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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Irlanda, uma bicicleta e uma tin whistle, by David Wilson

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Embora não seja de fato um problema, costumo ter preguiça de ler romances em inglês e quando o faço é porque o texto realmente me interessa. Domingo retrasado tirei o dia para ler uma obra que descobri ao acaso, por conta do título, navegando pelo site da Amazon: Ireland, a bicycle and a tin whistle, de David A. Wilson.

Como já escrevi aqui no blog, decidi aprender a tocar flauta esse ano e para isso escolhi um modelo dos mais simples que existem, com bocal em forma de apito, muito comum na Irlanda chamada tin whistle (ou penny whistle, ou somente whistle). Em inglês, tin significa latão e whistle, apito. Como “flauta de latão” não tem o mínimo charme, por aqui a rapaziada (os/as whistlers) usa o termo em inglês mesmo, tin whistle. O material já indica: a flautinha custa baratinho, e o som é delícia pura, principalmente nas mãos de quem domina o instrumento.
Mas vamos ao que interessa, começando por um breve resumo da obra: um professor de uma universidade canadense decide viajar pelo norte da Irlanda, durante várias semanas, montado numa mountain bike. Na bagagem, sua inseparável whistle e uma disposição para pedalar e beber e varar noites em pubs de dar inveja a qualquer adolescente notívago (o autor devia estar por volta dos 45 anos à época da viagem). Não é pouca coisa, afinal a Irlanda, como se sabe, é cheia de montanhas. É claro que depois de muitas ressacas ele aprende a dosar as coisas, mas disso a gente fala depois.

Em sua viagem o David, que é professor de estudos celtas, traça um roteiro que privilegia locais de forte presença celta no território (sítios arqueológicos interessantíssimos) e que também ofereçam a oportunidade (aparentemente nada difícil) de visitar os mais insuspeitos pubs irlandeses atrás das famosas sessions.
Sabe o que é uma session irlandesa? Eu conto. É um tipo de evento em que um grupo de pessoas se reúne, em um pub, para beber, conversar e tocar música tradicional. Coisa entre amigos, não tem nada a ver com apresentação em público, já que isso foge totalmente do espírito de uma session. Eu nunca fui (ainda) mas sei como funciona: primeiro chega um, com uma flauta, pede uma Guinness e logo chega um camarada, empunhando seu bodhrán, instrumento de percussão que lembra um tambor.
Vem uma loirinha, a Liz, com o fiddle (violino) e daí já sairia um sonzinho bacana, mas eis que chega o John com sua gaita típica (uillean pipes) e dois colegas seus que tiram bem um som das whistles (Feadóg, em gaélico, só para constar), e aí já era. Música rolando solta no pub, ninguém ouve mais ninguém, aquela fumaceira de cigarro e várias canecas de chopp (pint, como dizem por lá) goelas irlandesas abaixo. O mais parecido por aqui, acho eu, seria uma roda de samba, ou de chorinho, ou de pagode (argh!) em que todos tocam um instrumento em volta da mesa, bebendo cachaça e cerveja e petiscando gordurosos acepipes de boteco. Quem não tem instrumento batuca o tampo da mesa mesmo, chacoalha caixinha de fósforo, essas coisas e tal. Cada cultura se vira com o que tem, ué.
E chega de enrolação porque senão isso vai longe que já me conheço muito bem. Vamos apreciar então a narrativa de viagem do fellow David Wilson, right? Right.

A viagem começa em Whitehead, povoado na Irlanda do Norte onde o autor nasceu. Viveu pouquíssimo no país, com meses de vida sua família já se havia mudado para a Inglaterra e depois para o Canadá, onde de fato se criou (diz o autor que no século 19 havia tantos irlandeses no país que Toronto era conhecida como a Belfast do Canadá). Um canadense de ascendência irlandesa é o que ele é. Mas isso nunca o afastou de suas origens, tanto que trabalha envolvido com isso. A viagem à Irlanda parece ter sido uma volta ao ninho, ao útero, e isso ele deixa claro quando afirma que “de certa maneira, voltar a Whitehead era como voltar para casa”.
A narrativa começa tratando de duas coisas que se repetirão algumas vezes ao longo de toda a viagem: o conflito religioso tão cheio de ranço entre católicos e protestantes, mostrando que a tensão religiosa entre os dois grupos está longe de terminar, e as bebedeiras nos pubs, dando até a impressão de que o álcool lhe serviu de combustível para pedalar. Sério. Mas isso até que é divertido, e David chega a escrever, meio que tentando se justificar, que o fato de estar pedalando uma bike lhe dá a chance de queimar as calorias e de manter algum tipo de equilíbrio entre as canecas de cerveja consumidas e as milhas percorridas. Beleza.
Sobre a questão do conflito religioso, onde geralmente impera a violência, é difícil achar alguma graça, mas o David conseguiu fazer parecer divertido um episódio que no fundo é patético, quando sua segurança pessoal dependia da religião por ele professada:

Nas raras ocasiões em que surgia o tema religião, eu dizia que era agnóstico, o que era, na verdade, entendido como uma maneira covarde de evasão. “Ok, ok”, você ouvia alguém murmurar, “mas você é um agnóstico protestante ou um agnóstico católico?” O que eu poderia dizer? Ser agnóstico é pior do que ser ateu numa escala de desaprovação porque, pelo menos, os ateus têm coragem de assumir suas convicções naquilo em que não crêem.

A narrativa começa a ficar boa a partir do segundo capítulo, quando David se desloca até a Península de Islandmagee, lugar de poucos visitantes com um passado pré-histórico interessante que muitos de nós, posso apostar, gostaríamos de conhecer. Diz que no alto de uma colina, bem no topo da Península, há um altar, onde aconteciam antigas cerimônias de sepultamento - Druid’s Altar é o nome do lugar, em cujo horizonte se avista o mar da Irlanda. Não parece incrível? Claro que um lugar com esse cenário não passaria incólume nos anais das fantásticas histórias lendárias da humanidade. E o David conta uma delas:
A Península poderia ser facilmente confundida como sendo um fragmento da Escócia - a conexão com esse país continua forte, prova disso são as tradições folclóricas que ali permanecem.

“Em nenhuma parte da Irlanda”, diz um relatório governamental de 1830, “as pessoas são mais inveteradamente supersticiosas do que aqui”. Há histórias de assombrações, canções de fadas, videntes, feitiço e contra-feitiço. Para que suas vacas não fossem enfeitiçadas, você tinha que pendurar uma “pedra da bruxa” acima de suas cabeças no estábulo. Para proteger a si mesmo dos feitiços você tinha que espargir cravos de defunto no pátio de sua fazenda no Dia do Trabalho.
Antes de mudarem para Whitehead, meus pais passaram vários anos em Islandmagee, vivendo no chalé de um fazendeiro sem eletricidade e sem água corrente. Mesmo sendo estrangeiros, vindos de um mundo moderno, industrial, urbano, não demorou muito para que começassem a sucumbir ao sobrenatural. “Se alguma vez você vir uma vaca com duas cabeças”, disseram a meu pai, “você estará frente a frente com o próprio Diabo em pessoa”. Ele não pensou mais nisso até que, numa noite, voltando a pé para casa sozinho, viu ao longe, imóvel, contra a escuridão do céu noturno, a silhueta de uma vaca, com a cabeça onde deveria estar uma cabeça, e outra cabeça onde deveria haver um rabo. “E o que foi que o senhor fez?” – eu perguntei – “Eu corri pra cacete!”, ele disse, “e não parei de correr até chegar em casa e fechar a porta atrás de mim, com as chaves bem guardadas no meu bolso”.
Rememorando fatos da infância, certamente influenciado pela visita à cidade natal, David conta alguns episódios interessantes ali vividos pelos pais enquanto ele ainda era um bebezinho e um episódio, que à primeira vista parece desprovido de qualquer conteúdo simbólico chega-me cheio de significado, talvez porque algo semelhante tenha se passado comigo há alguns anos.

Como foi dito, a ilha em que viviam era um lugar isolado; sua mãe, uma mulher que já havia vivido em Londres, não entendia a movimentação entre os habitantes locais quando da chegada do ônibus que diariamente passava pela península vindo de Belfast. Achava aquilo tudo muito excêntrico, mas depois de algumas semanas ela também era uma das que esperava ansiosamente a passagem do coletivo. Aquilo, escreve David, se tornara um dos momentos mais aguardados do dia, a espera pelo ônibus, a conversa com os vizinhos e eventualmente um chá com biscoitos na casa de algum conhecido. Só alguém que já viveu em um local isolado pode entender o significado mais profundo dessa passagem.

No momento em que o narrador chega ao pequeno povoado de sua infância, o leitor percebe que em sua viagem o passado tem um grande peso no chamado à aventura; buscar elementos que o façam resgatar parte desse passado é importante para ajudá-lo a compreender quem é – e no que se transformou o homem com o passar do tempo e a distância da terra natal.
E o pedal vai comendo os quilômetros. Muitas vezes, certamente inebriado pela beleza das paisagens irlandesas, desce da bike e senta-se para tocar algumas velhas melodias folk em sua whistle. Como imaginei, antes mesmo de ter o livro em mãos, a arte de tocar uma whistle ganha na obra um duplo sentido: o literal, que é a própria identificação com o objeto, o instrumento musical, a arte que ajuda a afirmar sua identidade cultural, e o metafórico, que é o processo de aprendizagem do whistler, do artista. Vou transcrever um trecho da obra que me encantou e que faz exatamente menção ao que acabo de escrever:

Na localidade de Garron Point, tirei a tin whistle do alforje, pulei por sobre uma cerca, sentei na relva áspera e comecei a tocar. Uma suave melodia soprou pelos campos, indo flutuar pela superfície do mar – uma peça composta três séculos atrás pelo harpista cego Turlough Carolan para Fanny Power, a filha de um de seus patrões.
Depois toquei um jig (originário das “gigas” medievais italianas, semelhante à valsa), “Out on the Ocean”, saltando sobre as águas, leve como um dia de verão. A música é feita de movimentos sinuosos, e estes dependem do astral do ambiente – do estado da sua mente, da direção do vento, dos sons que vêem do mar. Um jig ou um reel (música tradicional bastante animada) jamais soarão exatamente da mesma maneira duas vezes; as ornamentações, elaborações e os sincopasses vão rolar, dar voltas através da melodia, mudando sua natureza ao ser tocada. Existe a melodia, e há também o modo como você toca a melodia. Assim também existe um mapa, mas é você quem decide a maneira que irá viajar.

Você poderia percorrer a Irlanda em um carro, permanecendo fiel às rotas principais; mas se você pega uma bicicleta, e respira o ar puro, e se perde pelas estradinhas vicinais, você chega mais perto do espírito do lugar. Você poderia aprender música tradicional através dos livros, ficando fiel às notas principais de uma melodia; mas se você toma nas mãos uma tin whistle, soprando o ar para fora, passeando pelas inúmeras possibilidades de variações, você estará muito mais perto do espírito de uma composição. Dirigir uma bicicleta ou tocar uma whistle faz com que a jornada se torne mais do que atingir o final de um destino; torna-se o fim em si mesmo, o seu próprio destino.
Uma tin whistle tem beleza e simplicidade, um limitado alcance de notas mas uma extensa gama de sentimentos. Há slow airs (“ária”, do italiano, canções leves e introspectivas) que fariam as lágrimas rolarem pelas suas pernas, mas também as melodias de dança capazes de fazer seu espírito bailar para bem alto. Às vezes, nas sessions, os músicos mudam de uma melodia deprê direto para um set de canções animadas (reels) só pra mandar a tristeza embora.

Hora de partir; ponho a tin whistle de volta na bagagem. Acima de tudo, a whistle é um instrumento ideal para carregar numa viagem, muito mais fácil de se levar numa bicicleta do que um violão, por exemplo, ou um piano. A whistle é também o mais democrático dos instrumentos musicais; pelo preço de dois canecos de cerveja (que é a moeda corrente universal dos vadios e dos menestréis), você tem acesso ao mundo das jigs e dos reels, das canções e dos lamentos. E enquanto você segue viagem, vai aprendendo a música ao ouvir as pessoas tocando, e você absorve o espírito da coisa indo aos locais onde essas pessoas tocam – as cozinhas, os pubs, os festivais, em cidades e vilas ao redor de todo o país.

E de nota em nota, pub em pub, David vai seguindo em frente. Em Tiveragh Hill, para acalmar os sentidos (e aliviar uma ressaca brava), sai caminhando pelo lugar onde viviam as fadas. É sabido que pelas manhãs, antes dos humanos despertarem, elas emergiam das encostas e jogavam hurley nas ladeiras. Parece que o autor se interessa mesmo pela vida desses pequenos elementais, herança mitológica dessas místicas ilhas britânicas. Não são poucas as vezes que surgem comentários fazendo referência a esses seres:
De volta à parte mais alta da estrada, você pode caminhar, com o coração saindo pela boca, pelo campo coberto de urze até o cume de Fair Head, onde a terra desaparece para dar lugar ao oceano. Aqui, na extremidade da existência, criaturas estranhas e imprevisíveis, habitantes dos rochedos, fizeram o seu lar – um bando de elfos e duendes brincalhões. Eles o ajudarão, caso o escolham para isso, mas também o machucarão se você passar sobre eles. Um duende pode dar assistência a um velho fazendeiro na hora de debulhar o milho, mas se o fazendeiro deixar do lado de fora de casa um pouco de pão e de leite como forma de agradecimento, o duende, percebendo que sua presença foi detectada, nunca mais retornará.
(...) Tal como as fadas de Islandmagee, os duende e elfos vivem em anéis mágicos ao redor de arbustos espinhentos, e a má sorte cairá sobre aqueles que o perturbarem. Um fazendeiro de Fair Head certa vez cortou um ramo de um arbusto espinhento para abrir o caminho onde a terra seria arada. No dia seguinte, ele notou que faltava o rabo de uma de suas vacas, que foi eventualmente encontrado pendurado no arbusto, no exato local de onde o ramo havia sido cortado. Sorte pior veio a seguir: ao trabalhar na forja, no dia seguinte, enquanto afiava seu arado, uma faísca voou da forja e lhe cegou um olho. Só Deus sabe o que poderia ter acontecido a ele caso tivesse botado todo o arbusto para baixo. De qualquer forma, os ciclistas que quiserem evitar um pneu furado ou coisa pior devem ficar bem atentos e manter distância dos arbustos espinhentos nas redondezas de Fair Head, só por precaução.
Mais à frente o viajante dá um tempo nessa questão dos seres não tão bonzinhos da natureza, e passa a dedicar-se com mais intensidade às sessions, quase como uma obsessão. Num momento de reflexão, em que analisa com bastante clareza o papel social dessas sessões musicais, afirma que a alta demanda do turismo contradiz o espírito das sessions. O turismo requer “ordem e regularidade – com um aviso postado na janela do pub: Música Tradicional às 21:30”. Desse modo, esclarece, as pessoas saberão quando e onde as coisas estarão acontecendo.

Mas as sessions são, por natureza, imprevisíveis e espontâneas, como que surgindo assim, do nada. Os músicos se reúnem, bebem uma cerveja, riem, conversam, ganham uma rodada na faixa, ensaiam algumas melodias mas, acima de tudo, estão ali por conta do encontro com amigos e pela diversão, onde o importante é compartilhar o momento. E se outras pessoas quiserem compartilhar também, tanto melhor.
Não resta dúvida de que o turismo tem ajudado muito o ocidente; ele traz dinheiro e também providencia alguma renda a músicos que ainda têm que dar duro para serem reconhecidos, além de trazer uma vida nova à região a cada verão. Mas, de acordo com o Princípio de Heisenberg, o ato de observar muda a característica daquilo que está sendo observado. Uma vez que uma session é apresentada para uma audiência, deixa de ser aquilo que sempre foi. Já não é mais uma session.

O que o David diz, com muita razão por sinal, é que o turismo pode alterar sutilmente uma cultura ao transformá-la em produto de mercado. Se por um lado, no caso da Irlanda, o turismo traz como promessa uma nova energia e vida às localidades outrora desconhecidas, por outro tem como perigo transformar o país no maior parque temático da Europa. Triste, mas verdadeiro.

Nas páginas que se seguem David vai se transformando em um viajante mais contemplativo, mais filosófico até. Continua enchendo a cara, mas pega um pouco mais leve; toca muito sua whistle em campos abertos, aproveitando o melhor daquilo que a natureza tem a lhe oferecer. Nem tudo é sonho, claro, afinal uma viagem sem perrengue também não tem a mínima graça; quase é atacado por um grupo de adolescentes delinqüentes, amargura uma infecção intestinal das boas (mão do destino, quem sabe, dizendo “vai devagar, filho, d-e-v-a-g-a-r....”) que o obriga a descansar uns dias antes de pegar a trilha novamente. E de volta à estrada, um pneu furado, e a graça em conhecer um David totalmente desajeitado.

E se você curte música tradicional irlandesa, o que vem pela frente é uma delícia, o autor conta passagens da vida de alguns músicos famosíssimos por aquelas bandas do mar do norte, entre eles Turlough Carolan, o maior harpista que a Irlanda já viu nascer. “Se uma nova religião houvesse de surgir na Irlanda”, escreve David, “Carolan deveria ser seu líder espiritual, e sua música a sua inspiração”. Carolan, que viveu entre os séculos 18 e 19 começou a tocar harpa aos dezoito anos, quando ficou cego por causa da varíola; muitos harpistas itinerantes eram cegos, porque a música era a única maneira que possuíam de ganhar a vida.
Por ter começado a tocar relativamente tarde, Carolan nunca foi um virtuoso em sua arte; sua grandeza reside muito mais em suas composições do que em sua técnica instrumental, “no poder dos ouvidos, mais do que no poder das mãos”, como escreve David. “Meus olhos” – disse Carolan em uma ocasião – “foram transplantados em meus ouvidos”. Viajou pelas duras terras irlandesas montado em um cavalo e tocava sua harpa nos povoados em que pernoitava. Naqueles tempos, a hospitalidade era coisa séria e ninguém ousava negar abrigo a um bardo, sob o risco de ver seu nome ridicularizado em canções ao redor de todo o país.
Carolan compôs sua última melodia, “Farewell to music” em 1738 e morreu durante o sono, na mesma casa onde aprendeu a tocar sua harpa e de onde partiu para pegar a estrada. E são muitas as lendas que surgiram após sua morte, as quais valem a pena conhecer se você curte contos no melhor estilo Twilight Zone...

David ainda aprontou muito e se divertiu bastante depois do episódio do pneu furado. Teve tempo, durante a viagem, de fazer um curso de whistle com um velhote assustador, só para descobrir que no final das contas a whistle só se aprende de verdade ouvindo – e entrando no espírito da música. É de se pensar em quantas coisas na vida a gente não aprende da mesma forma, apenas se entregando de corpo e alma àquilo que deseja conquistar. Estar atento ao foco, é isso o que parece dar certo.
O fim da viagem se dá após a chegada a Belfast, seguida da volta à cidade natal. Um simbólico roteiro circular. As últimas palavras de David são simples e bonitas, como uma melodia suave tocada na whistle.

Peguei minha bicicleta e a whistle e mais uma vez andei pela costa, pelas cavernas e pelos rochedos de Blackhead. Casais de idosos passaram por mim, sorrisos enrugados em faces rosadas. No local em que a senda segue para cima, em direção ao farol, resolvi descer com a bike e sentei-me junto às rochas em frente ao mar e ali permaneci em silêncio. As ondas batiam contra as pedras; gaivotas circulavam na brisa marítima. Havia um vento leve que vinha do sul, o último sinal do verão que já se despedia. Eu me virei em direção ao mar da Escócia, de modo que o sol pudesse aquecer minhas costas e a whistle protegida dos respingos da água do mar. Um dia retornarei a esse lugar. Comecei a tocar “South Wind”, uma melodia lenta, suave e melancólica, um lamento e uma canção, enquanto as notas eram levadas pela corrente e se dissolviam para dentro do mar.

Ireland, a bicycle and a tin whistle
. David A. Wilson. Illustrated by Justin Palmer. Mcgill-Queen´s University Press, Canada, 1995.

















domingo, 21 de fevereiro de 2010

Jornada musical: Santiago, com The Chieftains

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Gosta de música irlandesa? Simpatiza com as lendas e o folclore celta? Sente um arrepio ao ouvir as primeiras notas de uma flauta de metal, típica da Irlanda e que tem um nome bonito, pennywhistle (ou tin whistle, numa tradução livre, “apito de latão”)? Se você respondeu sim a alguma destas perguntas (com o perdão do lugar comum!), então sugiro que ouça o trabalho dos Chieftains.

Criado em 1963 e ainda na ativa (no momento estão em turnê pelos Estados Unidos), The Chieftains são tudo o que há de melhor em música irlandesa; respeitadíssimos no mundo inteiro, estão para a música irlandesa como os Stones para o rock, ou seja, chegaram num nível em que se tornam referência e ponto, quer você goste ou não.

Ah sim, preciso dizer que música irlandesa não tem nada a ver com a onda que surgiu há duas ou mais décadas, a da música celta nos moldes de Enya e trilhas como as do Titanic ou Braveheart, por exemplo. Nada (ou quase nada) a ver com isso, a pegada aqui é outra. Os Chieftains são músicos de primeira linha, pesquisadores das tradições de seu país, de modo que seu trabalho tem uma forte sonoridade folk. O tempero, o que os diferencia, é o fato de, sem abrirem mão da tradição, permanecerem abertos ao diálogo com outros músicos e culturas, muitas vezes sem nenhuma ligação com o tipo de música que eles fazem. Já gravaram com Joni Mitchell, Joan Osborne, Diana Krall, Sinead O’ Connor e com os marmanjos dos Stones, claro. Mas também com Van Morrison, Sting, Mark Knopfler e até com o Tom Jones, veja só. Os tiozinhos são ecléticos, e isso é uma coisa boa.

E aí que, com tantos anos de estrada, dezenas de discos no currículo, como poderei dar conta, num único post, de falar sobre os álbuns dos Chieftains? E, claro, como adequar isso à temática do Odepórica? Mas então achei, que bom, um cd de onde posso puxar um gancho para o tema das viagens. Particularmente, nem é o meu preferido, porque este de que vou falar é um dos trabalhos temáticos dos Chieftains, Santiago, onde os músicos homenageiam a influência da música celta galega, região da Espanha onde descansam os restos do Apóstolo peregrino, Santiago (em Compostela).

Se você já visitou essa região da Espanha sabe que a influência celta ali presente é forte ainda nos dias de hoje. Causa um estranhamento delicioso, por exemplo, caminhar pelas ruas de Santiago de Compostela e ouvir o som dos gaiteiros, às vezes ao vivo, numa das quebradas da parte antiga da cidade. É fechar os olhos e imaginar-se nas ilhas britânicas, um barato. Aí você abre os olhos e presta atenção em dois senhores sentados na mesinha de um bar, fumando um cigarro fedido e conversando alto porque, provavelmente, já não escutam mais tão bem um ao outro, e sente outra coisa estranhamente familiar... ah, mas é claro, estão conversando em galego, que é mais parecido com o português do que com o próprio castelhano, outro barato, e a conclusão a que você chega, antes de encher a cara de Ribeiriño, é que a Galícia é mesmo uma delícia, só pra rimar e brincar um pouco com as palavras.

Mas deixando a bobeira de lado, culpa desse calor insano de São Paulo, vamos ao que interessa, ok? No encarte do álbum temos um interessante relato de Paddy Moloney (whistler e líder da banda) introduzindo o trabalho dessa gravação. Não que seja algo espetacular, não vou mentir pra você não. Mas tem de bom o aspecto documental da música, de como chegaram até a Galícia e um pouquinho de história também, que vai te ajudar a entender o que é que a Espanha tem a ver com a cultura celta. Sempre bom aprender um pouquinho, ainda mais no embalo de boa música, não é mesmo?

Santiago

Há mais de vinte anos, meu querido amigo Polig Monjarret me introduziu a maravilhosa música da Galícia, uma região verde e montanhosa do noroeste da Espanha. Galícia, cuja economia se baseou principalmente na pesca e na agricultura, tem sido desde sempre uma das regiões mais pobre da Europa. Os galegos falam seu próprio idioma (mais parecido com o português do que com o espanhol). A cultura, especialmente a música, tem mais em comum com a Bretanha, País de Gales, Escócia e Irlanda do que com a Castilha ou a Andaluzia.

A Galícia foi descrita em outros tempos como “o país céltico menos descoberto”. Em 1984, no velho porto de Vigo, atuei em um festival ao ar livre organizado pela banda galega Milladoiro. Foi ali que me apresentaram a um jovem tranqüilo e cortês chamado Carlos Nuñez. Alguns anos mais tarde, um jovem gaiteiro galego tocou para nós durante nossa visita ao Conservatório de música tradicional de Ploemeur na Bretanha. Fiquei gratamente surpreendido ao descobrir que o mesmo jovem que tocava era aquele que eu havia conhecido em Vigo.

Pouco depois, e com a ajuda de Polig e Fernando Conde, o companheiro igualmente jovem e inteligente do Señor Nuñez, fez os preparativos para que o precoce gaiteiro de Vigo tocasse junto com os Chieftains em uma apresentação. A noite resultou em uma gloriosa reunião de estilos e tradições musicais. A partir desse momento, decidi recriar e desenvolver a experiência para capturar sua essência em uma gravação, tal e como havíamos feito anos atrás com a música bretã no álbum “A Celtic Wedding”.

O projeto desenvolveu-se lentamente, levando-nos por rumos excitantes e novos nunca imaginados naquela noite de Vigo. Carlos se uniu a nós em vários cenários do mundo, como vendo o público com sua destreza sem igual com a flauta e com a gaita. Às vezes, parecia que era o sétimo membro dos Chieftains. Gravamos enquanto viajávamos, a inspiração derivando de nossos movimentos musicais nos lugares que visitávamos ao longo da rota dos peregrinos à catedral encantada de Santiago de Compostela. Os cristãos consideram esse lugar sagrado e acreditam que ali se encontra enterrado o Apóstolo Santiago. As lendas mais antigas, dos tempos celtas, falam de outra peregrinação que seguia as estrelas da Via Láctea até o fim da terra (Finisterre). Transcendendo suas próprias origens misteriosas, a peregrinação continua atraindo milhões de pessoas em todo o mundo em direção a esta terra longínqua.

Durante nossas viagens, provamos das emoções e dos estilos musicais das culturas próximas, desde a bretã até a vasca, da asturiana até a portuguesa e mais além. Há música dos tempos medievais, quando a peregrinação estava no seu auge, e música de uma época mais antiga com origens muito mais obscuras.

A música da história mais contemporânea evoluiu quando os galegos, como muitos de seus primos célticos, imigraram em massa para o novo mundo. Estabeleceram-se principalmente no sul, ancorando suas raízes desde o México até o Caribe e Américas Central e do Sul. Em nossas viagens, só podíamos provar de alguns desses estilos exóticos. Em Cuba com Carlos e nosso bom amigo Ry Cooder e depois no sul da Califórnia com Los Lobos e Linda Ronstadt.

Outros países com a música impregnada na riqueza da tradição galega nos tentaram a seguir com a peregrinação. Infelizmente, por enquanto, o tempo e os horários deram um tempo em nossas viagens. Argentina, Brasil e Venezuela terão que esperar outro momento, outro projeto, outra jornada de regresso a Santiago.
Paddy Moloney, Julho de 1996.

Bueno, se você quiser ser iniciado em Chieftains, há sempre a boa opção de comprar um cd com os melhores sucessos. Lançado no Brasil, o álbum The Chieftains: The wide world over traz dezenove grandes canções, numa coletânea que dá para ter, pelo menos, uma noção do viés musical e da competência dos irlandeses.

Se o seu interesse não vai tão longe, eu entendo, pelo menos baixe algumas canções para ouvir no seu mp3. Vou indicar algumas: The Magdalene Laundries, com Joni Mitchell, que arrasa; I know my love, com os irlandeses do Corrs; Factory Girl, na voz de Sinéad O´Connor, que ficou bem bonita; Shenandoah e a versão de Have I told you lately that I love you, com Van Morrison, que é o máximo, sempre; Morning has broken, linda na voz do Cat Stevens ficou espetacular com Diana Krall e Art Garfunkel; The rocky road to Dublin, com os Stones, um must; pra terminar, se você curte reggae, Redemption Song, com o Ziggy Marley, um pequeno tesouro.

Abaixo, a capa do disco Santiago, de onde tirei o material desse post.



sábado, 11 de julho de 2009

As viagens de Loreena: uma jornada musical

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Todas as viagens, principalmente aquelas que nos levam a visitar uma cultura diferente da nossa, guardam características peculiares que encantam e marcam nossa memória por toda a vida। Podemos facilmente nos esquecer de como era o interior de uma catedral que apenas conseguimos situar na memória de maneira nebulosa, quando muito। Ou de um pequeno e simpático povoado onde paramos para abastecer o carro alugado e tomar um café acompanhado de um doce típico, cujo nome jamais voltaremos a pronunciar, mas que naquele instante nos pareceu o mais saboroso de toda a nossa vida।

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Entretanto, percebo que há duas coisas que fazem com que uma cena específica de uma viagem retorne como que por encanto à memória. Uma delas é o olfato. O cheiro de um pão de queijo assado, misturado com o aroma de um café recém coado pode te levar imediatamente para aquela pousadinha simpática de uma cidadezinha do sul de Minas, ou não? Claro que isso vai depender do seu histórico de vida, de como essa imagem tenha a ver com o contexto de suas lembranças.


Além do olfato, a audição tem um papel fundamental no que tange à memória de uma viagem. A música, a sonoridade da língua, o timbre de um instrumento musical, tudo isso tem muita relevância numa viagem. Tudo isso, de algum modo, nos ajuda a reviver momentos passados, cenas vividas num tempo-espaço que parece congelado em algum ponto de nossa existência.
E o que dizer, então, de uma música que nos transporta a lugares que nunca estivemos, mas que nos parecem estranha e melancolicamente familiares? Alguns artistas conseguem essa proeza. A canadense Loreena Mckennitt é uma delas.


Loreena vem se dedicando há alguns anos a divulgar a musicalidade celta, mas seu trabalho é muito mais rico e complexo do que, por exemplo, o de outra artista muito conhecida, a irlandesa Enya, a quem sempre é comparada. Enquanto esta última parece repetir a mesma fórmula em todos os seus trabalhos, Loreena surpreende seus ouvintes com álbuns de uma riqueza sonora admirável. Grande parte do potencial criativo dessa artista canadense provém do contato que ela e sua equipe mantêm com outras culturas; seus álbuns não trazem apenas a melodia do imaginário celta irlandês, mas apresentam também a musicalidade árabe, marroquina, ibérica, numa mistura que surpreende o ouvinte desde o primeiro acorde.


As viagens têm um papel fundamental no trabalho de Loreena. Nos encartes dos álbuns ou em textos publicados em seu site, journey é uma palavra recorrente. De fato, a audição de sua música pode servir como pano de fundo de uma jornada pelo imaginário celta, e essa fuga momentânea da realidade faz muito bem à alma.


Mas o que nos levou a escrever sobre Loreena Mckennitt foi o papel da viagem em sua obra e nada melhor do que irmos direto à fonte para sabermos como as viagens influenciaram seu trabalho. Os pequenos textos abaixo, fragmentos dos diários de suas viagens, foram retirados do encarte de alguns discos e do website da artista, cujo conteúdo pode ser acessado através do link http://www.quinlanroad.com/

Notas de viagem de Loreena Mckennitt

“O meu olhar vagueou através da janela aberta sobre a Espanha do século XV, através dos tons do Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, e foi atraído para um mundo fascinante de história, religião, fertilização inter-cultural... Desde o território mais familiar da costa Oeste da Irlanda, através dos trovadores em França, atravessando os Pirineus em direção a Oeste através da Galiza, descendo através da Andaluzia, para além de Gibraltar e Marrocos... As Cruzadas, a peregrinação a Santiago de Compostela, os Cátaros, os Templários, os sufistas do Egito, as Mil e Uma Noites na Arábia, as imagens sagradas Celtas de árvores, o Evangelho Gnóstico... quem foi Deus? O que é a Religião e o que é o espiritualismo? O que foi revelado e mantido em segredo?”

“Granada, Espanha... ao anoitecer... as luzes da cidade envolvem o corpo de Alhambra; nas ruas estreitas pairam os odores de lenha queimada e comida. Passeei pela área Muçulmana da cidade; comprei um pequeno espelho de ouro, um vaso para queimar incenso e um pequeno frasco de perfume... Continuo a ler o livro de Idries Shah intitulado “Os Sufistas”, cujo prefácio é de Robert Graves... sendo uma tradição secreta por detrás de todos os sistemas religiosos e filosóficos, os Sufistas influenciaram significativamente o Oriente e o Ocidente.”


“Outubro de 1990. Annaghmakerrig, Irlanda... tenho tentado criar composições e a configuração para o (álbum) The Visit. Trouxe comigo vários livros de letras de música, poemas e outras influências: a tapeçaria de unicórnio, o ramo de ouro. Converti em música algumas letras tradicionais; estou sendo atraída pelo som da harpa e a essência de uma fábula onde uma menina, afogada pela sua irmã ciumenta, reencarna primeiro como um cisne e depois é transformada em uma harpa... a região campestre da municipalidade de Monaghan seria um local ideal para uma interpretação visual, com os seus lagos, florestas e campo ondulado.”

“16 de março de 1993. Cheguei esta noite em Marrakesh e estou hospedada numa esquina próxima ao mercado. Deu-se início ao Ramadã e há muita atividade por toda parte. Estou chocada com as feições fisionômicas dos homens sendo cobertas conforme eles passam pelas claridades e escuridões: eles se parecem com monges. Cavalos, carruagens, carros, bicicletas e milhares de pessoas estão envolvidos na confusão das atividades noturnas, uns sons desafinados... Eu me retiro para o telhado de um café para olhar atentamente enquanto bebo meu chá de hortelã... Muitos círculos de vinte ou mais pessoas estão espalhadas por toda parte do mercado, cada um envolvido em seu próprio drama de música, contos de histórias, macacos nos ombros de homens, ou cobras sendo bajuladas para “dançar” nos tapetes; preparações “mágicas” de ossos, sementes, pedras e temperos sendo vendidas... As mulheres estão cobertas razoavelmente... Estou impressionada pelo sentido de intriga que o ambiente cria, tanto quanto é escondido como é revelado...”

“Ao lançar a rede de inspiração como artistas, ficamos familiarizados com a humildade que advém da constatação de que os nossos melhores planos resultaram em algo não pretendido ou de que os nossos registros se tornaram em algo diferente do esperado. Assim, partimos para Roma... e acabamos em Istambul. Partimos para o Japão... e acabamos num trem atravessando a Sibéria. A viagem, e não o destino, torna-se uma fonte de fascínio.”

“Afinal, pergunto-me se uma das mais importantes fases da nossa viagem não será aquela na qual jogamos fora o mapa. Ao nos vermos livres dos grilhões criados pelas nossas idéias preconcebidas talvez estejamos em melhor posição para revelar os verdadeiros segredos de cada local, para recordar que somos todos extensões de nossa história coletiva.”

“Outubro de 1996, Casa de Cecil Sharpe, Londres: Ao estudar a música do Oriente Médio, deparei com estas palavras provenientes de um filósofo do séc. IX, Abu Sulaiman al-Davani: ‘A música e o canto não criam no coração aquilo que não se encontra lá. ’ Outros contemporâneos de uma data mais recente sugeriram: ‘Aqueles que são afetados pela música podem ser divididos em duas categorias: aqueles que ouvem o significado espiritual e aqueles que ouvem os sons materiais. Existem resultados bons e maus em ambos os casos. ’”.

“18 de dezembro, 1995, Caminho de Ferro Trans-Siberiano. É o quinto dia da minha viagem de trem através da Sibéria. Viajando sozinha, é estranho não ser capaz de conversar com alguém mas aprendemos assim o quanto pode ser transmitido através das nossas ações, linguagem corporal, um olhar... vi alguns homens na estação hoje e um deles parecia-se mesmo com o meu pai. Tinha cabelo ruivo e uma cara muito celta que eu esperaria encontrar apenas na Irlanda e não na Rússia...”

“Placas de sinalização para Roma, um desvio para Munique, um engarrafamento a caminho de Hamburgo, um posto de gasolina na auto-estrada nos arredores de Barcelona, Páscoa em Bruxelas, ônibus e caminhões que viajam durante a noite. Vôos para Montreal, Nova Iorque ou Los Angeles, as luzes dos aeroportos, auto-estradas e estradas... a mistura exótica e eclética de experiências, desde o sublime ao ridículo, desde o tocante ao irritante, desde o rejuvenescedor ao cansativo, a nossa motivação para viajar está constantemente sendo posta à prova e reexaminada de diferentes perspectivas.”

“O meu primeiro ponto de partida nessa jornada de descoberta foi a minha investigação sobre o povo celta e suas histórias, e inclusive sobre os muitos caminhos que começaram deles, tanto historicamente quanto geograficamente. É com uma visão nessa história que este documento musical desenvolveu-se, com reflexões em temas humanitários universais sobre a vida e o amor, a conquista e a morte; sobre o lar, a identidade, as migrações dos povos e a evolução das culturas. Eu acredito que os nossos caminhos podem ser diferentes, mas as nossas buscas são compartilhadas: o nosso desejo de amar e ser amado, a nossa sede pela liberdade e a nossa necessidade de ser apreciado como indivíduos exclusivos dentro da nossa sociedade coletiva.”

“As minhas viagens em preparo para esta gravação me conduziram à hospitalidade e ao conhecimento das pessoas de vários locais, incluindo uma família nômade no interior de Mongólia e o povo uighur no noroeste da China onde se acredita que os predecessores dos celtas tenham sido encontrados. Eu visitei as grandes planícies no interior da Anatólia e Éfeso na Turquia; andei entre as flores inebriantes das laranjeiras na ilha grega de Chios; e na Jordânia, escutei os ecos das vozes circassianas e vi as rochas da antiga cidade de Petra. Conforme fico pensando sobre todos os séculos de história que nos permitem extrair lições de antigas vozes, acabo ficando convencida que somos uma culminação das nossas histórias coletivas. Eu acredito que deveria ter algo mais que nos unisse ao invés de nos afastar. Além disso, eu continuo esperançosa que conforme buscamos uma diversidade harmoniosa e integrada, seremos instruídos por convicções coletivas que são, em sua essência, afirmações sobre a vida.”

“Mansão Perleas, Chios, Grécia, 23 de abril de 2005. É o aroma das flores de laranjeiras que me faz pensar no passado, de todos aqueles séculos de primaveras e a nova vida despertando. Na distância, os pássaros, os galos, as crianças brincando e os cachorros latindo contribuem com as suas presenças para uma história sem fim. Como eu não havia estudado literatura clássica anteriormente, um dos objetivos que eu designei para mim mesma nessa viagem é de compensar por este fato. A minha busca é para compreender a identidade e o conceito do lar. Em um mundo que agora é tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno, a nossa percepção dessas palavras tem sido comprometida e precisamos redefini-la.”

“Enquanto escuto um livro-áudio sobre a Odisséia de Homero, eu fico pensando sobre as jornadas que muitas pessoas fizeram em tempos antigos. As jornadas eram difíceis, muitas vezes longas e a perspectiva de nunca retornar sempre foi uma possibilidade. De fato, essas não são simplesmente experiências antigas, mas também contemporâneas. E quando pensamos em termos de jornadas, não escutamos somente as vozes daqueles que partem – para lutar nas guerras, para fugir da perseguição, ou simplesmente indo à busca de uma vida melhor – mas também as vozes daqueles que ficam para trás.”

“A minha esperança é de que este trabalho possa estimular a curiosidade do mesmo modo que os melhores livros de viagens. As melhores recordações de todas as viagens, sejam elas imaginárias ou reais, são aquelas que nos recordam que as vidas das pessoas são fortalecidas pela família e amigos, pelas nossas tentativas de criar a vida de alguém como se cria uma obra de arte e os nossos esforços para conciliar as nossas necessidades materiais com a importância das nossas relações com os outros.”

É isso. Se você ainda não conhece o trabalho de Loreena Mckennitt, no site acima indicado há links para vídeos e informações detalhadas sobre cada um de seus álbuns. Se ficou inspirado para comprar ou presentear alguém, indico três títulos irretocáveis em minha opinião: The Visit, The mask and the mirror, e The book of secrets. Boa viagem!