O que me fascina na literatura odepórica, numa visão mais
abrangente das narrativas de viagem, são suas inúmeras possibilidades de
leitura. Encontramos textos singulares não só nos diários de viagem e
descobertas, mas também na poesia, nos cadernos de viajantes, nos romances,
ensaios, estudos acadêmicos, letras de músicas, revistas, códices medievais, só
para citar os que me vêm à cabeça nesse instante.
O que eu não esperava era ser surpreendido por uma
excelente publicação na área dos mangás que ganhou destaque em minha coleção de
literatura odepórica: O homem que passeia,
de Jiro Taniguchi. Foi uma das experiências de leitura mais gratificantes que
tive nos últimos tempos, tamanha a beleza dessa publicação; os desenhos de
Taniguchi são lindos, e casam perfeitamente com sua narrativa simples, nostálgica,
filosófica e poética, bem ao estilo da cultura japonesa.
Mas o que mais me fascinou, além dos traços elegantes de
Taniguchi, foi o modo como ele fez uso do silêncio: é onde não se diz nada que
surgem as maiores reflexões, como se ele deixasse o leitor preencher as lacunas
abertas, de modo que, ao mergulhar na leitura, este assume o papel do
personagem. Em outras palavras: o leitor se torna o homem (ou a mulher) que
passeia.
“Um homem contempla os subúrbios da sua cidade.
Caminhando devagar, ele escuta e cheira. Para e observa. É impossível não nos
sentirmos alheios e indiferentes ao mundo, em contraste com este olhar puro.
Passeando por estas páginas, reaprendemos a olhar e, quem sabe, a vivenciar com
mais atenção as pequenas coisas.”
Esse pequenino resumo, que copio da contracapa da obra,
em poucas linhas consegue captar a essência da história desse flâneur oriental. Nunca imaginei que um
mangá pudesse proporcionar uma leitura tão instigante, e dessa vez não há muito
que se dizer além do que já foi dito aqui: você precisa ter esse livro em mãos
e reservar um tempo de sossego e solidão para aproveitar os passeios que Jiro Taniguchi
nos oferece tão belamente.
Transcrevo abaixo uma entrevista que Jiro deu ao escritor
e cineasta belga, Jean-Philippe Toussaint, no ano de 2008 e que traz algumas
reflexões sobre a arte do passeio.
Jiro Taniguchi, triste saber, faleceu em 11 de fevereiro
de 2017, aos 69 anos. Pouco publicado no
Brasil, suas obras são difíceis de encontrar. Além de O homem que caminha, foram publicados outros três títulos: Gourmet, O livro do vento e Seton.
Em maio/18 será lançada a obra Guardiões
do Louvre, pela editora Pipoca e Nanquim.
♣
A caminhada como liberdade: entrevista com Jiro Taniguchi
Jean_Philippe
Toussaint: Existe uma filosofia real da caminhada em sua obra? Um
elogio consciente a ela?
Jiro
Taniguchi: Não tenho nenhuma filosofia da caminhada. O que tenho é
a sensação de que, dentre as ações cotidianas dos seres humanos, a caminhada é
a mais natural. E é também, creio eu, uma atividade especialmente importante,
sobretudo quando não tem nenhum objetivo preciso. Para mim, o passeio deve ser
uma liberdade. Nem objetivo nem limites de tempo devem obstruí-la.
Tenho a impressão de que a corrida, por exemplo, ou o
deslocamento por um meio de transporte são motivados por uma meta: para fazer
algo ou chegar a algum lugar. Quando caminhamos, a velocidade e a passada não
nos prendem. Creio que, por sua velocidade, a caminhada corresponde ao
deslocamento mais natural do ser humano.
Mas a caminhada precisa de um estado de disponibilidade.
Além disso, é preciso parar de tempos em tempos. Quando caminhamos devagar,
podemos descobrir coisas fugidias. São, claro, coisas ínfimas, acontecimentos
pequenos que nos enriquecem e, se me deixar levar por meu entusiasmo, diria até
que às vezes nos deparamos com coisas que nos fazem sentir plenamente o prazer
da vida.
Podemos experimentar sentimentos novos com a visão das
plantas ou das pedras ao longo de um caminho. O passeio possibilita sensações
novas, sentimentos novos. Pode até proporcionar os mesmos prazeres de uma
pequena viagem.
JPT:
Você se baseia em exemplos precisos?
JT: O
modelo do caminhante sou eu mesmo. Mas esses passeios faço em busca de
elementos que possam ajudar a construir histórias. Nesse sentido, não são
exatamente os passeios naturais que trato como grandiosos. Eu caminho em busca
de paisagens que seria interessante desenhar, situações que possam ser temas de
histórias.
