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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Peregrinação no Japão, parte II. By J.M.Kitagawa

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3-Peregrinação baseada na Fé em pessoas carismáticas

Ao lado das peregrinações às montanhas sagradas e aos santuários de várias divindades, também se desenvolveu no Japão a peregrinação inspirada pela fé em certos homens santos carismáticos.

É necessário lembrar que mesmo antes da introdução do budismo no país os japoneses veneravam vários tipos de pessoas carismáticas tidas como portadoras de poderes super-humanos.



Após a introdução do budismo, alguns dos notáveis budistas, como o Príncipe Regente Shotoku, quem no final do século 6 e começo do século 7 promoveu o budismo como sendo de facto a religião estatal, e Gyogi, um líder popular do budismo no século 8, quem, por conta de suas atividade filantrópicas e caráter santo foi chamado de Bodhisattva vivo, se tornaram ambos objetos de adoração por boa parte dos budistas piedosos. O mesmo aconteceu com muitos dos fundadores das escolas budistas, como Shinran (séc. XII) e Nicheren (séc XII).



É interessante notar que, diferentemente dos budistas chineses, cujos fundadores costumavam seguir os passos do Buda na Índia, pisando os locais sagrados onde este viveu e predicou, os japoneses tomaram por hábito peregrinar aos mausoléus dos líderes budistas, muitos dos quais  eram conhecidos pelas suas qualidades carismáticas.



O exemplo mais notável a esse respeito é o culto que se desenvolveu ao redor da memória de Kukai ou Kobo Daishi (774-835), sistematizador da escola budista esotérica chamada Shingon-shu.



Não é preciso falar muito sobre Kukai, cuja vida real foi enterrada sob camadas de lendas piedosas. O que é significante é o fato de que ele é lembrado pelos seus seguidores como o itinerante homem santo que visitou muitas áreas remotas do Japão, cavando poços, curando os doentes e produzindo vários milagres para ajudar os pobres e os oprimidos.



Além disso, é amplamente aceito que Kukai não morreu e que ainda hoje ele está caminhando por lá, disfarçado de peregrino e ajudando aqueles que necessitam sua assistência.

Os devotos de Kukai devem ter visitado seu local de nascimento na ilha de Shikoku logo no começo do século 9,  sendo plausível que algum tipo de peregrinação formal nas “quatro províncias” (Shikoku) pode ter surgido nos séculos 12 ou 13. Entretanto, a prática atual de visitar os 88 santuários em Shikoku não foi firmemente estabelecida até meados do século 17.



Até onde podemos averiguar, a “Peregrinação em Shikoku” é um fenômeno complexo. Em muitos sentidos, ela tem notáveis similaridades com a peregrinação aos 33 Santuários de Kannon (Saigoku sanju-san-sho). Em ambos os casos os peregrinos vestem as mesmas indumentárias e seus cantos são semelhantes em forma e som.



Examinando mais de perto, contudo, fica evidente que o motivo central da “Peregrinação em Shikoku” não é a devoção aos 88 locais sagrados, que sem dúvida tronou-se uma característica própria, mas em vez disso, sua ênfase principal é o ato de “caminhar com Santo Kukai”. Dito isso, a “Peregrinação em Shikoku” é baseada na fé e na memória do homem santo carismático, Kukai, cujo bastão de caminhada é seu símbolo vivo.



Portanto, mesmo quando uma pessoa sozinha empreende a peregrinação, esta é chamada de peregrinação de dois (dogyoni-nin), querendo dizer, Santo Kukai e ela.

De acordo com a tradição, a peregrinação a Khikoku começa no Monte Koya, local do centro monástico estabelecido por Kukai. Espera-se que os peregrinos prestem homenagem ao mausoléu de Kukai, onde se crê que ele esteja dormindo até o momento de retornar ao mundo como o futuro Buda, Maitreya.



Do monte Koya, os peregrinos saem de um dos portos e cruzam o estreito para Shikoku de barco. Os 88 lugares sagrados estão espalhados pelas 4 províncias que constituem Shikoku. Historicamente, na província de Awa, que conta com 23 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para o despertar espiritual” (Hosshin no dojo); a província de Tosa, com 16 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para a disciplina ascética” (Shugyono dojo); a província de Iyo, com 26 locais sagrados é conhecida como “arena de exercício para a iluminação” (Bodai no dojo), e a província de Sanuki, com 23 locais sagrados é chamada de “arena de exercício para o estado de Nirvana” (Nehan no dojo).



