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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: Uma caminhada na floresta, by Bill Bryson

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Imagine uma rota de caminhada bem grande. Aliás, imagine uma trilha absurdamente grande, cujo percurso ultrapasse os três mil quilômetros de uma ponta a outra, o que equivaleria à distância de Curitiba a Natal, por exemplo. Ou então, só para você ter uma noção do quão cansativa deve ser a aventura, pense em percorrer o Caminho de Santiago, a rota completa desde os Pirineus aos cafundós da Galícia, duas vezes. Ida e volta.

Mas não termina aí não, camarada. Imagine que nessa trilha você terá muitas subidas, perambeiras, muitas montanhas cricris pela frente, algumas delas entre as mais altas do território. Ah, sim, e para dar um toque de aventura, imagine que a qualquer momento você poderá dar de cara com um urso, que tal? E bem na hora do almoço – o dele, é claro. Já imaginou?

Pois o Bill Bryson, um autor estadunidense muito atrevido, não se contentou em imaginar como seria essa trilha doida não. Ele simplesmente resolveu encarar o lance. E olha que nem era tão jovem assim, à época do empreendimento. Contava com 44 anos, estava fora de forma e acima do peso.


Quase que no último momento, às vésperas de cair na estrada, um amigo dos tempos do colégio topou acompanhá-lo. Pior que ele em tudo: mais gordo, menos preparado, sem grana e ex-alcoólatra, ou seja, aquilo que os americanos costumam chamar (mui grosseiramente) de “loser”, um fracassado. Katz, seu nome, a quem o livro é dedicado, pode até ser um desajustado, mas na narrativa do Bill é ele quem faz toda a diferença.

Uma caminhada na floresta: redescobrindo os Estados Unidos pela Trilha dos Apalaches é um dos livros mais divertidos que você irá ler dentre tantos bons títulos da literatura odepórica. Tem tudo na medida certa: informações interessantes, suspense, humor (quase sempre negro, o que é melhor ainda) e um ritmo narrativo que não tropeça em nenhum momento. O autor parece ser o tipo de cara com quem você não hesitaria em passar algumas horas bebendo num bar, rindo de suas aventuras e de seus perrengues.

E o que faz com que nos sintamos próximos do Bill é o fato de ele possuir um senso crítico muito raro de se encontrar em relatos de aventura, onde via de regra o narrador se vê (ou tenta fazer com que você o sinta) como um herói ou como uma vítima frente às adversidades encontradas pelo caminho. Nem um, nem outro, o Bill é uma pessoa tão comum quanto qualquer outra que você conheça e é isso o que faz dele alguém tão diferente. Esquisito, né?




E daí que o livro não começa perdendo tempo. O Bill já nos introduz na trilha botando medo, anunciando que o lance não é para amadores e amadoras não. Sei que é feio rir da desgraça alheia, mas fica difícil evitar, porque nem verdade parece. Estou falando de alguns pequenos relatos que o Bill ouviu ou leu quando começou a pesquisar sobre a Trilha dos Apalaches. Veja só que horror:





Quase todos com quem falei tinham alguma história horripilante para contar sobre um amigo ingênuo que partira para a trilha com grandes esperanças, botas novas, e voltara aos trancos e barrancos dois dias depois, com um lince agarrado na cabeça ou com sangue pingando de uma manga sem braço, murmurando “Urso” com voz rouca, antes de desmaiar.



(...) Coisas literalmente inimagináveis poderiam acontecer a você naqueles lugares. Ouvi a história de um homem que saiu à noite de sua barraca para fazer xixi e foi atacado violentamente por uma coruja míope – a última vez que viu seu escalpo, ele pendia das garras da ave, compondo uma silhueta graciosa contra a luz da lua – e a de uma jovem que foi acordada por uma comichão sinuosa na barriga, espiou dentro do saco de dormir e viu uma cobra venenosa aninhando-se no quentinho entre suas pernas.



Ouvi quatro relatos separados (sempre contados com um risinho de satisfação) de campistas e ursos compartilhando a mesma barraca durante alguns momentos confusos e animados; de gente que, surpreendida durante uma escalada por uma tempestade, evaporava abruptamente, atingida por um raio (“Não sobrou nada dele, só uma marca de queimado”); de barracas esmagadas por árvores, ou jogadas em precipícios pela correnteza produzida pela chuva e que voavam para vales distantes, ou varridas pela parede líquida de uma inundação repentina; de inúmeros excursionistas cuja última experiência foi um tremor de terra e um pensamento desnorteado: “E agora, que porra está acontecendo?”.



