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domingo, 11 de janeiro de 2015

Wabi-sabi, a arte da impermanência, by Juniper/Koren

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Numa passagem clássica da obra A Prisioneira (vol 5, Em Busca do Tempo Perdido), Marcel Proust escreve que a única viagem verdadeira não seria partir em demanda de novas paisagens, “mas em ter novos olhos, ver o universo com olhos de cem pessoas, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma delas é...”

Acredito que a experiência de viajar facilita a prática dessa atitude proustiana de exercitar o olhar, de enxergar as coisas de uma maneira diferente, o que poderia efetivamente ser feito sem a necessidade de sair de casa, pelo que não deixa de ser interessante descobrir novas maneiras de observar o mundo no dia a dia, o que em tese também faz com que amadureçamos nossa maneira de viajar, para assim aproveitarmos plenamente o tempo gasto nas deambulações.


Terminei há pouco a leitura de duas obras que me fizeram pensar muito sobre essas coisas, especialmente no que se refere ao olhar e à estética das coisas que nos cercam, que podem ser os objetos e utensílios que guardamos em casa, a decoração de uma loja, um arranjo de flores, a beleza ou a feiura de uma obra de arte, o impacto de um muro grafitado numa esquina da cidade, e qualquer outra coisa que nos chame a atenção, que capte nosso olhar por um tempo maior do que o de costume.  

Vamos aos livros: Wabi-Sabi: the Japanese Art of Impermanence, de Andrew Juniper e Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers, de Leonard Koren. Os títulos são pomposos, mas a temática do Wabi-Sabi é de uma simplicidade tocante, poética e muito sutil, como tudo que costuma vir das tradições do Oriente.


Antes de explicar o significado do termo wabi-sabi vou transcrever o prefácio do Andrew Juniper para sua obra sobre a arte japonesa da impermanência. É bem singela, mas vai direto ao ponto:

Quando me vi pechinchando por uma velha cumbuca em um restaurante turco, me dei conta de que os anos passados no Japão mudaram radical e irreversivelmente minhas perspectivas sobre a arte e a beleza. A pequena tigela escura que tanto me chamou a atenção não possuía um design que se pudesse qualificar, sua superfície era áspera e impregnada por anos de cozinha turca... mas mesmo assim havia algo nela que era sedutoramente atrativo.

A superfície esmaltada ganhara uma tonalidade visualmente rica e sua forma simples e nada refinada era pura e sem quaisquer considerações artísticas – uma entre milhares de tigelas semelhantes, mas sua rusticidade e ausência de arte eram extraordinariamente expressivas e ressonantes com as imperfeições e impermanência da vida. A vasilha que nós tanto admiramos tinha aquilo que os japoneses se referem como wabi-sabi.



Achei que o autor foi muito feliz ao tentar explicar o espírito do wabi-sabi sem ter que apelar para nada além de uma experiência corriqueira por ele vivida em um restaurante turco. De fato, ele sequer explicou o significado do termo wabi-sabi, lembrando, duas páginas à frente, de que os japoneses possuem uma admirável tendência de deixar o inexplicável inexplicado, como é o caso do Zen, cujos significados mais profundos não podem ser comunicados através de explanações verbais.

“Na filosofia Zen, as palavras são o obstáculo fundamental à clareza da compreensão; os monges buscam atingir seu objetivo de iluminação não através do aprender senão do desaprender todas as noções preconcebidas da vida e da realidade”, afirma o Andrew, que muito coerentemente nos lembra de que isso não funciona, regra geral, para um ocidental que queria mergulhar na cultura do antigo Oriente; até chegar nesse ponto, nós aqui precisamos comer muito arroz, de modo que recorremos àqueles que se propõem a esclarecer ou mesmo introduzir a cultura e o modo de pensar oriental que tanto nos fascina.



Então, sejamos práticos: o que é o wabi-sabi? O autor de “Wabi-Sabi para artistas, designers, poetas e filósofos”, Leonard Koren, diz que wabi-sabi é a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas; a beleza das coisas modestas e humildes; a beleza das coisas não convencionais. O Leonard, assim como o Andrew, também abre o livro narrando uma cena de viagem. Diz que estava no Japão e que foi convidado a participar de uma autêntica cerimônia do chá (que tem tudo a ver com o wabi-sabi), muito divulgada na época e que prometia ser uma experiência inolvidável.

Que nada. No afã de querer impressionar os convivas (isso sou eu quem imagina), foram chamados três dos melhores arquitetos do país para dar um “up” nos locais que presidiriam a cerimônia, ambientes distribuídos no terreno de uma antiga residência imperial. Assim diz o autor:

“Depois de mais de três horas de viagem de trem e de ônibus desde o meu escritório em Tóquio, cheguei ao local do evento e para minha consternação encontrei uma celebração de deslumbramento, grandiosidade e de elegante encenação, mas dificilmente um traço de wabi-sabi. Uma cabana toda lisinha de papel, que parecia e cheirava como um guarda-chuva branco de plástico; adjacente a ela, uma estrutura de vidro, aço e madeira tão íntima quanto uma torre de escritórios e a única casa de chá que poderia resguardar algum indício de wabi-sabi estava gratuitamente enfeitada com penduricalhos pós-modernos”.


Deve ter sido um choque para o Mr. Koren, que após a decepção daquele evento sentou e resolveu escrever sobre o wabi-sabi - para nosso deleite, porque o livro dele é uma pequena joia de noventa e cinco páginas editada com um cuidado que pouco se vê por aí (papel reciclado, lindas fotos em p&b, tudo muito wabi-sabi). 

Diz o autor que, originalmente, as palavras japonesas “wabi” e “sabi” possuíam significados bem diferentes; “sabi” originalmente significava “frio”, “friagem”, “enxuto”, “esbelto” ou “embranquecido”; “wabi” originalmente tinha relação com a miséria de viver sozinho na natureza, longe da sociedade, sugerindo um estado emocional desanimado e triste.

A partir do século XIV os significados de ambas as palavras ganharam outro sentido, se aproximando de um contexto ligado a valores estéticos mais positivos. Por que isso? Porque a pobreza voluntária dos ermitões e ascetas eram tidas como oportunidades para a riqueza espiritual. Para aqueles com inclinação poética, este tipo de vida encorajava uma apreciação dos mínimos detalhes da vida diária, curtindo a beleza das coisas modestas e discretas e a observação da natureza. Por sua vez, essa simplicidade desencanada deu um novo sentido para a apreciação de um novo tipo de beleza, mais pura em sua essência.


Com o passar dos séculos, os significados de “wabi” e “sabi” foram se transformando/interligando tanto que a linha que os separava ficou tão sutil que hoje, no Japão, se convencionou que “wabi” e “sabi” são a mesma coisa, portanto, wabi-sabi e pronto, porque simplificar é sempre uma boa opção. Mas, se fôssemos caracterizar suas diferenças, como se tratássemos de entidades separadas, então faríamos assim, de acordo com o que apregoa o Leonard Koren:

Wabi: um modo de vida, uma senda espiritual;
Sabi: objetos materiais, arte e literatura.

Wabi: o íntimo, a parte interior, o subjetivo;
Sabi: o exterior, o que se mostra, o objetivo.

Wabi: uma construção filosófica;
Sabi: um ideal estético.

Wabi: eventos regionais;
Sabi: eventos temporais.

Lembra muito aqueles quadros e tabelas taoístas que elencam as diferenças entre o yin e o yang (claro/escuro, úmido/seco, doce/salgado, frio/calor, etc...), e daí a gente se pega pensando em como tudo se relaciona quando botamos a cuca prá pensar um pouco... dá prá viajar um bocado nessas ideias, o Oriente é tudo de bOM.


Voltando aos livros, ainda lendo o já querido Leonardo Koren, veremos que ele facilita nossa vida fazendo outra tabelinha, agora comparando as diferenças entre o Modernismo e a tradição do Wabi-Sabi, superinteressante e esclarecedor, mas isso vou pular, assim como também não falarei da metafísica, dos aspectos históricos e dos preceitos morais do Wabi-Sabi, capítulos curtos que renderiam muitas divagações e quem tiver interesse que corra atrás.

Se pudesse resumir tudo o que os autores escreveram sobre o wabi-sabi em uma única ideia, eu diria que wabi-sabi é aquilo que se encontra na essência das coisas simples; simplicidade é a palavra chave para o wabi-sabi, mas como bem lembra o Leonard Koren, a simplicidade não é tão simples, tome como exemplo a filosofia zen, a cerimônia do chá, o ikebana, a arte da caligrafia japonesa, o teatro Nô, a poesia enxuta do haikai... o wabi-sabi está em tudo isso e em infinitas outras coisas, basta abrir os olhos, os de fora e o de dentro, que você verá e assimilará o wabi-sabi cada vez mais facilmente.

É importante lembrar que o wabi-sabi não é apenas o valor que se dá ao design rústico de um objeto; é algo que captura o teu olhar, que te faz olhar para dentro de ti mesmo e que de alguma forma mexe com tuas emoções. O Andrew Juniper afirma que são nos detalhes mais imperceptíveis que se encontra o coração do wabi-sabi e que é através deles que se pode conseguir vislumbrar a serena melancolia que eles sugerem.



Acredito que você consegue se recordar de momentos em sua vida em que tenha tido contato com essa perspectiva “wabi-sabiana” da vida... Provavelmente muitos, basta olhar para alguns objetos espalhados pela casa, uma pedra catada em leito de rio, uma concha de formato exótico trazida de uma viagem, um artesanato indígena, um vasinho de arte rupestre, uma caixinha de madeira, uma taça garimpada numa feirinha de antiguidades... Exemplos não faltam, vivências idem.

Enquanto termino essa postagem, que pode ser a última, minha despedida desse blog, vejo com carinho e um pouco de saudosismo um pequeno sino de latão, rústico e meio enferrujado, que comprei numa viagem que fiz ao sul de Minas Gerais. Não sei explicar o motivo que me levou a comprar o sininho, mas quando o vi senti que tinha que ser meu, como se alguém me tivesse levado até ele por algum motivo oculto.

No ano seguinte fiz uma viagem, onde caminhei muitos quilômetros por dia durante algumas semanas. Ao preparar a bagagem, lembrei-me de levar o pequeno sino de latão, que foi preso do lado de fora, numa das correias laterais da mochila. A cada passo que dava, ouvia o tilintar baixinho do sino, do meu lado direito, marcando suavemente o ritmo de minha caminhada. E em nenhum momento me senti sozinho.
Leia:


Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers. Leonard Koren. Imperfect Publishing, USA. 1994 and 2008. (disponível no site brasileiro da Amazon)



Wabi sabi: the Japanese art of impermanence. Andrew Juniper.Tuttle Publishing, USA. 2003. (disponível na versão e-book para Kindle)


sábado, 1 de janeiro de 2011

Jornadas de simplicidade, by Philip Harnden

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Ganhei de natal um livro simplesmente encantador: Journeys of Simplicity: Traveling Light. Simples no tamanho, simples na proposta, simples em tudo. Mas, alto lá: nem sempre as coisas simples são banais ou superficiais, pelo contrário; nos dias que correm, a simplicidade é algo que se conquista com alguma dificuldade, e é esse paradoxo que torna a leitura de Jornadas da Simplicidade uma curtição.

O autor, Philip Harnden, que vive lá pela fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, pertence à religião dos
Quakers e escreve artigos de conteúdo religioso/espiritual. Isso de certa forma explica a presença marcante de algumas personalidade relacionadas ao universo espiritual: Thomas Merton, Bashô, Gandhi, Jesus de Nazaré e Peregrina da Paz, só para citar os mais conhecidos.

Mas o sagrado se mistura deliciosamente ao profano, e daí que aparecem por lá o Werner Herzog, o Marcel Duchamp, o Robert Pirsig e junto com eles gente que só existe nas páginas dos livros, como o Bilbo (do Senhor dos Anéis), o Padre Zossima (Irmãos Karamazov) e o Japhy, o vagabundo iluminado de Kerouac. Uma salada interessante de personagens reais e fictícios que dão à essa pequena coletânea de textos um tempero especial.

E o livro se apresenta assim: para cada personagem, duas páginas; na esquerda uma breve, brevíssima apresentação do fulano ou da fulana, e na página da direita uma lista daquilo que essas pessoas carregaram em suas viagens ou em suas vidas, o que dá quase no mesmo, porque aqui a metáfora da viagem se mistura à realidade da vida (ou seria a realidade da viagem que se mistura à metáfora da vida?).
Jornadas da Simplicidade é um livro que se lê em trinta minutos, não mais do que isso. Mas sua leitura não se aproveita assim, da mesma forma que não se lê um punhado de boas poesias em meia hora e pronto. É preciso ritualizar a leitura, ler e deixar a mente vagar, traçando paralelos com sua própria história de vida. As listas que Philip teve o cuidado de garimpar dizem muito, às vezes quase tudo, sobre a vida e sobre quem foi o personagem ali retratado de maneira tão frugal. O que carregaram os grandes exploradores em suas viagens fantásticas? O que deixaram após sua partida aqueles que pregaram uma vida simples e livre de excessos?

A questão primordial dessa leitura, que parece inspirar uma filosofia da simplicidade, é a de nos fazer refletir sobre o peso que carregamos em nossas viagens e em nossas vidas. Lembro-me sempre de um peregrino jacobeo que certa vez afirmou que a aventura do Caminho de Santiago é proporcional à quantidade de dinheiro que se carrega na carteira; menos grana significa mais aventura, mais emoção e, claro, provavelmente mais provações também. Mas daí a pergunta: quem terá mais histórias para contar, o viajante que caminhou com o mínimo e contando com a ajuda de outras pessoas ou aquele que no final de cada dia relaxava na banheira de uma confortável pousada? Como tudo na vida, uma questão de opção. E viva o “caminho do meio”, certo? Certo.
Mas vamos simplificar esse post. Das quarenta personagens citadas na obra, escolhi meia dúzia. Nem todos os que apareceram na lista do autor são interessantes, (alguns são até bem insossos) mas no fundo todas as listas pecam pelo excesso de subjetividade nelas contidas. Então, que cada um faça a sua, certo? E deixo contigo, leitor e leitora do Odepórica, quatro perguntinhas capciosas que o editor botou na contracapa do livro e que servem de ponto de partida para a próxima viagem que você for empreender em sua vida: Para onde nossas jornadas nos levam? O que deixamos para trás? O que carregamos conosco? Como podemos encontrar o nosso caminho? Boas questões para se iniciar um ano novo, não? Feliz 2011 e Namastê!

Viajando com leveza



Há mil e duzentos anos na China um homem de meia idade chamado P’ang Yün carregou todos os seus pertences em um barco e afundou tudo no lago Tung-t’ing. Depois disso, ficamos sabendo, “ele viveu como uma simples folha”.

Imagine-o lá numa manhã bem cedinho, com os pés mergulhados na água no meio do lago, observando as últimas bolhas subindo das profundezas. O ar fresco e calmo. O lago enevoado e tranqüilo assim como o céu. Depois veja-o partir, dando as costas às margens do lago.

Justine Dalencourt, uma Quaker francesa, foi forçada a abandonar sua casa em Fontaine-Lavaganne quando o exército alemão invadiu a França em 1914. Mas antes de partir ela cultivou a sua horta, dizendo: “Prefiro que eles encontrem algo de comer em minha casa a vê-los roubar dos outros.”
Imagine-a de joelhos, cobrindo com terra a última semente, afofando o solo úmido. O sol caloroso da primavera. O perfume intenso da terra sob suas narinas. Um trovão iluminando o céu ao longe. Depois veja-a, em pé, virando-se e indo embora.

Viajar de maneira leve – imagine o significado disso: uma jornada sem sobrecarga, uma maneira graciosa de viajar pela vida tal como uma simples folha. Agora imagine outra coisa: a luz pela qual nós viajamos, a luz que indica o caminho. A luz da nossa jornada.

O que significa viver como uma simples folha? Uma jornada sem sobrecargas, sem tumultos, sem distrações – uma jornada com foco e intenção? Uma jornada de leveza e luz?
Os Quakers dizem que uma chama brilha dentro de cada um dos seres. De cada ser. Todos os seres. Será que essa Luz seria capaz de fazer-nos lembrar que, após roubarem nossas casas, os soldados estarão famintos? E que para ver essa Luz Profunda – em nós mesmos e nos outros - devemos antes afundar o barco?

Em 1889, aos dezessete anos, meu avô deixou sua família e amigos na Suécia e navegou para a América. Ele empacotou todos os seus bens num pequeno baú de madeira. Hoje eu guardo esse baú próximo à minha escrivaninha. Suas ripas de madeira entrelaçam-se numa moldura retangular; sua tampa faz uma curva ascendente. A madeira, agora quebrada em algumas partes, escureceu com o tempo.
Ponderando sobre esse velho baú, vejo um jovem garoto de fazenda, o medo e a aventura em seus olhos, deixando tudo de lado exceto o essencial ao fazer a mala para sua viagem, vivendo em si uma simplicidade quieta. Vejo-o embarcando num barco nas primeiras horas de uma manhã nublada e rumando em direção às profundezas do oceano.

Eu mesmo não tenho viajado muito, embora guarde algumas belas bagagens em meu sótão. E também duas mochilas cargueiras, uma sacola de tecido, uma maleta, vários sacos de transporte, três sacos de dormir, uma mochila de alpinismo de lona, outra feita de lã e uma ou duas barracas de camping. Olhando para o velho baú de meu avô, percebo que eu mal conseguiria usá-lo para levar o que necessitaria para um pic-nic de verão. E ao contrário de P’ang Yün, não posso imaginar onde encontraria um barco grande o suficiente para acomodar tudo o que possuo no meio de um lago qualquer. Evidentemente, pretendo manter todos os meus bens deste mundo à tona. Por que? Será que me falta a leveza necessária? A Luz necessária?

Há vários anos venho coletando listas sobre viagens leves, triviais. A maior parte originárias de viagens feitas por pessoas de um lugar a outro, de um dia a outro, do nascimento à morte. Cada lista descreve aquilo que foi carregado, às vezes em uma mochila, às vezes no lugar mais íntimo de um viajante. Comecei a coletar essas listas, suponho, porque eu vi a mim mesmo refletido em sua vaga poesia – a poesia do vazio. Eu ainda não compreendo muito bem porque as acho convincente. Será que ouço a voz do meu avô?



Em tempo: depois de afundar todos os seus pertences desse mundo, P’ang Yün devotou o resto de sua vida ao Zen, à poesia e à deambulação. Como uma singela folha.



THOMAS MERTON (1915-1968)


Padre Louis, como Thomas Merton era conhecido pelos seus companheiros monges, viveu seus últimos anos como um ermitão nos bosques próximos à sua abadia cisterciense. Seu eremitério era pequeno e sem adorno, um prédio com blocos de concreto e chão de cimento. Ele cortava sua própria lenha para a lareira, pegava a água da abadia, cozinhava num pequeno fogareiro e lia sob a luz de um lampião a querosene. Mais tarde, quando sua saúde se deteriorou, foi instalada a eletricidade. Despertava tipicamente às 3:15am para o início das orações do dia.

Foi talvez o primeiro ermitão trapista da era moderna. Praticou o voto do silêncio e foi conhecido em todo o mundo pelas suas palavras. Enclausurado com seus irmãos em Kentucky por 27 anos, veio a falecer do outro lado do mundo, em Bancoc, sozinho. Crítico eloqüente da guerra no sudeste da Ásia, seu corpo foi levado de volta a casa desde o Vietnã no compartimento de um jato da Força Aérea Americana.

Entre os pertences de Thomas Merton foram encontrados:

Um relógio Timex,
Um par de óculos escuros com armação de tartaruga;
Dois pares de óculos bifocais com armação de plástico;
Dois breviários cistercienses com capa de couro;
Um rosário (quebrado);
Um pequeno ícone de madeira com a Virgem e o Menino.

JOHN MUIR (1838-1914)
John Muir foi um eterno pacifista que mudou-se para o Canadá durante a Guerra Civil Americana. Foi um mago da mecânica que se recusou a patentear suas invenções porque “todo o progresso e invenções deveriam ser de propriedade da raça humana”. Quando um acidente de fábrica deixou-o temporariamente cego, o jovem Muir resolveu devotar o resto da sua vida ao “estudo das invenções de Deus”. Ao recuperar a visão, ele partiu sozinho numa longa jornada botânica de mil milhas, indo a pé desde o estado de Indiana até o Golfo do México.

“Somente estando sozinho e em silêncio, sem bagagem, é possível de fato entrar no coração da vida selvagem”, ele escreveu. “Qualquer outra viagem é mera poeira e hotéis e bagagem e conversa fiada”.

A caminhada de mil milhas de John Muir ao Golfo do México:

Numa sacola emborrachada

Pente
Escova
Toalha
Sabão
Muda de roupa íntima

Cópia dos poemas de Burn
A obra Paraíso Perdido, de Milton
A obra
Wood’s Botany
Um pequeno Novo Testamento
Um diário
Mapa
Uma prensa de plantas

MARCEL DUCHAMP (1887-1968)
Pintor francês do movimento Dadaísta.

Sua esposa, Teeny Matisse, afirmou certa vez ter ficado perplexa ao perceber “como ele foi capaz de ter ocupado tão pouco espaço em sua vida”.

