu pai.” O homem levantou-se e espiou a noite, e sua lanterna iluminou claramente seu rosto magro e firme.

“Para trás não há caminho” – disse sério e amável. “A gente precisa ir sempre para a frente, quando quer penetrar o mundo. E da garota dos olhos castanhos já tiveste o melhor e o mais belo, e quanto mais longe estiveres dela, melhor e mais lindo isso vai se tornar. Ainda assim, segue sempre para onde quiseres, vou te ceder meu lugar no leme!”

Eu estava triste demais, e, entretanto, vi que ele tinha razão. Cheio de saudade pensei em Brigite e na minha terra e em tudo que me fora próximo e luminoso e que me pertencera, e que eu agora havia perdido. Mas queria tomar o lugar do desconhecido e dirigir o leme. Assim devia ser.

Por isso levantei-me em silêncio e fui andando pelo barco até o lugar do leme, e o homem veio em silêncio ao meu encontro, e quando já estávamos perto um do outro, olhou-me firmemente no rosto e entregou-me sua lanterna.

Entretanto, quando me sentei ao leme com a lanterna do meu lado, estava sozinho no barco; percebi isso com profunda estranheza, o homem desaparecera, e, contudo, eu não estava amedrontado, já pressentira isso. Pareceu-me que o lindo dia da caminhada e Brigite e meu pai e minha terra tinham sido apenas um sonho, e que eu era velho e aflito, e que desde sempre e sempre viajava sobre esse rio noturno.

Compreendi que não devia chamar pelo homem e a percepção da verdade atingiu-me como a geada.

Para certificar-me do que imaginava, debrucei-me sobre a água e ergui a lanterna, e do escuro espelho de água um rosto duro e sério me olhou com olhos cinzentos, um rosto velho, sábio, e vi que aquele era eu.

E como nenhum caminho voltava atrás, continuei seguindo sobre a água escura dentro da noite.



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Leia: Sonho de uma flauta e outros contos. Hermann Hesse. Editora Record.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Histórias de um viajante, por Marina Colasanti

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Perambulando por um sebo aqui em São Paulo, achei quase que por acaso um livro de contos muito bom de uma escritora que eu só conhecia de nome, Marina Colasanti. Fui pesquisar e descobri que essa autora, de origem ítalo-brasileira, já nasceu com os pezinhos na estrada, e que apesar de viajar muito, escolheu o Brasil para viver e construir seus sonhos. Sorte nossa.

O livro que o destino me pôs nas mãos numa manhã calorosa de um sábado de dezembro tem o sugestivo título de 23 histórias de um viajante e descansava na prateleira de guias de viagem, quando deveria estar na prateleira de contos ou romances, mas quem frequenta sebos adquire um sexto-sentido na hora das buscas por um título; já achei, só para se ter uma ideia, livros de relatos de viagem em seções como culinária, romances, esotéricos, comunicação, geografia, poesia... e acho que se tivesse paciência, ainda encontraria literatura odepórica nas prateleiras de administração e marketing ou engenharia mecânica, vai saber.

E nessa caçada literária, deparei-me com a boa surpresa do dia que foi o texto da Marina. Suas histórias de um viajante são narrativas cheias de poesia e simbolismos, muitos deles, imagino, melhor compreendidos numa segunda ou terceira leitura. Escrevendo como quem costura uma colcha de retalhos, Marina Colasanti começa sua narrativa contando a história de um príncipe que vive num reino cujo castelo se encontra cercado por altas muralhas. Numa manhã um viajante chega a cavalo e, para seguir o seu destino, precisa ultrapassar as fortificações que protegem as terras do príncipe e que lhe impedem de prosseguir caminho.

- Quem bate? – perguntaram.
- Sou um viajante – respondeu. E era verdade, vinha de longe, e longe ia.
- O que deseja?
- Passagem por essas terras.
- E que mais?
- Nada mais.
A seteira foi fechada. Os mensageiros partiram rumo ao castelo. Está desarmado e só quer passagem, foi dito ao príncipe. E o príncipe ouviu sem interesse. É um viajante, foi acrescentado.
A palavra abriu caminho na atenção do príncipe, e era cheia de portas. Um viajante, disse seu pensamento, um homem que anda pelo mundo, um homem para quem o mundo é um leque que se pode abrir.


