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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A estrada da cura, by Neil Peart

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Há muitos motivos que levam alguém a viajar para além do simples turismo de lazer. Há gente que viaja a trabalho e há os que trabalham para viajar; há os que viajam para ir estudar e há os que estudam para poder viajar; há os que viajam para se encontrar e há os que viajam para se perder; há os que viajam para ajudar e há os que viajam para serem ajudados; há quem viaje para curar e há os que viajam para serem curados e são destes últimos de quem eu gostaria de falar dessa vez, das pessoas que usam a viagem como um processo de cura.

Solvitur ambulando – isso se resolve caminhando, uma máxima atribuída a Diógenes e a Santo Agostinho, seria uma boa epígrafe para essa postagem. Isso porque acabei de ler Ghost Rider, A Estrada da Cura, narrativa de viagem escrita por Neil Peart que fez da estrada a medicina para curar sua alma sofrida.



Não li muitos relatos de viagem que abordassem exclusivamente desse tema, talvez não tenha lido nenhum, mas com certeza me lembro de várias passagens de narrativas de viajantes discorrendo sobre suas perdas, suas tristezas e amarguras em algum episódio ocorrido durante a viagem.

Entretanto, conheci muitas pessoas que viajavam para se curar de suas feridas emocionais. Acontecia com frequência, quando fui voluntário na Espanha em alguns refúgios por um período de seis meses alguns anos atrás. Eu nada podia oferecer, naquelas ocasiões, a não ser uma acolhida calorosa e um prato de comida, além de um ombro amigo.

Foi assim que conheci uma brasileira, que resolvera fazer o Caminho de Santiago logo após um tratamento quimioterápico. Visivelmente debilitada, andava devagarinho, mas ainda assim muito determinada em chegar ao seu destino. Havia perdido alguns dentes durante a peregrinação, que ia guardando numa latinha de balas, como testemunho de sua entrega. Sua dor física era incontestável, assim como a alegria que sentia em estar ali, viva, caminhando seus oitocentos quilômetros. Por que resolvera fazer a peregrinação, o que a motivara? - perguntei-lhe. Para curar-me, foi o que ela me respondeu. Havia tido um sonho, após o fim da quimioterapia, em que uma cigana lhe dissera para visitar o túmulo de Santiago em Espanha. E assim o fez.


Conheci uma mexicana, linda, jovem, que chegou ao refúgio triste, muito emocionada, a quem vi chorar num canto da sala após o jantar. Foi ter com o cura, que lhe disse para voltar àquele sítio depois que chegasse a Santiago. Estava de volta alguns dias depois. Era outra mulher, havia encontrado a paz; caminhava para curar a tristeza da mãe recém-falecida. Diz que o Caminho a curou. Acreditei de imediato. Coisas do Caminho.

Recebi um rapaz que também viajava para curar sua alma triste. Levava na mochila as cinzas do pai, que havia feito o mesmo trajeto no ano anterior. Disse que lhe prestava uma homenagem e que em muitos momentos na caminhada sentia que o pai lhe acompanhava. Estava feliz porque descobrira que a morte não existe, foram suas palavras, e o Caminho o estava curando, pasito a paso. Anos depois li a mesma história num livro e também assisti a um filme cujo enredo se assemelha muito a esse. O Caminho cura.



Neil Peart não é um peregrino a Santiago, mas sua história é parecida com a dos peregrinos citados acima. No período de um ano, pouquinho mais talvez, perdeu a filha única em um acidente de carro e meses mais tarde, a esposa, de um câncer avassalador. O Neil é um cara famoso, baterista da mais prestigiada banda de rock canadense, o Rush, e escreve tão bem quanto maneja suas baquetas. Em A estrada da cura ficamos conhecendo sua história sob a perspectiva do luto. Neil viaja para curar sua “pequena alma de bebê”, como ele escreve. Enquanto atravessa o Canadá, os Estados Unidos e o México de moto vamos acompanhando sua jornada externa e também sua viagem interior pela estrada da cura.

Há muito para se refletir num relato como esse. Pensei em muitas coisas enquanto lia essa obra. Talvez seja necessário ter passado por alguma experiência semelhante na vida para poder entender o sentimento de Neil, sua conduta enquanto a viagem se desenrola.


Talvez porque tenha perdido meu pai enquanto estava viajando e não ter podido voltar a tempo para me despedir eu tenha entendido uma fração do que é estar sozinho vivenciando o processo de luto. No meu caso, não foi uma atitude opcional, diferente do Neil que partiu para buscar algum tipo de conforto bem longe de casa, montado numa moto sem rumo totalmente definido e sem tempo de voltar.

(...) Logo no início desse duplo pesadelo, lembro de ter pensado: “Como alguém sobrevive a uma coisa dessas? E, se sobrevive, em que estado esse alguém ressurge do outro lado?

(...) Viajar tem me proporcionado pequenos momentos de Verdade e Beleza (estradas, paisagens, vida selvagem) e até mesmo alguns momentos efêmeros em que curto a vida novamente. Ainda há lágrimas e humores sombrios, e aquele onipresente “buraco negro profundo”, mas é sempre melhor estar em movimento.


O autor constrói sua narrativa com a ajuda de cartas, inúmeras cartas e postais que enviava a pessoas mais próximas, especialmente seu melhor amigo, Brutus. Aliás, não bastasse a perda da mulher e da filha (e também do cachorro), Neil ainda teve que suportar a tristeza de ver seu melhor amigo ser preso, por conta de um ato ilícito de comércio de ervas. Como se vê, nada é tão ruim que não possa piorar, mas isso faz parte do jogo. Diz Ramakrishna, grande mestre indiano, que o Universo é uma grande lila (em sânscrito, “brincadeira”, “jogo Divino”) do Senhor, em que jogamos o jogo de viver. Creio que o Neil entenderia muito bem essa metáfora.