Os locais sagrados são numerados de 1 a 88. Destes locais, os de números 19, 27, 60 e 66 são considerados “obstáculos” (seki-sho), e dizem que aqueles que cometeram alguma má ação recebem nesses pontos algum sinal ou presságio, tal como a aparição de um determinado pássaro.



Tal presságio indica que eles desagradaram Santo Kukai e por isso devem terminar ali sua peregrinação e começar tudo novamente. A princípio, o curso normal da peregrinação é iniciar pelo número 1 e terminar no templo 88, mas após completar o curso regular, pode-se empreender uma peregrinação adicional, desta vez seguindo a rota reversa.



É tomado como certo que a peregrinação completa é mais louvável. Entretanto, mesmo que feita parcialmente, como “os 10 locais sagrados” (jukka-sho mairi), “os 7 locais sagrados”  (nanaka-sho mairi) e os locais sagrados em “uma das quatro províncias” somente (ikkoku mairi) são tidos como muito benéficos.



Assim como no caso da Peregrinação aos 33 Santuários de Kannon, a Peregrinação em Shikoku é tanto feita individualmente ou por pequenos grupos familiares. Porém, há também muitos tipos de grupos formais e informais, os quais patrocinam grupos de peregrinação, tal como a Confraternidade devocional a Kobo Daishi (Daishi-ko) e a Confraternidade dos devotos de Shingon (Kongo-ko).



Igualmente notável é o desenvolvimento de confraternidades dedicadas à tarefa de oferecer hospitalidade e assistência aos peregrinos (set-tai-ko). Membros dessas confraternidades acreditam que oferecer hospitalidade aos peregrinos é o mesmo que servir a Santo Kukai.



Alguns desses grupos hospitaleiros vêm de lugares distantes, fretando barcos para o transporte de alimentos e outros itens, e levantando centros de hospitalidade em vários pontos ao longo da rota principal de peregrinação.



A popularidade da Peregrinação a Shikoku foi tamanha que desde o século 18 vários “88 mini-santuários de Shikoku” foram construídos em diversas partes do país, como Edo (Tokyo), Chita (perto de Nagoya), Soma (na atual prefeitura de Chiba) e a ilha de Shozu no Mar Interior de Seto.



Essas peregrinações de menor escala obviamente não são tão meritórias como a peregrinação original aos locais sagrados em Shikoku, mas são uma maneira de dar oportunidade àquelas pessoas que, de outra forma não seriam capazes de “caminhar com fé ao lado de Santo Kukai”.



Ainda que breve, esse retrato dos três tipos de peregrinação no Japão deixa claro que há tantas semelhanças quanto diferenças significativas entre elas.  O primeiro tipo, chamado de peregrinação às montanhas sagradas pode ser caracterizado por suas atividades corporativas sob a supervisão de um guia experiente.



A ênfase no ascetismo e nas disciplinas físicas implica em um caminho soteriológico (Soteriologia- parte da Teologia que estuda a salvação da humanidade) baseado no autopoder (jiriki – fé em si mesmo, no esforço próprio) ainda que traga em si um elemento de fé. E a noção de que as montanhas sagradas são os modelos do Paraíso dá um ímpeto enorme aos peregrinos que buscam um significado religioso de vida dentro da realidade da existência fenomenal.



O segundo tipo, a peregrinação baseada na fé em certas divindades tende a ser mais individualista e também carece da rigorosa ênfase ascética porque seu caminho soteriológico conta com o poder salvador das divindades.  (tariki – fé no poder externo, o Outro Poder). Mesmo que os peregrinos busquem uma experiência imediata de algum grau de salvação aqui na terra, eles aceitam a existência de uma realidade futura como a única arena de salvação.



Finalmente, o terceiro tipo, a peregrinação baseada na fé em homens santos carismáticos carrega algumas das características do primeiro e do segundo tipo mencionados antes. Mas sua característica única é demonstrada na noção de que o poder salvador já foi efetivado na vida de um homem santo carismático, que combina em si os papéis de divindade e de guia. Em outras palavras, o peregrino depende do Outro Poder (tariki), embora esse Outro Poder não esteja distante em uma realidade transcendental. O poder salvador, totalmente efetivado em uma pessoa, compartilha cada passo do peregrino terreno como um real “companheiro peregrino”.



