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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Pé na estrada

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O texto que você lerá a seguir é o editorial que abre a edição de março de 2012 da revista espanhola Siete Leguas (Viajes del Siglo XXI), excelente publicação sobre a qual escrevi aqui no Odepórica há algum tempo. O título do Editorial, Al mal tiempo, carretera y manta, algo como “se o bicho pegar, pé na estrada”, é um aviso, quase uma ordem: quando você se encontrar numa situação onde nada mais parece funcionar, experimente cair na estrada – nem que a viagem não seja mais longa do que uma volta no quarteirão de casa.

Entre outras coisas, viajar é a melhor maneira de curar uma cabeça confusa e cheia de miasmas emocionais. Às vezes liberta, às vezes até alimenta um sofrimento, mas uma coisa é certa: faz a gente tirar a bunda do sofá e, como diz o Fernando Baeta, ajuda a ampliar nosso campo de visão. É o distanciamento, sempre necessário, para enxergar a vida sob uma nova perspectiva. Namastê!

Somente a imaginação pode fazer com que saiamos do imenso poço anímico no qual estamos imersos. E nada como viajar para inflamar dita imaginação, para suspender o pessimismo que nos arrasta por este laço melancólico que não sabemos onde vai dar.

Quando as coisas não vão bem, caia na estrada: a viagem há tanto desejada, a escapada altamente perseguida, o destino eternamente protelado. Que o pessimismo não nos freie em nosso caminho; que o medo não aniquile nosso desejo de ir, ver e conhecer; que a viagem nunca chegue a seu fim. Não podemos ficar quietos, nada pode paralisar nosso desejo de continuar viajando, de ir mais além, sempre mais além... A viagem abre nossos sentidos, agita nosso intelecto e move nossas pernas. E tanto faz o destino, não há viagem pequena, assim como não há viagem grande. Há apenas a viagem. Há o destino. Há um sonho a ser alcançado.

Não estamos loucos, não. Sabemos que o ânimo enfraquece, e o bolso também; não queremos posar de transcendentais, nem de pretenciosos, de sentimentais ou de extraordinários, apenas queremos lançar um pequeno grito de otimismo, de esperança, de futuro.

Não é hora de nos metermos em nossas conchas e lamentarmo-nos; não é tempo de lágrimas que embacem nosso irresistível desejo de olhar adiante; é chegada a hora de voar, de voar contra o vento se for o caso, mas de voar. É preciso sair, ainda que seja aqui ao lado; é preciso mover-se, nos deixar levar, conseguir com que a distância, longa ou curta, atue como excitante e calmante ao mesmo tempo.

Em qualquer parte deste planeta existe algo nos aguardando; não sabemos o motivo certo, mas ali está, à espera de nossos olhos, nossas mãos, nossas palavras. Não sabemos, mas nesse lugar há quem precise de nós tanto quanto nós necessitamos desse ponto no mapa, essa meta que pode ser em qualquer esquina, essa escapada tão necessária. Viajar amplia nosso campo de visão; viajar não é só um capricho, é uma necessidade, até mesmo uma obrigação.

Ninguém está falando para torrar as economias, de gastar o que não se tem, de ir aonde não se pode chegar; trata-se de não se deixar deter pelo pânico, de não se deixar frear por conta do medo, de que grandes nuvens negras não nos tragam uma chuva imaginária muito antes que a água comece realmente a cair.

Ponha a mão no bolso e invista em quilômetros, em milhas, em sonhos... com a certeza de que estará investindo em algo tão grande e ao mesmo tempo tão intangível como a esperança, algo que não se pode medir mas que é capaz de nos fazer chegar mais longe do que qualquer realidade. Não se detenha jamais. Viaje, viaje e viva. E não se esqueça nunca de que a viagem é praticamente constituída da mesma matéria que forma os sonhos.

sábado, 31 de março de 2012

Desiderata, by Max Ehrmann

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Todas as viagens são boas, e algumas mais especiais do que outras. Nem sempre sabemos explicar o motivo pelo qual somos mais tocados pelas lembranças de uma viagem enquanto outras simplesmente se apagam da memória sem nenhuma razão aparente. Não fossem as fotografias que tiramos, ou certos objetos que trazemos na volta a casa, uma pedra, uma conchinha roubada da praia, um seixo de rio, qualquer coisa simples e cheia de simbolismo que só você é capaz de compreender, provavelmente nenhuma lembrança restaria do evento. Mistérios da mente, vai saber.

No entanto, em se tratando de lembranças, há aquelas que carregaremos para sempre conosco, como que atreladas ao nosso DNA, grudadinhas nas células que formam nossa embalagem de carne e de ossos a que damos o nome de corpo.

Há alguns anos, depois de trabalhar por mais de uma década na mesma empresa, desliguei-me do quadro de funcionários e dei um tempo em tudo, uma espécie de ano sabático; no primeiro ano dediquei-me aos estudos de pós-graduação e no começo do ano seguinte, viajei para a Espanha na condição de vagamundo hospitaleiro.

Foram quase seis meses de trabalho voluntário, acolhendo peregrinos na rota francesa do Caminho de Santiago, a mais conhecida e percorrida desde sempre. Foi a experiência mais fascinante pela qual passei na vida, cheia de aprendizados e vários deslocamentos, muitas vezes sendo guiado pelo acaso até chegar a algum lugar onde pudesse passar a noite ou algumas semanas, dependendo das circunstâncias. Um dos lugares mais marcantes para mim foi a estadia no albergue de peregrinos de Grañón, um pequenino povoado distante poucos quilômetros de Santo Domingo de la Calzada, delimitando a províncias de Burgos e de La Rioja, terra dos bons vinhos.





Mas não pretendo escrever sobre Grañón, nem sobre a minha viagem daquele ano, que foi sem dúvida a que mais me transformou e é a que guardo com mais carinho e saudades. Apenas trouxe esse fato à lembrança para justificar o motivo que me leva a postar o poema que você lerá logo abaixo. Pois bem, estive mexendo com alguns papéis hoje e abri uma pasta onde guardo toda a papelada que carreguei comigo daquela viagem de seis meses pela Espanha. Há exatos nove anos eu me encontrava em Grañón, onde passei a Páscoa mais cristã de toda a minha vida, um acontecimento que um dia, quem sabe, irei escrever aqui no Odepórica.

Havia naquele albergue um quadro de avisos, daqueles com moldura de madeira e corpo de cortiça, que você já deve ter visto pendurado em algum lugar; nele, os peregrinos deixavam recados, escreviam passagens de textos bíblicos, anexavam desenhos, fotos, letras de canções (coisa que caminhante brasileiro adora fazer), receitas, piadas e, claro, poesias, como não?


O que eu achava muito especial, eu roubava na cara dura, sem remorso. Tenho esse defeito, mas só às vezes, de tomar para mim aquilo que (acredito piamente) mais ninguém saberá dar valor. Já sei que é errado, nem precisa me dizer o quanto, mas ninguém é mesmo perfeito. Bom, daí que, num desses afanos, trouxe um poema, xerocado, que achei lindo demais no momento em que o li e hoje, ao relê-lo, continuei achando-o belo e profundo. Por isso me deu vontade de transcrevê-lo aqui no blog, porque para mim sua leitura me traz conforto, paz e alegria, sentimentos bons de cultivar em época de Tempo Pascal. OM IACOBUS OM.




Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.


Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em harmonia com todos que o cercam.


Fale a sua verdade, clara e mansamente.


Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.


Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.


Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.


Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.


Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja,ele é um verdadeiro tesouro na continua mudança dos tempos.


Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas. Mas não fique cego para o bem que sempre existe.


Em toda parte, a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo.


Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira, pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.


Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.


Cultive a força do espírito e você estará preparado para enfrentar as surpresas da sorte adversa.


Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão.


Ao lado de uma sadia disciplina conserve, para consigo mesmo, uma imensa bondade.


Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.


Procure, pois, estar em paz com Deus, seja qual for o nome que você lhe der.


No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida, conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.


Acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano, o mundo ainda é bonito.Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz e partilhe com os outros a sua felicidade".