JPT: Ao
contrário de Devaneios do caminhante solitário de Rousseau, em que o caminhante
permanece fechado em si mesmo e praticamente hermético para o mundo exterior, a
caminhada é para você uma abertura, um modo de apreensão do mundo?
JT:
Quase todos os dias, vou da minha casa ao meu ateliê. Primeiro pego o trem e,
depois, desço no meio do caminho para terminar o trajeto a pé. É comum não ir
diretamente ao meu ateliê e fazer desvios. Esse deve ser o momento mais
sossegado do meu dia. Andar por esses intervalos na minha agenda libera a minha
mente. São os únicos momentos em que posso esquecer meu trabalho ou minhas
preocupações.
É muito comum momentos ou acontecimentos que encontro por
acaso no meio dessas deambulações se tornarem material para meus mangás. São momentos
preciosíssimos para mim.
JPT: É
muito rara uma história em quadrinhos não narrativa, sem história e sem grandes
efeitos (sem vilões, complôs, tesouros, lutas, armas de fogo). Aqui, estamos
sempre na fronteira entre a história em quadrinhos e a poesia.
JT:
trabalho de suas formas diferentes. Em alguns casos, desenho a partir de um
cenário. Assim, pode até acontecer de descrever cenas de ação, armas de fogo ou
vilões! Em outros, são as histórias originais que desenho. É muito provável que
eu não tenha imaginação para inventar verdadeiros vilões porque os editores
sempre observam que meus personagens malvados são muito frágeis! Pode até ser,
mas também quero que eles saibam que dá para criar mangás sem necessariamente
colocar em cena vilões ou lutas com inimigos.
Se quero contar histórias a partir de coisas
insignificantes da vida cotidiana, é porque dou importância à expressão das
oscilações, às incertezas que as pessoas vivenciam no cotidiano, a seus sentimentos
profundos em suas relações com os outros. Além disso, o que me interessa também
é encontrar uma maneira de representar esses sentimentos da maneira mais
natural possível.
JPT:
Essa atenção às pequenas coisas, às belezas minúsculas do cotidiano, muitas
vezes cobertas de nostalgia ou melancolia, me parecem características da sua
maneira de ver o mundo. Existe algo aí de especificamente asiático?
JT: Acredito
que os homens e os animais são essencialmente seres tranquilos para os quais
certa reserva, certa moderação, são meios de sobrevivência. Na vida cotidiana,
não vemos muitas pessoas gritarem e chorarem rolando no chão.
Se meus mangás têm algo de asiático, talvez seja porque,
mais do que me interessar pelos meandros de uma história, eu em atenho a
representar o mais proximamente possível a realidade cotidiana dos sentimentos
dos personagens. Se entrarmos profundamente mesmo nos menores e mais banais
acontecimentos do cotidiano, uma história pode surgir neles. É a partir desses
momentos ínfimos que crio meus mangás.
JPT: É possível dizer que todo passeio é pretexto para uma nova descoberta. A caminhada
se torna um devaneio pelo espaço, sempre com uma admiração tranquila, uma
atitude diante da realidade que evoca uma curiosidade doce.
Mas a caminhada é também um pretexto para relembrar o
passado. Os lugares de Tóquio aonde o personagem não ia há muito tempo lhe parecem
transformados ou lhe trazem lembranças da infância e, assim, a caminhada se
torna melancólica. A essa curiosidade doce, se une um toque de leve nostalgia. A
cidade de Tóquio mudou muito desde a sua adolescência?
JT: é
verdade que o ambiente japonês mudou, e não apenas em Tóquio. A região onde
nasci também sofreu grandes alterações nos últimos trinta anos; os modos de
vida também se transformaram. Essas mudanças se devem principalmente a questões
políticas e econômicas que, desde os anos 1960, fizeram o país evoluírem direção
a uma sociedade de consumo dentro da qual as coisas materiais são mais
valorizadas do que as “coisas boas de antigamente” e acho isso muito triste.
Por outro lado, sem que nos déssemos conta, nos
acostumamos a uma vida confortável. As pessoas correm em busca de uma vida
fácil e desejam sempre mais riquezas. Mas a riqueza é também uma questão de
coração. Por isso, fico sem resposta, hesito e sinto todo tipo de contradição. Enquanto
me deparo com as enormes mudanças que nosso planeta sofreu desde a minha
infância, creio que é chegado o momento para cada um de nós refletir. Vemos bem
agora como as necessidades crescentes do ser humano foram destruindo o planeta
pouco a pouco. Mas como impedir o desaparecimento da natureza e dos animais? O problema
é extremamente complexo. Quanto a mim, posso apenas descrever essa realidade
nos meus mangás, e me dedico a isso.
JPT: Você
anda bastante no seu cotidiano? Onde?
JT:
Ando principalmente pelos bairros do subúrbio de Tóquio, mas mesmo quando estou
bem no meio da loucura do centro da cidade, ando com a mentalidade de que tudo
que me cerca pertence a nosso meio ambiente natural, do qual faço parte. Assim,
acontece de, nos lugares mais inesperados, encontrar um pouquinho de natureza
ou pessoas que me deixam mais sereno. Pode ser um poço abandonado ou uma construção
esquecida entre os percursos. Essas descobertas me acalmam.
JPT: Para
mim, caminhar é um modo de trabalho. Adoraria saber se você sente o mesmo. Este
é um texto em que, por meio da caminhada, descrevo meu jeito de escrever:
“Depois de alguns dias, depois de algumas semanas,
caminho pela natureza, parto em longos passeios, bifurco à beira do rio e pego
o atalho que sobe rumo a montanha, deixando à minha direita uma velha casa em
ruínas, abandonada dentro de um bosque de oliveiras.
Faço desvios pelos caminhos de pedras em meio aos mirtos
e urzes, aos carvalhos e zimbros, aos maciços de silvas, às amoreiras e aos
lentiscos e, pouco a pouco, um mundo se abre em meu peito, um mundo sem
atualidades, sem morte e sem desgraças, um monte ainda não formulado, feito
pelas minhas mãos, com pedaços e fragmentos, de intuições e esboços, que vem se
firmar na superfície de minha mente no ritmo de meus passos.
Caminho e levo comigo esse mundo flutuante e ficções em evolução,
de êxtases e doçuras, de magias e fantasmas, que passa a vibrar dentro da minha
mente como os primeiros tremores de uma água que vai ferver”.
JT:
Entendo perfeitamente o que você descreve. Gosto muito desse poder da
imaginação e creio que isso que você escreve pode tocar muitas pessoas. Para viver,
precisamos estar em relação com os outros ao mesmo tempo em que precisamos
estar em relação com a natureza. E o que busco fazer é mostrar isso tudo, não
apenas de maneira abstrata mas também da forma mais clara possível nas
histórias que conto.
JPT:
Você acredita que existe uma espécie de destino por trás das escolhas que
tomamos na vida? Sempre nos fazemos a pergunta: se tivesse feito isto, e não
aquilo, o que teria acontecido? Esse tipo de questionamento é exclusivo dos
personagens de seus mangás ou você também tem dúvidas e arrependimentos em relação
a suas decisões?
JT:
Nunca pensei que minha vida fosse resultado de um destino, mas acredito que o
que acontece no mundo em geral não é fruto do acaso. Será isso que chamamos de
destino? Talvez. Realmente sinto uma espécie de correnteza na vida. A todo
instante temos um número infinito de decisões a tomar. E, em função dessas
diversas escolhas, é provável que a cada uma nossa vida tome uma direção em particular.
No entanto, a direção escolhida para este ou aquele
momento também me parece fazer parte de uma corrente natural. Naturalmente, é
comum me atormentar pensando que em tal momento deveria ter feito isto em vez
daquilo, mas sei que não temos como voltar atrás.
Por isso, me esforço mais para buscar aquilo que ainda
pode ser feito para corrigir a direção e acredito que o fato de refletir sobre
o passo pode nos ajudar a viver melhor no presente. Se, em outro mundo, nos
fosse dada a chance de tomar outra decisão, a vida sem dúvida seguiria outro
rumo. Esse é, aliás, um tema recorrente na literatura clássica.
Para ser franco, diria que sou uma pessoa muito indecisa.
Tenho a tendência a me deixar levar pela corrente e evitar situações em que
correria o risco de ser confrontado por escolhas difíceis. Para mim, é nos
mangás que expresso meus pensamentos mais pessoais.
Quando tiver um tempo livre, procure sair para andar sem
rumo. Assim, imediatamente, sem nos darmos conta, o tempo começa a passar mais
lentamente. Aqui ou ali, encontramos coisas esquecidas, sentimos prazer em
observar a passagem das nuvens e nos sentimos cada vez mais tranquilos. A pessoa
que está presente, ali, na caminhada, é o mais próximo do que ela é de verdade.















