Mostrando postagens com marcador Jack Kerouac. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jack Kerouac. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pic, o último romance de Jack Kerouac

.

A maior surpresa que tive esse ano aconteceu no último final de semana de agosto. Estava procurando um livro que pudesse ler no domingo de uma só tirada, porque às vezes tenho essas vontades tolas de ler um romance em um dia ou dois no máximo.

Puxei da estante um Kerouac que nem me lembrava mais de haver comprado: Pic. Perfeito, pensei (e além do mais fazia tempo que não visitava meu autor predileto). Liguei um som baixinho, instrumental, para não me distrair com os ruídos externos e mergulhei na leitura. Sensacional, já vou adiantando.

Comecemos pelo título: Pic, que é o nome do narrador: Pictorial Review Jackson, um adorável menino negro de dez anos que nos relata, em primeira pessoa, a aventura de sair de casa no interior da Carolina do Norte rumo à costa oeste, uma aventura gigantesca para quem nunca havia saído de seu próprio quintal.

Kerouac situa a história nos anos 1940, época em que a segregação racial era muito pesada nos Estados Unidos; optou por escrever o romance da maneira como os negros falam, como um dialeto próprio, o que dá à narrativa uma dinâmica apropriada – os personagens são quase palpáveis e a empatia com o menino Pic, imediata.


A obra começou a ser escrita no início da década de 50, mas os biógrafos de Jack informam que ele a deixou encostada até o fim da vida, retomando a escrita poucos meses antes de falecer, em outubro de 1969. A obra foi publicada postumamente em 1971 e não foi bem recebida pelos críticos. Uma das críticas mais recorrentes recai sobre o uso mal empregado da fala dos negros americanos; por outro lado, há os que admiram a obra justamente pelo fato de Jack ter saído de sua zona de conforto e eu fico do lado dos que pensam assim.

Preciso dizer que a tradução da obra para o português, a cargo de Guilherme da Silva Braga, ficou divertida e cativante, lembrando muito a maneira de falar dos negros descendentes de escravizados das cidadezinhas coloniais de Minas Gerais. Veja uma passagem:

Vô, aquela noite tava muito escura porque a lua ficô encoberta pelas nuve assim que eu e o mano chegamo no bosque, e aquela lua não passava de uma bananinha de lua que brilhava fraca e franzina quando aparecia em meio às nuve. Tamém ficô frio, e eu tava quase tremendo. Achei que uma tempestade tava se armando pra me aquecê, porque pocas vez eu me senti tão bem como quando a gente se pôs a caminho.

Vamos ao enredo? Pic é um garoto negro, “o minino mais escuro, o minino mais preto que já tinha aparecido na escola”; sua mãe faleceu, seu pai sumiu do mapa há anos e seu irmão um dia foi embora e nunca mais voltou. A história que lemos é a que Pic conta ao seu avô, com quem vive e a quem muito estima.


Quando seu avô falece, o que acontece logo nas primeiras páginas, Pic é levado para a casa de uma tia onde o ambiente não lhe era favorável até que um dia aparece seu irmão mais velho, Slim, um saxofonista pobre e virtuoso, que veio de Nova Iorque exclusivamente para levá-lo embora. E é aqui que a aventura começa: Pic cai na estrada com o irmão e o que leremos daí em diante é puro deleite.

Um dos mais respeitados biógrafos de Kerouac, Gerald Nicosia (autor de Memory Baby: a critical biography of Jack Kerouac) afirma que quase todos os incidentes que se lê em Pic fazem referência a algum acontecimento da vida de Jack, inclusive a perspectiva de ver-se a si mesmo como um membro de outra raça (Jack era de origem franco-canadense), pelo que Pic pode ser enxergado como uma persona do autor.


A beleza dessa pequena novela, que mais se assemelha a um grande conto, está na visão de encanto que Jack procurava transmitir em suas obras. São os detalhes, o apreço às coisas simples da vida, a aventura do partir rumo ao desconhecido, a ânsia de novas descobertas que a vida na estrada oferece, a natureza, a solidão, o valor da amizade e da ternura... elementos que sempre estarão presentes na obra kerouaquiana.

Por admirar o trabalho de Kerouac sou suspeito para resenhar qualquer uma de suas obras, mas confesso que não esperava muito desse texto, porque num primeiro momento senti desconforto com a linguagem coloquial, até mesmo caricata dos diálogos entre Pic e seu irmão, mas o fato é que a história é tão bem contada, tão vibrante, que no segundo capítulo você até esquece esse lance da linguagem e torce para que o garotinho se dê bem na vida.

Pelo que li em algum lugar, o final dessa novela não foi concluído, e embora fique mesmo essa impressão, não desaponta: fechei o livro com um sorriso bem grandão no rosto. Acho que Jack fez um bom trabalho.
Excerto capítulo 11: Fazendo as mala pra Califórnia

(...) “Primero a gente tem que atravessá cinco mil e duzentos quilômetro”, o Slim suspirô, e eu lembrei dessas palavra mais tarde. “Cinco mil e duzentos quilômetro”, ele disse, “por uma planície, um deserto e três cordilhera de montanha, no meio de toda chuva que resolvê caí do céu. Que Deus nos ajude!”.  

Bom, agente foi pra cama e dormiu nossa última noite naquela casa, e pela manhã vendemo as cama. “Agora tamo entregue à nossa própria sorte”, o Slim disse, e ele tinha razão. De tarde a gente dexô a casa vazia a não ser por uma garrafa de leite, e tamém pelas meia que eu tinha levado comigo dês da Carolina do Norte.

A Sheila tava com a mala dela, e eu e o Slim tinha cada um uma mala com todas nossas coisa. A gente foi pra rodoviária e comprô o bilhete da Sheila e esperô a hora do ônibus dela.




Quando o ônibus tava prestes a saí nós três nos sentimo triste e apavorado. “Lá vô eu noite adentro”, a Sheila disse quando viu o ônibus que dizia CHICAGO nele. “Vô e provavelmente não volto nunca mais. É como morrê pra ir pra Califórnia – mas lá vô eu. Vô, eu ainda não me esqueci desse momento.

“Cê vai revivê quando chegá”, o Slim disse com uma risada, e a Sheila disse que era o que ela torcia que acontecesse. “Não dexa nenhum cara mexê contigo nesse ônibus”, o Slim disse, “porque cê vai tá sozinha até que eu e o Pic apareça por lá, e eu não sei quando vai sê.”

“E eu vô tá esperando você, Slim”, e a Sheila começo a chorá. Bom, o Slim não chorô mas ele pareceu que ia chorá quando abraçô ela. Pobrezinha- eu senti pena dela naquela noite, porque eu amava ela muito, que nem o Slim tinha dito que eu ia amá naquela primera noite no bosque. Uma jove mãe que não sabia o que ia acontecê com ela no outro lado do país com todas aquelas noite sozinha pela frente enquanto eu e o Slim não chegasse. É como diz na Bíblia, Fugitivo e vagabundo serás na terra, a única diferença era que ela era uma garota. Eu passei a mão no rosto dela e disse prela nos esperá na Califórnia.

“Tomem cuidado com as carona”, ela disse. “Eu inda acho que o Pic é piqueno demais pruma viagem tão longa e não me sinto muito bem em relação a isso.”