DESIDERATA - Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração.
Este texto foi encontrado na velha Igreja de Saint Paul, Baltimore. Foi citado no livro "Mensagens do Sanctum Celestial", do Fr. Raymond Bernard. O texto é de Max Ehrmannn e foi registrado pela primeira vez em 1927.


Versão do texto em inglês, em quadrinhos.





domingo, 5 de fevereiro de 2012

Literatura odepórica jacobea: Os 8 portais do Caminho, by Ricardo Mendes

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Retomando leituras jacobeas, entre elas as narrativas de viagem pelos caminhos de Santiago, tirei da prateleira um texto que considero dos melhores já escritos por peregrinos brasileiros: Santiago de Compostela – os 8 portais do Caminho. O autor, bom viajante, é também fotógrafo de profissão, Ricardo Mendes. Seu livro, um misto de fotografias em p&b e divagações sobre o Caminho, numa escrita leve e cheia de insights sobre a experiência do peregrinar, no mais amplo sentido do termo.

Os portais do título têm a ver com a maneira como o autor dividiu os capítulos, 8 no total, todos eles breves e de agradabilíssima leitura, que me lembram um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, já blogado por aqui; ambos têm em comum um profundo comprometimento com as coisas do espírito, com a Busca, termo que nos remete à obra do bem aventurado Paul Brunton, um grande sábio que em breve iremos conhecer melhor aqui no Odepórica.

Os portais são assim introduzidos ao leitor pelo Ricardo:

O Caminho é uma perfeita redução da linha da vida e, desde que estejamos abertos, nos deparamos com os principais temas de nossas vidas ao percorrê-lo. A aventura desta experiência é que no Caminho há pouco espaço para distrações. Telefonemas, televisão, jornais, trânsito, poluição e o stress urbano. Assim, os tais temas se apresentam em sua forma mais pura e essencial. Um sumo de fruta extraído por uma poderosa centrífuga. Cada um deles é um portal para a nossa evolução pessoal, e é preciso coragem e determinação para atravessá-los.

O amor, a fé, a compaixão e a gratidão são os sentimentos mais sublimes que o ser humano pode experimentar. São a base de nossa evolução espiritual. Os portais que se apresentam em nosso caminho são apenas possibilidades para irmos de encontro a esta sintonia maior. Alguns são despertados através da prática, outros partem da compreensão intelectual. Seja qual for o caminho escolhido, não existe outro rumo possível que não seja o do coração. Em algum momento da história da humanidade, é nele que todos vamos nos encontrar em uníssono.

Bonito isso, não? Os Portais vão aparecendo ao longo da obra separados por inúmeras fotografias que tentam a seu modo traduzir em imagem o sentimento da passagem lida anteriormente. Algumas são bárbaras, outras extremamente simples, como simples são as lições que vão sendo aprendidas durante a jornada. Eu gostei muito disso: não é um trabalho fotográfico de um profissional deslumbrado querendo mostrar técnica - ainda bem, porque senão o resultado seria totalmente contraditório com a proposta do autor.

Desse modo, entre clics, surgem os portais: Desapego, Limites e Expectativas, Presença, Desvios, Novas Experiências, Solidão, Intuição (a Verdade Interior), fechando com Bênçãos. Como você já percebeu, a pegada é bem espiritual, e como não deveria? O Caminho é propício a isso e que assim seja.


Transcreverei passagens do trabalho do Ricardo para você conhecer de perto o que tocou o coração desse peregrino enquanto perambulava lá pelos caminhos de Santiago. Verá que o moço tem uma cuca bem legal. Buen Camino!

Ouvindo o chamado

Ir de encontro ao Caminho é, antes de tudo, atender a um chamado. Um chamado que tanto pode surgir da falta de sintonia com a vida que se está levando, em seus inúmeros aspectos (trabalho, relacionamentos afetivos, rumos pessoais), quanto do desejo de aprofundar esta sintonia. Pode se manifestar através de uma ponta de curiosidade e levar anos até amadurecer e nos tirar da inércia. Pode parecer impossível ante o asfixiante emaranhado de compromissos inadiáveis que nos enredam. Pode ir e vir quando as coisas não vão bem, não importa.

Todos ouvimos em algum momento da vida. Para reconhecê-lo é preciso afastar o temor e deixar que se revele, que cresça ou evapore. Ao se manifestar, ele assume uma dimensão tao grande em nossas vidas que acaba sendo inócuo fazer-se de surdo. Mesmo sabendo que um sem-número de outras vozes surgirão para nos incentivar a esquecer daquele perigoso chamado do coração e nos enraizar onde já estamos fincados.

Não há voz mais poderosa do que a que vem do coração. Somente ela é capaz de nos fazer aglutinar coragem suficiente para enfrentar expectativas, tomar uma atitude inesperada, ininteligível e, à primeira vista, incoerente. Uma atitude que nos faça sentir vivos novamente. Mesmo que esta ousadia inexplicável seja a de dedicarmos uma parte de nossas férias a dar alguns passos em direção a nós mesmos.

Portal 1: Desapego





(...) Existe ainda um tipo de apego nem sempre relacionado aos bens materiais. Ele é invisível e está ligado a necessidades muito mais profundas e inconscientes: os hábitos. Mesmo bons hábitos (no sentido de que nos fazem bem) podem não ser tão saudáveis, dependendo do tipo de relação que estabelecemos com eles. Ler jornal pela manhã, por exemplo, é bom para nos manter atualizados. Nunca estar disponível para conversar com os filhos antes de ler o jornal matinal pode não ser bom para eles.

Na medida em que vão se enraizando, os hábitos tendem a engessar nossas atitudes e nos fazer escravos, tornando cada vez mais difícil abrir mão deles de uma hora para outra sem entrarmos em desespero. Neste sentido, o Caminho também pode funcionar muito bem como antídoto. Ele nos “obriga” à sua própria rotina, a estarmos presentes a cada passo, canalizando a atenção para o aqui e agora, ao fazê-lo, tomamos consciência de tudo o que é acessório e mecânico em nossas vidas e esta é a primeira etapa para realizarmos uma bela faxina, deixando para trás aquilo que não faz mais sentido, ou que na verdade nunca fez. Pode ser que custe um pouco, ou que não aconteça da primeira vez, mas pelo menos uma semente fica plantada. Na pior das hipóteses, adquirimos o hábito de caminhar, o que não é nada mal.


Portal 2: Limites e Expectativas






No Caminho os limites surgem das maneiras mais surpreendentes e sob as formas mais inusitadas. Lidar com eles pode ser muito revelador. São em geral situações muito simples, mas que trazem à tona a essência de muitas outras situações do cotidiano. Ao final de um dia de caminhada você pode ter percorrido 25 quilômetros sob um sol arrasador. Seus pés doem, a mochila pesa uma tonelada. Tudo o que precisa é de um banho reconfortante, um prato de comida e botar os pés pra cima. Na porta do refúgio, um aviso informa que novos peregrinos só serão admitidos dentro de 3 horas. A partir deste momento, um cardápio de possibilidades surge à sua frente.

Chutar a porta, sentar no bar mais próximo e aguardar, chorar, caminhar em volta em busca de atrações turísticas, atualizar o diário de viagem, continuar até o refúgio seguinte, procurar um hotel. Uma infinidade de atitudes que podem levá-lo a criar novas expectativas, novos limites, mas, principalmente, novos aprendizados. Se você se mostra indiferente ao aviso na porta pode estar precisando de mais energia em sua vida. Se chuta a porta e dá urros de raiva, talvez precise exercitar sua capacidade de improvisação. Ou, quem sabe, exatamente o contrário. Quem pode afirmar alguma coisa? Mais importante é ir se percebendo e entrando em contato com os mecanismos que orientam suas ações e reações ao longo da vida. E este é o primeiro passo para mudar alguma coisa com a qual você não esteja satisfeito.


Portal 3: Presença





Durante seis meses um rapaz viveu numa comunidade espiritual junto a seu mestre, num lugar paradisíaco. A rotina junto à natureza, a tranqüilidade e os ensinamentos que recebeu marcaram profundamente sua vida. Anos depois d éter deixado o convívio do mestre, recebeu a notícia de que também deixara a comunidade. Vivia agora numa grande cidade e cuidava de seu pai, gravemente doente.