Não é preciso dizer que cruzar dois ou três países montado em uma moto bacana sugere uma experiência cheia de aventuras. Elas aparecem, mas na narrativa do Neil tudo é muito comedido, o que fez com que eu criasse uma imagem muito simpática dele, de um homem que não escreve para se gabar de seus atos, porque fácil seria botar uma banca de Hell’s Angels e sair contando vantagens, mas longe disso. E ele bem que poderia.

Pode ser que o luto humanize mais as pessoas, que nesse jogo divino a lição seja a de que somos seres indefesos, por mais que tentemos nos valer de armaduras e máscaras; não há como fugir do destino que nos aguarda inevitavelmente ali na esquina, a morte. Há quem possa afirmar não ter medo de morrer, mas dificilmente haverá alguém que não tenha medo de perder uma pessoa amada, um ente querido. A morte sempre será temida, é um fato, mas é preciso sempre arrumar forças para conseguir continuar na brincadeira até que chegue sua própria vez.


(...) Eu não tinha um motivo de verdade para continuar, não tinha interesse algum na vida, no trabalho ou no mundo lá fora. Mas, ao contrário de Jackie, que sem dúvida desejava a própria morte, eu parecia estar blindado por algum instinto de sobrevivência, algum reflexo interno que se atinha à convicção de que “algo aconteceria”.

Devido a uma força (ou falha) de caráter, nunca me questionei “por que” deveria sobreviver, mas apenas “como” o faria – embora essa fosse uma questão relevante o suficiente para ocupar minha mente na época. (...) Eu não sabia, mas ao longo daquele tempo de luto, tristeza, desolação e completo desespero, alguma coisa dentro de mim parecia determinada a seguir em frente. Algo aconteceria.

(...) De qualquer maneira, agora eu partia com a minha motocicleta para tentar descobrir que tipo de pessoa eu me tornaria e em que tipo de mundo eu viveria.


E então foi assim que Neil decidiu tentar se curar, viajando solitariamente por longas estradas. Não que tenha sido essa sua primeira busca de ajuda; passou por outras etapas, comum nesse processo de luto: terapia, conforto de amigos e parentes, leitura de obras específicas sobre o tema, até chegar ao ponto de “abandonar o lar”. De novo, como sempre, a clássica jornada mítica do Herói que parte em uma jornada de busca. Por tudo o que viveu e sofreu, ao fim da leitura podemos sentir que Neil cumpriu com sucesso sua jornada de Herói.


Apesar de ter gostado bastante da leitura, não acredito que agradará a qualquer leitor: é preciso que haja alguma empatia com o autor, que a todo instante, entre chegadas e partidas, retoma o melancólico tema da perda. Faz parte do luto contar e recontar o trágico, como se com o tempo a dor fosse se diluindo até que continuar vivendo não se torne um fardo. Quem nunca perdeu alguém que amasse muito, os pais, um irmão, um filho ou um amigo íntimo, talvez se sinta entediado com a narrativa do Neil. Por outro lado, aqueles que perderam uma pessoa amada hão de se beneficiar com essa leitura, uma vez que o autor consegue passar uma mensagem sincera do que é conseguir continuar levando a vida quando uma parte de você foi embora para sempre.


(...) Naquela manhã, eu havia escrito um título otimista na frente do meu diário, “A estrada da cura”, e depois de uma salada e de um “combo triplo” de costelinhas, souvlaki e camarão, escrevi as seguintes reflexões sobre o tema:

Enquanto me empanturrava, eu pensava que me sinto melhor hoje à noite do que jamais me senti em amis de um ano. Alcancei a “imersão” na Jornada, o que costumava ser um estado de espírito obrigatoriamente limitado: principalmente quando era interrompido pelo trabalho. Ou pelo fim da jornada. Na presente situação, nenhuma das duas coisas é uma possibilidade real...

Talvez hoje tenham sido 950 quilômetros de cura. “Não é sempre agradável pensar isso?”

Esta frase final de O sol também se levanta, obra de Ernest Hemingway, tinha adquirido um sentido novo para mim nos últimos tempos, na ironia consciente de alimentar um desejo sem acreditar na sua possibilidade. Eu não acreditava realmente que chegaria ao destino chamado “cura”, mas pelo menos eu havia começado a acreditar na estrada, e isso era o suficiente para me manter rumo ao oeste.

“Você pode levar essas rodas até o final da estrada. Você ainda encontrará o passado logo atrás de você.”

Neil Peart


Leia: Ghost Rider – a estrada da cura. Neil Peart. Ed Belas Letras, 2014.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O cavaleiro preso na armadura, by Robert Fisher

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Terminei de ler uma obra estimulante - uma biografia – da Karen Armstrong, famosa escritora britânica especialista na temática da religião. Eu conhecia os textos da Karen apenas sob o ponto de vista acadêmico, quando li na faculdade uma obra dela que versava sobre o islamismo, O Islã, merecedora de muitos elogios e sem dúvida uma excelente porta de entrada para o universo dessa religião ainda muito mal compreendida.

Em A escada espiral, seu livro de memórias, Karen Armstrong escreve sobre a sua vida desde o momento em que decide, ainda muito jovem, entrar para um convento com a firme convicção de encontrar Deus e viver a sua fé nele de maneira integral, junto a seus pares, por los siglos de los siglos, amém.  Mas nada disso acontece e, além de não encontrar Deus na clausura, a moça deixa a ordem menos crente do que quando havia ingressado. Daí em diante você terá que ir atrás por conta própria, porque a vida da Karen realmente merece um livro. Ou vários.


Não é propriamente sobre a Karen Armstrong que vou escrever, mas foi uma passagem de suas memórias espiraladas que me fez querer escrever sobre outra obra que li também recentemente e que fala sobre uma viagem, mas uma viagem no sentido mais simbólico do termo. Trata-se de um pequeno livro intitulado O cavaleiro preso na armadura, que ganhei de um grande amigo peregrino e que li de uma tirada só, comendo páginas feito traça de papel.

A história, escrita por Robert Fisher, é uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade (subtítulo da obra). Como todas as fábulas, você tem a impressão de estar diante de uma leitura voltada para o público infanto-juvenil. Mas, assim como o herói dessa história, é preciso enxergar o mundo para além das aparências- o que parece ser apenas um discurso bonito, mas na verdade nada mais é do que um grande ensinamento que implica, sobretudo, no confronto desconfortável com o próprio ego, uma dura batalha em se tratando de uma sociedade narcisista e ególatra como a atual.


Em poucas linhas, a narrativa gira em torno de um cavaleiro desses de conto de fadas que percorre caminhos em busca de aventuras: matar dragões, lutar contra inimigos, resgatar donzelas em apuros, tudo o que faz parte de nosso imaginário medieval. Para além de suas destrezas, o cavaleiro era conhecido mesmo por conta de sua armadura, tão linda e brilhante que, quando partia para a batalha, “os aldeões podiam jurar que tinham visto o sol nascer no norte ou se pôr no leste”.


O cavaleiro tinha uma esposa, um filho e um castelo bacana, mas andava sempre tão ocupado em estar pronto para lutar em alguma batalha que mal conseguia dar atenção à sua família; sua fixação em estar sempre pronto para partir o levou a viver constantemente vestido com sua armadura até que chegou um dia em que não mais conseguia tirá-la. Como sua esposa já não mais aceitava conviver com essa situação, acreditando que o marido não tirava a armadura porque não queria - e não porque não conseguia -, o cavaleiro resolveu partir e só voltaria ao castelo depois que conseguisse se livrar da prisão de sua própria armadura.

O chamado da busca, portanto, fica claro no conto: é preciso partir para encontrar uma solução, uma vez que a “cura” só é alcançada no exílio; é o afastamento que promove a transformação, que facilita a busca de uma solução que só chega quando nos encontramos distanciados daquilo que nos faz sofrer ou que nos impede de enxergar, que é bem o caso do cavaleiro dessa fábula.


É aqui que entra a Karen Armstrong, fazendo a ponte que une o conto do cavaleiro com o mito do herói, bem ao estilo do Joseph Campbell. Diz a Karen que os grandes mitos mostram que quem segue rumo alheio acaba se perdendo. E prossegue:

“O herói tem de partir sozinho, abandonando o velho mundo e os velhos hábitos. Tem de aventurar-se na escuridão do desconhecido, onde não existe mapa nem caminho visível. Tem de combater seus próprios monstros – não os monstros de outrem -, explorar seu próprio labirinto, sofrer sua própria provação para poder encontrar o que lhe falta. Assim transfigurado, pode levar algo de valor para o mundo que ficara para trás.”


“Todavia, se o cavaleiro percorre uma rota já estabelecida, está apenas seguindo pegadas alheias e não viverá uma aventura. Se quer triunfar, tem de entrar na floresta, diz o texto, em francês arcaico, de A busca do Santo Graal, ‘num ponto em que ele mesmo escolheu, onde a escuridão era maior e não havia caminho’. Na terra árida da lenda do Graal, as pessoas levam vidas inautênticas, cumprindo cegamente as normas da sociedade e fazendo só o que os outros esperam delas.”

Voltando ao conto, o cavaleiro decide procurar o rei antes de entrar na floresta, mas este se encontrava ausente, participando de uma nova cruzada; quem lhe informa isso é um bobo da corte, que estava sentado junto à ponte levadiça do castelo. No breve diálogo que se segue entre os dois, o cavaleiro descobre que a única pessoa que pode lhe ajudar é o Mago Merlin, que o bobo garante estar vivo, morando “nas florestas além”. E tudo isso acontece no primeiro dos sete capítulos do livro.


Só vou adiantar, para não estragar a surpresa, de que o cavaleiro de fato encontra Merlin na floresta, depois de muito tempo buscando seu rastro; é o mago quem lhe oferecerá a chave que o libertará de sua armadura, mas toda liberdade tem um preço. A incumbência que Merlin dá ao cavaleiro é a seguinte: ele terá que trilhar, a pé, o Caminho da Verdade, tendo como companhia um esquilo e um pássaro; nesse caminho terá de atravessar três castelos que bloqueiam seu passo: o primeiro castelo chama-se Silêncio, o segundo Conhecimento e o terceiro, Vontade e Ousadia.

O conto se desenrola à maneira das fábulas de antigamente, que dizem muito além daquilo que se percebe na aparência superficial dos lugares comuns e finais felizes; estão lá os velhos chavões, os mesmos vícios de linguagem dos contos infantis, as mesmas morais revestidas de autoajuda, mas nada disso importa. A mensagem é mais forte do que qualquer uma dessas convenções e quem não liga para isso se diverte muito mais.


A fábula de Robert Fisher tem força suficiente para comover o leitor que busca uma leitura singela, sem grandes pretensões literárias – mesmo porque a intenção do autor seguramente foi a de fazer com que sua história tocasse o leitor num nível mais profundo, fazendo-o pensar em sua própria condição de “cavaleiro preso em uma armadura”, metáfora apropriada que cabe, em algum momento, na experiência de vida de todos nós.

De fato, cada pessoa fará sua própria interpretação do texto, uma vez que a linguagem metafórica possui essa liberdade interpretativa. O que representa uma armadura para você? O que você entende por liberdade? Qual a importância do amor em sua vida? Qual a sua busca? São questões como estas que o autor se propõe a responder nessa fábula, na verdade um apanhado sucinto dos ensinamentos do grande estudioso Joseph Campbell, que dedicou toda sua vida à compreensão da busca humana tendo como chave de interpretação os mitos das mais diversificadas culturas e religiões do planeta.


A Karen Armstrong, ao se recordar de seus estudos religiosos, disse que estes lhe mostraram que a busca (religiosa) não tem a ver com descobrir “a verdade” ou “o sentido da vida”, e sim com viver, de maneira mais intensa possível, no aqui e agora; não se trata de cultivar uma personalidade sobre-humana ou ir para o céu, mas de descobrir como ser inteiramente humano. Essa ideia casa-se perfeitamente com o cavaleiro preso na armadura, daí a minha surpresa ao pegar-me lendo ao mesmo tempo duas obras tão distintas e encontrar em uma delas passagens que afirmam e amplificam a linguagem simbólica da outra. Uma coincidência muito bem-vinda.

