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domingo, 22 de janeiro de 2012

Nas trilhas de Quixote, by Fernando Granato

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Um amigo galego que vive em A Coruña, certa vez me disse que todos os espanhóis têm em casa um exemplar de Dom Quixote, mas que somente uma parcela insignificante das pessoas realmente leu, alguma vez na vida, a obra do começo ao fim. Achei exagero, e fui perguntar a outros espanhóis que conheci pelas minhas andanças pelo país.

De fato, todos me disseram o que Jose havia me dito anteriormente, que o Quijote, como todo clássico, é obra que todos conhecem, mas que poucos leem, o que só acontece nas escolas, quando os jovens têm um contato superficial com o livro, lendo as passagens mais conhecidas das aventuras do engenhoso fidalgo. Surpreendi-me com isso por um simples motivo: eu adoro a obra, amo a figura de Quixote e Sancho e não entendo como os próprios espanhóis não sintam o mesmo entusiasmo literário que eu.

E nas minhas andanças, agora pelos sebos do centro velho aqui de Sampa, achei uma pequena publicação que me encheu de alegria: Nas trilhas de Quixote - uma viagem pelos caminhos do Cavaleiro Andante, escrita pelo jornalista Fernando Granato.

O livro é na verdade uma longa reportagem que “pretende trazer ao leitor os cheiros, os sabores, os sons e as imagens que permeiam o universo da grande obra de Miguel de Cervantes”. Isso está escrito na orelha do livrinho (livrinho porque pequenino mesmo) e de lá copio mais um trecho a seguir:




“Nas longas planícies cor de ocre da Mancha ainda se destacam, vez ou outra, os monumentais moinhos de vento que Dom Quixote confundia com gigantes. Na imensidão da planura ainda podem ser vistos os rebanhos de ovelhas que o personagem tomava por exércitos inimigos.”



“(...) Dentro da teoria de que o meio faz o homem, este trabalho pretende conferir se muitas das características quixotescas do personagem existem a partir das condições do seu hábitat natural: um lugar onde os minutos custam a passar e tudo parece permanecer no mais profundo repouso, em uma estagnação que se perpetua há séculos.”

Bela foi a viagem que o Fernando fez de carro pela região da Mancha para colher o material para sua reportagem transformada em livro. Dá vontade de fazer o mesmo. Aliás, isso de viajar pelos lugares que foram cenários, reais ou fictícios, da vida de grandes escritores e escritoras (ou artistas e personalidades em geral) é muito comum mundo afora.





Uma amiga, leitora apaixonada de Jane Austen, viajou à Inglaterra somente para conhecer a casa onde viveu a escritora (figura acima), tão cheia de razão e sensibilidade. Eu mesmo no ano passado passei por uma experiência semelhante, quando fui visitar a casa onde viveu e faleceu
Rosalía de Castro, em Padrón, e posso afirmar que a experiência é gratificante, sensação única de estar no mesmo ambiente em que alguém que você admira viveu, ou mesmo deparar-se com o leito de um quarto onde, no caso de Rosalía, foi palco de seu último suspiro, e onde hoje, sobre um travesseiro, se encontra uma rosa vermelha.




São detalhes como esse que fazem uma viagem ganhar outra proporção; alguns deles aparecem no relato do Fernando Granato sobre sua viagem à região de Castilla La Mancha, uma das 17 comunidades autônomas do Reino da Espanha. O autor recorre ao grande
Unamuno para descrever o povo habitante dessa região:

“É uma casta de compleição seca, dura, tostada pelo sol e curtida pelo frio, uma casta de homens sóbrios, produto de uma larga seleção provocada por um gelado e rigoroso inverno e uma série de penúrias periódicas, produzidas pela inclemência do céu e pela pobreza da vida.”





A aventura do Fernando é linear e começa pelo aeroporto de Barajas, em Madrid, onde aluga um carro e dirige até a encantadora cidade de Toledo, lugar que ninguém deveria partir dessa vida sem conhecer.

O emaranhado de ruas, com piso irregular de pedra, é uma característica típica de uma cidade edificada por árabes, que assim faziam para confundir os inimigos nas perseguições. Alguns desses lugares chamaram a atenção de Cervantes e mereceram menção especial em Dom Quixote.





É o caso da antiga rua dos mercadores, a “Alcaná de Toledo”, onde forasteiros de toda a região se abasteciam de suprimentos, como trigo e cevada. Para dar veracidade a sua novela, Cervantes cita essa rua, muito freqüentada pelos mouros, como sendo o local onde encontrou provas reais da existência de Quixote: documentos elaborados por um tal Cide Hamete Benengeli, “mítico historiador árabe”, sobre a vida do cavaleiro andante.

