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terça-feira, 14 de abril de 2015

O farol de La Jument, by Paco Nadal

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Não sou muito de mar, confesso, porque amo as montanhas e a segurança dos meus pés no chão. Mas um lado meu ama as histórias de aventuras marítimas, sobretudo as de naufrágios e de bravos sobreviventes que acabam indo parar em uma ilha perdida desses mares sem fim. 

Também adoro a imagem dos faróis, tão simbólicos em suas estruturas salvadoras, sua solidão imponente, quem não se encanta? E temos a impressão, nós que vivemos longe do mar, que parecem nem existir os tais faróis que vemos reproduzidos por aí, em pôsteres e quadrinhos mal pintados das lojinhas de souvenir de cidades litorâneas. E foi assim, lembrando de uma imagem, a mesma que você vê aí abaixo, que Paco Nadal se inspirou, durante uma viagem, para escrever sobre uma foto, que é linda e fantástica e cuja história merece ser contada. 
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Como foi feita essa foto? O faroleiro morreu ao ser atingido por uma onda? Eu me fiz essa pergunta quando vi pela primeira vez essa imagem impactante em um pôster já nem me recordo onde. Depois a vi centenas de vezes em lugares diferentes, como você também provavelmente já deve ter visto: é um dos pôsteres mais vendidos em lojas de lembranças e recordações.

E olha onde me encontro hoje: na ilha francesa de Ouessant, na Finisterre da Bretanha, quando tropeço sem querer com a história dessa foto e do faroleiro que a protagoniza.

O farol se chama La Jument e é uma das lanternas de mar mais espetaculares da costa francesa; está a dois quilômetros mar adentro da ilha de Ouessant e foi construído entre 1904 e 1911 para sinalizar um ponto perigosíssimo onde antes houve muitos naufrágios.

A história da foto aconteceu em 21 de dezembro de 1989. O fotógrafo francês especializado em imagens de faróis, Jean Guichard, sobrevoava de helicóptero La Jument em um dia de forte tormenta buscando a foto perfeita dessas ondas gigantes do Atlântico golpeando a estrutura do farol. Dentro, o faroleiro Theophile Malgorn, que naquela época rondava os trinta anos, escutou as repetidas passagens do helicóptero e pensou que algo estranho estivesse acontecendo; podia ser que o piloto estivesse tentando entrar em contato com ele por conta de um naufrágio ou por algum acidente. E em uma atitude insana, abriu a porta para ver o que se passava.

A ação completa durou apenas dois segundos. Guichard viu aquele homem na porta e seu instinto de fotógrafo lhe disse que ali havia uma composição perfeita: o homem e a força da natureza. Pôs-se a disparar sua câmera alucinadamente até quase o momento em que uma onda gigantesca começava a abraçar com toneladas de água embravecida a estrutura do farol. Nesse mesmo instante, o faroleiro Malgorn – assomado junto à porta do farol, escutou uma trovoada seca, como um estampido brutal (o impacto da onda contra a frente do farol) e soube que havia cometido um erro tremendo. Tão rápido como abriu voltou a fechar a porta, apenas um milésimo de segundo antes que a onda arrasasse tudo. Estava vivo por um milagre.

No carretel da câmera fotográfica de Guichard ficaram impressas 9 imagens – as que deram tempo de serem disparadas pelo motor do equipamento e que fariam o fotógrafo famoso por toda sua vida e com as quais, em 1990, conquistaria o segundo lugar na premiação da World Press Photo (o primeiro foi para a célebre imagem de um manifestante chinês parando sozinho uma coluna de tanques de  combate em Tianammen).

O faroleiro Theophile Malgorn continua vivendo na ilha de Ouessant e não quer que ninguém lhe volte a perguntar sobre a maldita foto. Seus amigos me contaram que ele se aborreceu muito naquele momento porque o haviam colocado em uma situação mortal de maneira irresponsável e além do mais por um motivo comercial; ele saiu para ver o que estava acontecendo por profissionalismo e isso quase lhe custou a vida. Mas pouco tempo depois Guichard o visitou em sua casa, presenteou-lhe com uma foto autografada daquele “momento decisivo” – como diria Cartier Bresson – e acabaram ficando muito amigos.

O último faroleiro abandonou La Jument em 26 de julho de 1991, desde então convertido em um farol automático. Theophile é agora um telecontrolador do farol de Creac’h, também em Ouessant. Os vizinhos costumam vê-lo passear com seus cães pelo sendeiro que margeia a costa da ilha, com o olhar perdido no mar bravio batendo nas falésias, observando a silhueta escura dos faróis onde, quando jovem, passou grandes momentos de solidão em um quarto úmido e escuro.

Os faroleiros são (ou eram) gente muito especial. Seres solitários e pouco falantes, artistas com todo o tempo do mundo para escrever, pintar ou esculpir. Filósofos de uma vida que muito poucos teriam sido capazes de suportar.


É por isso que eles acham difícil adaptar-se a uma vida sedentária, controlando um farol diante de um computador em uma sala limpa e aquecida depois de haverem sido os últimos românticos do mar; filósofos solitários que a cada noite acendiam luzes que salvariam vidas de navegantes anônimos que nunca lhes conheceriam nem encontrariam ocasião de agradecê-los. Como Theophile Malgorn. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Viagem, símbolo da iniciação, by Luis Pellegrini.

