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Dando continuidade à nossa pequena coleção de palavras
odepóricas, deparo-me com uma que não encontro em nosso vocabulário:
Nemofilista. Na verdade, o termo em inglês é Nemophilist, de origem grega, cujo significado é “pessoa que tem
paixão pelos bosques e florestas e aprecia sua beleza e solidão”.
Lindo, não?
E quem mais nos vem à cabeça quando pensamos em bosques e
solidão? Thoreau, evidentemente. E minha felicidade é a de reler trechos de
Walden, como agora, para caçar palavras e ideias que enchem nosso espírito de
alegria e prazer.
“Fui para o bosque porque queria viver deliberadamente,
defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o
que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha
vivido”.
Amo Thoreau, desde o primeiro instante, quando ainda
entrava na adolescência e já o tomava como ídolo literário; li e reli suas obras inúmeras vezes, e a cada leitura aprendo um pouquinho mais com suas divagações
sobre a vida, a simplicidade do viver, a solidão e a magnanimidade da natureza.
Para mim, um iluminado.
Transcrevo abaixo um trecho de Walden, do capítulo intitulado Solidão,
uma das passagens mais bonitas da obra escrita pelo poeta, naturalista,
historiador, filósofo e nemofilista Henry David Thoreau. Boa leitura.
♣
É uma noite deliciosa, em que o corpo todo é um sentido
só, e absorve prazer por todos os poros. Vou e volto em estranha liberdade na
Natureza, uma parte dela mesma. Quando percorro a margem pedregosa do lago em
mangas de camisa, embora esteja frio, nublado e ventoso e não veja nada de
especial que me atraia, sinto uma vulgar infinidade com todos os elementos.
(...) A harmonia com as folhas adejantes do choupo e do
amieiro quase me tira a respiração; porém, como o lago, minha serenidade se
ondula, mas não se encrespa. Essas pequenas ondas levantadas pelo vento noturno
estão tão distantes de um temporal quanto a lisa superfície cristalina.
Agora está escuro, mas o vento ainda sopra e ruge na
mata, as ondas ainda se quebram, e algumas criaturas embalam as demais com suas
melodias. O repouso nunca é completo.
(...) Quando volto para minha casa, descubro que
apareceram algumas visitas e deixaram seus cartões, um ramalhete de flores, uma
coroa de folhas de pinheiro, um nome a lápis numa lasca ou numa folha amarela
de nogueira.
Quem raramente vem à mata pega algum pedacinho da
floresta para entreter as mãos durante o caminho, e depois deixa ali, de
propósito ou por acaso. Alguém descascou um ramo de salgueiro, trançou num anel
e o deixou em minha mesa.
Usualmente há espaço suficiente ao nosso redor. Nosso
horizonte nunca está muito junto de nós. A mata fechada não está bem na nossa
porta, nem o lago, mas sempre há alguma clareira, familiar e usada por nós,
apropriada e cercada de alguma maneira, tirada à Natureza.
Por que razão eu tenho essa vasta área e circuito, alguns
quilômetros quadrados de floresta não frequentada, para minha privacidade, que
os homens abandonaram a mim? (...) Tenho todo meu horizonte cercado por matas
só para mim; de um lado uma vista distante da ferrovia, onde ela encosta no
lago, e do outro lado a vista de cerca que margeia a estrada dos bosques. Mas,
de modo geral, onde eu vivo é tão solitário quanto as pradarias.
(...) Tenho, por assim dizer, meu sol, minha lua e minhas
estrelas. E todo um pequeno mundo só para mim. À noite nunca nenhum viajante
passou por minha casa e nem bateu à minha porta, como se eu fosse o primeiro ou
último homem na face da terra; exceto na primavera, quando a longos intervalos
vinham alguns da cidade para pescar fanecas... mas logo se retiravam,
geralmente com o cesto leve e deixavam
“o mundo para as trevas e para mim”, e o recesso negro da noite nunca
era profanado por qualquer proximidade humana.
Acredito que os homens, de modo geral, ainda sentem um
pouco de medo do escuro, mesmo enforcadas todas as bruxas e introduzidas as
velas e o cristianismo.
No entanto, às vezes eu sentia que qualquer objeto
natural podia oferecer a mais suave e meiga, a mais inocente e animadora
companhia, mesmo ao misantropo pobre e ao mais melancólico dos homens. Não há
como existir nenhuma negra melancolia para quem vive entre a Natureza e tem
serenidade dos sentidos
(...) Enquanto desfruto a amizade das estações, sinto que
nada conseguirá fazer da vida um fardo para mim. (..) Nunca me senti solitário,
ou sequer oprimido por um sentimento de solidão, exceto uma única vez, e foi
poucas semanas depois de ter vindo para a mata, quando, durante uma hora,
fiquei em dúvida se a proximidade humana não seria essencial para uma vida
serena e saudável.
Estar sozinho era um pouco desagradável. Mas ao mesmo
tempo eu tinha consciência de uma leve insanidade em meu estado de espírito, e
eu parecia prever minha recuperação. No meio de uma chuva mansa, tomado por
esses pensamentos, de súbito senti uma companhia tão doce e benéfica na
Natureza, no próprio tamborilar das gotas de chuva, em cada som e cada imagem ao
redor de minha casa...
(...) acho saudável ficar sozinho a maior parte do tempo.
Ter companhia, mesmo a melhor delas, logo cansa e desgasta. Gosto de ficar
sozinho. Nunca encontrei uma companhia mais companheira do que a solidão. Em
geral estamos mais solitários quando saímos e convivemos com os homens do que
quando ficamos em nossos aposentos.
(...) A indescritível inocência e beneficência da
Natureza – do sol, do vento e chuva, do verão e inverno -, quanta saúde, quanta
disposição eles sempre proporcionam! E que solidariedade sempre têm para com
nossa espécie, de forma que toda a Natureza é afetada, e o brilho do sol se
apaga, e os ventos suspiram doloridamente, e as nuvens derramam lágrimas, e as
matas desprendem as folhas e se põem de luto em pleno verão sempre que algum
homem sofre por uma justa razão.
E eu não me entenderia com a terra? Não sou também folha
e húmus?
♣
Leia: Walden. Henry David Thoreau.










































