quinta-feira, 16 de outubro de 2014
A estrada da cura, by Neil Peart
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Clássicos da Literatura Odepórica: Uma caminhada na floresta, by Bill Bryson

Mas não termina aí não, camarada. Imagine que nessa trilha você terá muitas subidas, perambeiras, muitas montanhas cricris pela frente, algumas delas entre as mais altas do território. Ah, sim, e para dar um toque de aventura, imagine que a qualquer momento você poderá dar de cara com um urso, que tal? E bem na hora do almoço – o dele, é claro. Já imaginou?
Pois o Bill Bryson, um autor estadunidense muito atrevido, não se contentou em imaginar como seria essa trilha doida não. Ele simplesmente resolveu encarar o lance. E olha que nem era tão jovem assim, à época do empreendimento. Contava com 44 anos, estava fora de forma e acima do peso.

Quase que no último momento, às vésperas de cair na estrada, um amigo dos tempos do colégio topou acompanhá-lo. Pior que ele em tudo: mais gordo, menos preparado, sem grana e ex-alcoólatra, ou seja, aquilo que os americanos costumam chamar (mui grosseiramente) de “loser”, um fracassado. Katz, seu nome, a quem o livro é dedicado, pode até ser um desajustado, mas na narrativa do Bill é ele quem faz toda a diferença.
Uma caminhada na floresta: redescobrindo os Estados Unidos pela Trilha dos Apalaches é um dos livros mais divertidos que você irá ler dentre tantos bons títulos da literatura odepórica. Tem tudo na medida certa: informações interessantes, suspense, humor (quase sempre negro, o que é melhor ainda) e um ritmo narrativo que não tropeça em nenhum momento. O autor parece ser o tipo de cara com quem você não hesitaria em passar algumas horas bebendo num bar, rindo de suas aventuras e de seus perrengues.
E o que faz com que nos sintamos próximos do Bill é o fato de ele possuir um senso crítico muito raro de se encontrar em relatos de aventura, onde via de regra o narrador se vê (ou tenta fazer com que você o sinta) como um herói ou como uma vítima frente às adversidades encontradas pelo caminho. Nem um, nem outro, o Bill é uma pessoa tão comum quanto qualquer outra que você conheça e é isso o que faz dele alguém tão diferente. Esquisito, né?

E daí que o livro não começa perdendo tempo. O Bill já nos introduz na trilha botando medo, anunciando que o lance não é para amadores e amadoras não. Sei que é feio rir da desgraça alheia, mas fica difícil evitar, porque nem verdade parece. Estou falando de alguns pequenos relatos que o Bill ouviu ou leu quando começou a pesquisar sobre a Trilha dos Apalaches. Veja só que horror:
Quase todos com quem falei tinham alguma história horripilante para contar sobre um amigo ingênuo que partira para a trilha com grandes esperanças, botas novas, e voltara aos trancos e barrancos dois dias depois, com um lince agarrado na cabeça ou com sangue pingando de uma manga sem braço, murmurando “Urso” com voz rouca, antes de desmaiar.
(...) Coisas literalmente inimagináveis poderiam acontecer a você naqueles lugares. Ouvi a história de um homem que saiu à noite de sua barraca para fazer xixi e foi atacado violentamente por uma coruja míope – a última vez que viu seu escalpo, ele pendia das garras da ave, compondo uma silhueta graciosa contra a luz da lua – e a de uma jovem que foi acordada por uma comichão sinuosa na barriga, espiou dentro do saco de dormir e viu uma cobra venenosa aninhando-se no quentinho entre suas pernas.

Ouvi quatro relatos separados (sempre contados com um risinho de satisfação) de campistas e ursos compartilhando a mesma barraca durante alguns momentos confusos e animados; de gente que, surpreendida durante uma escalada por uma tempestade, evaporava abruptamente, atingida por um raio (“Não sobrou nada dele, só uma marca de queimado”); de barracas esmagadas por árvores, ou jogadas em precipícios pela correnteza produzida pela chuva e que voavam para vales distantes, ou varridas pela parede líquida de uma inundação repentina; de inúmeros excursionistas cuja última experiência foi um tremor de terra e um pensamento desnorteado: “E agora, que porra está acontecendo?”.

Deu pra sentir o que vem pela frente, não? E esses pequenos excertos que você acabou de ler aparecem logo na segunda página, que é pra não restar dúvidas quanto aos imprevistos – se é que podemos chamar essas tragédias de imprevistos – que aguardam os aventureiros/as da Trilha dos Apalaches. Como meu lado masô está menos reprimido hoje, aqui diante desse computador enquanto o sol brilha lindamente do lado de fora desse dia em que o inverno deu uma trégua, não resisto a transcrever outras passagens torturantes que também vão satisfazer o leitor e a leitora masôs:
Depois, havia todas as doenças que espreitavam do mato – infecção intestinal por Giardia lamblia, encefalomielite eqüina, tifo exantemático, síndrome de Lyme, infecções por Helicobacter pylori, Ehrlichia chaffenis, equistossomose, brucelose e desinteria bacilar, para dar apenas uma amostra. A encefalomielite eqüina, causada pela picada de um mosquito, ataca o cérebro e o sistema nervoso central. Se você tiver muita sorte, pode passar o resto de sua vida numa cadeira com um babador no pescoço, mas em geral ela mata. Não há cura conhecida.
Não menos interessante é a síndrome de Lyme, provocada pela mordida de um carrapato de cervo menor que uma cabeça de alfinete. Se não for detectada, pode ficar latente no corpo humano durante anos, até que detona um festival de doenças. Trata-se de uma síndrome para quem quer experimentar de tudo na vida: os primeiros sintomas são dor de cabeça, fadiga, febre, tremores, falta de ar, tontura e dores agudas nas extremidades, depois surgem irregularidades cardíacas, paralisia facial, espasmos musculares, danos cerebrais graves, perda de controle sobre as funções corporais e – nenhuma surpresa, diante das circunstâncias – depressão crônica.