É evidente que a tarefa do historiador da religião envolve muitas dificuldades especialmente quando se lida com um fenômeno complexo como a evolução da religião na Japão, país de diversas características homologadas de Budismo, Taoísmo, Shinto e crenças religiosas populares, símbolos, cultos e práticas.



Em tal situação, uma abordagem cabível poderia ser a de estudar uma forma significativa de culto religioso desenvolvido a partir da fusão de vários elementos. Neste ponto é nossa esperança que esse estudo primário dos três tipos de peregrinação possa ter jogado uma luz nas características devocionais da tradição religiosa japonesa.



sábado, 28 de julho de 2018

Peregrinações no Japão, parte I. By J.M.Kitagawa


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Vez ou outra volto a reler alguns textos de fenomenologia da religião, uma área de estudo que me interessa em particular.   Tenho em mãos um excelente livro, Experience of the Sacred – readings in the Phenomenology of Religion, com textos de gente grande como Rudolph Otto, Max Scheller, Mircea Eliade e Paul Ricouer.

Apaixonado pelo Japão e sua cultura, fui de imediato atraído por um texto sobre peregrinações, escrito por J. M. Kitagawa que resolvo traduzir e publicar aqui no Odepórica, uma vez que o tema é pertinente com o perfil do blog.  

Kitagawa nasceu em 1915 em Osaka, no Japão, e aos 26 anos foi estudar teologia nos Estados Unidos, onde fez uma carreira brilhante na área dos estudos de religião, em particular em História da Religião, sendo um dos fundadores dessa área de estudo nos EUA. Faleceu em 1992, aos 77 anos de idade.             
 

Em toda tradição religiosa, a peregrinação reúne os mais variados atos religiosos e frequentemente características diversas e muitas vezes contraditórias, que são tanto espirituais quanto mundanas.

Viajar longas distâncias, visitando montanhas sagradas ou santuários, envolve dificuldade e resistência física, mas também aspectos prazerosos, tais como passeios e contato com novas amizades. De modo geral, os peregrinos são movidos por objetivos religiosos, tais como a veneração de divindades ou santos que estão consagrados em vários locais sagrados, obtendo mérito pela salvação de alguém, pagando penitência por um pecado, ou rezando pelo repouso dos espíritos dos falecidos, mas esses motivos religiosos são frequentemente misturados com o desejo de alcançar uma cura, boa sorte, o nascimento auspicioso de uma criança, prosperidade ou qualquer outro benefício mundano.

Mesmo as práticas ascéticas, que são geralmente impostas aos peregrinos, notavelmente a abstinência sexual e o jejum ou as restrições dietéticas são interpretadas como investimentos necessários para as almejadas recompensas, sem contar que a peregrinação proporciona um providencial alívio da enfadonha rotina diária das pessoas.



Além do mais, visto de uma perspectiva mais ampla, a peregrinação, que sedimenta a solidariedade de grupos religiosos, também estimula os negócios e o comércio, a disseminação de ideias e o intercâmbio intercultural. Não obstante essas características universais, que são compartilhadas pelas peregrinações de várias tradições, cada uma tende a mostrar um ethos próprio, que só pode ser compreendido dentro de seu contexto religioso e cultural.

No Japão, o desenvolvimento da peregrinação foi muito influenciado por fatores geográficos e topográficos tanto quanto os fatores religiosos e culturais. De acordo com o Shinto (Xintoísmo, religião nativa do Japão derivada do animismo e práticas xamânicas), o mundo inteiro é permeado pela natureza sagrada (kami), de modo que cada montanha, rio, árvore, rocha - assim como o ser humano - são potenciais objetos de veneração.

No que diz respeito à prática da peregrinação, ela teve pouca evidência no Shinto, uma vez que este era rigorosamente relacionado com a vida do clã (uji), que mais do que nunca estava estabelecido em uma localidade geográfica particular.



