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segunda-feira, 6 de maio de 2013

As viagens de Sebastião Salgado: matéria da Revista Bravo

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Sou leitor assíduo da Revista Bravo, a melhor publicação sobre cultura que temos no Brasil. A edição 188 (Abril/2013) traz na capa uma foto de Sebastião Salgado, representante maior da fotografia brasileira e um dos nomes mais respeitados do mundo nessa arte.  Não vou me estender além desse breve parágrafo introdutório, portanto acomode-se em frente ao computador e delicie-se com essa matéria, muito bem escrita pela jornalista Kênya Zanatta. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas a Kênya conseguiu com seu texto enriquecer ainda mais a experiência do olhar. Boa viagem!
Viagem às Origens do Mundo

Em Genesis, seu novo ensaio, o fotógrafo Sebastião Salgado retrata paisagens e comunidades ainda não impactadas pelo que chamamos de progresso. Para preparar o trabalho, ele percorreu mais de 30 países durante oito anos
por Kênya Zanatta

No princípio, o menino de olhos azuis vivia feliz entre árvores e animais. Então, ele cresceu e decidiu partir. Correu o mundo registrando dramas e terrores da humanidade. Um dia, não suportando o peso das misérias testemunhadas, o menino, agora homem, decidiu voltar ao paraíso da infância. Lá chegando, encontrou uma terra estéril. À imagem de Deus, decidiu recriar seu jardim.

Essa história com ares de parábola poderia resumir a origem de Genesis, novo projeto do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. O resultado de oito anos de trabalho em mais de 30 países, distribuídos por África, Ásia, Américas, Oceania e Antártica, foi condensado em um livro que acaba de ser lançado pela editora Taschen e numa exposição, que será inaugurada este mês no Natural History Museum, em Londres, e deve vir ao Rio de Janeiro em maio.

*Xamãs da tribo camaiurá da baciado Alto Xingu, no Mato Grosso (2005). Apenas a eles é permitido fumar, ato considerado sagrado (no centro, de chapeu de pele de jaguar, Takumã, o mais importante pajé do Xingu)

Em certo ponto da entrevista concedida na sede da Amazonas Images, sua agência fotográfica, à beira do canal Saint-Martin, em Paris, Salgado diz que não crê em Deus, mas não pôde resistir à simbologia contida na palavra “gênesis”.

*Mulheres das aldeias de Mursi e Surma, no Parque Nacional de Mago, na Etiópia (2007). O uso de alargadores em formato de prato nos lábios é restrito às castas superiores

Da militância política, que o levou a deixar o Brasil no período da ditadura, às preocupações ambientalistas de hoje, o fotógrafo aponta que sua produção sempre espelhou suas convicções. Assim, seu primeiro grande projeto documental, Trabalhadores, realizado entre 1986 e 1992, enfocava um mundo do trabalho em plena mutação, tema central em sua breve carreira de economista – profissão que abandonou em 1973 para se dedicar à fotografia.“Com esse projeto, percebi uma reorganização da família humana”, diz ele, que fez dos movimentos populacionais o tema de seu ensaio posterior, Êxodos(1994-1999).

*Povo da tribo dinkae seus animais, no sul do Sudão (2006). A fumaça de uma carcaça de gado queimada serve para afastar insetos e parasitas

Em Ruanda, país africano que conhecia desde a época em que trabalhava como economista na Organização Internacional do Café, Salgado testemunhou a ferocidade do genocídio e o desespero da fuga. O homem por trás da câmera sucumbiu aos dramas que se desenrolaram diante de sua objetiva. Doente, decidiu voltar para sua cidade natal, Aimorés, em Minas Gerais, e tomar conta da fazenda da família. “Eu tinha perdido a fé na nossa espécie. Achava que a humanidade ia acabar. Estava no limite de uma depressão”, conta.

*Homem vestido para o festival de Sing-Sing, em Mount Hagen, Papua Nova Guiné (2008). Anualmente, em agosto, a festa reúne tribos de todo o país

No Vale do Rio Doce, amargou outra decepção: “Achava que ia voltar para o paraíso, mas encontrei uma terra morta, exaurida”. Foi a mulher do fotógrafo, Lélia Wanick Salgado, que sugeriu promover o replantio da floresta. A partir disso, juntos, fundaram o Instituto Terra. A iniciativa em Aimorés foi tão bem-sucedida que o casal prepara um programa em parceria com o governo federal e a iniciativa privada para recuperar todas as nascentes do rio Doce.

*Pinguins chinstrap, nas ilhas Sandwich (2009). O arquipélago é um território britânico ultramarino, no extremo sul do planeta

Com verve de evangelizador, Sebastião Salgado dispara números e argumentos, explicando por que plantar árvores e preservar a mata nativa é essencial para o futuro do planeta. Desse entusiasmo pela causa ecológica surgiu a vontade de fotografar paisagens, animais e comunidades que ainda não sucumbiram ao fruto proibido do progresso e da sociedade de consumo. “Temos quase 46% do planeta em estado prístino. Genesis é uma amostra do que precisamos preservar no mundo. E o trabalho do Instituto Terra é uma amostra do que devemos fazer”, diz ele.

A primeira viagem, em 2004, foi para as ilhas Galápagos – o lugar que inspirou a revolucionária teoria da evolução de Charles Darwin. Embora Salgado insista que seu trabalho nada teve de científico, as imagens deixam entrever uma preocupação em inventariar os elementos de um mundo original, dos adereços festivos das tribos de Papua Nova Guiné à infinita variedade de tons e texturas das extensões geladas da Antártida.

O uso do preto e branco, o domínio da técnica da contraluz e o rigor na composição, que em projetos anteriores lhe valeram a acusação de fazer arte com a miséria alheia, dão uma qualidade atemporal às fotografias de Genesis. Para Anne Biroleau, curadora de fotografia da Biblioteca Nacional da França, algumas dessas imagens transmitem “o sentimento de uma força cósmica que ultrapassa o humano e sobrevive a ele”. Ela argumenta que o apuro estético das imagens é uma maneira de “chamar a atenção para a verdadeira questão, ou seja, o posicionamento de Salgado sobre os temas que aborda”. “Ninguém criticou Goya por ele ter produzido gravuras belas e perfeitas sobre os desastres da guerra”, compara.


*Colônia de albatrozes no arquipélago Willis, no Atlântico Sul (2009). A ilha foi descoberta no século 18 pelo explorador inglês James Cook

Genesis, o projeto, custou 1 milhão de euros por ano e foi financiado em parte por revistas e jornais que publicaram as reportagens de Salgado ao longo do trabalho, como a semanal francesa Paris Matche o diário inglês The Guardian. A outra parte dos custos foi coberta por patrocinadores, a exemplo da mineradora brasileira Vale do Rio Doce, além de duas fundações norte-americanas. Salgado frisa que suas fotos são apenas “a ponta do iceberg”. Por trás delas, houve um imenso esforço de preparação e edição dispendido por uma equipe de oito pessoas, que trabalha há anos na Amazonas Images. Ele faz questão de enfatizar também o papel crucial de sua mulher, responsável pelo design de seus livros e pela curadoria de suas exposições. Foi ela que comprou a primeira câmera fotográfica do casal, quando ainda era estudante de arquitetura.

De canoas a balões, passando por mulas, aviões e veículos militares, a equipe de Salgado teve que levar em conta situações extremas de clima e geografia para planejar cada uma das expedições. Um dos trajetos mais marcantes foi percorrido a pé, em 2008. “Uma verdadeira viagem pelo Velho Testamento”, define o fotógrafo. A travessia de 850 km nas montanhas do norte da Etiópia começou na cidade de Lalibela e terminou no parque natural Simien. “Fisicamente, não foi fácil, mas talvez tenha sido a viagem mais bonita que fiz na vida. É emocionante poder andar num caminho que o homem percorre há 5 mil anos.” A caminhada durou 55 dias, em uma região de desfiladeiros, passando por tribos cristãs e comunidades de judeus falasha.

*O cacique Afukaka Kuikuro com sua filha caçula (2005). O povo kuikuro tem a maior população do Alto Xingu, no Mato Grosso


Já acompanhar a transumância de 6 mil renas em trenó ao lado dos nenets, comunidade nômade siberiana nos confins do Círculo Polar Ártico, colocou outros desafios: “Trabalhamos com uma temperatura de até 45º abaixo de zero. Passei 47 dias sem tomar banho. Eu morava com os nenets em tendas de 5 m de altura, feitas com varas compridas e peles de rena”.

Em algumas ocasiões, o fotógrafo teve que viajar levando a própria comida e até painéis solares para produzir energia elétrica, além de uma vasta seleção de medicamentos – que no entanto não bastaram para todas as emergências. Picado por um inseto e com um início de gangrena em uma das pernas, o assistente que acompanhou Salgado em quase todas as viagens, Jacques Barthélemy, um ex-guia de montanhismo de 65 anos, precisou ser resgatado de avião em meio a uma floresta de Papua, província da Indonésia na parte ocidental da Nova Guiné. Apesar de todas as precauções, o próprio Salgado quase sucumbiu à malária falciparum, a forma mais perigosa da doença.

“Eles vivem como nós víviamos há 50 mil anos. E as coisas essenciais para mim nessa minha comunidade urbana, consumidora e moderna são as mesmas coisas essenciais para eles”, afirma Salgado, sobre as comunidades isoladas que visitou. O fotógrafo cita o exemplo das complexas noções de balística que os índios zo’è, da Amazônia, colocam em prática na hora de caçar com arco e flecha, similares às usadas pelos militares que ele pôde observar quando fazia reportagens de guerra para as agências Gamma e Magnum.

*Distrito Autônomo de Yamalo-Nenet, no norte da Sibéria, Rússia (2011). No fim do dia, os nômades nenets fazem um círculo em redor de seus pertences para montar o acampamento, depois coberto com couro de rena

Para quem enfrentou os rigores de longas expedições em territórios inóspitos, é irônico que um de seus maiores traumas se relacione ao ambiente de assepsia dos aeroportos. Celebrado pelas proezas que realizou em película durante quase 40 anos, Sebastião Salgado foi levado a adotar a fotografia digital devido sobretudo ao aumento do nível de segurança nas viagens internacionais após os atentados de 11 de setembro de 2001. A cada aeroporto era uma luta para evitar que os filmes passassem pelas máquinas de raios x. “Uma vez, tudo bem. Mas depois de três ou quatro há uma perda da estrutura do grão, da gama de cinzas. Uma semana antes da volta, já ficava tenso porque corríamos o risco de perder tudo o que tínhamos feito”, conta. Em uma viagem de Sumatra a Paris, por exemplo, foram sete controles de segurança. O suficiente para convencer Salgado, que declara com uma ponta de orgulho não saber nem ligar um computador, a se equipar com quatro câmeras digitais Canon EOS 1D Mark III.


*No fim do inverno, os nenets acompanham centenas de renas por mais de mil km até as pastagens de verão, localizadas no Círculo Polar Ártico (2011). Segundo Salgado, o costume é tão enraizado que ninguém sabe quem guia quem

Em algumas expedições de Genesis, o fotógrafo foi acompanhado por seu filho, Juliano, que agora prepara um documentário, Shade and Light, sobre a realização da obra, em colaboração com Wim Wenders. Amigo da família, o cineasta alemão fez uma série de entrevistas com Salgado e filmagens no Brasil. O longa deve estrear em setembro, quando Genesis chega a São Paulo.

Na tarde em que a reportagem de BRAVO! visitou a agência, a equipe se concentrava nos preparativos finais para a série de exposições, em meio a pacotes com livros e fotografias a serem expedidos. No subsolo, duas colaboradoras avaliavam uma impressão destinada à mostra no Rio de Janeiro e questionavam o fotógrafo sobre uma pequena imperfeição invisível aos olhos da repórter. Em meio às questões técnicas, Salgado parou um momento para contemplar a imagem grandiloquente de dois vulcões separados por uma nuvem e repetir quanto prazer tivera em fazer essas fotos. Voltar às origens do planeta parece ter sido seu último trabalho de grande alento: “Já tenho 69 anos e dificilmente vou conseguir fazer outro projeto longo como esse porque a demanda física é muito forte. Mas não vou parar de fotografar”.

Fonte: Revista Bravo

domingo, 18 de março de 2012

Recordações e viagens, by Antero de Figueiredo

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Uma das grandes qualidades do povo português é sem dúvida a disposição de sua gente para viajar. Li em um artigo de revista, não faz muito tempo, que os portugueses estão entre os povos que mais cruzam fronteiras. Não é de se estranhar tal afirmação, se levarmos em conta o histórico das grandes viagens de exploradores portugueses mundo afora - viagens estas que contribuíram para redesenhar o mapa do mundo em que hoje vivemos. E sso não é pouco.

Algo me diz que todo esse histórico de viagens e deslocamentos para fora da Península em que se encontra o povo português ajudou a formatar a personalidade de sua gente, originando daí, e desde então, o forte sentimento de saudade tão a eles associado. Essa é uma das características do ethos português que mais admiro, algo que torço profundamente para que não se perca com o andar da carruagem pós-moderna e líquida na qual todos estamos inevitavelmente inseridos.

Embora o ato de viajar esteja associado às melhores coisas da vida, há momentos em que a alegria do deslocamento dá lugar a sentimentos antagônicos a este sentimento: a dor da solidão e a melancolia da saudade e não é difícil encontrar quem nunca sentiu uma vontade louca de voltar o mais rápido possível para casa ainda no meio de uma viagem programada durante meses. Simplesmente acontece, faz parte do ritual.

Acabei de ler um livro muito antigo, de autoria de um viajante e escritor português há muito falecido. Seu nome é Antero de Figueiredo (1866, Coimbra -1953, Porto) e a obra que li intitula-se Recordações e Viagens, uma segunda edição portuguesa do ano de 1916. Rubricada pelo autor, se posso gabar-me.






Parece-me fascinante esticar o esqueleto na poltrona com uma obra centenária nas mãos e, por uma ou duas semanas, me transportar para o ambiente de um escritor e viajante bom de prosa e culto como foi D. Antero de Figueiredo. Como de praxe, como sói acontecer quando leio relatos de viagem antigos, foi possível encontrar muitas passagens das impressões de viagens de D. Antero em que podemos comprovar que certas coisas pouco ou nada mudam com o passar do tempo, principalmente aquelas relacionadas à personalidade humana, o que me leva a conjeturar que somos todos seres muito previsíveis...

Como bom português que foi, D. Antero perambulou bastante pelos países da Europa e ainda deu um pulinho nos Estados Unidos, porque português, para viajar de verdade, tem que atravessar pelo menos um oceano. Seu relato de viagem pelos States aparece lá no finalzinho do livro, num capítulo intitulado Páginas de um “Bloc-Notes” e a viagem pela “América” tem uma entrada bem blasé: “Passando por Washington”. Um barato o D. Antero, que a propósito teve ótimas sacadas sobre o povo de lá.





De todos os capítulos, um me chamou a atenção em particular, porque tenho especial apreço pelo tema: visitas a cemitérios. Como bom escorpiano que sou, esse ambiente sempre me causou fascínio, desde moleque. Nunca havia parado para pensar nisso, mas agora me vem claro à memória um fato interessante: em todas as minhas viagens eu acabo entrando em um ou mais cemitérios.

Gosto tanto dos famosos, para visitar túmulos de gente conhecida, como os pequeninos e abandonados, cuja presença mal se nota num canto de estrada ou na saída de um povoado qualquer. Houve ocasião, na Espanha, em que parei para comer um lanche no meio de um dia quente e nem percebi que havia escolhido como banco, sob uma árvore, a lápide de um velho túmulo aparentemente abandonado. Só me restou ler o nome do defunto e rezar pela sua alma uma ave-maria rápida, porém honesta, antes de tomar de volta o rumo da estrada.





Eu achei as observações cemiteriais de D. Antero muito cativantes, da mesma forma que gostei do seu relato de viagem à terra de São Francisco, em Assis. Os outros capítulos, devo confessar, não me entusiasmaram tanto, talvez por conta das inúmeras divagações pessoais que ganham mais destaque na narrativa do que os lugares por ele visitados, embora isso seja provavelmente comum aos relatos de viagem mais antigos. Também com isso aprendemos, quando for a nossa hora de escrever sobre nossas próprias impressões de viagem.

Você irá ler, portanto, o capítulo sobre os cemitérios que D. Antero de Figueiredo visitou em sua passagem pela Itália. Não se trata apenas da descrição de lápides e monumentos funerários, mas também de certos costumes que, já àquela época (comecinho do século passado), pareceram mórbidos ao olhar do viajante português, mas que não deixam de ser documento antropológico precioso para ajudar a compreender o fascinante comportamento do homem em sua relação com a morte e com o além. Ao final desse relato, transcrevi um Post-Scriptum muito interessante e que tem tudo a ver com o universo do Odepórica, no qual D. Antero responde à seguinte questão: O que é que fica do torvelinho das viagens? Leia que vale a pena. Namastê!


Três cemitérios italianos (Palermo, Pisa e Gênova)




Os cemitérios estrangeiros vêem-se sem nos doer. São lugares que se visitam como qualquer outra curiosidade: museus, palácios ou ruínas! Nas nossas terras, onde todos nos conhecemos, vivos e mortos, tais visitas são sempre tristes: voltamos de lá – dessa terra que nos espera – com tanto medo à morte como à vida!...

Na Itália, os cemitérios, no meio de relvados, de flores, de estátuas, de belos monumentos; fora das cidades, em campos cheios de sol e debaixo de um céu sempre azul; - são alegres, perfumados, e dá gosto andar por eles como em jardim. Mas esse, nos subterrâneos do convento dos capuchinhos, em Palermo, é pavoroso! Maupassant, viajando na Sicília, foi vê-lo, poucos anos antes de morrer; e nenhum daqueles seus nevrosados contos, já às portas da loucura, sem nenhum dos de Poë ou de Villiers de L’Isle-Adam, produzem o calafrio de terror que nos causa esse cemitério, cuja terra tem a trágica sofreguidão de devorar em alguns meses a carne que lhe põem! Tudo desaparece!




Então, a família do morto manda desenterrar o esqueleto, lava-o, articula-lhe os ossos ainda pendurados por ligamentos ressequidos, veste-lhe o último fato que em vivo usou, ou um simples hábito de frade, e dependura-o na parede da galeria, ao lado de outros, e assim o visita pelo ano adiante! Medonho!





Há viúvos que vestem o esqueleto das mulheres com os trajes brancos do noivado, pondo essas sedas e essas flores de frescura imaculada em cima de crânios esverdinhados pelas chagas da podridão! Há mães que vestem os filhos com as roupinhas que eles tinham quando lhes morreram; e nos ossos das mãozinhas põem-lhes os brinquedos com que eles mais gostavam de brincar!...





Não há pesadelo de nevropata comparável ao horror que se sente vendo as fisionomias dessas centenas de caveiras, umas torcendo-se em risos infinitos, outras ladrando pragas infernais; mas todas interrogando-nos violentamente com as covas negras dos seus olhos profundos! Foge-se apavorado!





O cemitério de Pisa produz impressão bem diversa. Chama-se ainda “Campo-Santo”, mas há séculos que se não sepulta aí ninguém; e as últimas trasladações fizeram-se há muito. Hoje, na terra desse claustro – terra santa que um bispo medieval mandou vir do Monte Calvário – cresce erva em paz e canta a roldana de um poço humilde tocado de sol. Aos lados, a toda a roda, sob arcadas de paredes cobertas de frescos desbotados, há a luz e o silêncio das naves góticas...






Mas quão diferente não seria há cinco ou seis séculos, quando era verdadeiramente um Campo-Santo! Então, à tristeza do lugar e da época, juntava-se o pavoroso sentido dessas trágicas pinturas murais, expressamente aí postas para mais entenebrecer as almas embiocadas num cristianismo taciturno, e confrangidas sob as servidões e preconceitos da Meia-Idade. Era terrificante a lição dos painéis! Se nas igrejas o povo estrebuchava ouvindo as descrições do inferno, feitas com apavorados exageros, o que não sentiria ao ver essas pinturas, onde o castigo eterno era mostrado em paroxismos de imaginação!





Todos os pecados e castigos aí figuravam. O diabo – esse vitorioso diabo medieval – por toda a parte espiona oportunidade de ilaquear as almas, na cela ou na tebaida. O nojo que elas lhe tinham levava-as a pintá-lo em fantasiosas formas de animais imundos; mas via-se que a mão do artista tremia ao desrespeitar tão alto poderio!... Por outro lado, nessas cenas de julgamentos finais, o juiz supremo, tonante como Júpiter, não era representado com menos paixão em sua cólera divina: o gesto com que expulsava os réprobos aterrava tanto como o rir do diabo a precipitar os condenados na dor infinita!






Entre estes dois temores vivia o espírito frágil dos crentes. Os padres clamavam estas tremendas ideias, e os pintores giotescos mostravam-nas ali naquele lugar já de si tão triste – tão apavorado do sentimento religioso nascido da ideia da morte!

O artista toscano desse tempo, sombrio e imaginoso, pintava os pesadelos que atormentavam sua ânsia de salvação. Outros eram inspirados por padres que se serviriam da pena de escritor submisso: muitos frescos são dissertações pintadas – panfletos da época. Eram pinturas de ideias, como um século depois, na Alemanha do sul, o foram os profundos desenhos de Dürer.



O cemitério de Gênova, como o de Milão, é uma galeria esculpida em mármore de famílias dos mortos. O italiano de hoje tem a vaidade de por a sua escultura num túmulo, como o alemão do tempo de Memling e de Holbein tinha a de ver o seu retrato num tríptico; mas ia melhor com a piedade esse retrato humilde e de mãos postas, do que vai com o pudor das dores intimas o mostrar cada um em público as lágrimas que chora por seus mortos!

Este assunto – esse luto – é tratado no cemitério de Gênova de mil maneiras diferentes; e se há formas originais, notáveis como pensamento e como arte, outras há – o maior número – vulgares, tresandando à endinheirada encomenda burguesa que impôs o seu mau gosto ao escultor, como, por exemplo, isso de reproduzir a cena dos últimos momentos do moribundo – o quarto da cama, a família e os criados com lágrimas nos olhos – tudo em tamanho natural e em belo mármore de Carrara, não faltando o pormenor do corte das unhas e do fio da fazenda!



Vários são assim; mas há um túmulo que impressiona vivamente: junto de um caixão, um austero frade capuchinho – velho de longas barbas e testa vincada – em pé, absorvido num livro de orações. É tudo; mas com que respeito nos aproximamos desse túmulo e nos pomos a falar baixo para não perturbar a reza do santo, que advoga no Infinito a causa daquela alma!...

Outro, e este todo delicadeza: de um sarcófago pende um medalhão com o busto, tamanho natural, de homem ainda novo. Junto, uma linda figura de mulher com uma criança ao colo – viúva e órfão – que veio visitar o seu morto; e enquanto, chorosa, alivia a sua dor na dor de pensar nele..., a criancinha, sorrindo, faz festas, com os deditos, na face do busto em que reconheceu o pai!





Se a saudade pelos mortos fosse em todos os túmulos tratada com tão comovido poder de arte como é nesse, seria bem impressionante andar pelo meio deles! Mas não é; e ainda bem, para que a nossa saudade se não rasgue na saudade dos outros!...

Post-Scriptum


O que é que fica, afinal, do rodopio das viagens? Os práticos tiram delas uma clara noção da vida, no que é trabalho e ganho, como não tinham antes de ver o mundo; as almas livres criam mais amor à liberdade, porque a viagem liberta; aos de mente pregueada de prejuízos de toda a espécie, a viagem areja e ensina como passear pela História; mas para os espíritos depressa saciáveis, e que tudo viram, fica o tédio que se segue à imprudência de realizar...

Felizmente, porém, os olhos destes viajantes andam tão vagos, e pousam, sem se apegar, a tanta coisa (que bem considerada daria para demorado gozo) que do muito que vêem pouco lhes fica, como pouco se retem do muito que se estuda. E esta lacuna é fermento bastante para novas ânsias; e dá o prazer esquisito de se amar o que se não viu pelo que viu...

De um país inteiro, fica uma cidade, fica uma aldeia; dessa aldeia, certa esquina de rua, certa igreja; da igreja, um canto de altar; de um quadro, uma figura, uma expressão, um gesto, e do gesto, às vezes, somente a alma de uma linha, a sugestão de uma cor.

Afinal, repito a pergunta: que é o que fica do torvelinho das viagens? Não atino com resposta que não seja esta: fica o que fica dessa outra viagem através da mocidade: saudade! Saudade que terá também a sua tarde poente, porque, com o decorrer do tempo que tudo desbota, um dia há de vir em que ela verá apagarem-se de todo as imagens, já de si tão dispersas, já de si tão afastadas, daquilo que foi o brilho e de que se enamorara. E, então, no crepúsculo derradeiro desse frio entardecer, sentirá a saudade das suas saudades!...



Leia: Recordações e viagens. Antero de Figueiredo. Livrarias Allaud & Bertrand. Lisboa, 1916. 2ª edição. Fácil de encontrar nos portais de Sebos virtuais.

sábado, 26 de março de 2011

Confissões de Darcy Ribeiro, um antropólogo vagamundo

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Pouco antes de morrer, depois de um longo período de luta contra o câncer, o antropólogo Darcy Ribeiro conseguiu reunir forças para escrever Confissões, seu volumoso relato autobiográfico. Terminada a leitura, fica-se com a impressão de que seiscentas páginas servem apenas de introdução à vida de um homem que parece ter vivido muitas vidas numa só.


Darcy Ribeiro realizou tantas coisas importantes que tentar resumi-las em um artigo curto como este parece tarefa impossível. Mas entre tantos feitos, alguns merecem destaque imediato, como é o caso da criação do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, e a colaboração, junto aos irmãos Villas Boas, do Parque Indígena do Xingu. Não é pouca coisa.





Você não precisa gostar de antropologia, ciências sociais ou política para se apaixonar por Darcy Ribeiro; em Confissões, o que comove o leitor é a emoção com que o autor descreve cada momento de sua vida, desde a infância em Montes Claros, sua Moc natal, até os períodos em que viveu exilado, longe da terra que tanto amou e lutou para melhorar, sobretudo no que diz respeito à sociedade indígena. Um homem que tinha paixão pela vida em geral, e pelas mulheres em particular, pois quase não há um parágrafo em que não apareça o nome de um amor, por mais fugaz que seja. Aos amores, Darcy lhes dedica um capítulo. Às mulheres, idem.



E é um barato a maneira como Darcy enfatiza sua necessidade de amar as mulheres quase em tempo integral, e no final das contas sua intenção talvez fosse essa, transformar o leitor em um confessor, ouvindo calado suas aventuras carnais, num sentimento misto de surpresa e inveja. Mas à parte os prazeres da carne, é o amor que verdadeiramente importa. Lá pelas tantas afirma de maneira poética: “Marinheiro neste mundo, amor é o vento que sopra minhas velas nas travessias”.


O perfil donjuanesco de Darcy fica mesmo na superfície: seu amor se estende pela humanidade com a mesma beleza e intensidade dedicadas às mulheres que aninhou em seus braços. Essa paixão intensa pelo Brasil e pelo povo brasileiro pode ser enxergado nos próprios títulos dos capítulos de sua autobiografia. Os primeiros são dedicados ao jovem Darcy construindo sua identidade enquanto homem e durante o processo de crescimento, enquanto etnólogo e antropólogo.


Parte de Montes Claros e vai para Belo Horizonte. Da capital mineira, chega a São Paulo. Aqui já teremos lido três capítulos de um total de dezesseis. Os próximos tratam do seguinte: Índios, Educação, Governo, Exílios e Política, só para dar um panorama geral. Como se percebe, divide sua vida em capítulos que têm relação direta e profunda com seu país e com seu povo (povo mesmo, e não somente as comunidades indígenas). Darcy foi um brasileiro integral, se é que cabe o termo.

Como é de praxe aqui no Odepórica, nosso interesse recai sobre as viagens do autor, e Darcy rodou esse mundo sem parar. Por conta do exílio, na época da ditadura militar, ficou dezesseis anos fora; entre idas e vindas, fixou residência em alguns países latino-americanos: Uruguai, Venezuela, Chile e Peru. Visitou a Europa inúmeras vezes, a perder de conta. Em todos os lugares pelos quais passou deixou sua marca e foi recebido com prestígios e honras maiores até do que as que lhe eram dedicadas aqui. O Brasil tem dessas coisas, a gente sabe.


Em Confissões, o capítulo que Darcy fala sobre os índios é de longe o mais passional e excitante (embora haja poucas referências libidinosas ali). É no encontro com os índios, já amigo e discípulo do mítico Marechal Rondon, que Darcy consegue enfeitiçar o leitor, tal qual um xamã das palavras. O que diferencia Darcy Ribeiro de outros antropólogos e estudiosos que entraram em contato com os índios é a maneira de abordar a cultura aborígine; ao invés de estudar os índios sob a perspectiva acadêmica restrita, priorizando o olhar daquele que vem de fora apoiado numa fundamentação científica, ele tentou inserir-se ao máximo à vida da comunidade, até chegar ao ponto de ser tratado como um igual. Um ato que pede um tanto de audácia e outro tanto de humildade. O resultado não poderia ter sido melhor. Diz o próprio autor:


Com eles aprendi que só uma identificação emocional profunda pode romper as barreiras à comunicação, permitindo a um estranho penetrar a intimidade que atingia praticamente o máximo a que pode aspirar um antropólogo no seu esforço por ver o mundo com os olhos do povo que estuda.


Nos próximos parágrafos você irá ler alguns trechos do capítulo em que Darcy relata seus contatos com os índios. Se esses relatos antropológicos fazem a sua cabeça, saiba que Darcy publicou uma obra especificamente sobre essas convivências, transcritas de seus diários etnográficos e intitulada Diários Índios. Namastê!


Fiquei atado a Rondon pela vida inteira. Ao fim de cada expedição ia vê-lo para contar como estavam vivendo e morrendo os índios que visitara. Algumas dessas expedições foram feitas por mandados dele, principalmente a que fiz a Mato Grosso para participar das cerimônias de sepultamento de Cadete, último grande chefe bororo.


(...) No curso desse cerimonial, o corpo de Cadete primeiro foi enterrado em cova rasa, no meio do pátio de danças, e regado diariamente com potes d’água trazidos pelas mulheres desde o rio. Assim apodrecia rapidamente. De fato, as carnes se dissolviam sobre os ossos. O cheiro ainda hoje me cheira nas ventas. Tremendo. Não era catinga de bicho ou gente morta. Era um poderoso cheiro, fino como um assobio, que cheirava dia e noite. Chegada a hora, os ossos de Cadete foram retirados, lavados cuidadosamente e levados em folhas para a casa dos homens, o baíto. Lá estavam todos os Bororo vivos e mortos, homens e mulheres, crianças e velhos. Eram regidos pelo Aróe-toeráre, intermediário entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Ele regia a cerimônia tirando sons suaves de um grande maracá e soprando uma pequena flauta. A seu comando as mulheres todas arrancaram todos os cabelos. A seguir, homens e mulheres sangraram-se abundantemente, escarificando-se com dentes de peixe encastoados numa peça feita de cabaça. Foi terrível de ver.



A provação maior para mim foi beber dois litros de uma cerveja fermentada com seiva de certa palmeira, que Aróe-toeráre bebia em minha frente sem tirar a cabaça da boca. Durante esses rituais, tomaram todos os ossos de Cadete, grandes e pequenos, e recamaram cada um deles com plumas coloridas de diferentes pássaros. Assim, foram postos num cesto novo e levados para a lagoa dos mortos, onde o suspenderam no alto de uma longa vara de ponta enterrada no fundo.


Fascinação

Durante meus dez anos de etnólogo, convivi com diversos grupos indígenas. Exercia então, simplesmente, meu ofício de etnólogo de campo. Só que, ao contrário dos meus colegas que passam alguns meses, um ano no máximo, com sua tribo, eu alonguei, por todo aquele tempo, minha estada com eles. Por quê? Primeiro, porque não realizava uma pesquisa acadêmica, como é corrente.


Trabalhando no órgão de estudos de um serviço governamental de proteção aos índios, eu podia estudar quantos grupos quisesse, por quanto tempo desejasse. Foram, porém, outras as razões maiores de meus longos, belos anos de vida de índio, dormindo em redes e esteiras, comendo o que eles comem, eu só, em suas aldeias, contente de mim e deles. Entre essas razões, sobressai o encantamento em que caí diante dos meus índios e a curiosidade inesgotável que eles despertaram em mim.


Desde então, até hoje, me pergunto o como e o porquê dos seus modos tão extraordinários de serem tal qual são. Repensando agora, tantos anos depois, aquelas vivências minhas, ressaltam certas características distintivas dos índios, visíveis ao primeiro contato, que desencadearam aquele meu encantamento e essa longa argüição. A fascinação que aqui confesso não é, aliás, nenhuma novidade. Já os primeiros europeus que depararam com nossos índios nas praias de 1500 se encantaram com a peregrina beleza de seus corpos e a gentileza de seus modos. Qualquer civilizado que conviveu com uma tribo isolada carrega, pela vida afora, a lembrança gratíssima do sentimento de espanto e simpatia que eles suscitam.



Meditando, agora, sobre esse meu sentimento de fascinação, tantos anos depois, descubro que me encantava nos índios, primicialmente, sua dignidade, inalcançável para nós, de gente que não passou pela mó da estratificação social. Não tendo sido nem sabido, jamais, de senhores e escravos, nem de patrões e empregados, ou de elites e massas, cada índio desabrocha como um ser humano em toda sua inteireza e um ser único e irrepetível. Um ser humano respeitável em si, tão-só por ser gente de seu povo.




Creio mesmo que lutamos pelo socialismo por nostalgia daquele paraíso perdido de homens vivendo uma vida igualitária, sem nenhuma necessidade ou possibilidade de explorar ou de ser explorados, de alienar-se e de ser alienados. Isso me lembra um episódio de que jamais esquecerei. Os índios Xavante, que ocupavam um território imenso do rio das Mortes até o Xingu, tinham sido recentemente pacificados. No entendimento xavante, eles é que tinham estabelecido relações pacíficas com o homem branco. O que mais queriam então era ver, tocar, num desses pássaros de asas rígidas, intocáveis, que cruzavam seus ares.





Sabendo disso, o brigadeiro Aboim decidiu pousar três aviões numa clareira que os Xavante tinham aberto no cerrado. Lá foi. Ao descer do avião, viu que devia dirigir-se a um índio velho, todo encarquilhado, que parecia esperar por ele. Era Apoena, o mais velho dos Xavante e o mais respeitado. Aboim enfrentou Apoena todo vestido numa farda branca, cheia de tiras de ouro. Quem os visse perceberia logo que a dignidade naquele enfrentamento estava com o velho nu, com Apoena. Aboim parecia fantasiado.




Ocorre que Apoena trazia a tiracolo um cesto trançado de palmas verdes, carregado de gafanhotos tostados que ele comia tranqüilo. Aboim escandalizou-se e mandou trazer uma lata de biscoitos cream cracker. Abriu ele mesmo e entregou a Apoena, que recusava, não sabendo o que era. Aboim retirou um biscoito e o mastigou devagar, com boca de quem gosta. Apoena o imitou, tirou um biscoito e o pôs na boca, mas se horrorizou. A seu paladar aquilo era horrível, porque ele nunca havia comido nada tão salgado. Em seguida, limpou a lata dos biscoitos que tinha e passou para ela seus gafanhotos, que continuou comendo.








(...) Outra vertente do meu encantamento pelos índios vinha de meu assombro diante do exercício da vontade de beleza que eu via expressar-se infinitas vezes, de mil modos e formas. Aos poucos fui percebendo que as sociedades singelas guardam, entre outras características que perdemos, a de não ter despersonalizado nem mercantilizado sua produção, o que lhes permite exercer a criatividade como um ato natural da vida diária. Cada índio é um fazedor que encontra enorme prazer em fazer bem tudo o que faz. É também um usador, com plena consciência das qualidades singulares dos objetos que usa.





Quero dizer com isso, tão-somente, que a índia que trança um reles cesto de carregar mandioca coloca no seu fazimento dez vezes mais zelo e trabalho do que seria necessário para o cumprimento de sua função de utilidade. Esse trabalho a mais e esse zelo prodigioso só se explicam como o atendimento a uma necessidade imperativa, pelo cumprimento de uma determinação tão assentada na vida indígena que é inimaginável que alguém descuide dela. Aquela cesteira, que põe tanto empenho no fazimento do seu cesto, sabe que ela própria se retrata inteiramente nele.


Uma vez feito, ele é seu retrato reconhecível por qualquer outra mulher da aldeia que, olhando, lerá nele, imediatamente, pela caligrafia cestária que exibe, a autoria de quem o fez. Não havendo para os índios fronteiras entre uma categoria de coisas tidas como artísticas e outras, vistas como vulgares, eles ficam livres para criar o belo. Lá uma pessoa, ao pintar seu corpo, ao modelar um vaso, ou ao trançar um cesto, põe no seu trabalho o máximo de vontade de perfeição e um sentido desejo de beleza só comparável com o de nossos artistas quando criam.


Um índio que ganha de outro um utensílio ou adorno ganha, com ele, a expressão do ser de quem o fez. O presente estará ali, recordando sempre que aquele bom amigo existe e é capaz de fazer coisas tão lindas. Essa compreensão importa na conclusão de que a verdadeira função que os índios esperam de tudo o que fazem é a beleza. Incidentalmente, suas belas flechas, sua preciosa cerâmica têm um valor de utilidade. Mas sua função real, vale dizer, sua forma de contribuir para a harmonia da vida coletiva e para a expressão de sua cultura, é criar beleza.



Jacarés, piranhas e tourada


Na primeira viagem fiquei uns seis meses com os Kadiwéu. Conheci todas as aldeias, falei com quase todos os homens e mulheres. No ano seguinte voltei por uma temporada igual. Agora casado e levando minha mulher Berta, o que não agradou nada às moças índias, que tinham esperança de casar comigo e me fixar no melhor lugar do mundo para se viver, que são suas aldeias. Completei, assim, a pesquisa, sempre com a familiaridade de um quase Kadiwéu que volta para casa.



Às vezes, eles se impacientavam comigo, como ocorreu com um índio que me mostrava a mais importante de suas constelações. Espantado com a minha incapacidade de ver o que para ele era uma nítida cabeça de ema com os seus dois olhos – e para mim era um pedaço da Via Láctea e, provavelmente, o Cruzeiro do Sul. Minha ignorância espantava meu informante, que acabou me dizendo: “Você é cego, doutor i. Então não vê a ema celeste?”.





Em outra ocasião, eu estava na aldeia só com as mulheres, porque os homens haviam saído para caçar e pescar. Saí com minha espingarda e, num rio perto, dei com um jacaré. Atirei nele e acreditei que tinha morrido. Peguei o bicho pelo rabo e vim puxando para a aldeia. Ele abria e fechava a boca. Quando chegamos, as mulheres se apavoraram de ver aquele jacaré, que não era enorme, mas era mais ou menos grande, levado assim, a ponto de virar e morder minha perna. Fizeram o maior escândalo e, depois, homens e mulheres contavam o caso entre eles e riam desbragadamente da minha façanha infantil.


(...) Duas coisas me impressionaram muito nessa expedição de caça. Um rodeio que os índios decidiram fazer com os jacarés de uma baía, que foi a coisa mais espantosa que vi. Entraram quase todos eles por um lado da lagoa, armados de seus facões e foram gritando e espadanando a água para espantar os jacarés. Os que tentavam voltar eram cortados por eles. Assim foram até o fim da baía, expulsando dezenas de jacarés que lá estavam e que saíram andando. Em outro lugar me mostraram dezenas de caveiras de jacarés que nunca voltam para a lagoa de onde foram expulsos. Andam o quanto suportam e morrem no meio do areal.




Outro episódio inesquecível foi ver uma lagoa coberta de pássaros: tuiuiús, flamingos, garças, outros e outros que, ouvindo um barulho proposital que fez um índio ao meu lado, começaram a voar ali junto. O seu bater de asas matracado despertou outras aves, que voaram também. Afinal, parecia que toda a lagoa saía voando pelo céu. Vi, também, espantadíssimo, uma lagoa brilhando de madrugada, quando o sol a alcançou, como uma barra de ouro. Eram piranhas mortas aos milhões. Depois de comer todos os peixes e esgotar todo o oxigênio da água, cada vez mais escasso, morriam, e o fedor era tremendo.



O mais bonito da caçada foi deparar com um bando de emas enormes. Elas fugiam de nós, correndo com suas altas pernas balançando suas plumas. Os índios cavalgavam junto e as matavam, quebrando as pernas com pauladas. Queriam as penas, boa mercadoria. Eu fiquei olhando um ninho cheio de enormes ovos de ema. Triste.


(...) Aqui é o lugar de contar, creio eu, outro episódio inesquecível. Os índios me falaram dele várias vezes e eu achava quase impossível que fizessem aquilo. Afinal, consenti em comprar um touro para ver a tourada kadiwéu. Tendo vivido muitos anos junto a paraguaios e espanhóis, eles se afeiçoaram às touradas, mas inventaram seu próprio estilo de tourear. O tal touro comprado por mim foi solto no meio de homens e mulheres, que formavam um grande círculo no pátio da aldeia.





Quando o touro investia para um lado, eles puxavam o rabo para o outro lado. O touro ia ficando cada vez mais desesperado, saltando de um lado para outro do círculo de pessoas que o hostilizavam. Isso foi feito durante mais de uma hora, talvez duas. O touro cada vez mais cansado e eles o excitando de todos os modos, jogando coisas nele e obrigando-o a permanecer raivoso, não permitindo que ele parasse, sentasse ou desistisse da brincadeira.




A certa altura, com o touro muito quente e brigão, alguém cortou o tendão da perna dele. Aquela perna estendeu-se imediatamente e ele passou a andar com três pernas, com muita dificuldade. Então, um grupo de homens saltou sobre o touro e assim, em instantes, carnearam o touro vivo, tirando lanhos enormes de carne, do traseiro, da frente, das pernas, de todo lugar, arrancando a carne viva, que jogavam para as mulheres e crianças, que corriam imediatamente para assar em fogos que haviam feito em torno. O espetáculo coroou-se com homens, mulheres e crianças assanhando em cima do touro, tirando suas vísceras e se sujando uns aos outros com a bosta e o sangue do touro. Foi uma tourada fantástica, muito melhor do que as que eu vi na Espanha, mas terrível de ver. Medonha mesmo.



Leia: Confissões. Darcy Ribeiro. Ilustrações de Oscar Niemeyer. Companhia das Letras, 1997.




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