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sábado, 30 de dezembro de 2017

Peregrinos cibernéticos no Caminho de Santiago

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Vou contar aqui um pouco do que vem acontecendo no ambiente das peregrinações a Santiago. Minha visão é a de um peregrino que aos trancos e barrancos chegou a Santiago de Compostela no inverno de 1995 após completar 28 dias de caminhada. Foi uma viagem muito sofrida fisicamente: bolhas, tendinites, gripe e vários dias sem tomar banho.

Dizem que aprendemos com os erros, não? Nem sempre. Eu que jurei nunca mais pisar em terras espanholas, dois anos depois estava de volta, dessa vez no verão. Sabe o calor do Rio em janeiro? Uma brisa, perto do insano calor que faz nas longas planícies das mesetas no verão espanhol. E mais uma vez, bolhas, tendinites e vários outros incômodos que uma longa viagem a pé acarreta.

Nessas duas aventuras o sofrimento físico foi um fator em comum. Etimologicamente, sofrer deriva do latim sufferre, “sob ferros”, ou seja, acorrentado, carregando peso. Essa dinâmica do sofrer tem uma relação muito estreita com a peregrinação. Em algum momento ela há de aparecer: as dores do corpo, das perdas, das partidas, da saudade de casa, cada um carrega a sua.



Na primeira página de um dos meus diários de viagem, copiei uma frase retirada de uma homilia que diz que “O sofrimento é a escola de simpatia do Espírito Santo”. Gostei dessa afirmação, que em sua simplicidade guarda uma profunda verdade: somente quem já sofreu saberá consolar quem sofre. Isso nos remete não só à figura do Cristo e dos santos, mas a todos os homens e mulheres de diversas tradições religiosas que encontraram a paz através do sofrimento. Sofrer faz parte do mistério da vida.

Toda essa reflexão me levou a meditar sobre a realidade que se vive hoje numa peregrinação milenar como a do Caminho de Santiago, na Espanha. O Caminho que conheci há vinte anos mudou em relação ao Caminho de hoje? Como fica a questão espiritual nessa época onde a rota se encontra, como dizem os espanhóis, saturada de turistas e carente de peregrinos?

Há muito que se discutir aqui. Comecemos com a questão da saturação do Caminho, que é real e que mudou completamente a experiência do caminhar quase solitário das décadas passadas, sobretudo nos meses de baixa temporada. Os refúgios, centros de acolhida de peregrinos (antes paroquiais e municipais, hoje quase todos particulares) converteram-se -salvo poucas exceções- em um lugar para descansar, tomar banho e dormir, como se faz nos hostels espalhados mundo afora.



Antigamente, o peregrino oferecia um donativo e agradecia; hoje, o peregrino exige, porque paga. Muitos hospitaleiros que vivem no Caminho lamentam que a primeira coisa que um peregrino ou uma peregrina perguntam quando chegam a um albergue é: “Tem Wi-Fi”? O acesso à Internet, quem imaginaria, é hoje mais importante do que um chuveiro com água quente e um colchão para descansar o corpo da fadiga da estrada.

Portanto, o cenário que temos é este: trilhas lotadas de turistas e peregrinos, albergues particulares cheios de gente, empresas que transportam sua mochila até a próxima etapa (para que sofrer?) e comerciantes nos povoados se aproveitando da ocasião, cobrando mais e oferecendo menos. O que isso tudo tem a ver com uma peregrinação? Será que existe espaço para a fé, para o Sagrado, para o Mistério?

Certamente há espaço e sempre haverá. Porque a relação do ser humano com a espiritualidade não se mede em Gigabytes; o contato com o Divino não se dá no Ciberespaço; não se acessa o Sagrado através de um Browser e não se conversa com Deus trocando e-mails. Vivemos numa fase de transição onde não sabemos ainda no que tudo isso irá se transformar, o que não nos impede de observar que algumas coisas já mudaram radicalmente nosso comportamento social e, no escopo desse texto, religioso/espiritual.



A peregrinação é em sua essência uma prática religiosa. Os peregrinos caminham em direção a um lugar sagrado, Locus Sanctus, a fim de prestar homenagem a um santo, agradecer uma dádiva recebida ou cumprir uma promessa. Num sentido amplo, é essa a proposta original. O auge das peregrinações a Santiago se deu na Idade Média e foi decaindo após o Renascimento até praticamente serem esquecidas nos séculos posteriores. A partir dos anos 1980, às vésperas de um mundo virtualmente conectado, o Caminho renasce e volta a brilhar como há muito não se via. Desde então, as estatísticas mostram que o número de peregrinos a Santiago aumenta a cada ano, e é indiscutível que a Internet, e mais recentemente as redes sociais, têm uma relação direta com esse enorme afluxo de gente que resolve cruzar a Espanha rumo à Galícia, terra do Apóstolo. Dê um Google em “Camino de Santiago”: mais de 15 milhões de resultados irão aparecer na tela. Não é pouca coisa.
           
Muito se discute hoje entre estudiosos do Caminho de Santiago acerca do perfil dos peregrinos atuais. E um dos hábitos mais criticados é o uso indiscriminado dos smartphones. Se por um lado a tecnologia veio para facilitar a vida de todos, por outro trouxe consigo mudanças que, à primeira vista, enfraqueceram o relacionamento interpessoal (ainda que essa afirmação seja bastante discutível).



Nos albergues, onde antes se dava o encontro de pessoas, as trocas de experiências sobre a jornada, onde antes se repartia o pão, agora se vê uma profusão de gente encasulada, atualizando suas redes sociais e procurando notícias sobre o mundo; a mesma coisa acontecendo nas mesas dos restaurantes, praças e qualquer lugar com Wi-Fi livre. Só o Caminho não basta a si mesmo.

Hoje um peregrino chega ao Caminho de Santiago sabendo tudo o que encontrará pela frente: paisagens, personagens conhecidos, as trilhas, as facilidades e dificuldades de cada etapa, tudo salvo na memória de um aparelho (ou “na nuvem”). Não há mais lugar para a surpresa, para o desconhecido. Não há nada de ruim nessa realidade. O Caminho é uma metáfora da vida; o que se vive na peregrinação a Santiago é uma suspensão da realidade, um rito de passagem, onde cada um encontrará justamente aquilo que procura ou necessita aprender.

Turista ou peregrino? Não importa. Muitos começam como turistas e terminam como peregrinos. Quando trabalhei como hospitaleiro voluntário por seis meses em refúgios paroquiais conheci alguns caminhantes ateus e muitos não católicos que se emocionavam apenas em observar os peregrinos devotos e começaram a frequentar as missas das igrejas dos pequenos povoados por onde passavam, porque isso, segundo eles, lhes trazia um grande sentimento de conforto e paz. 



Um peregrino judeu, norte-americano, me confessou que havia decidido fazer o Caminho porque achava que seria uma grande aventura: caminhar, beber e namorar. Com o tempo, no convívio com outros peregrinos, se sentiu tocado com a manifestação de fé dos colegas de jornada, a ponto de sentir uma grande vontade de comungar! Quando chegou a Santiago (chegamos juntos) não conseguia parar de chorar e abraçou a imagem do Santo no altar (um dos ritos de chegada em Santiago) como seu mais fiel devoto o faria. Coisas do Caminho.

Isso me traz à mente um texto de Martin Buber, filósofo austríaco conhecido como “profeta da relação” (ou do encontro) para quem o ser humano só se realiza na relação com o outro. Buber acreditava na unidade entre Deus, o homem e o mundo: uma comunhão. O outro dessa relação pode ser o homem, Deus, uma obra de arte, uma flor ou qualquer coisa que implique reciprocidade. Toda a vida atual, dirá o filósofo, é encontro; o essencial é vivido na presença:

A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o tu. Pois, no contato com cada tu, toca-nos um sopro da vida eterna.