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Arrumando meus arquivos outro dia, encontrei uma pasta com dezenas de artigos de revistas que guardo como fonte de pesquisa, algo meio antiquado para os dias de hoje, quando se pode encontrar (quase) tudo navegando pela internet; o fato é que ainda costumo recortar matérias de jornais e revistas, arquivando tudo em pastas pretas, aquelas com plásticos, que facilitam a leitura e a busca de algum artigo quando necessário, cada pasta com seu tema específico.

Nessa arrumação puxei da estante uma destas pastas cuja etiqueta, escrita à mão, indica que o material ali guardado trata da temática das “viagens iniciáticas”; nem me lembrava que um dia havia colecionado artigos a esse respeito – e muito menos que o tema tivesse assim tanta repercussão, pelo que me surpreendi ao começar a ler o material colecionado ao longo de mais de duas décadas, em sua maioria artigos de revistas de temática esotérica, como a Revista Planeta, a Sexto Sentido, as extintas Ano Zero e Via Luz, as espanholas Año Cero e Más Allá,  entre outras de menor repercussão.

Dos textos que encontrei, o que mais me agradou, para variar, foi escrito pelo Luis Pellegrini, que já apareceu um par de vezes aqui no Odepórica (links para os posts no final) e que sempre que pousa a caneta no papel produz coisa boa, gostosa de ler. Veja só o seu estilo, de um pequenino texto retirado do seu blog em que ele fala sobre Viagens:

"Viagens são oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós, num peregrino da existência."

Bacana, não? Os textos do luis são sempre assim, instigam a leitura, fazem refletir, apontam caminhos... o que é bem a cara da Revista Planeta, que era a cara do Pellegrini quando ele andava por lá... Enfim, achei que o texto que você lerá a seguir não merecia ficar guardado numa pasta que logo irá acabar numa caçamba de lixo reciclado. Coisas boas sempre devem permanecer - ainda que seja apenas num ambiente virtual. Namastê!
A Viagem, símbolo da iniciação


A profusão de viagens aos lugares estranhos e remotos do planeta foi um dos aspectos da vida de Helena Blavatsky que mais chamaram minha atenção quando pesquisava os escritos de seus diversos biógrafos para produzir o ensaio biográfico Madame Blavatsky, que publiquei em 1986. A partir de 1849, e por mais de duas décadas, a existência da fundadora do movimento teosófico mundial – e uma das mais importantes figuras da renascença ocultista que marcou a segunda metade do século 19 – foi um verdadeiro carrossel de viagens, uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina, museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões.

A vida de Blavatsky, nesse sentido, é análoga à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles essa gana de viagens e de frequentes mudanças de um lugar para outro. Qual seria o motivo que leva tais seres a dedicar grande parte das próprias vidas a essas exaustivas peregrinações? Essa característica, por um lado, está certamente relacionada a uma particular inquietude de alma que distingue tais pessoas dos seres comuns. Por outro lado, é axioma bem conhecidos no ocultismo que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive nefasto.


Mais que qualquer outro estudante, quem se dispõe a trilhar os caminhos do ocultismo deve estar disposto a vivenciar na prática tudo aquilo que aprende através do intelecto. Assim, é fácil entender que viajar a lugares desconhecidos, pelo fato de tirar o indivíduo do seu cotidiano habitual, obrigando-o a estar mais desperto e atento, representa por si só a chance de pôr em prática sua capacidade de adaptar-se a situações novas.

Adaptação, em qualquer escola iniciática que se preze, é sinônimo de inteligência. Sem o desenvolvimento da capacidade de adaptação em todos os sentidos não se vai longe no caminho do crescimento pessoal e do autoconhecimento, que são, afinal, a proposta essencial de todas as escolas, sejam orientais ou ocidentais.


Mas à parte esse seu aspecto prático de permitir que o estudioso viva no plano concreto aquilo que aprendeu na teoria, terá a viagem, em si mesma, um sentido iniciático e transcendental? Será a viagem um ato sagrado? Na época atual do turismo de massa, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível individuar o valor simbólico e sagrado que leva a pessoa a viajar, a mover-se irresistivelmente em direção a uma meta?

O simbolismo da viagem, num enfoque tanto esotérico quanto psicológico, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual. A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior projetado no desejo da viagem exterior. Representa a necessidade de experiências novas, mais que um simples deslocamento físico. Por isso, o psicólogo suíço Carl Jung, ao referir-se ao simbolismo da viagem, disse que ela “indica uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”.


Chevalier e Gheerbrant, em seu Dicionário de Símbolos, explicam que em todas as literaturas a viagem simboliza uma aventura e uma procura, quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento, concreto ou espiritual. “Mas essa procura”, frisam os autores, “no fundo não passa de uma busca e, na maioria dos casos, fuga de si mesmo”, citando como exemplo célebres viagens literárias como a de Ulisses na Odisséia, Enéas na Eneida, a Divina Comédia de Dante, Pantagruel de Rabelais, Gulliver de Swift, ou os contemporâneos On the Road de Jack Kerouac e vários textos de Ernest Hemingway.

Cirlot, autor de outro importante Dicionário de Símbolos, diz que “do ponto de vista espiritual, a viagem nunca é a mera translação no espaço, mas sim a tensão da busca e da mudança determinada pelo movimento e pela experiência que deriva do mesmo”. Em consequência, estudar, pesquisar, procurar intensamente o novo e profundo são modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.


