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3-Peregrinação baseada na Fé
em pessoas carismáticas
Ao lado das peregrinações às montanhas sagradas e aos
santuários de várias divindades, também se desenvolveu no Japão a peregrinação
inspirada pela fé em certos homens santos carismáticos.
É necessário lembrar que mesmo antes da introdução do
budismo no país os japoneses veneravam vários tipos de pessoas carismáticas
tidas como portadoras de poderes super-humanos.
Após a introdução do budismo, alguns dos notáveis
budistas, como o Príncipe Regente Shotoku, quem no final do século 6 e começo
do século 7 promoveu o budismo como sendo de
facto a religião estatal, e Gyogi, um líder popular do budismo no século 8,
quem, por conta de suas atividade filantrópicas e caráter santo foi chamado de
Bodhisattva vivo, se tornaram ambos objetos de adoração por boa parte dos
budistas piedosos. O mesmo aconteceu com muitos dos fundadores das escolas
budistas, como Shinran (séc. XII) e Nicheren (séc XII).
É interessante notar que, diferentemente dos budistas
chineses, cujos fundadores costumavam seguir os passos do Buda na Índia,
pisando os locais sagrados onde este viveu e predicou, os japoneses tomaram por
hábito peregrinar aos mausoléus dos líderes budistas, muitos dos quais eram conhecidos pelas suas qualidades
carismáticas.
O exemplo mais notável a esse respeito é o culto que se
desenvolveu ao redor da memória de Kukai ou Kobo Daishi (774-835),
sistematizador da escola budista esotérica chamada Shingon-shu.
Não é preciso falar muito sobre Kukai, cuja vida real foi
enterrada sob camadas de lendas piedosas. O que é significante é o fato de que
ele é lembrado pelos seus seguidores como o itinerante homem santo que visitou
muitas áreas remotas do Japão, cavando poços, curando os doentes e produzindo
vários milagres para ajudar os pobres e os oprimidos.
Além disso, é amplamente aceito que Kukai não morreu e
que ainda hoje ele está caminhando por lá, disfarçado de peregrino e ajudando
aqueles que necessitam sua assistência.
Os devotos de Kukai devem ter visitado seu local de
nascimento na ilha de Shikoku logo no começo do século 9, sendo plausível que algum tipo de peregrinação
formal nas “quatro províncias” (Shikoku) pode ter surgido nos séculos 12 ou 13.
Entretanto, a prática atual de visitar os 88 santuários em Shikoku não foi
firmemente estabelecida até meados do século 17.
Até onde podemos averiguar, a “Peregrinação em Shikoku” é
um fenômeno complexo. Em muitos sentidos, ela tem notáveis similaridades com a
peregrinação aos 33 Santuários de Kannon (Saigoku
sanju-san-sho). Em ambos os casos os peregrinos vestem as mesmas
indumentárias e seus cantos são semelhantes em forma e som.
Examinando mais de perto, contudo, fica evidente que o
motivo central da “Peregrinação em Shikoku” não é a devoção aos 88 locais
sagrados, que sem dúvida tronou-se uma característica própria, mas em vez
disso, sua ênfase principal é o ato de “caminhar com Santo Kukai”. Dito isso, a
“Peregrinação em Shikoku” é baseada na fé e na memória do homem santo
carismático, Kukai, cujo bastão de caminhada é seu símbolo vivo.
Portanto, mesmo quando uma pessoa sozinha empreende a peregrinação,
esta é chamada de peregrinação de dois (dogyoni-nin),
querendo dizer, Santo Kukai e ela.
De acordo com a tradição, a peregrinação a Khikoku começa
no Monte Koya, local do centro monástico estabelecido por Kukai. Espera-se que
os peregrinos prestem homenagem ao mausoléu de Kukai, onde se crê que ele
esteja dormindo até o momento de retornar ao mundo como o futuro Buda,
Maitreya.
Do monte Koya, os peregrinos saem de um dos portos e
cruzam o estreito para Shikoku de barco. Os 88 lugares sagrados estão
espalhados pelas 4 províncias que constituem Shikoku. Historicamente, na
província de Awa, que conta com 23 locais sagrados, é chamada de “arena de
exercício para o despertar espiritual” (Hosshin
no dojo); a província de Tosa, com 16 locais sagrados, é chamada de “arena
de exercício para a disciplina ascética” (Shugyono
dojo); a província de Iyo, com 26 locais sagrados é conhecida como “arena
de exercício para a iluminação” (Bodai no
dojo), e a província de Sanuki, com 23 locais sagrados é chamada de “arena
de exercício para o estado de Nirvana” (Nehan
no dojo).
Os locais sagrados são numerados de 1 a 88. Destes
locais, os de números 19, 27, 60 e 66 são considerados “obstáculos” (seki-sho), e dizem que aqueles que
cometeram alguma má ação recebem nesses pontos algum sinal ou presságio, tal
como a aparição de um determinado pássaro.
Tal presságio indica que eles desagradaram Santo Kukai e
por isso devem terminar ali sua peregrinação e começar tudo novamente. A
princípio, o curso normal da peregrinação é iniciar pelo número 1 e terminar no
templo 88, mas após completar o curso regular, pode-se empreender uma
peregrinação adicional, desta vez seguindo a rota reversa.
É tomado como certo que a peregrinação completa é mais
louvável. Entretanto, mesmo que feita parcialmente, como “os 10 locais
sagrados” (jukka-sho mairi), “os 7
locais sagrados” (nanaka-sho mairi) e os locais sagrados em “uma das quatro
províncias” somente (ikkoku mairi)
são tidos como muito benéficos.
Assim como no caso da Peregrinação aos 33 Santuários de
Kannon, a Peregrinação em Shikoku é tanto feita individualmente ou por pequenos
grupos familiares. Porém, há também muitos tipos de grupos formais e informais,
os quais patrocinam grupos de peregrinação, tal como a Confraternidade
devocional a Kobo Daishi (Daishi-ko)
e a Confraternidade dos devotos de Shingon (Kongo-ko).
Igualmente notável é o desenvolvimento de
confraternidades dedicadas à tarefa de oferecer hospitalidade e assistência aos
peregrinos (set-tai-ko). Membros
dessas confraternidades acreditam que oferecer hospitalidade aos peregrinos é o
mesmo que servir a Santo Kukai.
Alguns desses grupos hospitaleiros vêm de lugares
distantes, fretando barcos para o transporte de alimentos e outros itens, e
levantando centros de hospitalidade em vários pontos ao longo da rota principal
de peregrinação.
A popularidade da Peregrinação a Shikoku foi tamanha que
desde o século 18 vários “88 mini-santuários de Shikoku” foram construídos em diversas
partes do país, como Edo (Tokyo), Chita (perto de Nagoya), Soma (na atual
prefeitura de Chiba) e a ilha de Shozu no Mar Interior de Seto.
Essas peregrinações de menor escala obviamente não são
tão meritórias como a peregrinação original aos locais sagrados em Shikoku, mas
são uma maneira de dar oportunidade àquelas pessoas que, de outra forma não
seriam capazes de “caminhar com fé ao lado de Santo Kukai”.
Ainda que breve, esse retrato dos três tipos de
peregrinação no Japão deixa claro que há tantas semelhanças quanto diferenças
significativas entre elas. O primeiro
tipo, chamado de peregrinação às montanhas sagradas pode ser caracterizado por
suas atividades corporativas sob a supervisão de um guia experiente.
A ênfase no ascetismo e nas disciplinas físicas implica
em um caminho soteriológico (Soteriologia- parte da Teologia que estuda a
salvação da humanidade) baseado no autopoder (jiriki – fé em si mesmo, no esforço próprio) ainda que traga em si
um elemento de fé. E a noção de que as montanhas sagradas são os modelos do
Paraíso dá um ímpeto enorme aos peregrinos que buscam um significado religioso
de vida dentro da realidade da existência fenomenal.
O segundo tipo, a peregrinação baseada na fé em certas
divindades tende a ser mais individualista e também carece da rigorosa ênfase
ascética porque seu caminho soteriológico conta com o poder salvador das
divindades. (tariki – fé no poder externo, o Outro Poder). Mesmo que os
peregrinos busquem uma experiência imediata de algum grau de salvação aqui na
terra, eles aceitam a existência de uma realidade futura como a única arena de
salvação.
Finalmente, o terceiro tipo, a peregrinação baseada na fé
em homens santos carismáticos carrega algumas das características do primeiro e
do segundo tipo mencionados antes. Mas sua característica única é demonstrada
na noção de que o poder salvador já foi efetivado na vida de um homem santo
carismático, que combina em si os papéis de divindade e de guia. Em outras
palavras, o peregrino depende do Outro Poder (tariki), embora esse Outro Poder não esteja distante em uma
realidade transcendental. O poder salvador, totalmente efetivado em uma pessoa,
compartilha cada passo do peregrino terreno como um real “companheiro
peregrino”.
É evidente que a tarefa do historiador da religião
envolve muitas dificuldades especialmente quando se lida com um fenômeno
complexo como a evolução da religião na Japão, país de diversas características
homologadas de Budismo, Taoísmo, Shinto e crenças religiosas populares,
símbolos, cultos e práticas.
Em tal situação, uma abordagem cabível poderia ser a de
estudar uma forma significativa de culto religioso desenvolvido a partir da
fusão de vários elementos. Neste ponto é nossa esperança que esse estudo
primário dos três tipos de peregrinação possa ter jogado uma luz nas características
devocionais da tradição religiosa japonesa.
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