segunda-feira, 6 de março de 2017
Como se tornar um escritor de viagem, by Gary Shteyngart
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Notas de viagem e escrita fragmentária, by Olivia Dresher

Entendo bem a posição da Olivia Dresher, porque a mesma coisa aconteceu com o Luigi Monga, que lutou pelo reconhecimento da literatura odepórica enquanto gênero literário, tirando-o do limbo dos subgêneros. A bem da verdade, o que importa? Quem quiser ficar discutindo essa questão, que aproveite, e quem quiser ficar do lado dos pequenos, que fique. Eu fico com eles, que além de tudo me parecem pessoas simpáticas e de alto astral.

Diz a Olivia Dresher (na foto acima, nos anos 70) que a literatura fragmentária é um gênero difícil de definir, porque ele dificilmente se encaixa em algumas das categorias tradicionais de literatura (romances, contos, memórias, etc.); para ela, esse tipo de escrita se apresenta quebrada de alguma maneira e não é trabalhada de modo a possuir um início, meio e fim distintos. Duas formas de escrita que são inerentemente fragmentárias são os diários/agendas/cadernos de notas e as cartas.
Uma das características da escrita fragmentária é que é possível pular um parágrafo ou algumas linhas e sentir-se imediatamente envolvido com a leitura; os trechos fragmentados podem permanecer isolados, separados uns dos outros, mantidos em aberto e incompletos, mas isso também faz parte do seu charme natural.
A Olivia se encantou tanto com esse gênero de escrita que fundou uma editora independente, a Impassio, voltada à publicação de uma variedade de escrita fragmentária com um grande mix de gêneros, com ênfase especial em diários, relatos, cadernos de notas, ficção, aforismos, fragmentos de ensaios, prosa poética, fragmentos filosóficos, todos eles contemplando diversas artes literárias, como o romance, o conto e a poesia.

Além de escritora e editora, Olivia Dresher é antologista, tendo publicado duas obras nesse campo: In pieces: an anthology of fragmentary writing e Darkness and Light: Private writing as Art. E como eu ia dizendo lá no primeiro parágrafo, a dama tem um site - na verdade uma revista online, a Fraglit - que vale muito a pena perder um par de horas navegando; teve vida breve, o que é uma pena, porque tinha um conteúdo bacaníssimo de textos fragmentários.
Tudo começou em 2007, com artigos datados do jeito que os ianques costumam fazer e eu adoro: Outono de 2007, Primavera de 2008 e assim sucessivamente, de estação em estação (inverno e verão de fora) até o outono de 2010. Foram sete números, cada um deles com vários colaboradores e colaboradoras, e cada edição com um tema norteando os trabalhos publicados. O primeiro deles, que é o que nos trouxe até aqui, foi dedicado aos “Fragmentos de Viagem”. Depois vieram nessa ordem: Meditações sobre o amor, Cadernos filosóficos, Fragmentos de poemas, Memórias persistentes, Micro ensaios e Solidão. Interessante que só. Vou lhe dar uma dica de amigão: se tiver que optar por ler apenas um dos textos dessa primeira edição sobre Viagens, vá direto ao artigo do Guy Gauthier, Travel Journals: A way of capturing the moment. Essencial.

Claro que não vou transcrever o material do número sobre viagens na íntegra, para isso você terá que ir direto à fonte, prestigiando o trabalho da Olivia porque ela merece, claro. Como sempre, deixo o link no finalzinho do post, prá facilitar as coisas prá você.
Escolhi publicar o texto assinado pela própria Olivia. São citações (travel quotes) sobre o ato (ou a arte) de viajar que têm a cara do Odepórica, como você poderá conferir agora mesmo. Pensando bem, muito do material que lemos aqui no blog se encaixa direitinho nesse gênero de escrita fragmentária. Tudo a ver, pois como bem lembra a Olivia, a viagem, em essência, é uma experiência fragmentária. Namastê!
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Travel Quotes, by Olivia Dresher

Quanto mais eu viajo, mais eu me torno consciente do fato de que não me encaixo facilmente em qualquer lugar. É como estar com saudades de um lugar imaginário. (Rane Arroyo, 2003)

Não tenho a tendência de me preparar para conhecer um novo lugar lendo guias de viagem. Eu quero, sem aquele habitual senso de rapidez, ser surpreendida, ir me desdobrando durante o percurso... Viajar talvez seja como a arte: nutre as partes de nós das quais nem imaginávamos ansiar. O que eu experimentei na Escandinávia está além das palavras; eu a envolvi em torno de mim como um xale de lã bordado. (Deena Linett, 1998)

Quando estou viajando sozinho e sem obrigações, anonimamente e sem agenda pré-estabelecida, por uma cidade onde nunca havia estado, normalmente há um momento onde eu me desloco para “dentro” do lugar, que é como eu imagino que deve ser entrar em um espelho. Eu não estou mais no lugar, mas sou do lugar. Esse processo de mudar para dentro de um lugar geralmente ocorre simultaneamente ao movimento que faço para dentro de mim mesmo, de modo que eu deixo de me sentir impotente em um lugar estranho que é maior e mais misterioso do que a minha capacidade de contê-lo ou compreendê-lo, e passo a controlá-lo- eu estou nele e sou parte dele, e me movimento através dele seguindo o meu próprio ritmo. (Randy Roark, 2004)