Mas o Slim disse que ia cuidá bem de mim, cuidá do melhor jeito possível, e se ele não pudesse fazê aquilo então ninguém mais podia. Era assim que o Slim se sentia, ele tinha confiança e cuidava da gente. Aí ele e a Sheila se bejaro, e depois ela tamém me deu um bejo macio e doce e entrô no ônibus.

“Tchau, Sheila”, eu disse, e comecei a abaná, e me senti inda mais sozinho e assustado do que na hora que ela chorô, e tchau, tchau todo mundo tava dando tchau pra todo mundo ao redor do ônibus, e vô essa é a tristeza de viajá tão longe, de tentá vivê e fazê as coisa até o dia que você morre.

Leia: Pic: uma novela. Jack Kerouac. L&PM Editores, 2015.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Kerouaquianas: deixando o Desolation Peak

.

Depois de 63 dias, Jack deixa o posto de vigia de incêndios no Desolation Peak, aliviado (um pouco mais iluminado?) por estar de volta ao mundo.




É engraçado como agora que chegou a hora (na atemporalidade) de deixar aquela odiada armadilha de rocha eu não tenho emoções, em vez de fazer uma oração humilde para o meu santuário enquanto ela desaparece serpenteando atrás das minhas costas arquejantes só o que eu digo é “Pfui – que bobagem” (sabendo que a montanha vai entender, o vazio) mas onde está a alegria? – a alegria que eu profetizei, de rochas novas nevadas reluzentes, e novas árvores sagradas estranhas e adoráveis flores ocultas ao lado da trilha feliz que faz a descida?




Em vez de tudo isso eu penso e mastigo cheio de ansiedade, e o fim do Starvation Ridge, logo que eu perco a casa de vista, as minhas coxas já estão bem cansadas e eu me sento para descansar e fumar – Bom, e eu olho, e lá está o Lago ainda tão distante quanto antes e a vista é quase a mesma, mas ah, o meu coração se contorce ao ver uma coisa – Deus fez com que uma nevoazinha fina cerúlea penetrasse como uma poeira inefável o espetáculo de uma nuvem matinal rósea do norte refletida no corpo azul do lago, e ela parece rosada, mas tão efêmera que quase nem vale a pena falar a respeito e assim tão evanescente a ponto de cutucar a mente do meu coração e me fazer pensar “Mas Deus fez esse pequenino mistério para eu ver” (e ninguém mais está lá para ver) –




A verdade de que é um mistério de partir o coração me fez perceber que é um jogo divino (para mim) e eu vejo o filme da realidade como um desaparecimento da visão numa poça de compreensão líquida e quase tenho vontade de chorar ao perceber “Eu amo Deus” – o caso amoroso que eu tive com Ele na Montanha – Me apaixonei por Deus – Não importa o que aconteça comigo durante a descida da trilha que vai me levar de volta ao mundo tudo vai estar bem porque eu sou Deus e eu estou fazendo tudo sozinho, quem mais?

Enquanto medito,
Eu sou Buda,
- Quem mais?


Anjos da Desolação. Jack Kerouac. L&PM, inverno de 2010.




Na vitrola: George Winston, arrasando no comecinho de carreira, Ballads and Blues, 1972.



sábado, 2 de outubro de 2010

Cartas do yage, by William Burroughs & Allen Ginsberg

.

Estou todo contente, só porque acabei de ler uma recente publicação sobre a literatura beat. Trata-se de uma pequena e deliciosa coletânea de entrevistas com os mais conhecidos nomes da cena beat, editada pela Azougue Editorial na coleção Encontros (a arte da entrevista). O título, óbvio e básico: Geração Beat, organização de Sergio Cohn. O conteúdo da pequena coletânea de entrevistas não deixa nenhum fã da literatura beat desapontado, bastando dar uma olhada nos entrevistados para saber que o lance é bom: Allen Ginsberg, Gary Snyder, Jack Kerouac, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Neal Cassady, Will Burroughs, Michael McClure e até Bukowski, que nem era beat mas que sempre aparece no meio dos malucos todos da época.

Cada uma das entrevistas é uma pequena jóia, um documento valioso para quem curte os beats e quer saber um pouco mais de seus escritores favoritos. Para mim, que sou suspeito, Kerouac sempre brilha mais, e a entrevista intitulada “Santo Jack” (1959) é uma curtição só, você se sente ali ao lado dele e do entrevistado, e de sua mãe Gabrielle, que vira e mexe aparece para dar uns pitacos, enquanto Jack entorna uma lata de cerveja atrás da outra (mas sem nunca perder a pose e a lucidez). Vou dizer uma coisa: nas mãos de um autor competente, só essa entrevista renderia uma boa montagem teatral.
Gary Snyder é outro que me surpreendeu; sua entrevista, publicada originalmente em 1977 na revista East West tem o sugestivo título de “Meditar e varrer o jardim”. Para quem não conhece a turma, Snyder (que completou 80 esse ano) é o beat zen da galera, um poeta prestigiado que passou anos no Japão, com formação em antropologia e cultura oriental. Meditou pacas, influenciou Kerouac de montão em sua fase budista e nunca deixou a peteca cair. Embora nem se considere um beat – e de certa forma estava mesmo distante daquela parada toda – foi sempre tratado como tal. Eu diria que a seu modo Snyder foi uma alternativa zen em meio a tantas doideiras praticadas pelos outros, sobretudo no que diz respeito ao uso de drogas, hábito comum a todos, mas incompatível com a proposta espiritual dele. Por essas e outras, Snyder é um homem que brilhou - que ainda brilha, por ter vivido de acordo com suas crenças de forma honesta, sem nenhum tipo de hipocrisia. A entrevista dele faz com que você perceba isso com muita facilidade.
Outro poeta e nome chave da cena beat, Allen Ginsberg, é mais um que merece destaque na coletânea. Assim como Snyder, Ginsberg também foi um homem que viveu de maneira honesta aquilo que acreditava, mas seu barato era outro, e só quem já leu seus escritos e poemas sabe a dimensão porralouquice de sua obra. No bom sentido, sempre. Allen Ginsberg foi genial, de uma cultura e inteligência acima da média e não se pode negar o papel de destaque que as drogas sempre tiveram em sua vida. E também na de William Burroughs, seu grande amigo e outro nome fundamental na história do movimento beat.
E é desses dois camaradas de quem vou agora tratar, só que deixando de lado o Geração Beat (leia, leia, leia!) e tomando nas mãos o pequenino livro intitulado Cartas do yage, que tem a ver com viagem, afinal, e cujo resumo copio descaradamente da capa posterior:

“Em 1953, logo após a controversa morte acidental de sua mulher, William Burroughs (1914-1997) se lançou em uma viagem à América do Sul. Mais especificamente ao Peru e à Colômbia, na busca pelo yage, ou ayahuasca, droga usada pelos índios da nascente do rio Amazonas à qual se atribuem poderes sensoriais e anestésicos. (...) um pouco diário de viagem, um pouco relato ficcionalizado, contém as cartas escritas ao amigo, amante e poeta Allen Ginsberg (1926-1997) sobre a experiência. Traz também as cartas que este enviou a Burroughs sete anos mais tarde, ao fazer uma jornada similar.”

Simples assim. A obra (lançada originalmente pela mítica City Lights, em 1963) como consta no resumo acima, trata da troca de correspondência entre Allen e Will Burroughs contando suas experiências com o yage no Peru e na Colômbia amazônica. Primeiro foi um, WB em 1953; sete anos depois, é Allen quem vai e daí você que nem leu já pode imaginar o que os dois devem ter aprontado no meio do mato pra poder garantir um barato alucinógeno. Diz o Will (em sua obra Junkie):
"Andei lendo sobre uma droga chamada yage, usada pelos índios da nascente do Amazonas. Dizem que ela aumenta a sensibilidade telepática. Portanto, resolvi me mandar pra Colômbia em busca do puro barato que expande a mente, ao contrário da heroína, que a estreita. Talvez eu descubra no yage o que andava procurando na heroína, na maconha, na coca. Yage talvez me dê o barato definitivo.”

O yage, do título, é a conhecida ayahuasca, o cipó de onde se produz a mesma bebida que ingerem os membros do Santo Daime, de quem já falamos aqui no Odepórica outras vezes. A diferença entre a experiência destes (Will e Allen) com a dos praticantes dos grupos religiosos é a conduta espiritualmente pouco ortodoxa dos dois escritores; ainda que possa parecer haver algo de espiritual na busca de ambos, por conta do desejo em experimentar uma expansão da mente, fica a noção de que o que buscavam de fato era a pura fruição alucinógena (em particular no caso de Burroughs), sem qualquer preocupação com a sacralidade. A bem da verdade, Burroughs sempre foi um junkie inveterado, tendo feito de seu próprio corpo um templo para todos os tipos de experiências com drogas (ainda assim, apesar de todos os excessos nessa área, o homem teve a proeza de viver 83 anos, um verdadeiro antecessor de Ozzy Ousborne). Allen Ginsberg, diferente de Will, sempre viveu uma profunda - e aparentemente legítima- busca espiritual, o que se nota com clareza ao se comparar os relatos de ambos ao descreverem suas experiências com o yage numa comunidade peruana.
Enfim, não resta muito a ser dito. O livro é curto, as cartas idem. Escolho apenas duas amostras, a título de curiosidade. A primeira missiva escrita por William Burroughs, a outra pelo Ginsberg. Apenas um recorte, bastante superficial, de duas viagens empreendidas por homens que nunca tiveram medo de viver seus sonhos e loucuras - loucuras estas muitas vezes praticadas até o limite no qual a maioria das pessoas jamais ousaria se aproximar.



Lima, 10 de julho de 1953

Querido Allen:

Ontem à noite, tomei o resto da mistura de yage que trouxe de Puccalpa. Não adianta levá-la para os Estados Unidos. Não se conserva por mais do que alguns dias. Esta manhã, ainda viajando. Foi isso que aconteceu comigo. Yage é uma viagem espaço-tempo. O quarto parece sacudir e vibrar com movimento. O sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da montanha, nômades do deserto, poligotes do Oriente Próximo, índios, novas raças ainda não determinadas e por nascer e combinações ainda não descobertas passam através do meu corpo. Migrações, incríveis viagens através de desertos, florestas e montanhas (marasmo e morte em estreitos vales montanhosos onde plantas brotam da pedra e enormes crustáceos eclodem e quebram a concha do corpo), através do Pacífico num catamarã para a Ilha da Páscoa. A Cidade Composta onde todos os potenciais humanos estão espalhados num vasto e silencioso mercado.

Minaretes, palmeiras, montanhas, florestas. Um lento rio onde pulam peixes defeituosos, enormes parques tomados pelo mato onde os meninos deitam na grama ou jogam. Nenhuma porta trancada na cidade. Qualquer um entra no seu quarto a qualquer hora. O chefe de polícia é chinês, palita os dentes e escuta as denúncias de um louco. Hipsters com os rostos macilentos e flácidos recostam-se nas portas, revirando cabeças encolhidas nas correntes de ouro, rostos inexpressivos com uma calma insetívora jamais vista.

Atrás deles, através da porta aberta, mesas e reservados, bares e quartos, cozinhas e banheiros, casais copulando em fila nas camas de latão, ziguezague de milhares de redes, junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor.

Mesas de jogo onde são feitos jogos com apostas incríveis. De vez em quando, um jogador pula dando um grito inumano e desesperado por ter perdido a juventude para um velho ou por tornar-se latah para seu adversário. Mas há apostas mais altas que a juventude ou o latah. Jogos em que apenas dois jogadores no mundo sabem qual é a aposta.

Todas as casas da cidade são geminadas. Casas de barro com mongóis da montanha piscando nas portas enfumaçadas, casas de bambu e de teça, casas de adobe, pedra e tijolo aparente, casas do Pacífico Sul e de Maori, casas em árvores e casas em barcos, casas de trezentos metros de comprimento que abrigam tribos inteiras, casas de caixas velhas e ferro enferrujado onde os velhos vestidos de farrapos podres sentam falando sozinhos e cozinhando calor enlatado, grandes e enferrujadas bastes erguendo-se trinta metros no ar, saindo dos pântanos e do lixo com perigosas repartições construídas sobre plataformas de vários níveis e redes balançando no vazio.

Expedições partem para lugares desconhecidos, com propósitos desconhecidos. Estranhos chegam em balsas de caixotes velhos amarrados com corda podre. Cambaleiam para fora da floresta, os olhos inchados das picadas de insetos. Descem pela trilha da montanha com os pés quebrados e sangrando através dos poeirentos e ventosos arredores da cidade, onde as pessoas cagam em fila ao longo das paredes de adobe e urubus brigam por cabeças de peixe; caem nos parques com pára-quedas remendados. São escoltados por um policial bêbado para se registrarem num enorme banheiro público. Os dados tomados são pendurados por um prendedor e usados como papel higiênico.

Os cheiros da cozinha de todos os países pairam sobre a cidade, uma névoa de ópio, haxixe, a fumaça sinuosa e vermelha do cheiro de comida da floresta, sal, o rio podre, excremento seco, suor e genitais. Floresta de altas montanhas, jazz, bebop, instrumentos mongóis de uma corda, xilofones ciganos e gaitas árabes.

A cidade é visitada por epidemias de violência, e os mortos abandonados são comidos por urubus nas ruas. Não são permitidos funerais nem cemitérios.

Albinos piscam ao sol, garotos sentam-se nas árvores masturbando-se languidamente, pessoas atacadas por doenças desconhecidas cospem nos passantes, mordem-nos, jogam pus, cascas e vários tipos de vetores (insetos suspeitos de transmitir doenças), esperando infectar alguém.

Quando você fica completamente bêbado, acorda com um desses cidadãos doentes na sua cama, que passou a noite exaurindo sua ingenuidade tentando se infectar. Mas ninguém sabe como as doenças são transmitidas ou se são realmente contagiosas. Esses mendigos doentes vivem num labirinto de tocas sob a cidade e surgem de lugar nenhum, quase sempre se arrastando pelo chão de um bar lotado.

