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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Os monges e eu, by Mary Paterson

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Mary Paterson é uma bonita canadense de olhos grandes que por muitos anos foi instrutora de yoga em Toronto. Mulher viajada pelas bandas do Oriente, publicou um livro muito interessante: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich Nhat Hanh transformaram minha vida.

Para quem não conhece, Thich Nhat Hanh é um monge budista vietnamita que por suas boas ações já foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz; prolífico escritor, poeta e pacifista, fundou um movimento denominado “budismo engajado”, que nada mais é do que a aplicação dos princípios budistas no dia-a-dia, seja para os que vivem a vida monástica ou para os leigos simpáticos à filosofia budista.


O bom homem continua ativo aos 90 anos, vivendo na comunidade que fundou em 1982 no interior da França, chamada de Plum Village – Vila das Ameixeiras. Foi para esse local que Mary Paterson, em busca de uma mudança em sua vida, se dirigiu para viver um retiro monástico de 40 dias, e seu livro é um testemunho dessa jornada física e espiritual.

Entre a entrada e a saída de Mary do monastério, temos 40 capítulos relativamente curtos, que correspondem a cada um dos dias de sua permanência nas Ameixeiras. Em cada capítulo, um ensinamento budista que a autora, na medida do possível, se esforça por colocar em prática, seguindo sempre que pode os preceitos do budismo engajado.

Desse modo, iremos aprender com Miss Paterson um pouco sobre como funciona um retiro espiritual no sul da França, que não difere muito da dinâmica dos retiros que temos aqui mesmo pertinho de nós. O foco do livro é mostrar como os ensinamentos do mestre Thich Nhat, em sua essência simples, podem mudar a vida de uma pessoa quando colocados em prática. É o que Mary se propõe a fazer em sua peregrinação.


Em cada capítulo/ dia de jornada aparece um ensinamento budista que a autora se esforça por encaixar em sua rotina diária, nem sempre com sucesso: mente concentrada, ética, silêncio, fé, gentileza, impermanência, transcendência, gratidão... tudo o que, de uma maneira ou de outra, guia as nossas vidas, tenhamos ou não um comprometimento religioso.

A leitura é agradável e equilibradamente didática; aprende-se um pouco sobre os ensinamentos do monge vietnamita, sobre a vida monástica, e também sobre o comportamento humano, com direito a vergonha alheia quando a autora descreve a conduta questionável de uma peregrina brasileira, Rita, “irascível, que gera um certo incômodo à sua volta”.

Recolhi do texto da Mary algumas passagens que me encantaram durante a leitura e que agora divido com você. Os títulos não fazem parte do texto original, servem apenas para apontar um pensamento que se encontra dentro de um contexto maior.
A ação no Caminho


Há muito tempo, havia um velho monge que, com prática diligente, atingira certo grau de sabedoria espiritual. Esse monge tinha um jovem noviço de 8 anos de idade. Um dia, olhando para o rosto do garoto, o monge viu que este morreria em poucos meses. Entristecido, o monge lhe disse que tirasse umas longas férias e fosse visitar os pais. “Não se apresse”, disse o monge. “Não precisa ter pressa para voltar”. Ele acreditava que o garoto deveria estar com a família quando morresse. Três meses depois, para seu espanto, o monge viu o garoto voltar, subindo a montanha. Quando este chegou, o monge olhou atentamente para seu rosto e viu que ele agora viveria longos anos. “Conte-me tudo que aconteceu quando você estava fora”, disse o monge.

O garoto falou-lhe da viagem descendo a montanha, das vilas por que passara, dos rios que atravessara e das montanhas que havia escalado. Então o garoto contou ao monge que um dia chegou a um riacho que transbordara. Enquanto tentava atravessá-lo, percebeu que uma colônia de formigas tinha ficado presa em uma ilhota formada na enchente.

Por compaixão das pobres criaturas, o garoto pegou um galho de árvore e o deitou sobre uma parte do riacho até que chegasse à ilhota. As formigas começaram a atravessar, e ele segurou o galho até que todas tivessem escapado para a terra.

“Então”, pensou o velho monge, “é por isso que os deuses prolongaram-lhe os dias”.

No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh frisa que “a qualidade de sua ação depende da qualidade de seu ser”. Se você não estiver feliz, por exemplo, não conseguirá oferecer a verdadeira felicidade a nenhum outro ser. “Portanto, há um vínculo entre fazer e ser. Se não conseguir ser, você não conseguirá fazer”.

Um mestre no Caminho



Hoje mais cedo, durante a palestra de Dharma, Thây comentou detalhadamente como havia lavado o rosto esta manhã. O semblante sereno do monge estava cheio de autêntica gratidão ao descrever minuciosamente a maravilhosa sensação da água no rosto e a grande alegria ao reconhecer a fonte profunda do milagre que é a água:

Meus dedos tocaram essa água que veio de tão longe, de montanhas distantes ou das profundezas da terra, e milagrosamente, estava ali em minhas mãos, em meu rosto, com o simples abrir de uma torneira. Enquanto espalhava devagar essa dádiva no rosto, pensei em toda a vida terrestre que existe graças à água. Ela estava tão fria e fresca. E eu fiquei feliz. Minha atenção me fez feliz.

Depois de descrever a experiência transcendental da lavagem do rosto, Thây contou-nos uma história de sua infância no Vietnã. Numa excursão escolar, centenas de crianças, em pequenos grupos, aventuraram-se a subir uma montanha para apreciar do alto a paisagem.

O jovem Thây ficou animado com a aventura porque ouvira dizer que um eremita, um budista misterioso, vivia e meditava em solidão naquelas montanhas. Na animação, Thây e as demais crianças de seu grupo subiram a montanha depressa e, a meio caminho, já haviam bebido toda a água que levavam. E depois, para decepção de Thây, esse fugidio eremita, um ser quase semelhante ao Buda, não se encontrava em lugar nenhum.


Quando as crianças se sentaram para comer seus lanches, Thây resolveu explorar um pouco mais e entrou sozinho no bosque. Não demorou muito e o escolar ouviu o som de água correndo. Seguiu-o e encontrou uma nascente de água.  Por estar com muita sede, o futuro mestre zen ficou encantado ao ver a nascente.

Ao levar à água as mãos em concha, Thây caiu em sono profundo ao lado da nascente e, ao acordar, não sabia onde estava. Porém uma coisa o futuro mestre zen sabia; havia bebido a água mais deliciosa do mundo.

O jovem Thây nunca contou aos colegas a sua descoberta da nascente, por achar que isso poderia diluir a poderosa experiência espiritual que ela representara para ele. Mas, após muitos anos e muito estudo, o monge acabou contando a história do eremita e da nascente por desejar ardentemente que todos encontrassem seu próprio eremita em sua própria vida.

Como disse Thich Nhat Hanh: “Você já pode ter visto seu eremita sem o reconhecer. Talvez seu eremita não seja uma nascente. Ele pode ser uma rocha, uma árvore, uma criança ou uma montanha. Mas quando tiver encontrado seu eremita, você saberá aonde ir. E encontrará paz”.
Sobre viajantes e malas: uma reflexão


Para minha viagem à França, levei duas malas grandes com todas as coisas de que eu precisaria nos quatro meses de minha estadia. Nelas estavam minhas roupas favoritas para todos os tipos de ocasião, livros, os produtos orgânicos para o corpo de que mais gosto e várias outras coisas. E o que aconteceu foi isto: ambas as malas ficaram pesadas demais, obrigando-me a pagar as altas taxas por excesso de bagagem no aeroporto.

Depois, arrastar essas malas pelas escadas do metrô de Paris revelou-se uma coisa praticamente impossível. Dizer que eu fiquei sobrecarregada é um eufemismo. Por sorte, um mês depois de minha chegada, surgiu uma luz: uma amiga canadense veio visitar-me em Paris e concordou em levar consigo para Toronto uma de minhas malas. Minha salvadora!

Mas a mala que ficou estava cheia a ponto de arrebentar, e eu logo percebi que meus pertences haviam se tornado mais que uma carga meramente física. Quando afinal fui para a Vila das Ameixeiras, aquela mala inchada já tinha me deixado mentalmente perturbada.

“Abrir mão de posses materiais é uma boa prática para abrir mão de ideias”. Quem me dera ter ouvido esse sábio conselho enquanto estava fazendo aquelas malas. O Buda disse: “Apego a opiniões, apego a ideias, apego a percepções é o maior obstáculo à verdade”. No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh explica:

É como subir uma escada. Quando chega ao quarto degrau, você pode pensar que está no degrau mais alto, que não pode subir mais, e se prende a esse degrau. Mas na verdade há um quinto degrau; se quiser chegar a ele, você precisa se dispor a abandonar o quarto. Ideias e percepções são coisas que devemos abandonar o tempo todo, para dar lugar a ideias melhores e percepções mais verdadeiras. É por isso que precisamos sempre nos perguntar: “Estou certo disso?”.