Há também a pouco conhecida família dos organismos chamados de hantavírus, que enxameiam a microatmosfera logo acima das fezes de ratos e camundongos e são aspirados pelo sistema respiratório de alguém azarado o suficiente para enfiar o nariz em algum lugar perto deles – deitando-se, por exemplo, num lugar por onde ratos infectados acabaram de passar.
Em 1993, um único surto de hantavírus matou 32 pessoas no Sudoeste dos Estados unidos, e no ano seguinte a doença fez sua primeira vítima na trilha, quando um caminhante foi infectado após dormir num “abrigo infestado de roedores”. (Todos os abrigos da trilha estão infestados de roedores.) Entre os vírus, com certeza somente o responsável pela raiva, o Ebola e o HIV são mais letais. De novo, não há cura.
Por fim, tratando-se dos Estados Unidos, há sempre a possibilidade de um assassinato. Pelo menos nove excursionistas – o número exato depende da fonte que você consultar e de como você define um excursionista – foram mortos ao longo da trilha desde 1974. Duas jovens morreriam enquanto eu estava por lá.
Mas vamos deixar essa temática deprê prá lá, que a minha intenção não é a de afastar meus parcos leitores desse mal-ajambrado blog. Pé-de-pato, mangalô, três vezes e que nada disso aconteça com a gente em nossas caminhadas por aí.

É claro que o Bill Bryson colocou tudo nesses termos com a intenção de dar à Trilha uma aura ainda mais aventureira, como se os seus três mil e tantos quilômetros já não bastassem para nos deixar com a boca aberta e o queixo bem caído. Encarar esse drama pede doses generosas de espírito aventureiro e, sinto informar, uma também generosa conta bancária, porque essa trilha é impraticável aos aventureiros pés de chinelo, a começar pelo alto custo dos equipamentos e pelos meses de afastamento do trabalho, se o viajante ainda estiver na ativa.
Parece que o que não falta são obras documentais sobre a Trilha dos Apalaches; o autor relata que comprou uma caríssima coleção intitulada Guias da Trilha dos Apalaches, composta por onze pequenos livros e “59 mapas de diferentes tamanhos, estilos e escalas, cobrindo toda a trilha, da montanha Springer ao monte Katahdin”. (veja o mapa da trilha abaixo)
Acho que eu disse que não transcreveria passagens como as anteriores sobre os percalços da longa rota, de modo que para seu desapontamento (ou alívio, vai saber), vou pular o capítulo em que o Bill discorre longamente sobre ataques de ursos, não tão raros na Trilha dos Apalaches segundo ficamos sabendo em seu relato. Mas não consigo evitar um momento de humor negro (meu tipo de humor predileto); é uma passagem onde Bill responde à pergunta, absurda embora plausível, de como reagiria caso quatro ursos invadissem seu acampamento, um fato ocorrido de verdade e documentado em uma obra sobre os ataques desses animais gigantescos. É sua praia? Então anote o nome da obra: “Ataques de ursos: suas causas e como evitá-los”, de um professor universitário canadense chamado Stephen Herrero. Diz aí, Bill, o que você faria se topasse com quatro ursos no acampamento?

“Que diabos eu faria? Ora, eu morreria, é claro. Literalmente, me borraria até morrer. Iria estourar meu esfíncter como uma língua-de-sogra – ouso dizer que com um apito festivo – e sangraria até ter uma morte imunda em meu saco de dormir.”
Nojento, não? Mas o Bill tem esse lado escatológico peculiar que eu simplesmente adoro. Prossigamos. No capítulo 2 ficamos conhecendo Stephen Katz, o amigo da juventude em Iowa, terra natal de Bill, e com quem já havia perambulado pela Europa um par de décadas atrás.

Katz, dono de uma personalidade apatetada, traz ao relato e à viagem de Bill um colorido indispensável a toda e qualquer aventura. É o tipo de cara sem noção de nada, desencanado, às vezes meio melancólico, outras vezes radiante de felicidade (com coisas simples como poder assistir na TV de um motel de estrada a um capítulo de Arquivo X, “o melhor seriado de todos os tempos”) e, acima de tudo, companheiro fiel e destemido, sem nunca perder a pose frente às agruras da jornada. Um contraponto perfeito à personalidade mais equilibrada de Bill. Se fôssemos migrar o relato de Bill para os quadrinhos, ele seria o Mickey e Katz, o Donald.

Embora a narrativa do autor seja linear, vez ou outra ele sai da trilha e gasta algumas linhas divagando sobre peculiaridades que sempre têm alguma relação com a viagem pelos Apalaches; a começar pela trilha propriamente dita, que ficamos sabendo foi terminada formalmente no ano de 1937, com a abertura de um trecho de três quilômetros nas florestas do Maine. Obviamente, o traçado original sofreu, e continua sofrendo, constantes modificações ao longo das décadas. Hoje a Trilha dos Apalaches não é a mais longa trilha pedestre do mundo, embora continue sendo a mais ilustre. (perde por pouco para as trilhas da Crista do Pacífico e da Divisória Continental, no Oeste americano).