O príncipe permite que o viajante entre e pernoite no castelo. Durante o jantar, o jovem monarca pede ao viajante para contar algumas das histórias que este certamente deveria haver escutado ou vivenciado em suas andanças. E o viajante contou.

E nesse imaginário medieval, Marina vai narrando, pela boca do viajante, aventuras e situações que nos levam a refletir um pouco mais aqui e ali sobre as múltiplas faces da vida, tanto daquele que viaja, quanto daquele que se isola dentro de suas muralhas, seja por opção, seja por necessidade. A estrutura escolhida pela autora me fez refletir mais uma vez sobre a força que possuem essas narrativas imaginárias de viagem; mesmo após centenas de anos, ainda hoje nos encantamos com esse universo mítico dos viajantes, dos mistérios que carregam, do poder que possuem de transformação não só de si mesmos mas também do outro, se este outro estiver aberto ao novo. Um viajante é um estrangeiro, é um peregrino e é, como sugere Marina, um destino.

E como tenho, mais uma vez, que escolher uma passagem (nesse caso, um conto) para postar aqui no Odepórica, peguei a mais linda, na minha opinião, das histórias desse viajante solitário. Eu, que não conhecia o texto de Marina Colasanti, me encantei com a maneira suave com que ela trabalha as palavras, às vezes beirando à poesia, outras vezes mais misteriosa, meio mulher esfinge... uma preciosidade que procurarei conhecer melhor e convido você leitor e leitora desse blog a fazer o mesmo.
Boa viagem.

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A 23ª história: No caminho inexistente

Ia a filha muda guiando o pai cego quando, depois de muito caminhar, chegaram ao deserto. E sentindo o pai a areia nas sandálias, acreditou ter chegado ao mar e alegrou-se.

O mar estava para sempre gravado na sua memória, disse ele à filha que nunca o havia visto. E contou como podiam ser altas as ondas, e obedientes ao vento. E como, coroadas de espuma, faziam e desfaziam seu penteado. O mar, contou ainda, ocupa nossos olhos por inteiro e, se o vemos nascer, o fim não vemos. O mar sempre se move e sempre está parado. O mar, à noite, veste-se de lua.

O mar pareceu duas vezes belo à menina, pelo que era e pelas palavras do pai. Olhou à sua frente, viu as altas dunas e chamou-as ondas no seu coração. Elas obedeciam ao vento e no alto entregavam-lhe seus cabelos para que os desmanchasse com dedos ligeiros.

Sentaram-se os dois, o pai olhando no escuro o mar que guardava na memória, a filha deixando que o mar de luz sem fim ocupasse todo o espaço do seu olhar. Parado diante dela, ainda assim se movia. E quando a noite chegou, vestiu o cetim que a lua lhe entregara.

Dormiram ali os dois, pai e filha, deitados na areia, sonhando com o que haviam visto. E ao amanhecer seguiram caminho, afastando-se do deserto.

Andaram, que o mundo é vasto. Até que um dia, numa curva do caminho, desembocaram na praia.

O velho, sentindo a areia nas sandálias, alegrou-se, certo de ter chegado ao deserto, talvez o mesmo deserto que atravessara quando jovem.

Sentaram. O deserto, disse o pai à menina, é filho dileto do sol. E a menina olhando à frente, viu os raios deitando na superfície, partindo-se, rejuntando-se, mosaico de sol, e sorriu. Os pés afundam no deserto, acrescentou o pai, e ele acaricia nossos tornozelos. A menina soltou sua mão da dele e foi molhar os pés, deixando que a água lhe acariciasse os tornozelos. O deserto, disse ainda o pai, é plano como um lençol ao vento, sem montanhas, ondeando nas costas das dunas. A menina correu o olhar pela linha do horizonte que nenhuma montanha interrompia, viu as ondas, e em seu coração chamou-as dunas.

No deserto, disse ainda o pai à filha tentando explicar o mundo sobre o qual não podia fazer perguntas, anda-se sempre em frente porque não há caminhos, e a pegada do pé direito já se apaga quando o pé esquerdo pisa adiante.

Levantaram-se, caminhando. E porque o velho pisava seguro no deserto da sua lembrança, e porque a menina pisava tranqüila no deserto que lhe havia sido entregue pelo pai, seguiram adiante serenos por cima da água que lhes acolhia os pés acarinhando os tornozelos, enquanto suas pegadas se apagavam no caminho inexistente.

