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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Wanderlust, by Rebecca Solnit. (uma introdução)


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Às vésperas de cair na estrada, procuro por uma leitura que me inspire na jornada que virá pela frente. Geralmente releio autores que já me acompanharam em outras aventuras, entre eles Paul Bowles, Phil Cousineau, Luiz Carlos Lisboa e Fernando Pessoa, porque viajar sem poesia não tem graça nem sentido.

Dessa vez puxo da estante um livrão de capa dura que comprei no outono de 2013, já muito folheado mas nunca lido com a atenção que merece: Wanderlust – A History of Walking, de Rebecca Solnit.

Wanderlust é uma palavra de origem alemã sem tradução literal para o português, traduzida como “ânsia ou desejo de viajar”. E pegando carona nesse bonito vocábulo, a autora buscou construir a história da caminhada, as origens do ato de caminhar.



Estou encantado com a leitura desse texto, que já considero um dos melhores que li sobre a temática da caminhada (mesmo sem ter terminado a leitura); a Rebecca se acerca muito de outros autores já escreveram sobre o tema, como Fredéric Gros em seu Caminhar,uma filosofia, Michel Onfray em sua Teoriada viagem ou Adriano Labbucci com seu Caminhar,uma revolução, escritores que já passaram aqui no Odepórica. 

O diferencial de Rebecca Solnit está na maneira como ela aborda o ato de caminhar e as viagens. Para a autora estadunidense, a caminhada hoje, na realidade das cidades norte-americanas, pode ser considerada um ato subversivo.



Ela explica o que muitos de nós já sacamos faz tempo: as cidades dos EUA (principalmente, mas não exclusivamente) não são mais pensadas para os caminhantes, tudo é voltado para o deslocamento por automóveis. Grandes avenidas, horrorosos centros comerciais-  todos iguais, numa padronização assustadora - imensas autopistas que cortam o país e destroem paisagens... e o motorista, que ao chegar a casa, se tranca em sua jaula segura repleta das facilidades oferecidas pela vida moderna, a mesma que o aprisiona em escritórios, automóveis e lares.

Andar é subversivo porque se torna quase proibido! Os engenheiros urbanos pensam antes nos veículos motorizados e depois nos pedestres, ao ponto de não projetarem mais calçadas, e aqueles que decidem se aventurar numa caminhada, seja no acostamento (quando há) ou na própria estrada ou avenida, correm o risco de ter que se explicar às autoridades.



Diz a autora que ela descobriu sua voz como escritora depois que começou a viajar para o interior do país, longe da região costeira onde vive em São Francisco; em suas explorações a noção da existência de camadas históricas desses lugares lhe chamou a atenção.

Como participante de atos pacifistas contra o armamento nuclear, foi visitar alguns lugares onde antes eram feitos testes com armamentos pesados; passado o momento de loucura militar (pelo menos fisicamente nesses locais), o governo transformou o que antes eram desertos proibidos em parques naturais.



Só que antes desses parques, antes da tomada desses locais pelos militares, viviam fazendeiros ali e antes destes, provavelmente viveram os nativos mais tarde expulsos e o resto é história. São essas camadas históricas a que a autora se refere, insights surgidos após suas longas caminhadas.

Ao invés de escrever sobre a história desses locais visitados, Rebecca preferiu escrever sobre a caminhada em si. E um trecho pequeno dessa escrita é o que você lerá a seguir, um aperitivo antes da resenha que um dia farei sobre essa belíssima obra. Boa leitura.


Na marcha do pensamento

Caminhar, em teoria, é um estado no qual a mente, o corpo, e o mundo estão alinhados, como se fossem três personagens que finalmente conversam juntos, três notas que repentinamente formam um acorde.

Caminhar nos permite estar em nossos corpos e no mundo sem sermos ocupados por eles; uma liberdade para pensar sem nos perdermos em nossos pensamentos.

O ritmo da caminhada gera um tipo de ritmo de pensamento, e a passagem por uma paisagem ecoa ou estimula a passagem por uma série de reflexões. Isso cria uma estranha consonância entre a passagem externa e a interna, sugerindo que a mente também é uma espécie de paisagem e a caminhada é um meio de atravessá-la. 



Um novo pensamento frequentemente parece uma característica da paisagem que esteve ali durante todo o tempo, assim como os pensamentos estavam viajando, mais do que sendo criados em nossa mente, de modo que um aspecto da história da caminhada é a história do pensamento tornado concreto – pois os movimentos da mente não podem ser traçados, mas os dos pés podem.

Uma caminhada também pode ser imaginada como uma atividade visual, cada caminhada um passeio calmo o suficiente tanto para ver e refletir sobre as paisagens, como para assimilar o novo dentro do conhecido ou já visto. Talvez seja daí que venha a peculiar utilidade da caminhada para os pensadores.



As surpresas, a liberdade, e os esclarecimentos das viagens às vezes podem ser vivenciados simplesmente em uma volta no quarteirão ou dando a volta ao redor do mundo, não importando se a caminhada é próxima ou longínqua.

Talvez a caminhada possa ser chamada de movimento, não de viagem, pois é possível caminhar em círculos ou viajar através do globo estando imobilizado em um assento, e um certo tipo de wanderlust (a ânsia de viajar) só pode  ser aliviado pelos atos de movimento do corpo, não o movimento do carro, do barco ou do avião.



É o movimento, tanto quanto as paisagens que passam que parecem fazer as coisas acontecerem na mente, e é isso o que faz a caminhada ambígua e infinitamente fértil: ela é tanto o objetivo quanto o final, a viagem e o destino.