26 de janeiro. Não era uma miragem. Nova Iorque é aqui; tudo é real. Rajadas de vento no céu azul, no ar úmido e suave, mais triunfante do que o traiçoeiro charme da noite... Eu estou aqui e Nova Iorque vai ser minha... Caminho pelas ruas nunca pisadas por mim, ruas onde minha vida ainda não foi esculpida, ruas sem o mínimo aroma do passado. Ninguém aqui está interessado com a minha presença; ainda sou um fantasma, e deslizo pela cidade sem incomodar ninguém. (Simone de Beauvoir, 1947)

O que dá valor à viagem é o medo. É o fato de que, num determinado momento, quando estamos bem longe do nosso país, somos tomados por um medo vago, e um desejo instintivo de voltar para a segurança dos velhos hábitos. É este o benefício mais óbvio das viagens. Naquele momento estamos febris, mas também muito abertos, de modo que o mais leve toque nos faz tremer nas profundezas de nosso ser. Deparamo-nos com uma cascata de luz e já não há eternidade. É por isso que não devemos dizer que viajamos por prazer; não existe prazer em viajar, e eu olho para isso mais como uma ocasião de um exame espiritual. (Albert Camus, from Notebooks 1935-1942)

Se você deseja viajar para longe e de maneira rápida, viaje leve. Deixe para trás as suas invejas, os seus ciúmes, sua incapacidade de perdoar, seus egoísmos e medos. Cesare Pavese (1908-1950)
Cada vez que viajo, cada vez que dirijo, cada vez que monto um cavalo, eu sinto que estou viajando. Não importa onde estou, ou para onde vou, mesmo que seja apenas um quilômetro de casa. Quando viajo sozinha, eu derreto. Meu eu se converte em um rio de percepção. (Olivia Dresher, 2007)
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Visite o site: fraglit.com
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Para ir mais longe, indico a leitura de um artigo acadêmico que encontrei disponível na Web quando procurava informações sobre a literatura fragmentária. O paper, apresentado este ano num congresso da ABRALIC tem autoria de Mauro Marcelo Berté da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e intitula-se “Da França ao Marrocos, da Irlanda à Itália, Barthes e Joyce em deslocamento”. É leitura acadêmica, escrita em academiquês, mas o tema é tão interessante que você até esquece desse detalhe. Nota dez pro Berté!
sábado, 8 de outubro de 2011
Viagens, by Paul Bowles
Também comprei alguns títulos, entre eles o último lançamento de um dos meus escritores mais queridos, Paul Bowles (1910-1999). A obra, ainda não lançada no Brasil, intitula-se Travels: collected writings, 1950-1993. Como o título indica, o livro é um apanhado de textos que Bowles publicou em jornais e revistas durante mais de quatro décadas.
São muitas as surpresas que encontramos nessa coletânea de textos de viagem do Bowles. A começar pela introdução, a cargo de ninguém menos do que Paul Theroux, um dos grandes da literatura odepórica contemporânea.Além da introdução cativante de Theroux, ainda temos outras preciosidades que enriquecem a obra de um modo geral, não bastasse os textos preciosos do próprio autor. É o caso da cronologia no final da obra, escrita por Daniel Halpern, que teve o cuidado de enumerar os fatos mais marcantes da vida do escritor ano a ano, desde seu nascimento até seu suspiro final. Didático e preciso, como toda boa cronologia, deve ter dado um trabalho e tanto para o Mr Halpern.
Um capítulo que logo de cara me chamou a atenção foi o que faz referência a The Sheltering Sky, que está para Bowles assim como On the road para Kerouac: The Sky (O Céu). Foi o primeiro que li, logo depois da introdução. É um texto curto, retirado de uma obra de 1993, chamada Portraits Nudes Clouds que pelo que andei pesquisando foi editada por um artista e fotógrafo italiano chamado Vittorio Santoro juntamente com Bowles, sendo que um entrou com as imagens e o outro com os textos.
O céu sempre foi uma referência na obra de Paul Bowles, tocado que foi em vida pelas paisagens saarianas. E me pego agora, folheando novamente sua autobiografia, lendo uma passagem que grifei numa leitura anterior, em que Bowles fala justamente do céu:No trem que partira de Chicago rumo ao Sudoeste eu via o céu tornando-se mais limpo e claro e sentia que mais uma vez a vida se abria para mim e ganhava sentido - uma sensação indefinida que tenho inexplicavelmente quando me dirijo a regiões desconhecidas.
E é interessante demais o excerto garimpado do livro de fotografias, tanto que não resisto em copiar um pedacinho dele aqui:O ambiente de uma cena que testemunhamos na vida é determinado em grande medida pela luz projetada sobre nós a partir de cima. Como um mestre eletricista, o céu fornece uma variedade infinita de efeitos luminosos sobre nossas ações, ajudando a moldar até mesmo as emoções que as acompanham.
Há o lento escurecer do crepúsculo para a troca de intimidades, a luz do sol inundando uma manhã de primavera - um sentimento irracional de prazer, a escuridão da noite quando nenhuma luz cai do céu e cada um se torna vítima de suas próprias fantasias, o cinza, luz indiferente de um céu encoberto no verão, um estímulo à indolência.O resto é ainda mais bonito, uma sucessão de insights lindos e poéticos que ganham nas mãos de Bowles uma dimensão quase espiritual. Como ele diz lá na frente, “é uma mera questão de observação, a performance vem do céu...”
E um bom viajante tem esse diferencial, o de saber observar tudo o que se encontra à sua volta, observar de maneira a entender o que acontece fora de si, para depois, contando com o referencial de suas próprias experiências de vida, construir os alicerces que formarão o ser em sua mais completa essência. Esse ponto jamais poderá ser alcançado por aqueles que viajam (em todas as acepções do termo) mantendo uma observação passiva sobre os acontecimentos que se desenrolam à sua frente.