Dias depois foi ao seu encontro. Ele agora morava bem no centro da cidade, ao lado de um mercado popular bastante barulhento. O coração do jovem rapaz se apertou ao ver o pequeno cômodo em que viviam. Foi recebido com alegria e somente após o jantar, quando o velho já adormecera, pode conversar com seu mestre. Assim que sentaram frente a frente, o rapaz perguntou:

Mestre, tive a sorte de poder viver a seu lado na comunidade um período maravilhoso, num lugar paradisíaco, onde aprendi lições que me acompanharão pela vida inteira. Lá presenciei o amor que entregavas a cada um que chegava, o carinho com que amassavas o pão e preparavas a comida, a simplicidade de teus ensinamentos. Custa-me acreditar no que vejo agora. Foste sacado daquele paraíso pela doença de teu pai e desde então vives num cômodo apertado e barulhento, onde mal entra a luz do sol. Consegues aqui também ser feliz?

O mestre sorriu, segurou as mãos dele entre as suas e disse olhando em seus olhos:

Não fui sacado daquele paraíso pela doença de meu pai, senão pelo amor que sinto por ele. E quanto à felicidade, aprendi que ela não depende de conforto ou de silêncio para se fazer presente. Para onde vou levo-a comigo embaixo de meus pés.


Portal 4: Desvios




(...) Mudar de vida muitas vezes pode significar nos aproximar de nós mesmos. A sensação de que exercemos pouco nossa individualidade é perfeitamente compreensível. Geralmente somos desestimulados a descobrir e desvendar as habilidades que somente nós trazemos, nossas verdadeiras impressões digitais. Neste sentido, caminhar por dias e dias ao ar livre, em contato com a natureza e pessoas desconhecidas de diversas origens, pode ser muito estimulante e revelador.

Nas condições naturais do Caminho, temos a chance de nos desnudar e entrar muito mais rapidamente em sintonia com o ser que realmente somos. E nada é tão capaz de deixar nossa essência emergir quanto nos despirmos das distrações. Feito este contato, tudo o que temos de fazer é cultivá-lo e fortalecê-lo. Assim, nos tornamos invencíveis.


Portal 5: Novas Experiências






(...) No Caminho, tudo o que se tem a fazer é caminhar, lavar roupa, comer, cuidar dos pés e dormir. Uma rotina muito mais simples do que aquela à qual estamos acostumados, sem a pressão d éter que ganhar a vida e pagar as contas. As paisagens são novas, dezenas de pessoas de diversas origens passam por nós. Por que então continuar a fazer tudo do mesmo jeito?

Depois de enfrentar tantos senões até por o pé no Caminho, por que não permanecer aberto a novas experiências? Não é necessário que seja algo muito revolucionário, nem é preciso fazer uma lista e programar tudo com antecedência. Basta deixar acontecer, perceber e mergulhar. Dizer não para algo a que você sempre diz sim, dizer sim para algo a que você sempre diz não.

Parece simples e realmente é. Minha primeira experiência nova no Caminho foi tirar uma soneca em plena trilha sob uma frondosa árvore, sem me preocupar por quanto tempo dormiria, se as formigas tomariam conta do meu saco de dormir ou se corria o risco de ser roubado. Foi delicioso, uma sensação de entrega como há muito não sentia.


Portal 6: Solidão






No Caminho pode-se escolher entre caminhar em grupo ou em sua própria companhia, variando muitas vezes durante o mesmo trecho. Durante minha caminhada preferi estar sozinho a maior parte do tempo para me conectar com o Caminho e ouvi-lo cada vez que me chamava a fotografar. Devo ter parecido antipático para alguns, apressadinho para outros. Queria apenas me concentrar no que estava fazendo. Muitas vezes usei o pretexto de parar para fotografar para interromper uma conversa aborrecida e estimular meu interlocutor a ir em frente.

Muita gente também não gosta de ficar a sós porque seus pensamentos incomodam. Que pensamentos são esses? Pensamentos são como pessoas e ninguém gosta de ficar fechado numa sala com alguém desagradável. A não ser que não seja preciso interagir com ela. Se é possível ler uma revista, ver televisão, enfim, distrair-se, tudo é tolerável. Sem distrações, nem pensar. Quando acumulamos questões em nossas vidas que não nos sentimos prontos para resolver, tornamo-nos viciados em distrações.

A própria companhia torna-se insuportável. Com o tempo, o sentimento de solidão se instala e as distrações precisam ser cada vez mais surpreendentes. Neste caso a solidão é uma saudade de si mesmo. De alguém que poderíamos ter sido. E que um dia ainda poderemos voltar a ser.


Portal 7: Intuição, a Verdade interior





(...) o Caminho é uma excelente oportunidade para retomarmos a prática de decisões mais intuitivas, menos racionais. Um jogo divertido, que pode começar com pequenas decisões mais intuitivas e ir aquecendo aos poucos. O que seu coração diz? Ficar nesta cidade ou caminhar até a próxima? Tomar banho e comer ou comer e depois tomar banho? Deixar para conhecer a cidade de manhã e partir ou sair com todo mundo bem cedinho? Nada impede, tudo apóia o que vem do coração. Ele nunca se engana, é legítimo. As decisões tomadas a partir dele vêm de um lugar invisível onde a única regra é a verdade sem partido, onde tudo é possível e apoiado pelas forças da natureza.


Portal 8: Bênçãos





No Caminho, por mais que isto pareça evidente, o mais importante é caminhar. Não é possível chegar a lugar algum sem fazê-lo. Caminhar, no entanto, é apenas um pretexto para que se possa apreciar e interagir com o Caminho. Receber o que el tem para dar. Deixar por lá o que não faz mais sentido carregar. Experimentar leveza. Voar, rir, correr, cantar, admirar a natureza. Desenvolver dentro de si um sentimento de gratidão por participar desta magnífica experiência de estar vivo neste momento. Aproveitar ao máximo o limite da impermanência. E por uma fração de tempo, sentir-se feliz.


Sobre o autor:



Ricardo Mendes é redator, fotógrafo, ator; desde 1985 estuda e pratica diversas técnicas de autoconhecimento, cura espiritual e alimentação naturista. Entre as tradições que mais fizeram sentido em sua vida estão a Meditação Transcendental, o Reiki, o Tai Chi Chuan, o Ayurveda, conhecimento milenar sobre a saúde, originário da Índia (Vedas), e a Medicina do Beija-Flor, um conjunto de práticas reunidas e desenvolvidas pelo xamã Foster Perry visando à cura espiritual. Seu trabalho pessoal na fotografia consiste na reinterpretação de lugares sagrados através da linguagem em preto e branco.


Leia: Santiago de Compostela – os 8 Portais do caminho. Ricardo Mendes. Axcel Books do Brasil Editora. Rio de Janeiro, 2002.



Se você gostou dessa obra, indicou um outro título do Ricardo Mendes que segue a mesma linha: Andando em Círculos: as pedras milenares e o Caminho da tríplice Espiral. Imperdível, agradará em cheio aqueles que se interessam pela Irlanda e Inglaterra com seus monumentos megalíticos cheios de mistérios e fascínio.



Na vitrola: O espírito da paz, gravado em 1994 pelos Madredeus. Simplesmente a melhor música e a melhor banda portuguesa de todos os tempos.





As fotos dessa postagem foram clicadas por mim na Galícia em maio e outubro de 2011. Liberadas para uso.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Nas trilhas de Quixote, by Fernando Granato

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Um amigo galego que vive em A Coruña, certa vez me disse que todos os espanhóis têm em casa um exemplar de Dom Quixote, mas que somente uma parcela insignificante das pessoas realmente leu, alguma vez na vida, a obra do começo ao fim. Achei exagero, e fui perguntar a outros espanhóis que conheci pelas minhas andanças pelo país.

De fato, todos me disseram o que Jose havia me dito anteriormente, que o Quijote, como todo clássico, é obra que todos conhecem, mas que poucos leem, o que só acontece nas escolas, quando os jovens têm um contato superficial com o livro, lendo as passagens mais conhecidas das aventuras do engenhoso fidalgo. Surpreendi-me com isso por um simples motivo: eu adoro a obra, amo a figura de Quixote e Sancho e não entendo como os próprios espanhóis não sintam o mesmo entusiasmo literário que eu.