Viagem, portanto, é transformação pelo movimento. E todo movimento busca, consciente ou inconscientemente, o centro. Giuseppe Tucci, um dos maiores orientalistas e exploradores da Ásia deste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas alguma coisa de importante e exemplar sobre o verdadeiro sentido das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com conhecimento de causa, pois, além de ser um grande aventureiro das viagens, conhecera praticamente todos os exploradores importantes deste século. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente, e durante muito tempo, a esperança de descobrir, um dia, para além de qualquer passo esquecido, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera por séculos isolada do resto da humanidade. O mito do reino perdido de Shangri-lá – um dos mais poderosos e duradouros símbolos do reino interno ou espiritual – teve, portanto, cultores ilustres e insuspeitáveis. Mas daquilo que um pensador convencionalmente racionalista poderia considerar uma simples fraqueza, Tucci não ria: “Só quem caminhou semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo... Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia”.


Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas para quem tem na alma a inquietude do viajante, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada no espaço e no tempo, em direção ao centro.

“Os verdadeiros viajante são aqueles que partem por partir”, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a figura do peregrino. Os peregrinos de todos os tempos e lugares constituem um tipo especial de romeiros que aparentemente viajam para atingir lugares que se encontram do outro lado – os santuários, templos, cidades e montanhas sagradas. Na verdade, o que atrai o peregrino é a qualidade especial das experiências que em tais ambientes excepcionais é possível viver.


A viagem como experiência sagrada e iniciática, portanto, acontece em todo o seu percurso, e não apenas no seu ponto de chegada. O maravilhoso, o totalmente diverso que distingue aquilo que é sagrado, manifesta-se no tempo liberado do trabalho e dos empenhos cotidianos. Não porque o trabalho e as tarefas cotidianas não possam ser também sagrados e iniciático; mas porque – infelizmente – tendemos a desempenhá-los num estado de automatismo e de semiconsciência, e a iniciação verdadeira só ocorre à luz da consciência bem desperta.

Na viagem do peregrino, o nome, a língua, os hábitos mudam. As amizades ficam interrompidas; o viajante fica “só no mundo”. Começa assim aquele processo simbólico de regeneração psicológica e espiritual concedido aos viajantes mais felizes – aqueles movidos pelo fogo fantástico e espiritual da peregrinação. Todo peregrino com conhecimento de causa sabe que a ânsia de chegar a algum lugar compromete a viagem de valor iniciático. As verdadeiras experiências que enriquecem e ampliam os níveis da consciência individual costumam ocorrer durante e ao longo do percurso.


A chegada ao lugar de destino pode ser só um coroamento, e nem sempre é a coisa mais importante na viagem de peregrinação. Mas se partirmos depositando toda nossa expectativa nas gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas à beira da estrada.

A importância objetiva e subjetiva das viagens nos assim chamados processos iniciático foi sempre amplamente reconhecida pelas escolas de sabedoria do passado e do presente, tanto do Oriente quanto do Ocidente. Algumas escolas, como a seita sufi dos Kalenderi, da Turquia, impõem a seus membros que viajem continuamente. Como de modo geral para as demais correntes do sufismo, considera-se que a fixação do iniciante em hábitos repetitivos e cotidianos constitui um nocivo fator de “adormecimento” que atrapalha e até impede o processo do “despertar”.


Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes temerárias, nas quais o iniciante vê-se subitamente atirado, costumam fazer parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas e de iniciação preconizadas por escolas que vão dos mistérios gregos às sociedades secretas sufis e chinesas, chegando até as modernas maçonaria e teosofia.

Na verdade, a viagem iniciática só se realiza no interior do próprio ser. Estimula-se a viagem exterior pelo simples fato de que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mais fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora aquilo que na realidade está ocorrendo no mundo ainda subjetivo de dentro. Nesse sentido, as escolas tradicionais de sabedoria aproximam-se notavelmente da moderna psicologia, em especial a de linha junguiana, que defende a ideia de que, para a psique, tanto faz se a experiência acontece no plano da realidade concreta (objetivamente) ou no da fantasia e da imaginação (subjetivamente). Nos dois casos, o resultado final como vivência do fato psicológico é o mesmo.


René Guénon, por exemplo, diz que as provas iniciática tomam com frequência a forma de “viagens simbólicas”, representando uma busca que vai das trevas do mundo profano (ou do inconsciente, da “mãe”) à luz (a consciência desperta). As provas e as etapas da viagem constituem ritos de purificação.

A viagem simbólica é, outras vezes, e com frequência, feita após a morte, como no caso dos Livros dos Mortos egípcio e tibetano. Ambos tratam de uma progressão da alma em estados que prolongam os da manifestação humana, o objetivo supra-humano (a fusão com o centro) ainda não tendo sido alcançado. Jung estudou a fundo a simbologia psicológica contida no multissecular Livro dos Mortos tibetano e chegou a conclusões surpreendentes: as experiências que a alma humana vive no mundo além da morte, e que são descritas na obra, correspondem simbolicamente às diferentes etapas de maturação psicológica pelas quais o indivíduo tem de passar no seu processo de individuação.


E os turistas que partem em férias, os viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo, sem o saber, algum secreto rito de transformação e de crescimento interior pelo movimento? Sem dúvida. O desejo do movimento está sempre associado à dinâmica da vida, assim como a inação se associa à rigidez da morte.


