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Em um recente artigo publicado no periódico El País, em que o autor discute o
impacto do turismo de massa sobre a produção de literatura de viagem, havia
algumas indicações de literatura odepórica muito relevantes, sendo que uma
delas fez meus olhos brilharem: Explorer’s
Sketchbooks: the Art of Discovery & Adeventury.
Tenho uma caixa de arquivo com uma dezena de sketchbooks, que são aqueles pequenos
caderninhos de rascunhos, objetos simpáticos que usamos quando queremos ditar
um ritmo mais contemplativo ao ofício da escrita, em contraste com os sempre
impessoais aparelhos eletrônicos, necessários e tediosos na mesma proporção.
Esses cadernos de anotações também são muito usados para
esboços de desenhos e pinturas. Eu que não consigo desenhar um ovo, sempre
morri de inveja dos solitários desenhistas de museus, aqueles que vivem alheios
à multidão, num cantinho da sala, tentando capturar detalhes de uma tela, as
mãos e os pés de uma dama renascentista, a fruta de uma natureza morta, o
sorriso pétreo de uma criança esculpida em mármore... tão poética a cena quanto
o resultado que vai aparecendo no contato do grafite com o papel.
Uma das coisas que me fascinam quando leio sobre a vida
dos grandes escritores e viajantes, é que todos eles carregavam esses cadernos
de notas e não há como não se entusiasmar quando se tem a oportunidade de
admirar o conteúdo desses pequenos objetos de prazer. Não é exagero meu: o Huw
Lewis-Jones e a Kari Herbert também pensam assim, tanto que pesquisaram
bastante e publicaram uma obra de encher os olhos: trezentas páginas, setenta
exploradores/as e mais de uma centena de pinturas, bosquejos e páginas de
diários de viagem que fazem a alegria de qualquer apaixonado pelo tema.
Livro gostoso de folhear, daqueles que abrimos aleatoriamente, pulando páginas, namorando ilustrações, escaneando frases com o olhar, um ato de prazer. Corri os olhos pelo índice em busca de um nome e ele estava lá: Bruce Chatwin, de quem já falamos aqui no blog, escritor e aventureiro que muito admiro e quem praticamente tornou os moleskines um objeto de desejo. O Bruce fazia estoque desses caderninhos e me recordo que foi depois que li O Rastro dos Cantos que soube da existência deles. Fui conferir, meu exemplar todo grifado na página 223:
“Na França, esse tipo de caderno é conhecido como carnet moleskine: sendo moleskine,
neste caso, a tela preta que cobria a encadernação. Cada vez que ia a Paris,
comprava uma nova leva (...) As páginas eram quadriculadas, e a capa e a
contracapa eram mantidas fechadas por meio de um elástico. Eu os tinha
numerados em série. Escrevia meu nome e endereço na folha de rosto, oferecendo
uma recompensa a quem o achasse. Perder um passaporte era a menor das
preocupações; perder um caderno de anotações era uma catástrofe”.
Concordo com o Chatwin: alguns desses moleskines, hoje, valeriam alguns milhares
de dólares. Para além da importância literária e documental dessas cadernetas,
há a questão do fetiche; ter em mãos um manuscrito de um autor admirado é estar
o mais próximo possível de sua essência, talvez o mesmo sentimento de um
religioso ao tocar as relíquias de um santo de devoção. Para muitos leitores e
escritores, tal afirmação não é um exagero.
Voltemos à obra, página 86, Bruce Chatwin:
“Os cadernos de capa negra que Chatwin regularmente
comprava em Paris tornaram-se lendários hoje. Eles são preenchidos com breves
apontamentos, rascunhos de parágrafos, linhas de poesia, descrições fugazes de
pessoas, encontros fortuitos, e são difíceis de decifrar. Quando ele saía para
uma jornada, frequentemente pegava qualquer caderneta que estivesse à mão; não
é incomum um único moleskine incluir
trechos de muitas jornadas: América do Sul, Austrália, Rússia, África – tudo
junto, e ele raramente datava suas entradas. (...) Chatwin sempre disse que
havia se tornado um escritor ‘para justificar sua própria inquietação’.”
Volto algumas páginas e encontro Franz Boas, nome que
conheci numa aula de antropologia e a quem devo algumas boas inspirações em meu
projeto de mestrado. Boas foi agraciado com uma vida longa e próspera, e
Gilberto Freyre foi seu aluno na Universidade de Columbia nos anos 1920.
Franz Boas foi também um bom viajante. Entre 1883 e 1884,
aos vinte e cinco anos, foi viver com os esquimós na Colúmbia Britânica, viagem
que foi determinante em sua carreira na antropologia:
“Boas chegou no final de agosto de 1883 e estabeleceu sua
base numa estação escocesa de caça às
baleias na ilha de Kekerten. Dali, fez extensas viagens com os Inuit, de trenó
puxado por cães e de barco, mapeando a costa e registrando os locais com os
nomes indígenas. Essa imersão na cultura Inuit durou um ano. Ele vestiu as
roupas dos esquimós, comeu de sua comida e viveu em casas de gelo; aprendeu sua
língua e seus modos de fazer as coisas, e ouviu atentamente as suas histórias,
crenças e lendas.”
“Ao deixar a região gelada, Boas concluiu que se fazia
necessária uma abordagem antropológica totalmente nova. Ele viria a se tornar
uma figura distinta e muito influenciadora em seu meio, pioneiro no ‘campo das
quatro abordagens’ – uma disciplina de metodologia combinando arqueologia,
linguística, antropologia física e antropologia cultural – ao mesmo tempo
defendendo os valores da pesquisa exaustiva, do trabalho de campo e do
conhecimento folclórico.”
Franz Boas foi um ardente opositor ao racismo e ao
fascismo e por sua abordagem holística no estudo do comportamento humano, ficou
conhecido como o pai da antropologia moderna. Nos tempos livres, enquanto se
encontrava preso no barco, esperando o gelo derreter para poder navegar
adiante, gostava de desenhar icebergs e mapas dos territórios mapeados:
Outra figura fascinante documentada na obra de
Lewis-Jones e Kari Herbert é Freya Stark. Sua vida foi literalmente uma grande
aventura e é inacreditável que não tenhamos uma obra de sua vasta produção
literária publicada no Brasil.
Nascida em Paris, Freya Stark passou grande parte da
infância no norte da Itália. Criança doente, sua válvula de escape era a
leitura das Mil e Uma Noites. Com a
eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela se voluntariou como enfermeira no front
italiano e se virou como contrabandista para poder pagar suas despesas.
A todo o momento o Oriente lhe chamava. Ao chegar a Beirute
em 1927, em sua primeira viagem pelo deserto, ela já conseguia conversar em
árabe e estava aprendendo o persa. Devia aprontar muito em suas deambulações e
dizem que foi uma mulher divertida, com um senso de humor peculiar, também
presente em suas narrativas de viagem. Dizia que acordar sozinha em uma cidade
estranha era uma das sensações mais prazerosas do mundo, um chamado à aventura.
Conheceu líderes de rebeliões, foi presa pelas
autoridades francesas por suspeita de espionagem, mas jogou um charme e
conseguiu se livrar da cadeia, antes de se aventurar pelo interior do Líbano e
da Síria, onde nenhum ocidental havia ido antes dela. Atravessou o desfiladeiro
de Chala, no Afeganistão e seguiu o rio Alamut através do Iran, corrigindo
mapas já existentes da região por onde passava, enquanto sobrevivia à malária,
dengue, disenteria e sarampo.
Nas selvas de Lamiasar ela descobriu a fortaleza da famosa
seita ismaelita da Ordem dos Assassinos, escalando a escarpa de meias porque o
caminho era muito escorregadio para seus calçados. Seus mapas precisos e a
narrativa de sua viagem renderam-lhe medalhas da Royal Geographical Society e
da Royal Asiatic Society.
Freya escrevia sobre suas andanças nas cartas que enviava
à sua mãe e ao seu editor, escritas sob a sombra de árvores e de ruínas, em
viagens que duraram décadas e renderam mais de vinte livros, muitos dos quais
hoje considerados clássicos da literatura odepórica. Excêntrica, sem rodeios e
segura de si, Freya foi uma mulher à frente de seu tempo.
Depois da Segunda Guerra, visitou a Ásia Central, o Afeganistão, a China e os Himalaias; aos 60 anos ela retraçou a rota de Alexandre, o Grande, percorrendo o sul da Turquia; aos 80, desceu o Eufrates de jangada. Continuou a viajar até os 92 anos. Faleceu em sua casa, na Itália, aos cem anos de idade. Em seu tributo, os jornais italianos nomearam-na rainha nômade; na Bretanha, o escritor Lawrence Durrell declarou que ela foi a “poeta da viagem”, uma das mulheres mais memoráveis de nosso tempo. Entretanto, Freya se enxergava em termos mais modestos: “vejo-me uma peregrina, mera residente temporária nesse mundo”. Palmas prá ela.
Cada um destes três personagens citados acima, tão
diferentes entre si, assim como os outros sessenta e sete retratados, têm em
comum o fato de que, em um determinado estágio de suas vidas, tiveram que
assumir riscos. O texto introdutório, escrito a quatro mãos pelos autores, foi
escrito com maestria e traz muitas passagens dignas de reflexão; costuram suas
palavras colhendo notas peculiares dos exploradores que aparecerão nas páginas
adiante.
Tudo, afinal, se entrelaça, porque a vida sempre foi e
sempre será uma aventura, cada qual com sua jornada cheia de surpresas. Muitos
morreram na estrada, muitos sucumbiram à jornada, mas, lembram os autores, o
maior risco sempre será o de não sair de casa. Em outras palavras, não ouvir o
chamado à aventura.
“A justificativa de Ernest Shackleton para sua vida
instável, era simples: ‘Eu escolhi a vida acima da morte para mim e para meus
amigos. Creio que está em nossa natureza explorar, lançar-se ao desconhecido. A
única falha verdadeira seria não buscar, não explorar.’ E para muitos, mais do
que ser um registro do desespero ou de angústia, escrever em um caderno de notas era um momento de pura alegria: uma
chance de descrever a beleza vista ou rascunhar algo memorável, como tirar uma
fotografia, uma imagem para a posteridade,
uma descoberta para ser visualizada e compartilhada.”
O ponto alto dessa obra eclética talvez esteja no fato de
que nem todos os viajantes são pessoas conhecidas ou famosas; alguns nunca
foram publicados e nesse compêndio encontraremos exploradores pioneiros, topógrafos,
botânicos, artistas, caçadores de plantas, ecologistas, antropólogos,
escritores, visionários, mulheres e homens curiosos em enxergar e registrar o
que poderia existir além do horizonte.
A riqueza desses registros nos cadernos de viagem é
imensurável: há notas sobre a chegada ao cume do Monte Everest, a primeira
visão do Polo Sul, os primeiros relatos das Cataratas de Vitória, do coração
dos grandes desertos e do interior da tumba de Tutankhamun. Também veremos os
primeiros desenhos dos icebergs, de borboletas e insetos raros, monumentos
sagrados e de antigas inscrições, e das primeiras representações dos nativos
americanos, caçadores esquimós e reis africanos.
Como dizem os autores, o processo de criação dessa obra
foi em si uma exploração, uma caça ao tesouro. Quanto mais avançamos na
leitura, mais desejamos cair na estrada, sair de casa, não importando a
distância, mas sim a mudança do olhar, porque a aventura pode estar logo ali no
próximo quarteirão. Temos que voltar a seguir nossos instintos, nossos impulsos,
para conseguir ouvir o chamado.
“Na próxima vez que você programar uma viagem, leve um
pequeno bloco de notas junto com seus equipamentos eletrônicos na mochila, ou
melhor ainda, deixe esses aparatos em casa. Preencha as páginas dos seus cadernos com aventuras e
experiências. Siga a sua curiosidade. E apenas certifique-se de voltar para
casa e compartilhar a sua história.”
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Leia:
Explorers´Sketchbooks: The Art of Discovery & Adventure. Huw Lewis-Jones
and Kari Herbert. Chronicle Books, 2017.





