Leia: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich
Nhat Hanh transformaram minha vida. Mary Paterson. Editora Pensamento, 2013. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Viagens sagradas: relato de uma peregrinação a Meca

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Quando estudei religião na faculdade, num curso de pós-graduação na PUC aqui de São Paulo, aprendi muita coisa interessante sobre as mais diversas manifestações religiosas. Das aulas que tive, nos três anos em que me vi cercado de excelentes mestres que me apresentaram autores que provavelmente jamais teria tido a chance de conhecer e que hoje considero fundamentais em minha formação, guardo com carinho as do professor Fernando Torres-Londoño, que nos apresentou o Islamismo.

Sempre tive uma simpatia enorme pelo Islã por conta da face mística da religião representada pelo Sufismo, ainda que só tenha lido textos introdutórios sobre o tema e visto alguns documentários na TV sobre os dervixes da ordem Mevlev, aqueles que rodopiam lindamente num ato devocional de entrega e busca divinos. Aparece lá no Baraka, um documentário espetacular do Ron Fricke, uma cena linda que encanta a todos que assistem ao filme pela primeira vez, dos dervixes rodando numa sala de braços abertos, vestes brancas, flutuando em êxtase... coisa mais bela não há.


Gostar dos mistérios é fácil, mas eis que me pego fascinado pela história do Islã, pela vida do Profeta, pela beleza encontrada no livro sagrado dos muçulmanos, me surpreendendo ao saber que Maria, mãe de Jesus Cristo é mais citada no Alcorão do que na própria Bíblia, você sabia disso? (mais precisamente 34 vezes, fui pesquisar); aliás, Maria é a única mulher citada pelo nome próprio no livro sagrado dos muçulmanos e por eles muito reverenciada.

Não irei me estender muito sobre o islamismo, porque nosso interesse aqui é outro, mas gostaria de acrescentar que para o Islã existem cinco pilares que formam a estrutura de vida dos muçulmanos, a saber: O Testemunho de fé, a Oração, a Caridade compulsória (o zakat), o Jejum no mês de Ramadã e a Peregrinação à Meca (Hajj).


Já li muitos textos sobre o Hajj, porque esse tipo de experiência religiosa é um tema que me atrai em particular; entretanto, nunca havia lido um relato não acadêmico ou que não tivesse sido escrito de maneira a exaltar exclusivamente a religião. Sentia falta de ler uma narrativa com um olhar mais antropológico, sobre o comportamento das pessoas que participam do Hajj, a ambientação, os lugares, os ritos... e encontrei um texto que vai direto ao ponto, escrito há quase 60 anos por um norte-americano de origem muçulmana chamado Ahmad Kamal para a Revista Reader’s Digest, (Seleções, no Brasil), intitulado "Eu vi a cidade proibida".

É um relato cru, emocionante e imparcial, sobre uma das experiências mais transformadoras que alguém pode viver na vida. Se você tiver um pouco de curiosidade, convido-o a ler a narrativa do Ahmad que resgato com alegria de um velho livro que tive a sorte de encontrar largado no chão de um sebo. Salaam Aleikum! (Que a Paz esteja com você)


Eu vi a cidade proibida, by Ahmad Kamal

Eu me encontrava em Java escrevendo um livro quando resolvi fazer a peregrinação sagrada à mais secreta e proibida de todas as cidades – Meca, o lugar onde nasceu Maomé, na Arábia.

Muitos aventureiros não muçulmanos já tentaram entrar furtivamente nessa cidade que, no ano 630 da era cristã, o Profeta Maomé fechou para sempre para o mundo exterior. Muitos voltaram antes de por o pé no solo sagrado, aniquilados pelo calor. Outros prosseguiram, penetrando cada vez mais nos mistérios da peregrinação, até que cometeram algum erro no ritual. Desmascarados, foram então massacrados pelos fanáticos ou morreram sob a espada do carrasco.

Um rosto claro como o meu não podia deixar de despertar suspeitas; meu cabelo é louro, minha feição nórdica. Além disso, sou americano cem por cento, pois nasci numa estância de gado no Colorado. Sou, porém, de origem maometana, descendente dos turcos setentrionais da Rússia e, em criança, aprendi muitas das preces maometanas. Para ajudar-me ainda mais, em muitos anos de viagem pelo Médio e Extremo Oriente, acrescentei várias línguas ao inglês e ao turco que aprendi quando menino. Por fim, um amigo javanês chamado Amir Izzet, que já estivera em Meca, decidiu acompanhar-me. Seria um companheiro inestimável.