Leia: Wanderlust: A History of Walikg. Rebecca Solnit. Viking Penguin, 2000.

sábado, 28 de abril de 2018

O homem que passeia, by Jiro Taniguchi

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O que me fascina na literatura odepórica, numa visão mais abrangente das narrativas de viagem, são suas inúmeras possibilidades de leitura. Encontramos textos singulares não só nos diários de viagem e descobertas, mas também na poesia, nos cadernos de viajantes, nos romances, ensaios, estudos acadêmicos, letras de músicas, revistas, códices medievais, só para citar os que me vêm à cabeça nesse instante.

O que eu não esperava era ser surpreendido por uma excelente publicação na área dos mangás que ganhou destaque em minha coleção de literatura odepórica: O homem que passeia, de Jiro Taniguchi. Foi uma das experiências de leitura mais gratificantes que tive nos últimos tempos, tamanha a beleza dessa publicação; os desenhos de Taniguchi são lindos, e casam perfeitamente com sua narrativa simples, nostálgica, filosófica e poética, bem ao estilo da cultura japonesa.

Mas o que mais me fascinou, além dos traços elegantes de Taniguchi, foi o modo como ele fez uso do silêncio: é onde não se diz nada que surgem as maiores reflexões, como se ele deixasse o leitor preencher as lacunas abertas, de modo que, ao mergulhar na leitura, este assume o papel do personagem. Em outras palavras: o leitor se torna o homem (ou a mulher) que passeia.



“Um homem contempla os subúrbios da sua cidade. Caminhando devagar, ele escuta e cheira. Para e observa. É impossível não nos sentirmos alheios e indiferentes ao mundo, em contraste com este olhar puro. Passeando por estas páginas, reaprendemos a olhar e, quem sabe, a vivenciar com mais atenção as pequenas coisas.”

Esse pequenino resumo, que copio da contracapa da obra, em poucas linhas consegue captar a essência da história desse flâneur oriental. Nunca imaginei que um mangá pudesse proporcionar uma leitura tão instigante, e dessa vez não há muito que se dizer além do que já foi dito aqui: você precisa ter esse livro em mãos e reservar um tempo de sossego e solidão para aproveitar os passeios que Jiro Taniguchi nos oferece tão belamente.

Transcrevo abaixo uma entrevista que Jiro deu ao escritor e cineasta belga, Jean-Philippe Toussaint, no ano de 2008 e que traz algumas reflexões sobre a arte do passeio.



Jiro Taniguchi, triste saber, faleceu em 11 de fevereiro de 2017, aos 69 anos.  Pouco publicado no Brasil, suas obras são difíceis de encontrar. Além de O homem que caminha, foram publicados outros três títulos: Gourmet, O livro do vento e Seton. Em maio/18 será lançada a obra Guardiões do Louvre, pela editora Pipoca e Nanquim.
A caminhada como liberdade: entrevista com Jiro Taniguchi



Jean_Philippe Toussaint: Existe uma filosofia real da caminhada em sua obra? Um elogio consciente a ela?

Jiro Taniguchi: Não tenho nenhuma filosofia da caminhada. O que tenho é a sensação de que, dentre as ações cotidianas dos seres humanos, a caminhada é a mais natural. E é também, creio eu, uma atividade especialmente importante, sobretudo quando não tem nenhum objetivo preciso. Para mim, o passeio deve ser uma liberdade. Nem objetivo nem limites de tempo devem obstruí-la.

Tenho a impressão de que a corrida, por exemplo, ou o deslocamento por um meio de transporte são motivados por uma meta: para fazer algo ou chegar a algum lugar. Quando caminhamos, a velocidade e a passada não nos prendem. Creio que, por sua velocidade, a caminhada corresponde ao deslocamento mais natural do ser humano.

Mas a caminhada precisa de um estado de disponibilidade. Além disso, é preciso parar de tempos em tempos. Quando caminhamos devagar, podemos descobrir coisas fugidias. São, claro, coisas ínfimas, acontecimentos pequenos que nos enriquecem e, se me deixar levar por meu entusiasmo, diria até que às vezes nos deparamos com coisas que nos fazem sentir plenamente o prazer da vida.

Podemos experimentar sentimentos novos com a visão das plantas ou das pedras ao longo de um caminho. O passeio possibilita sensações novas, sentimentos novos. Pode até proporcionar os mesmos prazeres de uma pequena viagem.



JPT: Você se baseia em exemplos precisos?

JT: O modelo do caminhante sou eu mesmo. Mas esses passeios faço em busca de elementos que possam ajudar a construir histórias. Nesse sentido, não são exatamente os passeios naturais que trato como grandiosos. Eu caminho em busca de paisagens que seria interessante desenhar, situações que possam ser temas de histórias.



JPT: Ao contrário de Devaneios do caminhante solitário de Rousseau, em que o caminhante permanece fechado em si mesmo e praticamente hermético para o mundo exterior, a caminhada é para você uma abertura, um modo de apreensão do mundo?

JT: Quase todos os dias, vou da minha casa ao meu ateliê. Primeiro pego o trem e, depois, desço no meio do caminho para terminar o trajeto a pé. É comum não ir diretamente ao meu ateliê e fazer desvios. Esse deve ser o momento mais sossegado do meu dia. Andar por esses intervalos na minha agenda libera a minha mente. São os únicos momentos em que posso esquecer meu trabalho ou minhas preocupações.

É muito comum momentos ou acontecimentos que encontro por acaso no meio dessas deambulações se tornarem material para meus mangás. São momentos preciosíssimos para mim.



JPT: É muito rara uma história em quadrinhos não narrativa, sem história e sem grandes efeitos (sem vilões, complôs, tesouros, lutas, armas de fogo). Aqui, estamos sempre na fronteira entre a história em quadrinhos e a poesia.

JT: trabalho de suas formas diferentes. Em alguns casos, desenho a partir de um cenário. Assim, pode até acontecer de descrever cenas de ação, armas de fogo ou vilões! Em outros, são as histórias originais que desenho. É muito provável que eu não tenha imaginação para inventar verdadeiros vilões porque os editores sempre observam que meus personagens malvados são muito frágeis! Pode até ser, mas também quero que eles saibam que dá para criar mangás sem necessariamente colocar em cena vilões ou lutas com inimigos.