Paul Bowles viajou muito, e suas andanças o levaram a diversas partes do mundo; deslocou-se com alguma frequência entre os Estados Unidos, a Europa e o norte da África, tendo vivido suas últimas cinco décadas de vida em Tânger, no Marrocos. Diz ele em sua autobiografia:
Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui agora, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.E grande parte desses deslocamentos de Paul Bowles pelo mundo aparece documentada de alguma maneira em Travels; a própria divisão dos capítulos já dá uma ideia da cronologia de suas viagens, contemplando diversas cidades e países: Fez, Paris, Tânger, Sri Lanka, Quênia, Cabo Verde, Portugal, Espanha, Tailândia..., só para citar algumas das localidades. Fotos aqui e ali ajudam a entrar ainda mais no clima enfeitiçante das viagens de Bowles. E o resto você só saberá mesmo ao ler a obra, torcendo para que ela seja publicada por aqui.
O editor da obra faz um lembrete importante: Bowles já havia publicado um livro com suas narrativas de viagem no ano de 1963, com o peculiar título Their heads are green and their hands are blue (literalmente, “Suas cabeças são verdes e suas mãos são azuis”), um apanhado de artigos publicados originalmente em revistas. A pequena nota editorial de Mark Ellingham termina lembrando que os diários de viagem de Paul Bowles foram uma amostra da grande qualidade literária de sua prosa, ganhando um papel de destaque em sua obra e em sua vida.A seguir vou transcrever alguns trechos da introdução que Paul Theroux fez da coletânea Travels, de Paul Bowles.
O Paul Bowles estereotipado é um sujeito talentoso, enigmaticamente exilado, elegantemente vestido, com um cigarro entre os dedos, curtindo luxuriosamente o por do sol marroquino, ocasionalmente oferecendo suas ficções alarmantes e bem polidas a boa parte do mundo.Esse retrato tem uma dose de verdade, mas há muito mais a saber sobre ele. Com certeza, Bowles tinha estilo, e um livro de sucesso. Mas um único livro, ainda que muito popular, dificilmente garante uma renda regular. E, afora a questão do dinheiro, a vida de Bowles era complicada emocionalmente, sexualmente, geograficamente e, sem dúvida, criativamente.
Um homem engenhoso – como costumam ser os exilados ou expatriados – Bowles teve muitas maneiras de expressar sua imaginação. Fez nome como compositor, escrevendo música para um grande número de filmes e peças de teatro. Foi um etnologista musical, um precursor em gravações de canções e melodias tradicionais de remotas vilas no Marrocos e no México.Escreveu romances, contos e poemas, traduzindo textos do espanhol, do francês e do árabe, além de produzir mais de uma dúzia de livros com o contador de histórias marroquino, Mohammed Mrabet. De modo que o lânguido e desprestigiado estereótipo dá lugar a um homem muito ocupado, altamente produtivo, à beira de uma estafa.
(...) Foi um homem bonito e duro de impressionar; observador, solitário e que conhecia sua própria mente; seu espírito de aceitação, mesmo das fatalidades, fez dele um viajante ideal. Ele não era muito de gastronomia – como se vê em sua ficção, a comida repugnante (por exemplo, um ensopado de pele de coelho) lhe interessava mais do que a alta gastronomia.Tinha paixão pelas paisagens e o efeito em que causavam no viajante... Era fascinado pelas ambientações celestes e se empolgava com o grotesco, onde quer que a deformidade pudesse ser encontrada. Desdenhava o progresso e a tecnologia, chamando certa vez a modernidade de “gangrena do século vinte”.
(...) Bowles teve a sorte de escrever em uma época em que as revistas de viagem ainda acolhiam bem ensaios longos e repletos de reflexão. Escreveu artigos para várias revistas de prestígio e foi publicado em diversas coletâneas de ensaios. Também escreveu um artigo para a revista Holiday sobre haxixe, outro de seus entusiasmos, lembrando que ele nunca deixou de ser um cara chapado.Sabia bem o que curtia numa viagem, e também o que o aborrecia: “Se eu tiver que encarar a decisão de escolher entre visitar um circo e uma catedral, um café e um monumento público, uma festividade ou um museu, receio que normalmente eu optaria pelo circo, pelo café e pela festa”.
Não importa para quem ele está escrevendo, uma revista de viagem ou uma pomposa publicação trimestral, ele sempre soa feliz e frequentemente engraçado. (...) Sua rica vivência do mundo lhe capacitou a escrever sobre viagem, e um dos melhores ensaios de Travels, (“The Challenge to Identity”) faz uma análise da literatura de viagem:O que é um livro de viagem? Para mim é a história daquilo que aconteceu a uma pessoa em um determinado lugar, e nada mais do que isso; sem conteúdo de informações sobre hotéis e estradas, listas de frases úteis, estatísticas ou dicas de vestimentas necessárias ao visitante. Pode ser que tais livros pertençam a uma categoria destinada à extinção. Espero que não, porque não há nada de que eu goste mais de ler do que um relato preciso de um escritor inteligente daquilo que aconteceu com ele distante de casa.
Assim que finalizei a leitura de Travels, voltei a ler a introdução de Paul Theroux e vi que ele escolheu passagens realmente significativas da obra, o que não é uma tarefa muito fácil porque estamos falando de um livro de 513 páginas com muitas informações dignas de serem lembradas em uma apresentação ou resenha.Evidentemente isso é uma questão pessoal; no meu caso, selecionei tantas passagens da obra (e o Kindle facilita muito esse processo) que teria que escrever pelo menos uns três posts para poder contemplar a todas; procurando ser objetivo, selecionei dois momentos, os quais têm um peso fundamental na obra e vida de Bowles. Um fala do deserto, o outro de Fez, cidade marroquina por ele tão amada.