Para se ter uma ideia, em muitas comunidades rurais acreditava-se que o kami (espírito) das montanhas descia à terra e se transformava no kami do campo de arroz durante parte do ano e depois retornava às montanhas após a época da colheita. É concebível que, por esse motivo, algumas pessoas podem ter subido as montanhas com o intuito de vivenciar a morada mística do kami. Mas essas práticas eram espontâneas, não regularizadas como peregrinações nos primórdios do Shinto.

A introdução da civilização chinesa e do budismo durante o século VI a.C. trouxe à tona uma extensa mudança religiosa e cultural nos períodos subsequentes na história do Japão. Eventualmente, lá se desenvolveu três tipos de peregrinação principais após a fusão do Shinto nativo com as práticas e crenças populares do budismo e dos elementos do taoísmo chinês. São elas:

1-  Peregrinação à montanha sagrada
2-  Peregrinação aos templos e santuários, baseada na fé pelas divindades adoradas nesses locais;
3-  Peregrinação aos lugares sagrados baseada na fé em certos homens santos carismáticos, que por esse motivo consagraram os lugares com sua presença.



Veremos a seguir como esses tipos de peregrinação se desenvolveram no Japão e também vamos retratar as semelhanças e diferenças entre elas.

1.   Peregrinação à Montanha sagrada



Já pontuamos a importância das montanhas sagradas na vida religiosa do japonês primitivo. É significante notar nessa conexão que até mesmo após a introdução da civilização chinesa e do budismo as pessoas continuaram a venerar as montanhas assim como as moradas das divindades, e a prestar um respeito especial ao “homem austero” (gyo-ja), no qual se acreditava haver adquirido poderes super-humanos por conta do rigoroso treinamento ascético da montanha (sanrin-toso).

Entre os budistas, também se desenvolveu no século VIII um movimento chamado “Escola da Sabedoria Natural”, a qual buscou a Iluminação não através da meditação tradicional e das disciplinas monásticas, mas através de um contato junto à Natureza nas montanhas.



É sabido que alguns monges e leigos piedosos submetiam-se à prática da austeridade nas montanhas na intenção de adquirir poderes mágicos (siddhi). Enquanto isso, adivinhos xamânicos, curandeiros e ascetas, que antes não tinham qualquer conexão com o budismo, passaram a ter influência budista.

A relação deles com o budismo foi muito tênue, mas eles eram chamados de “praticantes budistas não ordenados” (ubasoku; upasaka)  e muitos alegaram possuir o poder de operar milagres por conta da práticas austeras na montanha.  O efeito combinado desses movimentos foi o aparecimento da então chamada Ordem dos Ascetas da Montanha (Shugendo- o caminho de poder espiritual pela ascese, escola do Mikkyo, o budismo esotérico japonês) que preservou muitos elementos do Shinto e das antigas tradições religiosas populares.



A popularidade dos ascetas das montanhas durantes os séculos XI e XII foi engrandecida pela crença prevalente entre os aristocratas de que a peregrinação às montanhas sagradas, especialmente aquelas de Kumano e Yoshino, poderiam habilitá-los a vivenciar aqui na terra uma amostra da Terra Pura (Jodo-Shu).  

Também era amplamente sustentado naquele tempo que os nativos Shinto kami (espíritos) daquelas montanhas eram na realidade manifestações das divindades budistas. Deste modo, acreditava-se que as peregrinações a essas montanhas, acompanhadas e guiadas pelos experientes ascetas locais, traziam proteção tanto das divindades xintoístas quanto das budistas simultaneamente.

Com o declínio da nobreza da corte na segunda metade do século XII, os ascetas das montanhas buscaram amparo entre guerreiros e outros plebeus através do estabelecimento das confraternidades devocionais (ko-sha) em várias partes do país.



A maioria dos membros dessas confraternidades pertencia aos grupos budistas e xintoístas, mas eles encontraram um ímpeto adicional em sua devoção nas deidades de certas montanhas sagradas que se encontravam quase sempre longe de seus lares. Um bom número dessas confraternidades continuou atuante até os nossos tempos.

A principal função desses grupos era a peregrinação às montanhas sagradas, sendo que a maioria deles não permitia a participação de mulheres, pelo que as confraternidades eram predominantemente masculinas. Eles consideravam a subida nas montanhas, conduzida por guias experientes, essencial para a disciplina física e espiritual, e assim a peregrinação era usualmente considerada uma cerimônia de iniciação para garotos que estavam entrando na vida adulta.

Eventualmente modelos miniatura de montanhas sagradas se estabeleceram em algumas partes do país para o benefício daqueles que não podiam fazer as verdadeiras peregrinações, e o culto às montanhas cresceu em popularidade atraindo idosos e também as mulheres.



Estima-se que na segunda metade do século dezenove havia 17.000 guias qualificados nas montanhas sagradas, o que significa que um número consideravelmente maior de ascetas estava atuando nesses lugares.

As três (assim chamadas) denominações da Seitas Shinto dos nossos dias – (1) Jikko-kyo (religião de “conduta prática”), (2) Fuso-kyo (religião de Fuso, que é o nome clássico do Monte Fuji), e (3) Ontake-kyo (religião do Monte Ontake) – são herdeiras diretas das tradições dos ascetas das montanhas, enquanto Fuji-kyo (confraternidade devocional do Monte Fuji), mais tarde renomeada como Maruyama-kyo, tornou-se uma sub-seita de outra denominação da Seita Shinto chamada Shinto Taikyo (o grande ensinamento do Shinto).

Assim, há muitos grupos de peregrinação às montanhas, formais e informais, indo desde aqueles que seguem as disciplinas mais estritas até os que beiram às atividades semi-recreacionais. 

2 – Peregrinações baseadas na crença em certas Divindades



Na história religiosa do Japão, a popularização da peregrinação não ficou confinada às montanhas sagradas. Muitos religiosos, mulheres e homens leigos, certamente estimulados pelas peregrinações nas montanhas, também apreciavam a visita menos aventureira aos lugares sagrados das planícies, especialmente os templos budistas ou os santuários xintoístas onde certas divindades são cultuadas.

Essas peregrinações são motivadas não pelo desejo de se submeter às práticas ascéticas, mas pela devoção a um determinado Buda, Bodhisattva (bodhi = iluminado; sattva = ser) ou kami, a quem os peregrinos prestam homenagem, dão graças ou pedem favores especiais. Os templos que consagravam as estátuas das divindades mais conhecidas atraíam muitos peregrinos.

A peregrinação mais organizada de todas é a conhecida como “Peregrinação aos 33 Santuários no Japão Ocidental” (na parte ocidental do país, região de Kansai), em japonês, Saigoku Kannon ou Saigoku Sanjusansho, que foi baseada na devoção a Kannon (Avalokiteshvara, o Buda da Compaixão).



De acordo com uma lenda piedosa, o Imperador Kazan (que reinou de 984-986), após a morte de sua consorte, abdicou do trono e, trajando hábito sacerdotal, visitou os 33 santuários dedicados a Kannon. Embora essa lenda não seja confiável, é quase certo que dois sacerdotes Tendai, (Escola do budismo maaina, descendente da Escola chinesa do Sutra do Lótus) Gyoson e Kakuchu, peregrinaram no século XII pelos 33 santuários de Kannon.

Evidentemente, a julgar pelos registros dos séculos XIII e XIV, houve variações na seleção dos santuários dessa rota, ainda que exista um acordo na quantidade (33), por ser este um número sagrado. A atual característica dos 33 templos provavelmente foi estabelecida no século XV, época em que a peregrinação já não era mais monopolizada pelos bem-nascidos e pela classe religiosa.

Devido em grande parte às atividades dos líderes dos novos movimentos budistas que surgiram no século XIII, entre elas a Escola Terra Pura e o Nichiren, tanto os pobres quanto os ricos vieram a aceitar a crença de que estavam vivendo em um período de “degeneração da Lei do Buda” (mappô – período final da Boa Lei), pelo que sentiam uma urgente necessidade da graça e da misericórdia das divindades para o seu renascimento na Terra Pura após a morte.



Sem dúvida esse é o motivo de o Monte Nachi, tido como modelo da Terra Pura do Kannon na terra, ter sido escolhido como o ponto de partida da peregrinação.

Gradualmente, o vestuário do peregrino – chapéu de palha largo, rosário pendurado no pescoço, cajado, concha, um baldinho de madeira e um sino – passou a ser comum.

