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quarta-feira, 14 de março de 2018

Caminhar, uma revolução. By Adriano Labbucci


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Não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir que o caminhar. Caminhar é uma modalidade do pensamento - um pensamento prático.

É assim cheio de sabedoria que o político e escritor italiano Adriano Labbucci começa seu ensaio, defendendo a ideia de que o ato de caminhar nos ajuda a melhor compreender o mundo e nossas relações com os outros. Difícil discordar.



Para quem já leu outras obras sobre a temática da caminhada esse pequeno ensaio talvez pareça superficial e repetitivo, acrescentando pouco a tudo o que já se escreveu sobre o tema. Mas não é bem assim, felizmente. Por ser um texto curto, desses que conseguimos ler em uma tarde ou duas, terminamos a leitura com vontade de pesquisar mais sobre o assunto e, sobretudo, de sair caminhando pela cidade tendo em mente as lições aprendidas no livrinho.

Essa é a maior diferença entre a obra do Adriano Labbucci e a de outros autores que também escreveram sobre o tema: ele nos incita a caminhar, a olhar o mundo de maneira diferente, não da forma filosófico/transcendental de um Thoreau (Caminhada) ou de um filósofo romântico como Rousseau (Os devaneios do caminhante solitário), que tão belamente escreveram sobre a prática da caminhada, assim como outro pensador, o alemão Karl Gottlob Schelle(A arte de passear) que buscou conciliar o exercício filosófico com as preocupações cotidianas, todos eles citados no ensaio do italiano.



Labbucci caminha junto desses sábios homens do passado, mas não dispensa a companhia de seus contemporâneos: Robert Walser (The Walk), Hermann Hesse (Caminhada) e Bruce Chatwin (O rastro dos cantos), só para citar os mais marcantes, todos eles guias nessa jornada que é ao mesmo tempo, “meio e fim, travessia e meta”, como afirma o autor.

Enxergar o mundo de maneira diferente, como propõe Labbucci, implica em literalmente por os pés na estrada, andar pelas ruas, não de maneira aleatória, mas com um objetivo, uma meta, onde o perder-se faz parte do processo de aprendizagem; ele não nega os filósofos, pelo contrário, usa-os como guias porque, desde sempre,



“caminhar tem tudo a ver com pensar e com as questões fundamentais que estão na base da filosofia: quem somos, onde estamos, para onde vamos; porque caminhar exprime, como poucas experiências, essa abertura para o mundo e para si mesmo.”

Caminhar é conhecer o mundo e também a melhor oportunidade para conhecer-se a si mesmo. Repare bem como os relatos de viagem mais marcantes frequentemente apresentam viajantes que caminham muito: peregrinos, exploradores, escaladores... Travessias de desertos, de vales montanhosos, de cânions, florestas, explorações de cavernas, aventuras que exigem demasiado dos pés.



Claro que existem os navegadores e suas extraordinárias aventuras pelos mares e rios do mundo, mas há uma diferença: para caminhar basta um par de calçados e disposição, às vezes nem isso: basta a disposição. Quando perguntaram a Bruce Chatwin qual era o melhor modo de visitar um país, ele respondeu: de botas.

Ao longo do ensaio o autor italiano brinda-nos com as melhores passagens de obras fundamentais da literatura odepórica, confirmando que esse tipo de literatura de viagem vai muito além das simples narrativas sobre lugares, paisagens e aventuras; quando o escritor é bom, a leitura deixa de ser apenas um passatempo para se transformar numa lição de vida, como no trecho retirado da obra de Werner Herzog (Caminhando no gelo):



(...) existe uma absoluta e implícita convicção, uma convicção tão eloquente que não precisa de explicações: de que, para sermos merecedores daquilo que nos circunda e que nos é caro, precisamos movimentar o corpo pelos pés; que, movendo nossos pés, coisas e acontecimentos entram em movimento; e que tal movimento produz uma mágica harmonia.

Essa foi uma ideia que os latinos já haviam experimentado e condensado na máxima Solvitur ambulando (caminhando se resolve), nos lembra o autor. “Porque as coisas boas, importantes, as coisas que têm valor devem ser preparadas, atingidas, alcançadas a pé, para dar a elas o tempo de se abrirem para nós e, a nós, o tempo de lhes transmitir toda a energia do nosso caminhar.”



Caminhar, afirma Labbucci, é um ato de liberdade; caminhar nos faz livres.

(...) Esse é o espírito profundo de quem caminha: não deixar pegadas que o vento não possa apagar, não se acomodar sobre os passos dados, não se deixar prender, errar por outros caminhos, voltar ao caminho para mais uma vez buscar.



Deixo de fora, na esperança de que o leitor procure ler a obra, os capítulos finais do ensaio, onde o autor amarra esses conceitos e ideias de cunho filosófico com o momento atual, sobretudo a realidade dos grandes centros urbanos onde cada vez mais o caminhante, o flâneur e o próprio pedestre perdem espaço para os automóveis. Valendo-se de estudos do contexto Sócio-político, lança a questão: Estamos livres para caminhar nos dias de hoje? As respostas podem lhe surpreender.
O repouso de Bruce Chatwin (uma nota de rodapé, pág 115)



Elizabeth, sua mulher, levou para a Grécia, para Kardamili, as cinzas do marido, enterradas próximo a uma pequena capela bizantina, homenagem à igreja grego-ortodoxa para a qual tinha olhado com sincero interesse nos últimos anos de sua vida.

Chega-se a ela por uma trilha de terra batida e com degraus de pedra, que desde a cidade velha sobre me direção à colina através de bosques, olivais e com o mar embaixo que de repente aparece, preenchendo o horizonte.



Experimenta-se uma feliz sensação caminhando entre o verde do entorno e o azul do mar que parece tocá-lo. Chega-se em menos de uma hora, com as montanhas do Taígeto às costas, à frente uma extensão de água que confunde as suas cores com o céu; abaixo, a aldeia de Kardamili.



Nessa paisagem serena e encantada onde chega apenas o som dos sininhos do gado no pasto, aí repousa Bruce Chatwin. Fiel a determinadas ideias e propostas suas, nada que testemunhe sua presença, nem uma cruz, nem, à maneira oriental, uma pilha de pedras. Resta, para quem chega lá, apenas o eco dos passos dados ou a força da memória e das associações: é o que serve para caminhar. 

Leia: Caminhar: uma revolução. Adriano Labbucci. Martins Fontes, 2013.

domingo, 30 de abril de 2017

Cadernos de viagem: a arte da descoberta e da aventura

                                                             .
Em um recente artigo publicado no periódico El País, em que o autor discute o impacto do turismo de massa sobre a produção de literatura de viagem, havia algumas indicações de literatura odepórica muito relevantes, sendo que uma delas fez meus olhos brilharem: Explorer’s Sketchbooks: the Art of Discovery & Adeventury.

Tenho uma caixa de arquivo com uma dezena de sketchbooks, que são aqueles pequenos caderninhos de rascunhos, objetos simpáticos que usamos quando queremos ditar um ritmo mais contemplativo ao ofício da escrita, em contraste com os sempre impessoais aparelhos eletrônicos, necessários e tediosos na mesma proporção.



Esses cadernos de anotações também são muito usados para esboços de desenhos e pinturas. Eu que não consigo desenhar um ovo, sempre morri de inveja dos solitários desenhistas de museus, aqueles que vivem alheios à multidão, num cantinho da sala, tentando capturar detalhes de uma tela, as mãos e os pés de uma dama renascentista, a fruta de uma natureza morta, o sorriso pétreo de uma criança esculpida em mármore... tão poética a cena quanto o resultado que vai aparecendo no contato do grafite com o papel.



Uma das coisas que me fascinam quando leio sobre a vida dos grandes escritores e viajantes, é que todos eles carregavam esses cadernos de notas e não há como não se entusiasmar quando se tem a oportunidade de admirar o conteúdo desses pequenos objetos de prazer. Não é exagero meu: o Huw Lewis-Jones e a Kari Herbert também pensam assim, tanto que pesquisaram bastante e publicaram uma obra de encher os olhos: trezentas páginas, setenta exploradores/as e mais de uma centena de pinturas, bosquejos e páginas de diários de viagem que fazem a alegria de qualquer apaixonado pelo tema.



Livro gostoso de folhear, daqueles que abrimos aleatoriamente, pulando páginas, namorando ilustrações, escaneando frases com o olhar, um ato de prazer. Corri os olhos pelo índice em busca de um nome e ele estava lá: Bruce Chatwin, de quem já falamos aqui no blog, escritor e aventureiro que muito admiro e quem praticamente tornou os moleskines um objeto de desejo. O Bruce fazia estoque desses caderninhos e me recordo que foi depois que li O Rastro dos Cantos que soube da existência deles. Fui conferir, meu exemplar todo grifado na página 223:





“Na França, esse tipo de caderno é conhecido como carnet moleskine: sendo moleskine, neste caso, a tela preta que cobria a encadernação. Cada vez que ia a Paris, comprava uma nova leva (...) As páginas eram quadriculadas, e a capa e a contracapa eram mantidas fechadas por meio de um elástico. Eu os tinha numerados em série. Escrevia meu nome e endereço na folha de rosto, oferecendo uma recompensa a quem o achasse. Perder um passaporte era a menor das preocupações; perder um caderno de anotações era uma catástrofe”.




Concordo com o Chatwin: alguns desses moleskines, hoje, valeriam alguns milhares de dólares. Para além da importância literária e documental dessas cadernetas, há a questão do fetiche; ter em mãos um manuscrito de um autor admirado é estar o mais próximo possível de sua essência, talvez o mesmo sentimento de um religioso ao tocar as relíquias de um santo de devoção. Para muitos leitores e escritores, tal afirmação não é um exagero.

Voltemos à obra, página 86, Bruce Chatwin:




“Os cadernos de capa negra que Chatwin regularmente comprava em Paris tornaram-se lendários hoje. Eles são preenchidos com breves apontamentos, rascunhos de parágrafos, linhas de poesia, descrições fugazes de pessoas, encontros fortuitos, e são difíceis de decifrar. Quando ele saía para uma jornada, frequentemente pegava qualquer caderneta que estivesse à mão; não é incomum um único moleskine incluir trechos de muitas jornadas: América do Sul, Austrália, Rússia, África – tudo junto, e ele raramente datava suas entradas. (...) Chatwin sempre disse que havia se tornado um escritor ‘para justificar sua própria inquietação’.”

Volto algumas páginas e encontro Franz Boas, nome que conheci numa aula de antropologia e a quem devo algumas boas inspirações em meu projeto de mestrado. Boas foi agraciado com uma vida longa e próspera, e Gilberto Freyre foi seu aluno na Universidade de Columbia nos anos 1920.



Franz Boas foi também um bom viajante. Entre 1883 e 1884, aos vinte e cinco anos, foi viver com os esquimós na Colúmbia Britânica, viagem que foi determinante em sua carreira na antropologia:

“Boas chegou no final de agosto de 1883 e estabeleceu sua base numa estação  escocesa de caça às baleias na ilha de Kekerten. Dali, fez extensas viagens com os Inuit, de trenó puxado por cães e de barco, mapeando a costa e registrando os locais com os nomes indígenas. Essa imersão na cultura Inuit durou um ano. Ele vestiu as roupas dos esquimós, comeu de sua comida e viveu em casas de gelo; aprendeu sua língua e seus modos de fazer as coisas, e ouviu atentamente as suas histórias, crenças e lendas.”



“Ao deixar a região gelada, Boas concluiu que se fazia necessária uma abordagem antropológica totalmente nova. Ele viria a se tornar uma figura distinta e muito influenciadora em seu meio, pioneiro no ‘campo das quatro abordagens’ – uma disciplina de metodologia combinando arqueologia, linguística, antropologia física e antropologia cultural – ao mesmo tempo defendendo os valores da pesquisa exaustiva, do trabalho de campo e do conhecimento folclórico.”

Franz Boas foi um ardente opositor ao racismo e ao fascismo e por sua abordagem holística no estudo do comportamento humano, ficou conhecido como o pai da antropologia moderna. Nos tempos livres, enquanto se encontrava preso no barco, esperando o gelo derreter para poder navegar adiante, gostava de desenhar icebergs e mapas dos territórios mapeados:



Outra figura fascinante documentada na obra de Lewis-Jones e Kari Herbert é Freya Stark. Sua vida foi literalmente uma grande aventura e é inacreditável que não tenhamos uma obra de sua vasta produção literária publicada no Brasil.



Nascida em Paris, Freya Stark passou grande parte da infância no norte da Itália. Criança doente, sua válvula de escape era a leitura das Mil e Uma Noites. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela se voluntariou como enfermeira no front italiano e se virou como contrabandista para poder pagar suas despesas.

A todo o momento o Oriente lhe chamava. Ao chegar a Beirute em 1927, em sua primeira viagem pelo deserto, ela já conseguia conversar em árabe e estava aprendendo o persa. Devia aprontar muito em suas deambulações e dizem que foi uma mulher divertida, com um senso de humor peculiar, também presente em suas narrativas de viagem. Dizia que acordar sozinha em uma cidade estranha era uma das sensações mais prazerosas do mundo, um chamado à aventura.




Conheceu líderes de rebeliões, foi presa pelas autoridades francesas por suspeita de espionagem, mas jogou um charme e conseguiu se livrar da cadeia, antes de se aventurar pelo interior do Líbano e da Síria, onde nenhum ocidental havia ido antes dela. Atravessou o desfiladeiro de Chala, no Afeganistão e seguiu o rio Alamut através do Iran, corrigindo mapas já existentes da região por onde passava, enquanto sobrevivia à malária, dengue, disenteria e sarampo.

Nas selvas de Lamiasar ela descobriu a fortaleza da famosa seita ismaelita da Ordem dos Assassinos, escalando a escarpa de meias porque o caminho era muito escorregadio para seus calçados. Seus mapas precisos e a narrativa de sua viagem renderam-lhe medalhas da Royal Geographical Society e da Royal Asiatic Society.




Freya escrevia sobre suas andanças nas cartas que enviava à sua mãe e ao seu editor, escritas sob a sombra de árvores e de ruínas, em viagens que duraram décadas e renderam mais de vinte livros, muitos dos quais hoje considerados clássicos da literatura odepórica. Excêntrica, sem rodeios e segura de si, Freya foi uma mulher à frente de seu tempo.




Depois da Segunda Guerra, visitou a Ásia Central, o Afeganistão, a China e os Himalaias; aos 60 anos ela retraçou a rota de Alexandre, o Grande, percorrendo o sul da Turquia; aos 80, desceu o Eufrates de jangada. Continuou a viajar até os 92 anos. Faleceu em sua casa, na Itália, aos cem anos de idade. Em seu tributo, os jornais italianos nomearam-na rainha nômade; na Bretanha, o escritor Lawrence Durrell declarou que ela foi a “poeta da viagem”, uma das mulheres mais memoráveis de nosso tempo. Entretanto, Freya se enxergava em termos mais modestos: “vejo-me uma peregrina, mera residente temporária nesse mundo”. Palmas prá ela.


Cada um destes três personagens citados acima, tão diferentes entre si, assim como os outros sessenta e sete retratados, têm em comum o fato de que, em um determinado estágio de suas vidas, tiveram que assumir riscos. O texto introdutório, escrito a quatro mãos pelos autores, foi escrito com maestria e traz muitas passagens dignas de reflexão; costuram suas palavras colhendo notas peculiares dos exploradores que aparecerão nas páginas adiante.



Tudo, afinal, se entrelaça, porque a vida sempre foi e sempre será uma aventura, cada qual com sua jornada cheia de surpresas. Muitos morreram na estrada, muitos sucumbiram à jornada, mas, lembram os autores, o maior risco sempre será o de não sair de casa. Em outras palavras, não ouvir o chamado à aventura.



“A justificativa de Ernest Shackleton para sua vida instável, era simples: ‘Eu escolhi a vida acima da morte para mim e para meus amigos. Creio que está em nossa natureza explorar, lançar-se ao desconhecido. A única falha verdadeira seria não buscar, não explorar.’ E para muitos, mais do que ser um registro do desespero ou de angústia, escrever em um caderno de  notas era um momento de pura alegria: uma chance de descrever a beleza vista ou rascunhar algo memorável, como tirar uma fotografia, uma imagem para a posteridade,  uma descoberta para ser visualizada e compartilhada.”




O ponto alto dessa obra eclética talvez esteja no fato de que nem todos os viajantes são pessoas conhecidas ou famosas; alguns nunca foram publicados e nesse compêndio encontraremos exploradores pioneiros, topógrafos, botânicos, artistas, caçadores de plantas, ecologistas, antropólogos, escritores, visionários, mulheres e homens curiosos em enxergar e registrar o que poderia existir além do horizonte.



A riqueza desses registros nos cadernos de viagem é imensurável: há notas sobre a chegada ao cume do Monte Everest, a primeira visão do Polo Sul, os primeiros relatos das Cataratas de Vitória, do coração dos grandes desertos e do interior da tumba de Tutankhamun. Também veremos os primeiros desenhos dos icebergs, de borboletas e insetos raros, monumentos sagrados e de antigas inscrições, e das primeiras representações dos nativos americanos, caçadores esquimós e reis africanos.



Como dizem os autores, o processo de criação dessa obra foi em si uma exploração, uma caça ao tesouro. Quanto mais avançamos na leitura, mais desejamos cair na estrada, sair de casa, não importando a distância, mas sim a mudança do olhar, porque a aventura pode estar logo ali no próximo quarteirão. Temos que voltar a seguir nossos instintos, nossos impulsos, para conseguir ouvir o chamado.



“Na próxima vez que você programar uma viagem, leve um pequeno bloco de notas junto com seus equipamentos eletrônicos na mochila, ou melhor ainda, deixe esses aparatos em casa. Preencha as páginas  dos seus cadernos com aventuras e experiências. Siga a sua curiosidade. E apenas certifique-se de voltar para casa e compartilhar a sua história.”

Leia: Explorers´Sketchbooks: The Art of Discovery & Adventure. Huw Lewis-Jones and Kari Herbert. Chronicle Books, 2017.

domingo, 22 de setembro de 2013

O que faço eu aqui? by Bruce Chatwin

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Todo viajante em algum momento da vida, entre chegadas e partidas, um dia se pergunta: O que estou fazendo aqui? Bruce Chatwin, que é um dos grandes da literatura odepórica, tem um livro que leva como título essa indagação: What am I doing here?

Relendo essa obra de Chatwin, um apanhado de artigos publicados em jornais e revistas, percebo como sua escrita era especial; sua prosa e suas narrativas de viagem, que se mesclam indiscriminadamente a ponto de não sabermos quando se trata de ficção ou realidade é uma de suas marcas registradas e ao mesmo tempo uma atitude que o desqualifica perante alguns críticos de sua obra – discussão que já vimos aqui no blog em outro post sobre o autor.


O que temos de bom nessa obra póstuma de quatrocentas páginas do incansável trotamundos Bruce Chatwin? Bom, são muitas páginas e nem tudo é assim tão interessante quanto os momentos em que vemos Chatwin em movimento, coisa que ele soube fazer muito bem, graças a seu perspicaz olhar de viajante e sua rica bagagem cultural.

São onze capítulos e todos eles tratam basicamente das seguintes questões: das amizades, dos encontros, das pessoas, dos lugares e, claro, das viagens; tudo se conecta, afinal que sentido teriam as viagens sem os encontros, as gentes, os lugares e suas geografias? Era exatamente isso o que Chatwin explorava em seus deslocamentos e o que me faz gostar muito de suas obras é o fato dele priorizar o encontro com o outro.


Quando penso sobre isso, a importância dos relacionamentos interpessoais, recordo os textos de Martin Buber, brilhante filósofo austríaco de ascendência judaica conhecido como o “profeta da relação”, para quem o ser humano só é capaz de se realizar na relação com o outro, afirmação esta muito simplificada de um complexo e fascinante estudo sobre a alteridade.


Em sua filosofia da Relação, Buber amplia o conceito de relação que ultrapassa a simples ideia de relacionamento entre os seres humanos, uma vez que Deus também participa do Encontro; para o pensador, o mundo da relação se realiza em três esferas: a vida com a natureza, a vida com os homens e a vida com os espíritos. Essa filosofia encontra ecos nas palavras do sábio hindu, Swami Vivekananda, que diz que “a verdadeira forma de se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens”.


Não tenho a intenção de direcionar meus pensamentos sob um ponto de vista filosófico/espiritual, mas recorro vez ou outra a essas questões por perceber que o estudo das viagens, tanto as nossas quanto as dos outros, pode servir como um instrumento de autoconhecimento. Alguém escreveu um dia - não sei quem, nem onde, e nem quando porque anotei as palavras em um pedaço solto de papel – que a maneira como Buber encara a existência revela-se útil para considerar o modo como encaramos as viagens e o que enfatizamos nela. 

Daí o gancho para a pergunta: o que você enfatiza em suas viagens? Lugares, paisagens, pessoas, compras, diversão, sexo? Pode ser que seja, ao fim e ao cabo, uma soma de tudo isso, mas a verdade é que a balança sempre vai pender para um dos lados e em assim sendo, alguma coisa vai ter um peso maior, justamente aquilo que você enfatiza mais. O ponto aonde quero chegar é precisamente este: o modo como você viaja revela quem você é.


É um exercício interessante, por exemplo, o de decifrar a personalidade de um autor que discorre sobre suas aventuras em alguma narrativa de viagem; para mim os mais sonolentos são os ególatras, para os quais não existe o mundo para além da primeira pessoa: eu, eu e eu; pior que estes são aqueles que viajam e criticam o tempo todo a cultura alheia, comparando-a sempre que possível com a de seu país de origem, coisa que PaulBowles gostava de botar em seus romances: turistas arrogantes disfarçados de viajantes mais nojentos do que latrina entupida de banheiro de rodoviária. Desses há um montão por aí.

Gosto mesmo dos que viajam e não perdem o bom humor nem nas piores situações e em geral são aqueles que a gente escolheria para sentar numa mesa de bar e tomar umas e outras sem pressa de partir, como o Bill Bryson, tomando como exemplo sua deliciosa narrativa em Uma caminhada na floresta. Não são a maioria os desse tipo, pelo menos não dentro do contexto literário odepórico, em geral marcado por autores masculinos (mulheres que viajam não escrevem?) e sérios, no sentido menos interessante do termo. 


Bruce Chatwin, além do fato de escrever muito bem, possuía uma abertura em relação ao outro que nem todo escritor viajante consegue demonstrar. Por que não? Porque a relação é reciprocidade, como diz o Martin Buber, “meu TU atua sobre mim assim como eu atuo sobre ele”. Em outras palavras: no pensamento buberiano, o homem é um ser de relação – que acontece somente no encontro com o outro.

Essas divagações, que me perdoe o leitor/a se estou sendo fastidioso, surgiram ao reler, como disse lá no comecinho deste texto, a edição lusitana de O que faço eu aqui?. Tudo porque, dentre todos os capítulos, os que mais me cativaram foram os intitulados Encontros, Gente e Viajar, títulos estes que fazem link direto com o pensamento de Martin Buber, sobretudo os dois primeiros.

Dos encontros narrados pelo Chatwin, o mais instigante foi o que ele teve com o cineasta Werner Herzog no Gana, na África Ocidental, em janeiro de 1971. Diz o autor que chegou a voltar àquele país sete anos depois e essas duas investidas foram suficientes para organizar o material que mais tarde serviria de cenário para seu romance O Vice-Rei de Uidá (1980).


Diz o autor que se a história desse romance pudesse ser transformada em filme, somente o Werner Herzog poderia filmá-la. O Herzog, se o leitor/a não o conhece, é um diretor de cinema alemão muito, digamos, “audacioso”, para não dizer maluco mesmo. É dele a produção insana de Fitzcarraldo, filmado na floresta amazonense, cuja história (real) é tão fantástica quanto os bastidores da filmagem. Se você não assistiu, deveria.

Eis que três anos depois da publicação de Vice-Rei, numa viagem à Austrália, os dois acabam se encontrando. É interessante demais o modo como seus destinos se cruzaram, mas vou pular essa parte porque a história é longa. Vou transcrever alguns parágrafos nos quais o Bruce Chatwin fala sobre o Werner Herzog e onde ele cita uma obra literária do diretor alemão:


"(...) Werner era um compêndio de contradições: duro mas vulnerável, afetuoso e distante, austero e sensual, mal adaptado às tensões da vida quotidiana mas eficaz sob condições de pressão.

Era também a única pessoa com quem podia conversar de igual para igual sobre o que eu chamaria o aspecto sacramental da marcha. Partilhávamos a crença de que o andar não é uma simples terapia, mas uma atividade poética capaz de curar o mundo dos seus males, Herzog resume o que pensa do assunto com uma afirmação definitiva: “Andar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Um bom exemplo desta filosofia é a sua peregrinação, todos os invernos, para ver Lotte Eisner.


Lotte Eisner, crítica cinematográfica e colaboradora de Fritz Lang em Berlim, emigrou em princípios dos anos trinta para Paris, onde ajudou a fundar a Cinémathèque. Muito mais tarde, escreveu para Lang, que viveu na Califórnia, depois de ter visto o filme de Werner Sinais de Vida: “Vi a obra de um maravilhoso realizador alemão”. Lang respondeu: “Não. É impossível”.

Lotte tornou-se, em breve, o guia espiritual do novo cinema alemão, proporcionando aos jovens realizadores o benefício da sua enorme experiência e, como era judia, ajudou a restabelecer uma continuidade com a grande tradição cinematográfica destruída por Hitler.

Disseram-me que Werner era seu favorito. Em 1947, ao saber que ela estava a morrer, Werner pôs-se a caminho a pé, de Munique a Paris, convencido de que daquela maneira a poderia curar. Quando chegou ao apartamento de Lotte, ela já se sentia melhor e viveu ainda uma dezena de anos."


A história dessa jornada foi publicada no Brasil pela Editora Paz e Terra, em 2005, com o título Caminhando no gelo. Tenho em mãos uma edição portuguesa (Ed. Tinta da China, 2011), da qual transcrevo uma sucinta amostra:


“No final de Novembro de 1974, um amigo ligou-me de Paris a dizer-me que Lotte Eisner estava gravemente doente e que provavelmente morreria. Eu disse que não podia ser, não agora, o cinema alemão ainda não a podia dispensar, não podíamos permitir que ela morresse. Peguei num casaco, numa bússola e num saco de desporto contendo o estritamente necessário. As minhas botas eram novas e robustas, confiava nelas. Segui pelo caminho mais directo até Paris, com a firme convicção de que ela viveria se eu fosse ter com ela a pé. Queria, além disso, estar a sós comigo mesmo.”

Depois desse pequeno parágrafo onde Chatwin cita a obra de Herzog, ficamos sabendo enfim que Vice-Rei seria filmado pelo alemão pouco tempo depois, embora com adaptações no roteiro e com o título mudado para Cobra Verde. No elenco, o insano Klaus Kinski e as filmagens aconteceram na África e na Colômbia. Vale muito a pena acompanhar o relato da viagem que Chatwin fez com a equipe de filmagem.