Se quero contar histórias a partir de coisas insignificantes da vida cotidiana, é porque dou importância à expressão das oscilações, às incertezas que as pessoas vivenciam no cotidiano, a seus sentimentos profundos em suas relações com os outros. Além disso, o que me interessa também é encontrar uma maneira de representar esses sentimentos da maneira mais natural possível.



JPT: Essa atenção às pequenas coisas, às belezas minúsculas do cotidiano, muitas vezes cobertas de nostalgia ou melancolia, me parecem características da sua maneira de ver o mundo. Existe algo aí de especificamente asiático?

JT: Acredito que os homens e os animais são essencialmente seres tranquilos para os quais certa reserva, certa moderação, são meios de sobrevivência. Na vida cotidiana, não vemos muitas pessoas gritarem e chorarem rolando no chão.

Se meus mangás têm algo de asiático, talvez seja porque, mais do que me interessar pelos meandros de uma história, eu em atenho a representar o mais proximamente possível a realidade cotidiana dos sentimentos dos personagens. Se entrarmos profundamente mesmo nos menores e mais banais acontecimentos do cotidiano, uma história pode surgir neles. É a partir desses momentos ínfimos que crio meus mangás.



JPT: É possível dizer que todo passeio é pretexto para uma nova descoberta. A caminhada se torna um devaneio pelo espaço, sempre com uma admiração tranquila, uma atitude diante da realidade que evoca uma curiosidade doce.

Mas a caminhada é também um pretexto para relembrar o passado. Os lugares de Tóquio aonde o personagem não ia há muito tempo lhe parecem transformados ou lhe trazem lembranças da infância e, assim, a caminhada se torna melancólica. A essa curiosidade doce, se une um toque de leve nostalgia. A cidade de Tóquio mudou muito desde a sua adolescência?



JT: é verdade que o ambiente japonês mudou, e não apenas em Tóquio. A região onde nasci também sofreu grandes alterações nos últimos trinta anos; os modos de vida também se transformaram. Essas mudanças se devem principalmente a questões políticas e econômicas que, desde os anos 1960, fizeram o país evoluírem direção a uma sociedade de consumo dentro da qual as coisas materiais são mais valorizadas do que as “coisas boas de antigamente” e acho isso muito triste.

Por outro lado, sem que nos déssemos conta, nos acostumamos a uma vida confortável. As pessoas correm em busca de uma vida fácil e desejam sempre mais riquezas. Mas a riqueza é também uma questão de coração. Por isso, fico sem resposta, hesito e sinto todo tipo de contradição. Enquanto me deparo com as enormes mudanças que nosso planeta sofreu desde a minha infância, creio que é chegado o momento para cada um de nós refletir. Vemos bem agora como as necessidades crescentes do ser humano foram destruindo o planeta pouco a pouco. Mas como impedir o desaparecimento da natureza e dos animais? O problema é extremamente complexo. Quanto a mim, posso apenas descrever essa realidade nos meus mangás, e me dedico a isso.



JPT: Você anda bastante no seu cotidiano? Onde?

JT: Ando principalmente pelos bairros do subúrbio de Tóquio, mas mesmo quando estou bem no meio da loucura do centro da cidade, ando com a mentalidade de que tudo que me cerca pertence a nosso meio ambiente natural, do qual faço parte. Assim, acontece de, nos lugares mais inesperados, encontrar um pouquinho de natureza ou pessoas que me deixam mais sereno. Pode ser um poço abandonado ou uma construção esquecida entre os percursos. Essas descobertas me acalmam.



JPT: Para mim, caminhar é um modo de trabalho. Adoraria saber se você sente o mesmo. Este é um texto em que, por meio da caminhada, descrevo meu jeito de escrever:

“Depois de alguns dias, depois de algumas semanas, caminho pela natureza, parto em longos passeios, bifurco à beira do rio e pego o atalho que sobe rumo a montanha, deixando à minha direita uma velha casa em ruínas, abandonada dentro de um bosque de oliveiras.

Faço desvios pelos caminhos de pedras em meio aos mirtos e urzes, aos carvalhos e zimbros, aos maciços de silvas, às amoreiras e aos lentiscos e, pouco a pouco, um mundo se abre em meu peito, um mundo sem atualidades, sem morte e sem desgraças, um monte ainda não formulado, feito pelas minhas mãos, com pedaços e fragmentos, de intuições e esboços, que vem se firmar na superfície de minha mente no ritmo de meus passos.

Caminho e levo comigo esse mundo flutuante e ficções em evolução, de êxtases e doçuras, de magias e fantasmas, que passa a vibrar dentro da minha mente como os primeiros tremores de uma água que vai ferver”.



JT: Entendo perfeitamente o que você descreve. Gosto muito desse poder da imaginação e creio que isso que você escreve pode tocar muitas pessoas. Para viver, precisamos estar em relação com os outros ao mesmo tempo em que precisamos estar em relação com a natureza. E o que busco fazer é mostrar isso tudo, não apenas de maneira abstrata mas também da forma mais clara possível nas histórias que conto.

JPT: Você acredita que existe uma espécie de destino por trás das escolhas que tomamos na vida? Sempre nos fazemos a pergunta: se tivesse feito isto, e não aquilo, o que teria acontecido? Esse tipo de questionamento é exclusivo dos personagens de seus mangás ou você também tem dúvidas e arrependimentos em relação a suas decisões?



JT: Nunca pensei que minha vida fosse resultado de um destino, mas acredito que o que acontece no mundo em geral não é fruto do acaso. Será isso que chamamos de destino? Talvez. Realmente sinto uma espécie de correnteza na vida. A todo instante temos um número infinito de decisões a tomar. E, em função dessas diversas escolhas, é provável que a cada uma nossa vida tome uma direção em particular.