Não dá para falar de trilhas sem falar de florestas, certo? No capítulo 4 Bill nos diverte falando delas e sua opinião me pareceu muito interessante e peculiar:
As florestas são fantasmagóricas. Independentemente da ideia de que possam esconder animais selvagens e sujeitos armados e geneticamente desafiadores que atendem pelo nome de Zeke ou Festus, há algo intrinsecamente sinistro nelas – uma coisa inefável que o faz pressentir uma atmosfera de perdição e de fim potencial a cada passo, deixando-o profundamente consciente de que você está fora de seu meio e precisa manter as orelhas em pé.

Embora diga para si mesmo que é ridículo, você não consegue afastar por completo o sentimento de que está sendo observado. Quer ficar calmo – é apenas mato, pelo amor de Deus -, mas na verdade está mais apreensivo do que um xerife covarde com o revólver na mão. Todo ruído súbito – o estalido de um galho, o barulho de um veado em fuga – faz você girar assustado e conter um pedido de clemência.

Depois disso ele divaga um pouquinho mais e chama Thoreau (Henry David Thoreau, autor do clássico Walden) de cagão, (bem, não usou exatamente esse termo, mas a ideia foi exatamente essa), presunçoso e tedioso, mas isso é a opinião do Bill, que Deus o perdoe. Prossegue no parágrafo seguinte citando Daniel Boone:

Mas mesmo homens muito mais durões e afinados com o mundo selvagem do que Thoreau ficavam sóbrios e sensatos diante de sua ameaça estranha e palpável. Daniel Boone, que não só lutava com os ursos como tentava namorar as irmãs deles, descreveu as regiões meridionais dos Apalaches como “tão agrestes e horríveis que é impossível contemplá-las sem terror”. Se Daniel Boone fica apreensivo, você sabe que está na hora de tomar cuidado.
E eu que pensava que Daniel Boone fosse tão real quanto o Zé Colméia me vi surpreso com a citação acima. Vivendo e aprendendo. Aliás, aprender com Bill faz parte do jogo em sua leitura. Sempre há alguma coisa interessante sobre um fato, algum dado científico, algumas estatísticas pseudo-acadêmicas que parecem surgir por lá como quem diz, “Hey, veja só, relato de viagem também é cultura, você definitivamente não está perdendo seu tempo aqui, amigão!”. O pior (ou melhor) é que é isso mesmo.
Bill e Katz não encontram muitas pessoas as quais possam ser nominadas nesse relato; entretanto, há uma figura que ganha boas páginas de destaque na primeira metade da viagem. Seu nome é Mary Ellen, uma jovem caminhante gorducha, metida e irritante que ganha a seguinte descrição de Bill:

Sei há muito que faz parte dos planos de Deus que eu passe algum tempo com cada uma das pessoas mais estúpidas da face da terra: Mary Ellen era a prova de que, mesmo nas florestas dos Apalaches, eu não seria poupado.
Não, ele não está exagerando nem um pouco ao referir-se desse modo a Mary Ellen, se levarmos em consideração a veracidade dos acontecimentos ocorridos naquela viagem. Para nós, leitores, todas as Mary Ellens são bem-vindas, claro, pois que graça tem uma viagem sem esses tipos estranhos pelo meio do caminho?
Para quem alguma vez já fez longas caminhadas por trilhas, como o Caminho de Santiago ou a Trilha Inca ou as já bem divulgadas por aqui e inspiradas na rota jacobea como os Caminhos do Sol, da Fé, da Luz, das Missões, Passos de Anchieta entre outros tantos, é interessante notar como várias situações vividas por Bill em sua viagem pelos Apalaches fazem parte de um tipo de padrão comum a viagens dessa magnitude (com elementos comuns entre si: a viagem a pé, longa duração, grandes etapas, solidão, sofrimento físico, mudança de valores conforme a viagem avança...).

Depois de cinco dias caminhando e acampando na floresta, relata Bill, “uma estrada asfaltada, o barulho de carros passando e uma casa de verdade podem parecer coisas emocionantes e estranhas”.
Continua:
Só o fato de passar por uma porta, estar dentro de algum lugar, cercado por quatro paredes e um teto, era inusitado. (...) Eu estava começando a aprender que a característica central da vida na Trilha dos Apalaches é a privação, que o ponto essencial da experiência é afastar-se tão completamente das comodidades da vida cotidiana que as coisas mais comuns – queijo pasteurizado, uma lata de refrigerante gelado – o enchem de encanto e gratidão. É uma experiência inebriante tomar Coca-Cola como se fosse a primeira vez e ser conduzido à beira do orgasmo por uma fatia de pão branco. Faz todo o desconforto valer a pena.
Sobre as regras de civilidade, estas também se alteram numa viagem desse porte, onde o mote principal é, e sempre será, o de seguir, seguir, seguir, até onde suas forças permitirem; tomar banho diariamente, assoar o nariz com um lenço descartável, lavar as mãos após usar o banheiro (banheiro?) isso tudo faz parte de um passado muito distante. Um exemplo breve pincelado da narrativa de Bill, quando ele e Katz passam uma noite terrível num abrigo infestado de roedores:

“Nada como uma boa noite de sono, e esta noite não foi nada parecida com uma boa noite de sono”, concluiu, bufando, quando se mexeu. Descobri mais tarde que ele estava feliz porque matara sete camundongos, e sentia-se muito orgulhoso – para não dizer cheio de si, achando-se um gladiador.
Um tufo de pelos e restos de uma coisa cor-de-rosa e carnuda estavam grudados no fundo de seu cantil. Notei quando Katz o levou aos lábios. De vez em quando me perturbava ao perceber – suponho que isso aconteça com todos os excursionistas – o quanto somos capazes de esquecer as regras normais de civilidade quando estamos na trilha. Aquele foi um desses.
Muitas coisas ainda virão pela frente nesse relato, porque, apesar de tudo o que você já leu até aqui, não contei nem um quinto de tudo o que você irá encontrar pela frente caso decida se jogar de cabeça nas 280 páginas da edição brasileira da obra. É tanta coisa legal e divertida que eu mesmo já li esse livro três vezes e sei que voltarei a lê-lo outras tantas. Para finalizar (é claro que não contarei como essa aventura termina) quero transcrever uma passagem em que o autor fala do contraste que sente aquele que sai de um ambiente cheio de energia e sacralizado, como o de uma floresta, e entra no feio e desconectado ambiente metropolitano, profanado e de certo modo destruído pelas mãos do próprio homem. Um insight surpreendente e lindo de Bill Bryson:

Lembro ter lido certa vez sobre alguns índios da Idade da Pedra que viviam na floresta tropical brasileira que nem pensavam que existisse um mundo fora da selva. Eles foram levados para São Paulo e para o Rio e, quando viram os edifícios, os carros e os aviões que passavam, acabaram mijando nas calças, profusamente e em uníssono. Eu tinha alguma ideia de como se sentiram.
É um contraste muito estranho. Quando você está na trilha, a floresta é seu universo, infinito e inteiro. É tudo o que você vivencia, dia após dia. Por fim, é quase tudo o que você consegue imaginar. Você tem consciência, é claro, de que em algum lugar do horizonte existem cidades imensas, fábricas movimentadas, rodovias congestionadas, mas ali naquela parte do país, em que as árvores cobrem a paisagem até onde seus olhos podem ver, é a floresta que dá as ordens.
Mas ao sair da trilha e ir de carro até um lugar qualquer – era isso o que estávamos fazendo – você percebe que tudo não passava de uma grande ilusão. As montanhas e florestas eram apenas um pano de fundo – familiar, conhecido, próximo, não mais altivo ou notável do que as nuvens que corriam rapidamente sobre suas cristas. Aqui, o mundo real estava bem perto de você e era ele quem dava as ordens: postos de gasolina, Wal-Marts, K-marts, Dunkin’ Donuts, Blockbusters, um desfile incessante e hediondo de estabelecimentos comerciais.
Até mesmo Katz ficou nervoso com aquilo. “Putz, como tudo isso é feio”, suspirou, pasmado, como se nunca tivesse visto nada igual, olhei por sobre seus ombros e vi um vasto shopping center com um estacionamento do tamanho de uma pradaria. Concordei. Era horrível. E então, profusamente e em uníssono, mijamos nas calças.
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Leia: Uma caminhada na floresta: redescobrindo os estados Unidos pela Trilha dos Apalaches. Bill Bryson. Companhia das Letras, 1999.
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Para ir direto à página oficial do Bill Bryson, clique bem aqui
♣ Para descobrir o que o Bill tem feito de bom, outro site dele, mas com foco nas obras. Dê uma espiada clicando aqui
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Sites sobre a Trilha dos Apalaches:
www.appalachiantrail.org
www.appalachiantrail.com
sábado, 24 de julho de 2010
As viagens de Benjamin Franklin
Aqui no Brasil também tivemos grandes homens e mulheres que fizeram muito por nós, alguns tidos por heróis, como é o caso do alferes Tiradentes e seus companheiros inconfidentes, da Princesa Isabel, que lutou pelo causa da abolição da escravidão, ou D.Pedro II, que acreditou no Brasil e o amou até o final de sua vida.
Nos Estados Unidos, país que sempre teve importantes figuras no cenário político nacional e internacional, um nome é sempre aclamado, seja pela sua inteligência e cultura singulares, ou pelo fato de haver conseguido conquistar enorme simpatia além-mar: Benjamin Franklin.
Encontrei um texto num blog de viagem (http://www.gadling.com/) que me surpreendeu pela interessante maneira de apresentar uma personalidade histórica a partir de suas viagens. Um texto leve e ágil, escrito para o público americano (chamam-no de “nosso pai fundador”) e que me fez ficar com muita vontade de conhecer melhor esse “Mahatma” que ajudou a fundar a grande nação dos Estados Unidos da América.
O interessante é que, ao lermos sobre as viagens de Benjamin Franklin, vamos sendo informados sobre diversas passagens históricas importantes que mudaram não só a vida dos norte-americanos como a de todos nós. Você entenderá o que isso quer dizer ao ler o texto completo. Eu gostei muito, e acho que você também irá se encantar com a leitura. Namastê.
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Benjamin Franklin, Traveler.
Para Benjamin Franklin , Paris era "como um sonho agradável do qual eu estava arrependido de ser despertado por me encontrar de novo em Londres". Ele achava a Inglaterra "uma pequena ilha" cheia de pobreza e sempre "úmida", mas com “mentes muito mais sensatas, virtuosas e elegantes" do que as que encontraria de volta a casa. Como companhia, preferia os franceses - "Eu não sei quais são os mais ardilosos, os ingleses ou os franceses, mas estes últimos têm, com suas trapaças, mais polidez." Tal polidez tal não foi devolvida por Franklin, que descreveu o Palácio de Versalhes como mal-conservado e surrado: "As fontes não funcionam."
Pode-se dizer que Benjamin Franklin era um pouco obstinado? Talvez, e felizmente esse é um valor americano que sobreviveu. Ele também foi um poliglota que estudou italiano, francês, espanhol e alemão. Infelizmente, esse é um valor americano que não sobreviveu. O jovem Ben Franklin começou sua carreira de viajante aos 17 anos, ao largar um emprego sem futuro fugindo para Nova York, criando um precedente para várias gerações de norte-americanos (Madonna, por exemplo). Isso serviu como um tipo de aprendizagem no exterior que acabou levando-o a fazer sua primeira viagem real – a Londres.