Deu pra sentir o que vem pela frente, não? E esses pequenos excertos que você acabou de ler aparecem logo na segunda página, que é pra não restar dúvidas quanto aos imprevistos – se é que podemos chamar essas tragédias de imprevistos – que aguardam os aventureiros/as da Trilha dos Apalaches. Como meu lado masô está menos reprimido hoje, aqui diante desse computador enquanto o sol brilha lindamente do lado de fora desse dia em que o inverno deu uma trégua, não resisto a transcrever outras passagens torturantes que também vão satisfazer o leitor e a leitora masôs:

Depois, havia todas as doenças que espreitavam do mato – infecção intestinal por Giardia lamblia, encefalomielite eqüina, tifo exantemático, síndrome de Lyme, infecções por Helicobacter pylori, Ehrlichia chaffenis, equistossomose, brucelose e desinteria bacilar, para dar apenas uma amostra. A encefalomielite eqüina, causada pela picada de um mosquito, ataca o cérebro e o sistema nervoso central. Se você tiver muita sorte, pode passar o resto de sua vida numa cadeira com um babador no pescoço, mas em geral ela mata. Não há cura conhecida.

Não menos interessante é a síndrome de Lyme, provocada pela mordida de um carrapato de cervo menor que uma cabeça de alfinete. Se não for detectada, pode ficar latente no corpo humano durante anos, até que detona um festival de doenças. Trata-se de uma síndrome para quem quer experimentar de tudo na vida: os primeiros sintomas são dor de cabeça, fadiga, febre, tremores, falta de ar, tontura e dores agudas nas extremidades, depois surgem irregularidades cardíacas, paralisia facial, espasmos musculares, danos cerebrais graves, perda de controle sobre as funções corporais e – nenhuma surpresa, diante das circunstâncias – depressão crônica.





Há também a pouco conhecida família dos organismos chamados de hantavírus, que enxameiam a microatmosfera logo acima das fezes de ratos e camundongos e são aspirados pelo sistema respiratório de alguém azarado o suficiente para enfiar o nariz em algum lugar perto deles – deitando-se, por exemplo, num lugar por onde ratos infectados acabaram de passar.

Em 1993, um único surto de hantavírus matou 32 pessoas no Sudoeste dos Estados unidos, e no ano seguinte a doença fez sua primeira vítima na trilha, quando um caminhante foi infectado após dormir num “abrigo infestado de roedores”. (Todos os abrigos da trilha estão infestados de roedores.) Entre os vírus, com certeza somente o responsável pela raiva, o Ebola e o HIV são mais letais. De novo, não há cura.

Por fim, tratando-se dos Estados Unidos, há sempre a possibilidade de um assassinato. Pelo menos nove excursionistas – o número exato depende da fonte que você consultar e de como você define um excursionista – foram mortos ao longo da trilha desde 1974. Duas jovens morreriam enquanto eu estava por lá.

Mas vamos deixar essa temática deprê prá lá, que a minha intenção não é a de afastar meus parcos leitores desse mal-ajambrado blog. Pé-de-pato, mangalô, três vezes e que nada disso aconteça com a gente em nossas caminhadas por aí.



É claro que o Bill Bryson colocou tudo nesses termos com a intenção de dar à Trilha uma aura ainda mais aventureira, como se os seus três mil e tantos quilômetros já não bastassem para nos deixar com a boca aberta e o queixo bem caído. Encarar esse drama pede doses generosas de espírito aventureiro e, sinto informar, uma também generosa conta bancária, porque essa trilha é impraticável aos aventureiros pés de chinelo, a começar pelo alto custo dos equipamentos e pelos meses de afastamento do trabalho, se o viajante ainda estiver na ativa.

Parece que o que não falta são obras documentais sobre a Trilha dos Apalaches; o autor relata que comprou uma caríssima coleção intitulada Guias da Trilha dos Apalaches, composta por onze pequenos livros e “59 mapas de diferentes tamanhos, estilos e escalas, cobrindo toda a trilha, da montanha Springer ao monte Katahdin”. (veja o mapa da trilha abaixo)

Acho que eu disse que não transcreveria passagens como as anteriores sobre os percalços da longa rota, de modo que para seu desapontamento (ou alívio, vai saber), vou pular o capítulo em que o Bill discorre longamente sobre ataques de ursos, não tão raros na Trilha dos Apalaches segundo ficamos sabendo em seu relato. Mas não consigo evitar um momento de humor negro (meu tipo de humor predileto); é uma passagem onde Bill responde à pergunta, absurda embora plausível, de como reagiria caso quatro ursos invadissem seu acampamento, um fato ocorrido de verdade e documentado em uma obra sobre os ataques desses animais gigantescos. É sua praia? Então anote o nome da obra: “Ataques de ursos: suas causas e como evitá-los”, de um professor universitário canadense chamado Stephen Herrero. Diz aí, Bill, o que você faria se topasse com quatro ursos no acampamento?