No entanto, a direção escolhida para este ou aquele momento também me parece fazer parte de uma corrente natural. Naturalmente, é comum me atormentar pensando que em tal momento deveria ter feito isto em vez daquilo, mas sei que não temos como voltar atrás.



Por isso, me esforço mais para buscar aquilo que ainda pode ser feito para corrigir a direção e acredito que o fato de refletir sobre o passo pode nos ajudar a viver melhor no presente. Se, em outro mundo, nos fosse dada a chance de tomar outra decisão, a vida sem dúvida seguiria outro rumo. Esse é, aliás, um tema recorrente na literatura clássica.

Para ser franco, diria que sou uma pessoa muito indecisa. Tenho a tendência a me deixar levar pela corrente e evitar situações em que correria o risco de ser confrontado por escolhas difíceis. Para mim, é nos mangás que expresso meus pensamentos mais pessoais.

Quando tiver um tempo livre, procure sair para andar sem rumo. Assim, imediatamente, sem nos darmos conta, o tempo começa a passar mais lentamente. Aqui ou ali, encontramos coisas esquecidas, sentimos prazer em observar a passagem das nuvens e nos sentimos cada vez mais tranquilos. A pessoa que está presente, ali, na caminhada, é o mais próximo do que ela é de verdade.



Leia: O homem que passeia. Jiro Taniguchi. Devir Livraria, 2017.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Caminhar, uma revolução. By Adriano Labbucci


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Não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir que o caminhar. Caminhar é uma modalidade do pensamento - um pensamento prático.

É assim cheio de sabedoria que o político e escritor italiano Adriano Labbucci começa seu ensaio, defendendo a ideia de que o ato de caminhar nos ajuda a melhor compreender o mundo e nossas relações com os outros. Difícil discordar.



Para quem já leu outras obras sobre a temática da caminhada esse pequeno ensaio talvez pareça superficial e repetitivo, acrescentando pouco a tudo o que já se escreveu sobre o tema. Mas não é bem assim, felizmente. Por ser um texto curto, desses que conseguimos ler em uma tarde ou duas, terminamos a leitura com vontade de pesquisar mais sobre o assunto e, sobretudo, de sair caminhando pela cidade tendo em mente as lições aprendidas no livrinho.

Essa é a maior diferença entre a obra do Adriano Labbucci e a de outros autores que também escreveram sobre o tema: ele nos incita a caminhar, a olhar o mundo de maneira diferente, não da forma filosófico/transcendental de um Thoreau (Caminhada) ou de um filósofo romântico como Rousseau (Os devaneios do caminhante solitário), que tão belamente escreveram sobre a prática da caminhada, assim como outro pensador, o alemão Karl Gottlob Schelle(A arte de passear) que buscou conciliar o exercício filosófico com as preocupações cotidianas, todos eles citados no ensaio do italiano.



Labbucci caminha junto desses sábios homens do passado, mas não dispensa a companhia de seus contemporâneos: Robert Walser (The Walk), Hermann Hesse (Caminhada) e Bruce Chatwin (O rastro dos cantos), só para citar os mais marcantes, todos eles guias nessa jornada que é ao mesmo tempo, “meio e fim, travessia e meta”, como afirma o autor.

Enxergar o mundo de maneira diferente, como propõe Labbucci, implica em literalmente por os pés na estrada, andar pelas ruas, não de maneira aleatória, mas com um objetivo, uma meta, onde o perder-se faz parte do processo de aprendizagem; ele não nega os filósofos, pelo contrário, usa-os como guias porque, desde sempre,



“caminhar tem tudo a ver com pensar e com as questões fundamentais que estão na base da filosofia: quem somos, onde estamos, para onde vamos; porque caminhar exprime, como poucas experiências, essa abertura para o mundo e para si mesmo.”

Caminhar é conhecer o mundo e também a melhor oportunidade para conhecer-se a si mesmo. Repare bem como os relatos de viagem mais marcantes frequentemente apresentam viajantes que caminham muito: peregrinos, exploradores, escaladores... Travessias de desertos, de vales montanhosos, de cânions, florestas, explorações de cavernas, aventuras que exigem demasiado dos pés.



Claro que existem os navegadores e suas extraordinárias aventuras pelos mares e rios do mundo, mas há uma diferença: para caminhar basta um par de calçados e disposição, às vezes nem isso: basta a disposição. Quando perguntaram a Bruce Chatwin qual era o melhor modo de visitar um país, ele respondeu: de botas.

Ao longo do ensaio o autor italiano brinda-nos com as melhores passagens de obras fundamentais da literatura odepórica, confirmando que esse tipo de literatura de viagem vai muito além das simples narrativas sobre lugares, paisagens e aventuras; quando o escritor é bom, a leitura deixa de ser apenas um passatempo para se transformar numa lição de vida, como no trecho retirado da obra de Werner Herzog (Caminhando no gelo):



(...) existe uma absoluta e implícita convicção, uma convicção tão eloquente que não precisa de explicações: de que, para sermos merecedores daquilo que nos circunda e que nos é caro, precisamos movimentar o corpo pelos pés; que, movendo nossos pés, coisas e acontecimentos entram em movimento; e que tal movimento produz uma mágica harmonia.

Essa foi uma ideia que os latinos já haviam experimentado e condensado na máxima Solvitur ambulando (caminhando se resolve), nos lembra o autor. “Porque as coisas boas, importantes, as coisas que têm valor devem ser preparadas, atingidas, alcançadas a pé, para dar a elas o tempo de se abrirem para nós e, a nós, o tempo de lhes transmitir toda a energia do nosso caminhar.”



Caminhar, afirma Labbucci, é um ato de liberdade; caminhar nos faz livres.