Finalizo com a Karen, que em poucas palavras dá uma aula de como uma obra como a do cavaleiro de Robert Fisher pode nos ajudar a reinterpretar a vida e, quem sabe, colocar em prática as tarefas necessárias para uma mudança integral que nos leve em direção ao equilíbrio e à paz interior.


“Os mitos e as leis da religião são verdadeiros não porque se coadunam com uma realidade metafísica, científica ou histórica, e sim porque enaltecem a vida. Contam como a natureza humana funciona, mas, para descobrir sua verdade, é preciso aplicá-los à própria existência e colocá-los em prática. Os mitos do herói, por exemplo, não surgiram para nos fornecer informações históricas sobre Prometeu ou Aquiles – nem sobre Jesus ou Buda. Seu objetivo é compelir-nos a agir de tal modo que revelemos nosso próprio potencial heróico.”
Leia:

O cavaleiro preso na armadura: uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. Robert Fisher. Ed Record, 2012.


A escada espiral: memórias. Karen Armstrong. Companhia das Letras, 2005.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os devaneios do caminhante solitário, by Jean-Jacques Rousseau

.Comprei por impulso, por causa do título, um pequeno volume da coleção pocket da L&PM intitulado Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor que me remetia às aborridas aulas de história da época do ginásio.

Para minha surpresa, o velho e sábio Rousseau me fez mudar radicalmente de opinião, mesmo antes de terminar, com muita satisfação, a leitura de seus devaneios lá no longínquo século dezoito. Uma espiada na cronologia da vida de Rousseau já entrega: ele não passou à toa por esse planeta não. Veja só:

Nasceu em 1712, em Genebra; sua mãe falece poucos dias após o parto e seu pai o entrega a uma família aos dez anos de idade. Aos 16, com os hormônios a mil, é acolhido por uma jovem viúva de 28, senhora de Warens, a quem chamava freudianamente de “mamãe”. Serão amigos e amantes por toda vida, o que não deixa de ser encantador.




Entre 1729 e 1730 vai bater perna pela França e pela Suíça, depois de viver um tempo em Turim, onde troca o protestantismo pelo catolicismo. Nessa vagamundagem passa um tempo em Annecy, Lyon, Fribourg, Lausanne, Neuchâtel, Berna e Soleure. Prá fechar com estilo, no ano seguinte viaja a Paris. Entre as andanças e algumas longas estadias com “mamãe”, Rousseau se dedica ao estudo da música e vai tão fundo nisso que desenvolve um novo sistema de notação musical, na altura em que chegava aos 30. Palmas para ele.




No verão de 1743 acompanha o embaixador da França em uma viagem a Veneza, e aproveita o dolce far niente para publicar sua Dissertação sobre a música moderna. Deixa Veneza no ano seguinte depois de brigar com o embaixador. Esfria os ânimos ao conhecer Thérèse Levasseur com quem se casará duas décadas depois, pobre moça. Dizem que nesse período o irritadinho Rousseau entrega três filhos a um asilo de crianças. E paro por aqui, porque essa história vai longe. É bom saber que sua vida não foi lá muito tranqüila não, à parte as boas viagens e o reconhecimento intelectual celebrado ainda em vida.

Rousseau causou muita polêmica com suas obras na área da política e da educação o que o levou a ser expulso de alguns lugares, forçando-o a uma vida errante por um período. Por ter sido o primeiro escritor de sua época a atacar a instituição da propriedade privada, é considerado um precursor do socialismo moderno.

O autor de Os devaneios é um homem já no finalzinho da vida, mais comedido, mais sábio e mais romântico também. Nos dez capítulos, enumerados por “Caminhadas” (primeira caminhada, segunda caminhada, etc...) vamos conhecer alguns fatos bastante particulares da vida de Rousseau, o que nos leva a ter uma empatia imediata com ele, pelo menos assim se passou comigo.
O legal é que, mesmo não conhecendo a obra desse grande personagem, filósofo, músico e botânico (grande paixão teve pela botânica o Rousseau), não há como não gostar desse texto antigo com boas sacadas sobre a condição humana. A impressão que se tem é a de que ele saía para caminhar e aproveitava os momentos de solidão e prazer em meio à natureza para repensar a vida e quando voltava para casa punha no papel aquilo que sua mente conseguia organizar. Diz ele que “essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distinção, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis.”

A tradutora dessa pequena edição em português, Julia da Rosa Simões, tem um quê de dedo-duro, achei até graça nisso; em notas de rodapé vai mostrando alguns dos lapsos de Rousseau quanto a citações de autores clássicos e de algumas localidades, o que mostra que ela fez a lição de casa direitinho, toda aplicadinha.



É na segunda caminhada que a coisa toda começa a acontecer prá valer. Dizem que Rousseau tinha mania de perseguição, um preço a pagar por aqueles que dizem o que pensam sem dosar as conseqüências; caminhar, portanto, era uma chance de despistar os mal aventurados que o perseguiam. “Esses enlevos, esses êxtases que sentia algumas vezes ao caminhar assim sozinho, eram prazeres que devia a meus perseguidores: sem eles nunca teria encontrado nem conhecido os tesouros que carregava em mim mesmo.”

Algumas considerações sobre o ato e o hábito de caminhar compartilhadas por Rousseau me trouxeram à memória os escritos de um grande pacifista, o monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh, famoso por ensinar a técnica da meditação em movimento. Já lemos sobre ele aqui no
Odepórica, e vou transcrever um trecho de outra obra desse mestre que ganhei de presente de minha irmã e que é linda, tanto em sua aparência, com ilustrações tocantes de Mayumi Oda, quanto em conteúdo, simples e profundo como um koan budista. O título do livro é “Present moment, wonderful moment”:



“Nossa mente pula de uma coisa para outra, como um macaco pulando de galho em galho sem descanso. Os pensamentos têm milhões de caminhos, e somos sempre levados por eles para o mundo do esquecimento. Se nós pudermos transformar o local de nossa caminhada em um campo de meditação, nossos pés darão cada passo com consciência plena. Nossa respiração estará em harmonia com nossos passos, e nossa mente estará naturalmente em paz. Cada passo que damos irá reforçar nossa paz e alegria e resultará num fluxo de calma energia que fluirá através de nós. Então podemos dizer: ‘A cada passo, sopra um vento suave’.”