Todo movimento, em última análise, é uma viagem. E, nesse sentido, até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: que ele seja feito com a consciência desperta. Com os cinco sentidos inteiramente ligados, e acoplados àquela capacidade intrínseca da consciência que é a observação. Quando alguém se acostuma a “viajar” desse modo, a própria vida se transforma numa permanente e excitante viagem, e cada um de nós em peregrinos da existência.
Fonte: Revista Planeta, edição de Fevereiro de 1992.

Acesse o blog do Luis Pellegrini aqui!
Link para os posts do Pellegrini aqui no Odepórica? Clique aqui

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sacudir a vida, by Cristovão Tezza


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Folheando a revista Viagem e Turismo, edição de dezembro de 2013, encontrei um artigo assinado por Cristovão Tezza, escritor bastante premiado e, como ele mesmo escreve no artigo que você lerá, muito viajado. Nesse texto, em que temos a sensação de estarmos presente, ouvindo o próprio escritor divagando sobre a experiência da viagem, algumas sacadas são muito bem vindas - quando achamos que já lemos de tudo e um pouco mais sobre o ato de viajar, ainda que não haja nada de errado com isso: faz parte da natureza humana contar e recontar suas histórias, dar novas roupagens às figuras míticas que auxiliam o ser humano a se compreender melhor em sua jornada mundo afora.

Para mim o autor conseguiu, de maneira muito simples e sem qualquer afetação, escrever sobre as grandes viagens de sua vida e demonstrar como elas foram importantes para transformar um rapaz sonhador em um dos grandes nomes da literatura brasileira. Leitura que vale a pena e que nos faz querer conhecer um pouco mais a obra de Cristovão Tezza. Namastê!
 

Durante milhares de anos, desde que o advento da agricultura fixou o homem à terra, a esmagadora maioria das pessoas passava a vida inteira no lugar em que nasceu – para elas, o mundo real tinha poucos quilômetros de diâmetro. A simples ideia de “viajar” carregava-se de magia poética; não por acaso, a grande literatura surgiu com narrativa de viagens, como a Odisseia, de Homero, e durante séculos as viagens mantiveram sua aura fantástica e maravilhosa.

Só pessoas corajosas e excepcionas viajavam. Na Renascença, com o surgimento do livro impresso, os relatos de viagens eram best-sellers, seguindo a trilha inesgotável das histórias de Marco Polo, o italiano que foi à China e, diz a lenda, trouxe o macarrão de lá. E nos últimos 500 anos, com o comércio se globalizando, a intensa urbanização do mundo e o avanço da ciência e dos meios de transporte, inverteu-se a equação – hoje parece que o normal, o desejável, e até obrigatório, é “viajar”.



Como estímulo irresistível, a última grande revolução tecnológica do mundo inteiro simultâneo, em que o tempo e espaço finalmente são uma coisa só. Para o internauta de hoje – que, como o camponês de 5 mil anos atrás, pode passar a vida inteira no mesmo lugar, agora diante de um monitor -, não há mais mistério na Terra. Basta clicar no Google Earth e rodar o mundo.

Mas, por mais digital que tenha se tornado nossa vida, viajar continua sendo uma atividade essencialmente “analógica” – é preciso ver o mundo, fisicamente, de outro ponto de vista. Viagens mexem com tudo: transformam a cabeça, quebram convenções, relativizam hábitos, abrem caminhos. E, mesmo sob as condições extremamente seguras das viagens de hoje, resta sempre nelas uma margem de risco, um certo deslocamento da “zona de conforto” do nosso dia a dia, que é justamente o charme de sair da toca.



É verdade que cada fase da vida tem as suas viagens. A expectativa de um jovem de 18 anos que vai passar dois meses estudando na Inglaterra não é a mesma de um casal de turistas cinquentões rodando a Itália dentro de um ônibus, que por sua vez é substancialmente diversa da do aventureiro visitando o Nepal com uma mochila nas costas, ou de um adolescente visitando a Disneylândia - os exemplos são infinitos. O que há em comum em todos esses casos? Talvez o simples e secreto desejo de mudar.

Olho para a minha própria vida e vejo como fui transformado pelas viagens, desde a primeira delas, esta sem escolha – criança, após a morte de meu pai, saí de Lages, no interior de Santa Catarina, e vim para Curitiba com a mãe e os irmãos num caminhão de mudança. A primeira estranheza foi curiosamente linguística – em Curitiba chamavam “picolé” de “dolé” (palavra hoje desaparecida) e “salsicha” de “vina”. Eram os anos 60, quando o Brasil inteiro queria viajar, ou de Fusca ou de Varig – e foram anos de mudanças radicais em todo o mundo. Desde logo eu quis ser escritor, e meu primeiro mandamento foi, justamente, o imperativo de viajar.


Naquele tempo, esse projeto vinculava-se tanto à ideia de rompimento quanto de aventura; havia uma mistura de Che Guevara com Marco Polo na cabeça de cada jovem. Sob a ditadura militar, toda uma geração de brasileiros em diáspora passou a ver o Brasil criticamente de longe.

Num primeiro momento, tentei ser piloto da Marinha Mercante, no sonho romântico de rodar o mundo escrevendo livros, mas fugi da escola, que era pesada, e me engajei num grupo de teatro popular. Uma lembrança forte de 1972 foi viajar desde Caruaru, onde participei de um festival, até Curitiba, pedindo caronas com o dedão na estrada – com direito a passar uma noite dormindo ao relento nas areias de Itapuã, em Salvador, seguindo o roteiro de Vinicius de Moraes. Era um Brasil ainda inocente, em que ainda se podia pedir ou dar carona.


Em seguida, desembarquei em Portugal apenas com a passagem de ida e US$ 200 no bolso – outro sinal da inocência do mundo. Aqueles 14 meses sobrevivendo na Europa foram marcantes na minha vida. Lembro de uma viagem maravilhosa de trem, de Coimbra a Frankfurt. Não era nenhum turismo – fui para lavar pratos e esfregar chão com imigrantes ilegais, de modo a juntar um bom dinheiro -, mas, aos 22 anos, que diferença isso faz?

De novo no Brasil, outra viagem radical: um ano vivendo no Acre, em 1977, já casado e, enfim, entrando na universidade. No ano seguinte, retornei a Curitiba, e as viagens prosseguiram – mas agora, professor estável durante duas décadas, eram mais seguras e planejadas, algumas profissionais, outras estritamente turísticas, o que também passou a ter sua graça.


A idade avança, e mudam-se exigências e escolhas. Hoje gosto especialmente de provar cervejas estrangeiras e visitar museus – um dia sozinho num bom museu, sem pressa nem horário, é um prazer para mim, e sempre um descanso dentro de uma viagem mais longa.

De repente, me bateu de novo o sonho de mudar, como se eu voltasse num rompante aos anos 60, e me demiti da universidade – agora, finalmente, vivo apenas de escrever. O que está mais uma vez me colocando na estrada, como um caixeiro-viajante. Fui me tornando um “turista acidental”, especialista em malas pequenas, previsão meteorológica, espera em aeroporto, placas indicativas e carregadores elétricos – e aderi ao livro digital, que é perfeito para viagens.


E não contem para ninguém, mas sou aquele chato que está sempre com uma boa máquina fotográfica, colecionando fotos e retratos de toda parte (mas que jamais vão ao Facebook). Fotografar em viagens tornou-se um prazer especial, que me obriga a ver onde estou, e é sempre uma boa companhia para caminhar por ruas desconhecidas em terra estranha.


Site do Tezza: cristovaotezza.com.br  

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Turismo capilar, by J.P.Cuenca

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Uma das coisas que mais me motivam a pesquisar a literatura odepórica é o fato de que você nunca sabe o que vai encontrar pela frente; de fato, em se tratando de narrativa de viagem, qualquer cena pode servir como ponto de partida para uma boa história e o que torna um relato de viagem mais interessante do que o outro é o fator surpresa, não tanto pelo desfecho senão pela estranheza ou peculiaridade do tema. Por exemplo, o Luigi Monga, que foi um estudioso brilhante da literatura odepórica, editou duas obras que serão referência por muitas décadas na área das narrativas de viagem e entre seus achados odepóricos a gente encontra o olhar do viajante sobre os temas mais variados e, por vezes, insólitos.


Lembro-me de um texto, parte dessa coletânea editada pelo Monga, em que o autor (Andrés Zamora) gasta muitas linhas para nos informar que, na experiência da viagem, o componente excremental ocupa um lugar relevante. Nesse paper, intitulado Odiseas excrementales (original em espanhol) o Andrés relembra que no período renascentista um dos ensinamentos dados aos viajantes era o de praticar uma evacuação geral antes de se colocar os pés na estrada. Cita a obra Ulysses, de James Joyce, dizendo que o personagem principal, Leopold Bloom, inicia sua odisseia urbana depois de uma prazerosa e frutífera visita ao banheiro. E por aí vai, um dia traduzo o texto na íntegra porque não há quem não goste de um tema escatológico de vez em quando. Bom, eu adoro.

E eis que encontro, num caderno de turismo da Folha de São Paulo, um artigo supimpa do J.P.Cuenca narrando suas experiências no estrangeiro focando as barbearias e os salões de cabelereiros que visitou em suas deambulações por Madri, Berlim e Buenos Aires. É um relato gostoso de ler, e o que poderia parecer uma leitura desinteressante se revela uma prazerosa aventura literária, mostrando que, em se tratando de viagens, qualquer lugar pode ser um cenário para experiências divertidas e inovadoras, como os salões e as barbearias retratadas pelo J.P. Cuenca no texto que você lerá a seguir. Namastê!
Turismo capilar


Nos últimos anos, uma rotina de viagens cada vez mais longas fez com que eu passasse a cortar o cabelo sempre fora do Brasil. Abandonei a estável relação que tive com barbeiros de nomes como Péricles e Kléber para aventurar-me na roleta da tesoura desconhecida. Como certa vez escreveu Alan Pauls, "cada salão que não se conhece e no qual se aventura é um perigo e uma esperança, uma promessa e uma armadilha". Destaco aqui alguns relatos desse constante flerte com a desaparição.

Madri


No boêmio bairro de Malasaña, fica a Corta Cabeza. Descendo pela Corredera Baja de San Pablo, depois de um lauto almoço e alguns mojitos, vejo a fachada em estilo industrial e decido entrar. Sou sempre atravessado pela decisão de cortar o cabelo na viagem de forma imperiosa, como se vivesse um daqueles raros momentos de iluminação. A certeza que acompanha cada passo. Eles tinham horário, era o meio de uma tarde calorenta de terça-feira.

Quem lavou a minha cabeça foi uma bela travesti filipina com 1,80 m e mãos firmes. Meditar de olhos fechados enquanto um desconhecido entrelaça os dedos pelos seus cabelos molhados com água quente e xampu é um dos grandes prazeres da vida, inclusive superior à toalha morna que antecipa o toque da lâmina no rosto. Meu barbeiro foi um anão. Quando sentei na poltrona de couro negro, seu rosto ficou exatamente na altura da minha cabeça. Atmosfera almodovariana à parte, foi o melhor repicado que tive em anos. A Corta Cabeza diz em seu site (cortacabeza.com): "Somos fabricantes de beleza". Digamos que, em mim, eles tentaram com bravura.

Berlim


O Bernardo Carvalho já escreveu sobre ele, mas creio que o conheci primeiro. Trata-se do barbeiro comunista de Neuköln, cujo negócio tem como símbolo a foice e a tesoura no lugar no martelo. O lugar fica no coração do bairro de imigrantes turcos e árabes, centro do aparentemente inesgotável debate sobre gentrificação que domina a cidade. É um salão com apenas uma cadeira, paredes desbotadas e quadros "naïf" francamente horríveis pendurados na parede. Quando perguntei em inglês se ele tinha horário, me olhou com má vontade e disse: "Volte às seis da tarde. E lave o cabelo!".

Três horas depois, lá eu estava de novo, sentado com um lençol branco sobre o colo ouvindo um disco de rock industrial. O homem, um tipo de 45 anos, camiseta rasgada e cabelos esvoaçados, se desentendeu com o cortador elétrico e jogou-o no chão. Gritou com a assistente, que, desconfio, também era sua mulher. Chutou um balde de lixo no cachorro que dormia esparramado num canto. O cachorro latiu. Como eu não falo alemão, sorri em desespero. Depois, o homem monologou contra Berlim, a Alemanha, os turistas, os preços dos aluguéis e o aburguesamento do bairro enquanto gentrificava minhas madeixas com um corte à la Playmobil. Conversamos sobre música e arte contemporânea. Escrevendo este texto, descubro em obituário do jornal "Tagesspiegel" que ele morreu em agosto deste ano. Enfartou com a tesoura na mão.

Buenos Aires


O Rojo é o salão hipster quase-fora-de-moda da cidade, onde estrelas do rock e "wannabes" em geral cuidam de seus mullets e franjinhas há duas décadas. O Rojo original fica em Caballito, mas para usufruir do espetáculo completo, recomendo a unidade de Palermo Viejo, na Calle Malabia 1.931. Após a lavagem -no teto, telas exibiam um clipe hipnótico e sensual que se repetiu dezenas de vezes-, uma diligente funcionária me levou pela mão até a sala principal. Ali está a magia do lugar. As duas paredes de espelhos, cortadas por faixas de LED em movimento multicolor, refletem-se num jogo infinito. De cada lugar, você é capaz de ver seu rosto e suas costas, assim como o rosto e as costas de todas as outras pessoas, tudo multiplicado até a dissolução. É como entrar dentro de um caleidoscópio.

Se nas milongas e cafeterias de Buenos Aires os espelhos evocam metafísica, esse aquário de reflexos desperta curiosidades e tremores em partes inferiores do abdômen. Enquanto sentem a suave mordida da tesoura contra seus couros cabeludos, os clientes portenhos se miram. E se miram. E se miram. E se miram.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

As viagens de Sebastião Salgado: matéria da Revista Bravo

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Sou leitor assíduo da Revista Bravo, a melhor publicação sobre cultura que temos no Brasil. A edição 188 (Abril/2013) traz na capa uma foto de Sebastião Salgado, representante maior da fotografia brasileira e um dos nomes mais respeitados do mundo nessa arte.  Não vou me estender além desse breve parágrafo introdutório, portanto acomode-se em frente ao computador e delicie-se com essa matéria, muito bem escrita pela jornalista Kênya Zanatta. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas a Kênya conseguiu com seu texto enriquecer ainda mais a experiência do olhar. Boa viagem!
Viagem às Origens do Mundo

Em Genesis, seu novo ensaio, o fotógrafo Sebastião Salgado retrata paisagens e comunidades ainda não impactadas pelo que chamamos de progresso. Para preparar o trabalho, ele percorreu mais de 30 países durante oito anos
por Kênya Zanatta

No princípio, o menino de olhos azuis vivia feliz entre árvores e animais. Então, ele cresceu e decidiu partir. Correu o mundo registrando dramas e terrores da humanidade. Um dia, não suportando o peso das misérias testemunhadas, o menino, agora homem, decidiu voltar ao paraíso da infância. Lá chegando, encontrou uma terra estéril. À imagem de Deus, decidiu recriar seu jardim.

Essa história com ares de parábola poderia resumir a origem de Genesis, novo projeto do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. O resultado de oito anos de trabalho em mais de 30 países, distribuídos por África, Ásia, Américas, Oceania e Antártica, foi condensado em um livro que acaba de ser lançado pela editora Taschen e numa exposição, que será inaugurada este mês no Natural History Museum, em Londres, e deve vir ao Rio de Janeiro em maio.

*Xamãs da tribo camaiurá da baciado Alto Xingu, no Mato Grosso (2005). Apenas a eles é permitido fumar, ato considerado sagrado (no centro, de chapeu de pele de jaguar, Takumã, o mais importante pajé do Xingu)

Em certo ponto da entrevista concedida na sede da Amazonas Images, sua agência fotográfica, à beira do canal Saint-Martin, em Paris, Salgado diz que não crê em Deus, mas não pôde resistir à simbologia contida na palavra “gênesis”.

*Mulheres das aldeias de Mursi e Surma, no Parque Nacional de Mago, na Etiópia (2007). O uso de alargadores em formato de prato nos lábios é restrito às castas superiores

Da militância política, que o levou a deixar o Brasil no período da ditadura, às preocupações ambientalistas de hoje, o fotógrafo aponta que sua produção sempre espelhou suas convicções. Assim, seu primeiro grande projeto documental, Trabalhadores, realizado entre 1986 e 1992, enfocava um mundo do trabalho em plena mutação, tema central em sua breve carreira de economista – profissão que abandonou em 1973 para se dedicar à fotografia.“Com esse projeto, percebi uma reorganização da família humana”, diz ele, que fez dos movimentos populacionais o tema de seu ensaio posterior, Êxodos(1994-1999).

*Povo da tribo dinkae seus animais, no sul do Sudão (2006). A fumaça de uma carcaça de gado queimada serve para afastar insetos e parasitas

Em Ruanda, país africano que conhecia desde a época em que trabalhava como economista na Organização Internacional do Café, Salgado testemunhou a ferocidade do genocídio e o desespero da fuga. O homem por trás da câmera sucumbiu aos dramas que se desenrolaram diante de sua objetiva. Doente, decidiu voltar para sua cidade natal, Aimorés, em Minas Gerais, e tomar conta da fazenda da família. “Eu tinha perdido a fé na nossa espécie. Achava que a humanidade ia acabar. Estava no limite de uma depressão”, conta.

*Homem vestido para o festival de Sing-Sing, em Mount Hagen, Papua Nova Guiné (2008). Anualmente, em agosto, a festa reúne tribos de todo o país

No Vale do Rio Doce, amargou outra decepção: “Achava que ia voltar para o paraíso, mas encontrei uma terra morta, exaurida”. Foi a mulher do fotógrafo, Lélia Wanick Salgado, que sugeriu promover o replantio da floresta. A partir disso, juntos, fundaram o Instituto Terra. A iniciativa em Aimorés foi tão bem-sucedida que o casal prepara um programa em parceria com o governo federal e a iniciativa privada para recuperar todas as nascentes do rio Doce.

*Pinguins chinstrap, nas ilhas Sandwich (2009). O arquipélago é um território britânico ultramarino, no extremo sul do planeta

Com verve de evangelizador, Sebastião Salgado dispara números e argumentos, explicando por que plantar árvores e preservar a mata nativa é essencial para o futuro do planeta. Desse entusiasmo pela causa ecológica surgiu a vontade de fotografar paisagens, animais e comunidades que ainda não sucumbiram ao fruto proibido do progresso e da sociedade de consumo. “Temos quase 46% do planeta em estado prístino. Genesis é uma amostra do que precisamos preservar no mundo. E o trabalho do Instituto Terra é uma amostra do que devemos fazer”, diz ele.

A primeira viagem, em 2004, foi para as ilhas Galápagos – o lugar que inspirou a revolucionária teoria da evolução de Charles Darwin. Embora Salgado insista que seu trabalho nada teve de científico, as imagens deixam entrever uma preocupação em inventariar os elementos de um mundo original, dos adereços festivos das tribos de Papua Nova Guiné à infinita variedade de tons e texturas das extensões geladas da Antártida.

O uso do preto e branco, o domínio da técnica da contraluz e o rigor na composição, que em projetos anteriores lhe valeram a acusação de fazer arte com a miséria alheia, dão uma qualidade atemporal às fotografias de Genesis. Para Anne Biroleau, curadora de fotografia da Biblioteca Nacional da França, algumas dessas imagens transmitem “o sentimento de uma força cósmica que ultrapassa o humano e sobrevive a ele”. Ela argumenta que o apuro estético das imagens é uma maneira de “chamar a atenção para a verdadeira questão, ou seja, o posicionamento de Salgado sobre os temas que aborda”. “Ninguém criticou Goya por ele ter produzido gravuras belas e perfeitas sobre os desastres da guerra”, compara.


*Colônia de albatrozes no arquipélago Willis, no Atlântico Sul (2009). A ilha foi descoberta no século 18 pelo explorador inglês James Cook

Genesis, o projeto, custou 1 milhão de euros por ano e foi financiado em parte por revistas e jornais que publicaram as reportagens de Salgado ao longo do trabalho, como a semanal francesa Paris Matche o diário inglês The Guardian. A outra parte dos custos foi coberta por patrocinadores, a exemplo da mineradora brasileira Vale do Rio Doce, além de duas fundações norte-americanas. Salgado frisa que suas fotos são apenas “a ponta do iceberg”. Por trás delas, houve um imenso esforço de preparação e edição dispendido por uma equipe de oito pessoas, que trabalha há anos na Amazonas Images. Ele faz questão de enfatizar também o papel crucial de sua mulher, responsável pelo design de seus livros e pela curadoria de suas exposições. Foi ela que comprou a primeira câmera fotográfica do casal, quando ainda era estudante de arquitetura.

De canoas a balões, passando por mulas, aviões e veículos militares, a equipe de Salgado teve que levar em conta situações extremas de clima e geografia para planejar cada uma das expedições. Um dos trajetos mais marcantes foi percorrido a pé, em 2008. “Uma verdadeira viagem pelo Velho Testamento”, define o fotógrafo. A travessia de 850 km nas montanhas do norte da Etiópia começou na cidade de Lalibela e terminou no parque natural Simien. “Fisicamente, não foi fácil, mas talvez tenha sido a viagem mais bonita que fiz na vida. É emocionante poder andar num caminho que o homem percorre há 5 mil anos.” A caminhada durou 55 dias, em uma região de desfiladeiros, passando por tribos cristãs e comunidades de judeus falasha.

*O cacique Afukaka Kuikuro com sua filha caçula (2005). O povo kuikuro tem a maior população do Alto Xingu, no Mato Grosso


Já acompanhar a transumância de 6 mil renas em trenó ao lado dos nenets, comunidade nômade siberiana nos confins do Círculo Polar Ártico, colocou outros desafios: “Trabalhamos com uma temperatura de até 45º abaixo de zero. Passei 47 dias sem tomar banho. Eu morava com os nenets em tendas de 5 m de altura, feitas com varas compridas e peles de rena”.

Em algumas ocasiões, o fotógrafo teve que viajar levando a própria comida e até painéis solares para produzir energia elétrica, além de uma vasta seleção de medicamentos – que no entanto não bastaram para todas as emergências. Picado por um inseto e com um início de gangrena em uma das pernas, o assistente que acompanhou Salgado em quase todas as viagens, Jacques Barthélemy, um ex-guia de montanhismo de 65 anos, precisou ser resgatado de avião em meio a uma floresta de Papua, província da Indonésia na parte ocidental da Nova Guiné. Apesar de todas as precauções, o próprio Salgado quase sucumbiu à malária falciparum, a forma mais perigosa da doença.

“Eles vivem como nós víviamos há 50 mil anos. E as coisas essenciais para mim nessa minha comunidade urbana, consumidora e moderna são as mesmas coisas essenciais para eles”, afirma Salgado, sobre as comunidades isoladas que visitou. O fotógrafo cita o exemplo das complexas noções de balística que os índios zo’è, da Amazônia, colocam em prática na hora de caçar com arco e flecha, similares às usadas pelos militares que ele pôde observar quando fazia reportagens de guerra para as agências Gamma e Magnum.

*Distrito Autônomo de Yamalo-Nenet, no norte da Sibéria, Rússia (2011). No fim do dia, os nômades nenets fazem um círculo em redor de seus pertences para montar o acampamento, depois coberto com couro de rena

Para quem enfrentou os rigores de longas expedições em territórios inóspitos, é irônico que um de seus maiores traumas se relacione ao ambiente de assepsia dos aeroportos. Celebrado pelas proezas que realizou em película durante quase 40 anos, Sebastião Salgado foi levado a adotar a fotografia digital devido sobretudo ao aumento do nível de segurança nas viagens internacionais após os atentados de 11 de setembro de 2001. A cada aeroporto era uma luta para evitar que os filmes passassem pelas máquinas de raios x. “Uma vez, tudo bem. Mas depois de três ou quatro há uma perda da estrutura do grão, da gama de cinzas. Uma semana antes da volta, já ficava tenso porque corríamos o risco de perder tudo o que tínhamos feito”, conta. Em uma viagem de Sumatra a Paris, por exemplo, foram sete controles de segurança. O suficiente para convencer Salgado, que declara com uma ponta de orgulho não saber nem ligar um computador, a se equipar com quatro câmeras digitais Canon EOS 1D Mark III.


*No fim do inverno, os nenets acompanham centenas de renas por mais de mil km até as pastagens de verão, localizadas no Círculo Polar Ártico (2011). Segundo Salgado, o costume é tão enraizado que ninguém sabe quem guia quem

Em algumas expedições de Genesis, o fotógrafo foi acompanhado por seu filho, Juliano, que agora prepara um documentário, Shade and Light, sobre a realização da obra, em colaboração com Wim Wenders. Amigo da família, o cineasta alemão fez uma série de entrevistas com Salgado e filmagens no Brasil. O longa deve estrear em setembro, quando Genesis chega a São Paulo.

Na tarde em que a reportagem de BRAVO! visitou a agência, a equipe se concentrava nos preparativos finais para a série de exposições, em meio a pacotes com livros e fotografias a serem expedidos. No subsolo, duas colaboradoras avaliavam uma impressão destinada à mostra no Rio de Janeiro e questionavam o fotógrafo sobre uma pequena imperfeição invisível aos olhos da repórter. Em meio às questões técnicas, Salgado parou um momento para contemplar a imagem grandiloquente de dois vulcões separados por uma nuvem e repetir quanto prazer tivera em fazer essas fotos. Voltar às origens do planeta parece ter sido seu último trabalho de grande alento: “Já tenho 69 anos e dificilmente vou conseguir fazer outro projeto longo como esse porque a demanda física é muito forte. Mas não vou parar de fotografar”.

Fonte: Revista Bravo