(...) Esse é o espírito profundo de quem caminha: não deixar pegadas que o vento não possa apagar, não se acomodar sobre os passos dados, não se deixar prender, errar por outros caminhos, voltar ao caminho para mais uma vez buscar.



Deixo de fora, na esperança de que o leitor procure ler a obra, os capítulos finais do ensaio, onde o autor amarra esses conceitos e ideias de cunho filosófico com o momento atual, sobretudo a realidade dos grandes centros urbanos onde cada vez mais o caminhante, o flâneur e o próprio pedestre perdem espaço para os automóveis. Valendo-se de estudos do contexto Sócio-político, lança a questão: Estamos livres para caminhar nos dias de hoje? As respostas podem lhe surpreender.
O repouso de Bruce Chatwin (uma nota de rodapé, pág 115)



Elizabeth, sua mulher, levou para a Grécia, para Kardamili, as cinzas do marido, enterradas próximo a uma pequena capela bizantina, homenagem à igreja grego-ortodoxa para a qual tinha olhado com sincero interesse nos últimos anos de sua vida.

Chega-se a ela por uma trilha de terra batida e com degraus de pedra, que desde a cidade velha sobre me direção à colina através de bosques, olivais e com o mar embaixo que de repente aparece, preenchendo o horizonte.



Experimenta-se uma feliz sensação caminhando entre o verde do entorno e o azul do mar que parece tocá-lo. Chega-se em menos de uma hora, com as montanhas do Taígeto às costas, à frente uma extensão de água que confunde as suas cores com o céu; abaixo, a aldeia de Kardamili.



Nessa paisagem serena e encantada onde chega apenas o som dos sininhos do gado no pasto, aí repousa Bruce Chatwin. Fiel a determinadas ideias e propostas suas, nada que testemunhe sua presença, nem uma cruz, nem, à maneira oriental, uma pilha de pedras. Resta, para quem chega lá, apenas o eco dos passos dados ou a força da memória e das associações: é o que serve para caminhar. 

Leia: Caminhar: uma revolução. Adriano Labbucci. Martins Fontes, 2013.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caminhando, by Linda Hogan

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Finalizei há pouco a leitura de uma coletânea de textos sobre caminhadas, ou melhor, sobre a experiência do caminhar. A obra The Walker’s Literary Companion, (O Companheiro Literário do Caminhante) foi editada por três professores universitários que têm em comum a paixão pela caminhada e pela literatura de caminhada (usam o termo Walking Literature) e todos publicaram livros dentro dessa temática. Há de tudo um pouco nessa coletânea: ensaios, poemas, contos e excertos de romances. Muita coisa boa para garimpar.

Dos textos que li, me chamou a atenção o de uma autora desconhecida aqui no Brasil: Linda Hogan.  Linda é poeta, romancista, acadêmica e ambientalista e seu trabalho tem uma relação muito estreita com os povos nativos americanos, sendo ela mesma descendente, por parte de pai, dos índios Chickasaw.

O texto que traduzi abaixo carrega essa energia dos povos nativos, essa conexão que possivelmente só os índios, nos dias de hoje, são capazes de vivenciar. Mas nem tudo está perdido: as divagações da autora, que descobre uma nova maneira de observar o mundo depois de se deparar com um girassol numa caminhada na montanha, mostram que se estivermos abertos às coisas que nos rodeiam, ainda podemos resgatar, nem que seja por um breve momento, essa conexão com a natureza que tanto estimamos. Basta exercitar o olhar, abrir o coração e seguir os passos dos nossos ancestrais. 

Teve início em um ambiente escuro e subterrâneo, um ser faminto se movendo lentamente em direção à luz. Ela cresceu em um barranco seco ao lado da estrada de onde eu vivo, um lugar onde as encostas às vezes ficam amarelas, por conta das esvoaçantes marés de girassóis. Mas essa planta era diferente.  Estava sozinha e era maior do que as inúmeras outras situadas na parte de cima da colina. Essa planta era uma viajante, uma colonizadora, e como um sonho que nasce do conflito, ela cresceu onde a terra havia sido perturbada.  

Eu a vi primeiro no começo do verão, um broto verde adormecido, erguendo-se em direção ao sol. Formigas trabalhavam ao redor do botão de flor fechado, reunindo pulgões e seiva. Alguns dias mais tarde, ela se transformou em uma flor delicada e jovem, com um centro verde pálido e uma tropa de insetos cinza-prateados subindo e descendo seu caule. 

Durante o verão esse girassol se tornou uma planta de incrível beleza, voltando sua face diariamente em direção ao sol nas maneiras mais sutis, seu centro negro escuro e vivo com uma luz azul profunda, como se uma pederneira houvesse provocado uma faísca de fogo elementar lá dentro, em comunhão com a chuva, os minerais, o ar da montanha e a areia.


Com o verão mudando o cenário do verde para o amarelo, novos visitantes chegavam diariamente; os insetos de asas rendadas, as abelhas com pernas gordas de pólen, e os gafanhotos com suas asas tagarelas e fome desesperada. Sentia falta de outras formas de vida, aquelas muito pequenas ou escondidas da vista. Era como se essa planta, uma anfitriã de vidas, formasse uma sociedade em que, a cada momento, dependendo da luz e da umidade, acontecia uma grande e diversa mudança.

Havia mudanças no mundo próximo ao redor da planta igualmente. Um dia eu entrei em uma curva na estrada para encontrar um sinal perturbador de um cavalo morto, negro e ainda largado junto à encosta, seus olhos voltados para trás; num outro dia eu quase fui levada pelo vento e por uma tempestade de areia tão impetuosa que tive que esperar que passasse antes de poder voltar para casa. Nesse dia, as pétalas murchas do girassol foram varridas em direção à terra. Foi quando os pássaros chegaram para carregar as novas sementes para um outro futuro.