Essa última passagem explica porque a viagem tem início em Toledo. O autor fez um trabalho muito bem elaborado nesse livro-reportagem: descreve a paisagem do entorno, explica de forma didática e prazerosa os fatos históricos, não foge do tema central – sempre que pode escreve os trechos do Quixote que justificam sua passagem pelos locais (possivelmente) visitados por Cervantes, “um viajante contumaz que antes de passar para o papel sua obra-prima, percorreu grande parte da Mancha colhendo elementos reais para rechear sua ficção.”




E um ponto, mais um, a favor do escritor: nunca deixa de mencionar a mesa espanhola, com suas iguarias que traduzem de maneira autêntica a alma do povo espanhol, que me perdoem o lugar-comum da afirmação. Essa importância sobre a comida, um verdadeiro rito na cultura ibérica, não passa despercebida nesse relato, pelo contrário, ganha até um destaque, cuja cena se passa em Puerto Lápice, “uma pequena vila de casas brancas e varandas em ferro trabalhado, literalmente cortada pela estrada” e destino da primeira saída aventureira de Dom Quixote, como nos informa o autor desse relato:



A gastronomia é um capítulo à parte na obra de Cervantes e merece atenção daqueles que se propõem a refazer a rota de Dom Quixote. Ao longo dos 52 capítulos da primeira parte do livro e dos 74 da segunda, é como se o leitor se sentasse à mesa com o povo espanhol para apreciar o bom vinho e uma culinária baseada nos ingredientes típicos mediterrâneos, como o azeite, os cereais e o famoso jamón, o presunto cru espanhol.





Logo no início, Cervantes descreve a modesta alimentação a que se submete seu decadente fidalgo: “Cozidos, em que havia mais de vaca que de carneiro; guisados na maioria das noites, duelos e quebrantos (que são uma fritada de ovos com torresmo) aos sábados, lentilhas às sextas, uma pombinha a mais nos domingos...”.

Pela maneira como se nutre nosso personagem, já é possível chegar a algumas conclusões sobre seus costumes, sua condição social e sua religiosidade. Os guisados noturnos, por exemplo, nada mais eram do que uma preparação feita à base de cebola, alho, pimenta, vinagre e as sobras do almoço, numa mistura também conhecida na Espanha por “roupa-velha”, um mexido dos fidalgos empobrecidos.



Depois de gastar algumas palavras descrevendo os prazeres pecaminosos da culinária manchega (vale lembrar que a região é a maior produtora mundial do açafrão), Fernando assume que viajar pela rota de Quixote é “compartilhar, invariavelmente, uma mesa de pinho, forrada com uma toalha quadriculada em vermelho e branco. Nela, há sempre um pedaço de pão, um copo de vinho, uma porção de jamón serrano, um prato fumegante e muito tempo para saborear conversas.” Dá vontade de sair correndo prá lá.

Mas de correria essa viagem breve de Fernando pela rota quixotesca não tem nada. O ritmo ali segue a ordem natural das coisas, as prosas com a gente local, que rendem bons papos e algumas informações interessantes que ajudam a dar corpo ao relato e que eu não vou transcrever aqui no Odepórica porque faço questão que você vá comprar o seu exemplar e descubra por conta própria.





É claro que eu poderia transcrever a passagem sobre o homem que inspirou Cervantes a criar Dom Quixote, ou aquela em que lemos sobre a Cova de Medrano, o buraco onde Cervantes esteve preso, ou sobre o roteiro do vinho, que jamais pode ficar de fora em uma viagem por aquelas terras, ou sobre o encontro com um pastor de ovelhas, figura típica (até quando?) dos fundões da Espanha... muitas passagens gratificantes você irá encontrar nessa leitura, vá por mim.

Escolhi o final de um capítulo para encerrar esse post; acho que de alguma maneira consegue em poucas palavras, sob o disfarce das indagações, captar a essência daquilo que o autor buscou em sua viagem pela rota quixotesca.
Buen camino!



Neste final de tarde, Buitrago e Mateos me convidam para ver o pôr-do-sol, “el puente más largo que existe em el mundo entero”. A frase faz parte do poema “A Mi Tierra Natal: La Mancha”,
de autoria do próprio Mateos. O espetáculo se dá atrás de um conjunto de colinas – a Serra Calderina – que impera, soberbo, na imensa planície. Tudo se enche de uma cor dourada, levemente escura, próxima do mate.