Na estrada os peregrinos entoam um canto rítmico de 33 versos, referenciando o poder miraculoso e compassivo de Kannon em um de seus 33 santuários; não raro os peregrinos mendigavam alimento e esmolas, maneira de garantir seu sustento durante a jornada.



Com o tempo, muitas outras formas de peregrinação budistas foram aparecendo, como a peregrinação aos 25 templos da Escola da Terra Pura, a peregrinação aos 100 templos da Escola Nichiren, e a peregrinação aos 100 templos no distrito de Higashiyama, ao longo das encostas mais baixas de Kyoto, antiga capital do Japão Imperial.

Ao contrário das peregrinações às montanhas sagradas, feitas em grupos e guiadas por um asceta experiente, a peregrinação aos templos das divindades pode ser feita individualmente. Apesar disso, muitas confraternidades surgiram em conexão com essas peregrinações e seus membros formam pequenos grupos de peregrinos para dar suporte mútuo e encorajamento aos companheiros de viagem.



Na tradição do Shinto, que também desenvolveu a prática da peregrinação durante os últimos séculos, a mais proeminente é a peregrinação ao Grande Santuário de Ise, dedicado à deusa do sol, Amaterasu-o-mikami. Essa peregrinação foi fomentada pela Confraternidade de Ise (Ise-ko), que seleciona por sorteio certos membros que irão representar outros em sua peregrinação a Ise, geralmente na primavera ou no outono.

A partida e o retorno são celebrados através de cerimônias especiais e banquetes são oferecidos a todos os membros. Uma vez que suas despesas são pagas pela confraternidade, que é mantida pelas taxas dos associados, os peregrinos de Ise – ou de outras peregrinações xintoístas semelhantes - não pedem esmolas nem alimento na caminhada. Fora isso, o objetivo da peregrinação a Ise é semelhante às peregrinações budistas, exceto que o objeto de devoção é uma divindade Shinto.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Wabi-sabi, a arte da impermanência, by Juniper/Koren

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Numa passagem clássica da obra A Prisioneira (vol 5, Em Busca do Tempo Perdido), Marcel Proust escreve que a única viagem verdadeira não seria partir em demanda de novas paisagens, “mas em ter novos olhos, ver o universo com olhos de cem pessoas, ver os cem universos que cada uma delas vê, que cada uma delas é...”

Acredito que a experiência de viajar facilita a prática dessa atitude proustiana de exercitar o olhar, de enxergar as coisas de uma maneira diferente, o que poderia efetivamente ser feito sem a necessidade de sair de casa, pelo que não deixa de ser interessante descobrir novas maneiras de observar o mundo no dia a dia, o que em tese também faz com que amadureçamos nossa maneira de viajar, para assim aproveitarmos plenamente o tempo gasto nas deambulações.


Terminei há pouco a leitura de duas obras que me fizeram pensar muito sobre essas coisas, especialmente no que se refere ao olhar e à estética das coisas que nos cercam, que podem ser os objetos e utensílios que guardamos em casa, a decoração de uma loja, um arranjo de flores, a beleza ou a feiura de uma obra de arte, o impacto de um muro grafitado numa esquina da cidade, e qualquer outra coisa que nos chame a atenção, que capte nosso olhar por um tempo maior do que o de costume.  

Vamos aos livros: Wabi-Sabi: the Japanese Art of Impermanence, de Andrew Juniper e Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers, de Leonard Koren. Os títulos são pomposos, mas a temática do Wabi-Sabi é de uma simplicidade tocante, poética e muito sutil, como tudo que costuma vir das tradições do Oriente.


Antes de explicar o significado do termo wabi-sabi vou transcrever o prefácio do Andrew Juniper para sua obra sobre a arte japonesa da impermanência. É bem singela, mas vai direto ao ponto:

Quando me vi pechinchando por uma velha cumbuca em um restaurante turco, me dei conta de que os anos passados no Japão mudaram radical e irreversivelmente minhas perspectivas sobre a arte e a beleza. A pequena tigela escura que tanto me chamou a atenção não possuía um design que se pudesse qualificar, sua superfície era áspera e impregnada por anos de cozinha turca... mas mesmo assim havia algo nela que era sedutoramente atrativo.