Em um dos mais belos livros sobre a prática espiritual no Caminho de Santiago, Jose Antonio García-Monge diz que o Caminho nos faz porque nos dá ferramentas para fazermos: Tempo, Solidão, Silêncio, Integração, Encontros, Presença, Amor. A questão da alteridade permeia todo o texto, pelo que gostaria de compartilhar uma das passagens que mais me encantaram nessa obra:

Comecei a caminhar só. Como um longo e quilométrico monólogo, e descobri que sou muito mais do que eu mesmo. Esse encontro foi possível graças aos “tus” que são a base do caminho de minha vida. Graças à necessidade e ao desejo do outro. Graças à solidão sonora que repetia meu nome, não como um eco, mas com um acento novo de outra voz humana. Sou um eu-tu. Graças a ti. O risco vivido em comum, a refeição partilhada, a vista animadora, as marcas indicadoras de outras pessoas para as quais não fui algo, mas alguém, me fizeram aprender a personalizar. Não só as pessoas, mas também as coisas. Um caminho se converteu em um sussurro orientador, uma catedral de pedras em uma voz que me chama pelo nome, um santo em um homem. No fim, sei quem sou, como me chamo, porque pude escutar no silêncio da noite como me chamam. Ao responder, se inaugurou um eu-tu que me fez maior do que eu mesmo, sem deixar de ser quem sou.    



Não são os smartphones e os aparelhos de GPS que vão acabar com a peregrinação. Tampouco o excesso de turistas, a Internet e as redes sociais. Enquanto houver caminhantes, haverá Caminho, como se lê em um poema do século XIII (Codex Calixtinus):

La puerta se abre a todos, enfermos y sanos;
no sólo a católicos, sino aún a paganos,
a judíos, herejes, ociosos y vanos;
y más brevemente, a buenos y profanos.

Devemos, portanto, saudar as novas mudanças que chegam ao Caminho, porque elas fazem parte da vida, da nossa realidade. Conectados e desconectados, tradicionais e modernos, todos fazem parte da mesma busca. Acredito que um pouco da mágica transformadora se perde quando se apela com frequência para as facilidades da vida moderna: carros de apoio, transporte de mochilas, reservas antecipadas em hospedarias e albergues, pular etapas difíceis... a negação total do sacrificium (sacrum facere), o ato de manifestar o sagrado, uma afirmação da vida. Interessante refletir sobre isso, porque o Caminho é um reflexo da existência de cada ser. O que se faz lá, se faz aqui. Do que se foge lá, se foge aqui. Qual o papel do Sagrado em nossas vidas?  Essa é uma questão que cada um deve responder por si.



Sustento a ideia de que ainda há uma forte característica espiritual no ambiente contemporâneo da peregrinação a Santiago, apesar da massificação com a qual o Caminho aparece identificado nas últimas décadas o que, para alguns observadores do fenômeno, estaria acabando com a “essência” da peregrinação. Na realidade, o que parece estar mudando não é de fato a noção de que o Caminho esteja mais aberto ao profano, mas sim o fato de que os peregrinos contemporâneos estão se relacionando de maneira diferente com o sagrado. 

“O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa - aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa - não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.” (Luiz Carlos Lisboa, Nova Era).



Artigo publicado na Revista CREatividade- Revista da Cultura Religiosa- PUC Rio. Ano 2017, Número 2, edição intitulada CAMINHOS DO CRISTIANISMO HOJE.
Link para o texto original: Espiritualidade conectada no Caminho

sábado, 31 de março de 2012

Desiderata, by Max Ehrmann

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Todas as viagens são boas, e algumas mais especiais do que outras. Nem sempre sabemos explicar o motivo pelo qual somos mais tocados pelas lembranças de uma viagem enquanto outras simplesmente se apagam da memória sem nenhuma razão aparente. Não fossem as fotografias que tiramos, ou certos objetos que trazemos na volta a casa, uma pedra, uma conchinha roubada da praia, um seixo de rio, qualquer coisa simples e cheia de simbolismo que só você é capaz de compreender, provavelmente nenhuma lembrança restaria do evento. Mistérios da mente, vai saber.

No entanto, em se tratando de lembranças, há aquelas que carregaremos para sempre conosco, como que atreladas ao nosso DNA, grudadinhas nas células que formam nossa embalagem de carne e de ossos a que damos o nome de corpo.

Há alguns anos, depois de trabalhar por mais de uma década na mesma empresa, desliguei-me do quadro de funcionários e dei um tempo em tudo, uma espécie de ano sabático; no primeiro ano dediquei-me aos estudos de pós-graduação e no começo do ano seguinte, viajei para a Espanha na condição de vagamundo hospitaleiro.

Foram quase seis meses de trabalho voluntário, acolhendo peregrinos na rota francesa do Caminho de Santiago, a mais conhecida e percorrida desde sempre. Foi a experiência mais fascinante pela qual passei na vida, cheia de aprendizados e vários deslocamentos, muitas vezes sendo guiado pelo acaso até chegar a algum lugar onde pudesse passar a noite ou algumas semanas, dependendo das circunstâncias. Um dos lugares mais marcantes para mim foi a estadia no albergue de peregrinos de Grañón, um pequenino povoado distante poucos quilômetros de Santo Domingo de la Calzada, delimitando a províncias de Burgos e de La Rioja, terra dos bons vinhos.





Mas não pretendo escrever sobre Grañón, nem sobre a minha viagem daquele ano, que foi sem dúvida a que mais me transformou e é a que guardo com mais carinho e saudades. Apenas trouxe esse fato à lembrança para justificar o motivo que me leva a postar o poema que você lerá logo abaixo. Pois bem, estive mexendo com alguns papéis hoje e abri uma pasta onde guardo toda a papelada que carreguei comigo daquela viagem de seis meses pela Espanha. Há exatos nove anos eu me encontrava em Grañón, onde passei a Páscoa mais cristã de toda a minha vida, um acontecimento que um dia, quem sabe, irei escrever aqui no Odepórica.

Havia naquele albergue um quadro de avisos, daqueles com moldura de madeira e corpo de cortiça, que você já deve ter visto pendurado em algum lugar; nele, os peregrinos deixavam recados, escreviam passagens de textos bíblicos, anexavam desenhos, fotos, letras de canções (coisa que caminhante brasileiro adora fazer), receitas, piadas e, claro, poesias, como não?


O que eu achava muito especial, eu roubava na cara dura, sem remorso. Tenho esse defeito, mas só às vezes, de tomar para mim aquilo que (acredito piamente) mais ninguém saberá dar valor. Já sei que é errado, nem precisa me dizer o quanto, mas ninguém é mesmo perfeito. Bom, daí que, num desses afanos, trouxe um poema, xerocado, que achei lindo demais no momento em que o li e hoje, ao relê-lo, continuei achando-o belo e profundo. Por isso me deu vontade de transcrevê-lo aqui no blog, porque para mim sua leitura me traz conforto, paz e alegria, sentimentos bons de cultivar em época de Tempo Pascal. OM IACOBUS OM.




Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.


Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em harmonia com todos que o cercam.


Fale a sua verdade, clara e mansamente.


Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.


Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.


Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.


Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.


Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja,ele é um verdadeiro tesouro na continua mudança dos tempos.


Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas. Mas não fique cego para o bem que sempre existe.


Em toda parte, a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo.


Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira, pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.


Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.


Cultive a força do espírito e você estará preparado para enfrentar as surpresas da sorte adversa.


Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão.


Ao lado de uma sadia disciplina conserve, para consigo mesmo, uma imensa bondade.


Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.


Procure, pois, estar em paz com Deus, seja qual for o nome que você lhe der.


No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida, conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.


Acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano, o mundo ainda é bonito.Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz e partilhe com os outros a sua felicidade".

DESIDERATA - Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração.
Este texto foi encontrado na velha Igreja de Saint Paul, Baltimore. Foi citado no livro "Mensagens do Sanctum Celestial", do Fr. Raymond Bernard. O texto é de Max Ehrmannn e foi registrado pela primeira vez em 1927.


Versão do texto em inglês, em quadrinhos.





domingo, 5 de fevereiro de 2012

Literatura odepórica jacobea: Os 8 portais do Caminho, by Ricardo Mendes

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Retomando leituras jacobeas, entre elas as narrativas de viagem pelos caminhos de Santiago, tirei da prateleira um texto que considero dos melhores já escritos por peregrinos brasileiros: Santiago de Compostela – os 8 portais do Caminho. O autor, bom viajante, é também fotógrafo de profissão, Ricardo Mendes. Seu livro, um misto de fotografias em p&b e divagações sobre o Caminho, numa escrita leve e cheia de insights sobre a experiência do peregrinar, no mais amplo sentido do termo.

Os portais do título têm a ver com a maneira como o autor dividiu os capítulos, 8 no total, todos eles breves e de agradabilíssima leitura, que me lembram um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, já blogado por aqui; ambos têm em comum um profundo comprometimento com as coisas do espírito, com a Busca, termo que nos remete à obra do bem aventurado Paul Brunton, um grande sábio que em breve iremos conhecer melhor aqui no Odepórica.

Os portais são assim introduzidos ao leitor pelo Ricardo:

O Caminho é uma perfeita redução da linha da vida e, desde que estejamos abertos, nos deparamos com os principais temas de nossas vidas ao percorrê-lo. A aventura desta experiência é que no Caminho há pouco espaço para distrações. Telefonemas, televisão, jornais, trânsito, poluição e o stress urbano. Assim, os tais temas se apresentam em sua forma mais pura e essencial. Um sumo de fruta extraído por uma poderosa centrífuga. Cada um deles é um portal para a nossa evolução pessoal, e é preciso coragem e determinação para atravessá-los.

O amor, a fé, a compaixão e a gratidão são os sentimentos mais sublimes que o ser humano pode experimentar. São a base de nossa evolução espiritual. Os portais que se apresentam em nosso caminho são apenas possibilidades para irmos de encontro a esta sintonia maior. Alguns são despertados através da prática, outros partem da compreensão intelectual. Seja qual for o caminho escolhido, não existe outro rumo possível que não seja o do coração. Em algum momento da história da humanidade, é nele que todos vamos nos encontrar em uníssono.

Bonito isso, não? Os Portais vão aparecendo ao longo da obra separados por inúmeras fotografias que tentam a seu modo traduzir em imagem o sentimento da passagem lida anteriormente. Algumas são bárbaras, outras extremamente simples, como simples são as lições que vão sendo aprendidas durante a jornada. Eu gostei muito disso: não é um trabalho fotográfico de um profissional deslumbrado querendo mostrar técnica - ainda bem, porque senão o resultado seria totalmente contraditório com a proposta do autor.

Desse modo, entre clics, surgem os portais: Desapego, Limites e Expectativas, Presença, Desvios, Novas Experiências, Solidão, Intuição (a Verdade Interior), fechando com Bênçãos. Como você já percebeu, a pegada é bem espiritual, e como não deveria? O Caminho é propício a isso e que assim seja.


Transcreverei passagens do trabalho do Ricardo para você conhecer de perto o que tocou o coração desse peregrino enquanto perambulava lá pelos caminhos de Santiago. Verá que o moço tem uma cuca bem legal. Buen Camino!

Ouvindo o chamado

Ir de encontro ao Caminho é, antes de tudo, atender a um chamado. Um chamado que tanto pode surgir da falta de sintonia com a vida que se está levando, em seus inúmeros aspectos (trabalho, relacionamentos afetivos, rumos pessoais), quanto do desejo de aprofundar esta sintonia. Pode se manifestar através de uma ponta de curiosidade e levar anos até amadurecer e nos tirar da inércia. Pode parecer impossível ante o asfixiante emaranhado de compromissos inadiáveis que nos enredam. Pode ir e vir quando as coisas não vão bem, não importa.

Todos ouvimos em algum momento da vida. Para reconhecê-lo é preciso afastar o temor e deixar que se revele, que cresça ou evapore. Ao se manifestar, ele assume uma dimensão tao grande em nossas vidas que acaba sendo inócuo fazer-se de surdo. Mesmo sabendo que um sem-número de outras vozes surgirão para nos incentivar a esquecer daquele perigoso chamado do coração e nos enraizar onde já estamos fincados.

Não há voz mais poderosa do que a que vem do coração. Somente ela é capaz de nos fazer aglutinar coragem suficiente para enfrentar expectativas, tomar uma atitude inesperada, ininteligível e, à primeira vista, incoerente. Uma atitude que nos faça sentir vivos novamente. Mesmo que esta ousadia inexplicável seja a de dedicarmos uma parte de nossas férias a dar alguns passos em direção a nós mesmos.

Portal 1: Desapego





(...) Existe ainda um tipo de apego nem sempre relacionado aos bens materiais. Ele é invisível e está ligado a necessidades muito mais profundas e inconscientes: os hábitos. Mesmo bons hábitos (no sentido de que nos fazem bem) podem não ser tão saudáveis, dependendo do tipo de relação que estabelecemos com eles. Ler jornal pela manhã, por exemplo, é bom para nos manter atualizados. Nunca estar disponível para conversar com os filhos antes de ler o jornal matinal pode não ser bom para eles.

Na medida em que vão se enraizando, os hábitos tendem a engessar nossas atitudes e nos fazer escravos, tornando cada vez mais difícil abrir mão deles de uma hora para outra sem entrarmos em desespero. Neste sentido, o Caminho também pode funcionar muito bem como antídoto. Ele nos “obriga” à sua própria rotina, a estarmos presentes a cada passo, canalizando a atenção para o aqui e agora, ao fazê-lo, tomamos consciência de tudo o que é acessório e mecânico em nossas vidas e esta é a primeira etapa para realizarmos uma bela faxina, deixando para trás aquilo que não faz mais sentido, ou que na verdade nunca fez. Pode ser que custe um pouco, ou que não aconteça da primeira vez, mas pelo menos uma semente fica plantada. Na pior das hipóteses, adquirimos o hábito de caminhar, o que não é nada mal.


Portal 2: Limites e Expectativas






No Caminho os limites surgem das maneiras mais surpreendentes e sob as formas mais inusitadas. Lidar com eles pode ser muito revelador. São em geral situações muito simples, mas que trazem à tona a essência de muitas outras situações do cotidiano. Ao final de um dia de caminhada você pode ter percorrido 25 quilômetros sob um sol arrasador. Seus pés doem, a mochila pesa uma tonelada. Tudo o que precisa é de um banho reconfortante, um prato de comida e botar os pés pra cima. Na porta do refúgio, um aviso informa que novos peregrinos só serão admitidos dentro de 3 horas. A partir deste momento, um cardápio de possibilidades surge à sua frente.

Chutar a porta, sentar no bar mais próximo e aguardar, chorar, caminhar em volta em busca de atrações turísticas, atualizar o diário de viagem, continuar até o refúgio seguinte, procurar um hotel. Uma infinidade de atitudes que podem levá-lo a criar novas expectativas, novos limites, mas, principalmente, novos aprendizados. Se você se mostra indiferente ao aviso na porta pode estar precisando de mais energia em sua vida. Se chuta a porta e dá urros de raiva, talvez precise exercitar sua capacidade de improvisação. Ou, quem sabe, exatamente o contrário. Quem pode afirmar alguma coisa? Mais importante é ir se percebendo e entrando em contato com os mecanismos que orientam suas ações e reações ao longo da vida. E este é o primeiro passo para mudar alguma coisa com a qual você não esteja satisfeito.


Portal 3: Presença





Durante seis meses um rapaz viveu numa comunidade espiritual junto a seu mestre, num lugar paradisíaco. A rotina junto à natureza, a tranqüilidade e os ensinamentos que recebeu marcaram profundamente sua vida. Anos depois d éter deixado o convívio do mestre, recebeu a notícia de que também deixara a comunidade. Vivia agora numa grande cidade e cuidava de seu pai, gravemente doente.

Dias depois foi ao seu encontro. Ele agora morava bem no centro da cidade, ao lado de um mercado popular bastante barulhento. O coração do jovem rapaz se apertou ao ver o pequeno cômodo em que viviam. Foi recebido com alegria e somente após o jantar, quando o velho já adormecera, pode conversar com seu mestre. Assim que sentaram frente a frente, o rapaz perguntou:

Mestre, tive a sorte de poder viver a seu lado na comunidade um período maravilhoso, num lugar paradisíaco, onde aprendi lições que me acompanharão pela vida inteira. Lá presenciei o amor que entregavas a cada um que chegava, o carinho com que amassavas o pão e preparavas a comida, a simplicidade de teus ensinamentos. Custa-me acreditar no que vejo agora. Foste sacado daquele paraíso pela doença de teu pai e desde então vives num cômodo apertado e barulhento, onde mal entra a luz do sol. Consegues aqui também ser feliz?

O mestre sorriu, segurou as mãos dele entre as suas e disse olhando em seus olhos:

Não fui sacado daquele paraíso pela doença de meu pai, senão pelo amor que sinto por ele. E quanto à felicidade, aprendi que ela não depende de conforto ou de silêncio para se fazer presente. Para onde vou levo-a comigo embaixo de meus pés.


Portal 4: Desvios




(...) Mudar de vida muitas vezes pode significar nos aproximar de nós mesmos. A sensação de que exercemos pouco nossa individualidade é perfeitamente compreensível. Geralmente somos desestimulados a descobrir e desvendar as habilidades que somente nós trazemos, nossas verdadeiras impressões digitais. Neste sentido, caminhar por dias e dias ao ar livre, em contato com a natureza e pessoas desconhecidas de diversas origens, pode ser muito estimulante e revelador.