O que pensava Dom Quixote quando vagava por essas paragens em seu Rocinante? De que maneira esse cenário influenciou suas ideias? Por onde quer que ande, na Mancha, ficção e realidade estão misturadas de maneira visceral.



Leia: Nas trilhas de Quixote: uma viagem pelos caminhos do cavaleiro andante. Fernando Granato. Ed. Record, 2005.

Na vitrola: Vangelis, com a obra-prima El Greco. Para ouvir e viajar.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

Viagens literárias

.A Revista Personnalité, uma publicação trimestral da Trip Editora (em parceria com o Itaú Personalité, daí o nome) em sua edição de março de 2011 trouxe uma reportagem muito bacana que é a cara do Odepórica. A cargo de Daniel Benevides, a matéria intitulada Viagens Literárias, caso fosse ampliada e lapidada, daria um livro deveras interessante.

A introdução do texto já diz a que vem:

“A narrativa de grandes jornadas às vezes estabelece uma relação com o leitor tão profunda que o leva a fazer as malas e pegar a estrada. Ouvimos quatro personagens que fizeram de clássicos da aventura seus guias de viagem.”

Legal, não? Os quatro personagens que o Daniel entrevistou (assim imagino) são os seguintes: J.R. Duran (fotógrafo), Leandro Sarmatz (jornalista), Renato Yada (designer gráfico) e Beatriz Seigner (cineasta). Cada um deles fala um pouquinho sobre uma obra cuja narrativa os estimulou a botar os pés na estrada.

E então ficou assim: o fotógrafo falou da obra Gorillas in the Mist, não publicada por aqui, mas cuja história foi transposta para o cinema com o título de “Nas montanhas dos Gorilas”; o jornalista se amarrou no Bruce Chatwin, naquela obra supimpa que já resenhamos
aqui no blog, Na Patagônia; o designer, que adora pilotar uma moto foi seguir os passos do mestre Kerouac lendo On the road e a moça, que é cineasta e vive perambulando por aí, se encantou com o clássico Grande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa.

Só coisa boa esse povo andou lendo. Então, sem mais lingüiça, vamos direto ao texto do Daniel, que é um barato e está super gostoso de ler. Boa viagem e Namastê!

J.R. Duran e os Gorilas de Ruanda



Quando fala com seu simpático sotaque catalão, J.R. Duran perde o foco continuamente. O entusiasmo jovial e a memória prodigiosa não parecem deixar que se fixe numa só lembrança. As datas e situações se misturam, uma puxando as outras, formando uma curiosa teia de referências.

Fala principalmente da África, que o fascina desde menino. Conheceu boa parte do continente: Quênia, Namíbia, Uganda, Eritreia, Tanzânia, Somália, a lista é enorme. Sempre a trabalho – condição que considera necessária para deixar o olhar mais aguçado – e sempre inspirado por um ou mais livros.

Tem uma coleção de cerca de 300 livros com relatos de viagem. “Viajar é essencialmente um ato de imaginação. Mas é preciso também informação, que filtra o que há de interessante. E uma noção do passado, para poder enxergar os fantasmas. Você tem de enxergar os fantasmas!”






Foi assim com Gorillas in the Mist, da antropóloga
Dian Fossey, que o deixou instigado a conhecer os gorilas-das-montanhas de Ruanda, ameaçados de extinção. Em 2003, quando leu que o país voltava a abrir as portas, depois do genocídio de 1 milhão de pessoas (descrito em Gostaríamos de Informá-lo que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, de Philip Gourevitch), pegou o mínimo necessário e voou para o centro da África. “É um país muito pequeno, com apenas duas estradas, uma que cruza de norte a sul e outra de leste a oeste.”

Para chegar a 3 metros dos famosos primatas, Duran teve de ser escoltado pelo exército, por conta de caçadores ilegais, o que não esfriou sua curiosidade – ao contrário. O fotógrafo e aventureiro foi ainda à capital, Kigali, e ao lago Kivu, cenários da guerra entre tútsis e hutus.





Kivu fica na fronteira com o Congo, país em que também esteve, atraído pela leitura do clássico O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e pelos relatos do explorador Henry Stanley (1841-1904), que encontrou, em 1871, o então desaparecido David Livingstone, que havia se embrenhado na África em busca da nascente do rio Nilo.

O próprio Duran, estimulado por escritos dos mais diversos, como as biografias do explorador Richard Burton, as aventuras de Corto Maltese e mesmo as anotações de Che Guevara sobre a guerrilha no Congo, publicou Cadernos Etíopes (Cosac Naify) com fotos e textos sobre tribos da Etiópia.