A superfície esmaltada ganhara uma tonalidade visualmente rica e sua forma simples e nada refinada era pura e sem quaisquer considerações artísticas – uma entre milhares de tigelas semelhantes, mas sua rusticidade e ausência de arte eram extraordinariamente expressivas e ressonantes com as imperfeições e impermanência da vida. A vasilha que nós tanto admiramos tinha aquilo que os japoneses se referem como wabi-sabi.



Achei que o autor foi muito feliz ao tentar explicar o espírito do wabi-sabi sem ter que apelar para nada além de uma experiência corriqueira por ele vivida em um restaurante turco. De fato, ele sequer explicou o significado do termo wabi-sabi, lembrando, duas páginas à frente, de que os japoneses possuem uma admirável tendência de deixar o inexplicável inexplicado, como é o caso do Zen, cujos significados mais profundos não podem ser comunicados através de explanações verbais.

“Na filosofia Zen, as palavras são o obstáculo fundamental à clareza da compreensão; os monges buscam atingir seu objetivo de iluminação não através do aprender senão do desaprender todas as noções preconcebidas da vida e da realidade”, afirma o Andrew, que muito coerentemente nos lembra de que isso não funciona, regra geral, para um ocidental que queria mergulhar na cultura do antigo Oriente; até chegar nesse ponto, nós aqui precisamos comer muito arroz, de modo que recorremos àqueles que se propõem a esclarecer ou mesmo introduzir a cultura e o modo de pensar oriental que tanto nos fascina.



Então, sejamos práticos: o que é o wabi-sabi? O autor de “Wabi-Sabi para artistas, designers, poetas e filósofos”, Leonard Koren, diz que wabi-sabi é a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas; a beleza das coisas modestas e humildes; a beleza das coisas não convencionais. O Leonard, assim como o Andrew, também abre o livro narrando uma cena de viagem. Diz que estava no Japão e que foi convidado a participar de uma autêntica cerimônia do chá (que tem tudo a ver com o wabi-sabi), muito divulgada na época e que prometia ser uma experiência inolvidável.

Que nada. No afã de querer impressionar os convivas (isso sou eu quem imagina), foram chamados três dos melhores arquitetos do país para dar um “up” nos locais que presidiriam a cerimônia, ambientes distribuídos no terreno de uma antiga residência imperial. Assim diz o autor:

“Depois de mais de três horas de viagem de trem e de ônibus desde o meu escritório em Tóquio, cheguei ao local do evento e para minha consternação encontrei uma celebração de deslumbramento, grandiosidade e de elegante encenação, mas dificilmente um traço de wabi-sabi. Uma cabana toda lisinha de papel, que parecia e cheirava como um guarda-chuva branco de plástico; adjacente a ela, uma estrutura de vidro, aço e madeira tão íntima quanto uma torre de escritórios e a única casa de chá que poderia resguardar algum indício de wabi-sabi estava gratuitamente enfeitada com penduricalhos pós-modernos”.


Deve ter sido um choque para o Mr. Koren, que após a decepção daquele evento sentou e resolveu escrever sobre o wabi-sabi - para nosso deleite, porque o livro dele é uma pequena joia de noventa e cinco páginas editada com um cuidado que pouco se vê por aí (papel reciclado, lindas fotos em p&b, tudo muito wabi-sabi). 

Diz o autor que, originalmente, as palavras japonesas “wabi” e “sabi” possuíam significados bem diferentes; “sabi” originalmente significava “frio”, “friagem”, “enxuto”, “esbelto” ou “embranquecido”; “wabi” originalmente tinha relação com a miséria de viver sozinho na natureza, longe da sociedade, sugerindo um estado emocional desanimado e triste.

A partir do século XIV os significados de ambas as palavras ganharam outro sentido, se aproximando de um contexto ligado a valores estéticos mais positivos. Por que isso? Porque a pobreza voluntária dos ermitões e ascetas eram tidas como oportunidades para a riqueza espiritual. Para aqueles com inclinação poética, este tipo de vida encorajava uma apreciação dos mínimos detalhes da vida diária, curtindo a beleza das coisas modestas e discretas e a observação da natureza. Por sua vez, essa simplicidade desencanada deu um novo sentido para a apreciação de um novo tipo de beleza, mais pura em sua essência.