“Que diabos eu faria? Ora, eu morreria, é claro. Literalmente, me borraria até morrer. Iria estourar meu esfíncter como uma língua-de-sogra – ouso dizer que com um apito festivo – e sangraria até ter uma morte imunda em meu saco de dormir.”

Nojento, não? Mas o Bill tem esse lado escatológico peculiar que eu simplesmente adoro. Prossigamos. No capítulo 2 ficamos conhecendo Stephen Katz, o amigo da juventude em Iowa, terra natal de Bill, e com quem já havia perambulado pela Europa um par de décadas atrás.



Katz, dono de uma personalidade apatetada, traz ao relato e à viagem de Bill um colorido indispensável a toda e qualquer aventura. É o tipo de cara sem noção de nada, desencanado, às vezes meio melancólico, outras vezes radiante de felicidade (com coisas simples como poder assistir na TV de um motel de estrada a um capítulo de Arquivo X, “o melhor seriado de todos os tempos”) e, acima de tudo, companheiro fiel e destemido, sem nunca perder a pose frente às agruras da jornada. Um contraponto perfeito à personalidade mais equilibrada de Bill. Se fôssemos migrar o relato de Bill para os quadrinhos, ele seria o Mickey e Katz, o Donald.



Embora a narrativa do autor seja linear, vez ou outra ele sai da trilha e gasta algumas linhas divagando sobre peculiaridades que sempre têm alguma relação com a viagem pelos Apalaches; a começar pela trilha propriamente dita, que ficamos sabendo foi terminada formalmente no ano de 1937, com a abertura de um trecho de três quilômetros nas florestas do Maine. Obviamente, o traçado original sofreu, e continua sofrendo, constantes modificações ao longo das décadas. Hoje a Trilha dos Apalaches não é a mais longa trilha pedestre do mundo, embora continue sendo a mais ilustre. (perde por pouco para as trilhas da Crista do Pacífico e da Divisória Continental, no Oeste americano).



Não dá para falar de trilhas sem falar de florestas, certo? No capítulo 4 Bill nos diverte falando delas e sua opinião me pareceu muito interessante e peculiar:

As florestas são fantasmagóricas. Independentemente da ideia de que possam esconder animais selvagens e sujeitos armados e geneticamente desafiadores que atendem pelo nome de Zeke ou Festus, há algo intrinsecamente sinistro nelas – uma coisa inefável que o faz pressentir uma atmosfera de perdição e de fim potencial a cada passo, deixando-o profundamente consciente de que você está fora de seu meio e precisa manter as orelhas em pé.



Embora diga para si mesmo que é ridículo, você não consegue afastar por completo o sentimento de que está sendo observado. Quer ficar calmo – é apenas mato, pelo amor de Deus -, mas na verdade está mais apreensivo do que um xerife covarde com o revólver na mão. Todo ruído súbito – o estalido de um galho, o barulho de um veado em fuga – faz você girar assustado e conter um pedido de clemência.



Depois disso ele divaga um pouquinho mais e chama Thoreau (Henry David Thoreau, autor do clássico Walden) de cagão, (bem, não usou exatamente esse termo, mas a ideia foi exatamente essa), presunçoso e tedioso, mas isso é a opinião do Bill, que Deus o perdoe. Prossegue no parágrafo seguinte citando Daniel Boone:



Mas mesmo homens muito mais durões e afinados com o mundo selvagem do que Thoreau ficavam sóbrios e sensatos diante de sua ameaça estranha e palpável. Daniel Boone, que não só lutava com os ursos como tentava namorar as irmãs deles, descreveu as regiões meridionais dos Apalaches como “tão agrestes e horríveis que é impossível contemplá-las sem terror”. Se Daniel Boone fica apreensivo, você sabe que está na hora de tomar cuidado.