O deserto (e suas adjacências) sempre foi o grande personagem das obras de Bowles. Não é apenas um pano de fundo, como um local de grande efeito cênico. Se você leu (ou assistiu) O céu que nos protege, então sabe do que estou falando aqui, porque tudo o que acontece naquela trama não teria tamanha profundidade e efeito transformador nos personagens se estes não estivessem viajando pelo deserto.É a velha noção, que Bowles soube captar tão bem em sua obra, de que somente a solidão pode te levar de encontro ao self. Solidão, claro, num duplo sentido: a física e a psíquica, de modo que a geografia acaba sendo um agente facilitador desse processo de transformação interior. Uma experiência para poucos, vale lembrar.
E há os que vivem voltando ao deserto, aficionados que são pelas solitárias rotas esquecidas pela civilização. Por que será? O que há de tão cativante nessas paragens tão cheias de dificuldades? Há muitas respostas e a de Bowles é a seguinte:Quando um homem esteve no deserto e sobreviveu ao batismo da solidão ele não consegue mais se ajustar por si só; uma vez que ele esteve sob o feitiço da vasta, luminosa e silenciosa região, nenhum lugar será forte o suficiente para ele, nenhum outro ambiente poderá oferecer a sensação de suprema satisfação de existir em meio a algo que é absoluto. Ele voltará, seja o preço que for, porque o absoluto não tem preço.
O que mais me agradou em Travels foi poder encontrar numa única obra várias faces do pensamento de Bowles e perceber, através dos relatos de suas viagens ao longo de quarenta anos, que ele nunca se posicionou de maneira contraditória; sua identidade não mudou no meio do percurso e mesmo no final da vida seu texto continuou com a mesma força e carisma de sempre.Gosto muito quando ele escreve sobre o comportamento humano dos marroquinos, de como escreve sobre Fez, cidade cujos habitantes não têm vergonha de seu hedonismo, como afirma Bowles, ele próprio um tremendo hedonista, traço de caráter também comum aos seus colegas da geração beat; Bowles foi amigo de Allen Ginsberg (que junto com Burroughs perambulou pelo Marrocos) que o incentivou a publicar, pela City Lights (a mítica editora de Lawrence Ferlinghetti) um livro sobre o uso do Kif, como a marijuana é chamada pelas bandas marroquinas. Em Travels, de lambuja, você encontra um capítulo falando disso, e a obra foi lançada mesmo, em 1967 com o título Book of Grass, ou “O Livro da Maconha”. Direto ao ponto.
Antes de encerrar, vamos ler mais um pouquinho do texto de Bowles, um trecho onde ele fala de Fez. Veja como é tocante a maneira como ele narra uma cena comum vivida por uma família em um parque; Bowles sempre soube captar a poesia das coisas mais simples, resultado do olhar treinado de anos de vagamundagem.
Fez não é uma cidade agrada a qualquer pessoa. Muitos viajantes têm uma reação negativa de suas vielas escuras e sinuosas, repletas de pessoas e animais. Qualquer um com tendência a claustrofobia a achará um pesadelo desordenado de túneis, passagens sem saída e paredes sem janelas.Para absorver o fascínio desse lugar a pessoa teria que ser do tipo que gosta de se perder no meio de uma multidão e de ser levada por ela, não se importando para onde nem por quanto tempo; deve saber ficar relaxada com a ideia de encontrar-se só numa multidão sem poder contar com a ajuda de ninguém; deve saber encontrar prazer nas coisas bizarras e enxergar a beleza onde ela menos tenha chance de aparecer.
Não faz muito tempo, em uma de minhas caminhadas, deparei-me com uma família espalhada no meio de um gramado. Eles estavam sentados silenciosamente em seus tapetes de palha, mas algo em sua atitude coletiva me fez parar e observar mais atentamente.Foi então que eu vi que, ao redor deles, num raio de talvez trinta metros, havia um círculo de gaiolas, cada qual suspensa por uma estaca fincada no chão. Havia pássaros em todas as gaiolas e eles estavam cantando.
A família inteira sentou-se ali alegremente, ouvindo o canto dos passarinhos. Assim como os habitantes dos centros urbanos carregam consigo seus rádios, eles levavam seus pássaros com eles desde a cidade, exclusivamente como entretenimento.As mudanças trazidas nos últimos cinqüenta anos desde que vi Fez pela primeira vez são relativamente superficiais; nenhuma delas foi tão drástica a ponto de alterar essa imagem.
Sem dúvida Paul Bowles foi um ser humano singular, um homem que soube captar nuances da vida que pouquíssimos de nós teremos oportunidade ou ousadia de vivenciar. Outros tempos, podemos pensar, mas será mesmo que essa dinâmica de comportamento diante da vida depende desse fator?De modo que, se a nós não surgiu a oportunidade das experiências desses grandes homens e mulheres, escritores e viajantes, ao menos temos seus testemunhos, que de certa maneira estão aí, indicando caminhos, plantando sementes, acendendo fagulhas. Daí para por os pés na estrada, basta um passo e um tanto de coragem.
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Leia: Travels – Collected Writings (1950-1993). Paul Bowles. Harper Collins Publishers, 2010.
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Sobre o Céu que nos protege, a obra mais conhecida de Paul Bowles, já falamos aqui no Odepórica. Se lhe interessar, clique aqui.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Notícias de um país distante, by Christian Schwartz (Gazeta do Povo)