Viagens de final de semana de Marcel Duchamp

Sem mala.

Duas camisetas, uma vestida sobre a outra
Uma escova de dentes – no bolso de sua jaqueta

WILL BAKER (1935-)

Cineasta, fotógrafo e escritor norte-amerciano

Em 1979 Baker partiu para o Peru com o intuito de conhecer a etnia dos Asháninka, num remoto território da zona central do país. A primeira vez em que ouviu falar deles foi numa velha edição da National Geographic. As fotografias o capturaram.

Um dia, durante a trilha, ele fez uma pausa para comparar a si mesmo com os viajantes locais.

Will Baker na trilha rumo a Puerto Ocopa:

Equipamento do gringo:

Sleeping bag
Rede de mosquitos
Corda de nylon
Fósforos e vela
Facão
Canivete suíço
Calças extras, camisa, meias
Kit de cozinha
Câmera, caderno de anotação
Filme, canetas
Dicionário, mapas
Creme dental, escova, escova de cabelo, barbeador, sabão, toalha, poncho, kit de primeiros socorros, mix de frutas secas, chá, sombreiro.

Equipamento do índio:

Garrafa d’água
Facão

WERNER HERZOG (1942-)
Cineasta alemão cuja obra pouco convencional mistura espiritualidade e pesadelo, ternura e demência épica.

Bruce Chatwin disse certa vez que Werner Herzog era “a única pessoa com a qual eu poderia manter uma conversa sobre aquilo que eu chamaria de aspecto sacramental da caminhada. Tanto eu quanto ele compartilhamos a crença de que andar não é simplesmente uma atividade terapêutica mas uma atividade poética capaz de curar as doenças do mundo.”

Por volta de 1974, Herzog recebeu a notícia de que uma das mais importantes críticas do cinema alemão, Lotte Eisner, estava à beira da morte em Paris. Herzog mais tarde escreveu: “eu disse que isso não poderia ser, não nesse momento, o cinema alemão não poderia continuar existindo sem ela, nós não podíamos permitir a sua morte... eu tracei a rota mais direta a Paris, cheio de fé, acreditando que ela ficaria bem se eu chegasse a Paris com meus próprios pés.

Na pressa, Herzog deixou Munique sem levar roupa de frio ou mesmo um mapa apropriado. Por 21 dias, com chuva e neve constantes, caminhou com muita dificuldade por acostamentos de estradas sombrias, através de campos lamacentos. À noite dormia em hotéis baratos de beira de estrada ou em celeiros e a dor de seus pés cheios de bolhas dentro das botas novas logo foi suplantado pela dor dos tendões e tornozelos inchados.

Quando ele finalmente chegou ao lado da cama onde se encontrava Lotte Eisner, ele a encontrou muito cansada mas em estado de recuperação. Ela ainda viveu por mais nove anos.

“Eu lhe disse: abra a janela, pois por conta destes últimos dias, daqui em diante eu posso voar”.

A caminhada de Herzog de Munique a Paris:

Botas, novas e resistentes
Bússola
Jaqueta
Blusa e cachecol
Um poncho fino de plástico
Um nécessaire

Adquirido ao longo do caminho:

Gorro
Minhocão
Lanterna
Curativos para bolhas
Um mapa Shell de estradas

JAPHET M. RYDER

Bondoso “vagabundo do dharma”- inspirado no poeta Gary Snyder - de uma das mais populares obras de Jack Kerouac.

“Eu admito, tenho medo dessa opulência norte americana, eu sou apenas um velho bhikku e não tenho nada a ver com esse alto padrão de vida, por Deus!, tenho sido um cara pobre toda a minha vida e simplesmente não consigo me acostumar com certas coisas.”

A cabana de Japhy Ryder próximo a Corte Madera:

Uma jarra de barro explodindo com flores colhidas no campo
Esteiras de palha no chão
Sem sapatos
Sem cadeiras
Paredes forradas com sacos de estopa
Gravuras de pinturas chinesas em seda
Mapas
Poemas pregados pelos cantos
No armário: mochila e roupas de segunda mão

Um colchonete fininho
Xale estampado
Saco de dormir, enrolado
Livros em engradados laranja
Sutras budistas,
Suzuki, haiku, poesia
Forno a lenha


Inspire-se: leia Journeys of SimplicityTraveling Light. Philip Harnden. Skylight Paths Publishing, 2003