E nas minhas andanças, agora pelos sebos do centro velho aqui de Sampa, achei uma pequena publicação que me encheu de alegria: Nas trilhas de Quixote - uma viagem pelos caminhos do Cavaleiro Andante, escrita pelo jornalista Fernando Granato.

O livro é na verdade uma longa reportagem que “pretende trazer ao leitor os cheiros, os sabores, os sons e as imagens que permeiam o universo da grande obra de Miguel de Cervantes”. Isso está escrito na orelha do livrinho (livrinho porque pequenino mesmo) e de lá copio mais um trecho a seguir:




“Nas longas planícies cor de ocre da Mancha ainda se destacam, vez ou outra, os monumentais moinhos de vento que Dom Quixote confundia com gigantes. Na imensidão da planura ainda podem ser vistos os rebanhos de ovelhas que o personagem tomava por exércitos inimigos.”



“(...) Dentro da teoria de que o meio faz o homem, este trabalho pretende conferir se muitas das características quixotescas do personagem existem a partir das condições do seu hábitat natural: um lugar onde os minutos custam a passar e tudo parece permanecer no mais profundo repouso, em uma estagnação que se perpetua há séculos.”

Bela foi a viagem que o Fernando fez de carro pela região da Mancha para colher o material para sua reportagem transformada em livro. Dá vontade de fazer o mesmo. Aliás, isso de viajar pelos lugares que foram cenários, reais ou fictícios, da vida de grandes escritores e escritoras (ou artistas e personalidades em geral) é muito comum mundo afora.





Uma amiga, leitora apaixonada de Jane Austen, viajou à Inglaterra somente para conhecer a casa onde viveu a escritora (figura acima), tão cheia de razão e sensibilidade. Eu mesmo no ano passado passei por uma experiência semelhante, quando fui visitar a casa onde viveu e faleceu
Rosalía de Castro, em Padrón, e posso afirmar que a experiência é gratificante, sensação única de estar no mesmo ambiente em que alguém que você admira viveu, ou mesmo deparar-se com o leito de um quarto onde, no caso de Rosalía, foi palco de seu último suspiro, e onde hoje, sobre um travesseiro, se encontra uma rosa vermelha.




São detalhes como esse que fazem uma viagem ganhar outra proporção; alguns deles aparecem no relato do Fernando Granato sobre sua viagem à região de Castilla La Mancha, uma das 17 comunidades autônomas do Reino da Espanha. O autor recorre ao grande
Unamuno para descrever o povo habitante dessa região:

“É uma casta de compleição seca, dura, tostada pelo sol e curtida pelo frio, uma casta de homens sóbrios, produto de uma larga seleção provocada por um gelado e rigoroso inverno e uma série de penúrias periódicas, produzidas pela inclemência do céu e pela pobreza da vida.”





A aventura do Fernando é linear e começa pelo aeroporto de Barajas, em Madrid, onde aluga um carro e dirige até a encantadora cidade de Toledo, lugar que ninguém deveria partir dessa vida sem conhecer.

O emaranhado de ruas, com piso irregular de pedra, é uma característica típica de uma cidade edificada por árabes, que assim faziam para confundir os inimigos nas perseguições. Alguns desses lugares chamaram a atenção de Cervantes e mereceram menção especial em Dom Quixote.





É o caso da antiga rua dos mercadores, a “Alcaná de Toledo”, onde forasteiros de toda a região se abasteciam de suprimentos, como trigo e cevada. Para dar veracidade a sua novela, Cervantes cita essa rua, muito freqüentada pelos mouros, como sendo o local onde encontrou provas reais da existência de Quixote: documentos elaborados por um tal Cide Hamete Benengeli, “mítico historiador árabe”, sobre a vida do cavaleiro andante.

Essa última passagem explica porque a viagem tem início em Toledo. O autor fez um trabalho muito bem elaborado nesse livro-reportagem: descreve a paisagem do entorno, explica de forma didática e prazerosa os fatos históricos, não foge do tema central – sempre que pode escreve os trechos do Quixote que justificam sua passagem pelos locais (possivelmente) visitados por Cervantes, “um viajante contumaz que antes de passar para o papel sua obra-prima, percorreu grande parte da Mancha colhendo elementos reais para rechear sua ficção.”




E um ponto, mais um, a favor do escritor: nunca deixa de mencionar a mesa espanhola, com suas iguarias que traduzem de maneira autêntica a alma do povo espanhol, que me perdoem o lugar-comum da afirmação. Essa importância sobre a comida, um verdadeiro rito na cultura ibérica, não passa despercebida nesse relato, pelo contrário, ganha até um destaque, cuja cena se passa em Puerto Lápice, “uma pequena vila de casas brancas e varandas em ferro trabalhado, literalmente cortada pela estrada” e destino da primeira saída aventureira de Dom Quixote, como nos informa o autor desse relato:



A gastronomia é um capítulo à parte na obra de Cervantes e merece atenção daqueles que se propõem a refazer a rota de Dom Quixote. Ao longo dos 52 capítulos da primeira parte do livro e dos 74 da segunda, é como se o leitor se sentasse à mesa com o povo espanhol para apreciar o bom vinho e uma culinária baseada nos ingredientes típicos mediterrâneos, como o azeite, os cereais e o famoso jamón, o presunto cru espanhol.





Logo no início, Cervantes descreve a modesta alimentação a que se submete seu decadente fidalgo: “Cozidos, em que havia mais de vaca que de carneiro; guisados na maioria das noites, duelos e quebrantos (que são uma fritada de ovos com torresmo) aos sábados, lentilhas às sextas, uma pombinha a mais nos domingos...”.

Pela maneira como se nutre nosso personagem, já é possível chegar a algumas conclusões sobre seus costumes, sua condição social e sua religiosidade. Os guisados noturnos, por exemplo, nada mais eram do que uma preparação feita à base de cebola, alho, pimenta, vinagre e as sobras do almoço, numa mistura também conhecida na Espanha por “roupa-velha”, um mexido dos fidalgos empobrecidos.



Depois de gastar algumas palavras descrevendo os prazeres pecaminosos da culinária manchega (vale lembrar que a região é a maior produtora mundial do açafrão), Fernando assume que viajar pela rota de Quixote é “compartilhar, invariavelmente, uma mesa de pinho, forrada com uma toalha quadriculada em vermelho e branco. Nela, há sempre um pedaço de pão, um copo de vinho, uma porção de jamón serrano, um prato fumegante e muito tempo para saborear conversas.” Dá vontade de sair correndo prá lá.

Mas de correria essa viagem breve de Fernando pela rota quixotesca não tem nada. O ritmo ali segue a ordem natural das coisas, as prosas com a gente local, que rendem bons papos e algumas informações interessantes que ajudam a dar corpo ao relato e que eu não vou transcrever aqui no Odepórica porque faço questão que você vá comprar o seu exemplar e descubra por conta própria.





É claro que eu poderia transcrever a passagem sobre o homem que inspirou Cervantes a criar Dom Quixote, ou aquela em que lemos sobre a Cova de Medrano, o buraco onde Cervantes esteve preso, ou sobre o roteiro do vinho, que jamais pode ficar de fora em uma viagem por aquelas terras, ou sobre o encontro com um pastor de ovelhas, figura típica (até quando?) dos fundões da Espanha... muitas passagens gratificantes você irá encontrar nessa leitura, vá por mim.

Escolhi o final de um capítulo para encerrar esse post; acho que de alguma maneira consegue em poucas palavras, sob o disfarce das indagações, captar a essência daquilo que o autor buscou em sua viagem pela rota quixotesca.
Buen camino!



Neste final de tarde, Buitrago e Mateos me convidam para ver o pôr-do-sol, “el puente más largo que existe em el mundo entero”. A frase faz parte do poema “A Mi Tierra Natal: La Mancha”,
de autoria do próprio Mateos. O espetáculo se dá atrás de um conjunto de colinas – a Serra Calderina – que impera, soberbo, na imensa planície. Tudo se enche de uma cor dourada, levemente escura, próxima do mate.