Na apresentação, ele, que também lançou dois romances “noir existencialistas”, Lisboa (W11) e Santos (Francis), escreve: “É bom se perder com a certeza de que é possível voltar para casa”.

Leia: Gorillas in the Mist. Dian Fossey, Houghton Mifflin,1983

Leandro Sarmatz: Quando Nova York vira a Patagônia



E especialidade do jornalista Leandro Sarmatz é escrever, como prova seu excelente livro de contos Uma Fome, lançado pela Record ano passado. É bom de papo também: diverte os amigos como poucos, em noites de libação e trocas de causos, mentiras e pilhérias.

Em viagem recente a Nova York, ele juntou as duas coisas – primeiro, relatou suas impressões em um gravador durante caminhada do Brooklin a Washington Heights, do outro lado da ilha; dias depois, colocou tudo no papel. Para fazer essa “viagem”, inspirou-se em dois livros: Na Patagônia, do britânico
Bruce Chatwin (Companhia das Letras), e O Rumor do Tempo e Viagem à Armênia, do poeta russo Ossip Mandelstam (Editora 34).

“Eles educaram meu olhar e me mostraram que o lado épico de uma jornada não está na quilometragem rodada ou na distância em relação ao meu ponto original, mas, sim, na forma como se encara o percurso desde o início.” E assim começou a jornada por essa avenida que encapsula tempos e espaços de Nova York. “A Broadway é uma espécie de resumo da metrópole: tem partes ricas, pobres, barulhentas, turísticas, barras-pesadas. Imigrantes novos e velhos, ianques de antiga linhagem, choques culturais a granel.”





Para aproveitar cada detalhe desse périplo urbano, antes de sair a campo, Leandro se preparou lendo tudo o que podia sobre a cidade e, assim como os viajantes que estudavam as cartas marítimas, simulou todo o caminho no Google Street View.

De volta a São Paulo, e tendo deixado todas as impressões e informações assentarem um pouco, começou um ensaio sobre essa jornada, buscando seguir as coordenadas deixadas por Chatwin: “Detalhes aparentemente banais ganham no seu texto importância às vezes até maior do que o assunto principal. Também me atrai a forma como ele embaralha os gêneros: ensaio, ficção, relato de viagem, memórias, anedotário, história regional, tudo isso comparece em Na Patagônia, sempre com humor e mão levíssima.”

Entusiasmado, continua: “A Patagônia de Chatwin é um território de gaúchos e cowboys desterrados, galeses transplantados, vidas marcadas por um tipo muito particular de solidão”. De certa forma, a descrição se encaixa também na movimentada Broadway percorrida por Leandro, que ainda cita, entre seus “guias literários”, Claudio Magris e seu Danúbio, o Atlas, de Borges (ambos da Companhia das Letras) e o Marca D’água, de Joseph Brodsky (Cosac Naify), roteiro poético para Veneza.


Leia: Na Patagônia. Bruce Chatwin, Companhia das Letras, 1988.

De Harley, Renato Yada encarna Sal Paradise




Desbravar os Estados Unidos por suas estradas intermináveis era uma obsessão para Renato Yada, designer gráfico, desde que leu On the Road – Pé na Estrada, de
Jack Kerouac (L&PM). “Em 2008, assim como o personagem Sal Paradise, alter ego de Kerouac, eu queria testar os limites do sonho americano. Sal representava o ideal de liberdade, o desejo puro de sair da estagnação e a depressão provocada por uma cidade grande. Então, aluguei uma Harley-Davidson em Miami e pus o pé na estrada para ver no que dava.”

Yada percorreu cenários rurais, desertos infinitos, cidades quase abandonadas, dormiu em motéis de beira de estrada e conheceu personagens estranhamente atraentes. Em 25 dias, rodou quase 4 mil milhas, o equivalente a 6.400 quilômetros. “Tirando o conforto de ter uma moto alugada, a viagem foi um teste de sobrevivência. Eu tinha pouco dinheiro, só o suficiente para gasolina, comida e estada. Chegava a passar quase seis horas em cima da moto sem me comunicar e muitas vezes sem contato visual com nenhum ser humano. Tinha tempo de sobra pra refletir sobre a minha vida inteira.”