Com o passar dos séculos, os significados de “wabi” e “sabi” foram se transformando/interligando tanto que a linha que os separava ficou tão sutil que hoje, no Japão, se convencionou que “wabi” e “sabi” são a mesma coisa, portanto, wabi-sabi e pronto, porque simplificar é sempre uma boa opção. Mas, se fôssemos caracterizar suas diferenças, como se tratássemos de entidades separadas, então faríamos assim, de acordo com o que apregoa o Leonard Koren:

Wabi: um modo de vida, uma senda espiritual;
Sabi: objetos materiais, arte e literatura.

Wabi: o íntimo, a parte interior, o subjetivo;
Sabi: o exterior, o que se mostra, o objetivo.

Wabi: uma construção filosófica;
Sabi: um ideal estético.

Wabi: eventos regionais;
Sabi: eventos temporais.

Lembra muito aqueles quadros e tabelas taoístas que elencam as diferenças entre o yin e o yang (claro/escuro, úmido/seco, doce/salgado, frio/calor, etc...), e daí a gente se pega pensando em como tudo se relaciona quando botamos a cuca prá pensar um pouco... dá prá viajar um bocado nessas ideias, o Oriente é tudo de bOM.


Voltando aos livros, ainda lendo o já querido Leonardo Koren, veremos que ele facilita nossa vida fazendo outra tabelinha, agora comparando as diferenças entre o Modernismo e a tradição do Wabi-Sabi, superinteressante e esclarecedor, mas isso vou pular, assim como também não falarei da metafísica, dos aspectos históricos e dos preceitos morais do Wabi-Sabi, capítulos curtos que renderiam muitas divagações e quem tiver interesse que corra atrás.

Se pudesse resumir tudo o que os autores escreveram sobre o wabi-sabi em uma única ideia, eu diria que wabi-sabi é aquilo que se encontra na essência das coisas simples; simplicidade é a palavra chave para o wabi-sabi, mas como bem lembra o Leonard Koren, a simplicidade não é tão simples, tome como exemplo a filosofia zen, a cerimônia do chá, o ikebana, a arte da caligrafia japonesa, o teatro Nô, a poesia enxuta do haikai... o wabi-sabi está em tudo isso e em infinitas outras coisas, basta abrir os olhos, os de fora e o de dentro, que você verá e assimilará o wabi-sabi cada vez mais facilmente.

É importante lembrar que o wabi-sabi não é apenas o valor que se dá ao design rústico de um objeto; é algo que captura o teu olhar, que te faz olhar para dentro de ti mesmo e que de alguma forma mexe com tuas emoções. O Andrew Juniper afirma que são nos detalhes mais imperceptíveis que se encontra o coração do wabi-sabi e que é através deles que se pode conseguir vislumbrar a serena melancolia que eles sugerem.



Acredito que você consegue se recordar de momentos em sua vida em que tenha tido contato com essa perspectiva “wabi-sabiana” da vida... Provavelmente muitos, basta olhar para alguns objetos espalhados pela casa, uma pedra catada em leito de rio, uma concha de formato exótico trazida de uma viagem, um artesanato indígena, um vasinho de arte rupestre, uma caixinha de madeira, uma taça garimpada numa feirinha de antiguidades... Exemplos não faltam, vivências idem.

Enquanto termino essa postagem, que pode ser a última, minha despedida desse blog, vejo com carinho e um pouco de saudosismo um pequeno sino de latão, rústico e meio enferrujado, que comprei numa viagem que fiz ao sul de Minas Gerais. Não sei explicar o motivo que me levou a comprar o sininho, mas quando o vi senti que tinha que ser meu, como se alguém me tivesse levado até ele por algum motivo oculto.

No ano seguinte fiz uma viagem, onde caminhei muitos quilômetros por dia durante algumas semanas. Ao preparar a bagagem, lembrei-me de levar o pequeno sino de latão, que foi preso do lado de fora, numa das correias laterais da mochila. A cada passo que dava, ouvia o tilintar baixinho do sino, do meu lado direito, marcando suavemente o ritmo de minha caminhada. E em nenhum momento me senti sozinho.
Leia:


Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers. Leonard Koren. Imperfect Publishing, USA. 1994 and 2008. (disponível no site brasileiro da Amazon)



Wabi sabi: the Japanese art of impermanence. Andrew Juniper.Tuttle Publishing, USA. 2003. (disponível na versão e-book para Kindle)