A viagem de retorno foi mais vagarosa - ele já estava com quase 20 anos de idade quando finalmente voltou para casa, descrevendo assim o que viu, "Do lado esquerdo aparece a costa da França ao longe, e à direita está a vila e castelo de Dover, com as colinas verdejantes e os penhascos calcários da Inglaterra." Lutou contra o tédio da longa viagem marítima através da leitura, de longas conversas, jogando damas ou cartas, e bebendo muito; testemunhou seu primeiro eclipse solar e viu um ajudante de cozinha ser chicoteado por haver utilizado demasiada farinha no preparo de uma sobremesa. Apostou com seus companheiros de viagem uma “bowl of punch" (o equivalente, no século 18, a uma rodada de cerveja) que estariam de volta à Filadélfia numa determinada data.... e perdeu. Quando um dos companheiros de viagem de Ben foi pego trapaceando nas cartas, os outros o castigaram amarrando uma corda em volta de sua cintura, e o içaram, deixando-o pendurado “por um quarto de hora”.
O pai fundador da nação acreditava veementemente que a viagem melhorava sua saúde e seu espírito, apesar das condições ásperas daqueles tempos. Como postmaster dos Estados Unidos (encarregado dos correios), viajou cerca de 1.600 milhas a cavalo, de carro e a pé, inspecionando as estações de correio da Virgínia do Sul à Nova Inglaterra. Chegou a cair de seu cavalo duas vezes – arranjando uma lesão que se prolongou por toda a vida. A caminho do Canadá (às vésperas da Revolução Americana), atrasou-se por conta do gelo e da nevasca de abril ocorrida ao norte de Nova York. Na Inglaterra e na França, ele geralmente viajava de post-chaise, uma carruagem leve, onde o condutor montava um cavalo atrelado a uma carroça.

Franklin era fascinado por tudo o que ele presenciava em suas viagens, dos tipos estranhos de algas que colheu no meio do oceano até a maneira que as senhoras francesas aplicavam seu rouge. Gostava de música escocesa e coletava partituras como se fossem CDs recém-lançados, e cantava aquelas canções no decorrer da viagem ao lado de sua filha. De lembranças, Benjamin comprava livros – possuindo uma vasta coleção, de obras compradas na Alemanha, Holanda e França, livros que “continham um conhecimento que poderia vir a ser útil na América." De regalo a seus anfitriões estrangeiros, oferecia pacotes de maçãs desidratadas da América.
No exterior, Ben Franklin era um apaixonado pela cozinha, dando mais valor à culinária local do que aos enfadonhos monumentos históricos."Se eu pudesse encontrar em qualquer viagem pela Itália uma receita para fazer queijo parmesão, isso me traria mais satisfação do que uma transcrição de qualquer inscrição a partir de qualquer pedra antiga que fosse", escreveu. Quando era embaixador, manteve uma adega particular na França, onde um funcionário contou exatamente 1.203 garrafas – mais de Bordeaux, menos de Burgundy - e várias garrafas de espumantes brancos franceses.
Ben Franklin apreciava o anonimato da viagem – no sentido de que, dessa maneira, um homem ou uma mulher poderiam se libertar das obrigações culturais, desfrutando da liberdade de um outsider. Em 1776, após a América ter sido declarada independente da Grã-Bretanha, Benjamin Franklin foi enviado a Paris como "ministro da França". Viveu na Europa nos oito anos seguintes, forjando tratados importantes, levantando dinheiro para os recém-nascidos Estados Unidos da América, e fazendo o trabalho mundano de um embaixador (como a emissão de um passaporte para o grande explorador Capitão Cook, que precisava passar por um bloqueio armado de navios norte-americanos).
Como um americano novato no estrangeiro, Benjamin Franklin sentiu que era seu dever vender a América para o resto do mundo; falou do milho norte-americano que "encanta os olhos de qualquer viajante observador" e bancou inúmeros jantares onde as novas filosofias americanas eram discutidas. Em 04 de julho de 1778, Franklin comemorou o aniversário da Declaração da Independência convidando seu “frenemy” (amigo-inimigo) John Adams para jantar em sua casa francesa, juntamente com 50 amigos franceses. A mesa contava com abundantes bandeiras americanas. Franklin era famoso na França - muito famoso. Houve uma época em que medalhões e gravuras do busto de Franklin adornavam desde abóbadas sobre lareiras a caixas de rapé em Paris. Foi introduzido em vários clubes particulares e sociedades acadêmicas e convidado a testemunhar as grandes invenções daqueles dias.
Em 1783, Franklin viu o primeiro vôo de um balão de hidrogênio no Champ de Mars, em Paris. Pouco depois, chegaria a investir seu próprio dinheiro em um vôo de balão tripulado, e foi a primeira pessoa beneficiada com uma encomenda via-aérea quando o legalista americano John Jeffries transportou uma carta para ele através do Canal da Mancha a bordo de um balão. O conceito aeroviário deixou Franklin maravilhado e fez com que ele sonhasse com o seu balão privado, que o levaria de um lugar a outro poupando-lhe do cansaço nas pernas.
Com muita frequência, os políticos de hoje sentem a necessidade de exumar e abusar dos nossos pobres pais fundadores, a fim de promoverem suas próprias agendas políticas. Pregam o "patriotismo", esquecendo-se do amplo espectro de patriotas que vieram antes deles, com distintas vidas e opiniões. (Para que fique registrado, Benjamin Franklin foi o único pai fundador que assinou os quatro principais documentos comprovativos da Independência Americana: a Declaração da Independência, o Tratado de Paris, o Tratado de Aliança com a França, e a Constituição dos Estados Unidos. Além disso, John Adams detestava radicalmente Ben Franklin, por achá-lo demasiadamente admirável para ser admirado). Qualquer que seja a convicção política de uma pessoa, se formos confiar no exemplo de Benjamin Franklin, um valor é certo: um patriota é alguém que viaja e amplia sua mente através das viagens.
Sacou? Os verdadeiros patriotas são os que viajam (Real patriots travel, um ditado utilizado pelos norte-americanos que viajam ao exterior). Nada mais apropriado, então, de que seja de Benjamin Franklin, o pai fundador da nação americana que mais viajou, a face representada na nota de 100 dólares.