Nessa única planta, em uma estação de verão, aconteceu um drama de necessidade e sobrevivência. Os famintos foram satisfeitos. Insetos copularam. Houve fuga, exaustão e morte. Vidas surgiram e depois se foram.



Eu fui uma forasteira. Eu apenas olhei. Nunca aprendi a linguagem dourada do girassol ou a língua de seus cidadãos. Tive uma pequena compreensão, nada mais do que uma observação superficial da flor, dos insetos e dos pássaros. Mas eles sabiam o que fazer, como viver. Uma velha voz de algum lugar, gene ou célula, disse à planta como iludir a força da gravidade e encontrar seu caminho para o alto, seu desabrochar. Foi instinto, intuição, necessidade. Um certo conhecimento guiou os pássaros sementeiros por caminhos ancestrais que eles nunca haviam visto. Eles acreditaram. Eles seguiram.   

Existem outras intimações e chamados, alguns até mais misteriosos do que aqueles comandados aos pássaros ou às viagens de sobrevivência dos insetos. Os bambus, por exemplo, com suas finas copas verdes e caules dourados que rangem ao vento. Uma vez a cada século, todos os bambus de uma certa espécie florescem no mesmo dia. Nem a localidade da planta, na Malásia ou em uma estufa no Minnesota, nem sua idade ou tamanho faz diferença.  Eles florescem. Alguma corrente de linguagem interna passa entre eles, através do espaço e da separação, de uma maneira que nós não conseguimos explicar em nossa língua. Todos são, de algum modo, uma mesma planta, cada qual compartilhando um conhecimento comunal.



John Hay, em The Immortal Wilderness, escreveu: “Há ocasiões onde você consegue ouvir a linguagem misteriosa da Terra, da água, ou atravessando as árvores, emanando dos musgos, escorrendo pelas correntes subterrâneas do solo, mas você tem que estar disposto a esperar e receber”.

Às vezes eu escuto a natureza falar. A luz do girassol era uma linguagem, mas existem outras mais audíveis. Uma vez, na floresta das sequoias vermelhas, eu ouvi uma batida, algo como um tambor ou um coração vindo do chão, das árvores e do vento. Aquela corrente subterrânea remexeu um tipo de conhecimento dentro de mim, um parentesco e uma saudade, um sonho mal lembrado que desapareceu de volta ao corpo.



Uma outra vez, havia a voz crescente de uma tempestade oceânica que acontecia ao longe no mar, contando sobre o que vivia na distância, sobre a violenta água que iria chegar, onda após onda revelando a agitação no centro.

Hoje à noite eu caminho. Estou olhando o céu. Penso nas pessoas que vieram antes de mim e em como elas sabiam das posições das estrelas no céu, como observaram o movimento do sol por um tempo tão grande a ponto de poder testemunhar como um certo ângulo de luz tocaria uma pedra uma vez ao ano. Sem registros escritos, elas conheciam os deuses de cada noite, dos pequenos e mínimos detalhes do mundo que as cercava e da imensidão acima delas.



Caminhando, eu quase consigo ouvir o pulsar, a vibração das sequoias vermelhas. E os oceanos estão acima de mim aqui, nuvens rolantes, pesadas e escuras, trazendo a neve. Na estrada seca e vermelha, passo pelo lugar do girassol, aquela localidade escura e secreta onde ocorreu a criação. Imagino se ele irá retornar nesse verão, se irá se multiplicar e mudar para outro local numa luta de sobrevivência territorial.

É inverno e há fumaça nas chaminés. As janelas quadradas e iluminadas das casas estão embaçadas. É um mundo de atenção elementar, de todas as coisas trabalhando juntas, ouvindo seus ancestrais. Seja qual for a estrada que eu siga, eu ando pela terra de muitos deuses, e eles amam e comem uns aos outros. Caminhando, estou ouvindo de uma maneira mais profunda. Repentinamente, todos os meus ancestrais estão atrás de mim. Fique quieta, eles dizem. Observe e ouça. Você é o resultado do amor de milhares.
The Walker’s Literary Companion. Edited by Roger Gilbert, Jeffrey Robinson, Anne Wallace. Breakaway Books, 2000. First Edition.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

El Caminante (Caminhada), by Hermann Hesse

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Faz pouco tempo estava assistindo a um programa de televisão em que dois homens vivem viajando pelos Estados Unidos à procura de raridades, objetos antigos que as pessoas guardam em casa e que algumas vezes valem um bom dinheiro, dependendo do estado de conservação em que se encontram e do potencial de venda, na maioria das vezes, para colecionadores.

Foram parar numa casa no Texas onde a dona, uma enfermeira aposentada, estava disposta a vender quase todos os itens de sua eclética coleção de quinquilharias - de tudo um pouco: brinquedos, latas, calotas de carros, ferramentas, sabonetes de hotel, revistas, instrumentos médicos, nada combinando com nada, mas a cabeça de um colecionador compulsivo não parece seguir um critério lógico de qualquer maneira.


Entretanto, o que me chamou a atenção no episódio não foi a quantidade absurda de bugigangas daquela casa, mas a atitude dos caçadores de relíquias. A dinâmica do negócio é simples: eles pegam o que lhes interessa e perguntam à pessoa quanto ela quer pelo objeto. Normalmente o dono pede um valor e eles regateiam, até chegarem a um preço que seja do agrado de ambas as partes, algo normal nesse tipo de negócio. O que eu não esperava ver era o contrário do habitual, quando ao perguntarem quanto uma senhora queria por uma peça de um maquinário de trem ela respondeu 70 dólares e eles lhe ofereceram $170, porque aquele era o valor mínimo que alguém poderia oferecer pela peça. A mulher mal pode acreditar, assim como eu, pelo que pensei: que bom que existe gente assim no mundo.