O que pensava Dom Quixote quando vagava por essas paragens em seu Rocinante? De que maneira esse cenário influenciou suas ideias? Por onde quer que ande, na Mancha, ficção e realidade estão misturadas de maneira visceral.



Leia: Nas trilhas de Quixote: uma viagem pelos caminhos do cavaleiro andante. Fernando Granato. Ed. Record, 2005.

Na vitrola: Vangelis, com a obra-prima El Greco. Para ouvir e viajar.



domingo, 31 de julho de 2011

A Galícia de Rosalía de Castro

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Me deu vontade, nas últimas semanas, de reler alguns autores espanhóis que há tanto tempo prestigiam minha biblioteca. Não são muitos, mas os poucos que andei pescando nos últimos quinze anos são muito queridos, porque os colecionei em viagens, garimpados em sebos, livrarias e presenteados por amigos.

Tirei três da prateleira e resolvi que ficaria com a pequena e amarelada antologia de Rosalía de Castro. É possível que você não a conheça, mas essa escritora galega foi uma mulher genial nas letras, a primeira poetisa social da Espanha, que para escrever não se apoiou numa ideologia, mas sim na própria experiência, como disse certa vez Torrente Ballester a seu respeito.



Rosalía de Castro (1837-1885) é tida por alguns como uma poeta folclórica, a mulher que cantou as belezas e os costumes da Galícia, mas seria equivocado resumir seu perfil literário assim, de maneira tão reducionista; todo um povo se reconhece em sua obra e por isso Rosalía se transformou em um mito galego. “Nenhum poeta espanhol”, informação que tiro do prólogo dessa antologia, “jamais alcançou um fervor tão unânime e entusiasta como o que o simples nome de Rosalía desperta no povo da Galícia”.



Também pudera: o livro de Rosalía, Cantares (Vigo, 1863), foi a primeira obra importante publicada na língua galega depois de quatro séculos de silêncio quase absoluto; se não foi de fato a primeira, como observam alguns estudiosos, foi seguramente a obra que marcou o renascimento pleno da língua galega.

Não irei mais longe do que isso porque meu propósito não é o de esmiuçar a vida e a obra de Rosalía, merecedora sem dúvida de uma boa leitura, sobretudo se você se interessa por poesia. Deixarei no final do post alguns links interessantes, ok?

Quis apenas contextualizar você antes da leitura que virá a seguir. É preciso saber que as críticas pesadas de Rosalía (sobre algumas províncias espanholas, sobretudo a de Castilha) nessa introdução feita à sua obra Cantares Gallegos tem que ser entendida dentro daquele contexto social da Espanha do século dezenove, quando a Galícia, praticamente, sequer era reconhecida como uma região digna de pertencer ao país, e sua gente, tão pobre, tão sofrida, era tratada tal como os párias na Índia, sem dignidade e sem identidade. Retirantes, como numa tela de Portinari, os galegos sem espaço em seu próprio país buscaram outras terras e muitos vieram parar na América do Sul.

Coube a Rosalía a tarefa de trazer de volta ao seu povo a dignidade e identidade outrora perdidas, e a coisa toda funcionou de verdade. A força de sua poesia e sua voz se fez ouvir e viajou mundo. Rosalía não é mais Rosalía: é a própria Galícia, em corpo e alma.



Seria a poesia a forma mais poderosa da arte? A arte mais sublime? Como subestimar o poder da poesia sendo ela capaz de devolver a identidade a um povo? Outro dia, vendo um documentário sobre a vida e obra de Bob Dylan (No Direction Home, genial) anotei o que Allen Ginsberg (excepcional poeta da geração beat) disse sobre poesia. Achei sua definição de uma genialidade ímpar: “a poesia é feita de palavras poderosas que tocam profundamente e que reconhecemos instantaneamente como uma forma de verdade subjetiva que tem uma realidade objetiva, porque alguém a percebeu. A isso se chamará poesia mais tarde.”

Verdade e realidade, objetividade e subjetividade, palavras citadas por Ginsberg que encontram eco na poesia de Rosalía de Castro, com seus cantos de amor e queixa, como escreverá Unamuno mais tarde. A leitura que faço agora, enquanto leio os poemas saudosos e belos de Rosalía, me fazem pensar em outras hipóteses interpretativas, entre elas a de que a Galícia também pode ser uma metáfora, assim como o sertão, ou os desertos das obras de outros grandes escritores e poetas. Mas isso são especulações minhas que não vêm ao caso aqui.

E onde, afinal, em se tratando de um blog sobre literatura odepórica, vamos encaixar os poemas de Rosalía de Castro com o ato de viajar? Pois... vamos fazer isso, mas dessa vez de uma maneira mais sutil, porque de fato não estamos lidando com uma narrativa de viagem. Tudo isso foi para que você partisse comigo para a Galícia, e falar de Galícia sem falar de Rosalía de Castro é como, sei lá, falar das Minas Gerais sem citar Guimarães Rosa, fazendo um paralelo assim, de improviso.

Nesse ponto acho que vem ao caso compartilhar algumas estrofes de um poema de Rosalía (tradução minha, não repare), um dos que mais gosto, escrito em 1884. Chama-se Orillas del Sar, que pode ser traduzido como “Às margens do Sar”, rio que nasce lá para os lados de Santiago de Compostela e desemboca em Iria Flávia (antiga Padrón), cidade onde Rosalía viveu seus últimos anos de vida.





Através da folhagem perene
De onde se ouve estranhos rumores,
E entre um mar de ondulante verdor,
Amorosa mansão dos pássaros,
Vejo desde a minha janela
O templo que tanto amei.

O templo que tanto amei...
Mas já não sei dizer se o amo,
Que no rude vaivém que sem trégua
Se agitam meus pensamentos,
Tenho dúvida se o rancor austero
Vive unido ao amor em meu peito.

Outra vez! Depois da luta exaustiva
E da amarga incerteza
Do viajante que errante não sabe
Onde dormirá amanhã,
Em seus lares primitivos
Encontra um breve descanso a minha alma.

(...)
Como se me encontrasse em solo estrangeiro
Tímida e rude, contemplo
Desde longe os bosques e as alturas
E as floridas sendas,
Onde em cada canto me aguardava
A esperança sorrindo.

Ouço o toque sonoro que então
Ao meu leito a chamar-me vinha
Com seus ecos, que o alvorecer anunciava;
Que como doce carícia
Um raio de sol dourado
Iluminava minha estância tranqüila.

O ar puro, a luz rosada,
Que feliz despertar!
Eu via entre nuvens de incenso
Visões com asas de ouro
Que levavam a venda celeste
Da fé sobre os seus olhos...

Esse sol é o mesmo, mas elas
Não acodem ao meu conjuro;
E através do espaço e das nuvens,
E das águas nos limbos confusos,
E do ar na transparência azul,
Ai! Já em vão as chamo e as busco.

Branca e deserta a via
Entre as frondosas sebes
E os bosques e arroios que ladeiam
Suas margens, com grato mistério
Parece atrair-me e brindar-me
A seguir sua linha sem término

Desçamos, pois, que o caminho
Antigo há de surgir,
Ainda que triste, escabroso e deserto,
E assim como nós mudado,
Ainda cheio dos brancos fantasmas
Que em outro tempo adoramos.






Perceba que na poesia de Rosalía a natureza tem uma dimensão quase mágica, como se suas palavras sacralizassem tudo aquilo que seus olhos pudessem enxergar. E quem conhece a Galícia, terra de verdes bosques, e rios de águas frescas e translúcidas e suas montanhas lambidas de brumas, as ruínas dos antigos castros, quem a conhece não consegue deixar de encantar-se.

Uma sugestão que dou ao leitor/a que me acompanhou até aqui é a seguinte: se o seu bolso permitir e se o seu tempo não for suficiente para caminhar por muitas semanas, uma viagem inesquecível e encantadora é a seguinte: tome um avião até Madri e de lá vá de trem ou de ônibus até a cidade de Villafranca del Bierzo. De Villafranca a Santiago você caminhará uma média de duzentos quilômetros no total, ou seja, vinte quilômetros por dia, o que não é nenhum exagero, mesmo para os sedentários.





Em dez dias você terá conhecido uma das regiões mais bonitas da Espanha, com paisagens indescritíveis, culinária deliciosa, bons vinhos se gosta de beber, entre tantos outros prazeres. Ficando nos albergues, a viagem não pesará no seu bolso e sua alma sairá de lá mais leve do que você imagina. Eu diria, por experiência própria, que se o seu comprometimento com o Caminho for sério, sua experiência será tão profunda e marcante quanto a dos que optarem por caminhar os mais de setecentos quilômetros desde os Pirineus.

O texto abaixo, traduzido por mim da introdução de Rosalía para Cantares Gallegos mostra, sem exagero algum, um perfil da Galícia que ainda hoje, passados mais de cem anos, é possível de ser observado pelos peregrinos que continuam se aventurando naquelas paragens que em muitos momentos parecem ter parado no tempo. Boa viagem.



É um grande atrevimento, sem dúvida, para um talento pobre como o que me cabe, dar à luz um livro cujas páginas deviam estar cheias de sol, de harmonia, e daquela naturalidade que, unida a uma profunda ternura, a um arrulho incessante de palavras meigas e sentidas, formam a grande beleza de nossos cantos populares.

A poesia galega, toda ela música e vagueza, toda queixas, suspiros e doces sorrisos, murmurando umas vezes com os ventos misteriosos dos bosques, brilhando outras com o raio de sol que cai sereno sobre as águas de um rio caudaloso e grave que corre sob os galhos dos salgueiros em flor, precisava, para ser cantada, de um espírito sublime e cristalino, se pudermos assim dizer.

Uma inspiração fecunda como a vegetação que embeleza esta nossa terra privilegiada, e sobretudo um sentimento delicado e penetrante para dar a conhecer tantas belezas de primeira ordem - fugitivo raio de beleza como o que se desprende de cada costume, de cada pensamento escapado a este povo a quem muitos chamam de estúpido e a quem talvez julguem insensível, alheio à divina poesia.

Mas ninguém menos do que eu possui as grandes qualidades necessárias para levar a cabo uma obra tão difícil, e nem tampouco se pode encontrar alguém animado por um grande desejo de cantar as belezas de nossa terra naquele dialeto suave e meigo que querem tomar por bárbaro os que não sabem que sobrepuja as demais línguas em doçura e harmonia.

Por isso, ainda encontrando-me fraca e sem forças, e não tendo aprendido em outra escola que não a de nossos pobres aldeões, guiada apenas por aqueles cantares, aquelas palavras carinhosas e aquelas construções nunca esquecidas, que tão docemente ressonavam em meus ouvidos desde o berço em que foram recolhidas por meu coração como herança própria, atrevi-me a escrever estes cantares esforçando-me em dar a conhecer como alguns de nossos costumes poéticos ainda conservam certo frescor patriarcal e primitivo e como nosso dialeto doce e sonoro é tão adequado como o primeiro para toda classe de versificação.

(...) Canções, lágrimas, queixas, suspiros, entardeceres, romarias, paisagens, pastos, pinheirais, descampados, ribeiras, costumes, tudo aquilo, enfim, que por sua forma e colorido seja digno de ser cantado, tudo o que teve um eco, uma voz, um rumor, por mais leve que fosse, que chegasse a comover-me, tudo isso me atrevi a cantar neste humilde livro para dizer, pelo menos uma vez, ainda que de um modo acanhado, aos que sem razão nem conhecimento algum nos depreciam, pois nossa terra é digna de elogios e nossa língua não é aquela que degeneram e arranham torpemente as mais ilustres províncias com um riso de mofa, que para dizer a verdade (por mais que esta seja dura) demonstra a ignorância mais crassa e a mais imperdoável injustiça que uma província pode fazer a outra província irmã, por mais pobre que esta seja.

Tenho para mim que o mais triste nesta questão é a falsidade com que são retratados fora daqui tanto os filhos de Galícia como a própria Galícia, a quem geralmente julgam ser a província mais depreciável e feia da Espanha, quando na verdade talvez seja a mais formosa e digna de elogio.

(...) Mas eu, que atravessei repetidas vezes aquelas terras solitárias da Castilha que dão a ideia de um deserto; eu, que percorri a terra fértil da Extremadura e a extensa região da Mancha, onde o sol cai como chumbo iluminando monótonos campos onde a cor da palha seca empresta um tom cansado à paisagem que rende e entristece o espírito, sem uma moitinha que distraia o olhar que se perde em um céu sem nuvens, tão igual e tão cansado como a terra que cobre.

Eu, que visitei os celebrados arredores de Alicante, onde as oliveiras, com seu verde escuro, semeadas em fileira e de raro em raro, parecem chorar por encontrarem-se solitárias, e vi aquela bela zona de terras irrigadas da Murcia, tão famosa e tão aclamada e que, cansada e monótona como o resto daquele território, mostra sua vegetação tal como paisagens pintadas num esboço, com árvores plantadas simetricamente e em pequeninos caminhos para diversão das crianças.

Não posso deixar de indignar-me quando os filhos dessas províncias que Deus favoreceu em fartura, mas não na beleza dos campos, se burlam dessa Galícia competidora em clima e galanteio com os países mais encantadores da Terra, esta Galícia onde tudo é espontâneo na natureza e onde a mão do homem cede seu posto à mão de Deus.

Lagos, cascatas, torrentes, várzeas floridas, vales, montanhas, céus azuis e serenos como os da Itália, horizontes nublados e melancólicos, mas sempre belos, como os tão aclamados horizontes da Suíça, ribeiras tranqüilas e serenas, cabos tempestuosos que causam terror e admiração por sua gigantesca e ensurdecedora cólera... mares imensos... Que mais posso dizer? Não há pena que possa enumerar tanto encanto reunido.

A terra coberta em todas as estações de ervas e de flores, os montes cheios de pinheiros, de carvalhos e de salgueiros, os ventos ligeiros que passam, as fontes e as torrentes derramando-se rumorejantes e cristalinas no verão e no inverno, seja pelos agradáveis campos, seja pelas profundas e sombrias depressões... A Galícia é sempre um jardim onde se respiram aromas puros, frescor e poesia...

E apesar disso, chega a tanto a tolice dos ignorantes, a tanto o preconceito indigno que contra nossa terra existe, que até mesmo aqueles que puderam contemplar tamanha beleza (e já nem estamos falando dos que se burlam de nós sem jamais nos terem visto sequer de longe), os que penetraram na Galícia e gozaram de suas delícias, se atreveram a dizer que a Galícia era... um chiqueiro imundo!

E estes eram, talvez, os filhos daquelas terras abrasadas de onde até os pássaros fogem... Que diremos disso? Nada mais senão que tais tolices a respeito de nosso país têm alguma comparação com as dos franceses ao falar de suas eternas vitórias sobre os espanhóis, que a Espanha nunca, jamais os venceu, pelo contrário, sempre saiu vencida, derrotada, humilhada; e o mais triste disso é que “vale” entre eles tal infame mentira como “vale” para a seca Castilha, para a desértica Mancha e para todas as demais províncias da Espanha – nenhuma comparada em verdadeira beleza de paisagem como a nossa – que a Galícia é o canto mais desprezível da terra.

Bem que se diz que tudo neste mundo tem sua compensação, e assim vem a Espanha sofrer, de uma nação vizinha que sempre a ofendeu, a mesma injustiça que ela, ainda mais culpável, comete com uma província humilhada de quem nunca se lembrou, como não seja para humilhá-la ainda mais. Sinto demais as injustiças com que nos favorecem os franceses, mas neste momento quase lhes sou grata, pois que proporcionam um meio de tornar mais palpável à Espanha a injustiça que ela, por sua vez, comete conosco.

Foi este o motivo principal que me impeliu a publicar este livro que, mais do que ninguém, tenho consciência de que necessita da indulgência de todos. Sem gramática, sem regras de nenhuma classe, o leitor encontrará muitas vezes falhas de ortografia, construções dissonantes para os ouvidos de um purista.

Porém, para desculpar ao menos em parte estes defeitos, tive o maior cuidado em reproduzir o verdadeiro espírito de nosso povo, e creio que o consegui um pouco... se bem que de maneira débil e frouxa. Queira o céu que alguém mais venturoso que eu possa descobrir com suas verdadeiras cores os quadros encantadores que por aqui se encontram, incluso no canto mais escondido e esquecido, para que assim, ao menos em fama - já que não em proveito - ganhe e seja vista com respeito e admiração merecida esta infortunada Galícia!

Rosalía de Castro na Wikipedia? Clique
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Página oficial de Rosalía na Web? Clique
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Fundação Rosalía de Castro, outra boa fonte. Basta clicar bem aqui.

Obras de Rosalía de Castro na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes.

Caminho de Santiago- dê uma estudada no trajeto galego através do site do Guia Eroski Consumer. A região da Galícia começa a partir da etapa 24

segunda-feira, 7 de março de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: O sol também se levanta, by Ernest Hemingway

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Em um dos diálogos iniciais de O sol também se levanta, um dos personagens, Robert Cohn, diz ao narrador, Jake Barnes: “Não me conformo, quando penso que minha vida vai passando tão depressa e não a vivo realmente”. Resposta de Jake: “Ninguém vive com a intensidade que deseja, exceto os toureiros.”

A resposta de Jake ao amigo não aparece de bobeira na conversa, assim como nada na narrativa de Hemingway surge sem um propósito muito bem definido. Os toureiros e as corridas de touro em Pamplona, na Espanha, são a metáfora fundamental a qual caberá ao leitor interpretar para alcançar a profunda sensibilidade do autor nesse romance onde a viagem tem um papel de grande destaque – tanto, que o título costuma aparecer com frequência em listas de obras fundamentais que tratam da temática das narrativas de viagem.

A trama de O sol também se levanta (publicado em 1926) se passa no período do pós-guerra e retrata com fidelidade aquela que ficou conhecida como a “geração perdida”; na literatura, o termo é atribuído a Gertrude Stein (lost generation) que se referia a um grupo de escritores e escritoras norte-americanos (mas também artistas e músicos de jazz) que debandaram para Paris e outros pontos da Europa no final da Primeira Guerra Mundial e início da Grande Depressão americana (Crise de 1929). Entre as personalidades encontramos muita gente de respeito: Ezra Pound, Cole Porter, Mae West, Dorothy Parker, F. Scott Fitzgerald, William Faulkner, Vladimir Nabokov, o Ernest Hemingway, claro, e até o mestre Alfred Hitchcock, entre tantos.
E é em Paris que começa a história que Jake Barnes nos irá narrar. Norte-americano veterano de guerra, Jake vive na capital francesa exercendo a função de correspondente de um jornal americano. Relaciona-se com amigos descolados, todos expatriados na faixa dos trinta e poucos anos: Robert Cohn, um escritor a quem Paris não lhe agradava e que sonhava em viajar à América do Sul; Brett Ashley, uma lady, por quem ambos Jake e Robert são apaixonados; Mike Campbell, o noivo guampudo de Brett e amigo de Jake; Bill Gorton, o amigo taxidermista de Jake que o acompanha em sua viagem à Navarra. Estes são os principais personagens, que em comum carregam toda a falta de perspectiva e desilusões próprias da tal geração perdida.
É difícil traçar em poucas linhas a complexa conduta emocional dos personagens, disfarçada de maneira singular por Hemingway numa aparente maneira simplista de narrar a história. De simples, só a aparência. Todos ali estão sofrendo, e para amenizar suas dores, muito álcool - doses exageradas de bebida, e muitas cenas em bares e cafés, onde nenhuma conversa nunca leva a nada. Há uma passagem na obra que ilustra bem o perfil daquela “geração perdida”:
Você é um expatriado. Perdeu o contato com o solo. Torna-se pernóstico. Ficou estragado pelos falsos padrões europeus. Bebe até cair. Deixa-se obcecar pelo sexo. Passa o tempo conversando e não trabalha. É um expatriado, ouviu? Arrasta-se pelos cafés.
Jake, o narrador, voltou da guerra impotente, apesar de ainda manifestar um comportamento lascivo em relação a Brett; entretanto, seu amor por ela jamais poderá ser consumado e isso acaba com ele, mesmo demonstrando conformidade com sua situação, o que parece ter alguma relação com sua formação católica. A impotência de Jake (partindo de uma perspectiva simbólica) também tem um significado profundo, só percebido com o avançar da leitura: a negação da vida e a aceitação passiva da morte. Voltaremos a isso mais adiante.

Brett, mulher distinta, titulada, não passa de uma sedutora, uma mulher liberal que considera a si própria uma prostituta. De fato, deita-se com qualquer um e não esconde nem do próprio noivo as suas conquistas. E enche a cara pra valer. Deixa os homens loucos, mas para ela tudo não passa de um jogo sexual e o único homem a quem realmente parece amar é Jake, justamente aquele a quem ela jamais conseguirá enfeitiçar.

Robert Cohn, judeu, ex-lutador de boxe e escritor ruim é a ovelha negra do grupo. Sua preocupação maior é arrumar companhia para viajar à América do Sul, numa evidente resolução de fuga. Acaba se apaixonando por Brett e depois de ser dispensado por ela passa a viver um verdadeiro inferno interior. Na verdade o papel de Cohn na narrativa serve de contraponto à conduta de Jake e sua disfunção, um ponto importante a ser observado na leitura.
Como dissemos, tudo começa em Paris, cidade onde o autor viveu alguns anos. A descrição da cidade, “onde é sempre agradável atravessar as pontes”, faz referências a diversas localidades facilmente reconhecidas, incluindo os cafés e restaurantes que o próprio Hemingway frequentava. Pelo que se sabe, o escritor colocava em seus romances muito daquilo que ele mesmo vivia em suas viagens.
E Hemingway viajou muito. Antes dos 25 anos já havia visitado a Itália, França, Espanha, Alemanha, Suíça, Áustria e Turquia. Mais tarde viajou e viveu períodos em Cuba, Hong Kong, Londres, países da África e diversas regiões dos Estados Unidos, sua terra natal. Um bom viajante, o Hemingway.
Voltemos a Paris, que como sempre é um sonho, mas que nem por isso agrada indistintivamente qualquer pessoa. Há uma passagem na narrativa que ilustra isso de uma maneira interessante, quando Jake tenta entender o motivo de Robert Cohn ser incapaz de gostar da cidade:

Creio que é devido a qualquer associação de ideias que certas partes de uma viagem nos parecem assim desagradáveis. Há em Paris muitas outras ruas tão feias quanto o Boulevard Raspail. Não me aborrece andar por ali a pé, mas passar de automóvel é o que não posso suportar. Talvez eu tivesse lido alguma coisa sobre isso. É o efeito que Paris inteira produzia em Robert Cohn.

Mas Paris é apenas o ponto de partida da viagem que marcará definitivamente essa obra. A grande viagem a Pamplona, onde vai acontecer a famosa
festa de San Fermín (ponto culminante da narrativa), colocou para sempre a capital da Navarra na posição dos itinerários mais conhecidos e procurados de festas populares na Europa ocidental.
A fiesta, chamada na Espanha de sanfermines, acontece anualmente em Pamplona no mês de julho e dura toda uma semana. Na obra de Hemingway temos uma descrição bastante fiel da dinâmica, por vezes insana, dessa semana dedicada a San Fermín, co-patrono da cidade. A propósito, Fiesta era a primeira escolha de Hemingway para o título da obra, mantido em sua edição espanhola.
Antes de tomar o rumo a Pamplona, Jake viaja para Burguete com Bill a fim de passar um tempo pescando no Rio Irati. Essa pequena localidade aos pés dos Pirineus (assim como Roncesvalles, que também aparece descrita na obra) é muito conhecida por ser o primeiro povoado, junto a Roncesvalles, visitado pelos peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago depois da fronteira com a França, distante poucos quilômetros dali.

A descrição do percurso, efetuado há 85 anos, mostra que pouca coisa, felizmente, mudou por aquelas paragens (escrevo isso porque tive o prazer de estar naquelas mesmas localidades algumas vezes). Vou transcrever essa passagem para que você perceba como a viagem efetuada por um escritor é aproveitada na composição de um romance. É a ficção pegando uma carona com a realidade – o que na condução de um escritor de alto padrão como Hemingway, só pode resultar num texto de grande fruição literária:
Um momento depois, saímos das montanhas. Havia árvores de ambos os lados da estrada, um curso de água e campos de trigo maduro, a estrada continuando, muito branca e reta. Subia em seguida uma pequena altitude e, à esquerda, a certa distância, havia uma colina com um velho castelo, edifícios em torno e um trigal chegando quase às muralhas e ondulando ao vento.
Eu ia na frente, com o chofer, e voltei-me. Robert Cohn dormia, mas Bill olhava e sacudiu a cabeça. Depois atravessamos uma vasta planície e, à direita, vimos um grande rio que brilhava ao sol, entre fileiras de árvores; ao longe avistava-se o planalto de Pamplona, erguendo-se na planície, e as muralhas da cidade, a grande catedral escura e a silhueta irregular das outras igrejas.

Atrás do planalto, havia montanhas, e, de qualquer lado que se olhasse, outras montanhas. Diante de nós, a estrada branca corria através da planície, em direção a Pamplona.
Depois de uma breve estadia em Pamplona, Jake e Bill vão a Burguete sem a companhia de Robert, que desistira da pescaria. Os cinco dias em Burguete serão os mais tranquilos daquela viagem, como se fosse uma recarga de energia preparando o corpo para a agitada semana de sanfermines que virá a seguir. A ida a Burguete é feita de ônibus, e se você fizer hoje a viagem desde Pamplona provavelmente irá ver as mesmas paisagens que Hemingway descreveu em sua obra há mais de oitenta anos:
O ônibus subia sempre. A região era nua e as rochas se erguiam saindo da argila. Não havia ervas, dos lados da estrada. Voltando-nos, podíamos ver o vasto campo, lá embaixo. Muito ao longe, as plantações formavam quadrados verdes e pardacentos, nas encostas.

Montanhas escuras fechavam o horizonte. Tinham formas estranhas. À medida que subíamos o horizonte mudava, e, enquanto o ônibus subia lentamente a estrada, víamos outras montanhas aparecendo, ao sul. Então a estrada passou a crista, tornou-se plana e entrou numa floresta. Era uma floresta de sobreiros, o sol penetrava através das folhas, formando manchas, e o gado pastava entre as árvores.
Atravessamos a floresta, a estrada saiu novamente, contornou uma elevação de terreno e vimos à nossa frente uma planície verde, ondulante, fechada por montanhas escuras, que não se pareciam com as outras, pardacentas e calcinadas de sol, que havíamos deixado para trás. Eram montanhas cobertas de matas e delas desciam nuvens.

A planície verdejante alongava-se, cortada de cercas, e a brancura da estrada aparecia através dos troncos de uma dupla fila de árvores que cruzavam o planalto em direção ao norte. Chegando à borda da crista, avistamos os telhados vermelhos e as casas brancas de Burguete, alinhadas na planície, e, ao longe, sobre o flanco da primeira montanha escura, apareceu o telhado cinzento, metálico, do mosteiro de Roncesvalles.
O ônibus rodava em terreno plano, na estrada que vai em linha reta até Burguete. Passamos uma encruzilhada, atravessamos uma ponte sobre um regato. As casas de Burguete margeavam os dois lados da estrada. Não havia transversais. Passamos diante da igreja e da escola, e o ônibus parou.
Em cinco parágrafos Hemingway descreve o percurso de cinquenta quilômetros de maneira tão convincente e bela que quase se torna possível sentir o frescor presente na natureza encantada daquelas paragens. A mesma sensação se tem quando o autor leva os personagens a caminho da pescaria:

Pusemos o almoço e duas garrafas de vinho no embornal e Bill colocou-os a tiracolo. Eu levava às costas a caixa de caniços e as redes. Subimos a encosta e depois de atravessar um prado encontramos um atalho através dos campos na direção da mata, no declive da primeira colina. Atravessamos o campo num caminho arenoso. Os campos eram ondulados e relvosos, mas a grama era curta, porque os carneiros ali haviam pastado. O gado estava mais no alto, nas colinas. Ouvimos os cincerros (campainha que se pendura no pescoço da besta que guia as outras) acima, nas matas.
O caminho atravessava um regato sobre um tronco de árvore, que fora aplainado, e uns galhos, que se haviam encurvado, serviam de parapeito. Num poço, ao lado do regato, rãs pontilhavam a areia. Subimos uma margem escarpada e atravessamos campos ondulantes. Voltando-nos, vimos Burguete: casas brancas, telhados vermelhos e a estrada branca, na qual passava um caminhão levantando uma nuvem de poeira.

Além dos campos, atravessamos outro curso de água, mais rápido. Um caminho saibroso conduzia ao vau e, mais adiante, à mata. O atalho atravessava o regato sobre outro tronco de árvore abaixo do vau e reunia-se à estrada. Entramos na mata.

Era um bosque de faias, de árvores muito antigas. As raízes saíam da terra e os galhos eram retorcidos. Seguimos a estrada entre os troncos espessos das velhas faias, e os raios do sol, através das folhas, deixavam manchas claras sobre a erva. As árvores eram grandes e a folhagem espessa, mas não era lúgubre. Não havia arbustos, mas apenas erva, muito verde e fresca, e as grandes árvores cinzentas, regulares como num parque.
(...) A estrada desemboca, da fresca sombra dos bosques, no sol ardente. Diante de nós, havia um rio no vale e, além do rio, uma colina a pique. Na colina, um campo de trigo-sarraceno. Avistamos uma casa branca sob algumas árvores, na encosta da colina. Fazia muito calor e paramos sob árvores, ao lado de uma barragem que atravessava o rio. Bill colocou o saco de encontro a uma árvores e, depois de montar os caniços e colocar os carretéis, e tendo ligado os pesos, nos dispusemos a pescar.

Não tenho dúvidas de que Hemingway deve ter se apaixonado pela paisagem e natureza das terras navarras, ou não teria gasto tantas linhas descrevendo o cenário da maneira como o fez.

Burguete situa o leitor exatamente no meio da narrativa; a outra metade começa com a chegada dos personagens a Pamplona, onde passarão as festividades de sanfermines. E assim começa a descrição da aventura:
No domingo, 6 de julho, produziu-se a explosão da fiesta. Não há outra maneira de expressá-lo. Durante todo o dia chegara gente do campo, mas todos se dispersavam na cidade e eram por ela absorvidos de modo que ninguém notava. Os camponeses ficavam nos cabarés dos arredores, bebendo e preparando-se para a fiesta. Haviam chegado tão recentemente das planícies e das montanhas, que precisavam habituar-se gradualmente à mudança de valores.
(...) A fiesta começara realmente. E durou, dia e noite, sete dias. A dança continuou, as libações continuaram e o ruído não cessava. Passaram-se coisas que só podiam acontecer mesmo durante a fiesta. Tudo se tornou absolutamente irreal, e semelhava que nada mais poderia ter qualquer consequência.
E deste ponto em diante, o que se segue é uma verdadeira aula de tauromaquia. Hemingway foi um grande entusiasta das touradas, “único espetáculo artístico no qual o artista corre o risco de morrer”, teria dito.

A mensagem, afinal, talvez venha daí, da dicotomia entre a vida e a morte, da celebração e do lamento, porque tudo não passa de uma ilusão, porque tudo é transitório. Um dia somos touros, outra toureiros. Mesmo o sol, com toda a sua magnitude, morre todos os dias e volta a nascer, é o que sugere o título dessa obra, evocando uma passagem bíblica.
Mas isso são apenas considerações gerais, até mesmo vazias se comparadas à rica dimensão psicológica da obra, que é afinal a compreensão do ser humano que narra a aventura toda, Jake Barnes. E tentar compreender o outro, vale ressaltar, é o primeiro passo na árdua tarefa de compreender a si mesmo com mais clareza.

Leia: O sol também se levanta. Ernest Hemingway. A edição que usei aqui é a da Abril Cultural, de 1982. Tradução de Berenice Xavier.