Schwartz conseguiu fazer uma abordagem muito clara sobre a literatura odepórica (o jornalista adota o termo inglês travel writing) apresentando alguns autores pontuais dentro desse gênero ainda pouco tradicional em nosso país, como ele mesmo notou, além de levantar questões fundamentais sobre a literatura odepórica tais como: Existe futuro para a literatura de viagem? Existe algum sentido em se falar desse gênero literário na era da internet?
Notícias de um país distante
Livros de viagem, que antes se ocupavam de falar dos lugares, cada vez mais se voltam para os relatos que tratam de pessoas.
É tempo de viajar. Aeroportos e rodoviárias abarrotados, destinos turísticos tentando comportar o dobro ou o triplo de sua população normal, cada vez mais gente pegando a estrada: por terra mesmo, mas também por céus e, por que não, mares – na onda dos cruzeiros a preços acessíveis até à chamada “classe C emergente”.
Mas houve época em que ir conferir in loco a boa-nova de terras distantes era impossível, ou coisa para muito poucos.
Em lugar do guia de viagem de hoje – livros de utilidade prática que pressupõem a repetição de um percurso e se dedicam a facilitar a vida de quem vai fazer o mesmo passeio de um “desbravador” – havia o relato de viagem, que não se limitava, vale dizer, ao diário de bordo. Toda uma tradição se formou em torno do que, em inglês, passou a se chamar travel writing. Nasciam um tipo de autor e um gênero de texto: os aventurosos escritores-viajantes e sua colorida literatura de viagem, cheia de imaginação, pois era preciso deslumbrar um leitor que jamais botaria os pés naqueles mesmos lugares.
A tradição remonta aos gregos – e o que mais é a Odisséia, de Homero, senão uma jornada por terras distantes? – e às peregrinações de Abraão no Velho Testamento, com escalas obrigatórias no Oriente dos épicos de Gilgamesh e Mahabharata, ou ainda nos relatos de grandes aventureiros como Marco Polo e os descobridores portugueses e espanhóis – basta lembrar os diários sobre o Novo Mundo deixados por um Pero Vaz de Caminha ou um Américo Vespúcio.
Os séculos seguintes foram de exploração das colônias por seus respectivos impérios. E, particularmente entre franceses e ingleses, surge a figura do escritor-viajante munido de curiosidade científica – não à toa muitos naturalistas, como Saint-Hilaire em sua passagem pelo Brasil, e até mesmo Darwin deram suas “voltas ao mundo” para desbravar novas paisagens e espécies. Deixaram o tipo de relato que pode ser considerado ancestral direto do que viriam a fazer – ou, em alguns casos, já começavam a publicar – aventureiros típicos do século 19 e início do 20.
Essa literatura de viagem que tem um pouco de antropologia, outro tanto de cartografia – afinal, nem todos os mapas estavam desenhados, àquela altura – e muito de reportagem foi a tônica entre os escritores-viajantes que, aproveitando-se de sua condição de “civilizados”, oriundos das metrópoles, iam buscar impressões sobre a gente e os lugares mais “exóticos”. Existirá hoje algum recanto intocado, habitado por povo tão peculiar, que ainda justifique esses escritores e suas aventuras?
Ou, conforme se perguntou, em artigo recente, o escritor William Dalrymple, ele próprio um dos expoentes da atual literatura de viagem em língua inglesa: “(...) existe realmente algum sentido em se falar desse gênero literário na era da internet, quando é possível obter informação confiável, e instantânea, sobre qualquer lugar do globo?”
Dalrymple aponta que, durante quase uma década, entre os anos 70 e 80, a literatura de viagem foi a vedete. “Ela reemergiu num momento de desencanto com o romance”, explica, “e parecia estar se tornando uma séria concorrente para a ficção. Um escritor poderia continuar a usar as técnicas do romance – era possível desenvolver personagens, selecionar e delinear a experiência da viagem numa série de cenas e episódios, ordenar a ação de modo a conferir à narrativa uma forma e um ritmo – mas escrevendo sobre fatos reais. E, além disso, ao contrário da ficção, a literatura de viagem vendia bem.”
Foi, entre as muitas “épocas de ouro” da literatura de viagem, só a mais recente, cujos marcos se deram, quase ao mesmo tempo, com a publicação de dois livros: O Grande Bazar Ferroviário (Objetiva), de Paul Theroux, que percorreu o planeta, quase literalmente, usando o meio de transporte que um dia revolucionou os deslocamentos; e Na Patagônia (Cia. das Letras), de Bruce Chatwin, um mergulho no mundo selvagem contado com sutil poesia. Ao lado dos dois, estavam no auge nomes menos conhecidos – e até hoje praticamente inéditos no Brasil – como Leigh Fermor.
Por fim, já em 1984, a prestigiosa revista literária britânica Granta dedica um número inteiro à literatura de viagem – inspiração também, ainda que não declarada, da Granta brasileira em sua edição número dois, no primeiro semestre de 2008, intitulada Longe daqui. As memórias de viagem de Edmund White, outro assíduo freqüentador da travel writing, sobre o deslumbramento de um americano na Europa valem a edição.
William Dalrymple lança o desafio: “existe futuro para a literatura de viagem?” Ele responde que sim, há uma excelente nova geração de escritores-viajantes na ativa, mas ressalva: “Se, no século 19, a literatura de viagem era principalmente sobre lugares – tratava-se de preencher certas lacunas nos mapas descrevendo lugares remotos que poucos haviam visitado – a melhor literatura de viagem do século 21 é quase sempre sobre pessoas: explora a extraordinária diversidade que ainda existe no mundo sob a superfície da globalização”.
Para o filósofo francês Michel Onfray, autor de Teoria da Viagem (L&PM), a palavra escrita, além do mais, é insubstituível como veículo da memória de quem viaja – uma apologia às diversas formas assumidas pelo relato de viagem: o atlas, o poema, a prosa em suas diversas vertentes, até mesmo os “utilitários” guias... “Os lugares do mundo convergem para as telas informáticas ou televisivas, tristemente semelhantes à sua realidade, mas engaiolados (...)”, protesta Onfray. “Qualquer linha de um autor, mesmo medíocre, aumenta mais o desejo do lugar descrito do que fotografias, muito menos filmes, vídeos ou reportagens. Entre o mundo e nós, intercalaremos prioritariamente as palavras.”
Viagens pelo coração do Brasil revisitadas