Em fins de agosto de 1952, eu e Amir Izzet tomamos um avião em Jacarta, recostamo-nos nas poltronas e murmuramos baixinho: “Sejam em nome de Deus a viagem e a chegada”. Era a primeira prece do ritual da peregrinação e eu estava procurando decorar todas elas.

Quando chegamos a Dharan, Na Saudi-Arábia, a temperatura marcava 46 graus. No dia anterior, 14 peregrinos haviam morrido de insolação. Eram muitos os que trocavam ali os seus trajes nacionais pelo vestuário da peregrinação. Reunidos em torno das bicas de água fora do aeroporto, procediam às abluções do cerimonial e envolviam-se em simples mantos brancos, sinal de que renunciavam, entre outras coisas, à violência, às relações conjugais, ao uso de perfume, joias e adornos pessoais, até haverem cumprido os ritos que havia para cumprir.


Nobres e plebeus, todos usavam mantos idênticos; alguns mais previdentes abriam guarda-sóis. Uma vez feitos os votos e envergadas as vestes sagradas, ninguém pode cobrir a cabeça antes do término da peregrinação.

Quando partimos de avião para Jidá, o porto de Meca no Mar Vermelho, a temperatura subira a 52 graus. Convergiam para aí aviões de transporte da Somália, Etiópia, do Sudão, do Egito, da Síria, do Iraque, da Indonésia, todos levando peregrinos. O aeroporto era um verdadeiro pandemônio. Centenas de peregrinos de todas as cores andavam, suados, de um lado para outro, à procura das suas bagagens, que eram quase sempre embrulhos amarrados com corda, difíceis de distinguir uns dos outros. Não havia sistema, nem organização, nem língua comum. Mulheres egípcias, habituadas a soltar gritos agudos quando zangadas ou aflitas, enchiam a noite com o seu berreiro.

Um manto de umidade incrivelmente opressivo cobre Jidá. Em vez de se evaporar e refrescar o corpo, a transpiração fica aderida à pele como um ácido, infetando quase todos com brotoejas que coçam terrivelmente. Amir Izzet já tremia todo sob aquele tormento sem alívio.

Um árabe examinou o meu passaporte americano. Esperava ter na sua frente mais um técnico em petróleo... e descobriu um visto de peregrino. Mais que depressa convocou outros funcionários. Interrogado no meio da confusão, expliquei a minha origem racial. Houve uma pausa sinistra e vazia. Vi-me cercado de olhares desconfiados e frios.

Apareceu o Dr. Fahmi Murat, o médico da quarentena, que era de origem turco-tártara; falava o mesmo dialeto turco que eu. Assegurou que eu não era um impostor e, assim, pude respirar.

Conseguimos alojamento no Hotel Al-Taysir. Havia mais seis peregrinos em nosso quarto, jornalistas maometanos do Cairo, de Tunes e de Teerã. Todos nós teríamos preferido a terra dura àquelas camas imundas; mas os peregrinos, mais de 300.000, tinham transformado as ruas de Jidá e o deserto em volta numa vasta estrumeira.


Os habitantes de Jidá e de Meca consideram os fiéis uma presa enviada por Deus. O Al-Taysir, inferior a qualquer hotel de última classe, cobrou-nos o equivalente a 200 cruzeiros por noite. Ali não circula dinheiro em papel e os peregrinos que chegavam tinham de comprar, com prejuízo, moedas de ouro e de prata dos cambistas de Jidá. Os transportes eram uma concessão particular do ministro das Finanças, que aumentava os preços das passagens à medida que os navios despejavam gente.

Em Jidá, a 72 km de Meca, todos os peregrinos têm de trocar os seus passaportes por salvo-condutos. Tentar passar pelos postos de fiscalização da estrada de Meca sem esse documento seria morte certa. Disseram-nos que dois incréus de Jerusalém haviam sido descobertos e mortos a pedradas na estrada de Meca. “Foi tudo muito rápido”, disse um árabe muito naturalmente. “Depois que eles morreram, descobriu-se que os salvo-condutos de ambos estavam em ordem; mas eram louros e levavam máquinas fotográficas. Se morreram como mártires, devem estar no Paraíso. Deus seja louvado!”


Amir Izzet e eu passamos três dias esperando nervosamente o meu salvo-conduto. “Os funcionários estão assoberbados de serviço”, disse o velho agente que aparentemente estava tratando de nossos papéis. No quarto dia pela manhã, cada vez mais inquieto, meti, em dado momento, a mão no bolso para coçar a coxa, pois também estava atacado de brotoejas – e vi os olhinhos do agente cintilarem de avidez. Tirei do bolso uma libra de ouro, e daí a uma hora estava com o salvo-conduto na mão.