E eu que pensava que Daniel Boone fosse tão real quanto o Zé Colméia me vi surpreso com a citação acima. Vivendo e aprendendo. Aliás, aprender com Bill faz parte do jogo em sua leitura. Sempre há alguma coisa interessante sobre um fato, algum dado científico, algumas estatísticas pseudo-acadêmicas que parecem surgir por lá como quem diz, “Hey, veja só, relato de viagem também é cultura, você definitivamente não está perdendo seu tempo aqui, amigão!”. O pior (ou melhor) é que é isso mesmo.

Bill e Katz não encontram muitas pessoas as quais possam ser nominadas nesse relato; entretanto, há uma figura que ganha boas páginas de destaque na primeira metade da viagem. Seu nome é Mary Ellen, uma jovem caminhante gorducha, metida e irritante que ganha a seguinte descrição de Bill:



Sei há muito que faz parte dos planos de Deus que eu passe algum tempo com cada uma das pessoas mais estúpidas da face da terra: Mary Ellen era a prova de que, mesmo nas florestas dos Apalaches, eu não seria poupado.

Não, ele não está exagerando nem um pouco ao referir-se desse modo a Mary Ellen, se levarmos em consideração a veracidade dos acontecimentos ocorridos naquela viagem. Para nós, leitores, todas as Mary Ellens são bem-vindas, claro, pois que graça tem uma viagem sem esses tipos estranhos pelo meio do caminho?

Para quem alguma vez já fez longas caminhadas por trilhas, como o Caminho de Santiago ou a Trilha Inca ou as já bem divulgadas por aqui e inspiradas na rota jacobea como os Caminhos do Sol, da Fé, da Luz, das Missões, Passos de Anchieta entre outros tantos, é interessante notar como várias situações vividas por Bill em sua viagem pelos Apalaches fazem parte de um tipo de padrão comum a viagens dessa magnitude (com elementos comuns entre si: a viagem a pé, longa duração, grandes etapas, solidão, sofrimento físico, mudança de valores conforme a viagem avança...).



Depois de cinco dias caminhando e acampando na floresta, relata Bill, “uma estrada asfaltada, o barulho de carros passando e uma casa de verdade podem parecer coisas emocionantes e estranhas”.
Continua:

Só o fato de passar por uma porta, estar dentro de algum lugar, cercado por quatro paredes e um teto, era inusitado. (...) Eu estava começando a aprender que a característica central da vida na Trilha dos Apalaches é a privação, que o ponto essencial da experiência é afastar-se tão completamente das comodidades da vida cotidiana que as coisas mais comuns – queijo pasteurizado, uma lata de refrigerante gelado – o enchem de encanto e gratidão. É uma experiência inebriante tomar Coca-Cola como se fosse a primeira vez e ser conduzido à beira do orgasmo por uma fatia de pão branco. Faz todo o desconforto valer a pena.


Sobre as regras de civilidade, estas também se alteram numa viagem desse porte, onde o mote principal é, e sempre será, o de seguir, seguir, seguir, até onde suas forças permitirem; tomar banho diariamente, assoar o nariz com um lenço descartável, lavar as mãos após usar o banheiro (banheiro?) isso tudo faz parte de um passado muito distante. Um exemplo breve pincelado da narrativa de Bill, quando ele e Katz passam uma noite terrível num abrigo infestado de roedores:



“Nada como uma boa noite de sono, e esta noite não foi nada parecida com uma boa noite de sono”, concluiu, bufando, quando se mexeu. Descobri mais tarde que ele estava feliz porque matara sete camundongos, e sentia-se muito orgulhoso – para não dizer cheio de si, achando-se um gladiador.

Um tufo de pelos e restos de uma coisa cor-de-rosa e carnuda estavam grudados no fundo de seu cantil. Notei quando Katz o levou aos lábios. De vez em quando me perturbava ao perceber – suponho que isso aconteça com todos os excursionistas – o quanto somos capazes de esquecer as regras normais de civilidade quando estamos na trilha. Aquele foi um desses.


Muitas coisas ainda virão pela frente nesse relato, porque, apesar de tudo o que você já leu até aqui, não contei nem um quinto de tudo o que você irá encontrar pela frente caso decida se jogar de cabeça nas 280 páginas da edição brasileira da obra. É tanta coisa legal e divertida que eu mesmo já li esse livro três vezes e sei que voltarei a lê-lo outras tantas. Para finalizar (é claro que não contarei como essa aventura termina) quero transcrever uma passagem em que o autor fala do contraste que sente aquele que sai de um ambiente cheio de energia e sacralizado, como o de uma floresta, e entra no feio e desconectado ambiente metropolitano, profanado e de certo modo destruído pelas mãos do próprio homem. Um insight surpreendente e lindo de Bill Bryson:





Lembro ter lido certa vez sobre alguns índios da Idade da Pedra que viviam na floresta tropical brasileira que nem pensavam que existisse um mundo fora da selva. Eles foram levados para São Paulo e para o Rio e, quando viram os edifícios, os carros e os aviões que passavam, acabaram mijando nas calças, profusamente e em uníssono. Eu tinha alguma ideia de como se sentiram.

É um contraste muito estranho. Quando você está na trilha, a floresta é seu universo, infinito e inteiro. É tudo o que você vivencia, dia após dia. Por fim, é quase tudo o que você consegue imaginar. Você tem consciência, é claro, de que em algum lugar do horizonte existem cidades imensas, fábricas movimentadas, rodovias congestionadas, mas ali naquela parte do país, em que as árvores cobrem a paisagem até onde seus olhos podem ver, é a floresta que dá as ordens.





Mas ao sair da trilha e ir de carro até um lugar qualquer – era isso o que estávamos fazendo – você percebe que tudo não passava de uma grande ilusão. As montanhas e florestas eram apenas um pano de fundo – familiar, conhecido, próximo, não mais altivo ou notável do que as nuvens que corriam rapidamente sobre suas cristas. Aqui, o mundo real estava bem perto de você e era ele quem dava as ordens: postos de gasolina, Wal-Marts, K-marts, Dunkin’ Donuts, Blockbusters, um desfile incessante e hediondo de estabelecimentos comerciais.

Até mesmo Katz ficou nervoso com aquilo. “Putz, como tudo isso é feio”, suspirou, pasmado, como se nunca tivesse visto nada igual, olhei por sobre seus ombros e vi um vasto shopping center com um estacionamento do tamanho de uma pradaria. Concordei. Era horrível. E então, profusamente e em uníssono, mijamos nas calças.

Leia: Uma caminhada na floresta: redescobrindo os estados Unidos pela Trilha dos Apalaches. Bill Bryson. Companhia das Letras, 1999.

Para ir direto à página oficial do Bill Bryson, clique bem aqui

Para descobrir o que o Bill tem feito de bom, outro site dele, mas com foco nas obras. Dê uma espiada clicando aqui

Sites sobre a Trilha dos Apalaches:

www.appalachiantrail.org
www.appalachiantrail.com

segunda-feira, 7 de março de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: O sol também se levanta, by Ernest Hemingway

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Em um dos diálogos iniciais de O sol também se levanta, um dos personagens, Robert Cohn, diz ao narrador, Jake Barnes: “Não me conformo, quando penso que minha vida vai passando tão depressa e não a vivo realmente”. Resposta de Jake: “Ninguém vive com a intensidade que deseja, exceto os toureiros.”

A resposta de Jake ao amigo não aparece de bobeira na conversa, assim como nada na narrativa de Hemingway surge sem um propósito muito bem definido. Os toureiros e as corridas de touro em Pamplona, na Espanha, são a metáfora fundamental a qual caberá ao leitor interpretar para alcançar a profunda sensibilidade do autor nesse romance onde a viagem tem um papel de grande destaque – tanto, que o título costuma aparecer com frequência em listas de obras fundamentais que tratam da temática das narrativas de viagem.