Há, claro, muitos relatos de estrangeiros sobre a terra brasilis – não à toa, de novo, além de portugueses e espanhóis por razões óbvias, ingleses e franceses. Muitos deles, como se sabe, patrocinados no século 19 pela curiosidade do imperador D. Pedro II – ele também viajante contumaz.
Coincidência ou não, alguns dos melhores relatos de viagem escritos por autores brasileiros que resolveram percorrer a imensidão do próprio país são remakes de viagens anteriores. Duas expedições, uma recente e outra nem tanto, dão a medida dessa tendência.
As viagens pelo interior do Brasil feitas, entre 1927 e 1929, pelo escritor modernista Mário de Andrade, e mais tarde relatadas em O Turista Aprendiz, foram repetidas pelo jornalista Miguel de Almeida, então um jovem repórter da Folha de S. Paulo, no início dos anos 80. O resultado da experiência – na época publicado em capítulos regulares no jornal – acaba de ganhar relançamento no livro Na Trilha dos Trópicos (Lazuli), editado pela primeira vez logo após a viagem.
Euclides da Cunha, muito conhecido pelo trabalho como correspondente de guerra na campanha de Canudos e pelo clássico daí resultante, Os Sertões, se aventurou também pela Amazônia. Engenheiro de formação e ex-militar, Euclides foi nomeado chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus e, durante alguns meses do ano de 1905, comandou uma expedição cheia de percalços ao Acre. Chegou a passar fome e sofreu com surtos de malária, experiência que resultou nos textos de À Margem da História (Martin Claret) – na verdade, apenas a parte que conseguiu concluir, antes de ser assassinado, de um volume maior que deveria se chamar Um Paraíso Perdido.
Peregrinos, andarilhos, vagabundos e “vagamundos”
O paradoxo é que, como manda o clichê, o mundo hoje fica logo ali, “à distância de um clique no mouse”. Até existem aqueles que preferem o conforto do sofá de casa ou da tela do computador para uma volta ao mundo particular, mas são minoria. A informação abundante – e, sobretudo, as imagens exuberantes – dos quatro cantos do mundo, para não falar de tudo mais que se encontra pelo caminho, desperta o impulso da viagem.
Além disso, o mundo dito globalizado e suas assimetrias incentivam – quando não obrigam – a migrar. A informação, mais uma vez, sobre destinos que possam garantir um futuro que a terra natal lhe recusa é o que impulsiona, muitas vezes, o migrante.
Para o filósofo francês Michel Onfray, em seu belíssimo ensaio Teoria da Viagem (L&PM), as raízes do desejo de se largar no mundo são mais profundas: “Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi”, escreve Onfray, poética mais até do que filosoficamente.
Mas, a quem decide viajar, outra inquietação se impõe de imediato: “Todas as destinações se tornaram possíveis – questão de tempo. Nesse campo dos possíveis, como escolher um lugar? O que escolher? A que renunciar? E por que razões? Nas combinações pensáveis, qual preferir, e por quê?”, reflete o pensador francês, que mais uma vez junta razão com alguma poesia para responder: “(...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras da infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, num dia melancólico ao fundo da classe”, escreve. “Existe uma cartografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”
Num bonito texto sobre os dilemas da identidade no mundo atual (From Pilgrim to Tourist, “do peregrino ao turista” – sem tradução para o português), o sociólogo Zygmunt Bauman, polonês radicado na Inglaterra, fala da inevitabilidade da viagem.
Depois de lembrar que a idéia de peregrinação é, no mínimo, tão antiga quanto o Cristianismo, Bauman afirma: “Para os peregrinos de qualquer época, a verdade está em outro lugar; o verdadeiro destino está sempre a certa distância, a certo tempo de viagem daqui. Onde quer que o peregrino esteja agora, não é onde deveria estar, e não é o lugar aonde sonha ir”.
Mais recentemente, porém, quando a palavra de ordem – mais do que simples necessidade – é evitar fixar-se (e até mesmo adotar uma identidade única e imutável), nada restou “remotamente parecido com o senso de propósito e aferrada determinação do peregrino”. Daí a norma: “não planeje viagens muito longas – quanto mais curta, maior a chance de ser concluída”; ao que se poderia acrescentar: para logo viajar para outro lugar. Instaura-se a ditadura do turismo.
Bauman identifica alguns tipos de viajantes que, em busca de definir-se, perambulam pelo mundo, entre eles o “andarilho” – outra tradução possível é “vagabundo” ou, para usar o neologismo já um pouco gasto, mas aqui cheio de sentido, “vagamundo”, aí incluído o migrante que às vezes viaja à força, em fuga; e o próprio turista. Sempre em movimento, como o “andarilho”, o turista se move com um propósito: ter novas experiências; ao contrário do “andarilho”, porém, não se depara com realidades duras e difíceis (apenas com a “vida estetizada e esculpida”) e, principalmente, tem uma casa para onde voltar.
Já Michel Onfray identifica dois tipos de “temperamento” no que diz respeito à necessidade humana de se pôr em movimento: de um lado, há o turista, de novo ele; mas, de outro, em absoluto contraponto, fica o “viajante”.
“O turista compara, o viajante separa”, define Onfray. “O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma (...); o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado (...).”
Há quem se ressinta da predominância do turista sobre o viajante – uma separação também adotada por outro, mais do que filósofo (que de fato ele foi), poeta: Émil Cioran, romeno radicado na França. Conforme lembrou o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, em artigo recente, Cioran gostava das praias da Normandia e da Bretanha no verão. Mas se desesperava com as hordas de turistas: “Num desses momentos, ele escreve que os ‘novos bárbaros’ (os turistas) tomaram o lugar dos ‘viajantes’, pessoas que amam conhecer o mundo pra se ‘espantar’ com ele, e não torná-lo seu ‘churrasco na laje em Paris’”, resumiu Pondé, impiedoso. (Christian Schwartz)
O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire percorreu, entre 1816 e 1822, cerca de 8 mil quilômetros pelas principais províncias brasileiras do centro ao sul do país, caminho comum de diversos viajantes que, beneficiando-se da abertura concedida com a vinda de d. João VI, fizeram expedições para catalogar as “terras e as gentes” do Brasil para a expansão dos domínios europeus.
Diferentemente da primeira leva de viajantes e cronistas, que aportaram no Brasil com os portugueses, a geração de Saint-Hilaire valorizava a racionalidade. Os naturalistas da época de Saint-Hilaire eram como repórteres, que, munidos de equipamentos da ciência, relatavam a “vida como ela era”; já os cronistas como Pero Vaz de Caminha, Magalhães Gandavo e Jean de Léry, que chegaram ao Brasil dois séculos antes, podem ser comparados a poetas: sob um imaginário religioso e mágico, em muitos casos tinham uma visão da realidade que contava com elementos fantasiosos.
A geração de Saint-Hilaire foi responsável por mostrar uma visão objetiva do Brasil para as nações modernas que se formavam na Europa. O perfil geológico, botânico, a fauna e os recursos naturais foram contabilizados por esses viajantes, que dominavam vários conteúdos.
Além do estudo da natureza, os viajantes registraram a vida social daquela época. Se quisermos ter uma visão sobre a sociedade no Brasil do século 19, a melhor fonte são os relatos dos viajantes. Os ensaístas que fizeram, a partir do início do século 20, as grandes interpretações do país, serviram-se de maneira abundante das observações dos viajantes. O que estes escreveram sobre o Brasil ajudou a construir a identidade, apesar de ser um olhar de fora, do europeu falando do seu “outro”.
Em janeiro de 2001, refiz o percurso de Saint-Hilaire no Paraná, por onde ele passou em 1820, quando o território integrava a Província de São Paulo. O resultado foi o livro Nas Trilhas de Saint-Hilaire, um diário de viagem em que procurei registrar lugares e pessoas. As fotografias foram feitas por Antonio Liccardo, geólogo e fotógrafo que, três anos mais tarde, fez um livro sobre o percurso do viajante francês em Minas Gerais.
Os 181 anos que separam minha passagem e a de Saint-Hilaire por algumas cidades do Paraná marcam diferenças enormes. Nesse intervalo, o Paraná foi “reinventado”. No território, havia uma meia-dúzia de cidades em 1820, fazendas, escravos, garimpeiros, tropeiros e proprietários de terra.
À diferença da Província de Minas Gerais e de partes de São Paulo, o território que hoje compreende o Paraná era pouco habitado, mas já tinha algumas marcas de identidade cultural que podem ser observadas até hoje. Trata-se de uma identidade formada por elementos das culturas portuguesa, indígena e negra.
Esses traços foram transformados aos poucos. No final do século 19, o Paraná receberia uma grande leva de imigrantes europeus, trazendo novos elementos culturais ao Estado. Esse dado, no entanto, passou a ser visto como determinante da cultura paranaense. O crítico Wilson Martins, por exemplo, escreveu um ensaio chamando o Paraná de “Brasil diferente”. Nele, afirmou que os elementos europeus não-portugueses foram determinantes na formação da cultura paranaense. A tese de Martins questionava autores que defendiam o papel importante do indígena, do negro e do português na formação do caráter do brasileiro.
A tese de “Brasil diferente” rondou a mente dos paranaenses e foi mote de campanhas oficiais que venderam o Paraná e Curitiba como pedaços da Europa no Brasil. Trata-se de uma identidade cultural que chegou a ser disseminada em livros didáticos, matérias jornalísticas e propagandas oficiais.
Ao percorrer as trilhas de Saint-Hilare, no entanto, descobri um “Brasil diferente” daquele mostrado tanto pelo viajante francês quanto pelo crítico literário. Ele não é mais formado por uma população predominantemente rural, com mesclas de português, índio e negro, tampouco é uma região marcada pela cultura europeia, preconizada na tese de Martins.
Exemplo: um trabalho que vem sendo realizado pelo Grupo Clóvis Moura “descobriu”, recentemente, 87 quilombos no Estado, que, em sua formação, conta com 24% de afrodescendentes. Na região por onde Saint-Hilaire passou – os Campos Gerais, que envolvem cidades como Ponta Grossa, Tibagi, Reserva, Castro e Sengés –, a presença negra chega a 40% da população.
Infelizmente, vêm sendo pouco valorizadas as culturas do negro, do índio e até mesmo do português na formação do Paraná, ocultadas em nome de uma suposta formação europeia, o que, na verdade, revela um certo complexo de inferioridade do Estado e da cidade de Curitiba, até hoje vendida nos guias turísticos pelas suas características europeias. Ações que buscam corrigir esse equívoco devem ser aplaudidas. E a leitura de Saint-Hilaire é um bom começo para mostrar que o Paraná não é um Brasil tão diferente assim.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Os 20 melhores livros de viagem do século passado pelo The Times