Lembrei-me dessa passagem de Thich Nhat Hanh por causa de outra escrita por Rousseau na segunda caminhada, que diz assim:

O hábito de entrar em mim mesmo por fim me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus maces; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz. Há quatro ou cinco anos experimentava essas delícias internas que as almas afetivas e suaves encontram na contemplação.

Na terceira caminhada os pensamentos ganham maior profundidade: Rousseau reflete sobre a morte, afirmando que o estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer e que ficará feliz se conseguir aprender a sair da vida mais virtuoso do que nela entrou.

Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas obras foram para essa mesma vida, vêem a seu fim que trabalharam em vão. Todos os seus esforços, todos os seus bens, todos os frutos de suas laboriosas vigílias, tudo é deixado quando partem. “Não pensaram em adquirir algo em suas vidas que pudessem levar na morte”.




Para Rousseau, a sociedade parece ser a origem de todo o mal, no sentido de uma maldade que tem como conseqüência a desconexão do homem com a sua divindade interior, ou Eu superior, como queiram chamar. Suas escapadas, de certo modo, eram o antídoto contra esse mal, trazendo à tona a ideia de que só mesmo a solidão e, se possível, o contato com a natureza, fossem capazes de aliviar o sofrimento de uma alma apartada.

A meditação no recolhimento, o estudo da natureza, a contemplação do universo forçam um solitário a se erguer de maneira constante ao autor das coisas e a procurar com uma dúvida inquietante a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando meu destino me lançou na torrente da sociedade, não encontrei mais nada que pudesse deleitar por um instante meu coração.

Aos quarenta anos, “na maturidade e com toda a força do entendimento” Rousseau determina um turning point em sua vida: a mudança se faz necessária, pois o homem, palavras suas, precisava de “uma regra fixa de conduta para o resto de meus dias”. Essa regra de conduta encontra-se no isolamento, e aqui me lembrei de outra leitura,
Walden, de Thoreau, que também buscou esse afastamento, ainda que temporário, da sociedade.



É dessa época que posso datar minha total renúncia ao mundo e esse gosto vivo pela solidão que não me abandona desde então. A obra que iniciava só poderia ser realizada em retiro absoluto; exigia longas e serenas meditações que o tumulto da sociedade não permitia. Isso me obrigou a levar por algum tempo outro modo de viver, no qual logo me senti tão bem que, tendo-o interrompido apenas à força e por poucos instantes, retomei-o com todo o meu coração e a ele me limitei sem dificuldade assim que pude, e quando a seguir os homens me obrigaram a viver sozinho, descobri que ao me isolarem para me tornar miserável eles haviam feito mais por minha felicidade do que eu soubera fazer por mim mesmo.

Na quarta caminhada é hora de questionar-se sobre a mentira e sua memória volta aos dezesseis anos, fazendo-o sofrer horrores por conta de uma falsa acusação de roubo, episódio de sua vida que só nos resta lamentar. Dessa caminhada anoto um belo ditame: “Se é preciso ser justo com o próximo, é preciso ser verdadeiro consigo mesmo; é uma homenagem que o homem honesto precisa render à sua própria dignidade”. Falou bem.




Quinta caminhada: uma ode ao ócio. Deliciosa seqüência de dias passados às margens do lago de Bienna, na Suíça, uma região “pouco freqüentada por viajantes (...) mas interessante para os solitários contemplativos que gostam de se embriagar à vontade com os encantos da natureza e se recolher num silêncio não perturbado por outro barulho que o grito das águias e o rumor das águas que caem da montanha...”

Não conheço a obra de Rousseau, mas no tocante a esse livro, não veremos tantos momentos de felicidade quanto os que ele descreve naqueles meses de descanso na casa do lago e tudo soa tão bonito, e tão verdadeiro, que temos vontade de viver a mesma experiência por ele vivida ali.

Considero aqueles dois meses o momento mais feliz de minha vida, tão feliz que foi suficiente para toda a minha existência, sem deixar nascer uma única vez em minha alma o desejo de outro estado.
Na sexta caminhada é hora de falar sobre as boas ações e suas observações sobre o ato de fazer o bem ao próximo são bastante lúcidas: “vi que para fazer o bem com prazer seria preciso agir com liberdade, sem coação, e que para perder toda a doçura de uma boa ação bastaria que ela se tornasse um dever”. E filosofa, lá no finalzinho do capítulo: “Nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim em nunca fazer o que não quisesse.”

O momento de maior devaneio, e que mais me surpreendeu, aconteceu na caminhada seguinte, a sétima. O mote desse capítulo é a paixão de Rousseau pela botânica e, por extensão, a natureza em geral. Não fosse Rousseau quem fosse, eu diria que ele andava enamorado de alguma religião ou filosofia oriental; é certo que o homem quando em contato direto com a natureza e afastado da vida mundana se volta mais para o interior, o próprio meio o convida a isso. Não à toa, grandes mestres de variadas ordens religiosas ou espiritualistas buscaram momentos de solidão em ambientes isolados de bosques, montanhas, desertos ou cavernas.

Para alguns, o contato mais íntimo com a natureza pode levar a algum tipo de transcendência (um samadhi, para usar uma expressão do hinduísmo), especialmente se é isso o que se busca. Percebi lampejos desse sentimento de transcendência, não sei bem se é este o termo adequado, em algumas passagens que transcrevo a seguir:




Quanto mais o contemplador tiver a alma sensível, mais se entregará aos êxtases que essa harmonia lhe provoca. Um devaneio doce e profundo se apodera de seus sentidos, e ele se perde com deliciosa embriaguez na imensidão desse belo sistema com o qual se sente identificado. Todos os objetos particulares lhe escapam; ele nada vê e nada sente senão no todo. É preciso que alguma circunstância específica restrinja suas ideias e circunscreva sua imaginação para que possa ver em partes esse universo que se esforçava por abarcar.

