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Disse Graham Greene que Viagens com minha tia foi o único livro que ele escreveu por
diversão. E é isso o que ele nos entrega com essa novela de humor um pouco
datado, publicada em 1969. Garimpei meu exemplar em um sebo, uma bonita 1ª
edição em capa dura, de 1970, publicada pela Civilização Brasileira.
Considerado um dos grandes romancistas do século XX,
Greene teve várias de suas obras adaptadas para o cinema. Sua escrita contempla
o universo da espionagem e da política, sendo que o próprio autor trabalhou
para o serviço secreto britânico, pelo que escreveu com muita propriedade sobre
essa temática.
Convertido ao catolicismo em 1926, narrou a perseguição
religiosa no México em 1938 nas obras The
Lawless Roads (1939) e o aclamado O
Poder e a Glória (1940); desse momento em diante a religiosidade também
teve importância em seus escritos, embora não gostasse de ser tratado como um
escritor católico, chegando a afirmar “não ser um escritor católico, mas um
católico que escreve”.
O trabalho o levou a viajar para terras distantes a
partir da década de 1930: Serra Leoa, Libéria, México, Havana e grande parte da
América do Sul e da África. Sua estadia em Cuba, no final dos anos 1950, inspirou
o romance Nosso Homem em Havana, um
de seus grandes sucessos literários.
Outra obra que contempla sua produção odepórica, também
muito conhecida e estimada, Jornada sem
Mapas (1936), trata de sua viagem pelo interior da Libéria, quando
trabalhava para a inteligência britânica. Atribui-se o título desse livro ao
fato de que não existiam na época mapas do interior da Libéria e o insólito é
que um mapa do governo norte-americano mostrava o país africano com o espaço
todo em branco, contendo apenas a palavra “canibais”.
Confesso que ignorava totalmente a importância literária
de Graham Greene, mas depois de conhecer um pouco melhor sua história de vida e
também a relevância das viagens em suas obras, estou ansioso para me aprofundar
em sua leitura.
O acaso me levou a conhecê-lo por sua obra mais leve, se
cabe o termo. Em Viagens com minha Tia,
Greene se diverte, como diz, contando a história de Henry Pulling, um monótono
cinquentão inglês, bancário aposentado, que tem como hobby cultivar dálias em seu jardim suburbano.
No funeral da mãe, Henry se depara com Tia Augusta, a quem
não via desde menino:
“Reconheci com certa dificuldade, graças a uma fotografia
do álbum da família, minha tia Augusta, que chegara atrasada, vestida como só a
falecida Rainha Mary, de saudosa memória, seria capaz de se vestir, se ainda
estivesse viva e se adaptasse um pouco à moda atual. Espantei-me com seu cabelo
ruivo e brilhante, penteado de maneira monumental, e com seus dois grandes
dentes da frente, que lhe davam um vigoroso ar de Neandertal.”
Desse encontro entre tia e sobrinho surge uma divertida
história cheia de mistérios, tramas e viagens além-oceano que levarão o
aposentado Henry a abandonar sua vida sem graça e solitária para viver
aventuras só imaginadas em livros e filmes policiais.
É certo que o charme dos personagens se deve à enorme
diferença de personalidades e à hilária inversão de papéis entre eles: a tia de
75 anos, deliciosamente louca, uma Lucille Ball metida em espionagens,
sexualmente ativa, que fala palavrões e que ama as viagens, uma cigana, e o
sobrinho careta, celibatário, que nunca sai do bairro onde mora, em pleno final
dos anos 60 e que vive de tristes lembranças familiares de um cotidiano sem
nenhuma abertura para surpresas... Uma idosa que vive o presente de olho no
futuro e o jovem (em comparação a ela) que mal vive o presente e se aprisiona
no passado, para quem viajar pode ser uma enorme perda de tempo.
Mas as viagens acontecem aos montes ao longo da trama. A
primeira é breve e não tão distante, com destino a Paris, com tempo suficiente
para Henry ouvir as mirabolantes histórias de tia Augusta, que de tão
extraordinárias parecem inventadas.
A viagem a Paris serviu de aperitivo para a próxima, uma
longa jornada pelo Expresso do Oriente. A partir desse momento fica evidente a
noção de que Henry não viaja somente para acompanhar sua tia, mas também para
dar um sentido à sua própria vida, claramente inspirado pelas aventuras de tia
Augusta. É a clássica viagem de autodescoberta, facilitada pelo deslocamento da
viagem externa.
“(...) lembrei-me de Southwood, com uma tolerância
cordial... lugar onde eu próprio já não me sentia à vontade. Era como se eu
tivesse fugido de uma prisão aberta, descendo por uma escada de corda e
entrando num carro à minha espera, que me transportara para o mundo de minha
tia, o mundo de personagens improváveis e acontecimentos imprevistos.”
Na viagem de trem, Henry conhece a jovem Tooley, uma
adolescente hippie cuja companhia “era uma novidade muito interessante” e logo
os dois se aproximam, apesar da diferença de idade entre ambos. Fuma, sem
desconfiar, um cigarrinho de maconha com ela, e isso, somado a um comentário
sobre minissaias e uma canção assobiada dos Beatles são as poucas passagens do
livro que nos situam a época em que a ação transcorre.
Na segunda parte do livro o autor começa a amarrar as
pontas soltas da trama, e os mistérios de tia Augusta começam a ser desvelados.
Para isso, Henry é levado de navio para a América do Sul, ao encontro da tia,
no Paraguai. Daqui em diante não posso continuar para não estragar a surpresa
de um possível leitor da obra.
Viagens
com minha Tia foi uma das obras de Greene adaptadas para o
cinema em 1972, e coube a Maggie Smith o papel de Tia Augusta.
Para encerrar, gostaria de comentar uma passagem desse
romance que me pareceu brilhantemente construída; trata-se de uma das histórias
de Tia Augusta sobre um dos homens da família Pulling.
Para mim, Greene escreveu uma cena que, numa primeira
leitura, pode parecer apenas uma inverossímil história criada pela fantasiosa
cabeça de uma mulher que gosta de contar anedotas do passado. Mas depois de
processar o que ela descreve ao sobrinho, veremos que existe ali uma
maravilhosa filosofia de vida, a viagem como metáfora da própria existência.
Tomei a liberdade de pular alguns trechos apenas para
encurtar um pouco o texto, sem contudo descaracterizar a narrativa.
♣
Excerto do Capítulo VII
Tia
Augusta reserva dois leitos para o Expresso do Oriente, numa viagem de três
noites rumo a Istambul. O diálogo entre ela e o sobrinho, Henry, segue abaixo:
- Mas se a senhora quer ir a Istambul, é muito mais fácil
e mais cômodo tomar um avião.
- Só ando de avião quando não há nenhum outro meio de
transporte.
- Mas não há perigo.
- É uma questão de preferência, e não de nervos. Sempre
me senti perfeitamente segura naquelas engenhocas. Mas não aguento que me falem
o tempo todo por meio de alto-falantes. Ninguém nos chateia numa estação de
trens, mas os aeroportos sempre me lembram aqueles campos de férias
organizados.
- Eu não estou muito acostumado a viajar pelo exterior. A
senhora não vai gostar...
- Comigo você aprende logo. Os Pullings sempre foram
grandes viajantes. Acho que foi seu pai que me contagiou.
- A senhora deve estar enganada. Meu pai nunca saiu do
centro de Londres.
- Ele viajou de uma mulher para outra, Henry. A vida
inteira. Dá no mesmo. Novas paisagens, novos costumes. O acúmulo de
recordações. Vida longa não é uma questão de anos. Um homem sem recordações
pode viver cem anos e achar que sua vida foi muito curta. Seu pai me disse uma
vez: “A primeira moça com quem dormi se chamava Rose. Por coincidência,
trabalhava numa loja de flores. Parece que foi há um século”. E o seu tio
também...
- Não sabia que eu tinha um tio.
- Era quinze anos mais moço do que seu pai e morreu
quando você era criança.
- Ele viajava muito?
- No fim, as viagens ganharam uma forma estranha. (...)
Seu tio era um bookmaker conhecido
por Jo. Fez uma fortuna considerável, mas seu único desejo era sempre viajar
mais. Queria retardar o ritmo da vida e achava, com razão, que as viagens
fariam com que o tempo andasse menos depressa. Por isso resolveu dar a volta ao
mundo.
Começou a viagem, por estranha coincidência, no Simplon
Oriente, o mesmo trem que vamos tomar na semana que vem. Da Turquia, pretendia
seguir para a Pérsia, Rússia, Índia, Malásia, Hong Kong, China, Japão, Havaí,
Taiti, Estados Unidos, América do Sul, Austrália, talvez Nova Zelândia.
Num ponto qualquer, pegaria um navio de volta.
Infelizmente foi retirado do trem logo no começo da viagem, numa maca, depois
de um derrame.
- Que pena.
- Isso não modificou nem um pouco o seu interesse de
viver muito. Naquela ocasião, eu estava trabalhando em Veneza e fui visitá-lo.
Ele decidira viajar mentalmente, já que não podia fazê-lo fisicamente. Pediu
que descobrisse uma casa com trezentos e sessenta e cinco quartos. Queria
passar um dia e uma noite em cada um. Achava que, dessa maneira, a vida seria
praticamente interminável.
(...) Encontrei uma casa velha, que já fora um palazzo, castello ou coisa parecida. Estava praticamente em ruínas. Contei
os quartos. Dividindo o porão em quatro, com alguns tabiques, e somando o
lavatório, o banheiro e a cozinha, o total subia a cinquenta e dois. Quando Jo
soube, ficou encantado: um quarto para cada semana do ano. Tive que por uma
cama em todas as peças até mesmo no banheiro e na cozinha. No lavatório não
cabia uma cama, mas comprei uma poltrona confortável, com extensão para os pés.
Esse quarto podia ficar para o fim. Eu achava que Jo não
viveria o bastante para ocupá-lo. Uma enfermeira o acompanharia, quarto após
quarto, chegando de vez em quando com um certo atraso, para dar a impressão de
uma viagem verdadeira.
- Mas que plano extraordinário!
- Funcionou às mil maravilhas. Quando Jo estava no décimo
quinto quarto ele me disse que tinha a impressão de que já se mudara há pelo
menos um ano. E se quinze quartos davam a impressão de um ano de vida, ele
ainda tinha vários anos de viagens pela frente.
A enfermeira me disse que, no quarto dia depois de cada
mudança, ele começava a ficar inquieto, ansioso por viajar de novo. No primeiro
dia em um novo quarto, dormia mais do que o normal, cansado da viagem. Ele
começou no porão, foi subindo aos poucos, até atingir o último andar, e já
começava a falar numa segunda visita aos antigos aposentos: “Desta vez,
seguiremos uma ordem diferente e sairemos noutra direção”.
Concordou em deixar o lavatório para o fim: “Depois de
todos esses quartos luxuosos – comentou – será divertido. Um pouco de falta de
conforto mantém a gente em forma. Não quero ser um desses velhos excêntricos
que andam pela primeira classe da Cunard, reclamando do caviar”.
Estava no quinquagésimo primeiro quarto quando teve o
segundo derrame. Ficou paralítico de um lado e quase impossibilitado de falar.
Eu estava em Veneza, na ocasião, mas obtive permissão
para deixar a companhia, por alguns dias, e Mr. Visconti me levou de carro ao palazzo de Jo. Estavam tendo um trabalho
incrível com ele. Já passara sete dias no quinquagésimo primeiro quarto quando
sofreu o derrame, mas o médico insistia para que ficasse na cama, sem se mover,
pelo menos por mais dez dias. “Qualquer pessoa – disse o médico- daria Graças a
Deus de poder ficar quieto”.
“É que ele quer viver o máximo possível” – expliquei ao
médico.
- “Nesse caso, deve ficar onde está, até o fim. Se tiver
sorte, poderá durar mais uns dois ou três anos”.
Contei a Jo o que o médico dissera. Ele respondeu algo
que não entendi, passou bem a noite e a manhã seguinte. A enfermeira estava
certa de que ele se resignara a ficar quieto. Deixou-o dormindo e foi tomar uma
xícara de chá no meu quarto. De repente ouvimos um barulho estranho e forte,
vindo de cima. Parecia que alguém estava trocando os móveis de lugar. Corremos
para o andar de cima, e sabe o que encontramos? Jo Pulling saíra da cama.
Amarrara uma velha gravata listrada, de um de seus
clubes, na alça da mala, porque não tinha mais forças nas pernas, e se
arrastava pelo corredor, a caminho do lavatório, puxando a mala. Gritei para
que parasse, mas não me deu a menor atenção. Era uma cena dolorosa. Ele se
movia com lentidão, fazendo grande esforço.
O corredor era ladrilhado. Passar de um ladrilho a outro
provocava-lhe uma incrível exaustão. Desfaleceu antes de o alcançarmos e lá
ficou, ofegante. Para mim, o mais triste de tudo foi o laguinho de pipi que fez
no ladrilho. Não convinha removê-lo antes do médico chegar. Colocamos um
travesseiro embaixo da cabeça de Jo, a enfermeira deu-lhe uma pílula e disse: “Cattivo”. Isso significa: “Velho traquinas”.
Ele sorriu para nós duas e disse, “Parecia que não ia
acabar mais” – e morreu antes da chegada do médico. Tinha lá suas razões para
fazer aquela última viagem, desobedecendo às ordens do médico, que só lhe
prometera poucos anos de vida.
- Ele morreu no corredor? – perguntei.
- Morreu viajando – disse minha tia, num tom reprovador –
Como sempre desejou.
♣
Leia: Viagens com Minha Tia. Graham Greene. Editora
Civiização Brasileira. 1ª ed. Rio de Janeiro, 1970.