Partimos pela estrada de Meca ao escurecer, com o calor ainda fortíssimo. Peregrinos em êxtase fluíam para o interior através daquela desolação de fornalha, em automóveis, caminhões e ônibus desmantelados; em lombo de camelo e de burro; e a pé. Algumas famílias caminhavam havia dois anos, tendo atravessado todo o continente africano. Eram pretos pobres de Serra Leoa e de Gana. Três vezes naquela congestionada estrada fomos detidos em sujos postos de guarda e examinados pela polícia árabe armada. E então, subitamente, as portas da cidade de Meca surgiram no meio da noite empoeirada.


A luz dos faróis dos carros rendilhava a sufocante escuridão; árabes com odres cheios de água ofereciam-se para matar a sede em troca de moedas de prata. O calor pesava sobre nós como um animal arquejante, mas a noite estava cheia de preces delirantes. Os peregrinos não se lembravam nem se importavam de terem sido explorados a cada passo de sua jornada.

Buzinando forte, passou por nós rapidamente uma caravana de carros de luxo. Era um potentado árabe com suas mulheres, escoltado à frente e à retaguarda por jipes cheios de escravos armados... atravessamos uma  rampa cheia de buracos e descemos para as dispersas luzes amarelas de Meca. Senti os cabelos arrepiarem-se. Estávamos na cidade secreta.


Todos os peregrinos que chegam a Meca correm para a Mesquita do Santuário. Ali, no grande pátio interno, fica a Caaba, construção de pedra coberta de panos azuis, sem janelas e apenas com uma porta – “o edifício mais antigo do mundo, o templo junto ao qual Adão, aflito, rendeu culto a Deus depois da sua expulsão do Paraíso”. Esse é o lugar mais sagrado do Islã; onde quer que se ajoelhem para orar, os maometanos voltam-se na direção de Meca e da Caaba, de onde, segundo se crê, as preces, pronunciadas em uníssono, convergem de todos os cantos da Terra e sobem verticalmente à atenção de Deus.

Encontramos um lugar em frente à porta da Caaba para dizer a prece preparatória. Graças a um claro momentâneo no turbilhão de gente, avistei a sagrada pedra preta, meteorito erguido sobre um altar a um canto da Caaba – a pedra que, segundo a tradição sagrada, foi levada a Abraão e Ismael pelo Arcanjo Gabriel durante a reconstrução do templo depois do Dilúvio.


O alarido da multidão rezando constituía como que um trovão antifônico para os relâmpagos de calor que riscavam as trevas. Muita gente chorava. Terminadas as nossas preces, tínhamos, antes de dormir, de percorrer sete vezes o itinerário sagrado entre os montes As-Safa e Al-Marwah. Fora ali que Agar, a serva egípcia de Abraão, andara correndo desorientada atrás de miragens e à procura de água para si e para o pequeno Ismael.

Lutamos para romper o refluxo humano, tentando correr por onde Agar havia corrido. No mínimo 50 mil pessoas se moviam incessantemente entre os dois montes, entoando as preces rituais. Um moribundo observava o rito do fundo de uma vacilante liteira levada à cabeça de carregadores.


As nossas acomodações para o resto daquela noite, partilhadas com peregrinos javaneses, foram uns catres no quinto andar de uma estrutura de pedra com séculos de idade e que parecia uma masmorra. Às 10 horas da manhã seguinte, numa temperatura de 46 graus (160 peregrinos haviam morrido nas 24 horas anteriores), fomos ao coberto Mas’a para fazer uma visita às barracas do bazar; havia ali toneladas de rosários de âmbar, de pedras preciosas e de madeira perfumada. Havia sedas e almíscar, incenso, essências, água de rosas e bebidas refrigerantes.

Na rua escaldante um mercador vendia água suja açucarada aos passantes. Aproximou-se um paquistanês de olhos fundos, mostrando a bolsa vazia e a língua grossa e pedindo a caridade de um gole. No momento em que o vendedor enxotava o homem, apressamo-nos e pagamos-lhe um copo da beberagem. Isso provocou um protesto indignado do vendedor.

- O Alcorão diz que quem não tiver recursos para a viagem não deve fazer a peregrinação. Vocês aumentaram o sofrimento desse homem prolongando-lhe a agonia!


Alguns dos ritos mais importantes da peregrinação têm lugar no deserto, no Vale de Arafat. À tardinha, os caminhões que haviam transportado tendas e provisões para lá voltavam com os cadáveres daqueles que, já não dispondo de dinheiro para o transporte, tinham partido a pé para aquele inferno.

Ao pôr do sol a cidade secreta estremeceu e, em meio de uma vasta cortina de poeira, despejou no deserto quase todos os seres humanos que a enchiam. Eu e Amir viajamos no alto de um ônibus desconjuntado, juntamente com 20 javaneses e dois novilhos amarrados e destinados ao sacrifício de sangue.

A uma hora e um quarto de Meca entramos no Vale de Arafat. Mais de 80 mil tendas estavam armadas no chão pedregoso do árido vale em torno de uma montanha isolada de rocha nua que se projetava do centro.


“Quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso ficaram separados. Durante 200 anos se procuraram através da terra, sem descansar, até que os próprios céus se comoveram diante de tanto amor. Foi aí que eles se encontraram. Do alto desta montanha, Eva viu ao longe Adão vindo ao seu encontro”.

Acima do rugido dos motores e do balir dos carneiros condenados ao sacrifício, reboava o imenso marulho das vozes recitando o zikr, a hipnótica repetição de louvor a Deus.

Uma hora depois do nascer do sol, o termômetro marcava 53 graus; um egípcio tropeçou nas cordas da nossa tenda e teve um colapso. Um sírio morreu, esguichando sangue do nariz. Um aguadeiro árabe descansou no chão, com gestos vacilantes, as latas de querosene que carregava num varal e caiu junto delas.


Apesar de tudo, os crentes continuavam a chegar, pois quem não estivesse no vale à passagem do sol pelo seu meridiano perderia a peregrinação. Era o Dia da Absolvição, quando Deus se revelaria aos Seus servos.

Ao meio-dia em ponto, todos os que não estavam mortos se levantaram e se voltaram para a montanha, que flutuava num lago mercuriado – uma miragem. As preces começaram, elevando-se da multidão qual imensa sinfonia, acorde após acorde, e continuaram durante horas.


Os peregrinos capazes fisicamente permaneceram de pé nas suas tendas escaldantes até que o sol desapareceu atrás do horizonte. Então, de repente, a grande multidão fugiu do vale sagrado. Também isso faz parte do ritual, embora não se saiba mais a sua significação.

A multidão nos arrastou para um caminho mais baixo, onde fomos obrigados a ficar à margem enquanto passava uma coluna de caminhões, tão lotados de soldados que os fuzis eram levados suspensos acima da cabeça. Depois passou o rei numa limusine veloz, seguido de uma escolta.


Agarrados à coberta do nosso arquejante ônibus, seguimos para a arruinada aldeia de Mina, ponto final da peregrinação, numa torrente homicida de tráfego. Vimos dois carros se chocarem, saltarem cada um para um lado e correrem desgovernados pelo deserto, onde se arrebentaram nas pedras, capotando e jogando longe os passageiros. Ninguém parou. Quem o fizesse, seria esmagado pela onda que vinha atrás.

Foi em Mina que Abraão se preparou para sacrificar o filho (Gênese, XXII) quando, por intercessão divina, um carneiro apareceu para tomar o lugar do menino. Ali, na manhã escaldante, o mar humano invadiu a rua onde se veem três monumentos de pedra e cal que marcam os lugares onde Satanás apareceu três vezes ao filho de Abraão, tentando o menino a fugir, e por três vezes foi afugentado a pedradas. Durante a marcha desde Arafat todos os peregrinos se haviam munido de pedras com as quais durante três manhãs apedrejariam ritualmente as colunas.


Passamos quase todo o segundo dia deitados em nosso acampamento, arfando com falta de ar. Só saímos à noite, vindo então a saber que 4.411 peregrinos haviam morrido desde o amanhecer; ás 11:20 da manhã, o mercúrio do termômetro subira a 61 graus centígrados!

Nessa noite acordei sacudido por Amir Izzet. As brotoejas o martirizavam tanto que ele respirava com soluços e gemidos involuntários. Acima de nós, num muro arruinado, jaziam dos cadáveres em começo de putrefação. Não suportamos mais.

Cobrindo o nariz com o manto, passamos por cima dos peregrinos javaneses adormecidos e atravessamos às pressas a aldeia; atiramos as pedras que nos restavam nas três colunas de Satanás para cumprir o ritual.


Além do cimo do vale, compramos passagem num carro e daí a uma hora estávamos em Meca. Uma semana depois eu me encontrava em Nova Iorque. Tinha assistido à mais antiga cerimônia religiosa do mundo – um ritual milênios mais velho do que a religião que o adotou.

Texto extraído da coleção Janelas para o Mundo, vol 35, Seleções do Reader's Digest . 1a edição. São Paulo. Editora Ypiranga S/A, 1960. 