(...) Essa maneira de pensar, que sempre reduz tudo a nosso interesse material, que em tudo procura proveito ou remédios e que faria olharmos para toda a natureza com indiferença se sempre estivéssemos bem, jamais foi a minha (...) só encontrei verdadeiro encanto nos prazeres do espírito ao perder de vista os interesses de meu corpo.





(...) Não, nada de pessoal, nada que diga respeito ao interesse de meu corpo pode ocupar de verdade minha alma. Nunca medito, nunca sonho de maneira mais prazerosa do que quando esqueço de mim mesmo. Sinto êxtases, encantamentos inexprimíveis, que me dissolvem, por assim dizer, no sistema dos seres, que me identificam com toda a natureza.

A oitava caminhada eu passo. Vou direto para a nona, bonita caminhada que empeça assim: “a felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo”. Filosofa feito sábio budista ou hindu, algumas linhas mais à frente, quando afirma: “Tudo muda à nossa volta; nós mesmos mudamos, e ninguém pode garantir que amará amanhã aquilo que ama hoje. Assim, todos os nossos projetos de felicidade nessa vida são ilusões. Aproveitemos o contentamento do espírito quando ele ocorre...”. Depois não diga que não reparou.



Nessa caminhada chama a atenção o fato de Rousseau se dirigir às crianças com enorme carinho, o que me fez pensar se isso não tem alguma relação com os filhos que deu para adoção, embora aqui os sentimentos sejam da mais pura alegria; no final, não deixa de ser uma metáfora: os pequenos são a expressão da felicidade justamente por conta de sua natureza simples e aberta e é isso o que Rousseau tenta nos dizer com essa caminhada, que a felicidade encontra-se nas pequenas coisas, nos pequenos prazeres, na soma das pequenas alegrias que temos ao longo de nossa existência.

Enfim, chegamos à décima e última caminhada do sábio peregrino solitário. Está inacabada, mas suas palavras se dirigem todas à mulher que primeiro amou, a senhora de Warens. É uma bonita declaração póstuma, onde o autor abre o coração e agradece “à melhor das mulheres”, como ele a chama. Quase sem querer é que percebemos que o gosto pela solidão já estava latente no coração do jovem Rousseau, quando afirma categoricamente: “Preciso me recolher para amar”.





Leia: Os devaneios do caminhante solitário. Jean-Jacques Rousseau. L&PM, outono de 2010.

Na vitrola: Eight String Religion, obra prima de David Darling.



sábado, 8 de outubro de 2011

Viagens, by Paul Bowles

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Comprei um Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon e estou muito contente com o brinquedo. Baixei muitos títulos e me surpreendi com a quantidade de boas obras de literatura odepórica disponíveis gratuitamente na web. Veja alguns deles: Selections from Strabo (1893), Journal of a voyage to Brazil (Maria Graham, 1824), Travels with a Donkey in the Cevennes (Robert Louis Stevenson, 1914), The Traveller (Oliver Goldsmith, 1882), A little tour in France (Henry James, 1885) e Pictures of travel (Heirich Heines, 1882), só para citar alguns, todos em domínio público.

Também comprei alguns títulos, entre eles o último lançamento de um dos meus escritores mais queridos, Paul Bowles (1910-1999). A obra, ainda não lançada no Brasil, intitula-se Travels: collected writings, 1950-1993. Como o título indica, o livro é um apanhado de textos que Bowles publicou em jornais e revistas durante mais de quatro décadas.
São muitas as surpresas que encontramos nessa coletânea de textos de viagem do Bowles. A começar pela introdução, a cargo de ninguém menos do que Paul Theroux, um dos grandes da literatura odepórica contemporânea.

Além da introdução cativante de Theroux, ainda temos outras preciosidades que enriquecem a obra de um modo geral, não bastasse os textos preciosos do próprio autor. É o caso da cronologia no final da obra, escrita por Daniel Halpern, que teve o cuidado de enumerar os fatos mais marcantes da vida do escritor ano a ano, desde seu nascimento até seu suspiro final. Didático e preciso, como toda boa cronologia, deve ter dado um trabalho e tanto para o Mr Halpern.

Um capítulo que logo de cara me chamou a atenção foi o que faz referência a The Sheltering Sky, que está para Bowles assim como On the road para Kerouac: The Sky (O Céu). Foi o primeiro que li, logo depois da introdução. É um texto curto, retirado de uma obra de 1993, chamada Portraits Nudes Clouds que pelo que andei pesquisando foi editada por um artista e fotógrafo italiano chamado Vittorio Santoro juntamente com Bowles, sendo que um entrou com as imagens e o outro com os textos.
O céu sempre foi uma referência na obra de Paul Bowles, tocado que foi em vida pelas paisagens saarianas. E me pego agora, folheando novamente sua autobiografia, lendo uma passagem que grifei numa leitura anterior, em que Bowles fala justamente do céu:

No trem que partira de Chicago rumo ao Sudoeste eu via o céu tornando-se mais limpo e claro e sentia que mais uma vez a vida se abria para mim e ganhava sentido - uma sensação indefinida que tenho inexplicavelmente quando me dirijo a regiões desconhecidas.
E é interessante demais o excerto garimpado do livro de fotografias, tanto que não resisto em copiar um pedacinho dele aqui:

O ambiente de uma cena que testemunhamos na vida é determinado em grande medida pela luz projetada sobre nós a partir de cima. Como um mestre eletricista, o céu fornece uma variedade infinita de efeitos luminosos sobre nossas ações, ajudando a moldar até mesmo as emoções que as acompanham.
Há o lento escurecer do crepúsculo para a troca de intimidades, a luz do sol inundando uma manhã de primavera - um sentimento irracional de prazer, a escuridão da noite quando nenhuma luz cai do céu e cada um se torna vítima de suas próprias fantasias, o cinza, luz indiferente de um céu encoberto no verão, um estímulo à indolência.