No bloco dedicado às viagens, dois momentos marcantes na literatura odepórica chatwiniana: o primeiro texto, pura diversão, intitula-se Na pista do abominável homem das neves, escrito em 1983 e que começa desse jeito:


"Nesse abril, após ter passado a parte mais quente do ano no deserto central da Austrália, senti a necessidade de sair daquela região vermelha e gasta para ir desanuviar o espírito nas montanhas. Sempre tive vontade de passear nos vales do monte Everest.  Ainda me lembro de ter assistido, em garoto, a uma conferência com diapositivos dos alpinistas Hillary e Tensing e de ter ficado com uma impressão muito viva de rios gelados, pontes de bambu, florestas de rododendros, aldeias de Xerpas e iaques. Queria ver os mosteiros budistas tibetanos que ficam no lado nepalês da fronteira. Quanto ao Yeti, o abominável homem das neves, desejava explorar a nebulosa área da zoologia onde a Besta de Lineu se encontra com a Besta imaginária.

Telefonei à minha mulher e disse peremptoriamente para se encontrar comigo no Nepal.
- Não posso – disse Elizabeth com uma voz desalentada. A sua tia predileta dava uma festa em Boston para festejar os seus noventa anos de idade.
- O meu convite mantém-se – respondi. – Telefona-me se mudares de ideia.
- Já mudei."


Já no outro texto, de 1980, o tom divertido dá lugar a um saudosismo melancólico. São quatro páginas apenas de uma narrativa sobre o Afeganistão repleta de emoção e poesia. Chatwin começa escrevendo sobre os livros de viagem de Robert Byron, escritor e viajante dos anos 1930 por ele muito admirado. A obra mais conhecida de Byron, The road to Oxiana (que Chatwin chama de “texto sagrado”), um clássico da literatura odepórica moderna, trata da viagem que o autor inglês fez ao Oriente Médio.


Chatwin faz uma ode tanto ao escritor quanto à sua obra magna sobre a viagem ao Afeganistão. Evidentemente, um dia nosso trotamundos se viu obrigado a visitar o país (no ano de 1962) no centro asiático e suas impressões foram mágicas, à parte os diversos acidentes de percurso pelo território afegão:

“(...) um soldado atirou uma picareta contra o carro; o nosso caminhão escorregou,. Com doce resignação, por uma ribanceira abaixo (mal tivemos tempo para saltar); fomos chicoteados por termos entrado numa zona militar; apanhamos disenteria, septicemia; houve também aquela vez em que fomos atacados por vespas e por pulgas – mas felizmente não apanhamos hepatite.”

A parte bonita da viagem que Chatwin fez ao Afeganistão fica para o finalzinho da narrativa, onde se percebe todo o saudosismo de uma viagem quase perdida no tempo, de um lugar do mundo que hoje, após tantos conflitos militares/religiosos, nem o próprio autor seria capaz de reconhecer, consequências trágicas em que todos saímos perdendo (escrevo isso tendo em mente a triste lembrança do regime Talibã destruindo as imagens dos budas gigantes de Bamiyan).


“Não mais nos deitaremos no chão, no Castelo Vermelho, para contemplar os abutres a sobrevoar o vale onde o neto de Gengis Khan foi encontrado. Não mais leremos as memórias de Babur no seu jardim em Istalif e veremos o velho cego a farejar o caminho entre as roseiras. Ou nos sentaremos na Paz do Islão com os pedintes de Gazr Gagh.”

“Nunca mais subiremos à cabeça do Buda, em Bamiyan, todo direto no seu nicho como uma baleia em doca-seca. Não dormiremos na tenda do nômade ou escalaremos o Minarete de Jam. E perderemos o gosto do pão quente amargo e rude, do chá verde perfumado de cardamomos, das uvas refrescadas na neve e das nozes e amoras secas que mastigávamos contra as doenças de altitude. Nem reaveremos o cheiro dos campos de feijão, o cheiro doce e resinoso da madeira de cedro a arder, nem o bafo do leopardo-das-neves a cinco mil metros de altitude.”

Leia:
O que faço eu aqui? Bruce Chatwin. Quetzal Editores. Lisboa, 2009.