No caminho para Graceland, em Memphis, Renato conheceu um sujeito que havia servido o exército junto com Elvis durante a Segunda Guerra (sic). “O velho me disse que, enquanto ele passava frio à noite na trincheira, Elvis estava hospedado num castelo na Alemanha. Pedi um autógrafo pra ele, no verso do mapa do Tennessee.” (nota: na verdade Elvis, que nasceu em 1935, serviu o exército após a 2ª Guerra, entre os anos de 58 a 60)



Entrando na Califórnia, uma cena que, se acontecesse no cinema, pareceria exagero do roteiro. O forte vento fez com que ele perdesse a noção de quanto combustível estava queimando. O tanque esvaziou em pleno deserto do Mojave.

“Caminhei empurrando a moto por mais de duas horas. O sol já estava se pondo e começou a ficar frio. Ninguém na estrada parou quando eu acenei. Fui salvo por uma mulher. Ela surgiu do nada com uma garrafa de água, um cabo de bateria, um galão de gasolina e ferramentas. Seu nome era Faith.”(fé, em português)




Em Amarillo, Texas, outro momento que poderia estar no clássico On the Road. “Entrei num bar e me inscrevi num concurso de sinuca. Ganhei de três cowboys e faturei o prêmio de US100. Consegui comer, beber e ainda pagar uma rodada para os adversários.”

Chegando finalmente a Los Angeles, não parou até ver o Pacífico. “Não podia deixar pro dia seguinte. Já era madrugada quando cheguei ao calçadão de madeira de Venice Beach. Estava muito escuro, mas ouvi o som agradável das ondas. Me lembrei das palavras de Kerouac:

‘Deixamos para trás a América e tudo o que sabíamos da vida. Tínhamos finalmente encontrado a terra mágica no fim da estrada. E a mágica era bem maior do que imaginávamos’. Com certeza, depois dessa aventura, muita coisa em mim mudou”.


Leia: On the road. Jack Kerouac, L&PM, 2010.

Beatriz Seigner mergulha em Grande Sertão: Veredas





A curiosidade e a energia da cineasta Beatriz Seigner parecem não ter limites, especialmente quando se trata de viagens e livros. Aos 17, após ler O Povo Brasileiro, de
Darcy Ribeiro, resolveu viver por um tempo entre os xavantes.

Suas leituras sobre o Oriente a levaram à Índia, onde dirigiu o longa Bollywood Dream, feito com poucos recursos e um talento que não passou despercebido pela crítica. Outro capítulo que marcou suas andanças está em Grande Sertão: Veredas, obra-prima de
Guimarães Rosa. “Sempre choro quando leio esse livro, fico tocada pela beleza das palavras”, diz.

Sem dinheiro, mas determinada a conhecer os grandes sertões e as veredas pelas quais passaram Diadorim e Riobaldo, encarou o “submundo” do centro de São Paulo e vendeu um antigo relógio de ouro da família. Com dinheiro no bolso, no auge de seus 18 anos, fez as malas para Cordisburgo, cidade mineira onde nasceu Guimarães Rosa, em 1908. Encantou-se com as pessoas do lugar logo de cara. “Vi que elas falavam daquele jeito do livro, que não era invenção de linguagem. As palavras do Guimarães faziam parte daquelas pessoas, daquela geografia. Depois de umas duas semanas eu já estava com aquela musicalidade incorporada”.



Andrequicé, mais ao norte, onde viveu e morreu Manuelzão, mítico personagem e amigo de Guimarães Rosa, era a parada seguinte. Bia seguiu o caminho da boiada que o escritor acompanhou em 1952, que passa por Curvelo, cruza o rio Bicudo e tangencia o morro da Garça.

Ela e alguns amigos acamparam na casa da filha de seu Raimundo, capanga que serviu de guia a Guimarães. De lá puderam explorar os arredores, andando em estradas de chão, embrenhando-se no cerrado, descobrindo cenários reais de Grande Sertão: Veredas, como o pequeno rio-de-janeiro, onde Riobaldo e Diadorim se encontram.

Ao longe, as serras do morro Vermelho, do Formoso, do Cabral, e o chapadão das Gerais emolduram o sertão-mundo, onde se experimenta, como diz o escritor, “o embevecimento do puro contemplativo”.

Inquieta, com o “compromisso de desafiar o desconhecido”, Bia, hoje com 26 anos, está preparando filme novo, a ser rodado na Colômbia. “Preciso mesmo viajar”, ela diz, sem conter o riso.

“Quanto mais longe você fica, mais você se liberta dos seus condicionamentos culturais e descobre quem você é fora de sua zona de conforto; você se torna mais confiante e corajoso, como os personagens do Guimarães Rosa”.

Leia: Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa, Nova Fronteira, 2001.