A trama de O sol também se levanta (publicado em 1926) se passa no período do pós-guerra e retrata com fidelidade aquela que ficou conhecida como a “geração perdida”; na literatura, o termo é atribuído a Gertrude Stein (lost generation) que se referia a um grupo de escritores e escritoras norte-americanos (mas também artistas e músicos de jazz) que debandaram para Paris e outros pontos da Europa no final da Primeira Guerra Mundial e início da Grande Depressão americana (Crise de 1929). Entre as personalidades encontramos muita gente de respeito: Ezra Pound, Cole Porter, Mae West, Dorothy Parker, F. Scott Fitzgerald, William Faulkner, Vladimir Nabokov, o Ernest Hemingway, claro, e até o mestre Alfred Hitchcock, entre tantos.
E é em Paris que começa a história que Jake Barnes nos irá narrar. Norte-americano veterano de guerra, Jake vive na capital francesa exercendo a função de correspondente de um jornal americano. Relaciona-se com amigos descolados, todos expatriados na faixa dos trinta e poucos anos: Robert Cohn, um escritor a quem Paris não lhe agradava e que sonhava em viajar à América do Sul; Brett Ashley, uma lady, por quem ambos Jake e Robert são apaixonados; Mike Campbell, o noivo guampudo de Brett e amigo de Jake; Bill Gorton, o amigo taxidermista de Jake que o acompanha em sua viagem à Navarra. Estes são os principais personagens, que em comum carregam toda a falta de perspectiva e desilusões próprias da tal geração perdida.
É difícil traçar em poucas linhas a complexa conduta emocional dos personagens, disfarçada de maneira singular por Hemingway numa aparente maneira simplista de narrar a história. De simples, só a aparência. Todos ali estão sofrendo, e para amenizar suas dores, muito álcool - doses exageradas de bebida, e muitas cenas em bares e cafés, onde nenhuma conversa nunca leva a nada. Há uma passagem na obra que ilustra bem o perfil daquela “geração perdida”:
Você é um expatriado. Perdeu o contato com o solo. Torna-se pernóstico. Ficou estragado pelos falsos padrões europeus. Bebe até cair. Deixa-se obcecar pelo sexo. Passa o tempo conversando e não trabalha. É um expatriado, ouviu? Arrasta-se pelos cafés.
Jake, o narrador, voltou da guerra impotente, apesar de ainda manifestar um comportamento lascivo em relação a Brett; entretanto, seu amor por ela jamais poderá ser consumado e isso acaba com ele, mesmo demonstrando conformidade com sua situação, o que parece ter alguma relação com sua formação católica. A impotência de Jake (partindo de uma perspectiva simbólica) também tem um significado profundo, só percebido com o avançar da leitura: a negação da vida e a aceitação passiva da morte. Voltaremos a isso mais adiante.

Brett, mulher distinta, titulada, não passa de uma sedutora, uma mulher liberal que considera a si própria uma prostituta. De fato, deita-se com qualquer um e não esconde nem do próprio noivo as suas conquistas. E enche a cara pra valer. Deixa os homens loucos, mas para ela tudo não passa de um jogo sexual e o único homem a quem realmente parece amar é Jake, justamente aquele a quem ela jamais conseguirá enfeitiçar.

Robert Cohn, judeu, ex-lutador de boxe e escritor ruim é a ovelha negra do grupo. Sua preocupação maior é arrumar companhia para viajar à América do Sul, numa evidente resolução de fuga. Acaba se apaixonando por Brett e depois de ser dispensado por ela passa a viver um verdadeiro inferno interior. Na verdade o papel de Cohn na narrativa serve de contraponto à conduta de Jake e sua disfunção, um ponto importante a ser observado na leitura.
Como dissemos, tudo começa em Paris, cidade onde o autor viveu alguns anos. A descrição da cidade, “onde é sempre agradável atravessar as pontes”, faz referências a diversas localidades facilmente reconhecidas, incluindo os cafés e restaurantes que o próprio Hemingway frequentava. Pelo que se sabe, o escritor colocava em seus romances muito daquilo que ele mesmo vivia em suas viagens.
E Hemingway viajou muito. Antes dos 25 anos já havia visitado a Itália, França, Espanha, Alemanha, Suíça, Áustria e Turquia. Mais tarde viajou e viveu períodos em Cuba, Hong Kong, Londres, países da África e diversas regiões dos Estados Unidos, sua terra natal. Um bom viajante, o Hemingway.
Voltemos a Paris, que como sempre é um sonho, mas que nem por isso agrada indistintivamente qualquer pessoa. Há uma passagem na narrativa que ilustra isso de uma maneira interessante, quando Jake tenta entender o motivo de Robert Cohn ser incapaz de gostar da cidade:

Creio que é devido a qualquer associação de ideias que certas partes de uma viagem nos parecem assim desagradáveis. Há em Paris muitas outras ruas tão feias quanto o Boulevard Raspail. Não me aborrece andar por ali a pé, mas passar de automóvel é o que não posso suportar. Talvez eu tivesse lido alguma coisa sobre isso. É o efeito que Paris inteira produzia em Robert Cohn.

Mas Paris é apenas o ponto de partida da viagem que marcará definitivamente essa obra. A grande viagem a Pamplona, onde vai acontecer a famosa
festa de San Fermín (ponto culminante da narrativa), colocou para sempre a capital da Navarra na posição dos itinerários mais conhecidos e procurados de festas populares na Europa ocidental.
A fiesta, chamada na Espanha de sanfermines, acontece anualmente em Pamplona no mês de julho e dura toda uma semana. Na obra de Hemingway temos uma descrição bastante fiel da dinâmica, por vezes insana, dessa semana dedicada a San Fermín, co-patrono da cidade. A propósito, Fiesta era a primeira escolha de Hemingway para o título da obra, mantido em sua edição espanhola.
Antes de tomar o rumo a Pamplona, Jake viaja para Burguete com Bill a fim de passar um tempo pescando no Rio Irati. Essa pequena localidade aos pés dos Pirineus (assim como Roncesvalles, que também aparece descrita na obra) é muito conhecida por ser o primeiro povoado, junto a Roncesvalles, visitado pelos peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago depois da fronteira com a França, distante poucos quilômetros dali.