Para ir mais longe, Karen Armstrong:

O Islã. Ed Objetiva.


Maomé: uma biografia do Profeta. Companhia das Letras.  

  

quarta-feira, 19 de março de 2014

O cavaleiro preso na armadura, by Robert Fisher

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Terminei de ler uma obra estimulante - uma biografia – da Karen Armstrong, famosa escritora britânica especialista na temática da religião. Eu conhecia os textos da Karen apenas sob o ponto de vista acadêmico, quando li na faculdade uma obra dela que versava sobre o islamismo, O Islã, merecedora de muitos elogios e sem dúvida uma excelente porta de entrada para o universo dessa religião ainda muito mal compreendida.

Em A escada espiral, seu livro de memórias, Karen Armstrong escreve sobre a sua vida desde o momento em que decide, ainda muito jovem, entrar para um convento com a firme convicção de encontrar Deus e viver a sua fé nele de maneira integral, junto a seus pares, por los siglos de los siglos, amém.  Mas nada disso acontece e, além de não encontrar Deus na clausura, a moça deixa a ordem menos crente do que quando havia ingressado. Daí em diante você terá que ir atrás por conta própria, porque a vida da Karen realmente merece um livro. Ou vários.


Não é propriamente sobre a Karen Armstrong que vou escrever, mas foi uma passagem de suas memórias espiraladas que me fez querer escrever sobre outra obra que li também recentemente e que fala sobre uma viagem, mas uma viagem no sentido mais simbólico do termo. Trata-se de um pequeno livro intitulado O cavaleiro preso na armadura, que ganhei de um grande amigo peregrino e que li de uma tirada só, comendo páginas feito traça de papel.

A história, escrita por Robert Fisher, é uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade (subtítulo da obra). Como todas as fábulas, você tem a impressão de estar diante de uma leitura voltada para o público infanto-juvenil. Mas, assim como o herói dessa história, é preciso enxergar o mundo para além das aparências- o que parece ser apenas um discurso bonito, mas na verdade nada mais é do que um grande ensinamento que implica, sobretudo, no confronto desconfortável com o próprio ego, uma dura batalha em se tratando de uma sociedade narcisista e ególatra como a atual.


Em poucas linhas, a narrativa gira em torno de um cavaleiro desses de conto de fadas que percorre caminhos em busca de aventuras: matar dragões, lutar contra inimigos, resgatar donzelas em apuros, tudo o que faz parte de nosso imaginário medieval. Para além de suas destrezas, o cavaleiro era conhecido mesmo por conta de sua armadura, tão linda e brilhante que, quando partia para a batalha, “os aldeões podiam jurar que tinham visto o sol nascer no norte ou se pôr no leste”.


O cavaleiro tinha uma esposa, um filho e um castelo bacana, mas andava sempre tão ocupado em estar pronto para lutar em alguma batalha que mal conseguia dar atenção à sua família; sua fixação em estar sempre pronto para partir o levou a viver constantemente vestido com sua armadura até que chegou um dia em que não mais conseguia tirá-la. Como sua esposa já não mais aceitava conviver com essa situação, acreditando que o marido não tirava a armadura porque não queria - e não porque não conseguia -, o cavaleiro resolveu partir e só voltaria ao castelo depois que conseguisse se livrar da prisão de sua própria armadura.

O chamado da busca, portanto, fica claro no conto: é preciso partir para encontrar uma solução, uma vez que a “cura” só é alcançada no exílio; é o afastamento que promove a transformação, que facilita a busca de uma solução que só chega quando nos encontramos distanciados daquilo que nos faz sofrer ou que nos impede de enxergar, que é bem o caso do cavaleiro dessa fábula.


É aqui que entra a Karen Armstrong, fazendo a ponte que une o conto do cavaleiro com o mito do herói, bem ao estilo do Joseph Campbell. Diz a Karen que os grandes mitos mostram que quem segue rumo alheio acaba se perdendo. E prossegue:

“O herói tem de partir sozinho, abandonando o velho mundo e os velhos hábitos. Tem de aventurar-se na escuridão do desconhecido, onde não existe mapa nem caminho visível. Tem de combater seus próprios monstros – não os monstros de outrem -, explorar seu próprio labirinto, sofrer sua própria provação para poder encontrar o que lhe falta. Assim transfigurado, pode levar algo de valor para o mundo que ficara para trás.”