O resto é ainda mais bonito, uma sucessão de insights lindos e poéticos que ganham nas mãos de Bowles uma dimensão quase espiritual. Como ele diz lá na frente, “é uma mera questão de observação, a performance vem do céu...”

E um bom viajante tem esse diferencial, o de saber observar tudo o que se encontra à sua volta, observar de maneira a entender o que acontece fora de si, para depois, contando com o referencial de suas próprias experiências de vida, construir os alicerces que formarão o ser em sua mais completa essência. Esse ponto jamais poderá ser alcançado por aqueles que viajam (em todas as acepções do termo) mantendo uma observação passiva sobre os acontecimentos que se desenrolam à sua frente.

Paul Bowles viajou muito, e suas andanças o levaram a diversas partes do mundo; deslocou-se com alguma frequência entre os Estados Unidos, a Europa e o norte da África, tendo vivido suas últimas cinco décadas de vida em Tânger, no Marrocos. Diz ele em sua autobiografia:
Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui agora, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.

E grande parte desses deslocamentos de Paul Bowles pelo mundo aparece documentada de alguma maneira em Travels; a própria divisão dos capítulos já dá uma ideia da cronologia de suas viagens, contemplando diversas cidades e países: Fez, Paris, Tânger, Sri Lanka, Quênia, Cabo Verde, Portugal, Espanha, Tailândia..., só para citar algumas das localidades. Fotos aqui e ali ajudam a entrar ainda mais no clima enfeitiçante das viagens de Bowles. E o resto você só saberá mesmo ao ler a obra, torcendo para que ela seja publicada por aqui.
O editor da obra faz um lembrete importante: Bowles já havia publicado um livro com suas narrativas de viagem no ano de 1963, com o peculiar título Their heads are green and their hands are blue (literalmente, “Suas cabeças são verdes e suas mãos são azuis”), um apanhado de artigos publicados originalmente em revistas. A pequena nota editorial de Mark Ellingham termina lembrando que os diários de viagem de Paul Bowles foram uma amostra da grande qualidade literária de sua prosa, ganhando um papel de destaque em sua obra e em sua vida.

A seguir vou transcrever alguns trechos da introdução que Paul Theroux fez da coletânea Travels, de Paul Bowles.
O Paul Bowles estereotipado é um sujeito talentoso, enigmaticamente exilado, elegantemente vestido, com um cigarro entre os dedos, curtindo luxuriosamente o por do sol marroquino, ocasionalmente oferecendo suas ficções alarmantes e bem polidas a boa parte do mundo.

Esse retrato tem uma dose de verdade, mas há muito mais a saber sobre ele. Com certeza, Bowles tinha estilo, e um livro de sucesso. Mas um único livro, ainda que muito popular, dificilmente garante uma renda regular. E, afora a questão do dinheiro, a vida de Bowles era complicada emocionalmente, sexualmente, geograficamente e, sem dúvida, criativamente.

Um homem engenhoso – como costumam ser os exilados ou expatriados – Bowles teve muitas maneiras de expressar sua imaginação. Fez nome como compositor, escrevendo música para um grande número de filmes e peças de teatro. Foi um etnologista musical, um precursor em gravações de canções e melodias tradicionais de remotas vilas no Marrocos e no México.

Escreveu romances, contos e poemas, traduzindo textos do espanhol, do francês e do árabe, além de produzir mais de uma dúzia de livros com o contador de histórias marroquino, Mohammed Mrabet. De modo que o lânguido e desprestigiado estereótipo dá lugar a um homem muito ocupado, altamente produtivo, à beira de uma estafa.
(...) Foi um homem bonito e duro de impressionar; observador, solitário e que conhecia sua própria mente; seu espírito de aceitação, mesmo das fatalidades, fez dele um viajante ideal. Ele não era muito de gastronomia – como se vê em sua ficção, a comida repugnante (por exemplo, um ensopado de pele de coelho) lhe interessava mais do que a alta gastronomia.

Tinha paixão pelas paisagens e o efeito em que causavam no viajante... Era fascinado pelas ambientações celestes e se empolgava com o grotesco, onde quer que a deformidade pudesse ser encontrada. Desdenhava o progresso e a tecnologia, chamando certa vez a modernidade de “gangrena do século vinte”.

(...) Bowles teve a sorte de escrever em uma época em que as revistas de viagem ainda acolhiam bem ensaios longos e repletos de reflexão. Escreveu artigos para várias revistas de prestígio e foi publicado em diversas coletâneas de ensaios. Também escreveu um artigo para a revista Holiday sobre haxixe, outro de seus entusiasmos, lembrando que ele nunca deixou de ser um cara chapado.

Sabia bem o que curtia numa viagem, e também o que o aborrecia: “Se eu tiver que encarar a decisão de escolher entre visitar um circo e uma catedral, um café e um monumento público, uma festividade ou um museu, receio que normalmente eu optaria pelo circo, pelo café e pela festa”.

Não importa para quem ele está escrevendo, uma revista de viagem ou uma pomposa publicação trimestral, ele sempre soa feliz e frequentemente engraçado. (...) Sua rica vivência do mundo lhe capacitou a escrever sobre viagem, e um dos melhores ensaios de Travels, (“The Challenge to Identity”) faz uma análise da literatura de viagem:

O que é um livro de viagem? Para mim é a história daquilo que aconteceu a uma pessoa em um determinado lugar, e nada mais do que isso; sem conteúdo de informações sobre hotéis e estradas, listas de frases úteis, estatísticas ou dicas de vestimentas necessárias ao visitante. Pode ser que tais livros pertençam a uma categoria destinada à extinção. Espero que não, porque não há nada de que eu goste mais de ler do que um relato preciso de um escritor inteligente daquilo que aconteceu com ele distante de casa.
Assim que finalizei a leitura de Travels, voltei a ler a introdução de Paul Theroux e vi que ele escolheu passagens realmente significativas da obra, o que não é uma tarefa muito fácil porque estamos falando de um livro de 513 páginas com muitas informações dignas de serem lembradas em uma apresentação ou resenha.