Escrevo sobre isso porque muitas vezes acontece a mesma coisa comigo quando encontro em um sebo um livro que buscava há algum tempo e ao encontrá-lo me surpreendo com o valor irrisório indicado na contracapa, a lápis. Será possível? Esse valor deve estar errado, como assim? Mas quando o livreiro me confirma o preço eu sinto um misto de felicidade e de decepção, afinal de contas meu objeto de desejo vale muito mais do que aquele valor insignificante. A decepção, claro, passa rapidinho, e a felicidade segue comigo na volta a casa.


Foi o que me aconteceu quando consegui um exemplar fora de catálogo do pequeno e fascinante livro El Caminante (Caminhada, em português), do bem-aventurado escritor alemão Hermann Hesse (e se não estou enganado, foi uma indicação de leitura do colega Davi, do blog vousairparaverocéu).

Tive que esperar quarenta dias para ter o livro em mãos, que arrematei pela Abebooks e que me foi enviado por um livreiro do Chile. Trata-se de uma edição espanhola de 1981 da obra de Hesse e tem o tamanho padrão de um livro de bolso: El caminante: prosas, poemas y acuarelas del autor de Siddharta. São apenas 105 páginas com 23 pequenos relatos e poemas inspirados nos passeios que Hermann Hesse fez pela região dos Alpes em 1918. A natureza e a solidão andam de mãos dadas nessa coletânea de Hesse, que aproveitou a beleza dos lugares por onde andou para pintar suas aquarelas, de modo que o pequeno volume dessas impressões do viajante pelos vales e povoados suíços ainda brinda o leitor com os singelos traços aquarelados do escritor.


 O exemplar usado que tenho em mãos está cheio de anotações a lápis, mas ao invés de me causar desagrado, fiquei curioso ao comparar aquilo que lia com o que o antigo dono havia anotado e que deveria ter lhe parecido importante e de uma maneira estranha senti que minha leitura de certo modo invadia a intimidade de alguém, que pelo contexto das anotações, deveria estar vivendo um intenso período de melancolia.


Melancolia é uma palavra que se encaixa bem em diversos momentos dessa obra, que traz à luz muitas passagens da vida do autor e também seu apreço pela solidão e pelos mistérios da vida, a espiritualidade sempre latente em sua obra: “Eu confio que Deus está em mim / confio que minha tarefa seja sagrada / e desta confiança vivo”, momento inspirador em que fala sobre as árvores, e que continua assim:

Quando estamos tristes e mal conseguindo suportar a vida, uma árvore pode nos falar assim: Aquieta-te! Aquieta-te! Contempla-me! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Esses são pensamentos infantis. Deixe que Deus fale dentro de ti que logo esses pensamentos se emudecerão. Tu estás triste porque teu caminho te afasta da mãe e da pátria. Mas a cada passo teu e a cada dia te aproximas mais de tua mãe. A pátria não se encontra nem aqui, nem ali; ou a pátria está em teu interior, ou não está em parte alguma.


A vontade de vagamundear faz meu coração acelerar quando ouço ao entardecer o sussurro das árvores; se escutares por um longo momento e com a quietude necessária, vais aprender também a essência e o sentido desta necessidade do caminhante. Não é, como parece, uma fuga do sofrimento, senão a nostalgia da pátria, da lembrança da mãe, de novas parábolas para a vida, que é o que te conduz ao lar. Todos os caminhos te levam para casa, cada passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada tumba uma mãe.


É isso o que sussurra a árvore ao entardecer, quando temos medo de nossos próprios pensamentos infantis. As árvores têm pensamentos dilatados, prolixos e serenos, assim como uma vida mais longa do que a nossa. São mais sábias que nós, enquanto não as ouvimos, mas quando aprendemos a escutá-las, a brevidade, a rapidez e a pressa infantil de nossos pensamentos adquirem uma alegria sem precedentes. Quem aprendeu a escutar as árvores já não deseja ser uma árvore. Não deseja ser nada além do que já é. Isso é a pátria. Isso é a felicidade.


 Coisa mais linda não há. Quando leio passagens como essa me sinto muito cru para a vida, porque há tantas coisas a serem descobertas e vividas e o tempo passando tão rápido... precisamos nos conectar novamente com essa fonte primordial e é inegável o quanto somos beneficiados quando podemos estar mais próximos da natureza.

Por isso sou um apaixonado pelas viagens em que caminhar é a rotina principal dos dias e uma vez que você se entrega a esse tipo de viagem, nada mais parecerá tão interessante, nem o museu mais aclamado, nem o restaurante mais estrelado, e muito menos as compras mais desejadas. Todas essas coisas são apagadas de nossas memória com o tempo, mas as longas jornadas, essas permanecem para sempre conosco, porque foram vividas de maneira mais intensa, às vezes até mesmo sofridas.


Acredito que a leitura dessa obra de Hesse sobre suas caminhadas ganhe ainda mais brilho hoje do que na época em que foi editada, há quase cem anos. Talvez porque temos tendência a achar que no passado as coisas eram melhores, uma visão romântica das coisas que em parte não deixa de ser real, se olharmos à nossa volta e vermos o que fizemos com a natureza, só para citar um exemplo.


Sentimos falta de tudo aquilo que o escritor relata ter vivido naquela viagem pelos Alpes, experiências e visões cujos títulos, tão simples, escondem escritos profundos de uma alma inquieta e sonhadora como a dele: Cemitério rural, Passeio ao entardecer, Aldeia, A ponte, Granja, Árvores, Tempo chuvoso, Capela, Céu nublado... E o incrível é que todo o cenário por ele descrito se assemelha muito a qualquer paisagem de uma cidadezinha do sul de Minas, de modo que a empatia com os textos desse relato nos acomete naturalmente. Veja alguns excertos:

(...) Não deixarei aqui o meu coração, como se diz nas cartas de amor. Oh, não, o coração eu o levarei comigo, também dele necessito nas montanhas e em todas as horas. Porque sou um nômade, não um camponês. Sou um amante da infidelidade, da mudança, da fantasia. Não me seduz encadear meu coração a um pedaço de terra.