Seguidores de ocupações inimagináveis e obsoletas rabiscam em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes de harmina ensopada, junk reduzida ao simples vício de oferecer uma serenidade vegetal precária, líquidos para induzir o latah, antibióticos cortados, soro da longevidade titoniano, negociantes do mercado negro da Terceira Guerra Mundial, vendedores de remédios para a doença da radiação nuclear, investidores de infrações denunciadas por calmos e panorâmicos jogadores de xadrez, executores de ordens fragmentárias determinando inomináveis mutilações de espírito anotadas – em taquigrafia hebefrênica, burocratas de espectrais repartições, oficiais de estados policiais não-constituídos, uma anã lésbica que foi recém-operada, a ereção pulmonar que estrangula um inimigo adormecido; vendedores de cilindros de orgônio (*energia vital perceptível sobretudo durante o orgasmo sexual) e máquinas de relaxamento, corretores de sonhos fantásticos e memórias testadas em células sensibilizadas pela fissura e permutados pelos materiais crus da vontade; médicos treinados no tratamento de doenças dormentes na poeira negra das cidades em ruínas, acumulando virulência no sangue branco dos vermes sem olhos, sentindo vagarosamente a superfície e os hospedeiros humanos, enfermidades do fundo do oceano e da estratosfera, enfermidades de laboratório e da guerra atômica, eliminadores da sensibilidade telepática, osteopatas do espírito.

Um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som. Entidades larvais aguardando algo vivo.
William Lee

Trechos de uma carta escrita por Allen Ginsberg a William Burroughs, contando sua experiência com o yage. (Desenhos de Allen)

Pucallpa, 10 de junho de 1960

(...) A primeira vez foi muito mais forte que a bebida que tomei em Lima; Ayahuasca pode ser engarrafada e transportada e mantém-se forte, se não fermentar – a garrafa precisa estar bem fechada. Tomei uma xícara: a mistura estava um pouco velha, tinha sido feita há muitos dias e um pouco fermentada também; deite-me e depois de uma hora (numa choça de bambu, fora de sua cabana, onde ele cozinha) comecei a ver ou sentir o que pensei ser o Grande Ser, ou alguma de suas manifestações, aproximando-se de minha mente como uma grande e úmida vagina, onde fiquei por um tempo, a única imagem que posso recriar é de um grande buraco negro do Deus-Nariz, através do qual vi um mistério – e o buraco negro cercado por toda a criação, especialmente cobras coloridas – tudo real.
Me senti um pouco como o que esta imagem representa, a sensação é tão real.

O olho é uma imagem imaginária, que dá vida ao quadro. Também há uma sensação corporal de grande satisfação, nenhuma náusea. Durou, em fases distintas, umas duas horas – os efeitos desapareceram em três horas – a fantasia durou três quartos de hora depois de beber até mais ou menos duas horas depois.

(...) fui a uma sessão de grupo formal ontem à noite – dessa vez a mistura estava fresca e apresentada com todo o cerimonial, ele cantarolava (e assoprava fumaça de cigarro ou cachimbo) docemente sobre a xícara alguns minutos antes (xícara esmaltada, lembrei-me da tua xícara de plástico), então acendi um cigarro, dei uma baforada sobre a xícara e bebi.

Vi uma estrela cadente – aerólito -, antes de entrar, e a lua cheia, e me serviu primeiro. Então deitei-me esperando sabe Deus que outra visão agradável, então começou a bater e então toda essa porra de cosmos desprendeu-se à minha volta, acho que foi a coisa mais forte e pior que já me aconteceu ... No início, comecei a me dar conta que a minha preocupação com os mosquitos e o vômito era idiota, já que era uma questão de vida ou Morte – Senti-me encarado pela Morte, minha caveira na minha barba num catre num pórtico, rolando para frente e para trás e finalmente parando, como que reproduzindo o último movimento que faço antes de estabelecer a morte real – senti náusea, corri para fora e comecei a vomitar, todo coberto de cobras, como um Serafim-Cobra, serpentes coloridas numa auréola ao redor do meu corpo, senti-me como uma cobra vomitando o universo, ou um jívaro de cocar com dentes de cobra vomitando ao empreender o Assassinato do Universo – minha morte por vir – a morte de todos por vir – ninguém está preparado – eu não estou preparado – ao meu redor, nas árvores, o barulho desses animais espectrais, os outros bebedores vomitando (parte normal das sessões de Cura) na noite de sua horrível solidão no universo – vomitando sua vontade de viver, de ser preservado neste corpo, quase – Voltei e me deitei – Ramon veio suavemente como uma enfermeira (ele não tinha bebido, é uma espécie de ajudante para auxiliar os sofredores) e perguntou-me se estava bem e “bien mareado” (bem bêbado) – eu disse “bastante” e voltei para ouvir o espectro que se aproximava da minha mente.
(...) lembro-me que você disse para tomar cuidado com a visão de quem se tem – mas Deus sabe eu não sei a quem me voltar quando finalmente a Sorte tiver baixado espiritualmente e eu tiver que depender da minha própria memória de Ser-Serpente das Alegres Visões de Blake – ou depender de nada e entrar de vez – mas entrar no quê? – Morte? – e naquele momento – vomitando, sentindo-me ainda como um Grande e perdido Anjo-serpente vomitando na consciência da Transfiguração por vir – com o senso radiotelepático de um Ser cuja presença ainda não senti completamente – tão terrível para mim, ainda aceitar o fato da comunicação total com, digamos, qualquer serafim eterno, macho e fêmea ao mesmo tempo – e eu, uma pobre alma perdida buscando ajuda – bem, vagarosamente a intensidade começou a diminuir, fiquei incapaz de me mover em qualquer direção, espiritualmente – sem saber quem procurar – sem confiança para perguntar ao Maestro – apesar de que, na visão da cena, dentre todos era ele o guia espiritual local lógico a quem recorrer – levantei e sentei a seu lado (como Ramon sugeriu suavemente) para ser “assoprado” – isto é, ele cantarola para curar a tua alma e assopra fumaça – uma presença bastante confortadora, apesar de que agora o medo mais profundo tenha passado – ao passar de todo, levantei-me, peguei um mosquiteiro que tinha trazido e fui para casa ao luar, com o gordo Ramon – que disse que quanto mais se satura de ayahuasca, mais fundo se vai – visitar a lua, ver os mortos, ver Deus – ver os espíritos das árvores etc.
Allen Ginsberg

Leia:
Geração Beat. Azougue Editorial, 2010.

Cartas do Yage. William Burroughs & Allen Ginsberg. L&PM, 2a edição, 2008.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Satori em Paris, by Jack Kerouac

.
A editora L&PM presenteia mais uma vez os admiradores de Jack Kerouac com o recente lançamento de Satori em Paris, obra publicada originalmente em 1966 e inédita por aqui. Graças ao empenho da L&PM, aos poucos vemos crescer nossa coleção de obras da literatura beat, sobretudo os títulos do mestre Kerouac.

Tentarei ser imparcial aqui, e sinto que para isso terei que comentar Satori em Paris valendo-me de duas abordagens. Primeira delas: ler a obra sob a ótica de alguém que nunca leu Kerouac. Segunda: ler Satori sob a ótica de quem conhece a vida e a obra do autor.

Kerouac partiu para o andar de cima em 1969, aos 47 anos. Satori em Paris é um de seus últimos livros, já muito distante da euforia e vibração de On the road, seu trabalho mais conhecido. Encharcado de álcool, em Satori Jack pouco ou quase nada lembra o aventureiro jovem e inconseqüente que vagabundeava pelos Estados Unidos nas décadas anteriores, quando a estrada era o seu yoga, a sua união com a transcendência.

Pintura: Jack Kerouac, The Gary Buddha

Pode-se dizer que, até certo ponto, Satori em Paris não deixa de colher semelhanças com outras deambulações do escritor; até arrisco afirmar que nunca antes dessa viagem Kerouac havia definido tão objetivamente o motivo de sua partida. A história é simples: em 1965, contando com quarenta e três anos, Jack viaja à França com o intuito de colher informações sobre seus ancestrais, um homem na meia-idade em busca de suas origens, de seu próprio nome, Kerouac:

“Fui à França e à Bretanha apenas para olhar esse meu velho nome que tem cerca de trezentos anos e jamais mudou em todo esse tempo, pois quem mudaria um nome que significa simplesmente Casa (Ker), No Campo (Ouac) – ”

Dez dias é o tempo que dura a sua jornada; apenas dez dias, e pouca coisa realmente acontece nesse curto período de tempo. Por isso escrevi aquilo sobre a ótica de leitura de Satori pois, para um leitor ainda virgem na leitura de Kerouac (ou mesmo aquele que leu apenas On the road), não consigo imaginar sequer um único motivo para indicar essa leitura. Consigo inclusive enumerar alguns motivos para não indicá-la, fosse esse o caso.

O principal motivo para deixar essa obra de lado já aparece no título: Satori. Não se iluda: se houve algum satori nessa experiência de Kerouac em Paris, ele ficou de fora da história. Palavrinha bonita esta, Satori. No Zen, significa “percepção interior do ser em uma ordem mais elevada”. O satori implica numa expansão da consciência, um estado de iluminação espiritual, a mesma noção de samadhi, para o hinduísmo.

Desenho: Jack Kerouac, Face of the Buddha, 1956

Bom, nada disso acontece nesse relato de viagem. Pelo menos, não dessa forma. Por conta disso, se você não acompanha a trajetória kerouakiana vai achar esse relato uma perda de tempo, por isso deixe Satori em Paris de lado e tente Vagabundos iluminados, Viajante solitário ou Big Sur, três ótimas escolhas pós leitura On the road.

Muito bem. Agora vamos pensar em Satori em Paris de uma maneira diferente, supondo que você já conheça um pouco de literatura beat em geral e de Kerouac em particular. De primeira, um fato: duvido que esta obra esteja entre as mais queridas dos leitores de Kerouac, mas mesmo assim há alguns pontos em Satori que devem interessar a quem busca entender um pouco mais a personalidade desse grande escritor.

A viagem é um ponto relevante: Kerouac busca a estrada para encontrar respostas. Ainda que não tenha efetivamente seguido o curso completo do itinerário a que se havia proposto cumprir – por conta das bebedeiras constantes - parece que no final sentiu ter atingido seu objetivo. Até escreveu uma passagem bonita, que transcrevo abaixo:

“Eu já estava com saudade de casa. Contudo este livro é para provar que não importa como você viaje, quão ‘bem-sucedida’ seja sua jornada, ou abreviada, você sempre aprende alguma coisa e aprende a mudar seus pensamentos.”

A questão do satori. É preciso entendê-la dentro do contexto dessa narrativa. Kerouac aproximou-se do budismo em 1954, após uma fase de grande esgotamento intelectual e provavelmente psíquico também; sentindo-se sozinho e desamparado, encantou-se com uma máxima do budismo que afirma que “toda a vida é sofrimento”. Foi um gatilho que disparou na hora certa: o budismo, uma filosofia que, finalmente, era capaz de traduzir suas mais profundas questões interiores.

Jack começou a ler os grandes textos do budismo e também do hinduísmo e toda aquela sabedoria oriental lhe fazia muito sentido e, podemos supor, dava-lhe certo conforto espiritual. Traduziu do francês os sutras do budismo e chegou a escrever uma biografia do Buddha. Levou tudo aquilo muito a sério, ainda que jamais tenha deixado a birita de lado. O budismo, como não poderia deixar de ser, ainda mais em se tratando de um autor tão intenso quanto Kerouac, acabou entrando no corpo de sua obra, pelo que podemos afirmar que na bibliografia kerouakiana existe uma “fase (zen) budista”, tal como a fase azul ou rosa de um Picaso ou a fase católica de um Bob Dylan.

Entretanto, e isso é muito relevante, Jack jamais abandonou sua fé católica, por mais simpático que tenha sido à doutrina budista. Acredito que nesse ponto Jack não se diferencie em nada dos adeptos da Nova Era, onde a mistura de várias idéias, condutas e práticas espirituais não entram em conflito com a religião do praticante. Em outras palavras: pode-se ser católico, frequentar a missa aos domingos, mas isso não impede a pessoa de participar de outras práticas religiosas, como a umbanda o candomblé ou o kardecismo, fato tão corriqueiro aqui no Brasil. Acredito que Kerouac não via o budismo como uma outra religião (coisa que, teoricamente, não é mesmo), mas sim como uma sabedoria que vinha preencher um espaço que sua religião não era capaz de preencher.

E é isso o que justifica aquilo que eu estou tentando escrever aqui tomando certo cuidado com as palavras. Pois, a partir do momento em que você interpreta o conhecimento de uma tradição espiritual fora do contexto em que ele foi escrito, por exemplo, buscando idéias aleatórias fazendo-as se encaixar um sua própria linha de pensamento ou discurso (“toda a vida é sofrimento”), corre no mínimo dois grandes riscos: o primeiro, a deturpação do conhecimento, e o segundo, talvez menos perigoso, pecar pela superficialidade.

E Kerouac foi superficial em Satori em Paris? Absolutamente. Mas um leitor desavisado vai achar que sim. Só que, no contexto da obra e da vida de Jack (uma frase absurda já que em Kerouac a vida e a obra estão completamente conectadas), o uso dos termos budistas soam totalmente plausíveis, fazendo sentido onde aparentemente não há sentido algum.

E essa complexidade kerouakiana faz parte do jogo, meu amigo, por isso é que considero a leitura dos livros de Kerouac um desafio muito mais do que uma diversão. Daí que, para arrematar, dou a dica: o satori de Jack aconteceu sim, no contato dele com o outro (no caso, os outros). Uma questão, portanto, de alteridade, a mensagem que o filósofo Martin Buber nos deixou, a de que o ser humano só se realiza na relação com o outro. Pegou?

Por isso, se você gosta de Kerouac, experimente ler Satori em Paris como quem busca conhecer um pouco melhor a alma de um homem que apesar de haver sucumbido ao vício, conseguiu ser lúcido o suficiente para escrever sobre as condições mais profundas da alma humana. Finalizo com as palavras do escritor:

“Meus modos, por vezes abomináveis, podem ser meigos. Virei um bêbado enquanto envelhecia. Por quê? Porque gosto do êxtase da mente. Sou um Desgraçado. Mas amo o amor.”


Leia: Satori em Paris. Jack Kerouac. Tradução de Lúcia Brito. Coleção L&PM POCKET. Verão de 2010.
As fotos desse post foram tiradas de um blog bacaníssimo: http://rarerarefind.blogspot.com/






sábado, 31 de outubro de 2009

40 anos sem Jack, o vagabundo iluminado.

.

Quando criei o Odepórica, desde o primeiro momento pensei em manter uma coluna onde iria resenhar apenas as obras da literatura beat, gênero que me fascina desde a primeira vez que li On the road, de Jack Kerouac, há muitos e muitos anos. Voltei a ler Kerouac há pouco mais de um ano, no embalo das obras que pouco a pouco estão sendo editadas pela L&PM editora em sua providencial coleção pocket com autores da geração beat. Creio que ao invés de criar uma coluna contemplando a literatura da geração beat eu vá partir para um blog específico sobre o tema, mas isso não vem ao caso agora.

Há exatos 40 anos (21 de outubro de 1969) Jack Kerouac tomava o rumo da estrada sem volta, deixando atrás de si uma obra que continua fascinando várias gerações de jovens (ou não tão jovens) que se encantam pelas narrativas desse autor que criou uma nova maneira de se expressar literariamente (a prosa espontânea), agradando muitos, desagradando outros tantos, e que, apesar dos altos e baixos de sua carreira e de sua vida particular, tornou-se um ícone da cultura norte-americana. O álcool e outros excessos o levaram embora precocemente aos 47 anos, mas os grandes escritores nunca partem totalmente, não é mesmo?

As viagens tiveram na literatura de Kerouac um papel fundamental, muito mais do que em qualquer outro autor; sua produção literária nos mostra quase sempre a visão de um homo viator pelas estradas americanas, resgatando uma simplicidade em muitos casos aparentemente perdida já naqueles longínquos anos 40 e 50 do século passado. A estrada, aqui, também uma metáfora, como sempre, da vida daquele que narra suas experiências, aventuras e decadências. Kerouac sempre quis, movido por uma intensa paixão, trazer à tona aquela “América” de sonho, o que, de certo modo, o afastou de outras maneiras de enxergar as mudanças que se avizinhavam; por outro lado, talvez seja essa visão quase romântica, quase ingênua e quase utópica de Kerouac que de fato traga encanto aos seus romances de uma maneira muito especial e singular. Um encanto que aparece escancarado em sua obra The Dharma Bums, em português, Os vagabundos iluminados.

Ainda não li a obra completa do Kerouac, mas duvido que qualquer publicação dele consiga me agradar mais do que Os vagabundos iluminados, publicado pela primeira vez em 1958, um ano após a edição de sua obra mais conhecida e admirada, o clássico On the road, (Pé na estrada).

Nem vou perder tempo comparando uma obra à outra: amo as duas, incondicionalmente, mas há algo em Os vagabundos iluminados que toca mais fundo do que qualquer aventura pela rota 66: a profunda espiritualidade de Kerouac, aliás, de Ray Smith, o alter-ego do escritor nessa jornada. E é impressionante como Kerouac conseguiu construir uma narrativa tão fascinante com uma história tão simples – simplicidade esta bastante propícia, já que o pano de fundo da obra é a conduta zen-budista das personagens, com as quais o autor de fato conviveu, e que aparecem no livro com nomes fictícios mas facilmente identificáveis entre seus leitores.

A história, como já disse, é simples: Ray Smith, um jovem escritor na faixa dos trinta e poucos anos e simpatizante do zen-budismo leva a vida, pelo que parece, batendo perna por aí, apaixonado pela liberdade de ir e vir e pela sabedoria adquirida com o tempo gasto pelas estradas americanas. Um vagabundo, na definição de Kerouac, mas temos que lembrar que o termo, entre os beats, não é pejorativo, muito pelo contrário: é preciso muito jogo de cintura para manter-se nesse nível - se é que podemos nos expressar assim – de vida itinerante. O termo em inglês, e que dá o título à obra, The Dharma Bums, tem de fato a conotação encontrada na língua portuguesa, onde “bum” significa vagabundo, parasita que vive às custas dos outros, mas não é isso o que esses vagabundos do Dharma (que deveria ser a tradução para o título em português, muito mais conveniente por sinal) fazem, embora talvez seja esta a forma como sejam vistos pela sociedade. Se formos parar para pensar, Kerouac antecipou aquilo que o movimento hippie iria fazer a partir da segunda metade da década seguinte, mas logo retorno à essa questão.

Voltando ao livro, certo dia de um final de setembro de 55, Ray chega a São Francisco e conhece um cara alguns anos mais jovem do que ele, Japhy Rider, formado em antropologia e dedicado aos estudos orientais, especialmente poesia chinesa e japonesa. Praticante do zen-budismo, e apaixonado por montanhismo, logo estabelece um forte vínculo de amizade com Ray, que passará muitas e muitas páginas dessa história ao lado do amigo, que de certa maneira assume uma postura de mestre em relação a Ray, mas de forma muito livre e descompromissada, quase não se percebendo esse tipo de relação entre os dois, mesmo porque Japhy também aprende muito com Ray .

Como em qualquer leitura que fazemos de um texto, podemos ler este sob diversos ângulos: o relato de uma aventura, o relato de uma época em transformação, o relato de uma amizade, o relato de uma busca espiritual. Um pouquinho de tudo isso está presente neste texto de Kerouac, que em certos momentos nos enche de uma doce alegria de viver, alternados com outros de uma tristeza sutil, melancólica e que tem tudo a ver com a realidade dos fatos, já que não se conhece jornada nesta vida que esteja isenta de alegrias e de sofrimentos.

Então não percamos tempo e vamos ao que é bom de verdade, lendo algumas brilhantes passagens de um Kerouac iluminado como nunca. E a obra começa assim, para lhe explicar um pouquinho esse lance de vagabundo do Dharma:

“(...) Pulei do vagão e atravessei a rodovia 101 correndo até a loja e comprei, além do vinho, um pouco de pão e algumas balas. Voltei correndo para o trem de carga que ainda ia demorar mais quinze minutos para sair daquele cenário, agora ensolarado e quente. Mas já estava bem no fim da tarde e com certeza logo esfriaria. O sujeitinho estava sentado de pernas cruzadas na ponta dele, de frente para uma refeição deplorável que consistia em uma lata de sardinhas. Fiquei com pena, fui até lá e disse: ‘Que tal um pouco de vinho para se aquecer? Você não quer um pouco de pão e queijo para comer com as sardinhas?’

‘Pode crer.’ A voz saía de algum lugar distante dentro dele, uma vozinha contida e meiga que tinha medo ou não estava com vontade de se afirmar. Eu tinha comprado um queijo três dias antes, na Cidade do México, antes da longa viagem barata de ônibus para atravessar três mil longos quilômetros por Zacatecas e Durango e Chihuahua até a fronteira em El Paso. Ele comeu o queijo e o pão e tomou o vinho com gosto e gratidão. Fiquei contente. Lembrei-me do verso no Sutra do Diamante que diz: ‘Pratique a caridade sem ter em mente nenhuma concepção a respeito de caridade, porque caridade, apesar de tudo, não passa de uma palavra.’ Eu era muito devoto naquele tempo e praticava minha devoção religiosa quase à perfeição. Mas, com o tempo, acabei ficando um pouco hipócrita em relação à minha pregação, além de me sentir um pouco cansado e cético. Porque agora estou tão velho e tão neutro... Mas naquele tempo eu realmente acreditava na caridade e na gentileza e na humanidade e no zelo e na tranqüilidade neutra e na sabedoria e no êxtase, e acreditava a ser um antigo bhikku com roupas modernas vagando pelo mundo (geralmente percorrendo o imenso arco triangular de Nova York até a Cidade do México e até São Francisco) para fazer girar a roda do Verdadeiro Significado, ou Darma, e conquistar méritos próprios para me transformar em um futuro Buda (Despertado) e em futuro Herói no Paraíso. Ainda não tinha conhecido Japhy Ryder, isso aconteceria na semana seguinte, nem tinha ouvido falar de nada parecido com ‘Vagabundos do Darma’ apesar de naquele tempo eu ser um perfeito Vagabundo do Darma e me considerar um andarilho religioso. O sujeitinho no vagão de carga deu forma a todas as minhas crenças ao se aquecer com o vinho e conversar e no final sacar uma tirinha de papel que continha uma prece de Santa Tereza anunciando que, depois de sua morte, ela retornaria à Terra por meio de uma chuva de rosas vinda do céu, para sempre, para todas as criaturas vivas.”

Você pode perceber então, logo no início dessa história, que o narrador mostra uma forte ligação com a espiritualidade oriental. Termos tais como Dharma (aquilo que sustenta e dá suporte à vida, e que nos ensinamentos do Budismo está relacionado aos ensinamentos de Buddha, e muitas vezes aparece traduzido, para poder simplificar a complexidade do termo, como “Lei”), bhikku (um discípulo mendicante, no budismo), Bodhisattwa (adepto do budismo que, tendo atingido um grau de iluminação, decide continuar encarnado para ajudar outros seres humanos até que estes também se libertem), Bodhidharma (o primeiro Patriarca da escola Ch’an, ou Zen, e que pregava um regime ascético muito rígido) entre outros, vão se repetindo aqui e ali com tanta naturalidade na obra que logo você nem estranha mais, e se bobear vai até se interessar em pesquisar um pouquinho sobre zen-budismo, o que eu acho que é o que você deveria mesmo fazer.

Pois bem, voltando ao livro, iremos ver como Ray descreve o interessantíssimo personagem Japhy Rider, que vem a ser, na vida real, o poeta Gary Snider, ainda vivo, e ainda na ativa, que bom:

“(...) todos os outros poetas esperançosos estavam lá, cada um com sua roupa típica, casacos de veludo cotelê puídos nos cotovelos, sapatos com as olas gastas, livros caindo dos bolsos. Mas Japhy usava roupas grosseiras de proletário compradas de segunda mão em lojas de caridade, que lhe eram úteis em escaladas de montanhas e caminhadas e para ficar sentado ao ar livre à noite, para acampamentos com fogueira e para pegar carona litoral acima e abaixo. Aliás, na pequena mochila ela trazia também um chapéu alpino verde muito engraçado que colocava quando chegava ao sopé de uma montanha, ato geralmente acompanhado de um canto tirolês, antes de começar a subir algumas centenas de metros de altitude.... Japhy não era alto, tinha só cerca de um metro e setenta, mas era forte e delgado e rápido e musculoso. O rosto dele era uma máscara ossuda de tristeza, mas seus olhos brilhavam como os dos velhos sábios risonhos da China, por cima daquele cavanhaquezinho, para amenizar a aparência rude de seu rosto tão bonito. Os dentes dele eram um pouco escuros, devido à negligência de quem mora no mato no começo da vida, mas isso nunca se notava e ele abria bem a boca para rir de piadas. Às vezes ficava quieto só olhando para o chão com tristeza, como se estivesse definhando. Às vezes, ficava animado. Demonstrou enorme interesse solidário por mim e pela história sobre o sujeitinho de Santa Tereza e pelas histórias que lhe contei a respeito das minhas experiências pessoais como clandestino em trens, pegando carona e caminhando no mato. Na mesma hora afirmou que eu era um baita bodisatva, que significa ‘grande ser sábio’ ou ‘grande anjo sábio’, e que eu ornamentava este mundo com minha sinceridade.”

Nessa passagem podemos apreciar o talento descritivo de Kerouac, certamente um dom adquirido não só com a prática da escrita mas também com o hábito de observar detalhadamente os diversos aspectos da natureza humana e do mundo ao redor. Kerouac foi genial nesse aspecto. Prossigamos.

Um ponto que merece atenção nessa relação entre o budismo – mais propriamente o Zen - e a obra de Kerouac é a estreita relação entre a história e a forma como ela foi construída com os princípios da doutrina oriental do Zen. Uma das maiores referências do zen-budismo, Daisetz Teitaro Suzuki (que Kerouac chegou a conhecer pessoalmente), inclusive aparece citado numa passagem de Os vagabundos iluminados, quando Ray descreve o singelo e cheio de paz barraco em que vivia Japhy, numa rua tranqüila, “cerca de três metros e meio por três metros e meio, com recheio de nada além dos apetrechos típicos de Japhy, que demonstravam sua crença na vida monástica simples – nenhuma cadeira, nem mesmo uma cadeira de balanço sentimental, mas apenas esteiras de palha. No canto ficava sua famosa mochila com as panelas e frigideiras limpas que se encaixavam umas nas outras formando uma unidade compacta e guardadas com uma bandana azul amarrada. Então havia os chinelos japoneses altos de madeira, que ele nunca usava, e um par de meias pretas japonesas para usar dentro de casa e caminhar maciamente sobre as belas esteiras de palha, com o espaço certo para os quatro dedos de um lado e o dedão do outro. Tinha uma porção de caixotes de laranja repletos de lindos livros eruditos, alguns deles em línguas orientais, todos os grandes sutras, a obra completa de D.T. Suzuki e uma edição em quatro volumes de haicais japoneses.”

O professor Suzuki (1870-1966), numa obra introdutória sobre o zen-budismo, esclarece que “o moderno monge Zen está abundantemente suprido. Suas necessidades, realmente, reduzem-se a um mínimo, e qualquer um poderá levar uma vida das mais simples, caso imite o monge Zen. O desejo de possuir é considerado pelo budismo uma das piores paixões que podem obcecar os seres humanos. (...) O ideal Zen de pôr todas as posses do monge numa pequena caixa é o seu mudo e inoperante protesto contra a ordem de coisas da sociedade.”

E o que Kerouac criou nessa obra faz total sentido com os preceitos acima expostos por D.T. Suzuki, como se o autor intencionalmente tivesse construído seu relato seguindo uma proposta muito bem definida em que o romance fosse apenas um pano de fundo para algo maior, em outras palavras, uma parábola sobre a essência do Zen. Mas não podemos viajar tanto, é claro, pois o mais provável é que Kerouac, como sempre, simplesmente escreveu sobre aquilo que ele mesmo viveu e sentiu na pele. Japhy, o amigo (e uma possível paixão reprimida, quem sabe) parece ter sido um caso clássico de projeção: era tudo aquilo que Ray (JK) queria ter sido, mas não conseguia ser. E um pouco da recíproca pode também ser verdadeira, por que não? O fato é que Kerouac se interessou profundamente pelo budismo, mas isso não poderia durar muito, devido ao enorme peso que o cristianismo católico teve em sua vida.

Japhy teve grandes sacadas em algumas passagens da obra, duas que merecem ser lidas antes de pormos um ponto final nessa resenha. Uma delas diz respeito à própria relação de Ray com a sua religiosidade. Japhy estava muito seguro de sua busca e de sua “conversão” ao budismo, mas percebeu que Ray jamais chegaria ao mesmo nível de comprometimento, tanto que profetizou:

“(...) ‘Você gosta mesmo de Cristo, não é?’. ‘Claro que gosto. E afinal, muita gente diz que ele é Maytreya, o Buda profetizado a aparecer depois de Sakyamuni, você sabe, Maitreya significa ‘Amor’ em sânscrito e Cristo só falava de amor.’
‘Ah, não vai começar a pregar o cristianismo para cima de mim, já estou vendo você no seu leito de morte beijando a cruz igual a um velho Karamazov ou o nosso velho amigo Dwight Goddard que passou a vida inteira como budista e de repente retornou ao cristianismo nos últimos dias da vida.’ ” Foi o que acabou acontecendo com Jack.

Uma outra “profecia” de Japhy, agora de âmbito mais planetário, antecipava em alguns anos a época do desbunde, do movimento da contracultura dos anos 60 e que vem cheia de poesia e energia como você pode ler a seguir:

“Tenho lido Whitman, sabe o que ele diz, Cherr up slaves, and horrify foreign despots (Alegrem-se escravos, e horrorizem os déspotas estrangeiros), ele quer dizer que a atitude para o Bardo, o bardo zen-lunático dos antigos caminhos do deserto, vê a coisa toda como um mundo cheio de andarilhos de mochilas nas costas, Vagabundos do Darma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os carros novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorante e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana, todos eles aprisionados em um sistema de trabalho, produção, consumo, trabalho, produção, consumo, tenho a visão de uma grande revolução de mochilas, milhares ou até mesmo milhões de jovens americanos vagando por aí com mochilas nas costas, subindo montanhas para rezar, fazendo as crianças rirem e deixando os velhos contentes, deixando meninas alegres e moças ainda mais alegres, todos esses zen-lunáticos que ficam aí escrevendo poemas que aparecem na cabeça deles sem razão nenhuma e também por serem gentis e também por atos estranhos inesperados vivem proporcionando visões de liberdade para todo mundo e todas as criaturas vivas...”

Não é surpreendente? É sim. E há tantas passagens legais dessa obra que fica até difícil de selecionar as prediletas; entretanto, preciso dizer que do modo como conduzi até aqui essa leitura corro o risco de afirmar que Vagabundos Iluminados só fica nessa de zen-budismo e tradições religiosas e, bem, isso não é verdade. Há espaço para outras coisas também, coisas que nada têm a ver com esse “espírito zen”, como as festas improvisadas na casinha de Japhy próximo às montanhas, com muito sexo livre, peladões e peladonas, muita bebida de garrafão rolando solta, cigarrinhos suspeitos, essas coisas que fazem a alegria da meninada. Afinal de contas, nem Japhy, nem Ray são ascetas, e nem tudo é proibido afinal. Nem brincar com o sagrado, como acontece lá quase no final do livro. Começa com Japhy assim:

“Você sabe como Kasyapa se tornou o Primeiro Patriarca? O Buda estava pronto para começar a expor um sutra e mil duzentos e cinqüenta bikkhus estavam esperando com as vestes arrumadas e os pés cruzados, e tudo que o Buda fez foi erguer uma flor. Todo mundo ficou perturbado. O Buda não disse nada. Só Kasyapa sorriu. Foi assim que o Buda escolheu Kasyapa. Isso ficou conhecido como o sermão da flor, rapaz.”

Ray continua:

“Entrei na cozinha e peguei uma banana e saí e disse: ‘Bom, vou te contar o que é o nirvana’.
‘O quê?’
‘Comi a banana e joguei a casca fora e não disse nada.’ ‘Este é o sermão da banana.’”

Senso de humor não faz mal a ninguém, certo? E assim as passagens desse livro genial vão te embalando página a página, e você se pega sonhando com uma casinha no sopé de uma montanha, meditando sobre as coisas boas e simples da vida e em como quase sempre somos nós mesmos os responsáveis pelos nossos sofrimentos, que bastaria mudar um pouco a dieta, largar uns dois ou três vícios ruins (mas um só já está bastante bom também), dar uma relaxada com os compromissos, desligar-se um pouco que seja de alguns aparatos tecnológicos, preparar um reconfortante bule de chá bem quentinho já resolveria algumas coisas... tão fácil e tão difícil, por que será? O que uma boa leitura não faz com a gente, não? Por isso eu adoro esse livro do Kerouac, ele me faz refletir sobre isso tudo.

O resto dessa história eu não conto, que é mesmo para te obrigar a comprar o livro e ler com calma. E não se intimide com a prosa espontânea tão alardeada na produção kerouaquiana: aqui ela quase não aparece, o que faz de Os vagabundos iluminados uma boa introdução ao universo beat de JK.

Para terminar, escolhi umas palavras ditas por Ray que mostram um vagabundo do dharma singelo, quase infantil em sua pureza e simplicidade, e que algo me diz deveria corresponder àquilo que Jack Kerouac, em sua verdadeira essência, foi em vida.

“Passei muito tempo meditando de pernas cruzadas, mas o ruído dos caminhões me incomodava. Logo as estrelas despontaram e minha fogueirinha de índio enviou um pouco de fumaça na direção delas. Enfiei-me dentro do saco de dormir às onze e dormi bem, a não ser pelas hastes de bambu sob as folhas que me fizeram ficar virando de um lado para o outro a noite inteira. ‘É melhor dormir em uma cama desconfortável de graça do que dormir em uma cama desconfortável que não é de graça. ‘Eu ia inventando toda sorte de ditados na medida em que avançava. Tinha iniciado minha nova vida com meu novo equipamento: um verdadeiro Dom Quixote da ternura. De manhã me senti alegre e a primeira coisa que fiz foi meditar e inventei uma rezinha: ‘Abençôo-as, todas as coisas vivas, abençoo-as no passado infinito, abençoo-as no presente infinito, abençoo-as no futuro infinito, amém.’

“Essa rezinha fez com que eu me sentisse bem e todo bobo e feliz enquanto arrumava minhas coisas na mochila e saía em direção à água corrente que escorria de uma pedra do outro lado da rodovia, água de fonte deliciosa para lavar o rosto e limpar os dentes e beber. Então estava pronto para os cinco mil quilômetros até Rocky Mount, na Carolina do Norte, onde minha mãe esperava, provavelmente lavando a louça em sua cozinha querida de dar dó.”

Se você tiver que ler apenas um livro de Jack Kerouac, sugiro Os Vagabundos Iluminados, lançado aqui no Brasil pela L&PM. 1ª ed., 2004. Se quiser saber um pouco mais da vida dele, daí sugiro mais dois livros: Kerouac, de Yves Buin, também da L&PM (2007), e a pequena e simpática biografia escrita pelo Antonio Bivar, Jack Kerouac: o rei dos beatniks, coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense, 2004.

E, finalmente, se você quiser ler algo sobre o Zen, indico duas pequenas obras que merecem destaque em sua pesquisa: a primeira delas, já falei lá em cima, é Introdução ao Zen-Budismo, de D.T.Suzuki com prefácio de C.G.Jung. Saiu pela Pensamento e é um must. A outra deve agradar sobretudo aos que também curtem Kerouac: O Zen e a experiência mística, da Editora Cultrix, escrita por Alan Watts e que traz um capítulo inteiro dedicado ao “Zen Beat”.