sexta-feira, 7 de maio de 2010
Clássicos da Literatura Odepórica: Zen e a arte da manutenção de motocicletas, by Robert Pirsig

Como de hábito, fui vasculhar na internet, naquele bom site dos sebos, e encontrei uns dois volumes, mas um estava com rasuras e o outro valia quase o preço do novo, então deixei pra lá mesmo. Mas não é que o destino foi legal comigo? Pois um dia, caminhando pela Domingos de Morais, topei com um rapaz vendendo de maneira improvisada vários livros distribuídos pela calçada, todos por dez reais, e entre eles, gritando meu nome, o ZAMM (para os íntimos) e em ótimo estado, apesar de ser uma edição de 1984. Beleza.
Fui lá eu todo contente e empolgado devorar a obra. Gostei do comecinho, um cara e seu filho na moto, por uma estrada antiga das planícies americanas, vento úmido e morno na cara, o cheiro dos pântanos entrando pelas narinas enquanto se comem os quilômetros de velhas estradas vicinais... A moto avançando, o fruir da paisagem, vontade louca de fazer o mesmo, saudades da minha XL 95....Quem já teve moto sabe muito bem o que o Robert quis dizer quando escreveu as seguintes linhas:
“Quando a gente passa as férias viajando de moto, vê as coisas de um jeito completamente diferente. De carro a gente está sempre confinada, e como já estamos acostumados, nem notamos que tudo que vemos pela janela não passa de mais um programa de televisão. Sentimo-nos como um espectador, a paisagem fica passando monotonamente na tela, fora do nosso alcance.”
“Já na motocicleta, não há limites. Fica-se inteiramente em contato com a paisagem. A gente faz parte da cena, não fica só assistindo, e a sensação de estar presente é esmagadora. Aquele concreto zunindo a uns quinze centímetros da sola dos pés é real, é o chão onde se pisa, está bem ali, tão indistinto devido à velocidade que nem se pode fixar a vista nele; e, no entanto, para tocá-lo basta esticar o pé. A gente nunca se desliga daquilo que está acontecendo.”
A história que se seguirá é de certa maneira simples e fácil de resumir: um homem na faixa dos quarenta anos decide, no verão de 1968, empreender uma viagem de moto de Minnesota a São Francisco junto com um casal de amigos, John e Sylvia, levando na garupa seu filho, Chris, na época com onze anos.
É basicamente um romance de estrada, mas não é só isso. Aliás, a estrada, de fato, serve apenas como cenário para uma encenação literária muito mais complexa do que o deslocamento dos personagens. O narrador, em primeira pessoa, não é nomeado na obra, mas você facilmente percebe que quem viveu a história foi o próprio Robert, sendo Chris o seu filho na vida real, assim como o casal de amigos. Definitivamente, estamos diante de uma narrativa de viagem de cunho autobiográfico.
Enquanto a viagem acontece no plano da ação, Robert cria uma regra que determina todo o andamento da leitura. Recorre a uma estranha palavra - chautauqua -, uma espécie de palestra popular em voga no século XIX nos EUA, que visava “edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador”, segundo as palavras do próprio autor, para introduzir alguns conceitos profundos (pelo menos para os não-iniciados) sobre filosofia, ou mais especificamente, sobre o conceito de Qualidade dentro do sistema filosófico.
E aqui, precisamente, temos um problema: se você imaginava, assim como eu, que encontraria nessa obra um tanto de aventura e outro tanto do barato zen, à moda de um Kerouac e seus vagabundos iluminados, pode esquecer. Mas veja lá, o próprio autor adverte em nota que sua obra não trata mesmo disso, de modo que o zen só aparece pincelado, bem de leve, ao longo da narrativa.
Até aí, tudo bem. Mas o que pode assustar uma pessoa desavisada é o peso que tem, no corpo da obra, as longas divagações filosóficas do autor. Devo admitir que, a princípio, fui me aborrecendo com o Robert Pirsig por conta de suas longas e por vezes chatíssimas chautauquas. Muitas delas eu até pulava, porque o que mais me interessava ler era a descrição da viagem e as relações interpessoais, muito mais interessantes para mim.
Claro está que o problema não se encontra na obra, e sim no limite intelectual do leitor, pouco aficionado por filosofia. Mas isso não quer dizer que eu não tenha gostado do livro, não mesmo. Só que, ao envolver-me com a leitura, tomei mais empatia pelos outros personagens do que pelo próprio narrador, a quem considerei – tenho vergonha de admitir – um daqueles caras cuja inteligência avançada é proporcional à falta de charme e chatice; acho que se você também não se empolga muito com esse tipo de gente irá entender o que digo. (Agora, relendo o que acabei de escrever, penso que exagerei um pouco na dose; o narrador não é tão chato e desprovido de charme assim).
Outra peculariedade que causará estranheza é a presença de um personagem crucial na construção da história: o fantasma Fedro, não no sentido caricato que se tem dos fantasmas do além-túmulo, mas um tipo de duplo do narrador, que você mais tarde, na terceira parte da obra, irá compreender melhor de quem se trata. Preste muita atenção na presença de Fedro nesta narrativa, que é uma das chaves de leitura de todos os acontecimentos que compõem os aspectos biográficos do autor.No meu caso, entretanto, o que mais me chamou a atenção foi a relação do narrador com seu filho Chris. A bem dizer, esta obra trata fundamentalmente da relação narrador(Robert)/Fedro/Chris. Se você é do tipo que curte psicologia, certamente irá aproveitar muito essa leitura.
A relação vivida entre o narrador e seu filho é bastante peculiar. A viagem, em si, já me parece estranha (por conta da presença de uma criança) se levarmos em consideração o ritmo empreendido; são muitos dias de viagem em cima de uma moto, sofrendo as duras instabilidades climáticas, calor e frio alternadamente, dormindo a maior parte do tempo em beira de estradas, sem nenhum objetivo definido. Os planos, para o narrador, “são propositalmente vagos; queremos mais viajar do que chegar a algum destino”.
Fico pensando se esse “queremos” inclui de fato o desejo de Chris; em algum momento da narrativa fica claro que o garoto não parece entender bem a dinâmica da viagem, que aos olhos de um adulto sugere uma aventura encantadora, mas será o mesmo para um garoto de 11 anos? Provavelmente não, e no fundo seu pai percebe isso, embora não pareça se importar muito com a opinião dele. Seguir viagem é o que interessa, e talvez, como sugere o final da obra, haja um motivo para que tudo tenha acontecido daquela maneira.
Ainda assim, a impressão que temos é a de que o narrador é um pai impaciente, que demonstra algumas vezes não se conformar com o fato de que seu filho de 11 anos não tem a capacidade de acompanhar o seu raciocínio lógico; é bem provável que seja isso, que tenha lhe faltado um pouco de psicologia infantil e um olhar mais apurado certamente encontrará outras inúmeras possibilidades de interpretação. A dica, talvez, seja a de ler (ou reler) a obra sob o ponto de vista do garoto, o que me parece uma opção bastante atraente.Enfim, mesmo com todas as complexidades que envolvem essa trama sob duas rodas, senti uma leve tristeza ao terminar a leitura. Não sei bem explicar o motivo, talvez minha tristeza (ou seria melancolia?) tenha sido causada por conta de algumas passagens meio deprês da obra, relacionadas quase sempre com o passado do autor/narrador. (nota: leia a pequena biografia de Robert Pirsig no final desse post e você entenderá o que estou dizendo. Aliás, entenderá melhor ainda a obra como um todo).
Selecionei pequenos trechos para que você tenha uma ideia do estilo da escrita do autor. Primeiro, sobre a arte da manutenção de motocicletas:
“Nem todos compreendem que a manutenção das motocicletas é uma operação completamente racional. A maioria das pessoas pensa que é uma questão de ‘queda’ ou de ‘afinidade pelas máquinas’. Estão certas, mas essa ‘queda’ é quase inteiramente um processo racional, e a maioria dos problemas são causados por ataques de burrice, falhas no uso apropriado do raciocínio. A motocicleta funciona inteiramente de acordo com as leis racionais, e o estudo da arte da manutenção das motocicletas é, no fundo, um estudo em miniatura da arte da própria racionalidade.”
Como você pode imaginar, a motocicleta e suas implicações mecânicas (funcionalidade, conserto, manutenção) são metáforas utilizadas pelo autor para introduzir questões profundas de ordem interior. Só que, ao invés de explorar o campo da espiritualidade, Pirsig opta pela sabedoria dos antigos filósofos para atingir algum grau de compreensão mais elevada, no que parece dar-se muito bem. Ainda assim, em alguns poucos trechos da narrativa é possível captar o espírito do zen que, afinal, dá título à obra, como na breve passagem abaixo assinalada, num momento em que o narrador faz alguns ajustes na motocicleta:
“O primeiro tucho está em ordem, não precisa ser ajustado, e eu passo para o seguinte. O sol ainda vai demorar muito para brilhar sobre estas árvores... Quando estou fazendo isso, sinto-me como se estivesse na igreja. O calibrador é uma espécie de ícone sagrado, e estou realizando com ele um rito religioso. É membro de um conjunto denominado ‘instrumentos de precisão’, que tem um profundo significado no sentido clássico. (...) A motocicleta é isso, um sistema de idéias moldado em aço. Nela não há peças nem formas que não sejam fruto do pensamento de alguém...”
Sobre montanhas e viajantes
“Depois de uma boa noite de sono, Chris e eu enchemos as mochilas com o maior cuidado, e já estamos subindo pela encosta há uma hora. Aqui no fundo do desfiladeiro a floresta é formada quase que exclusivamente por pinheiros, com alguns choupos e arbustos de folhas largas. De vez em quando, a trilha leva a uma clareira forrada de relva e iluminada pelo sol, à beira do regato do desfiladeiro, mas em seguida penetra novamente na densa sombra dos pinhais. O chão da trilha está coberto de uma camada fofa e úmida de agulhas de pinheiro. O silêncio é completo.”
“Montanhas como esta, e histórias de viajantes que as escalam, encontram-se tanto na literatura Zen, como nos mitos das mais importantes religiões. A alegoria da montanha física, que representa a escalada espiritual que a alma deve empreender para alcançar seu objetivo é estabelecida de maneira fácil e natural. A maioria das pessoas, como aquelas que moram no vale lá embaixo, ficam contemplando as montanhas espirituais a vida inteira, mas nunca se resolvem a escalá-las, contentando-se em ouvir as peripécias que lhes contam os que lá estiveram; assim, evitam as agruras da subida. Outros viajam acompanhados por guias experientes, que conhecem as rotas mais propícias e menos perigosas para atingir o destino desejado. Poucas dessas pessoas logram êxito, mas às vezes, com força de vontade, sorte e motivação, algumas conseguem chegar ao cume e, uma vez lá, têm o privilégio de descobrir que não há um único caminho nem um número fixo de rotas. Existem tantos caminhos quantas são as almas.”
“Na Índia, Fedro escreveu uma carta sobre uma peregrinação feita por ele, em companhia de um guru e seus seguidores, ao monte Kailas, onde fica a nascente do Ganges e a morada do deus Siva, no alto do Himalaia. Ele não chegou até a montanha. Desistiu no quarto dia, exausto, e a peregrinação prosseguiu sem ele. Para justificar-se, disse que tinha força física, mas que só isso não bastava. Tinha também a motivação intelectual, mas isso também não era suficiente. Ele não achava que tinha sido arrogante, mas que estava fazendo a peregrinação para enriquecer sua própria experiência, para aumentar seus conhecimentos. Estava tentando usar a montanha e a peregrinação para atender a objetivos individuais. Para ele, a entidade visada era ele mesmo, não a peregrinação nem a montanha; ele não estava preparado para enfrentar aquela experiência. Deduziu que os outros peregrinos, que chegaram ao destino, provavelmente captaram a santidade da montanha de maneira tão intensa que cada passo era um ato de adoração, um ato de submissão àquela santidade. A santidade da montanha infundida nos seus espíritos permitia-lhes suportar a jornada com muito mais facilidade do que ele, que era fisicamente mais forte.”“Aparentemente, não há qualquer diferença entre a escalada egocêntrica e a escalada desprendida. Ambos inspiram e expiram à mesma velocidade. Ambos param quando estão cansados. Ambos prosseguem depois de descansar. Mas como são diferentes! O alpinista egocêntrico é como um instrumento descalibrado. Está sempre atrasado ou adiantado na caminhada. Corre o risco de deixar de ver a beleza dos raios de sol passando através das copas das árvores. Ele prossegue mesmo cansado, a passos trôpegos. Descansa nas horas erradas. Fica olhando para cima, para ver o que o aguarda, mesmo quando já sabe o que existe adiante, porque já olhou para lá há apenas um segundo. Vai muito depressa, ou muito devagar em relação às condições reais e, ao falar, fala sempre sobre outro lugar e outras coisas. Está aqui, e, ao mesmo tempo, não está. Rejeita o presente, não se conforma com ele, quer prosseguir, mas, ao atingir o ponto desejado, fica tão insatisfeito quanto está agora, porque o lugar antes distante se transformou no ‘aqui’, no lugar presente. Aquilo que ele procura, aquilo que ele deseja, está ao redor dele, mas ele não aceita, justamente porque está ali pertinho. Cada passo requer um tremendo esforço, tanto físico quanto espiritual, porque ele imagina que o seu objetivo é externo e distante. Parece que é esse o problema do Chris.”
Pois é, essa emblemática afirmação final refere-se a uma caminhada extenuante nas montanhas onde pai e filho tentaram (sem logro) atingir o cume. Ô Seu Robert Pirsig, o moleque só tem onze anos! E a gente, que só de ler sobre essa escalada já se cansa! Enfim, quem somos nós para dar palpite na educação dos filhos alheios, certo? Pois é, e eu que comecei a leitura empolgado e que de vez em quando desanimava com as divagações filosóficas do motociclista quarentão, acabei sendo pego de surpresa nas últimas páginas, quando parte do mistério sobre o passado do narrador nos é revelado. Claro que não vou entregar o final, mas garanto a você que as últimas linhas desse romance fazem toda a leitura valer a pena – especialmente se você conseguir captar, no último diálogo entre pai e filho, a mensagem cifrada que eu, sinceramente, não sei se foi escrita de maneira consciente pelo autor. Mas isso, para mim, também não tem a mínima importância...Pequena e descompromissada biografia do Robert Pirsig

Robert M. Pirsig, escritor e filósofo estadunidense, nasceu em 1928. Foi uma criança precoce, com um QI de 170 aos 9 anos de idade. Por conta disso, adiantou-se nos estudos e aos 15 já havia ingressado na Universidade de Minnesota.
Serviu o exército na Coréia. Em 1950 foi para a Índia estudar filosofia oriental em Benares. Entre os anos de 1960-63 foi internado em instituições mentais, tendo sofrido um sério colapso nervoso. Foi tratado a base de terapia de eletrochoque e teve o diagnóstico de esquizofrenia paranóica e depressão.
Do primeiro casamento teve dois filhos: Chris, em 1956 e Ted, dois anos depois. Casou-se pela segunda vez em 1978 e teve uma filha, Nell, em 1981. Publicou poucos livros depois de ZAMM, nenhum deles tendo atingido o mesmo êxito de seu livro famoso.
Raramente aparece na mídia; evita o assédio público e viaja rotineiramente de barco pelo Atlântico, tendo vivido em diversos lugares dos Estados Unidos e em algumas cidades europeias.
Em 1979, contando com apenas 23 anos de idade, Chris é assassinado durante uma tentativa de assalto, à saída do San Francisco Zen Center.
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Leia: Zen e a arte da manutenção de motocicletas – uma investigação sobre valores, de Robert Pirsig. Minha edição tem uma capa muito feinha, é de 1984 e saiu por aqui pela Editora Paz e Terra. A tradução é de Celina Cardim Cavalcanti.
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As fotos que você vê aqui (John, Robert, Sylvia e Chris) foram tiradas pelo autor do livro com sua própria máquina fotográfica durante a viagem em 1968, Ano do Macaco no horóscopo chinês.