(...) Desde as montanhas sopra uma rajada úmida. Do outro lado, ilhas azuis e celestes contemplam nossas terras; sob aqueles céus serei feliz e com a mesma frequência sentirei saudades de casa. O perfeito representante de minha espécie, o puro vagamundo, não deveria conhecer esta nostalgia. Eu a conheço, não sou perfeito e também não pretendo sê-lo. Quero saborear minha nostalgia como saboreio os meus amigos.


(...) Todos nós vagamundos somos feitos dessa maneira... Nossa ânsia de errar e vagamundear é em grande parte amor, erotismo; a metade do romantismo de uma viagem não é outra coisa senão uma esperança de aventura; mas a outra metade é uma necessidade inconsciente de transformar e diluir o erótico. Nós caminhantes estamos acostumados a albergar desejos amorosos precisamente por conta de seu caráter irrealizável, e aquele amor que deveria pertencer a uma mulher nós o repartimos, brincando, entre povoado e montanha, lago e desfiladeiro, crianças do caminho, os mendigos de uma ponte, o boi de uma pradaria, um pássaro, uma borboleta. Separamos o amor do objeto, o amor em si é suficiente para nós, do mesmo modo que não buscamos o destino na peregrinação, senão unicamente desfrutá-lo, estar a caminho é o que importa.


Creio que esse livro me tocou pelo fato de ser uma coletânea de relatos e visões das coisas simples que acontecem a todo instante em nossas vidas e já não mais nos damos conta, até mesmo por uma questão geográfica, pelo que viajar se torna algo mais do que um prazer, senão uma necessidade, uma oportunidade de podermos mudar o ritmo de nossas vidas e voltar a olhar o mundo com os olhos de uma criança, citando Matisse.

É dessa maneira que podemos fazer do ato de viajar um rito, onde alguns pré-requisitos se tornam necessários, entre eles o contato com a natureza e as longas caminhadas, duas coisas que nós, que vivemos nas grandes cidades, não temos acesso e não praticamos com a frequência que deveríamos. Particularmente, sempre desconfio da sanidade daqueles que afirmam detestar caminhar. Bem aventurado o ser que caminha e que sabe praticar a solidão.


Hermann Hesse tinha esse perfil de caminhante, um verdadeiro peregrino - per agro -, aquele que viaja pelos campos. Interessante notar que Hesse escreveu essa obra depois de um longo período de abstinência literária, durante a qual ele deu assistência a prisioneiros de guerra. Viajando por aqueles campos e montanhas, pintando suas aquarelas, vivendo uma vida mais simples e imerso em solidão, ele colocou em prática uma rotina mais contemplativa e, provavelmente não por acaso, foi depois dessa viagem que ele escreveu seus melhores e mais aclamados textos, entre eles Demian (1919), Siddharta (1922), O Lobo da Estepe (1927) e Narciso e Goldmund (1930).  


E quando não podemos cair na estrada, seja por falta de oportunidade, seja por preguiça ou outra desculpa qualquer, ainda nos restam os livros, nossas setas, apontando caminhos, despertando novas possibilidades, quem sabe... Lendo El Caminante, de Hermann Hesse, me fez querer viajar novamente pelo interior das Minas Gerais (sempre Minas...), acordar cedo e depois do café andar sem pressa por uma estradinha de terra, subir um morro e ver o mar de montanhas se perdendo no horizonte da Mantiqueira até o por do sol chegar. No meio do caminho, uma parada para comer, e se não houver um bar por perto, se improvisa algo, assim como fazia Hesse em seus passeios:

(...) Hoje meu lugar se encontra sob uma árvore à margem de um lago; desenhei uma cabana com o gado e algumas nuvens. Escrevi uma carta que não irei remeter. Agora tiro de minha mochila o almoço: pão, salsichão, nozes e chocolate.


Aqui perto há um pequeno bosque de bétulas e vi muitos galhos secos no chão. Me acomete o desejo de fazer uma pequena fogueira, convertê-la em minha camarada e sentar-me ao seu lado. Vou até ali, recolho um montão de lenha, ponho papel debaixo e meto fogo. A fumaça fina ascende alegre e ligeira, a chama vermelha tem um aspecto singular ao sol do meio dia.

O salsichão é bom, amanhã comprarei mais. Quem dera tivesse algumas castanhas para assá-las no fogo! Depois do almoço estendo a jaqueta sobre a relva, descanso nela a cabeça e contemplo minha pequena fumaça sacrificial, que sobe às alturas.


(...) O fogo apagou, o sol se moveu imperceptivelmente. Hoje quero caminhar ainda um longo trecho. Enquanto guardo as coisas e fecho o meu bornal, me lembro de uns versos de Eichendorff, que cantarolo de joelhos: “Logo, tão logo, chegará o tempo sereno / e também eu descansarei / e em cima de mim / sussurrará a bonita solidão do bosque / e nem aqui conhecerei alguém. 



Sinto pela primeira vez que nestes amados versos a melancolia é também a sombra de uma nuvem. Esta melancolia não é mais do que a música suave da caducidade, sem a qual o belo não nos emociona. Carece de dor. Sigo meu caminho com ela e subo, contente, pelo sendeiro da montanha, o lago se encontra muito abaixo de onde estou; passo junto ao arroio de um moinho, um grupo de castanheiras e uma roda abandonada, e me adentro no dia azul e silencioso.


Leia: Caminhada. Hermann Hesse. O livro foi editado no Brasil pela Ed. Record, mas encontra-se fora de catálogo. É possível encontrá-lo a bom preço no site da Estante Virtual.