*
Leia: 23 histórias de um viajante. Marina Colasanti. São Paulo: Editora Global, 2005. A Marina Colasanti tem uma vasta carreira literária, com muitas obras publicadas aqui e acolá. E de tudo há um pouco: contos, crônicas, artigos, ensaios, literatura infanto-juvenil e poesia. Dos vários prêmios que recebeu, quatro Jabutis, pela Câmara Brasileira do Livro.

domingo, 29 de novembro de 2009

A longa viagem de prazer, by Juan José Morosoli

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Você já comprou algum livro ou cd apenas por ter gostado da capa, do encarte, ou do título da obra? Às vezes eu faço isso, até mesmo pelo prazer da surpresa e nem sempre me arrependo. Na minha coleção de cds, por exemplo, uns trinta por cento foram adquiridos “no escuro”, quase sempre, admito, títulos oferecidos em bancas promocionais, do tipo qualquer coisa por nove e noventa. Acho isso um jogo divertido, pena o bolso não permitir lances mais altos.

Estava caminhando pela Paulista e numa banca de jornal, num daqueles totens que vendem livros de bolso, um pequeno exemplar me fez parar abruptamente em frente à banca: na capa, uma foto meio apagada de um campo de cereais, um céu nublado de um azul claro acinzentado e ao fundo, na linha do horizonte, um pequeno agrupamento de árvores e nada mais do que isso. Em letras grandes e negras, o título: A longa viagem de prazer. O preço de uma revista. Comprei na hora.

Juan José Morosoli, o autor dessa pequena coletânea de contos nasceu no pueblo de Minas, no Uruguai em 1899 e faleceu em 1957. Publicou uma dezena de obras, entre poemas e peças de teatro e pouca coisa há sobre ele na internet, mas o pouco que se consegue saber faz com que tenhamos a curiosidade de conhecer melhor o seu trabalho.

Morosoli foi um especialista no gênero denominado conto curto e sua principal preocupação foi a de retratar os seres anônimos marginais que viviam nos pueblos uruguaios, seres viventes, como ele os denominou, os quais enxergava, em suas humildes condições, uma “grandeza elementar”. Em suma, Morosoli foi um escritor social que se empenhou em sua arte a dar uma identidade àqueles que, afastados da vida moderna, eram ignorados pelo resto da sociedade, uma condição que nós brasileiros também conhecemos muito bem. “Não sou um literato – do qual Deus me livre e guarde – senão simplesmente alguém que põe no papel um pouco do drama de cada homem humilde”, escreveu Morosoli.

Pelo que se percebe, Juan José Morosoli assumiu o compromisso, na sua escrita, de ser uma espécie de porta-voz dos humildes (ou um revelador, como nota Pablo Rocca no posfácio da obra), cabendo-lhe a função de acompanhar, em seus processos mentais, aqueles que são incapazes de mostrar por si mesmos as dimensões de seu espírito; observador minucioso, legou ao mundo a geografia física e humana de sua terra. E como poucos, conseguiu tratar de questões profundas como a solidão e a morte sem o apelo fácil das emoções baratas e superficiais, provavelmente porque ao escrever sobre elas, sentiu um pouco da dor que sentem aqueles que estão fadados a uma existência anônima e solitária.

Fazendo jus ao lema do Odepórica, escolhi dessa vez um relato de viagem imaginário, onde você poderá ler um dos contos mais bonitos dentre os nove que compõem essa coletânea. Não foi o que mais me comoveu, apesar de ter-me encantado com sua narrativa singela, com seu leve humor e melancolia, num equilíbrio emocional que nos cativa de primeira. Se pudesse, teria elegido aquele que, até o momento, foi o conto mais triste que já li na vida e que se chama Solidão. Como será que pode haver tanta beleza na tristeza?

Mas como nosso escopo aqui é falar de viagem, então nada melhor do que um conto que trate especificamente deste tema. E esse conto, por acaso, é o que dá título à coletânea: A longa viagem de prazer. Buen viaje.

A longa viagem de prazer
Si usted quiere ser un escritor, tiene que andar.


