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Há uma expressão em inglês que não encontra tradução à
altura na língua portuguesa: belly laugh
(belly = barriga; laugh = risada); “morrer de rir” ou
“chorar de tanto rir”, expressões bastante comuns, poderiam ser uma opção, mas
nem de longe nos levam à imagem gostosa de alguém que ri com as mãos sobre a
barriga, lágrimas escorrendo nos cantos dos olhos, bocarra aberta... fui
pesquisar e encontrei uma expressão que não conhecia: “rir a bandeiras despregadas”:
“É este o registo da expressão «rir a bandeiras
despregadas» do Dicionário de Provérbios
e Curiosidades, de R. Magalhães Júnior: «É o mesmo que "rir às
gargalhadas", abertamente, ruidosamente; «Bandeiras despregadas» significa
«velas (dos navios) ao vento», «bandeiras desfraldadas» ou «bandeiras ao
vento». A expressão «rir a bandeiras despregadas» significa «rir aberta e
sinceramente como nos dias de festa». É fácil compreender que as bandeiras
podem estar atadas antes dos dias festivos para não se rasgarem. Chegado o dia
marcado para a festa, as bandeiras são desatadas para serem agitadas pelo vento.”
Colocando em uso o que acabo de aprender com nossos
primos lusos, sempre que releio a obra Como Perder Amigos e Aborrecer Pessoas,
de Irving D. Tressler, eu rio a bandeiras despregadas. A
edição que tenho comigo, folhas soltas e carcomidas, foi editada em 1946 pela
Editora Assunção de São Paulo e pertenceu à minha avó materna. Foi numa das
férias em Lins que, fuçando os armários da casa, encontrei esse tesouro do
humor negro e nunca mais o abandonei.
O Irving já “começa causando” na dedicatória: “Este livro
foi dedicado a um homem que não tinha necessidade da sua leitura: ADOLF HITLER”.
E tudo piora dali para frente. No bom sentido. O livro de Irving Tressler na
verdade é uma paródia da famosa obra de Dale Carnegie, “Como Fazer Amigos e
Influenciar Pessoas”, publicado um ano antes, em 1936; Tressler resolveu
escrever sua obra alegando que o livro de Carnegie estava transformando seus
leitores em pessoas muito chatas - e eu concordo com ele (haja em vista o que
vivenciamos hoje com a maçante corrente do politicamente correto...).
O livro começa com um “Breve apanhado sobre a impolidez”,
escrito por Thomas Lowell (que fez também a introdução da obra de Carnegie) e o
legal é que ele entra na brincadeira, escrevendo seu texto dentro dos
parâmetros propostos por Tressler quem, em suas palavras, “criou um curso que é
um dos mais significativos movimentos na história social dos Estados Unidos, um
curso tão real como o mau hálito, e mesmo mais duradouro nos seus resultados.”
Logo depois o autor nos ensina a “Como tirar o máximo
proveito deste livro”; só para lhe dar uma ideia: “Para se tirar o máximo
proveito deste livro há um requisito indispensável, além do quase lógico de
poder ler e compreender as palavras de mais de quatro letras. Qual será este
mágico requisito? Apenas isto: um profundo e impulsivo desejo de fazer com que
os outros lhe retribuam tanta antipatia quanto a que lhes devota, uma resolução
inabalável em reconhecer que a maioria das pessoas é quase tão interessante
como um relatório semestral do U.S.
Gypsum Co. (Companhia de Gesso dos Estados Unidos)”. “Quem é rico de amigos
é pobre de solidão”.
Melhora a cada parágrafo. E o que impressiona é que,
embora devamos encarar a leitura como uma sátira, há muitas passagens em que
nos pegamos concordando com o que, a princípio, deveria ser tomado como absurdo
- daí a graça. Nos 22 capítulos que
compõem a obra, alguns soam disparatados ainda hoje, passados 80 anos de sua
publicação: “Como tornar-se antipático à primeira vista”, “Não se esqueça de
esquecer nomes”, “Como fazer desistir um hóspede para a noite”, “Encaminhar
sempre a conversa de modo que termine em discussão”, só para citar os mais
hilários.
E é claro que, dentro da temática do Odepórica, guardo para o final o que de fato me fez escrever essa
postagem, porque também das viagens se ocupou Irving Tressler em seu peculiar
tratado, no capítulo XI intitulado “O companheiro amável de viagem”, onde
aprendemos a lidar com as “pestes-viajeiras” que vez ou outra hão de surgir em
nossas deambulações.
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O companheiro amável de viagem
Já esteve alguma vez no vestíbulo de um hotel, na
poltrona de um Pullman ou no salão de fumar de um navio, e esbarrou com alguém
sentado a seu lado que fizesse a observação: “Bem, acho que vamos ter bom tempo
na viagem! Prossegue até o ponto final ou vai saltar em...?” Se lhe
respondermos, imediatamente ele se agarra a nós para o resto da viagem e
qualquer descanso ou distração planejados vão-se como um chapéu em dia de
vento. Como nos livrarmos destas sanguessugas viajeiras?
Sempre é possível, quando tais pessoas tentarem
apresentar-se-lhe num trem ou navio, apontar para sua boca e ouvidos e fazer
sinais com os dedos indicando que é surdo-mudo. Este silêncio, voluntariamente
imposto, é sem dúvida difícil de se manter, principalmente quando se dá uma
topada na chapa metálica dos degraus da escada que conduz ao refeitório do navio,
ou quando a porta do banheiro do Pullman fica fechada durante duas horas.
É um fato muito conhecido que os patos selvagens sempre
voam aos bandos e juram proteger uns aos outros contra qualquer outra ave que
tente travar conversa com eles. Acredita-se mesmo que a extrema velocidade no
voo do pato selvagem seja em parte devida a este desejo perfeitamente natural
de fugir das outras aves que sigam o mesmo caminho, já o tendo percorrido uma
vez e ansiosas para falar a respeito.
Um amigo meu sempre esfola seu pulso até a carne viva, e
besunta-o depois com iodo antes de começar uma viagem. Quando um provável
conversador senta-se a seu lado e começa a falar, meu amigo proseia com ele
alguns minutos. Depois, casualmente, exibe o pulso com sua chaga hedionda, dizendo
com um risinho: “Fico satisfeito por ver que não se impressiona vendo estas
coisas. Não posso saber como me aconteceu isto e tem dado um trabalhão para
curá-lo!”
Contudo, uma vez esbarrou com um homem que sofria do
mesmo mal e que ficou satisfeitíssimo de encontrar alguém com quem pudesse
conversar sobre o assunto. Meu amigo viu-se obrigado a deixar o vapor e
esconder-se num tambor de óleo que boiou durante dois dias, até que afinal foi
interpelado por um homem de Palo, Califórnia, que nadava atrás dele e parou
para indagar se se tratava de sua primeira viagem por aquelas bandas, contando
depois como se lembrava tão bem da sua, ocorrida em 1897 e... meu amigo afogou-o
lentamente e continuou sossegado o seu caminho.
Sempre se pode dizer “Desculpe, mas este lugar está
tomado” ou então “Minha tia estava sentada aí e volta já; foi por um momentinho
ao toilette”. Isto, é lógico,
torna-se pouco plausível quando se está parado em frente à amurada ou lavando
as mãos no banheiro.
Conheci um homem que sempre se punha de joelhos e
começava a rezar quando via aproximar-se alguém deste tipo, e convidava a
pessoa se não se aborrecia de acompanhá-lo nalgumas palavras de agradecimento,
isto em geral espantava a léguas, mesmo os mais audaciosos, a menos que, uma
vez ou outra, esbarrasse com um devoto verdadeiro. Certa vez teve de rezar uma
hora e 35 minutos, até que a peste murmurante resolvesse levantar-se
cambaleando e com os membros entorpecidos em consequência do tempo passado de
joelhos.
É conveniente saber dizer umas poucas frases nalgum
remoto idioma oriental, cuja média das pessoas seja incapaz de entender. Quando
interpelado por um estranho, responde-se numa algaravia medonha que acaba por
desanimar o que se aproxima.
Na primavera de 1910 fiz uma viagem ao redor do mundo e
fui agarrado por uma destas pestes viajeiras logo depois que perdemos a terra
de vista. Escapei dele após 18 horas e encafuei-me no compartimento de carvão,
onde passei o resto da travessia do Atlântico. No entanto, justamente ao
atracarmos em Gibraltar, ele me descobriu outra vez e eu escalei o pico do
mastro mais alto. Ali, dentro em pouco ele me desencravou, de modo que tive de
deixar o navio em Nápoles e tomar o rápido-expresso para Viena, atravessando
depois os Balkans montado em camelo.
Ainda não completara um dia que me achava sobre o
sacolejante animal, quando um dos camelos chegou-se para mim, sorriu e com uma
tossezinha apresentou-se e perguntou se fazia toda a viagem através dos
Balkans, e se se tratava da minha primeira viagem.
Algo na voz do camelo me pôs desconfiado. Reparei mais de
perto. Não restava dúvida, era a peste do navio, disfarçado em besta de carga!
Imediatamente ele tirou o disfarce e tomamos o navio em Atenas. Tranquei-me na
cabine e durante o resto da viagem ele esmurrou regularmente a minha porta com
intervalos de meia hora, perguntando se era ou não minha primeira viagem
através do mundo, e se estávamos ou não tendo ótimo tempo. Não consegui ver o
mundo, mas fiz a sua volta.
Há uma última alternativa neste negócio de
peste-viajeira. Sempre se pode, ao iniciar ela o seu amável discursinho de
introdução, levantar-se e dizer: “Sim, é minha primeira viagem; não sei onde
vou, só sei que desejo ficar só todo o tempo desta excursão; não estou
absolutamente interessado em saber de onde vem, quais são as pessoas que
conhece na minha cidade, suas experiências de viagem ou suas recomendações para
o que se deve fazer quando se tem enjoo de trem, de automóvel ou de mar! Costumo
tornar-me extremamente selvagem quando estou de pé e se não sair de minha
vizinhança dentro de 10 segundos, não me responsabilizo pelo que lhe poderá
acontecer!”.
E o cavalheiro provavelmente começará a rir, dará uma palmada
na perna e trovejará: “Amigo, estou vendo que é dos meus – um grande senso de
humor! Vamos nos dar muito bem durante esta viagem e vou providenciar para que
fiquemos na mesma mesa! É a sua primeira...” Algumas pessoas lançam mão de
seixos ou cavilhas espalhados pelo convés; outras empregam apenas os dentes, as
unhas e os punhos.
Viajar
é alargar as ideias; a maioria dos viajantes é obtusa.
Tome
cuidado!
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Irving Dart Tresller foi um escritor e jornalista
norte-americano nascido em 1908 no estado de Wisconsin. Em 1930 completou seu
bacharelado em Artes; de 1934 a 1936 foi co-editor da Life e após esse período teve artigos publicados em diversas
revistas. Foi autor de vários livros, mas o que lhe rendeu fama foi seu
best-seller de 1937, “Como Perder Amigos e Aborrecer Pessoas”, uma paródia do
famoso livro de Dale Carnegie, “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”,
publicado um ano antes.
Encontramos pouquíssimas referências sobre a vida de
Irving Tresller. É sabido que sofria de epilepsia, na época considerada uma
doença mental. Em 1944, um ano antes da popularização dos medicamentos que controlam
essa doença, comete suicídio. Contava com 35 anos de idade.
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