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quarta-feira, 11 de junho de 2014

El Caminante (Caminhada), by Hermann Hesse

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Faz pouco tempo estava assistindo a um programa de televisão em que dois homens vivem viajando pelos Estados Unidos à procura de raridades, objetos antigos que as pessoas guardam em casa e que algumas vezes valem um bom dinheiro, dependendo do estado de conservação em que se encontram e do potencial de venda, na maioria das vezes, para colecionadores.

Foram parar numa casa no Texas onde a dona, uma enfermeira aposentada, estava disposta a vender quase todos os itens de sua eclética coleção de quinquilharias - de tudo um pouco: brinquedos, latas, calotas de carros, ferramentas, sabonetes de hotel, revistas, instrumentos médicos, nada combinando com nada, mas a cabeça de um colecionador compulsivo não parece seguir um critério lógico de qualquer maneira.


Entretanto, o que me chamou a atenção no episódio não foi a quantidade absurda de bugigangas daquela casa, mas a atitude dos caçadores de relíquias. A dinâmica do negócio é simples: eles pegam o que lhes interessa e perguntam à pessoa quanto ela quer pelo objeto. Normalmente o dono pede um valor e eles regateiam, até chegarem a um preço que seja do agrado de ambas as partes, algo normal nesse tipo de negócio. O que eu não esperava ver era o contrário do habitual, quando ao perguntarem quanto uma senhora queria por uma peça de um maquinário de trem ela respondeu 70 dólares e eles lhe ofereceram $170, porque aquele era o valor mínimo que alguém poderia oferecer pela peça. A mulher mal pode acreditar, assim como eu, pelo que pensei: que bom que existe gente assim no mundo.

Escrevo sobre isso porque muitas vezes acontece a mesma coisa comigo quando encontro em um sebo um livro que buscava há algum tempo e ao encontrá-lo me surpreendo com o valor irrisório indicado na contracapa, a lápis. Será possível? Esse valor deve estar errado, como assim? Mas quando o livreiro me confirma o preço eu sinto um misto de felicidade e de decepção, afinal de contas meu objeto de desejo vale muito mais do que aquele valor insignificante. A decepção, claro, passa rapidinho, e a felicidade segue comigo na volta a casa.


Foi o que me aconteceu quando consegui um exemplar fora de catálogo do pequeno e fascinante livro El Caminante (Caminhada, em português), do bem-aventurado escritor alemão Hermann Hesse (e se não estou enganado, foi uma indicação de leitura do colega Davi, do blog vousairparaverocéu).

Tive que esperar quarenta dias para ter o livro em mãos, que arrematei pela Abebooks e que me foi enviado por um livreiro do Chile. Trata-se de uma edição espanhola de 1981 da obra de Hesse e tem o tamanho padrão de um livro de bolso: El caminante: prosas, poemas y acuarelas del autor de Siddharta. São apenas 105 páginas com 23 pequenos relatos e poemas inspirados nos passeios que Hermann Hesse fez pela região dos Alpes em 1918. A natureza e a solidão andam de mãos dadas nessa coletânea de Hesse, que aproveitou a beleza dos lugares por onde andou para pintar suas aquarelas, de modo que o pequeno volume dessas impressões do viajante pelos vales e povoados suíços ainda brinda o leitor com os singelos traços aquarelados do escritor.


 O exemplar usado que tenho em mãos está cheio de anotações a lápis, mas ao invés de me causar desagrado, fiquei curioso ao comparar aquilo que lia com o que o antigo dono havia anotado e que deveria ter lhe parecido importante e de uma maneira estranha senti que minha leitura de certo modo invadia a intimidade de alguém, que pelo contexto das anotações, deveria estar vivendo um intenso período de melancolia.


Melancolia é uma palavra que se encaixa bem em diversos momentos dessa obra, que traz à luz muitas passagens da vida do autor e também seu apreço pela solidão e pelos mistérios da vida, a espiritualidade sempre latente em sua obra: “Eu confio que Deus está em mim / confio que minha tarefa seja sagrada / e desta confiança vivo”, momento inspirador em que fala sobre as árvores, e que continua assim:

Quando estamos tristes e mal conseguindo suportar a vida, uma árvore pode nos falar assim: Aquieta-te! Aquieta-te! Contempla-me! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Esses são pensamentos infantis. Deixe que Deus fale dentro de ti que logo esses pensamentos se emudecerão. Tu estás triste porque teu caminho te afasta da mãe e da pátria. Mas a cada passo teu e a cada dia te aproximas mais de tua mãe. A pátria não se encontra nem aqui, nem ali; ou a pátria está em teu interior, ou não está em parte alguma.


A vontade de vagamundear faz meu coração acelerar quando ouço ao entardecer o sussurro das árvores; se escutares por um longo momento e com a quietude necessária, vais aprender também a essência e o sentido desta necessidade do caminhante. Não é, como parece, uma fuga do sofrimento, senão a nostalgia da pátria, da lembrança da mãe, de novas parábolas para a vida, que é o que te conduz ao lar. Todos os caminhos te levam para casa, cada passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada tumba uma mãe.


É isso o que sussurra a árvore ao entardecer, quando temos medo de nossos próprios pensamentos infantis. As árvores têm pensamentos dilatados, prolixos e serenos, assim como uma vida mais longa do que a nossa. São mais sábias que nós, enquanto não as ouvimos, mas quando aprendemos a escutá-las, a brevidade, a rapidez e a pressa infantil de nossos pensamentos adquirem uma alegria sem precedentes. Quem aprendeu a escutar as árvores já não deseja ser uma árvore. Não deseja ser nada além do que já é. Isso é a pátria. Isso é a felicidade.


 Coisa mais linda não há. Quando leio passagens como essa me sinto muito cru para a vida, porque há tantas coisas a serem descobertas e vividas e o tempo passando tão rápido... precisamos nos conectar novamente com essa fonte primordial e é inegável o quanto somos beneficiados quando podemos estar mais próximos da natureza.

Por isso sou um apaixonado pelas viagens em que caminhar é a rotina principal dos dias e uma vez que você se entrega a esse tipo de viagem, nada mais parecerá tão interessante, nem o museu mais aclamado, nem o restaurante mais estrelado, e muito menos as compras mais desejadas. Todas essas coisas são apagadas de nossas memória com o tempo, mas as longas jornadas, essas permanecem para sempre conosco, porque foram vividas de maneira mais intensa, às vezes até mesmo sofridas.


Acredito que a leitura dessa obra de Hesse sobre suas caminhadas ganhe ainda mais brilho hoje do que na época em que foi editada, há quase cem anos. Talvez porque temos tendência a achar que no passado as coisas eram melhores, uma visão romântica das coisas que em parte não deixa de ser real, se olharmos à nossa volta e vermos o que fizemos com a natureza, só para citar um exemplo.


Sentimos falta de tudo aquilo que o escritor relata ter vivido naquela viagem pelos Alpes, experiências e visões cujos títulos, tão simples, escondem escritos profundos de uma alma inquieta e sonhadora como a dele: Cemitério rural, Passeio ao entardecer, Aldeia, A ponte, Granja, Árvores, Tempo chuvoso, Capela, Céu nublado... E o incrível é que todo o cenário por ele descrito se assemelha muito a qualquer paisagem de uma cidadezinha do sul de Minas, de modo que a empatia com os textos desse relato nos acomete naturalmente. Veja alguns excertos:

(...) Não deixarei aqui o meu coração, como se diz nas cartas de amor. Oh, não, o coração eu o levarei comigo, também dele necessito nas montanhas e em todas as horas. Porque sou um nômade, não um camponês. Sou um amante da infidelidade, da mudança, da fantasia. Não me seduz encadear meu coração a um pedaço de terra.


(...) Desde as montanhas sopra uma rajada úmida. Do outro lado, ilhas azuis e celestes contemplam nossas terras; sob aqueles céus serei feliz e com a mesma frequência sentirei saudades de casa. O perfeito representante de minha espécie, o puro vagamundo, não deveria conhecer esta nostalgia. Eu a conheço, não sou perfeito e também não pretendo sê-lo. Quero saborear minha nostalgia como saboreio os meus amigos.


(...) Todos nós vagamundos somos feitos dessa maneira... Nossa ânsia de errar e vagamundear é em grande parte amor, erotismo; a metade do romantismo de uma viagem não é outra coisa senão uma esperança de aventura; mas a outra metade é uma necessidade inconsciente de transformar e diluir o erótico. Nós caminhantes estamos acostumados a albergar desejos amorosos precisamente por conta de seu caráter irrealizável, e aquele amor que deveria pertencer a uma mulher nós o repartimos, brincando, entre povoado e montanha, lago e desfiladeiro, crianças do caminho, os mendigos de uma ponte, o boi de uma pradaria, um pássaro, uma borboleta. Separamos o amor do objeto, o amor em si é suficiente para nós, do mesmo modo que não buscamos o destino na peregrinação, senão unicamente desfrutá-lo, estar a caminho é o que importa.


Creio que esse livro me tocou pelo fato de ser uma coletânea de relatos e visões das coisas simples que acontecem a todo instante em nossas vidas e já não mais nos damos conta, até mesmo por uma questão geográfica, pelo que viajar se torna algo mais do que um prazer, senão uma necessidade, uma oportunidade de podermos mudar o ritmo de nossas vidas e voltar a olhar o mundo com os olhos de uma criança, citando Matisse.

É dessa maneira que podemos fazer do ato de viajar um rito, onde alguns pré-requisitos se tornam necessários, entre eles o contato com a natureza e as longas caminhadas, duas coisas que nós, que vivemos nas grandes cidades, não temos acesso e não praticamos com a frequência que deveríamos. Particularmente, sempre desconfio da sanidade daqueles que afirmam detestar caminhar. Bem aventurado o ser que caminha e que sabe praticar a solidão.


Hermann Hesse tinha esse perfil de caminhante, um verdadeiro peregrino - per agro -, aquele que viaja pelos campos. Interessante notar que Hesse escreveu essa obra depois de um longo período de abstinência literária, durante a qual ele deu assistência a prisioneiros de guerra. Viajando por aqueles campos e montanhas, pintando suas aquarelas, vivendo uma vida mais simples e imerso em solidão, ele colocou em prática uma rotina mais contemplativa e, provavelmente não por acaso, foi depois dessa viagem que ele escreveu seus melhores e mais aclamados textos, entre eles Demian (1919), Siddharta (1922), O Lobo da Estepe (1927) e Narciso e Goldmund (1930).  


E quando não podemos cair na estrada, seja por falta de oportunidade, seja por preguiça ou outra desculpa qualquer, ainda nos restam os livros, nossas setas, apontando caminhos, despertando novas possibilidades, quem sabe... Lendo El Caminante, de Hermann Hesse, me fez querer viajar novamente pelo interior das Minas Gerais (sempre Minas...), acordar cedo e depois do café andar sem pressa por uma estradinha de terra, subir um morro e ver o mar de montanhas se perdendo no horizonte da Mantiqueira até o por do sol chegar. No meio do caminho, uma parada para comer, e se não houver um bar por perto, se improvisa algo, assim como fazia Hesse em seus passeios:

(...) Hoje meu lugar se encontra sob uma árvore à margem de um lago; desenhei uma cabana com o gado e algumas nuvens. Escrevi uma carta que não irei remeter. Agora tiro de minha mochila o almoço: pão, salsichão, nozes e chocolate.


Aqui perto há um pequeno bosque de bétulas e vi muitos galhos secos no chão. Me acomete o desejo de fazer uma pequena fogueira, convertê-la em minha camarada e sentar-me ao seu lado. Vou até ali, recolho um montão de lenha, ponho papel debaixo e meto fogo. A fumaça fina ascende alegre e ligeira, a chama vermelha tem um aspecto singular ao sol do meio dia.

O salsichão é bom, amanhã comprarei mais. Quem dera tivesse algumas castanhas para assá-las no fogo! Depois do almoço estendo a jaqueta sobre a relva, descanso nela a cabeça e contemplo minha pequena fumaça sacrificial, que sobe às alturas.


(...) O fogo apagou, o sol se moveu imperceptivelmente. Hoje quero caminhar ainda um longo trecho. Enquanto guardo as coisas e fecho o meu bornal, me lembro de uns versos de Eichendorff, que cantarolo de joelhos: “Logo, tão logo, chegará o tempo sereno / e também eu descansarei / e em cima de mim / sussurrará a bonita solidão do bosque / e nem aqui conhecerei alguém. 



Sinto pela primeira vez que nestes amados versos a melancolia é também a sombra de uma nuvem. Esta melancolia não é mais do que a música suave da caducidade, sem a qual o belo não nos emociona. Carece de dor. Sigo meu caminho com ela e subo, contente, pelo sendeiro da montanha, o lago se encontra muito abaixo de onde estou; passo junto ao arroio de um moinho, um grupo de castanheiras e uma roda abandonada, e me adentro no dia azul e silencioso.


Leia: Caminhada. Hermann Hesse. O livro foi editado no Brasil pela Ed. Record, mas encontra-se fora de catálogo. É possível encontrá-lo a bom preço no site da Estante Virtual. 

domingo, 29 de abril de 2012

Andares, by Hermann Hesse

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Diz o Paul Pitchford, renomado estudioso e autor de um magnífico tratado sobre cura e alimentação (Healing with whole foods) que o outono, de acordo com os princípios da medicina tradicional chinesa, é a estação da colheita, uma época para agrupar, recolher e juntar nossas partes em todos os níveis focando nosso interior; um período para coletar e armazenar combustível, alimentos e roupas adequados ao frio, uma época de estudo e planejamento para a quietude que se aproxima com a chegada do inverno.

Não é só na saúde que sentimos o efeito das estações do ano sobre nosso corpo; com a chegada do frio, dos dias mais curtos, sentimos necessidade de recolhimento, como escreve Paul Pitchford acima, e isso se reflete em todos os níveis: físico, mental e emocional.

Se o outono é a época do recolhimento, do olhar voltado para o interior, nada mais natural do que sentir-se atraído por leituras que auxiliem nesse processo. No meu caso, por exemplo, costumo reler algumas obras de conteúdo espiritualista, biografias de pessoas que admiro e poesia. Não me lembro de alguma vez ter em mãos minha preciosa pequena coleção de poemas do Fernando Pessoa num dia ensolarado de verão; para mim, a poesia pessoana pede a sobriedade e melancolia dos dias cinzentos e frios, leitura solitária e meditativa cujo prazer só conhece quem a ele se entrega.


Entretanto, devo confessar que sou um leitor muito limitado de poesia; tenho nessa arte dois ídolos, o português Fernando Pessoa e o brasileiro Paulo Leminski. Às vezes leio outros poetas, mas nenhum consegue fazer tanto a minha cabeça quanto esses dois malucos beleza acima citados.


Mas eis que surge um terceiro: Hermann Hesse, autor que já passeou por aqui mais de uma vez e que eu admiro muito. Não me lembrava: Hesse também foi poeta e descobri isso por mero acaso, quando dia desses entrei em um sebo e dei de cara com um livro dele intitulado Andares – Antologia poética. Uma baita alegria, fiquei tão absorto com a leitura, ali mesmo em pé dentro do sebo, que até me esqueci o que havia ido procurar.


Hermann Hesse foi um romancista muito voltado para as questões místicas, tendo levado para seus romances provavelmente muito daquilo que ele próprio buscava em vida. Não vejo mais ninguém usando - e isso deve ser influência de minhas leituras teosóficas – mas o termo “buscador” me parece muito apropriado para qualificar o tipo de homem que foi Hermann Hesse. Em um de seus poemas, intitulado Caminho interior, fica evidente a ligação de Hesse com a questão espiritual, presente em grande parte dos poemas que compõem essa coletânea:






Quem descobre o caminho interior,


quem na mais fervorosa introspecção


vislumbra o cerne da sabedoria,


passa a sentir Deus e o mundo


à sua imagem e semelhança:


para ele, cada ação ou pensamento


será um diálogo com a própria alma,


que a Deus e ao mundo em si mesma contém.




Os poemas de Herman Hesse levam-nos a refletir sobre a vida, a natureza e a morte, e sobretudo sobre a solidão; parecem querer mostrar, a cada instante, a finitude e brevidade da vida, conclamando o leitor a despertar para a única e verdadeira missão do ser humano, que é o encontro com sua natureza divina, aquilo que no Oriente é conhecido como auto-realização e que Jung denominou de (processo de) individuação.


Como entusiasta de tudo aquilo que se refere ao processo de transformação em deslocamentos, cujo arquétipo maior se encontra na figura do peregrino, recolhi três poemas desses Andares de Hermann Hesse para você, leitor/a do Odepórica, ler e se encantar. Palavra bonita essa: encantar, que por acaso aparece em um dos poemas que você irá ler a seguir e que diz assim: “dentro de cada começar mora um encanto”. Boa viagem.





A caminho do Oriente




A esmo por este mundo, desgarrado das Cruzadas,


muito irmão há de vagar pelos áridos desertos


dos números e das horas, a inquietar-se afastado


da alta meta pela qual combatera e padecera;
contudo, enquanto o chamusca a desértica solina,


tem sempre em vista as palmeiras da usa terra de sonho.




Dele assim perdido zombam sem piedade nenhuma


as crianças que se ajuntam nas urbes e nos mercados;


como a Menão, entretanto, a esse colosso em letargo


cada raio de arrebol faz novamente vibrar


- e ele, Dom Quixote, ri para o castelo encantado


na distância e para as fadas que embelezam o lugar.




E sempre, por toda parte, entre os gracejos da plebe


e o sangue dos mártires, algum rapaz aparece:


ergue para Dom Quixote o maravilhado olhar,


prosterna-se, presta a Deus o sagrado juramento


e, rumo ao Santo sepulcro, acompanha o peregrino.





O peregrino




Estive sempre em viagem,


peregrino sempre.


Pouco tratei de mim:


sorte e azar vão e vêm.




Desconhecidos o sentido e o objetivo


do meu peregrinar,


das mil vezes que caí


tornei a me levantar.




Ah, havia a estrela do amor,


de que eu andava atrás:


lá nas alturas posta,


santa e longe demais.




Antes de conhecer o objetivo,


andei à toa:


tive sublimes prazeres


e alguma coisa boa.




Agora, que mal entrevi a estrela,


é tão tarde, afinal:


ela se escondeu, já,


desaba o aguaceiro matinal.




Despede-se o variegado mundo


a que eu tão bem queria:


mesmo tendo perdido o objetivo,


a viagem valeu pela ousadia.





Andares


Como emurchece toda flor, e toda idade


juvenil cede à senil – cada andar da vida


floresce, qual a sabedoria e a virtude,


a seu tempo, e não há de durar para sempre.




A cada chamado da vida o coração


deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias, aberto sempre para novos compromissos.


Dentro de cada começar mora um encanto


que nos dá forças e nos ajuda a viver.




Devemos ir contente, de um lugar a outro,


sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:


não nos quer atados, o espírito do mundo


- quer que cresçamos, subindo andar por andar.




Mal a um tipo de vida nos acomodamos


e habituamos, cerca-nos o abatimento.


Só quem de dispõe a partir e a ir em frente


pode escapar à rotina paralisante.


É bem possível que a hora da morte ainda


de novos planos ponha-nos na direção:


para nós, não tem fim o chamado da vida...


Saúda, pois, e despede-te, coração!





Leia: Andares: antologia poética. Hermann Hesse. Editora Nova Fronteira. Tradução de Geir Campos.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sonho de uma flauta, by Hermann Hesse

. (Carol Bruce. Flute player)

Se você é daquelas pessoas acostumadas a frequentar sebos, ou mesmo se é das que cultivam o hábito de entrar em livrarias apenas para dar uma olhada descompromissada nos títulos dispostos aleatoriamente pelas bancadas, vai entender bem o que aconteceu comigo outro dia.

Estava dentro de um sebo procurando uma obra fora de catálogo do Osman Lins, um autor que logo iremos conhecer melhor aqui no Odepórica, e ao fuçar as obras dispostas na parte de trás da primeira fileira de livros, achei por acaso uma que me despertou interesse pelo título impresso na lombada: Sonho de uma flauta.

Como estou estudando flauta entusiasticamente nesse ano, tirei o livro da prateleira para ver de que se tratava e me surpreendi quando vi que o autor era ninguém menos do que Hermann Hesse, um escritor que admiro bastante. Fui sentar num banquinho no fundo da livraria para folhear com calma a obra e ali mesmo li o conto que lhe dá o título. Uma preciosidade. “Preciso transcrevê-lo no blog” – pensei, e saí contentão da livraria com minhas aquisições, o Hesse, o Osman, e o Lobato, com sua deliciosa obra D. Quixote das crianças (capa dura, ilustrada e por apenas 3 reais, pode isso?).

Certas obras, pensei depois na volta a casa, parecem que se materializam à nossa frente. O que fazia o alemão do Hermann Hesse ao lado do pernambucano Osman Lins? Seria um sinal? Pode ser, quem sabe, afinal a vida não é mesmo cheia de mistérios? Em comum, as duas obras tratam do tema das viagens, embora, no caso do autor alemão, as viagens são sempre mais metafísicas do que físicas. Em comum, também, as duas obras têm as capas, que são feias de doer, como quase todas as capas de livros dos anos 70, você já reparou nisso? Ou será exagero meu?

Enfim, vamos ao que interessa e já vou avisando: o texto aqui transcrito é longo para os padrões eletrônicos blogais, mas é curtinho em se tratando de livro impresso. Talvez valha a pena imprimi-lo, para ler com calma num momento agradável, quem sabe num parque? Os textos do Hesse são assim, mais contemplativos, pedem uma atenção especial, mas em troca deixam na alma da gente uma sensação gostosa de reencontro com a essência daquilo que somos. Experimente, e se quiser comente depois aqui no blog, que tal? Namastê!

Sonho de uma flauta

(Judith Leyster, Young Flute Player)

“Toma” – disse meu pai, e entregou-me uma pequena flauta de osso – “leva isso e não esqueças teu velho pai, quando alegrares com tua música as pessoas nas terras distantes. Já é tempo de agora veres o mundo e aprenderes alguma coisa. Mandei fazer a flauta para ti, porque não sabes mesmo nenhum outro ofício e só gostas de cantar, Mas pensa também em só tocar sempre canções bonitas e agradáveis, senão seria pena pelo dom que Deus te concedeu.”

Meu querido pai entendia pouco de música, não era um sábio; pensava que eu tinha apenas de soprar a linda flautinha e tudo estaria bem. Eu não queria decepcioná-lo, por isso agradeci, botei a flauta no bolso e me despedi.

Nosso vale me era conhecido até o grande moinho; depois então começava o mundo, e ele me agradou bastante. Uma abelha cansada do vôo pousou na minha manga, e eu a levei comigo, a fim de que no meu primeiro descanso tivesse um mensageiro para mandar de volta, como um cumprimento à minha terra.

Bosques e prados acompanhavam meu caminho, e o rio corria junto, vigorosamente; eu vi, o mundo diferia pouco de minha terra. As árvores e flores, as espigas de trigo e as moitas de avelã falavam comigo, cantei com elas suas canções e elas me compreendiam, exatamente como lá em casa; com isso minha abelha também despertou, subiu devagar até meus ombros, voou e tornou a cruzar duas vezes comigo, com seu zumbido profundo e doce, e então voltou para a minha terra.

Aí apareceu diante do bosque uma mocinha, que carregava uma cesta no braço e um largo e sombrio chapéu de palha na cabeça loura.

“Bom dia” – disse-lhe eu – “aonde vais?” “Devo levar a comida aos ceifeiros” – disse ela, e caminhou ao meu lado. “E para onde queres ir ainda hoje?” “Vou para o mundo, meu pai me mandou. Ele acha que devo tocar flauta para as pessoas, mas isso ainda não sei direito, preciso primeiro aprender.” “Bem, bem. E que sabes então direito? Alguma coisa é preciso saber.” “Nada de especial. Sei cantar canções.” “Que canções?” “Canções de todo tipo, sabes, para a manhã e para a tarde e para todas as árvores e bichos e flores. Agora, por exemplo, eu poderia cantar uma bonita canção de uma mocinha que vem saindo do bosque e traz comida para os ceifeiros.”

“Podes fazer isso? Então canta um pouco!” “Sim, mas como te chamas mesmo?” “Brigite”.

(Flute Player by The Gr4 yFox)

Então cantei a canção da linda Brigite com o chapéu de palha, o que ela traz na cesta, e como as flores olham para ela, e a trepadeira azul da grade do jardim sente saudades dela, e tudo o que se podia dizer. Ela prestou atenção seriamente e disse que estava bom. E quando lhe contei que estava com fome, ela levantou a tampa de sua cesta e apanhou para mim um pedaço de pão. Como mordi um pedaço e continuei firmemente a andar, ela disse:

“Não se deve comer andando. Uma coisa depois da outra.” Nos sentamos na grama e eu comi meu pão e ela cruzou as mãos morenas em volta da perna e ficou me olhando. “Queres cantar ainda alguma coisa para mim?” – perguntou então, quando terminei. “Quero, sim. Que deve ser?” “Sobre uma moça que está triste porque o amado partiu.” “Não, isso não posso. Não sei como é isso, e a gente também não deve ficar tão triste. Eu só devo cantar canções gentis e alegres, disse meu pai. Vou cantar para ti sobre o cuco ou a borboleta.” “E do amor não sabes nada?” – perguntou ela, então. “Do amor? Ora, claro, isso é o mais bonito de tudo.”

Imediatamente comecei a cantar sobre o raio de sol que ama as papoulas vermelhas e como ele brinca com elas e fica cheio de alegria. E sobre a fêmea do tentilhão, quando espera por ele e quando ele vem, ela voa para longe e parece amedrontada. E continuei a cantar sobre a menina dos olhos castanhos e sobre o rapaz que chega, canta e por isso recebe um pão de presente; mas agora ele não quer mais pão, ele quer um beijo da donzela e quer olhar os seus olhos castanhos, e continua a cantar tanto tempo e não termina, até que ela começa a rir e lhe fecha a boca com seus lábios.

Aí Brigite debruçou-se e fechou-me a boca com os lábios e fechou os olhos e tornou a abrir e eu olhei as estrelas castanho-douradas bem perto, eu próprio estava refletido ali dentro e um par de brancas flores do prado também.

(Eanger Irving Couse. Flute Player, 1930)

“O mundo é muito bonito” – disse eu – “meu pai tinha razão. Mas agora quero te ajudar a carregar isso para que cheguemos até tua gente.” Tomei-lhe a cesta e continuamos a andar, seu passo combinava com o meu e sua alegria com a minha, e o bosque suave e fresco falava da montanha em volta; eu nunca havia caminhado com um prazer tão grande. Durante longo tempo cantei alegremente, até que tive de parar de tanta satisfação; eram coisas demais que rumorejavam e contavam-se sobre o vale e a montanha e a grama e a folhagem e o rio e a floresta.
Aí pensei: se pudesse compreender e cantar ao mesmo tempo essas mil canções do mundo, das gramas e flores e gente e nuvens e tudo, da floresta velha e do pinheiral e também de todos os bichos, e além disso ainda canções dos mares longínquos e montanhas, e as das estrelas e luas, e se tudo isso pudesse ressoar e cantar em mim ao mesmo tempo, então eu seria o querido Deus, e a cada nova canção deveria ficar no céu como uma estrela.

Mas enquanto eu assim pensava, estava silencioso e maravilhado, porque aquilo antes nunca me ocorrera, Brigite parou e segurou a alça da cesta.

“Agora devo ir lá em cima” – disse ela – “lá no campo está nossa gente. E tu, para onde vais? Vens comigo?” “Não, ir contigo não posso. Preciso ir pelo mundo. Obrigado pelo pão, Brigite, e pelo beijo; vou pensar em ti.”.

Ela segurou a cesta de comida, e sobre a cesta seus olhos novamente se inclinaram para mim em sombras castanhas, e seus lábios prenderam-se aos meus e seu beijo foi tão bom e carinhoso, que quase fiquei triste de tanto prazer. Então gritei rápido: “Vai com Deus” – e marchei apressadamente pela estrada acima.

A moça subiu devagar a montanha, e sob as folhas de faia penduradas na orla do bosque, parou e olhou na minha direção, e quando lhe acenei com o chapéu, ela tornou a balançar a cabeça e desapareceu silenciosamente, como uma miragem, para dentro da sombra do bosque.

(Hendrik Terbrugghen. The flute player, 1621.)

Eu, porém, continuei tranquilamente meu caminho, e estava imerso em meus pensamentos, quando a estrada dobrou numa curva. Lá havia um moinho e, perto, um barco na água; dentro estava sentado um homem sozinho e parecia apenas esperar por mim, pois quando tirei o chapéu e entrei no barco, este, em seguida, começou a andar e deslizou rio abaixo. Eu estava sentado no meio do barco, e o homem atrás, no leme, e quando lhe perguntei para onde íamos, ele levantou os olhos cinzentos e encarou-me com um olhar velado;

“Para onde quiseres” – disse, com uma voz abafada. “Rio abaixo e para o mar, ou para as grandes cidades, podes escolher. Tudo me pertence.” “Tudo te pertence? Então és o rei?” “Talvez” – disse ele. “E, ao que me parece, tu és um poeta, não? Então canta-me uma canção de viagem!”

Fiz um esforço, estava com medo do homem grisalho e sério, e nosso barco deslizava rápido e silencioso pelo rio. Cantei sobre o rio, que carrega o barco e reflete o Sol e rumoreja mais forte nas margens dos rochedos e completa alegremente seu passado.

O rosto do homem continuou impassível, e quando prestei atenção, ele balançava a cabeça como um sonhador. Então, para meu espanto, ele próprio começou a cantar, e também cantava sobre o rio, e sobre a viagem do rio através dos vales, e sua canção era mais bela e poderosa que a minha, mas tudo soava diferente.

O rio, tal como ele o cantava, vinha como um destruidor vacilante pela montanha abaixo, escuro e selvagem; furioso, ele se sentia dominado pelos moinhos, coberto pelas pontes, detestava cada navio que precisava carregar, e, em suas ondas e nas longas e verdes plantas aquáticas, rindo, balançava os corpos brancos dos afogados.

Isso tudo não me agradou, e entretanto era tão belo e cheio de um acento invisível, que fiquei completamente desorientado e angustiado e me calei. Se era certo o que esse velho, sensível e inteligente cantor, cantou com sua voz velada, então todas as minhas cantigas não passavam de tolices e brincadeiras bobas de criança. Então o mundo, por causa delas, não era bom e luminoso como o coração de Deus, e sim escuro e triste, mau e sombrio, e quando os bosques murmuravam, não era de alegria, e sim de martírio.

Seguimos adiante, e as sombras foram longas, e de cada vez que comecei a cantar, meu canto soava menos claro, e minha voz tornava-se mais baixa, e cada vez o cantor desconhecido respondia com uma canção que tornava o mundo ainda mais enigmático e penoso, e me tornava ainda mais tímido e triste.

(James Kitamirike. The flute player)

Minha alma doía e eu me arrependia de não ter ficado em terra, perto das flores ou da linda Brigite, e para sentir-me seguro no crepúsculo que crescia, recomecei a cantar e cantei na luz vermelha da tarde a canção de Brigite e de seu beijo.

Aí o crepúsculo começou, e eu emudeci, e o homem no leme cantou, e ele também cantava sobre o amor e a alegria do amor, sobre olhos castanhos e azuis, sobre lábios vermelhos e úmidos, e era lindo o que ele cantava, cheio de dor, sobre o rio escurecido, mas em sua canção também o amor se tornara sombrio e temível, e um segredo mortal, no qual os homens aflitos e feridos tocavam com seu desejo e sua saudade, e com o qual se martirizavam e se matavam uns aos outros.

Escutei e fiquei tão cansado e aflito, como se já estivesse viajando desde muito tempo e houvesse passado por grande miséria e desgraça. Vinda do estranho, sentia cair sobre mim uma torrente silenciosa e fria de tristeza e receio, a penetrar no meu coração.

“Pois bem, a vida não é o que há de mais elevado e mais belo” – gritei afinal amargamente – “e sim a morte. Então te peço, rei triste, canta-me uma canção da morte!”

O homem no leme cantou somente sobre a morte, e cantou melhor do que eu jamais ouvira cantar. Mas a morte também não era o que havia de mais elevado e mais belo, nela também não se encontrava consolo. A morte era vida e a vida era morte, e elas estavam entrelaçadas numa perpétua e furiosa luta de amor, e isso era a última coisa e o sentido do mundo, e dali vinha um clarão, que parecia querer valorizar toda miséria, e de outro lado vinha uma sombra que perturbava toda alegria e beleza e as envolvia na escuridão, a alegria ardia mais íntima e bela, e o amor queimava mais profundamente nessa noite.

(Sergei Rubinshtein. Flute player)


Escutei e fiquei bem quieto, não tinha mais nenhuma vontade dentro de mim além da vontade do estranho. Seu olhar repousou sobre mim, tranqüilo e com uma certa bondade triste, e seus olhos cinzentos estavam cheios da dor e da beleza do mundo. Ele me sorriu, e então achei nele um coração, e pedi na minha dor:

“Ah, vamos voltar! Sinto medo aqui na noite e queria retornar para onde posso encontrar Brigite, ou para a casa de meu pai.” O homem levantou-se e espiou a noite, e sua lanterna iluminou claramente seu rosto magro e firme.

“Para trás não há caminho” – disse sério e amável. “A gente precisa ir sempre para a frente, quando quer penetrar o mundo. E da garota dos olhos castanhos já tiveste o melhor e o mais belo, e quanto mais longe estiveres dela, melhor e mais lindo isso vai se tornar. Ainda assim, segue sempre para onde quiseres, vou te ceder meu lugar no leme!”

Eu estava triste demais, e, entretanto, vi que ele tinha razão. Cheio de saudade pensei em Brigite e na minha terra e em tudo que me fora próximo e luminoso e que me pertencera, e que eu agora havia perdido. Mas queria tomar o lugar do desconhecido e dirigir o leme. Assim devia ser.

Por isso levantei-me em silêncio e fui andando pelo barco até o lugar do leme, e o homem veio em silêncio ao meu encontro, e quando já estávamos perto um do outro, olhou-me firmemente no rosto e entregou-me sua lanterna.

Entretanto, quando me sentei ao leme com a lanterna do meu lado, estava sozinho no barco; percebi isso com profunda estranheza, o homem desaparecera, e, contudo, eu não estava amedrontado, já pressentira isso. Pareceu-me que o lindo dia da caminhada e Brigite e meu pai e minha terra tinham sido apenas um sonho, e que eu era velho e aflito, e que desde sempre e sempre viajava sobre esse rio noturno.

Compreendi que não devia chamar pelo homem e a percepção da verdade atingiu-me como a geada.

Para certificar-me do que imaginava, debrucei-me sobre a água e ergui a lanterna, e do escuro espelho de água um rosto duro e sério me olhou com olhos cinzentos, um rosto velho, sábio, e vi que aquele era eu.

E como nenhum caminho voltava atrás, continuei seguindo sobre a água escura dentro da noite.



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Leia: Sonho de uma flauta e outros contos. Hermann Hesse. Editora Record.

domingo, 5 de julho de 2009

Viagem ao Oriente, por Hermann Hesse

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Viagem ao Oriente não é o tipo de livro que vai agradar a qualquer leitor, nem mesmo àquele que se apaixonou por Sidarta, uma das mais belas obras de Hermann Hesse, merecedora de várias e várias releituras. Entretanto, para quem não sofre de preconceito contra aquilo que podemos chamar despretensiosamente de romance místico, sugerimos dar uma chance a Hesse porque seu relato de viagem é... uma viagem, boa em todos os sentidos. Mas antes, uma dica: programe-se para ler o texto de uma sentada, assim, sem interrupções, numa tarde de domingo. Faça dessa leitura um exercício de meditação, que tal? Se você for um leitor pouco distraído, não levará mais do que duas horas para terminar as cem páginas desse pequenino romance.

O romance é narrado em primeira pessoa por um músico chamado H.H., membro da Confraria, uma espécie de liga secreta formada por artistas, filósofos, escritores, poetas, entre outros, que se dedicam a participar de uma jornada sem um destino certo, numa espécie de peregrinação rumo ao Oriente. H.H. inicia a viagem com um grupo de membros da Confraria, cada qual com seu objetivo. Aliás, ter um objetivo pessoal para empreender a jornada, afirma o narrador, é uma das obrigatoriedades de cada membro. Aqui já encontramos a primeira das muitas chaves de leitura desse relato: não se faz a viagem sem um objetivo pré-determinado. Isso tem muito sentido se formos pensar na viagem como uma oportunidade de busca pessoal, e nesse ponto já temos em mãos uma segunda chave de leitura: a viagem ao Oriente é uma viagem simbólica, portanto uma viagem interior.

O objetivo de H.H em sua jornada era o de encontrar uma bela princesa chamada Fátima, e se possível conquistar o seu amor. Um outro buscaria um tesouro, por ele denominado “Tao”, e outro, ainda, desejava capturar uma serpente chamada Kundalini, à qual atribuía poderes mágicos. Qualquer um que já tenha estudado ou lido um pouco sobre a espiritualidade oriental consegue decifrar a linguagem simbólica desses objetivos. Os membros, para serem admitidos na Confraria deveriam persistir na fé, ter coragem frente ao perigo, e amar os semelhantes.

Quem já passou por algum tipo de experiência mística, ou pelo menos viveu algo que se assemelhe a isso, sabe como é difícil relatar a alguém aquilo que palavra alguma consegue captar com a mesma intensidade da experiência vivida. Trata-se do inefável, e numa passagem, logo no começo do relato, lemos um pensamento que H.H. atribui a Sidarta:

“As palavras não conseguem expressar os pensamentos com precisão; de imediato as coisas se tornam distorcidas, tolas. E mesmo assim agradam-me, e julgo que seja certo, que aquilo que para um homem parece válido e sábio, para outro caracteriza o absurdo.”

A seguir, H.H. cita uma estrofe expressa por um dos membros da Confraria que também discute essa questão:

“Quem empreender longínquas jornadas verá muitas coisas
Distantes daquilo que considera a Verdade.
E ao relatá-las, chegando a casa,
Será muitas vezes desacreditado,
Pois os empedernidos não acreditarão
Naquilo que não vêem ou sentem distintamente...”

Assim que H.H. é aceito como membro da Confraria, inicia uma peregrinação junto a um pequeno grupo, com direção ao Oriente. Diz que às vezes caminhava em pequenos grupos, às vezes sozinho, outras em multidão, com membros das mais diversas partes. Em alguns momentos, confessa, sente dificuldade em narrar os fatos porque “[...] não vagávamos somente através do espaço, mas também do tempo. Nosso destino era o Oriente, mas também viajávamos para a Idade Média e para a Idade do Ouro; percorríamos a Itália ou a Suíça, mas muitas vezes passávamos a noite no século X, em companhia dos patriarcas ou duendes.” E a terceira (e principal) chave de leitura vem a seguir: “[...] Pois nosso objetivo não era unicamente o Oriente, ou melhor, o Oriente não era apenas um país ou um fato geográfico, era também o lar e a juventude da alma, estava em toda parte e em parte nenhuma, era o conjunto de todas as eras.”.

O relato vai beirando ao fantástico, as descrições daquilo que H.H. observa conforme a peregrinação avança nos faz lembrar de uma viagem alucinógena, como se o observador tivesse experimentado algum tipo de erva ritualística, mas não se trata disso, nem desse tipo de viagem, porque quem relata a experiência demonstra ter um total controle psíquico daquilo que está vivendo. Um pequeno excerto, para apreciar:

“Jamais esquecerei o brilho mortiço da cauda dos pavões sob o luar, surgindo entre as árvores altaneiras, nem as sereias que emergiam cintilantes, com o corpo prateado, nas margens sombrias, por entre as rochas. Dom Quixote, de pé sob a castanheira ao lado da fonte, em sua primeira vigília noturna, enquanto as derradeiras velas romanas do espetáculo pirotécnico caíam suavemente sob as torres do castelo, e meu companheiro Pablo, ornado de rosas, tocava o órgão persa para as donzelas.”

Em determinado momento, ficamos sabendo que com o grupo da Confraria seguia um criado, por todos estimado, chamado Leo. Sábio, fiel, amável, de belo rosto, sua aparição no relato por um momento nos remete ao anjo de Pasolini. No segundo capítulo, quando o grupo chega ao desfiladeiro de Morbio Inferior, num dia qualquer do mês de outubro, descobre que Leo os abandonara. A partir desse fato a história ganha uma outra dimensão; H.H. desiste da viagem, tornando-se um desertor, e seu desejo a partir de então será o de elaborar a descrição da jornada por ele vivida junto à Confraria, “visando salvar sua vida, dando-lhe novamente sentido”, atitude que terá uma conseqüência profunda no desenrolar dessa história. Já não podemos prosseguir com a análise da obra, porque o que se seguirá daqui em diante é a alma de todo o relato, a surpresa que aguarda o leitor até o último momento dessa jornada fascinante.

Viagem ao Oriente trata da busca espiritual, sem dúvida, mas também pode ser decifrado através de uma leitura psicanalítica junguiana (com a qual Hesse foi muito familiarizado), quando aquilo que H.H. vivencia, sofre, questiona, alude ao processo de individuação, ao encontro com o Self. Mas isso é apenas parte de uma leitura pessoal, e pode nem mesmo ter muito sentido para aqueles que não se interessam por essa temática. Porém, nada disso importa, porque temos convicção de que cada um sairá dessa leitura tocado de alguma maneira muito especial. Experimente.

Nosso exemplar de Viagem ao Oriente, de Hermann Hesse, foi garimpado num sebo por um preço bem baixinho. É uma segunda edição, de 1971, publicado pela Editora Civilização Brasileira.