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Se há alguém que pode escrever um ensaio sobre o
silêncio, esse alguém é Erling Kagge, explorador, escritor e editor de livros
norueguês que, no limitado círculo dos grandes viajantes e exploradores é
conhecido como o primeiro homem a atingir os “três polos a pé”. Sim, três
polos: com um amigo em 1990, explorou o ponto mais ao norte do planeta, no
Ártico; dois anos depois caminhou 1.310 quilômetros pelo Polo Sul e depois de
desbravar a Antártida, sozinho, foi se aventurar no ponto mais alto da Terra, o
Monte Everest.
Em seu livro Silêncio:
Na era do ruído, primeiro trabalho seu publicado no Brasil, Erling Kagge
faz um pequeno ensaio sobre o silêncio depois de ter vivido essas aventuras e
também, como gosta de lembrar, depois de ter se tornado pai de três meninas,
hoje adolescentes.
O que dá um brilho especial ao texto do Erling é o
equilíbrio entre suas narrativas de viagem física e suas viagens interiores,
quando começa a explorar de fato a importância do silêncio não só em seus
deslocamentos pelo mundo, mas também a necessidade de trazer essa experiência
para a vida cotidiana. É a busca da resposta à questão: Que caminhos levam ao
silêncio?
Diz o autor, lá no finalzinho do livro, que o silêncio é
uma ferramenta para escapar do lugar onde você se encontra. E é essa a sacada da obra: não é somente
possível, mas senão necessário viajar para dentro de si sempre que puder, nem
que seja por breves instantes, todos os dias, ou por períodos maiores, quando a
vida permitir, cabendo a cada um a busca desse momento de silêncio que revela,
que alimenta, que transforma... não por acaso, grandes mestres e pensadores
buscaram a solidão e o silêncio em momentos cruciais da existência.
Embora esse livro não se enquadre na literatura
odepórica, há muitas passagens e reflexões sobre a arte de viajar. Para quem
acredita que as viagens podem ser oportunidades de aprender a enxergar a vida
com novos olhos, essa obra trará muito proveito. Leitura recomendadíssima.
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Quando não posso caminhar, escalar ou navegar pelo mundo,
aprendi a trancá-lo do lado de fora. Foi um longo aprendizado. Somente quando
percebi que tenho uma grande necessidade de silêncio eu pude começar a buscá-lo
– e lá, enterrado sob a cacofonia de barulhos de trânsito e pensamentos, música
e ruído de máquinas, iPhones e removedores de neve, ele estava à minha espera.
O silêncio.
♣
Acredito que todos podem encontrar o silêncio dentro de
si. Ele está lá o tempo inteiro, mesmo quando existem vários sons ao redor de
nós. Nas profundezas do mar, sob as oscilações e as ondas, tudo parece estar em
silêncio. Postar-se debaixo do chuveiro e deixar a água escorrer pela cabeça,
sentar-se em frente a uma fogueira crepitante, nadar em um lago no meio da
floresta ou fazer uma caminhada por uma planície são experiências que podem ser
percebidas como silêncio absoluto. Eu adoro essas coisas.
♣
Trancar o mundo do lado de fora não significa dar as
costas ao lugar em que você está, mas justamente o contrário: ver o mundo de
uma forma um pouco mais nítida, manter-se na superfície e sentir amor pela
vida.
O silêncio é reconfortante em si mesmo. É uma qualidade,
uma exclusividade e um luxo. Uma chave capaz de abrir novas formas de pensar.
Não vejo o silêncio como uma renúncia ou algo espiritual, mas como uma
ferramenta prática para uma vida mais rica. Ou, de maneira um pouco mais
atrevida: como uma forma de viver mais profunda do que, mais uma vez, ligar a
TV para ver as notícias.
♣
Por mais de um milênio, pessoas viveram sozinhas, muito
próximas de si mesmas, como monges nas montanhas, eremitas, exploradores
marítimos, pastores de ovelhas e descobridores que voltavam para casa, foram
todas convencidas de que as respostas para os mistérios da vida podem ser
encontradas no silêncio. A questão é essa. Você atravessa o oceano e, ao
retornar, talvez encontre o que procurava dentro de você mesmo.
Quando se atribui valor a algo por todo esse tempo, deve
haver boas razões para levá-lo a sério. Jesus e Buda recorreram ao silêncio
para entender como deveriam conduzir a própria vida. Jesus no deserto e Buda na
montanha à beira do rio. Jesus se apresentou perante Deus em silêncio. O rio
ensinou Buda a escutar, a ouvir com o coração em silêncio. Com a mente aberta e
receptiva.
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Que caminhos levam ao silêncio? Eu acredito em viagens em
meio à natureza. Deixar os aparelhos eletrônicos em casa, seguir por um rumo
onde tudo é deserto ao seu redor. Passar três dias sozinho. Não falar com ninguém.
Aos poucos você começa a redescobrir coisas a respeito de você mesmo. O
importante, claro, não é o que eu acredito, mas que todos sigam pelo seu
próprio caminho. Todos nós temos uma trilha a encontrar.
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Leia: Silêncio: Na era do ruído. Erling Kagge. 1ª edição.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.









