.
Luiz Carlos Lisboa é um dos meus escritores mais
estimados. Suas palavras chegam sempre no momento em que precisamos de um norte,
de alguém que nos guie na jornada quando a trilha se apresenta um pouco mais
estreita. Vejo Lisboa como um mestre-artesão, que com seu ofício de escritor
lapida palavras e as transforma em pensamentos inspirados, ideias que parecem
surgir em momentos de profunda meditação.
Sua escrita fragmentária resulta em textos simples e bem
elaborados, como em sua obra Nova Era,
já resenhada aqui no blog, O Aprendiz da
Madrugada e O Som do Silêncio, às
vezes classificados como livros de poemas, embora eu os considere mais próximos
dos aforismos, porque Lisboa é daqueles escritores que possuem a capacidade de
condensar conceitos amplos e profundos em poucas palavras.
Como ensaísta, também se mostra um sábio: veja que belo
seu texto intitulado Viagens, que
retiro de seu livro de ensaios A Arte de
Desaprender, talvez um dos escritos mais profundos que já tenha lido sobre
a experiência da viagem.
♣
Viagens
“Quanto mais longe viajamos, menos conhecemos”, dizia
Lao-Tsé. A ideia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a
essência das coisas, ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual
somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo
tem seu preço. Imagina o homem que passa a vida inteira lutando para
sobreviver.
A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre
seja-, mas a conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho,
Nicolau de Cusa, Eckhart. Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal, Benet
de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa absolutamente
pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro ou pela busca
incansável.
Esse é dos capítulos fascinantes da história das
religiões, e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. Ekhart
repetia com método e tranquilidade: “Afirmo e sempre afirmarei que já possuo
tudo que me foi concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua
divindade, mora eternamente em sua imagem, a alma”.
Esse tipo de mensagem afirma, através dos séculos, que o
homem não precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. Isso não
sugere a morte em vida, obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado
pelos hiperativos que controlam – ou julgam controlar - a sociedade humana,
suas maravilhas e seus horrores. No “não ir à parte alguma” está contido,
apenas, o “ficar para não fugir todo tempo”.
A razão pela qual “quanto mais longe viajamos, menos
conhecemos” está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente
para não ficar onde estamos. Isso não se refere às viagens reais, mas ao ir e
vir de cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades
que executamos com imensa gravidade.
Por que ir lá aprender alguma coisa, se recusamos todo
aprendizado aqui e agora, na modéstia deste minuto e desta circunstância? Empreender
uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor
dizendo, o que só pode ser feito imediatamente, não depois, pouco adiante ou
mais tarde.
Caminhar,
viajar, proporcionam prazer e são em si inofensivos. O problema está naquilo
que fazemos com esse pretexto, ou naquilo que deixamos de fazer porque estamos
mudando simplesmente de lugar.
É ainda
Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, alma nobre. Calce seus leves
sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da idolatria de si
mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente no coração de Deus, naquele
coração onde estará oculta de todos".
A tradição renana
usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente
aquilo que se obtém com "um movimento do coração”. Essas referências hoje
são mais difíceis de compreender que nunca, porque é o século de ação e de movimento
– em círculos. Tudo o que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse
mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência.
A palavra
de ordem não é inovar? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida
e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de certezas, de decisões
rápidas, de conceitos formados, de ideias prontas. O que já não vem embalado e
rotulado levanta suspeitas, semeia antipatias.
Viajar para
aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não
mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos, atrás do
qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o que
somos.
Deixamos
tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência. Não há lugar para culpa, em
tudo isso. É bastante ver o que fazemos, quando fazemos e como fazemos. Esse é
um aprendizado insubstituível, que não pode ser encontrado nos livros, nos
museus ou nas conferências.
Não
aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste lugar aqui, onde estamos no
instante em que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que
resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo
agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu
coração".
Acrescentar
qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado,
deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar
interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século
XX é proverbial.
As mãos, os
olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida.
Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir
muito peculiar.
Permanecer,
como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente
simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora
não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma
designação satisfatória.
A imobilidade
atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está
excluída a tranquilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de
esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo
ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer
aquele que pretende ser o conhecedor do mundo.
E nisso
tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural.
Para citar pela última vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a
água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor.
Conquiste seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".
♣
Leia: A Arte de Desaprender. Luiz
Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1981.