Tertuliano ia dar partida no caminhão quando Aniceto chegou.
- Venho te cumprimentar – disse – e desejar que o desfrutes com saúde.
Tertuliano agradeceu os bons votos do amigo e contou, pela centésima vez, como se tornara proprietário do caminhão.
- Era o último número da rifa. O Índio insistindo e eu dizendo que não. Aí chegou o Bruno. Ele me devia um peso, que eu tinha dado por morto há muito tempo. O Índio ficou com o dinheiro e apontou meu nome. E não é que deu? A sorte é fogo. Quando ela quer, sempre dá um jeito.
- Sorte e morte escolhem seu consorte – sentenciou Aniceto.
E ali estava Tertuliano com seu caminhão. Fazia tempo que desejava ter um. Era um desses sonhos que as pessoas vão acalentando para justificar o dia a dia. E um sonho que se torna realidade é uma coisa muito linda.
Aniceto caminhava ao redor do veículo, olhando-o com curiosidade.
- Estou examinando em detalhes – comentou. – Acho que está precisando de uma boa pintura.
Sim, Tertuliano já notara e concordou:
- Está mesmo. Vai levar duas demãos de colorado e uma bandeira em cada lado.
Já o via pintado, rodando velozmente pela estrada.
- Já pensaste? Esse louco pintadinho, andando por aí?
Aniceto fez um esforço e também o viu em sua imaginação.
- A questão – disse – é que não ponhas esse louco a correr, podes acabar de cabeça para baixo.
- Sou dos que acreditam – respondeu seriamente Tertuliano – que o melhor é uma marcha regular. Nem caracol nem andorinha. Sempre fui partidário da moderação, e se algum dia tiver uma empresa, motorista que correr eu boto na rua.
- É um favor que lhe fazes, ele é capaz de se matar.
Calaram-se um minuto, fizeram cigarros e logo Aniceto perguntou:
- Quantos caminhões são uma empresa?
- Se a empresa é pequena, talvez três. Se é grande, qualquer quantidade.
- Era o que eu pensava – disse Aniceto.
Seguiram conversando e Tertuliano revelou que pretendia fazer uma longa viagem, de puro prazer, para conhecer o mundo e nada mais.
- Uma longa viagem?
- Sim, talvez até Rocha.
- Rocha é longe?
- Acho que sim, pois é lá que nasce o sol (*) . E o sol tem que nascer longíssimo... Esta é a informação que posso te dar.
Aniceto calou-se um instante e depois perguntou humildemente:
- Não te conviria levar um ajudante?
Tertuliano considerou que um proprietário de caminhão se rebaixaria um pouco se ele mesmo tivesse de lavar o veículo, trocar a água do radiador e juntar lenha para o assado, e respondeu:
- Pode ser que te leve.
*
O caminhão, um Chevrolet 1929, não estava bem de pintura – já o sabia Tertuliano -, mas estava pior de luz. Um dos faróis fora fabricado com uma lata de óleo, o vidro preso com arame. O outro era “aquele que o Índio sempre ia botar e não botou”. Os pneus estavam gastos, com as lonas à mostra. Mas o principal, o motor, funcionava cada vez melhor, “porque os motores de antigamente são melhores que os de hoje”.
- De longe – confirmou Aniceto.
Tertuliano pintou seu caminhão de colorado, com bandeira nos costados. Pintou-as ele mesmo. Quando o caminhão estava parado, pareciam muito malpintadas, mas em movimento eram bonitas. E além disso muito estranhas.
- De que país são – tinha perguntado Aniceto.
Displicentemente, Tertuliano respondera: -
- Não sei se haverá algum país com essas bandeiras.
Também comprou um farol enorme, com um aro de bronze largo, de quatro dedos – um farol francês, disseram -, e o instalou bem no meio do radiador.
Com essas melhoras, o caminhão ficou pronto.

