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É sempre instigante ler sobre o processo criativo dos
escritores e descobrir um pouco mais sobre a maneira como eles enxergam o
mundo. Foi por um acaso que encontrei no site da Travel and Leisure um artigo assinado pelo escritor e viajante Gary
Shteyngart, onde ele fala um pouco sobre
a escrita de viagem, sobre suas andanças e como isso tudo afeta seu trabalho e
sua vida.
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How to become a travel writer
gary shteyngart
Há alguns anos saí com um amigo para comer acompanhado de
alguns estudantes de graduação recém-ingressos na faculdade. Tão logo fui
apresentado como romancista, a alegre mesa embriagada de sangria
silenciou-se, como se meus novos amigos tentassem digerir exatamente o que
aquilo significava. “Então...você...escreve...livros.”
Isso me lembrou de uma das primeiras perguntas levantadas
numa leitura que fiz quando publiquei meu primeiro livro: “Qual a diferença
entre, por exemplo, ficção e romance?” Uma vez que aquele evento ocorreu em Los
Angeles, a próxima questão já era esperada: “E então, quem dirigiu o seu
livro?”
Naquele tempo eu já sabia desviar do assunto rapidamente.
“Eu também escrevo sobre viagem”, disse, em meio a um coro de “Uau!” e
“Demais!” e “Qual foi o último lugar que você visitou?” e “O novo aeroporto de
Bancoc não é mesmo um show?”
A ascensão da escrita de viagem como um trabalho sério
não é exatamente uma novidade. É possível pensar em Dom Quixote como um extenso
diário de viagem, e, se você tiver inclinação religiosa, também o Livro do
Êxodo. Como professor de escrita ficcional na Universidade de Columbia, não
mais me surpreendo quando meus alunos aparecem na minha sala com a seguinte
questão: “Como faço para começar na literatura de viagem?”
Escrever bem sobre viagem requer uma ligação emocional
com a ideia de que a vida é composta de uma série de trocas. Ser um imigrante,
ou alguém com raízes em mais de uma cultura, ajuda. Mas realmente, tudo o que é
preciso é ser um imigrante emocional. O próximo lugar em que você aterrissar
deve ser visto como real por você, senão mais real, do que o lugar que você
deixou para trás.
Quando eu tinha seis anos, minha família deixou
Leningrado para uma estadia de uma semana em Viena, seguida por seis meses em
Roma, e mais um curto período no Queens, Nova Iorque. Nossa existência era uma
interminável trilha de estações de trens e aeroportos, homens de chapéus
carregando pesados carimbos de passaporte, o rangido autoritário contra os
documentos de viagem.
E como eu era criança, sem noção de qualquer senso de
tragédia – a tragédia de se deixar para trás sua língua e sua cultura –
qualquer atraso de trem, cada decolagem de avião com tempo fechado era
emocionante.
Quando nos abrigamos no Queens por dez anos de relativa
pobreza e nenhuma viagem de avião, fiquei arrasado. Por que não estávamos nos
mudando mais? Passei grande parte da minha infância na saída de incêndio da
casa de minha avó olhando os aviões da TWA aterrissando no aeroporto de La
Guardia.
O viajante de hoje é frequentemente confrontado com os recém-chamados
turistas da Rússia e da China. Alguns lamentam suas faltas de modo, mas eu fico
sempre contente em ver pessoas de lugares reprimidos deixarem seus recintos,
mesmo que por poucas semanas.
Minha tia deixou a União Soviética no final da era Gorbachev
e usou seu apertado salário para viajar a lugares tão longes quanto a Suíça e o
Japão, vivendo no ar e na água, por vezes apenas no ar. Muitos de nós,
ex-soviéticos, crescemos com a ideia de que o melhor que você podia fazer com a
sua vida era arrumar as malas e correr para o aeroporto.
Há diferenças em como o Grand Tour (viagens longas, um termo que remete às grandes viagens
pela Europa em busca das raízes da civilização ocidental que funcionava como
uma espécie de rito de passagem de jovens ricos e aristocráticos, geralmente
com a companhia de um guia ou tutor) é feito nos dias de hoje.
Viajantes chineses e russos, seja em grupos ou sozinhos,
parecem passar batido pelos museus e templos; quando eu volto a São
Petersburgo, mesmo que por poucos dias, presto minha homenagem ao Hermitage
(museu), num misto de tarefa cultural com lembranças de infância. Mas não sou capaz de lembrar da última vez
que um museu tenha realmente mexido comigo, ou radicalmente mudado a maneira de
enxergar um lugar.
Pode ser que o Leeum, o Museu Samsung de Arte, em Seul,
tenha sacado o truque, com o brilho da céladon (cerâmica verde esmaltada
coreana) contrastando tão bem com a agitação dos eletrônicos do lado de fora. O
fato de o museu carregar o nome da Samsung faz com que isso tenha um duplo
sentido.
Mas a maioria de nós hoje quer mais do que a chance de
enxergar nossas caras amassadas refletidas na vitrine de um museu. O viajante
ocidental contemporâneo quer ver a vida dos outros – talvez até vivê-las (via Airbnb). Surpreendido por Shangai,
triste porque só teria poucos dias na cidade, vi-me petrificado pelos cartazes
do lado de fora de um escritório imobiliário.
Minha mente lampejava com as imagens. Se um residente
comum de Shangai ganha X por ano, como poderá comprar um apartamento que custa
Y? Os preços imobiliários, a caçada insana pela melhor sopa típica da cidade, a
emoção de quase ter a sua perna raspada por algum tipo de carroça motorizada –
tudo isso ao mesmo tempo forma as nossas impressões sobre um lugar; cada uma
delas pode ser o começo ou o final do fragmento de uma viagem.
Fazer amizades é uma das chaves para escrever sobre
viagens. Como um membro da CIA que cultiva novos agentes, creio que metade do
motivo de eu frequentar festas é para ter certeza de que quando eu voar para
Bancoc ou Hong Kong, ou mesmo Atlanta, terei alguém no chão que conhece o lugar
melhor do que eu conheço a minha própria cidade.
Eu não procuro saber tanto sobre os pontos turísticos, ou
as lojas, ou mesmo as barracas de comida (ok, talvez as barracas de comida)
quanto pelas opiniões da gente local. Quero sair do avião e começar a conversar
com meus amigos imediatamente, vendo a paisagem através de seus olhos
experientes, e teclando “Os Emirados estão realmente interessados em decoração”
em meu celular.
Eu quero ouvir não somente as exaltações sobre o melhor
frango frito do planeta e a segunda melhor opção de viagem pela Itália, mas
também os grandes desapontamentos e arrependimentos; plagiando Tolstoi: todos
os países alegres (e enfadonhos, eu acrescentaria) são semelhantes; todos os
países tristes são tristes a seu modo.
Eu sei que acertei algo quando, tarde da noite, ao apagar
das luzes dos novos arranha-céus cintilantes, alguém me sussurra alguma versão
do “Por favor, não cite meu nome, ok? Mas tudo aqui é uma mentira.”
Às vezes eu sinto medo. Não tanto pela minha vida, mas
medo de não fazer a coisa certa. De voltar com muitos preconceitos. De não
conseguir enxergar as mentiras. Quando meu avião aterrissa em Beijing, uma cidade
de 20 milhões de habitantes, eu sei que tenho somente oito dias para partir com
algo original e instigante sobre o lugar.
Sim, eu já avisei meus contatos antes de embarcar em
Newark e hoje à noite vou encontrar uma ex-estrela do rock sino-americana que,
caso suas reflexões na Internet sejam verdadeiras, deve ser uma das pessoas
mais engraçadas da República Popular da China.
E assim, cansado do voo mas cheio de atitude, carregando
minha mala prá cima e prá baixo, deixando prá trás aquele casal belga cujo bebê
babou em cima de mim por vinte horas, correndo em direção à amargurada palavra
imigração, com o símbolo internacional de um homem com chapéu examinando um
livro aberto, dou início à minha nova vida.
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Texto original pode ser acessado no site da Travel and Leisure
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A Rocco publica os livros de Gary Shteyngart no
Brasil. Retiro do site da editora uma breve biografia do autor:
Gary Shteyngart nasceu na Rússia, em 1972, e foi para os
Estados Unidos aos sete anos. Seu primeiro livro, O pícaro russo, ganhou o Stephen Crane Award na categoria para
estreantes e o National Jewish Book Award na categoria ficção. Seus outros dois
romances são Absurdistão,
considerado o livro do ano pela revista Time, e Uma história de amor real e supertriste, eleito um dos dez melhores
do ano pelo The New York Times, ambos publicados pela Rocco. Shteyngart foi
indicado pela revista Granta como um dos melhores jovens romancistas americanos
e fez parte da lista de 20 escritores notáveis com menos de 40 anos publicada
pela The New Yorker.










