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sábado, 4 de maio de 2013

Fragmentos odepóricos: Friedrich Nietzsche, parte 2

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“Ninguém pode construir para ti a ponte sobre a qual precisamente tu tens de passar sobre o rio da vida, ninguém além de ti mesmo. Decerto que há inumeráveis atalhos e pontes e semideuses que te querem carregar através do rio, mas apenas ao preço de ti mesmo; tu te darias em penhor e te perderias. Há no mundo um único caminho que ninguém pode trilhar além de ti: para onde o conduz? Não perguntes, prossegue. Um homem jamais se eleva mais alto do que quando não sabe para onde seu caminho ainda o pode conduzir.”


F.NIETZSCHE In: Schopenhauer como Educador

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Fragmentos odepóricos: Friedrich Nietzsche, parte 1


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Todos estamos acostumados a ler na poesia, na filosofia, nos relatos de viagem e nos textos sagrados de todas as religiões, que a viagem é a metáfora por excelência da passagem do ser humano pela Terra. Sem embargo, por mais clichê que isso tenha se tornado, há quem consiga fazer magia com as palavras e os sentimentos.

Foi navegando por um blog muito especial, A Casa de Vidro, (seguindo um link de outro excelente blog sobre o autoconhecimento, o inspirador Dharmalog), que me deparei com dois pensamentos do filósofo Friedrich Nietzsche que trata com maestria dessa metáfora que não canso de explorar aqui no Odepórica. São tão bonitos e tão especiais que decidi economizar e publicar em duas postagens separadamente, de modo que o leitor terá tempo para ler e refletir sobre as palavras de um dos maiores pensadores que caminharam por este planeta um dia. Boa viagem.




Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem.

Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar.




Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos.



Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã.


Friedrich Nietzsche
(em
 “Humano Demasiado Humano” #638)
Imagens deste post: telas de Donna Walker