Evidentemente isso é uma questão pessoal; no meu caso, selecionei tantas passagens da obra (e o Kindle facilita muito esse processo) que teria que escrever pelo menos uns três posts para poder contemplar a todas; procurando ser objetivo, selecionei dois momentos, os quais têm um peso fundamental na obra e vida de Bowles. Um fala do deserto, o outro de Fez, cidade marroquina por ele tão amada.
O deserto (e suas adjacências) sempre foi o grande personagem das obras de Bowles. Não é apenas um pano de fundo, como um local de grande efeito cênico. Se você leu (ou assistiu) O céu que nos protege, então sabe do que estou falando aqui, porque tudo o que acontece naquela trama não teria tamanha profundidade e efeito transformador nos personagens se estes não estivessem viajando pelo deserto.

É a velha noção, que Bowles soube captar tão bem em sua obra, de que somente a solidão pode te levar de encontro ao self. Solidão, claro, num duplo sentido: a física e a psíquica, de modo que a geografia acaba sendo um agente facilitador desse processo de transformação interior. Uma experiência para poucos, vale lembrar.
E há os que vivem voltando ao deserto, aficionados que são pelas solitárias rotas esquecidas pela civilização. Por que será? O que há de tão cativante nessas paragens tão cheias de dificuldades? Há muitas respostas e a de Bowles é a seguinte:

Quando um homem esteve no deserto e sobreviveu ao batismo da solidão ele não consegue mais se ajustar por si só; uma vez que ele esteve sob o feitiço da vasta, luminosa e silenciosa região, nenhum lugar será forte o suficiente para ele, nenhum outro ambiente poderá oferecer a sensação de suprema satisfação de existir em meio a algo que é absoluto. Ele voltará, seja o preço que for, porque o absoluto não tem preço.
O que mais me agradou em Travels foi poder encontrar numa única obra várias faces do pensamento de Bowles e perceber, através dos relatos de suas viagens ao longo de quarenta anos, que ele nunca se posicionou de maneira contraditória; sua identidade não mudou no meio do percurso e mesmo no final da vida seu texto continuou com a mesma força e carisma de sempre.

Gosto muito quando ele escreve sobre o comportamento humano dos marroquinos, de como escreve sobre Fez, cidade cujos habitantes não têm vergonha de seu hedonismo, como afirma Bowles, ele próprio um tremendo hedonista, traço de caráter também comum aos seus colegas da geração beat; Bowles foi amigo de Allen Ginsberg (que junto com Burroughs perambulou pelo Marrocos) que o incentivou a publicar, pela City Lights (a mítica editora de Lawrence Ferlinghetti) um livro sobre o uso do Kif, como a marijuana é chamada pelas bandas marroquinas. Em Travels, de lambuja, você encontra um capítulo falando disso, e a obra foi lançada mesmo, em 1967 com o título Book of Grass, ou “O Livro da Maconha”. Direto ao ponto.
Antes de encerrar, vamos ler mais um pouquinho do texto de Bowles, um trecho onde ele fala de Fez. Veja como é tocante a maneira como ele narra uma cena comum vivida por uma família em um parque; Bowles sempre soube captar a poesia das coisas mais simples, resultado do olhar treinado de anos de vagamundagem.
Fez não é uma cidade agrada a qualquer pessoa. Muitos viajantes têm uma reação negativa de suas vielas escuras e sinuosas, repletas de pessoas e animais. Qualquer um com tendência a claustrofobia a achará um pesadelo desordenado de túneis, passagens sem saída e paredes sem janelas.

Para absorver o fascínio desse lugar a pessoa teria que ser do tipo que gosta de se perder no meio de uma multidão e de ser levada por ela, não se importando para onde nem por quanto tempo; deve saber ficar relaxada com a ideia de encontrar-se só numa multidão sem poder contar com a ajuda de ninguém; deve saber encontrar prazer nas coisas bizarras e enxergar a beleza onde ela menos tenha chance de aparecer.
Não faz muito tempo, em uma de minhas caminhadas, deparei-me com uma família espalhada no meio de um gramado. Eles estavam sentados silenciosamente em seus tapetes de palha, mas algo em sua atitude coletiva me fez parar e observar mais atentamente.

Foi então que eu vi que, ao redor deles, num raio de talvez trinta metros, havia um círculo de gaiolas, cada qual suspensa por uma estaca fincada no chão. Havia pássaros em todas as gaiolas e eles estavam cantando.
A família inteira sentou-se ali alegremente, ouvindo o canto dos passarinhos. Assim como os habitantes dos centros urbanos carregam consigo seus rádios, eles levavam seus pássaros com eles desde a cidade, exclusivamente como entretenimento.

As mudanças trazidas nos últimos cinqüenta anos desde que vi Fez pela primeira vez são relativamente superficiais; nenhuma delas foi tão drástica a ponto de alterar essa imagem.
Sem dúvida Paul Bowles foi um ser humano singular, um homem que soube captar nuances da vida que pouquíssimos de nós teremos oportunidade ou ousadia de vivenciar. Outros tempos, podemos pensar, mas será mesmo que essa dinâmica de comportamento diante da vida depende desse fator?

De modo que, se a nós não surgiu a oportunidade das experiências desses grandes homens e mulheres, escritores e viajantes, ao menos temos seus testemunhos, que de certa maneira estão aí, indicando caminhos, plantando sementes, acendendo fagulhas. Daí para por os pés na estrada, basta um passo e um tanto de coragem.


Leia
: Travels – Collected Writings (1950-1993). Paul Bowles. Harper Collins Publishers, 2010.

Sobre o Céu que nos protege, a obra mais conhecida de Paul Bowles, já falamos aqui no Odepórica. Se lhe interessar, clique aqui.