*
Aquela foi, talvez, a mais bela madrugada do mundo. Chegaram no mercado, compraram pão, carne para assar, e partiram muito antes do nascer do sol.
Tinham rodado mais de hora quando Tertuliano anunciou:
- Vou parar.
- Estamos indo como anda o figurino – disse Aniceto.
- Nunca entendi essa gente que anda ligeiro – disse Tertuliano. – O bom é ir devagar, descer, fumar um cigarro e ver o que ficou para trás.
- O que ficou para trás?
- Claro, pois quem está dirigindo só vê o que está na frente. O negócio é ver tudo, e um dia te surpreendes contando pros amigos tudo aquilo que viste.
Ergueu a cabeça para ver mais longe e respirou fundo.
- Que ar! É porque vem desta quantidade de campo.
- Muito campo e nenhuma alma - disse Aniceto.
Tertuliano estava – como era lógico, pois era dono do caminhão – muito acima da ignorância do companheiro. Considerou necessário ilustra-lo sem diminuí-lo e o tratou de “você”.
- Veja bem, Aniceto, a população aí existe, você pode acreditar. Está longe, mas está aí.
Aniceto olhou para a estrada e perguntou:
- Rocha está longe?
Tertuliano sorriu piedosamente.
- Longe quer dizer longe. E perto, perto. São duas coisas diferentes. Perto quer dizer uma bobagem... e longe – pensou um pouco – quer dizer um mistério.
E para esclarecer melhor, perguntou:
- Você sabe o que é um mistério?
- Sim – disse o outro -, um mistério é uma coisa estranha... uma coisa misteriosa...
- É isso aí.
E continuaram fumando, enquanto a paisagem ia-se tornando nítida à medida que o sol subia. E foi para o sol, precisamente, que Tertuliano falou:
- Dentro de dois ou três dias vamos te ver nascer, tigre velho.

*
Chegaram na cidade. Andaram por algumas ruas e pararam numa praça. Sentaram-se num banco para trocar impressões.
- Considero – disse Tertuliano – que esta é uma cidade que está progredindo, mas te confesso que nada me chamou a atenção.
- E eu só posso concordar – respondeu o outro. – O que viste foi o mesmo que eu vi.
- Antigamente – seguiu Tertuliano -, as cidades não progrediam, era o que dizia meu pai. Todas eram pequenas e as ruas um barral medonho.
- Vai ver que era porque havia muita ignorância. Não achas?
- Pode ser, sim, que tenhas razão.
Passaram a noite numa pensão barata e muito antes da aurora partiram para o Chuy, tomando a estrada que, segundo Tertuliano, terminava justamente “onde terminava o país e começava o Brasil”.
Já perto do fim do caminho encontraram um policial, certamente despertado pelo ruído do caminhão.
- Alto – gritou-lhes.
Eles não ouviram e mantiveram a marcha. O homem correu e tornou a gritar quase no rosto de Tertuliano.
- Parem ou mando bala.
Tertuliano freou o caminhão.
- Pra onde vão e o que levam aí?
- Pra cá mesmo e não trazemos nada – respondeu Tertuliano.
- E o que vêm fazer aqui?
- Ver nascer o sol.
E Aniceto, inocentemente:
- O senhor poderia nos informar onde é mesmo que ele nasce?
- Na delegacia – disse o policial. – Desçam e me sigam.
Mas, pensando que era perigoso ter dois contrabandistas às suas costas, modificou a ordem:
- Desçam e sigam na minha frente.

*
Tiveram de esperar o delegado para que revistasse o caminhão e os interrogasse. Só no meio da manhã terminou a investigação e eles foram liberados.
Na rua, consideraram a situação. Ficariam mais um dia e uma noite esperando ali, sem conhecer ninguém, sem ter com que se distrair? Justamente ali, onde tinham sido afrontados?
- Não – disse Tertuliano -, o sol que me desculpe. Por mim que ele nasça onde quiser, eu não espero.

*
Já estavam em casa. Acabavam de aquentar a água para o mate.
- Hermano – disse Aniceto -, fizemos uma linda viagem, mas vimos pouca coisa, não achas?
- Não. As viagens só começam depois que a gente volta. Te digo isso eu, que uma vez fui a Montevidéu e só voltando, quando comecei a contar pros outros, me dei conta de que aquilo que eu tinha visto era uma coisa bárbara!


(*) O Departamento de Rocha, a leste do Uruguai, tem um brasão cuja legenda é muito popular no país: Aqui nasce o sol da pátria. (N.T.)

Leia: A longa viagem de prazer (El largo viaje de placer). Juan José Morosoli. Tradução: Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2009. Se você se interessou em conhecer um pouco mais da obra e da vida de J.J. Morosoli, sugiro a leitura do texto publicado no site de literatura uruguaia de onde tirei as informações para este post: