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Todo viajante em algum momento da vida, entre
chegadas e partidas, um dia se pergunta: O que estou fazendo aqui? Bruce
Chatwin, que é um dos grandes da literatura odepórica, tem um livro que leva
como título essa indagação: What am I
doing here?
Relendo essa obra de Chatwin, um apanhado de
artigos publicados em jornais e revistas, percebo como sua escrita era
especial; sua prosa e suas narrativas de viagem, que se mesclam
indiscriminadamente a ponto de não sabermos quando se trata de ficção ou realidade
é uma de suas marcas registradas e ao mesmo tempo uma atitude que o
desqualifica perante alguns críticos de sua obra – discussão que já vimos aqui
no blog em outro post sobre o autor.
O que temos de bom nessa obra póstuma de quatrocentas
páginas do incansável trotamundos Bruce Chatwin? Bom, são muitas páginas e nem
tudo é assim tão interessante quanto os momentos em que vemos Chatwin em
movimento, coisa que ele soube fazer muito bem, graças a seu perspicaz olhar de
viajante e sua rica bagagem cultural.
São onze capítulos e todos eles tratam
basicamente das seguintes questões: das amizades, dos encontros, das pessoas,
dos lugares e, claro, das viagens; tudo se conecta, afinal que sentido teriam
as viagens sem os encontros, as gentes, os lugares e suas geografias? Era
exatamente isso o que Chatwin explorava em seus deslocamentos e o que me faz
gostar muito de suas obras é o fato dele priorizar o encontro com o outro.
Quando penso sobre isso, a importância dos
relacionamentos interpessoais, recordo os textos de Martin Buber, brilhante
filósofo austríaco de ascendência judaica conhecido como o “profeta da
relação”, para quem o ser humano só é capaz de se realizar na relação com o
outro, afirmação esta muito simplificada de um complexo e fascinante estudo
sobre a alteridade.
Em sua filosofia da Relação, Buber amplia o
conceito de relação que ultrapassa a simples ideia de relacionamento entre os
seres humanos, uma vez que Deus também participa do Encontro; para o pensador,
o mundo da relação se realiza em três esferas: a vida com a natureza, a vida
com os homens e a vida com os espíritos. Essa filosofia encontra ecos nas
palavras do sábio hindu, Swami Vivekananda, que diz que “a verdadeira forma de
se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens”.
Não tenho a intenção de direcionar meus
pensamentos sob um ponto de vista filosófico/espiritual, mas recorro vez ou
outra a essas questões por perceber que o estudo das viagens, tanto as nossas
quanto as dos outros, pode servir como um instrumento de autoconhecimento.
Alguém escreveu um dia - não sei quem, nem onde, e nem quando porque anotei as
palavras em um pedaço solto de papel – que a maneira como Buber encara a
existência revela-se útil para considerar o modo como encaramos as viagens e o
que enfatizamos nela.
Daí o gancho para a pergunta: o que você
enfatiza em suas viagens? Lugares, paisagens, pessoas, compras, diversão, sexo?
Pode ser que seja, ao fim e ao cabo, uma soma de tudo isso, mas a verdade é que
a balança sempre vai pender para um dos lados e em assim sendo, alguma coisa
vai ter um peso maior, justamente aquilo que você enfatiza mais. O ponto aonde
quero chegar é precisamente este: o modo como você viaja revela quem você é.
É um exercício interessante, por exemplo, o
de decifrar a personalidade de um autor que discorre sobre suas aventuras em
alguma narrativa de viagem; para mim os mais sonolentos são os ególatras, para
os quais não existe o mundo para além da primeira pessoa: eu, eu e eu; pior que
estes são aqueles que viajam e criticam o tempo todo a cultura alheia,
comparando-a sempre que possível com a de seu país de origem, coisa que PaulBowles gostava de botar em seus romances: turistas arrogantes disfarçados de
viajantes mais nojentos do que latrina entupida de banheiro de rodoviária.
Desses há um montão por aí.
Gosto mesmo dos que viajam e não perdem o bom
humor nem nas piores situações e em geral são aqueles que a gente escolheria
para sentar numa mesa de bar e tomar umas e outras sem pressa de partir, como o
Bill Bryson, tomando como exemplo sua deliciosa narrativa em Uma caminhada na floresta. Não são a
maioria os desse tipo, pelo menos não dentro do contexto literário odepórico,
em geral marcado por autores masculinos (mulheres que viajam não escrevem?) e
sérios, no sentido menos interessante do termo.
Bruce Chatwin, além do fato de escrever muito bem, possuía uma abertura em relação ao outro que nem todo escritor viajante
consegue demonstrar. Por que não? Porque a relação é reciprocidade, como diz o
Martin Buber, “meu TU atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele”. Em outras
palavras: no pensamento buberiano, o homem é um ser de relação – que acontece
somente no encontro com o outro.
Essas divagações, que me perdoe o leitor/a se
estou sendo fastidioso, surgiram ao reler, como disse lá no comecinho deste
texto, a edição lusitana de O que faço eu aqui?. Tudo porque, dentre todos os capítulos, os que
mais me cativaram foram os intitulados Encontros,
Gente e Viajar, títulos estes que fazem link direto com o pensamento de
Martin Buber, sobretudo os dois primeiros.
Dos encontros narrados pelo Chatwin, o mais
instigante foi o que ele teve com o cineasta Werner Herzog no Gana, na África
Ocidental, em janeiro de 1971. Diz o autor que chegou a voltar àquele país sete
anos depois e essas duas investidas foram suficientes para organizar o material
que mais tarde serviria de cenário para seu romance O Vice-Rei de Uidá (1980).
Diz o autor que se a história desse romance
pudesse ser transformada em filme, somente o Werner Herzog poderia filmá-la. O
Herzog, se o leitor/a não o conhece, é um diretor de cinema alemão muito,
digamos, “audacioso”, para não dizer maluco mesmo. É dele a produção insana de Fitzcarraldo, filmado na floresta
amazonense, cuja história (real) é tão fantástica quanto os bastidores da
filmagem. Se você não assistiu, deveria.
Eis que três anos depois da publicação de Vice-Rei, numa viagem à Austrália, os
dois acabam se encontrando. É interessante demais o modo como seus destinos se
cruzaram, mas vou pular essa parte porque a história é longa. Vou transcrever
alguns parágrafos nos quais o Bruce Chatwin fala sobre o Werner Herzog e onde
ele cita uma obra literária do diretor alemão:
"(...) Werner era um compêndio de
contradições: duro mas vulnerável, afetuoso e distante, austero e sensual, mal
adaptado às tensões da vida quotidiana mas eficaz sob condições de pressão.
Era também a única pessoa com quem podia
conversar de igual para igual sobre o que eu chamaria o aspecto sacramental da
marcha. Partilhávamos a crença de que o andar não é uma simples terapia, mas
uma atividade poética capaz de curar o mundo dos seus males, Herzog resume o
que pensa do assunto com uma afirmação definitiva: “Andar é uma virtude, o
turismo é um pecado mortal”. Um bom exemplo desta filosofia é a sua
peregrinação, todos os invernos, para ver Lotte Eisner.
Lotte Eisner, crítica cinematográfica e
colaboradora de Fritz Lang em Berlim, emigrou em princípios dos anos trinta
para Paris, onde ajudou a fundar a Cinémathèque. Muito mais tarde, escreveu
para Lang, que viveu na Califórnia, depois de ter visto o filme de Werner Sinais de Vida: “Vi a obra de um maravilhoso
realizador alemão”. Lang respondeu: “Não. É impossível”.
Lotte tornou-se, em breve, o guia espiritual
do novo cinema alemão, proporcionando aos jovens realizadores o benefício da
sua enorme experiência e, como era judia, ajudou a restabelecer uma continuidade
com a grande tradição cinematográfica destruída por Hitler.
Disseram-me que Werner era seu favorito. Em
1947, ao saber que ela estava a morrer, Werner pôs-se a caminho a pé, de
Munique a Paris, convencido de que daquela maneira a poderia curar. Quando
chegou ao apartamento de Lotte, ela já se sentia melhor e viveu ainda uma
dezena de anos."
A história dessa jornada foi publicada no
Brasil pela Editora Paz e Terra, em 2005, com o título Caminhando no gelo. Tenho em mãos uma edição portuguesa (Ed. Tinta
da China, 2011), da qual transcrevo uma sucinta amostra:
“No final de Novembro de 1974, um amigo
ligou-me de Paris a dizer-me que Lotte Eisner estava gravemente doente e que
provavelmente morreria. Eu disse que não podia ser, não agora, o cinema alemão
ainda não a podia dispensar, não podíamos permitir que ela morresse. Peguei num
casaco, numa bússola e num saco de desporto contendo o estritamente necessário.
As minhas botas eram novas e robustas, confiava nelas. Segui pelo caminho mais
directo até Paris, com a firme convicção de que ela viveria se eu fosse ter com
ela a pé. Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.”
Depois desse pequeno parágrafo onde Chatwin
cita a obra de Herzog, ficamos sabendo enfim que Vice-Rei seria filmado pelo alemão pouco tempo depois, embora com
adaptações no roteiro e com o título mudado para Cobra Verde. No elenco, o insano Klaus Kinski e as filmagens
aconteceram na África e na Colômbia. Vale muito a pena acompanhar o relato da
viagem que Chatwin fez com a equipe de filmagem.
No bloco dedicado às viagens, dois momentos
marcantes na literatura odepórica chatwiniana: o primeiro texto, pura diversão,
intitula-se Na pista do abominável homem
das neves, escrito em 1983 e que começa desse jeito:
"Nesse abril, após ter passado a parte mais
quente do ano no deserto central da Austrália, senti a necessidade de sair
daquela região vermelha e gasta para ir desanuviar o espírito nas montanhas.
Sempre tive vontade de passear nos vales do monte Everest. Ainda me lembro de
ter assistido, em garoto, a uma conferência com diapositivos dos alpinistas
Hillary e Tensing e de ter ficado com uma impressão muito viva de rios gelados,
pontes de bambu, florestas de rododendros, aldeias de Xerpas e iaques. Queria ver
os mosteiros budistas tibetanos que ficam no lado nepalês da fronteira. Quanto
ao Yeti, o abominável homem das neves, desejava explorar a nebulosa área da
zoologia onde a Besta de Lineu se encontra com a Besta imaginária.
Telefonei à minha mulher e disse
peremptoriamente para se encontrar comigo no Nepal.
- Não posso – disse Elizabeth com uma voz
desalentada. A sua tia predileta dava uma festa em Boston para festejar os seus
noventa anos de idade.
- O meu convite mantém-se – respondi. – Telefona-me
se mudares de ideia.
- Já mudei."
Já no outro texto, de 1980, o tom divertido
dá lugar a um saudosismo melancólico. São quatro páginas apenas de uma
narrativa sobre o Afeganistão repleta de emoção e poesia. Chatwin começa
escrevendo sobre os livros de viagem de Robert Byron, escritor e viajante dos
anos 1930 por ele muito admirado. A obra mais conhecida de Byron, The road to Oxiana (que Chatwin chama de
“texto sagrado”), um clássico da literatura odepórica moderna, trata da viagem
que o autor inglês fez ao Oriente Médio.
Chatwin faz uma ode tanto ao escritor quanto
à sua obra magna sobre a viagem ao Afeganistão. Evidentemente, um dia nosso
trotamundos se viu obrigado a visitar o país (no ano de 1962) no centro
asiático e suas impressões foram mágicas, à parte os diversos acidentes de
percurso pelo território afegão:
“(...) um soldado atirou uma picareta contra
o carro; o nosso caminhão escorregou,. Com doce resignação, por uma ribanceira
abaixo (mal tivemos tempo para saltar); fomos chicoteados por termos entrado
numa zona militar; apanhamos disenteria, septicemia; houve também aquela vez em
que fomos atacados por vespas e por pulgas – mas felizmente não apanhamos
hepatite.”
A parte bonita da viagem que Chatwin fez ao
Afeganistão fica para o finalzinho da narrativa, onde se percebe todo o
saudosismo de uma viagem quase perdida no tempo, de um lugar do mundo que hoje,
após tantos conflitos militares/religiosos, nem o próprio autor seria capaz de
reconhecer, consequências trágicas em que todos saímos perdendo (escrevo isso
tendo em mente a triste lembrança do regime Talibã destruindo as imagens dos
budas gigantes de Bamiyan).
“Não mais nos deitaremos no chão, no Castelo
Vermelho, para contemplar os abutres a sobrevoar o vale onde o neto de Gengis
Khan foi encontrado. Não mais leremos as memórias de Babur no seu jardim em
Istalif e veremos o velho cego a farejar o caminho entre as roseiras. Ou nos
sentaremos na Paz do Islão com os pedintes de Gazr Gagh.”
“Nunca mais subiremos à cabeça do Buda, em Bamiyan,
todo direto no seu nicho como uma baleia em doca-seca. Não dormiremos na tenda
do nômade ou escalaremos o Minarete de Jam. E perderemos o gosto do pão quente
amargo e rude, do chá verde perfumado de cardamomos, das uvas refrescadas na
neve e das nozes e amoras secas que mastigávamos contra as doenças de altitude.
Nem reaveremos o cheiro dos campos de feijão, o cheiro doce e resinoso da
madeira de cedro a arder, nem o bafo do leopardo-das-neves a cinco mil metros
de altitude.”
♣
Leia:
O que faço eu aqui? Bruce Chatwin. Quetzal
Editores. Lisboa, 2009.
