Nas condições naturais do Caminho, temos a chance de nos desnudar e entrar muito mais rapidamente em sintonia com o ser que realmente somos. E nada é tão capaz de deixar nossa essência emergir quanto nos despirmos das distrações. Feito este contato, tudo o que temos de fazer é cultivá-lo e fortalecê-lo. Assim, nos tornamos invencíveis.


Portal 5: Novas Experiências






(...) No Caminho, tudo o que se tem a fazer é caminhar, lavar roupa, comer, cuidar dos pés e dormir. Uma rotina muito mais simples do que aquela à qual estamos acostumados, sem a pressão d éter que ganhar a vida e pagar as contas. As paisagens são novas, dezenas de pessoas de diversas origens passam por nós. Por que então continuar a fazer tudo do mesmo jeito?

Depois de enfrentar tantos senões até por o pé no Caminho, por que não permanecer aberto a novas experiências? Não é necessário que seja algo muito revolucionário, nem é preciso fazer uma lista e programar tudo com antecedência. Basta deixar acontecer, perceber e mergulhar. Dizer não para algo a que você sempre diz sim, dizer sim para algo a que você sempre diz não.

Parece simples e realmente é. Minha primeira experiência nova no Caminho foi tirar uma soneca em plena trilha sob uma frondosa árvore, sem me preocupar por quanto tempo dormiria, se as formigas tomariam conta do meu saco de dormir ou se corria o risco de ser roubado. Foi delicioso, uma sensação de entrega como há muito não sentia.


Portal 6: Solidão






No Caminho pode-se escolher entre caminhar em grupo ou em sua própria companhia, variando muitas vezes durante o mesmo trecho. Durante minha caminhada preferi estar sozinho a maior parte do tempo para me conectar com o Caminho e ouvi-lo cada vez que me chamava a fotografar. Devo ter parecido antipático para alguns, apressadinho para outros. Queria apenas me concentrar no que estava fazendo. Muitas vezes usei o pretexto de parar para fotografar para interromper uma conversa aborrecida e estimular meu interlocutor a ir em frente.

Muita gente também não gosta de ficar a sós porque seus pensamentos incomodam. Que pensamentos são esses? Pensamentos são como pessoas e ninguém gosta de ficar fechado numa sala com alguém desagradável. A não ser que não seja preciso interagir com ela. Se é possível ler uma revista, ver televisão, enfim, distrair-se, tudo é tolerável. Sem distrações, nem pensar. Quando acumulamos questões em nossas vidas que não nos sentimos prontos para resolver, tornamo-nos viciados em distrações.

A própria companhia torna-se insuportável. Com o tempo, o sentimento de solidão se instala e as distrações precisam ser cada vez mais surpreendentes. Neste caso a solidão é uma saudade de si mesmo. De alguém que poderíamos ter sido. E que um dia ainda poderemos voltar a ser.


Portal 7: Intuição, a Verdade interior





(...) o Caminho é uma excelente oportunidade para retomarmos a prática de decisões mais intuitivas, menos racionais. Um jogo divertido, que pode começar com pequenas decisões mais intuitivas e ir aquecendo aos poucos. O que seu coração diz? Ficar nesta cidade ou caminhar até a próxima? Tomar banho e comer ou comer e depois tomar banho? Deixar para conhecer a cidade de manhã e partir ou sair com todo mundo bem cedinho? Nada impede, tudo apóia o que vem do coração. Ele nunca se engana, é legítimo. As decisões tomadas a partir dele vêm de um lugar invisível onde a única regra é a verdade sem partido, onde tudo é possível e apoiado pelas forças da natureza.


Portal 8: Bênçãos





No Caminho, por mais que isto pareça evidente, o mais importante é caminhar. Não é possível chegar a lugar algum sem fazê-lo. Caminhar, no entanto, é apenas um pretexto para que se possa apreciar e interagir com o Caminho. Receber o que el tem para dar. Deixar por lá o que não faz mais sentido carregar. Experimentar leveza. Voar, rir, correr, cantar, admirar a natureza. Desenvolver dentro de si um sentimento de gratidão por participar desta magnífica experiência de estar vivo neste momento. Aproveitar ao máximo o limite da impermanência. E por uma fração de tempo, sentir-se feliz.


Sobre o autor:



Ricardo Mendes é redator, fotógrafo, ator; desde 1985 estuda e pratica diversas técnicas de autoconhecimento, cura espiritual e alimentação naturista. Entre as tradições que mais fizeram sentido em sua vida estão a Meditação Transcendental, o Reiki, o Tai Chi Chuan, o Ayurveda, conhecimento milenar sobre a saúde, originário da Índia (Vedas), e a Medicina do Beija-Flor, um conjunto de práticas reunidas e desenvolvidas pelo xamã Foster Perry visando à cura espiritual. Seu trabalho pessoal na fotografia consiste na reinterpretação de lugares sagrados através da linguagem em preto e branco.


Leia: Santiago de Compostela – os 8 Portais do caminho. Ricardo Mendes. Axcel Books do Brasil Editora. Rio de Janeiro, 2002.



Se você gostou dessa obra, indicou um outro título do Ricardo Mendes que segue a mesma linha: Andando em Círculos: as pedras milenares e o Caminho da tríplice Espiral. Imperdível, agradará em cheio aqueles que se interessam pela Irlanda e Inglaterra com seus monumentos megalíticos cheios de mistérios e fascínio.



Na vitrola: O espírito da paz, gravado em 1994 pelos Madredeus. Simplesmente a melhor música e a melhor banda portuguesa de todos os tempos.





As fotos dessa postagem foram clicadas por mim na Galícia em maio e outubro de 2011. Liberadas para uso.

domingo, 31 de julho de 2011

A Galícia de Rosalía de Castro

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Me deu vontade, nas últimas semanas, de reler alguns autores espanhóis que há tanto tempo prestigiam minha biblioteca. Não são muitos, mas os poucos que andei pescando nos últimos quinze anos são muito queridos, porque os colecionei em viagens, garimpados em sebos, livrarias e presenteados por amigos.

Tirei três da prateleira e resolvi que ficaria com a pequena e amarelada antologia de Rosalía de Castro. É possível que você não a conheça, mas essa escritora galega foi uma mulher genial nas letras, a primeira poetisa social da Espanha, que para escrever não se apoiou numa ideologia, mas sim na própria experiência, como disse certa vez Torrente Ballester a seu respeito.



Rosalía de Castro (1837-1885) é tida por alguns como uma poeta folclórica, a mulher que cantou as belezas e os costumes da Galícia, mas seria equivocado resumir seu perfil literário assim, de maneira tão reducionista; todo um povo se reconhece em sua obra e por isso Rosalía se transformou em um mito galego. “Nenhum poeta espanhol”, informação que tiro do prólogo dessa antologia, “jamais alcançou um fervor tão unânime e entusiasta como o que o simples nome de Rosalía desperta no povo da Galícia”.



Também pudera: o livro de Rosalía, Cantares (Vigo, 1863), foi a primeira obra importante publicada na língua galega depois de quatro séculos de silêncio quase absoluto; se não foi de fato a primeira, como observam alguns estudiosos, foi seguramente a obra que marcou o renascimento pleno da língua galega.

Não irei mais longe do que isso porque meu propósito não é o de esmiuçar a vida e a obra de Rosalía, merecedora sem dúvida de uma boa leitura, sobretudo se você se interessa por poesia. Deixarei no final do post alguns links interessantes, ok?

Quis apenas contextualizar você antes da leitura que virá a seguir. É preciso saber que as críticas pesadas de Rosalía (sobre algumas províncias espanholas, sobretudo a de Castilha) nessa introdução feita à sua obra Cantares Gallegos tem que ser entendida dentro daquele contexto social da Espanha do século dezenove, quando a Galícia, praticamente, sequer era reconhecida como uma região digna de pertencer ao país, e sua gente, tão pobre, tão sofrida, era tratada tal como os párias na Índia, sem dignidade e sem identidade. Retirantes, como numa tela de Portinari, os galegos sem espaço em seu próprio país buscaram outras terras e muitos vieram parar na América do Sul.

Coube a Rosalía a tarefa de trazer de volta ao seu povo a dignidade e identidade outrora perdidas, e a coisa toda funcionou de verdade. A força de sua poesia e sua voz se fez ouvir e viajou mundo. Rosalía não é mais Rosalía: é a própria Galícia, em corpo e alma.



Seria a poesia a forma mais poderosa da arte? A arte mais sublime? Como subestimar o poder da poesia sendo ela capaz de devolver a identidade a um povo? Outro dia, vendo um documentário sobre a vida e obra de Bob Dylan (No Direction Home, genial) anotei o que Allen Ginsberg (excepcional poeta da geração beat) disse sobre poesia. Achei sua definição de uma genialidade ímpar: “a poesia é feita de palavras poderosas que tocam profundamente e que reconhecemos instantaneamente como uma forma de verdade subjetiva que tem uma realidade objetiva, porque alguém a percebeu. A isso se chamará poesia mais tarde.”

Verdade e realidade, objetividade e subjetividade, palavras citadas por Ginsberg que encontram eco na poesia de Rosalía de Castro, com seus cantos de amor e queixa, como escreverá Unamuno mais tarde. A leitura que faço agora, enquanto leio os poemas saudosos e belos de Rosalía, me fazem pensar em outras hipóteses interpretativas, entre elas a de que a Galícia também pode ser uma metáfora, assim como o sertão, ou os desertos das obras de outros grandes escritores e poetas. Mas isso são especulações minhas que não vêm ao caso aqui.

E onde, afinal, em se tratando de um blog sobre literatura odepórica, vamos encaixar os poemas de Rosalía de Castro com o ato de viajar? Pois... vamos fazer isso, mas dessa vez de uma maneira mais sutil, porque de fato não estamos lidando com uma narrativa de viagem. Tudo isso foi para que você partisse comigo para a Galícia, e falar de Galícia sem falar de Rosalía de Castro é como, sei lá, falar das Minas Gerais sem citar Guimarães Rosa, fazendo um paralelo assim, de improviso.

Nesse ponto acho que vem ao caso compartilhar algumas estrofes de um poema de Rosalía (tradução minha, não repare), um dos que mais gosto, escrito em 1884. Chama-se Orillas del Sar, que pode ser traduzido como “Às margens do Sar”, rio que nasce lá para os lados de Santiago de Compostela e desemboca em Iria Flávia (antiga Padrón), cidade onde Rosalía viveu seus últimos anos de vida.





Através da folhagem perene
De onde se ouve estranhos rumores,
E entre um mar de ondulante verdor,
Amorosa mansão dos pássaros,
Vejo desde a minha janela
O templo que tanto amei.

O templo que tanto amei...
Mas já não sei dizer se o amo,
Que no rude vaivém que sem trégua
Se agitam meus pensamentos,
Tenho dúvida se o rancor austero
Vive unido ao amor em meu peito.

Outra vez! Depois da luta exaustiva
E da amarga incerteza
Do viajante que errante não sabe
Onde dormirá amanhã,
Em seus lares primitivos
Encontra um breve descanso a minha alma.

(...)
Como se me encontrasse em solo estrangeiro
Tímida e rude, contemplo
Desde longe os bosques e as alturas
E as floridas sendas,
Onde em cada canto me aguardava
A esperança sorrindo.

Ouço o toque sonoro que então
Ao meu leito a chamar-me vinha
Com seus ecos, que o alvorecer anunciava;
Que como doce carícia
Um raio de sol dourado
Iluminava minha estância tranqüila.

O ar puro, a luz rosada,
Que feliz despertar!
Eu via entre nuvens de incenso
Visões com asas de ouro
Que levavam a venda celeste
Da fé sobre os seus olhos...

Esse sol é o mesmo, mas elas
Não acodem ao meu conjuro;
E através do espaço e das nuvens,
E das águas nos limbos confusos,
E do ar na transparência azul,
Ai! Já em vão as chamo e as busco.

Branca e deserta a via
Entre as frondosas sebes
E os bosques e arroios que ladeiam
Suas margens, com grato mistério
Parece atrair-me e brindar-me
A seguir sua linha sem término

Desçamos, pois, que o caminho
Antigo há de surgir,
Ainda que triste, escabroso e deserto,
E assim como nós mudado,
Ainda cheio dos brancos fantasmas
Que em outro tempo adoramos.






Perceba que na poesia de Rosalía a natureza tem uma dimensão quase mágica, como se suas palavras sacralizassem tudo aquilo que seus olhos pudessem enxergar. E quem conhece a Galícia, terra de verdes bosques, e rios de águas frescas e translúcidas e suas montanhas lambidas de brumas, as ruínas dos antigos castros, quem a conhece não consegue deixar de encantar-se.

Uma sugestão que dou ao leitor/a que me acompanhou até aqui é a seguinte: se o seu bolso permitir e se o seu tempo não for suficiente para caminhar por muitas semanas, uma viagem inesquecível e encantadora é a seguinte: tome um avião até Madri e de lá vá de trem ou de ônibus até a cidade de Villafranca del Bierzo. De Villafranca a Santiago você caminhará uma média de duzentos quilômetros no total, ou seja, vinte quilômetros por dia, o que não é nenhum exagero, mesmo para os sedentários.





Em dez dias você terá conhecido uma das regiões mais bonitas da Espanha, com paisagens indescritíveis, culinária deliciosa, bons vinhos se gosta de beber, entre tantos outros prazeres. Ficando nos albergues, a viagem não pesará no seu bolso e sua alma sairá de lá mais leve do que você imagina. Eu diria, por experiência própria, que se o seu comprometimento com o Caminho for sério, sua experiência será tão profunda e marcante quanto a dos que optarem por caminhar os mais de setecentos quilômetros desde os Pirineus.

O texto abaixo, traduzido por mim da introdução de Rosalía para Cantares Gallegos mostra, sem exagero algum, um perfil da Galícia que ainda hoje, passados mais de cem anos, é possível de ser observado pelos peregrinos que continuam se aventurando naquelas paragens que em muitos momentos parecem ter parado no tempo. Boa viagem.



É um grande atrevimento, sem dúvida, para um talento pobre como o que me cabe, dar à luz um livro cujas páginas deviam estar cheias de sol, de harmonia, e daquela naturalidade que, unida a uma profunda ternura, a um arrulho incessante de palavras meigas e sentidas, formam a grande beleza de nossos cantos populares.

A poesia galega, toda ela música e vagueza, toda queixas, suspiros e doces sorrisos, murmurando umas vezes com os ventos misteriosos dos bosques, brilhando outras com o raio de sol que cai sereno sobre as águas de um rio caudaloso e grave que corre sob os galhos dos salgueiros em flor, precisava, para ser cantada, de um espírito sublime e cristalino, se pudermos assim dizer.

Uma inspiração fecunda como a vegetação que embeleza esta nossa terra privilegiada, e sobretudo um sentimento delicado e penetrante para dar a conhecer tantas belezas de primeira ordem - fugitivo raio de beleza como o que se desprende de cada costume, de cada pensamento escapado a este povo a quem muitos chamam de estúpido e a quem talvez julguem insensível, alheio à divina poesia.

Mas ninguém menos do que eu possui as grandes qualidades necessárias para levar a cabo uma obra tão difícil, e nem tampouco se pode encontrar alguém animado por um grande desejo de cantar as belezas de nossa terra naquele dialeto suave e meigo que querem tomar por bárbaro os que não sabem que sobrepuja as demais línguas em doçura e harmonia.

Por isso, ainda encontrando-me fraca e sem forças, e não tendo aprendido em outra escola que não a de nossos pobres aldeões, guiada apenas por aqueles cantares, aquelas palavras carinhosas e aquelas construções nunca esquecidas, que tão docemente ressonavam em meus ouvidos desde o berço em que foram recolhidas por meu coração como herança própria, atrevi-me a escrever estes cantares esforçando-me em dar a conhecer como alguns de nossos costumes poéticos ainda conservam certo frescor patriarcal e primitivo e como nosso dialeto doce e sonoro é tão adequado como o primeiro para toda classe de versificação.

(...) Canções, lágrimas, queixas, suspiros, entardeceres, romarias, paisagens, pastos, pinheirais, descampados, ribeiras, costumes, tudo aquilo, enfim, que por sua forma e colorido seja digno de ser cantado, tudo o que teve um eco, uma voz, um rumor, por mais leve que fosse, que chegasse a comover-me, tudo isso me atrevi a cantar neste humilde livro para dizer, pelo menos uma vez, ainda que de um modo acanhado, aos que sem razão nem conhecimento algum nos depreciam, pois nossa terra é digna de elogios e nossa língua não é aquela que degeneram e arranham torpemente as mais ilustres províncias com um riso de mofa, que para dizer a verdade (por mais que esta seja dura) demonstra a ignorância mais crassa e a mais imperdoável injustiça que uma província pode fazer a outra província irmã, por mais pobre que esta seja.

Tenho para mim que o mais triste nesta questão é a falsidade com que são retratados fora daqui tanto os filhos de Galícia como a própria Galícia, a quem geralmente julgam ser a província mais depreciável e feia da Espanha, quando na verdade talvez seja a mais formosa e digna de elogio.

(...) Mas eu, que atravessei repetidas vezes aquelas terras solitárias da Castilha que dão a ideia de um deserto; eu, que percorri a terra fértil da Extremadura e a extensa região da Mancha, onde o sol cai como chumbo iluminando monótonos campos onde a cor da palha seca empresta um tom cansado à paisagem que rende e entristece o espírito, sem uma moitinha que distraia o olhar que se perde em um céu sem nuvens, tão igual e tão cansado como a terra que cobre.

Eu, que visitei os celebrados arredores de Alicante, onde as oliveiras, com seu verde escuro, semeadas em fileira e de raro em raro, parecem chorar por encontrarem-se solitárias, e vi aquela bela zona de terras irrigadas da Murcia, tão famosa e tão aclamada e que, cansada e monótona como o resto daquele território, mostra sua vegetação tal como paisagens pintadas num esboço, com árvores plantadas simetricamente e em pequeninos caminhos para diversão das crianças.

Não posso deixar de indignar-me quando os filhos dessas províncias que Deus favoreceu em fartura, mas não na beleza dos campos, se burlam dessa Galícia competidora em clima e galanteio com os países mais encantadores da Terra, esta Galícia onde tudo é espontâneo na natureza e onde a mão do homem cede seu posto à mão de Deus.

Lagos, cascatas, torrentes, várzeas floridas, vales, montanhas, céus azuis e serenos como os da Itália, horizontes nublados e melancólicos, mas sempre belos, como os tão aclamados horizontes da Suíça, ribeiras tranqüilas e serenas, cabos tempestuosos que causam terror e admiração por sua gigantesca e ensurdecedora cólera... mares imensos... Que mais posso dizer? Não há pena que possa enumerar tanto encanto reunido.

A terra coberta em todas as estações de ervas e de flores, os montes cheios de pinheiros, de carvalhos e de salgueiros, os ventos ligeiros que passam, as fontes e as torrentes derramando-se rumorejantes e cristalinas no verão e no inverno, seja pelos agradáveis campos, seja pelas profundas e sombrias depressões... A Galícia é sempre um jardim onde se respiram aromas puros, frescor e poesia...

E apesar disso, chega a tanto a tolice dos ignorantes, a tanto o preconceito indigno que contra nossa terra existe, que até mesmo aqueles que puderam contemplar tamanha beleza (e já nem estamos falando dos que se burlam de nós sem jamais nos terem visto sequer de longe), os que penetraram na Galícia e gozaram de suas delícias, se atreveram a dizer que a Galícia era... um chiqueiro imundo!

E estes eram, talvez, os filhos daquelas terras abrasadas de onde até os pássaros fogem... Que diremos disso? Nada mais senão que tais tolices a respeito de nosso país têm alguma comparação com as dos franceses ao falar de suas eternas vitórias sobre os espanhóis, que a Espanha nunca, jamais os venceu, pelo contrário, sempre saiu vencida, derrotada, humilhada; e o mais triste disso é que “vale” entre eles tal infame mentira como “vale” para a seca Castilha, para a desértica Mancha e para todas as demais províncias da Espanha – nenhuma comparada em verdadeira beleza de paisagem como a nossa – que a Galícia é o canto mais desprezível da terra.

Bem que se diz que tudo neste mundo tem sua compensação, e assim vem a Espanha sofrer, de uma nação vizinha que sempre a ofendeu, a mesma injustiça que ela, ainda mais culpável, comete com uma província humilhada de quem nunca se lembrou, como não seja para humilhá-la ainda mais. Sinto demais as injustiças com que nos favorecem os franceses, mas neste momento quase lhes sou grata, pois que proporcionam um meio de tornar mais palpável à Espanha a injustiça que ela, por sua vez, comete conosco.

Foi este o motivo principal que me impeliu a publicar este livro que, mais do que ninguém, tenho consciência de que necessita da indulgência de todos. Sem gramática, sem regras de nenhuma classe, o leitor encontrará muitas vezes falhas de ortografia, construções dissonantes para os ouvidos de um purista.

Porém, para desculpar ao menos em parte estes defeitos, tive o maior cuidado em reproduzir o verdadeiro espírito de nosso povo, e creio que o consegui um pouco... se bem que de maneira débil e frouxa. Queira o céu que alguém mais venturoso que eu possa descobrir com suas verdadeiras cores os quadros encantadores que por aqui se encontram, incluso no canto mais escondido e esquecido, para que assim, ao menos em fama - já que não em proveito - ganhe e seja vista com respeito e admiração merecida esta infortunada Galícia!

Rosalía de Castro na Wikipedia? Clique
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Fundação Rosalía de Castro, outra boa fonte. Basta clicar bem aqui.

Obras de Rosalía de Castro na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes.

Caminho de Santiago- dê uma estudada no trajeto galego através do site do Guia Eroski Consumer. A região da Galícia começa a partir da etapa 24

quarta-feira, 17 de março de 2010

Peregrinas brasileiras: mulheres no Caminho de Santiago

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Houve uma época, lá pelo finalzinho dos anos noventa, início do segundo milênio, em que peregrinos brasileiros eram “figurinhas fáceis” no Caminho de Santiago. Paulo Coelho abriu a porta e muita gente aceitou o convite: vamos lá embora prá Compostela, ver que lance maluco é esse de peregrinação!

E foi aí que, precisamente, nascia um imaginário jacobeo todo especial para nós aqui do Brasil. Gente morena e bronzeada atravessando o mar disposta a percorrer centenas de quilômetros numa terra distante, abrindo mão de conforto e lazer só para dar um abraço no Apóstolo Tiago. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Primeiro foi um, depois foi outro, depois mais um... e quando a espanholada percebeu, uma invasão brazuca tomou conta do Caminho.

Essa brasileirada, no começo, chegou a assustar um pouco os espanhóis mais tradicionais. E por que isso? Bem, você tem que imaginar a seguinte situação: já é meio esquisito para o padrão dos espanhóis que vivem à margem da rota jacobea ver passar pelas portas de suas casas um tipo de gente diferente dos estrangeiros branquelos que há gerações passam por lá: alemães, franceses, holandeses e belgas, em sua maioria, além dos nativos, claro.

Os europeus, para peregrinar, já saem andando da porta de suas casas, não precisam atravessar o mar para isso, mas os brazucas, não. Além disso, chegam ao Caminho “apadrinhados” por um escritor praticante de bruxaria, que foi obrigado, depois de alguns mal-entendidos, a mudar algumas passagens de sua obra onde afirmava que um padre e uma hospitaleira francesa eram bruxos. Uma bobagem para nós, mas não para eles que guardam na memória uma amarga passagem pela Inquisição, certo? Certo.

Daí que, aqueles que foram no embalo do mago, voltaram de suas viagens cheios de coisas prá contar prá gente. Alguns escreveram suas memórias, publicando seus diários de viagem e a coisa toda virou uma festa: paulinhos coelhos e paulinhas coelhas mexendo com a cabeça dos moços e das moças cheios de vontade de ir atrás dos seus sonhos, suas espadas, seus segredos templários e discos voadores imaginários. Tem gnomos e duendes lá? Tem sim, e cães amaldiçoados pelo capeta, e bruxas cheias de poderes e poções, e anjos da guarda disfarçados de pastores. Uma doideira esse tal de Caminho de Santiago, diriam alguns.

Parece exagero? E é, claro, mas só até certo ponto, porque de fato essa salada místico/esotérica por um bom tempo fez parte de tudo aquilo que uma pessoa comum associava ao Caminho. Não que isso tenha acabado, mas podemos dizer que essa imagem já não vende com a mesma força de outrora o “produto” Caminho (e nem vou entrar nessa discussão porque não me interessa mesmo).

Muitos relatos de viagem foram publicados desde o Diário de um Mago. Mais de uma centena, o que me parece um número bastante razoável. Dessa primeira leva de peregrinos escritores, cinco foram mulheres. É sobre elas que quero escrever dessa vez.

A primeira peregrina chama-se Lizia Azevedo, fez o Caminho em 1990 na condição de discípula de Paulo Coelho e publicou sua história, O Poder de Domar do Grande dois anos depois, em 1992.


O livro de Lizia é na verdade uma espécie de diário onde ela relata o seu caminho na senda da magia; é instruída por Paulo Coelho e mais da metade do livro trata disso, das dificuldades de uma mulher comum, mãe de dois filhos, que além das tarefas cotidianas ainda tem que se empenhar nas artes mágicas, uma espécie de Paulo Coelho de saias. Ela só chega à Espanha na página 123, e de lá parte na página 181, por isso, se você quiser ler apenas sobre as experiências de Lizia no Caminho, pode começar dali a sua leitura. E vale a pena?

Bom, depende daquilo que se busca. Como documento histórico, vale sim, afinal foi a primeira dama peregrina a se aventurar na literatura odepórica jacobea. Também vale para aqueles leitores interessados nesse lance mais “pagão” do Caminho. Na realidade, o que mais me agrada nessa e nas outras obras que iremos conhecer aqui no blog é o fato de que todas foram escritas num período chave do Caminho de Santiago, um pouco antes ou um pouco depois do Ano Santo de 1993. Foi uma época de grandes transformações para a história da peregrinação compostelana, quando o Caminho ganhou uma projeção que há séculos não se via. Foi também o mesmo período em que eu peregrinei a Santiago e para mim a leitura tem um gostinho especial porque muitos dos personagens que aparecem nessas obras, alguns já falecidos, eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente.

Vamos ler um trecho do relato de Lizia? A cena se passou no vigésimo sétimo dia da viagem:

O dia estava quente. Caminhávamos pela estrada. O asfalto consumia as energias e tornava monótona essa parte do Caminho. O som distante de um rio era a única coisa que chamava minha atenção. Eu estava cansada e com sede. Uma placa avisando a quilometragem, localizada num lugar afastado do acostamento, permitia que pudesse descansar um pouco ali. Avisei aos meus companheiros que iria procurar o banheiro do peregrino: a mata. Segui por uma trilha estreita que aparecia por detrás da folhagem.

O barulho das águas do rio começou a ficar mais forte. A descida acabava num monte de pedras que se unia a um lago formado por uma bela cachoeira. Meu desejo se realizara. Tirei os sapatos, suspendi minha calça e coloquei meus pés na água. Ela estava me convidando para entrar não só com sentimento, mas também com todo meu corpo.

Olhei ao meu redor. Vi que não seria possível a ninguém chegar até ali. Tirei toda minha roupa e, calmamente, coloquei os pés nas pedras. Quando dei o segundo passo, meu pé esquerdo escorregou no limo. Algo pontudo penetrou entre meus dedos. Pela dor, calculei que o corte fora profundo. Mergulhei, sentindo a água fria em meu corpo. O prazer e a dor se misturaram. O Caminho exigia de mim, além de suor e lágrimas, meu sangue: a consumação dos mistérios da vida.

Ao sair da água, sentei novamente na pedra para olhar o corte. Eu estava certa. Havia sido profundo. Talvez precisasse levar alguns pontos.

Meu pé, então, latejava. Sinal de inflamação. Uma mulher entrou na igreja carregando flores. Ajoelhou-se para rezar. Assim que terminou sua oração, foi ao altar levar as flores para enfeitá-lo. Ela parecia estar em ritmo de festa.

Encolhida de frio, sentada no banco, só escutava os meus próprios soluços. Eu não escondia minha tristeza. Ela não escondia sua alegria. Era o Caminho de cada uma de nós. A solidão da dor era o que eu estava sentindo. Não podia dividi-la com ninguém. Olhei para Jesus. Talvez estivesse sentindo essa mesma solidão, pregado na cruz.

A mulher caprichava na arrumação do arranjo de flores nos vasos. Absorta em meus pensamentos não percebi quando ela saía da igreja. “Bonita” - disse ela segurando meu braço – “ não se preocupe. Tudo o que você quiser vai conseguir.”

Como instrumento de Deus, ela me transmitia Sua mensagem. Eu tinha certeza. Nesse momento, o sol saiu de detrás das nuvens, iluminando a igreja, atrás dos vitrais, em diferentes cores. O céu parecia ter descido com toda a corte celestial. Eu não vi nem escutei, mas minha alma sentia.

Fora as provas que deveria passar, o Caminho sempre se mostrou cheio de surpresas agradáveis. “Não precisa ficar triste para chegar mais perto de Deus” – disse para mim o padre de Burgos.

Levantei e fui beijar os pés de Jesus. Quando olhei para o chão, vi uma rosa vermelha. Procurei por toda a igreja se tinha mais alguma rosa nos vasos. Não havia. Nesse momento uma enorme força tomou conta de mim, dissipando as nuvens de meu coração e me despertando para as lições do Caminho.

Segundo a Tradição, existem quatro maneiras de a mulher se revelar a Deus. Cada uma tem apenas um modo, um determinado anel para cumprir seu papel no mundo. Aquela que usa o anel da Santa se revela através da doação, do servir. A Mártir é aquela cuja revelação é feita através do sofrimento. A Virgem se revela a Deus por meio da solidão. Ela encarna, ao mesmo tempo, o homem e a mulher. Por fim, a Bruxa, cuja revelação se faz através do prazer. Simbolicamente, retirei o anel de mártir, deixando-o para outra, cuja sina fosse usá-lo. Peguei, então, meu verdadeiro anel de revelação, o qual andei tanto para encontrar: o da Bruxa. Ao sair da igreja, o sol ainda estava no céu, mostrando um novo dia e uma nova mulher que despontava dentro de mim.


No mesmo ano de 1990, Dalva Storchi também peregrinou a Compostela. Seu registro, pequenino, intitula-se O Caminho de Alba: descobrindo Deus em Santiago de Compostela. Dalva, assim como Lizia, foi discípula de Paulo Coelho, como ela mesma escreve, “uma iniciada nas Artes da Magia”.




Chama a atenção no relato de Dalva a maneira como sua prática mágica se entrelaça com um profundo contato com a fé católica. São suas as palavras: “(...) ainda que a vida inteira eu houvesse resistido à Igreja Católica Ortodoxa (sic) com seus dogmas e arbitrariedades, e ao seu eterno ar de dona da verdade, ao clero e ao Vaticano, eu por minha livre e espontânea necessidade buscava o sagrado, o meu laço com a Divindade.”

Essa maneira de se relacionar com o sagrado, tirando de cada religião aquilo que lhe interessa – e descartando o que não interessa ou não se aceita – é uma atitude típica dos novos movimentos religiosos, muito difundida entre peregrinos brasileiros. Até certo ponto existe um comprometimento com a Igreja, mesmo porque o Caminho faz parte da tradição católica, mas o modo como o peregrino opera a sua relação particular com Deus (ou com a Deusa, ou com os deuses) está acima de quaisquer dogmas ou compromissos institucionais. A narrativa de viagem de Dalva Storch é das mais curtas entre as inúmeras obras publicadas; sua viagem teve que ser interrompida várias vezes por causa do estado lastimável de seus pés, e algumas etapas foram percorridas de ônibus. Ainda assim, percebe-se que sua peregrinação foi uma experiência bastante transformadora.

Anna Sharp publica em 1993 A Magia do Caminho Real, provavelmente o relato mais lido entre todos os publicados naquele período. A seu favor, Anna tem uma escrita mais atraente e uma proposta que difere da dos demais autores: o uso do Caminho para aprofundar questões de cunho psicológico/espiritual, uma espécie de terapia de autoconhecimento (segue um pouco o modelo dos livros de auto-ajuda, mas de forma mais sutil). Anna Sharp foi uma espécie de fada-madrinha de muitos peregrinos e peregrinas da “primeira leva”. E, também ela, fez o Caminho a convite de Coelho, de quem se desligou ainda durante a caminhada, num momento de saco-cheio-de-tudo.


Seu livro é gostoso de ler e traz capítulos curtos intercalados de uma forma bem peculiar: a mulher, a peregrina e a terapeuta. As partes mais interessantes, opinião minha, são as que se passam no Caminho. Vamos ler uma passagem?

Desdobrei meu saco de dormir na relva macia; sentia-me absolutamente protegida, e adormeci olhando a Via Láctea, experimentando a sensação de entrega total. Descobrira que o meu dom era da “revelação”... que havia sido sempre assim.

As respostas sempre me foram sopradas, pensei sonolenta. Talvez pelos anjos... Escrevi uma carta para o meu marido, falando de meu amor por ele em trinta anos de buscas e agradecendo a paciência com a minha inquietude; somente um homem muito forte e seguro de si poderia viver ao meu lado: ele era assim e, sem perceber, tornara-se a pessoa mais importante de minha vida. Era o meu chão.

Escrevi agradecida outra carta para Paulo, meu querido guia, desligando-me de qualquer compromisso com a Tradição, abençoando-o e a seu Mestre, ainda desconhecido para mim, pela oportunidade de viver aqueles momentos; respeitei-O por sua sabedoria ao exigir que eu fizesse o Caminho da solidão. Por Seu conhecimento, me entregara ao Divino...

Eu não podia ser sua seguidora; sempre havia tido um mestre, um Mestre Interno já contatado há muito tempo, que me guiara e trouxera até aquele momento; sabia agora que não me julgava, que me aceitava e que nunca me abandonaria. A partir daquele momento o Caminho era MEU”!

Nos dias seguintes, percebi que de alguma forma sutil havia entrado em outro Universo. Era como se tivesse passado de uma dimensão para outra, mais leve e integrada. Meu corpo parecia se movimentar diferente: “eu levava” o meu corpo em vez de “ser levada” por ele.

Como um passe de mágica, o mundo se enchera de vida; conheci vários peregrinos nos refúgios, à noite, tendo sempre momentos de “trocas” altamente enriquecedoras. Falávamos uma só língua (entre holandês, inglês, francês, alemão e espanhol): a do “coração”. Nos entendíamos perfeitamente bem e a nossa despedida podendo ser um “para nunca mais”, já que nenhum de nós sabia qual seria a próxima parada. A liberdade total, a solidão durante o caminhar, são a ética do verdadeiro peregrino: aquele que busca Deus em si mesmo.

Numa tarde de muito calor, cheguei absolutamente faminta e sedenta a San Juan de Ortega, povoado medieval e precioso com apenas cinco casas. Encostado à porta da belíssima igreja românica, onde está a cripta que guarda o sepulcro do santo, estava um cura: “Por favor, senhor, sabe onde fica o refúgio?” – perguntei, apoiada em meu bastão. “A uns vinte ou trinta quilômetros daqui” – respondeu, com cara fechada. Fiz também uma expressão zangada ao perceber que estava mentindo, e novamente me dirigi a ele: “O senhor teria uma faca bem afiada para me emprestar?”. Curioso, me perguntou: “E para que quer uma faca?”. “Para cortar meus pulsos! Vou lhe deixar em culpa por toda a eternidade, pois se recusa a dar abrigo a uma pobre peregrina exausta...”

Caímos juntos na gargalhada, e o simpático Padre José Maria me convidou a entrar em sua casa, onde já estava disposta uma farta mesa com pães, queijos e salames que carinhosamente sempre preparava para os peregrinos cansados que por ali passavam.

Algum tempo depois, num ambiente dos mais calorosos, o cura em frente ao fogão nos preparou sua especialidade: uma deliciosa “sopa de alho”, designando tarefas para todos que iam chegando. E, à tardinha, rezou uma missa, mostrando uma relação bastante íntima e calorosa com Deus. Comunguei agradecida. Lentamente se processava em mim um estado alterado de consciência. Observava o mesmo fenômeno em alguns companheiros que já encontrara mais de uma vez.

(...) Uma tarde, depois da chuva miúda, formou-se no céu um lindo arco-íris, símbolo de meus sonhos de infância; compreendi que havia encontrado o “pote de ouro” tão procurado... estava viva e me amava! O amor transbordava de mim para tudo e todos que me rodeavam. Caminhava em êxtase; já não sabia em que dia do mês ou da semana estava. Tudo me parecia certo e perfeito. Há dias e dias que não me olhava num espelho, mas cantando e andando, me enfeitava com as flores que encontrava, colocando-as desordenadamente nos cabelos. Liberdade total! Nada me faltava.

Dentro da mochila, além de uma muda de roupa e um casaco, levava o saco de dormir que me protegia do frio noturno; muitas noites preferia dormir sob as estrelas, protegida pelo escuro ao meu redor e acordava acariciada pelo sol, com a música dos passarinhos em meus ouvidos. Percebi que nunca me havia sentido tão completa e feliz. Pela primeira vez consegui VER com os olhos do coração a Obra Divina. Apenas eu, o Caminho e Deus. Um.


Depois de Anna Sharp, aparece o relato de Baby do Brasil, (Baby Consuelo, a cantora), figura conhecida no meio artístico brasileiro tanto pela sua aparência exótica quanto pelas suas declaradas opções religiosas. Atualmente, Baby do Brasil se considera evangélica, mas sua imagem ficou muito marcada nas décadas de 1970/1980 por sua ligação com Thomas Green Morton, vulgarmente conhecido como o homem do “Rá”.




Com a obra intitulada Peregrina: meu caminho no Caminho, Baby escreveu um relato interessante, dando uma ênfase especial na sua busca espiritual, com características familiares à onda new age, como você poderá notar facilmente na passagem abaixo:

“Todos soltos no ambiente da alma, sintonizando suavemente numa freqüência de aceitação, amor e liberdade, sabíamos que logo que chegássemos à Espanha estaríamos prontos para decolar nessa outra ‘viagem’ rumo ao Eu e a certeza da chegada era o grande Orgasmo Cósmico em que já nos encontrávamos.”

Apesar do nome, Magda von Brixen é brasileira nascida no Rio de Janeiro. Fez a peregrinação na mesma época em que Baby fez a dela, e não por coincidência: ambas foram ao Caminho com o apoio de Anna Sharp, que após sua viagem a Compostela criou um curso chamado Caminho Real, onde entre outras coisas os participantes aprendem que a endorfina, um neurotransmissor capaz de modificar o estado emocional de uma pessoa, é liberada no organismo após a prática de um exercício físico intenso, como a caminhada. Daí para botar o conceito em prática, basta vontade e dinheiro para atravessar o mar e chegar à terra del Quijote.

Em sua obra, Em terra, pisando estrelas, Magda von Brixen propõe analisar o Caminho de Santiago sob a ótica feminina. Dedica uma atenção especial à questão da mulher em seu processo de transformação interior, mas isso não faz de seu texto um relato feminista, quando muito poderíamos classificá-lo como um relato feminino, que é de fato a proposta desta peregrina.


Logo no início de sua jornada, no pequeno povoado de Roncesvalles, Magda escreve uma passagem que me parece interessante por ilustrar o primeiro momento dos peregrinos brasileiros no Caminho no início dos anos 1990:

“Na Colegiata de Roncesvalles, o primeiro encontro sem fronteiras com peregrinos franceses, holandeses, belgas, alemães e espanhóis. Mistura de emoções em todos os idiomas, gestos e risos valendo mais do que palavras. A irreverência de Baby não agradou ao cura, que também não tinha em boa conta o misticismo verde-amarelo: disse em alto e bom som que brasileiros vinham ao Caminho em busca de bruxarias. O catolicismo espanhol é muito conservador e a tradução do livro de Paulo Coelho na Espanha não agrada ao clero local. Mas Javier, que coordenava trabalhos e movimentos na Colegiata, revelou-se mais irreverente que nós:
- Você é o cura?- perguntei, ao chegar.
- No, soy locura... ”

Essa visão que o cura de Roncesvalles tem sobre os peregrinos brasileiros, tal como é apresentada no relato de Magda, é sem dúvida preconceituosa e generalista. Mas, sem querer justificar a atitude do padre, temos que lembrar que, naquele momento, corria o mundo uma obra em que ele próprio era citado como um dos “bruxos” do caminho de Santiago, como já foi dito.

Com os livros de Magda e Baby um ciclo se fecha; até o final de década de 1990 poucos relatos serão publicados, até que em 1999, um Año Santo (assim como 2010, pois 25 de julho, dia de Santiago, cai em um domingo), dá-se o boom de brasileiros e brasileiras no Caminho. Com eles chegarão dezenas de relatos de viagem e uma nova geração de peregrinos pós-Coelho, ainda que, de um modo ou de outro, a pegada “místico/esotérica” continue presente na maioria dos relatos. Mas isso fica para um outro post. Ultreya!