Ilustração: Blexbolex
Os livros selecionados abaixo são recomendações de diversos escritores, entre eles Victoria Hislop (“A Ilha”), Colin Thubron (“The Last Heart of Asia; “Shadow of the Silk Road”), Alexander McCall Smith (“Amigos, Amantes, Chocolate”; “O Clube Filosófico Dominical”) e Douglas Kennedy (“O Fotógrafo”; In God’s Country”), além de jornalistas do The Times. Algumas das indicações também vieram de listagens semelhantes feitas por escritores e até mesmo retiradas do twitter.
É apenas uma lista, e o autor do artigo assume que tem plena consciência da ausência de nomes de peso, como o de Jack Kerouac; para ele, o leitor pode pensar que muitas dessas obras são de fato romances históricos, mas se fosse assim teriam sido incluídas as obras de Orwell, Hemingway e Steinbeck. Os livros dessa lista são puramente relatos de viagem que inspiraram gerações futuras – ou ao menos as fizeram encontrar o seu próprio caminho.
Até onde consegui verificar, apenas cinco dessas vinte obras foram editadas aqui. Nenhum autor brasileiro, nem mesmo latino, aparece na lista, mas em compensação quatro delas tratam de viagens pela América do Sul – uma das quais retratando exclusivamente o Brasil.
As obras eleitas abarcam, como se pode supor, várias regiões do planeta. É interessante notar que nenhuma das viagens contempla a América do Norte. Por curiosidade, fui checar os destinos que mais apareceram e cheguei ao seguinte resultado:
Europa: 5 relatos
América do Sul: 4 relatos
Oriente Médio: 3 relatos
Ásia: 3 relatos
África: 2 relatos
Oceania: 1 relato
Volta ao mundo: 1 relato
Outros: 1 relato
Nesse “outros” coloquei a obra do filósofo best-seller Alain de Botton, The art of travel, lançada no Brasil como “A arte de viajar”, que é um ensaio maravilhoso, mas que não se enquadra numa listagem como essa (postarei em breve um texto sobre essa obra).
Vamos à lista? As obras já publicadas no Brasil aparecem com seu título em português. Confira:
20) Full Tilt: Ireland to Índia with a bicycle, by dervla Murphy (1965)
19) A arte de viajar, by Alan de Botton (2002)

18) A Dragon Apparent: travels in Indo-China, by Norman Lewis (1951)
17) The Granite Island, by Dorothy Carrington (1971)
16) Cut Stones and Crossroads- a journey in Peru, by Ronald Wright
15) Notes from a Small Island, by Bill Bryson (1995)
14) The Silk Road: beyond the celestial kingdom, by Colin Thubron (1989)
13) Love and War in the Apenines, by Eric Newby (1971)
12) Uma aventura no Brasil, by Peter Fleming (1934)

11) Na Patagônia, by Bruce Chatwin (1977)

10) Into the heart of Borneo, by Redmond O’Hanlon e James Fenton (1984)
9) Trieste and the meaning of Nowhere, by Jan Morris (2001)
8) Road to Oxiana, by Robert Byron (1933)
7) Mani- travel in the Southern Peloponnese, by Patrick Leigh Fermor (1958)
6) As I walked out one midsummer morning, by Laurie Lee (1969)
5) Arabia through the looking glass, by Jonathan Raban (1979)
4) O grande bazar ferroviário, by Paul theroux (1975)

3) A pior viagem do mundo, by Apsley Cherry-Garrard (1922)

2) A winter in Arabia, by Freya Stark (1940)
1) The Danakil Diary: journeys through Abyssinia, 1930-4, by Wilfred Thesiger (1996)
Se você se interessou pelo assunto, sugiro dar uma conferida no site de onde tirei essa matéria. O mais fantástico é que cada uma das 20 obras aqui selecionadas vem com uma breve resenha e com o link direcionando para o Times Archive, com matérias originais da época em que foram publicadas no jornal. In English, of course.
Boa viagem.
Acesse a matéria original aqui.












