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Não existe nada mais subversivo, mais alternativo em
relação ao modo de pensar e de agir que o caminhar. Caminhar é uma modalidade
do pensamento - um pensamento prático.
É assim cheio de sabedoria que o político e escritor italiano
Adriano Labbucci começa seu ensaio, defendendo a ideia de que o ato de caminhar
nos ajuda a melhor compreender o mundo e nossas relações com os outros. Difícil
discordar.
Para quem já leu outras obras sobre a temática da
caminhada esse pequeno ensaio talvez pareça superficial e repetitivo,
acrescentando pouco a tudo o que já se escreveu sobre o tema. Mas não é bem
assim, felizmente. Por ser um texto curto, desses que conseguimos ler em uma
tarde ou duas, terminamos a leitura com vontade de pesquisar mais sobre o
assunto e, sobretudo, de sair caminhando pela cidade tendo em mente as lições
aprendidas no livrinho.
Essa é a maior diferença entre a obra do Adriano Labbucci
e a de outros autores que também escreveram sobre o tema: ele nos incita a
caminhar, a olhar o mundo de maneira diferente, não da forma
filosófico/transcendental de um Thoreau (Caminhada)
ou de um filósofo romântico como Rousseau (Os
devaneios do caminhante solitário), que tão belamente escreveram sobre a
prática da caminhada, assim como outro pensador, o alemão Karl Gottlob Schelle(A arte de passear) que buscou
conciliar o exercício filosófico com as preocupações cotidianas, todos eles
citados no ensaio do italiano.
Labbucci caminha junto desses sábios homens do passado,
mas não dispensa a companhia de seus contemporâneos: Robert Walser (The Walk), Hermann Hesse (Caminhada) e Bruce Chatwin (O rastro dos cantos), só para citar os
mais marcantes, todos eles guias nessa jornada que é ao mesmo tempo, “meio e
fim, travessia e meta”, como afirma o autor.
Enxergar o mundo de maneira diferente, como propõe
Labbucci, implica em literalmente por os pés na estrada, andar pelas ruas, não
de maneira aleatória, mas com um objetivo, uma meta, onde o perder-se faz parte
do processo de aprendizagem; ele não nega os filósofos, pelo contrário, usa-os
como guias porque, desde sempre,
“caminhar tem tudo a ver com pensar e com as questões
fundamentais que estão na base da filosofia: quem somos, onde estamos, para
onde vamos; porque caminhar exprime, como poucas experiências, essa abertura
para o mundo e para si mesmo.”
Caminhar é conhecer o mundo e também a melhor
oportunidade para conhecer-se a si mesmo. Repare bem como os relatos de viagem
mais marcantes frequentemente apresentam viajantes que caminham muito:
peregrinos, exploradores, escaladores... Travessias de desertos, de vales
montanhosos, de cânions, florestas, explorações de cavernas, aventuras que
exigem demasiado dos pés.
Claro que existem os navegadores e suas extraordinárias
aventuras pelos mares e rios do mundo, mas há uma diferença: para caminhar
basta um par de calçados e disposição, às vezes nem isso: basta a disposição.
Quando perguntaram a Bruce Chatwin qual era o melhor modo de visitar um país,
ele respondeu: de botas.
Ao longo do ensaio o autor italiano brinda-nos com as
melhores passagens de obras fundamentais da literatura odepórica, confirmando
que esse tipo de literatura de viagem vai muito além das simples narrativas
sobre lugares, paisagens e aventuras; quando o escritor é bom, a leitura deixa
de ser apenas um passatempo para se transformar numa lição de vida, como no
trecho retirado da obra de Werner Herzog (Caminhando
no gelo):
(...) existe uma absoluta e implícita convicção, uma
convicção tão eloquente que não precisa de explicações: de que, para sermos
merecedores daquilo que nos circunda e que nos é caro, precisamos movimentar o
corpo pelos pés; que, movendo nossos pés, coisas e acontecimentos entram em movimento;
e que tal movimento produz uma mágica harmonia.
Essa foi uma ideia que os latinos já haviam experimentado
e condensado na máxima Solvitur ambulando
(caminhando se resolve), nos lembra o autor. “Porque as coisas boas,
importantes, as coisas que têm valor devem ser preparadas, atingidas,
alcançadas a pé, para dar a elas o tempo de se abrirem para nós e, a nós, o
tempo de lhes transmitir toda a energia do nosso caminhar.”
Caminhar, afirma Labbucci, é um ato de liberdade;
caminhar nos faz livres.
(...) Esse é o espírito profundo de quem caminha: não
deixar pegadas que o vento não possa apagar, não se acomodar sobre os passos
dados, não se deixar prender, errar por outros caminhos, voltar ao caminho para
mais uma vez buscar.
Deixo de fora, na esperança de que o leitor procure ler a
obra, os capítulos finais do ensaio, onde o autor amarra esses conceitos e
ideias de cunho filosófico com o momento atual, sobretudo a realidade dos
grandes centros urbanos onde cada vez mais o caminhante, o flâneur e o próprio
pedestre perdem espaço para os automóveis. Valendo-se de estudos do contexto Sócio-político,
lança a questão: Estamos livres para caminhar nos dias de hoje? As respostas
podem lhe surpreender.
♣
O repouso de Bruce Chatwin (uma nota de rodapé, pág 115)
Elizabeth, sua mulher, levou para a Grécia, para
Kardamili, as cinzas do marido, enterradas próximo a uma pequena capela
bizantina, homenagem à igreja grego-ortodoxa para a qual tinha olhado com
sincero interesse nos últimos anos de sua vida.
Chega-se a ela por uma trilha de terra batida e com
degraus de pedra, que desde a cidade velha sobre me direção à colina através de
bosques, olivais e com o mar embaixo que de repente aparece, preenchendo o
horizonte.
Experimenta-se uma feliz sensação caminhando entre o
verde do entorno e o azul do mar que parece tocá-lo. Chega-se em menos de uma
hora, com as montanhas do Taígeto às costas, à frente uma extensão de água que
confunde as suas cores com o céu; abaixo, a aldeia de Kardamili.
Nessa paisagem serena e encantada onde chega apenas o som
dos sininhos do gado no pasto, aí repousa Bruce Chatwin. Fiel a determinadas
ideias e propostas suas, nada que testemunhe sua presença, nem uma cruz, nem, à
maneira oriental, uma pilha de pedras. Resta, para quem chega lá, apenas o eco
dos passos dados ou a força da memória e das associações: é o que serve para
caminhar.
♣
Leia: Caminhar: uma revolução. Adriano Labbucci. Martins
Fontes, 2013.

















