“Todavia, se o cavaleiro percorre uma rota já estabelecida, está apenas seguindo pegadas alheias e não viverá uma aventura. Se quer triunfar, tem de entrar na floresta, diz o texto, em francês arcaico, de A busca do Santo Graal, ‘num ponto em que ele mesmo escolheu, onde a escuridão era maior e não havia caminho’. Na terra árida da lenda do Graal, as pessoas levam vidas inautênticas, cumprindo cegamente as normas da sociedade e fazendo só o que os outros esperam delas.”

Voltando ao conto, o cavaleiro decide procurar o rei antes de entrar na floresta, mas este se encontrava ausente, participando de uma nova cruzada; quem lhe informa isso é um bobo da corte, que estava sentado junto à ponte levadiça do castelo. No breve diálogo que se segue entre os dois, o cavaleiro descobre que a única pessoa que pode lhe ajudar é o Mago Merlin, que o bobo garante estar vivo, morando “nas florestas além”. E tudo isso acontece no primeiro dos sete capítulos do livro.


Só vou adiantar, para não estragar a surpresa, de que o cavaleiro de fato encontra Merlin na floresta, depois de muito tempo buscando seu rastro; é o mago quem lhe oferecerá a chave que o libertará de sua armadura, mas toda liberdade tem um preço. A incumbência que Merlin dá ao cavaleiro é a seguinte: ele terá que trilhar, a pé, o Caminho da Verdade, tendo como companhia um esquilo e um pássaro; nesse caminho terá de atravessar três castelos que bloqueiam seu passo: o primeiro castelo chama-se Silêncio, o segundo Conhecimento e o terceiro, Vontade e Ousadia.

O conto se desenrola à maneira das fábulas de antigamente, que dizem muito além daquilo que se percebe na aparência superficial dos lugares comuns e finais felizes; estão lá os velhos chavões, os mesmos vícios de linguagem dos contos infantis, as mesmas morais revestidas de autoajuda, mas nada disso importa. A mensagem é mais forte do que qualquer uma dessas convenções e quem não liga para isso se diverte muito mais.


A fábula de Robert Fisher tem força suficiente para comover o leitor que busca uma leitura singela, sem grandes pretensões literárias – mesmo porque a intenção do autor seguramente foi a de fazer com que sua história tocasse o leitor num nível mais profundo, fazendo-o pensar em sua própria condição de “cavaleiro preso em uma armadura”, metáfora apropriada que cabe, em algum momento, na experiência de vida de todos nós.

De fato, cada pessoa fará sua própria interpretação do texto, uma vez que a linguagem metafórica possui essa liberdade interpretativa. O que representa uma armadura para você? O que você entende por liberdade? Qual a importância do amor em sua vida? Qual a sua busca? São questões como estas que o autor se propõe a responder nessa fábula, na verdade um apanhado sucinto dos ensinamentos do grande estudioso Joseph Campbell, que dedicou toda sua vida à compreensão da busca humana tendo como chave de interpretação os mitos das mais diversificadas culturas e religiões do planeta.


A Karen Armstrong, ao se recordar de seus estudos religiosos, disse que estes lhe mostraram que a busca (religiosa) não tem a ver com descobrir “a verdade” ou “o sentido da vida”, e sim com viver, de maneira mais intensa possível, no aqui e agora; não se trata de cultivar uma personalidade sobre-humana ou ir para o céu, mas de descobrir como ser inteiramente humano. Essa ideia casa-se perfeitamente com o cavaleiro preso na armadura, daí a minha surpresa ao pegar-me lendo ao mesmo tempo duas obras tão distintas e encontrar em uma delas passagens que afirmam e amplificam a linguagem simbólica da outra. Uma coincidência muito bem-vinda.

Finalizo com a Karen, que em poucas palavras dá uma aula de como uma obra como a do cavaleiro de Robert Fisher pode nos ajudar a reinterpretar a vida e, quem sabe, colocar em prática as tarefas necessárias para uma mudança integral que nos leve em direção ao equilíbrio e à paz interior.


“Os mitos e as leis da religião são verdadeiros não porque se coadunam com uma realidade metafísica, científica ou histórica, e sim porque enaltecem a vida. Contam como a natureza humana funciona, mas, para descobrir sua verdade, é preciso aplicá-los à própria existência e colocá-los em prática. Os mitos do herói, por exemplo, não surgiram para nos fornecer informações históricas sobre Prometeu ou Aquiles – nem sobre Jesus ou Buda. Seu objetivo é compelir-nos a agir de tal modo que revelemos nosso próprio potencial heróico.”
Leia:

O cavaleiro preso na armadura: uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. Robert Fisher. Ed Record, 2012.


A escada espiral: memórias. Karen Armstrong. Companhia das Letras, 2005.