A descrição do percurso, efetuado há 85 anos, mostra que pouca coisa, felizmente, mudou por aquelas paragens (escrevo isso porque tive o prazer de estar naquelas mesmas localidades algumas vezes). Vou transcrever essa passagem para que você perceba como a viagem efetuada por um escritor é aproveitada na composição de um romance. É a ficção pegando uma carona com a realidade – o que na condução de um escritor de alto padrão como Hemingway, só pode resultar num texto de grande fruição literária:
Um momento depois, saímos das montanhas. Havia árvores de ambos os lados da estrada, um curso de água e campos de trigo maduro, a estrada continuando, muito branca e reta. Subia em seguida uma pequena altitude e, à esquerda, a certa distância, havia uma colina com um velho castelo, edifícios em torno e um trigal chegando quase às muralhas e ondulando ao vento.
Eu ia na frente, com o chofer, e voltei-me. Robert Cohn dormia, mas Bill olhava e sacudiu a cabeça. Depois atravessamos uma vasta planície e, à direita, vimos um grande rio que brilhava ao sol, entre fileiras de árvores; ao longe avistava-se o planalto de Pamplona, erguendo-se na planície, e as muralhas da cidade, a grande catedral escura e a silhueta irregular das outras igrejas.

Atrás do planalto, havia montanhas, e, de qualquer lado que se olhasse, outras montanhas. Diante de nós, a estrada branca corria através da planície, em direção a Pamplona.
Depois de uma breve estadia em Pamplona, Jake e Bill vão a Burguete sem a companhia de Robert, que desistira da pescaria. Os cinco dias em Burguete serão os mais tranquilos daquela viagem, como se fosse uma recarga de energia preparando o corpo para a agitada semana de sanfermines que virá a seguir. A ida a Burguete é feita de ônibus, e se você fizer hoje a viagem desde Pamplona provavelmente irá ver as mesmas paisagens que Hemingway descreveu em sua obra há mais de oitenta anos:
O ônibus subia sempre. A região era nua e as rochas se erguiam saindo da argila. Não havia ervas, dos lados da estrada. Voltando-nos, podíamos ver o vasto campo, lá embaixo. Muito ao longe, as plantações formavam quadrados verdes e pardacentos, nas encostas.

Montanhas escuras fechavam o horizonte. Tinham formas estranhas. À medida que subíamos o horizonte mudava, e, enquanto o ônibus subia lentamente a estrada, víamos outras montanhas aparecendo, ao sul. Então a estrada passou a crista, tornou-se plana e entrou numa floresta. Era uma floresta de sobreiros, o sol penetrava através das folhas, formando manchas, e o gado pastava entre as árvores.
Atravessamos a floresta, a estrada saiu novamente, contornou uma elevação de terreno e vimos à nossa frente uma planície verde, ondulante, fechada por montanhas escuras, que não se pareciam com as outras, pardacentas e calcinadas de sol, que havíamos deixado para trás. Eram montanhas cobertas de matas e delas desciam nuvens.

A planície verdejante alongava-se, cortada de cercas, e a brancura da estrada aparecia através dos troncos de uma dupla fila de árvores que cruzavam o planalto em direção ao norte. Chegando à borda da crista, avistamos os telhados vermelhos e as casas brancas de Burguete, alinhadas na planície, e, ao longe, sobre o flanco da primeira montanha escura, apareceu o telhado cinzento, metálico, do mosteiro de Roncesvalles.
O ônibus rodava em terreno plano, na estrada que vai em linha reta até Burguete. Passamos uma encruzilhada, atravessamos uma ponte sobre um regato. As casas de Burguete margeavam os dois lados da estrada. Não havia transversais. Passamos diante da igreja e da escola, e o ônibus parou.
Em cinco parágrafos Hemingway descreve o percurso de cinquenta quilômetros de maneira tão convincente e bela que quase se torna possível sentir o frescor presente na natureza encantada daquelas paragens. A mesma sensação se tem quando o autor leva os personagens a caminho da pescaria:

Pusemos o almoço e duas garrafas de vinho no embornal e Bill colocou-os a tiracolo. Eu levava às costas a caixa de caniços e as redes. Subimos a encosta e depois de atravessar um prado encontramos um atalho através dos campos na direção da mata, no declive da primeira colina. Atravessamos o campo num caminho arenoso. Os campos eram ondulados e relvosos, mas a grama era curta, porque os carneiros ali haviam pastado. O gado estava mais no alto, nas colinas. Ouvimos os cincerros (campainha que se pendura no pescoço da besta que guia as outras) acima, nas matas.
O caminho atravessava um regato sobre um tronco de árvore, que fora aplainado, e uns galhos, que se haviam encurvado, serviam de parapeito. Num poço, ao lado do regato, rãs pontilhavam a areia. Subimos uma margem escarpada e atravessamos campos ondulantes. Voltando-nos, vimos Burguete: casas brancas, telhados vermelhos e a estrada branca, na qual passava um caminhão levantando uma nuvem de poeira.

Além dos campos, atravessamos outro curso de água, mais rápido. Um caminho saibroso conduzia ao vau e, mais adiante, à mata. O atalho atravessava o regato sobre outro tronco de árvore abaixo do vau e reunia-se à estrada. Entramos na mata.

Era um bosque de faias, de árvores muito antigas. As raízes saíam da terra e os galhos eram retorcidos. Seguimos a estrada entre os troncos espessos das velhas faias, e os raios do sol, através das folhas, deixavam manchas claras sobre a erva. As árvores eram grandes e a folhagem espessa, mas não era lúgubre. Não havia arbustos, mas apenas erva, muito verde e fresca, e as grandes árvores cinzentas, regulares como num parque.
(...) A estrada desemboca, da fresca sombra dos bosques, no sol ardente. Diante de nós, havia um rio no vale e, além do rio, uma colina a pique. Na colina, um campo de trigo-sarraceno. Avistamos uma casa branca sob algumas árvores, na encosta da colina. Fazia muito calor e paramos sob árvores, ao lado de uma barragem que atravessava o rio. Bill colocou o saco de encontro a uma árvores e, depois de montar os caniços e colocar os carretéis, e tendo ligado os pesos, nos dispusemos a pescar.

Não tenho dúvidas de que Hemingway deve ter se apaixonado pela paisagem e natureza das terras navarras, ou não teria gasto tantas linhas descrevendo o cenário da maneira como o fez.

Burguete situa o leitor exatamente no meio da narrativa; a outra metade começa com a chegada dos personagens a Pamplona, onde passarão as festividades de sanfermines. E assim começa a descrição da aventura:
No domingo, 6 de julho, produziu-se a explosão da fiesta. Não há outra maneira de expressá-lo. Durante todo o dia chegara gente do campo, mas todos se dispersavam na cidade e eram por ela absorvidos de modo que ninguém notava. Os camponeses ficavam nos cabarés dos arredores, bebendo e preparando-se para a fiesta. Haviam chegado tão recentemente das planícies e das montanhas, que precisavam habituar-se gradualmente à mudança de valores.
(...) A fiesta começara realmente. E durou, dia e noite, sete dias. A dança continuou, as libações continuaram e o ruído não cessava. Passaram-se coisas que só podiam acontecer mesmo durante a fiesta. Tudo se tornou absolutamente irreal, e semelhava que nada mais poderia ter qualquer consequência.
E deste ponto em diante, o que se segue é uma verdadeira aula de tauromaquia. Hemingway foi um grande entusiasta das touradas, “único espetáculo artístico no qual o artista corre o risco de morrer”, teria dito.

A mensagem, afinal, talvez venha daí, da dicotomia entre a vida e a morte, da celebração e do lamento, porque tudo não passa de uma ilusão, porque tudo é transitório. Um dia somos touros, outra toureiros. Mesmo o sol, com toda a sua magnitude, morre todos os dias e volta a nascer, é o que sugere o título dessa obra, evocando uma passagem bíblica.
Mas isso são apenas considerações gerais, até mesmo vazias se comparadas à rica dimensão psicológica da obra, que é afinal a compreensão do ser humano que narra a aventura toda, Jake Barnes. E tentar compreender o outro, vale ressaltar, é o primeiro passo na árdua tarefa de compreender a si mesmo com mais clareza.

Leia: O sol também se levanta. Ernest Hemingway. A edição que usei aqui é a da Abril Cultural, de 1982. Tradução de Berenice Xavier.