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terça-feira, 19 de junho de 2018

Uma palavra: Nemofilista

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Dando continuidade à nossa pequena coleção de palavras odepóricas, deparo-me com uma que não encontro em nosso vocabulário: Nemofilista. Na verdade, o termo em inglês é Nemophilist, de origem grega, cujo significado é “pessoa que tem paixão pelos bosques e florestas e aprecia sua beleza e solidão”.

Lindo, não?



E quem mais nos vem à cabeça quando pensamos em bosques e solidão? Thoreau, evidentemente. E minha felicidade é a de reler trechos de Walden, como agora, para caçar palavras e ideias que enchem nosso espírito de alegria e prazer.

“Fui para o bosque porque queria viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido”.



Amo Thoreau, desde o primeiro instante, quando ainda entrava na adolescência e já o tomava como ídolo literário; li e reli suas obras inúmeras vezes, e a cada leitura aprendo um pouquinho mais com suas divagações sobre a vida, a simplicidade do viver, a solidão e a magnanimidade da natureza. Para mim, um iluminado.

Transcrevo abaixo um trecho de Walden, do capítulo intitulado Solidão, uma das passagens mais bonitas da obra escrita pelo poeta, naturalista, historiador, filósofo e nemofilista Henry David Thoreau. Boa leitura.


É uma noite deliciosa, em que o corpo todo é um sentido só, e absorve prazer por todos os poros. Vou e volto em estranha liberdade na Natureza, uma parte dela mesma. Quando percorro a margem pedregosa do lago em mangas de camisa, embora esteja frio, nublado e ventoso e não veja nada de especial que me atraia, sinto uma vulgar infinidade com todos os elementos.

(...) A harmonia com as folhas adejantes do choupo e do amieiro quase me tira a respiração; porém, como o lago, minha serenidade se ondula, mas não se encrespa. Essas pequenas ondas levantadas pelo vento noturno estão tão distantes de um temporal quanto a lisa superfície cristalina.



Agora está escuro, mas o vento ainda sopra e ruge na mata, as ondas ainda se quebram, e algumas criaturas embalam as demais com suas melodias. O repouso nunca é completo.

(...) Quando volto para minha casa, descubro que apareceram algumas visitas e deixaram seus cartões, um ramalhete de flores, uma coroa de folhas de pinheiro, um nome a lápis numa lasca ou numa folha amarela de nogueira.



Quem raramente vem à mata pega algum pedacinho da floresta para entreter as mãos durante o caminho, e depois deixa ali, de propósito ou por acaso. Alguém descascou um ramo de salgueiro, trançou num anel e o deixou em minha mesa.

Usualmente há espaço suficiente ao nosso redor. Nosso horizonte nunca está muito junto de nós. A mata fechada não está bem na nossa porta, nem o lago, mas sempre há alguma clareira, familiar e usada por nós, apropriada e cercada de alguma maneira, tirada à Natureza.



Por que razão eu tenho essa vasta área e circuito, alguns quilômetros quadrados de floresta não frequentada, para minha privacidade, que os homens abandonaram a mim? (...) Tenho todo meu horizonte cercado por matas só para mim; de um lado uma vista distante da ferrovia, onde ela encosta no lago, e do outro lado a vista de cerca que margeia a estrada dos bosques. Mas, de modo geral, onde eu vivo é tão solitário quanto as pradarias.



(...) Tenho, por assim dizer, meu sol, minha lua e minhas estrelas. E todo um pequeno mundo só para mim. À noite nunca nenhum viajante passou por minha casa e nem bateu à minha porta, como se eu fosse o primeiro ou último homem na face da terra; exceto na primavera, quando a longos intervalos vinham alguns da cidade para pescar fanecas... mas logo se retiravam, geralmente com o cesto leve e deixavam  “o mundo para as trevas e para mim”, e o recesso negro da noite nunca era profanado por qualquer proximidade humana.

Acredito que os homens, de modo geral, ainda sentem um pouco de medo do escuro, mesmo enforcadas todas as bruxas e introduzidas as velas e o cristianismo.



No entanto, às vezes eu sentia que qualquer objeto natural podia oferecer a mais suave e meiga, a mais inocente e animadora companhia, mesmo ao misantropo pobre e ao mais melancólico dos homens. Não há como existir nenhuma negra melancolia para quem vive entre a Natureza e tem serenidade dos sentidos

(...) Enquanto desfruto a amizade das estações, sinto que nada conseguirá fazer da vida um fardo para mim. (..) Nunca me senti solitário, ou sequer oprimido por um sentimento de solidão, exceto uma única vez, e foi poucas semanas depois de ter vindo para a mata, quando, durante uma hora, fiquei em dúvida se a proximidade humana não seria essencial para uma vida serena e saudável.



Estar sozinho era um pouco desagradável. Mas ao mesmo tempo eu tinha consciência de uma leve insanidade em meu estado de espírito, e eu parecia prever minha recuperação. No meio de uma chuva mansa, tomado por esses pensamentos, de súbito senti uma companhia tão doce e benéfica na Natureza, no próprio tamborilar das gotas de chuva, em cada som e cada imagem ao redor de minha casa...

(...) acho saudável ficar sozinho a maior parte do tempo. Ter companhia, mesmo a melhor delas, logo cansa e desgasta. Gosto de ficar sozinho. Nunca encontrei uma companhia mais companheira do que a solidão. Em geral estamos mais solitários quando saímos e convivemos com os homens do que quando ficamos em nossos aposentos.



(...) A indescritível inocência e beneficência da Natureza – do sol, do vento e chuva, do verão e inverno -, quanta saúde, quanta disposição eles sempre proporcionam! E que solidariedade sempre têm para com nossa espécie, de forma que toda a Natureza é afetada, e o brilho do sol se apaga, e os ventos suspiram doloridamente, e as nuvens derramam lágrimas, e as matas desprendem as folhas e se põem de luto em pleno verão sempre que algum homem sofre por uma justa razão.

E eu não me entenderia com a terra? Não sou também folha e húmus?

Leia: Walden. Henry David Thoreau. 

domingo, 25 de março de 2018

Viajando no Outono com Thoreau

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Estou na fase de reler Thoreau, precioso Thoreau! Leio trechos saltados de Walden, releio na íntegra o opúsculo Caminhando, que na edição da José Olympo tem uma excelente apresentação do Roberto Muggiati e começo a folhear um livreto garimpado em sebo, Selections from the journals, com algumas passagens selecionadas de seus diários – Thoreau escreveu muitos diários: catorze volumes, mais de dois milhões de palavras.

Resolvo fuçar a internet e descubro que uma editora portuguesa publicou um texto inédito por aqui, Maçãs Silvestres & Cores de Outono, uma bonita edição de 2016, um livro que eu possuía em versão eletrônica em inglês, mas que graça tem? Quero meus autores favoritos ali na estante, olhando prá mim todos os dias.




Percebo que muitas vezes escolhemos nossas leituras de acordo com nossas carências. Quando volto a ler Thoreau, como agora, é porque estou sentindo falta de um contato mais próximo com a Natureza; meu corpo reclama longas caminhadas, meus olhos procuram o céu alaranjado do por do sol, minha boca sente falta da água gelada das fontes, meus pulmões o ar fresco dos bosques. É hora de viajar, de renovar as energias, de tomar banho de cachoeira todos os dias, porque coisa melhor na vida não há.



Entramos há pouco no Outono, minha estação preferida. Um haicai que li e nunca me esqueci, do mestre Leminski:

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar



Abro o livro novo do Thoreau e o prefácio já me agrada:

“Thoreau considera que a Natureza é valiosa como elemento de beleza e de felicidade para o ser humano, e que este deve regressar a ela, como algo de que fez parte, redescobrindo-a e compreendendo o que perdeu na sua caminhada para o mundo industrial: o silêncio, a vida saudável, a contemplação, a tranquilidade, o respeito pelos animais e pelas plantas, bem como a vivência espiritual e transcendente que se obtém da comunhão com ela.”



Já me sinto mais leve. Deixo para depois a primeira parte do livro, um breve tratado sobre as maçãs silvestres, e vou direto para a segunda parte, com as notas que Thoreau escreveu sobre as cores de outono (lembrando que essa estação tem início no mês de Setembro no Hemisfério Norte):

“A transformação outonal dos nossos bosques ainda não deixou uma marca profunda na nossa literatura. Outubro mal coloriu a nossa poesia.



Um grande número de pessoas, as que passaram a vida em cidades e nunca se aventuraram a vir ao campo nesta estação, nunca viu isto: a flor, ou antes, o fruto maduro, do ano. Lembro-me de um passeio a cavalo que fiz com um desses citadinos, que, embora com quinze dias de atraso para os matizes mais resplandecentes, foi apanhado de surpresa, e não queria acreditar que pudesse haver outros ainda mais fulgurantes.

Até então, nunca ouvira falar deste fenômeno. Não só muitos dos habitantes das nossas cidades nunca assistiram a este espetáculo, como raros são os que não o esquecem de um ano para o outro.



A maioria parece confundir folhas que mudam de cor com folhas secas, como se confundissem maçãs maduras com maçãs podres. Penso que, quando a cor de uma folha se torna mais intensa, isso é a prova de que ela atingiu uma maturidade tardia e perfeita, correspondente à maturidade dos frutos.

Em geral, as folhas mais baixas e mais antigas são as primeiras a modificar-se. Porém, tal como o inseto de asas perfeitas e de cores vivas tem uma vida breve, também as folhas só atingem a maturidade para cair.”



Depois dessa introdução, o autor escreve sobre carvalhos, bordos, olmos, ervas e... folhas caídas. É preciso ler para entrar no clima, é uma leitura que encanta qualquer pessoa que ama estar em contato com a natureza, um manual de contemplação. 

Para finalizar, transcrevo um trecho de um diário datado de 1853 onde Thoreau fala um pouco sobre as estações do ano, um mini- tratado de saúde natural, retirado da biografia Thoreau: o rebelde de Concord, um excelente livro de August Derleth, fora de catálogo, publicado em 1964 pela Edições GRD.
 


Viva em cada estação como é de se esperar; respire o ar, beba a água, saboreie o fruto, e submeta-se à influência da cada uma delas. Deixe que sejam sua única dieta, sua flora medicinal. Em agosto, alimente-se de bagas, não de comidas secas e carnes, temperadas, como se estivessem a bordo, singrando o vasto oceano, ou num deserto do norte. Deixe que todos os ventos o açoitem.

Abra seus poros completamente, banhe-se nas águas da natureza, em todas suas correntes e oceanos, em todas as estações. Os miasmas e as infecções vêm de dentro, e não do exterior. O inválido, arrastado à beira do túmulo por uma vida artificial, em vez de absorver somente a grande influência que a Natureza é, bebe chás de ervas especiais, prosseguindo em sua vida artificial – poupa na goteira, mas desperdiça no gargalo...



Não tem amor à Natureza, nem à própria vida, e assim adoece e morre, e nenhum médico pode salvá-lo. Deixe que a primavera o reverdeça – amadureça com o outono... Beba a influência de cada estação como uma poção, uma panaceia verdadeira, feita com todos os remédios existentes, misturados para seu uso particular.

As poções do verão nunca fizeram um homem adoecer, como as que se empilham em suas adegas. Beba vinho, não o de suas garrafas, mas o da Natureza; não aquele conservado em peles de cabra ou porco, mas sim destilado dentro de frutas sadias...




Entregue à Natureza o cuidado do engarrafamento, conserva a preservação. Pois a Natureza inteira, a cada instante, faz tudo a seu alcance para que nos sintamos bem. Ela não existe senão para isso. Não lhe resistamos...

Se tivermos a mínima vontade de nos sentirmos bem, não ficaremos jamais doentes. Os homens descobriram – ou, pelo menos, acham ter descoberto -, a salubridade de somente umas poucas coisas silvestres, e não de toda a Natureza.

Ora, a “Natureza” é apenas o outro nome de “saúde” – as estações não são senão seus diferentes estágios. Alguns homens creem não se darem bem com a primavera, ou o verão, ou o outono, ou o inverno... O que se dá, porém, é que não estão bem consigo mesmos. (Diário, 1853)

Leia: Maçãs Silvestres & Cores de Outono. Henry David Thoreau. Trad. Luís Leitão. Antígona, Lisboa. 1a edição, 2016.

domingo, 27 de novembro de 2011

Viagens interiores: Walden, by H. D. Thoreau

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Há pouco tempo acabei de reler Walden, de Thoreau e não tinha intenção de escrever sobre essa leitura por um motivo muito simples: não acredito que haja mais nada a dizer sobre Walden que já não tenha sido escrito em outro lugar, e de forma muito mais competente do que eu seria capaz de fazer.

Mas uma ideia me passou pela cabeça e resolvi colocá-la em ação. Foi assim: estava lendo uma obra no meu Kindle e percebi que há um dispositivo no brinquedo que indica as passagens que foram sublinhadas por outros leitores da mesma obra. E vem lá escrito, “essa passagem foi marcada por x número de pessoas”. Bem, é mais ou menos assim, mas na prática é isso.

Quando pego um livro emprestado ou compro algum usado, a primeira coisa que faço é dar uma folheada rápida prá ver se alguém fez alguma anotação, deixou uma nota, sublinhou uma frase, coisas dessa natureza. E depois fico pensando, por que será que a pessoa marcou essa passagem, que não tem nada de mais, e deixou passar outras tantas muito mais interessantes? A resposta é simples: a leitura é sempre algo muito, muito pessoal.



Com o Thoreau é assim, cada leitor tem a sua passagem favorita de Walden. Às vezes, numa segunda ou terceira leitura outras passagens vão se somando às primeiras e daí o livro vira um punhado de rabiscos prá lá e prá cá, e depois a gente já nem sabe porque aquela passagem da página 27 foi tão marcante a ponto de ser grifada com canetas coloridas e estrelinhas de cinco pontas nas laterais dos parágrafos. Por que será mesmo?

Eu gostei tanto dessa obra que depois comprei pela Amazon uma edição capa dura cheia de fotos encantadoras do lago e seus arredores, os bosques, as plantas e flores, as folhas secas, as pedras, a poesia em forma de natureza. O Thoreau é que era esperto, escolheu a dedo um paraíso para erguer a sua cabaninha. E algo me diz que parte do sucesso dessa obra se deve ao fato de que todos temos, lá no fundo, um desejo imenso de viver algum tempo numa cabaninha à beira de um lago.


Um resuminho da obra prá quem não conhece? Vamos lá, vou transcrever algumas passagens da introdução feita pelo Edward O. Wilson para a edição ilustrada do 150º aniversário da obra, publicada no ano de 2004:


Walden não é um lago que se sobressaia dos demais lagos e bosques do interior da Nova Inglaterra. Ainda que belo e interessante por direito, não possui o impacto das White Mountains ou da vida selvagem do Maine, nem as plantas e animais encontrados por lá, mas uma fatia modesta do grandioso bioma de Massachusetts. Não importa: a grandeza desse lugar não depende de nenhuma singularidade física, ela surge a partir de mente de um homem.

Não há muito a ser dito sobre Henry David Thoreau. Basicamente, sabemos que ele construiu uma cabana pequenina num bosque próximo a uma lagoa chamada Walden (Walden Pond, em inglês), distante 30 minutos de uma caminhada a pé desde a casa de sua mãe, em Concord.


Viveu ali uma vida monacal por dois anos, de 4 de julho de 1845 a 6 de setembro de 1847, e deixou a cabana logo após completar seu aniversário de 30 anos. Seu propósito era o de pensar e escrever com um mínimo de distração, valendo-se de sua educação clássica em Harvard e de uma enorme coleção de anotações.

Em seus longos intervalos de silêncio em Walden, ele estudou minuciosamente a natureza ao seu redor durante as mudanças das estações. Em certo sentido, ele buscou uma epifania, mas apesar de estar mergulhado numa filosofia transcendentalista de forte componente espiritual, ele não teve nenhuma experiência mística.


Thoreau possuía um temperamento reflexivo e analítico; ele chegaria às suas conclusões através de argumentos fundamentados que pudessem ser expressos numa página impressa. Ele era muitas coisas, mas acima de tudo, era um escritor.


Do lado de fora de seu refúgio, seus amigos e vizinhos continuavam com suas vidas comuns em busca de sobrevivência, status e honra. Thoreau escolheu afastar-se e observar de perto o significado de sua própria vida e a dos outros; limitou sua existência física a um nível mínimo de sustento com a intenção de sentir, pela experiência, se isso o levaria a descobrir o sentido da vida e, assim sendo, publicar o resultado dessa descoberta no futuro.

Thoreau não foi um homem que se dissolveu na natureza; ele pretendeu, desde o início, viver uma experiência minimalista com o intuito de relatá-la. Ele se embrenhou na vida selvagem dando pequenos passos; não era biocêntrico, para usar um termo moderno, mas antropocêntrico. Sua paixão era a humanidade, e ele procurou o que pudesse encontrar na natureza com intenção de levar para a humanidade.



Como qualquer pessoa que viveu sozinha num meio selvagem sabe, a mente, nessas circunstâncias se abre para a natureza. Thoreau, ao afastar-se do contato intenso com os residentes de Concord e Lincoln, e livre da maior parte das tarefas cotidianas que consumiam seu tempo, tornou-se um naturalista ainda melhor do que era. Prova disso é que nos anos pós-Walden Thoreau continuou escrevendo sobre história natural, sendo que algumas de suas observações prenunciaram conceitos modernos de ecologia. Se não tivesse morrido tão cedo, aos 44 anos, Thoreau provavelmente teria se tornado um cientista bastante influente.


Na edição da obra em português, relançada há um ano pela L&PM, temos uma introdução bacaníssima escrita pelo Eduardo Bueno, que considera Walden um guia para uma viagem interior. Concordo com ele e indico veementemente a todos leitores que busquem ler essa edição (um pocket a bom preço) com a introdução de Bueno porque ele captou de maneira exemplar o espírito dessa obra, que pede um ritmo de leitura diferente, mais lento e contemplativo, para que se possa entrar no clima e ganhar tempo com o que Thoreau irá escrever nas páginas seguintes; um tempo que, no contexto de Walden, exerce papel fundamental nas conclusões e insights que Thoreau teve durante e após sua permanência no lago.

Deixo com você as passagens que mais me marcaram em minha leitura viageira pelas páginas de Walden. Pode ser que depois dessa leitura você também se anime a dar uma passadinha por lá. Boa viagem.


Quando os homens começam a fazer com o auxílio dos animais uma obra não meramente desnecessária ou artística, mas luxuosa e fútil, é inevitável que alguns cumpram toda a outra parte do acordo com os bois, ou, em outras palavras, tornem-se os escravos dos mais fortes. Assim, o homem não trabalha apenas para o animal dentro de si, mas, como um símbolo disso, trabalha para o animal fora de si. Embora tenhamos muitos casarões de pedra ou tijolo, a prosperidade do agricultor ainda é medida pela sombra que o estábulo projeta sobre a casa.


Um rapaz conhecido meu, que herdou alguns acres, me disse que gostaria de viver como eu, se tivesse os meios. Eu não gostaria que ninguém adotasse meu modo de vida em hipótese alguma; pois além de poder encontrar algum outro antes que ele tivesse aprendido direito este de agora, desejo que possa existir o maior número possível de pessoas diferentes no mundo; mas gostaria que cada uma delas se dedicasse a encontrar e seguir seu próprio caminho, e não o do pai, da mãe e do vizinho. O jovem pode construir, plantar ou navegar, basta que não seja impedido de fazer o que ele me diz que gostaria de fazer. Se somos sábios é apenas graças a um ponto matemático, como o marinheiro ou o escravo fugido que se orienta pela estrela polar; mas é um guia suficiente para toda nossa vida. Podemos não chegar a nosso porto num período calculável, mas manteremos o curso certo.


Citando Damodara (Sri Krishna): “Os únicos seres felizes no mundo são os que gozam livremente de um vasto horizonte”.


Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.


Simplicidade, simplicidade, simplicidade! E digo: tenham dois ou três afazeres, e não cem ou mil; em vez de um milhão, contem meia dúzia, e tenham contas tão diminutas que possam ser registradas na ponta do polegar.


Há, de fato, algo de verdadeiro e sublime na eternidade. Mas todos esses tempos, lugares e ocasiões existem aqui e agora. Deus culmina no momento presente, e não será mais divino no decorrer de todos os tempos. (...) O universo responde constantemente, obediente, às nossas concepções: quer andemos depressa ou devagar, o caminho nos está aberto. Passemos nossas vidas, então, concebendo.


De manhã, eu banho meu intelecto na estupenda e cosmogônica filosofia do
Bhagavad-Gita, decorridas muitas eras dos deuses desde que foi composta, e em comparação a ela nosso mundo moderno e sua literatura parecem insignificantes e triviais; e me pergunto se não é o caso de remontar aquela filosofia a um estágio anterior da existência, tão distante está ela, em sua sublimidade, de nossas concepções.


Pouso o livro e vou à minha fonte em busca de água, e eis que ali encontro o servo dos brâmanes, o sacerdote de Brama, Vishnu e Indra, que continua sentado em seu templo no Ganges lendo os Vedas, ou habita ao pé de uma árvore com sua côdea e bilha de água. Encontro seu servo que veio buscar água para seu mestre, e nossos baldes como que se roçam na mesma fonte. A água pura do Walden se mescla à água sagrada do Ganges.


Mesmo que você aprenda a falar todas as línguas e a seguir os costumes de todas as nações, que viaje mais longe do que todos os viajantes, adapte-se a todos os climas e faça a Esfinge dar com a cabeça contra uma pedra, obedeça sempre ao preceito do antigo filósofo, e Explora-te a ti mesmo.

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos. Eu vivia lá não fazia uma semana, e meus pés já tinham calcado um caminho de minha porta até o lago.



(...) A superfície da terra é macia e se deixa imprimir pelos pés dos homens; o mesmo ocorre com os caminhos por onde viaja a mente. Como, então, devem ser gastas e empoeiradas as estradas do mundo, como são fundos os sulcos da tradição e da conformidade!




Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si sós ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor num sentido mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres.




À medida que ele simplifica sua vida, as leis do universo se mostrarão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza. Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar. Agora ponha-lhes os alicerces.


Leia: Walden, ou A vida nos bosques. Henry David Thoreau. L&PM Editora, 2010.

Walden: 150th Anniversary Illustrated Edition of the American Classic. In collaboration with The Walden Woods Project. Photographs by Scot Miller. Houghton Mifflin Company, Boston/New York, 2004.