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Gostaria de compartilhar com os leitores o texto abaixo,
autoria de Liane Alves, intitulado Vá em
Paz, Mirna Grzich. Sei que foge
um pouco da temática do Odepórica,
mas muitos dos leitores que visitam o blog chegam aqui por conta de uma
postagem sobre a Mirna, na verdade sobre um programa de rádio em que ela era a
apresentadora, o Música da Nova Era,
com textos de Luiz Carlos Lisboa.
Tive o prazer de assistir a algumas palestras da Mirna e
de entrevistá-la quando era estudante de jornalismo, em um encontro
inter-religioso na Catedral da Sé, durante a Eco 92. Quando todos corriam para
ver e tentar falar com o Dalai Lama, eu corria aflito atrás de Mirna, minha
musa das noites de domingo. Minha musa de toda a vida.
Obrigado, Mirna, por todas as lições deixadas! Como você
dizia no encerramento do programa, “Boa Viagem”!
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Vá em paz, Mirna Grzich! Nenhum rótulo será
suficiente para descrevê-la.
11MAR2018
by Liane
Alves
Neste 10 de março de 2018, Mirna Grzich (1951-2018) nos
deixou para sempre. Mas ficam a voz suave e inconfundível das suas meditações e
seu forte desejo de um nível maior de consciência para a humanidade.
Como descrever uma mulher que resumiu toda uma época?
Toda uma geração? Com adjetivos como revolucionária, guerreira, libertária,
ativista? Uma aquariana legítima, um ser do futuro, a mais conhecida
representante da New Age entre nós? Ou seria melhor falar dela como uma
jornalista que trabalhou incansavelmente para a evolução da consciência durante
sua vida?
A verdade é que nenhum rótulo é suficiente para descrever
Mirna Grzich. Como em uma mandala, as diversas Mirnas se abrem e se sobrepõem
uma à outra. Impossível dizer qual é a mais verdadeira, qual o seu retrato mais
fiel. A única variante que permanece em todas as imagens é o seu sorriso maroto
de quem sabe de coisas que nós nem sequer imaginamos.
O primeiro desenho que é possível ver nessa mandala é o
de uma garota loirinha de uns seis anos de idade na beira de uma praia no Rio
de Janeiro, onde nasceu em 1951. Ela percebe a presença de seu anjo da guarda.
Se sente protegida, com tanta confiança nele, que é capaz de lhe dirigir
perguntas. A sua curiosidade sobre a vida, o universo, as estrelas, é imensa.
É uma constelação de porquês que vão se repetir por toda
sua vida, até ela alcançar respostas, até se estruturar em sua mente um novo
tipo de pensamento e atitude. E assim ela mesma se transformar em anjo de
outras pessoas, com acolhimento, compaixão e sabedoria.
Anos mais tarde, forma-se a segunda mandala. Ela é uma
jovem atriz e jornalista, está em São Paulo. Seu mestre espiritual se chama
Agenor, tem 92 anos, e ela se encanta pelo mundo dos orixás e das religiões
afro-brasileiras. Conhece o poder das ervas, se apaixona pelos tambores e
atabaques.
Participa de uma república no bairro do Bixiga em São
Paulo. Trabalha com e diretora teatral Ruth Escobar e convive com artistas como
Itamar Assunção, Arrigo Barnabé e atrizes como Tânia Alves e Imara Reis, cuja
amizade preserva até o final de sua vida.
“Mirna teve uma vida rica e brilhante. Era um dínamo, com
capacidade de criação e produção monumentais. E estava sempre antenadíssíma com
o que existia de mais avant-garde no pensamento humano”, conta Imara.
Ativista, luta pelas mulheres, pelo negro, pelo índio e
pela justiça social. Mas é a espiritualidade que fala mais alto ao seu coração.
Continua com o candomblé até que o mestre Agenor finalmente lhe confessa: o
povo dela não é aquele. O povo dela é o de Buda. Mas até chegar esse momento, as
águas da vida ainda iriam rolar mais um pouco.
No terceiro desenho é possível se ver a buscadora
espiritual que, ainda muito jovem, mergulha fundo nas filosofias orientais,
principalmente o hinduísmo. Ela veste túnicas cor de laranja sobrepostas por
mil colares. É o auge do Flower Power e ela elege Rajneesh, hoje mais conhecido
como Osho, o seu guru. E vai para o ashram do seu mestre no Oregon, nos Estados
Unidos.
”No ashram, ela esfrega o chão, trabalha na horta, limpa
banheiros. Mas aprende, sobretudo, o que é a meditação”, diz Marli Gonçalves,
que trabalhou com Mirna na revista Singular & Plural. E é à prática da
meditação que Mirna Grizch vai se dedicar toda sua vida. E isso a leva a se
interessar pelo povo de Buda.
Túnica cor de vinho, rosários tibetanos que deslizam sem
suas mãos, iniciações, longas práticas e mil prostrações. Chagdud Tulku
Rinpoche, que vem morar no Brasil depois visitar o pais regularmente durante
anos, é o seu novo mestre. É onde ela mais se aprofunda, até se iniciar no
Dzogchen, o conhecimento mais sublime vindo do Tibet.
É também Mirna quem cobre a primeira vinda do Dalai Lama
ao Brasil, durante a Eco 92. Depois ela conhece outras linhas do budismo, até
chegar ao seu último mestre, Tenzin Wangyal, do budismo Bön, que lhe ensina a
Yoga dos Sonhos.
Mas é como a musa da New Age que muita gente conhece
Mirna Grzich. Sua voz suave e as músicas da Nova Era embalam toda uma geração
durante dez anos em rádios de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, de
1987 a 1996.
Os primeiros textos do programa Música da Nova Era eram
assinados pelo jornalista Luiz Carlos Lisboa, e falavam de uma mudança de
consciência, que incluía uma espiritualidade abrangente, valores mais humanos,
mais ética e sustentabilidade. E, sobretudo, amor.
Nesta quinta mandala, Mirna veste turquesa, usa pedras
semipreciosas e medita com cristais. Como muita gente naquela época.
Sua visão de futuro a faz conceber um evento marcante em
1995, o Imaginária. Durante uma semana o futuro do mundo é discutido nos palcos
do SESC- São Paulo. As palestras abalam os alicerces de muitas pessoas. A
futurista Rosa Alegria, por exemplo, tem coragem de largar seu emprego algum
tempo depois para dedicar-se ao estudo do futuro após assistir apenas dois dias
de exposições.
Aqui é a Mirna guerreira visionária que toma conta da mandala.
Se compromete com tudo que é relativo ao que está avante de sua época. É
revisora do primeiro livro de Fabio Novo, Holoplex, e faz o prefácio do
segundo, Hiper, considerados marcos significativos nesse campo.
Nesta outra imagem que se abre agora, os seres angélicos
voltam para a vida de Mirna Grzich. Ela escreve o seu primeiro livro sobre
eles, Anjos, que vende dois milhões de exemplares (o segundo livro sobre o
tema, Anjos Agora, viria 15 anos depois, no começo do milênio). Ela já é
conhecida nacionalmente como jornalista.
Sua editora de arte preferida é Mabel Böger Carraza, que
depois se torna muito amiga. Mirna lança a revista PLANETA Meditação no final
da década de 90 e que foi publicada durante cinco anos (de 1998 a 2003).
Depois, com a produtora Patrícia Aguirre, a coleção de 16 Cds chamada de Quem é
você?, com seus textos e reflexões.
“Tive a honra e a alegria de participar de
vários projetos com ela. Eu fazia a seleção musical e cuidava dos direitos
autorais, ela escrevia os textos”. As duas também trazem ao Brasil, Howard Lee,
o instrutor de Kung Fu de Carlos Castañeda. Estamos no começo do segundo
milênio.
Nos últimos cinco anos, podemos ver Mirna acolher pessoas
com lições de sabedoria e palavras de estímulo e coragem na penúltima mandala.
O veículo para isso é o Tarot, o Tarot da Alma, como Mirna o chama, que ela
aprende na Califórnia na década de 80 com uma grande mestra americana, Ma Sona
Prem.
Embora as cartas estivessem à sua frente, é bem possível
que o seu coração falasse mais alto. Mirna é guiada pelo seu conhecimento, mas,
sobretudo, pela sua intuição. Sensível, sim, mas não “boazinha”. De gênio
forte, arruma alguns desafetos pela vida. Mas a maioria a ama
incondicionalmente. “Autoritária, terna, amorosa e sábia; esses são os quatro
eixos de Mirna”, diz Emanuel Gonçalves Amarante, seu primo, que pretende
escrever sua biografia.
No final da vida, todos seus últimos recursos são
investidos num aplicativo, Medita!, realizado
conjuntamente com o produtor Maurício Grassmann, onde ela faz reflexões
sobre vários temas da vida: da mudança ao recomeço, do fluxo aos obstáculos.
Seu sonho: encontrar alguém que bancasse o projeto para que o app pudesse ser
baixado gratuitamente.
Generosa Mirna. Ainda pensa em criar uma revista sobre
vários assuntos para ser editada junto com o aplicativo Medita!. E busca apoio
financeiro junto a empresários para isso.
“Ela uniu tribos, quebrou crenças e paradigmas, sempre na
direção da Cultura de Paz. Era ecumênica em seu coração”, diz sua amiga Frances
Rose, do projeto Danças Circulares e ligada a Comunidade de Findhorn, na
Escócia
Na última mandala que se abre, Mirna está, muito a
contragosto, num hospital público municipal de São Paulo. Segundo sua astróloga
Xenia Quirino, todo esse triste panorama já está marcado nos céus. Mas no
hospital Mirna é tão bem tratada, e cercada de tantos amigos, que se arrepende
não ter vindo antes. Complicações diante de um quadro grave de infecção
generalizada, porém, a conduzem à morte. No leito da enfermaria, sua expressão
é serena, tranquila. Parece feliz. Como se rodeada de Anjos fosse.
Mirna Grzich: Rio de Janeiro, 1951- São Paulo, 2018.
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Liane Alves, autora desse texto, é jornalista e
escreve há 15 anos boa parte das matérias de capa da revista Vida Simples. É
uma homenagem dela à desbravadora que foi Mirna Grzich. Esse texto pode ser
usado livremente, sem qualquer ônus. Por favor, divulguem.
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Sobre Mirna Grzich aqui no Odepórica: