Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Paisagens do Brasil: O Pampa, by José de Alencar

.




Viajar é um dos maiores prazeres da vida, poucos hão de discordar. Ler uma obra bem escrita é tão ou mais prazeroso do que perder-se planeta afora, afinal a leitura nos conecta com o mundo - real e imaginário - e muitas vezes viajamos mais e melhor quando lemos do que quando pomos o pé na estrada. Claro que uma coisa não exclui a outra- e o ideal, sempre que possível e a vida permitir, seria unir as duas atividades. 

Impedido de viajar nas férias, decidi aproveitar o tempo livre para viajar em casa, lendo obras esquecidas no fundo da estante, folheando, anotando, separando algumas para ler com mais atenção assim que terminar as leituras em andamento.

Mantenho o hábito de anotar passagens em romances onde o autor descreve paisagens, lugares e pessoas de maneira peculiar. Tenho a impressão de que na literatura mais recente faltam escritores que consigam se expressar de uma forma mais poética, escolhendo as palavras certas, tratando a língua com carinho, como era comum em autores de tempos atrás. É muito gratificante ter em mãos um texto onde se percebe que o autor se exercitou ao máximo para conseguir transferir para o papel a beleza capturada pelo olhar.  


No texto que você lerá a seguir, escrito em 1870, o mestre de estilo primoroso, José de Alencar, descreve a paisagem do pampa brasileiro de forma tão bela que às vezes temos a impressão de estarmos lendo não um romance, mas um poema acerca das belezas do nosso país. Finda a leitura, parece que fomos transportados para o sul, e difícil será não ter vontade de programar, para um futuro próximo, uma viagem ao bioma pampa levando na bagagem essa bela obra de José de Alencar.

O Pampa

Como são melancólicas e solenes, ao pino do sol, as vastas campinas que cingem as margens do Uruguay e seus afluentes! A savana se desfralda a perder de vista, ondulando pelas sangas e cochilhas, que figuram as flutuações das vagas nesse verde oceano.

Mais profunda parece aqui a solidão e mais pavorosa do que na imensidade dos mares. É o mesmo ermo, porém selado pela imobilidade, e como que estupefato ante a majestade do firmamento.



Raro corta o espaço cheio de luz um pássaro erradio, demandando a sombra, longe na restinga do mato, que borda as orlas de algum arroio. A trecho passa o poldro bravio, desgarrado do magote; ei-lo que se vai retouçando alegremente babujar a grama do próximo banhado.

No seio das ondas o nauta sente-se isolado: é o átomo envolto numa dobra do infinito. A ambula imensa tem só duas faces convexas: - o mar e o céu.

Mas em ambas a cena é vivaz e palpitante. As ondas se agitam em constante flutuação: têm uma voz, murmuram. No firmamento as nuvens cambiam a cada instante ao sopro do vento: há nelas uma fisionomia, um gesto.



A tela oceânica, sempre majestosa e esplêndida, ressumbra possante vitalidade. O mesmo pego, insondável abismo, exubera de força criadora: miríades de animais o povoam, que surgem à flor d’água. O pampa, ao contrário, é o pasmo, o torpor da natureza.

O viandante, perdido na imensa planície, fica mais que isolado, fica opresso. Em torno dele faz-se o vácuo: súbita paralisia invade o espaço, que pesa sobre o homem como lívida mortalha.



Lavor de jaspe, embutido na lâmina azul do céu – é a nuvem. O chão semelha a vasta lápide musgosa de extenso pavimento. Por toda a parte a imutabilidade. Nem um bafo, para que a natureza palpite; nem um rumor que simule o balbuciar do deserto.

Pasmosa inanição da vida no seio de um aluvio de luz! O pampa é a pátria do tufão. Ali, nas estepes nuas, impera o rei dos ventos. Para a fúria dos elementos inventou o Criador as rijezas cadavéricas da natureza. Diante da vaga impetuosa colocou o rochedo; como leito do furacão estendeu pela terra as infindas savanas da América e os ardentes areais da África.




Arroja-se o furacão pelas vastas planícies; espoja-se nelas como o potro indômito; convolve a terra e o céu em espesso turbilhão; afinal a natureza entra em repouso; serena a tempestade; queda-se o deserto, como dantes, plácido e inalterável. É a mesma a face impassível; não há ali sorriso, nem ruga. Passou a borrasca, mas não ficaram vestígios. A savana permanece como foi ontem, como há de ser amanhã, até o dia em que o verme homem corroer essa crosta secular do deserto.



Ao pôr do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes sombras, que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se lentamente pelo campo fora. É então que se assenta perfeitamente na imensa planície o nome castelhano. A savana figura realmente um vasto lençol desfraldado por sobre a terra e velando a virgem natureza americana.



Esta fisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos, mas logo após ressumbra tão funda tristeza, que estringe a alma. Parece que o vasto e imenso orbe cerra-se e vai minguando a ponto de espremer o coração.

Cada região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho da originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma assim uma família a grande sociedade universal.



Quantos seres habitam as estepes americanas, sejam homem, animal ou planta, inspiram nelas uma alma pampa. Tem grandes virtudes esta alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indígenas da savana. No seio desta profunda solidão onde não há guarida para defesa, nem sombra para abrigo, é preciso afrontar o deserto com intrepidez, sofrer as privações com paciência e suprimir a distância pela velocidade.

Até a árvore solitária que se ergue no seio dos pampas é tipo destas virtudes. Seu aspecto tem o quer que seja de arrojado e destemido; naquele tronco derreado, naqueles galhos convulsos, na folhagem desgrenhada, há uma atitude atlética. Logo se conhece que a árvore já lutou com o pampeiro e o venceu. Uma terra seca e poucos orvalhos bastam à sua nutrição. A árvore é sóbria e afeita às inclemências do sol abrasador.



Veio de longe a semente, trouxe-a o tufão nas asas e atirou-a ali, onde medrou. É uma planta emigrante. Como a árvore são a ema, o touro, o corcel, todos os filhos bravios da savana. Nenhum ente, porém, inspira mais energicamente a alma pampa do que o homem, - o gaúcho.

De cada ser que povoa o deserto, toma ele o melhor: tem a velocidade da ema ou da corsa, os brios do corcel e a veemência do touro,



O coração, fê-lo a natureza franco e descortinado como a vasta cochilha; a paixão que o agita lembra os ímpetos do furacão: o mesmo bramido, a mesma pujança. A esse turbilhão de sentimentos, era indispensável uma amplitude de coração imensa como a savana.

Tal é o pampa.

Esse texto é um excerto da obra Anthologia Brasileira- collectanea em prosa e verso dos escriptores nacionaes. Eugenio Werneck. Editora Francisco Alves, 1918.


Leia: O Gaúcho. José de Alencar. Martin Claret, 2a ed. 2013

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tarde sertaneja, by Visconde de Taunay

.

Tarefa difícil, para quem tem paixão pelos livros, é ter que abrir espaço em estantes e prateleiras para que novas obras que chegam ocupem o lugar das que devem partir. Nessas horas, parece que não usamos muito a razão e o que determina essa “escolha de Sofia” livresca é mesmo o apego emocional à coleção.

Há certamente os livros que jamais sairão da nossa biblioteca particular, os nossos amores eternos, os que nos acompanham desde a primeira leitura e mesmo que jamais relidos, ficam ali, fazendo-nos felizes pelo simples fato de existirem e estarem pertinho de nós; há os clássicos, evidentemente, que também não podem ser assim descartados por qualquer best-seller da moda, mesmo que você goste mais do Dan Brown do que do Proust. Por isso aprendi a ser prático: livros da moda ou tomo emprestado ou nem leio. Se sair o filme então, melhor ainda, resolvo tudo em duas horas e pronto. Gastar meu tempo de leitura, por hora, só com o que vale a pena.


Há obras que mantenho por questão intelectual, a maioria delas literatura acadêmica, mais voltadas para o estudo e há as que guardo por questão estética mesmo: o texto é ruim, mas as gravuras ou as ilustrações são de primeira, sendo assim, ficam na estante - para os chiques, na mesinha de centro fazendo pose.

Não vão embora nunca as que fazem parte de coleções temáticas: minhas obras de Literatura Odepórica, do Ciclo Arturiano, dos autores beats, coleção cervantina, todas as de poesia, de autores e temas relacionados às Minas Gerais, e as que separo por autores/as queridos/as, que nem vou citar porque poucos não são.

Como se vê, na hora de descartar, não sobra muita coisa, mas ainda assim juntei duas caixas para doação e uma sacolinha com bons títulos que darei à Miss Cely Blues, jornalista araraquarense que ama os livros como ninguém nessa terra. Tô te esperando em Sampa, Cé!


E nesse “vai ou fica” de hoje, salvei de última hora, da caixa dos rejeitados, uma obra misteriosa: sem título, sem autor, sem nota alguma que possa identificá-la, encadernada naquele bonito tom de verde musgo antigo, páginas internas em sépia e com ortografia que remete às primeiras décadas do século passado. Trata-se de uma coletânea, em cuja página inicial destaca-se o título Primeira Parte: Prosa; quatrocentas e cinquenta e tantas páginas adiante, outro título: Segunda Parte: Poesia.


Foi um anjo quem me fez retirar da caixa esse livro; iria perder um pequeno tesouro, que só fui notar ao folhear mais atentamente a obra: um compêndio de todos os mais importantes autores da literatura brasileira do século XIX com notas biográficas e excertos breves de suas principais obras. Como acredito que nada ocorre por acaso, abri o livro na página 37 e encontrei uma pequena joia intitulada Tarde Sertaneja, uma passagem da obra Inocência, do Visconde de Taunay que tem tudo a ver com o universo das viagens.


O Visconde, nascido Alfredo d’Escragnolle Taunay, foi oficial do exército, professor, político, romancista, historiador e compositor musical. A nota primordial, a face principal de sua obra é o seu brasileirismo, não só na escolha dos assuntos e nas descrições e paisagens que pintou, como até na linguagem e na maneira de escrever: caracteristicamente brasileiro no sentimento e na expressão. Tudo indica, numa pesquisa rápida pela web, que o Taunay foi um homem muito bacana e digno.

Você lerá a seguir uma breve passagem de sua obra mais conhecida, Inocência, onde o autor descreve um fim de tarde no sertão, presenciado por um viajante que cruza aquelas áridas terras montado em um cavalo, aventura que o próprio visconde deve ter vivenciado em suas viagens pelo Brasil. No final do post, deixo um link para quem tiver interesse em ler uma narrativa de viagem, na íntegra, do Visconde de Taunay. Até a próxima!
Tarde Sertaneja


Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não criam mais os buritis; gemem, e convulsivamente agitam as flabeladas palmas. É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d’água; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para outro e corre afinal a buscar o animal, que de pronto encilha e cavalga.


Uma vez montado, lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espírito, por aqueles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.

Quanta melancolia baixa à terra com o cair da tarde!


Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Enegrece o solo; formam os matagais sombrios maciços, e ao longe se desdobra tênue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.


É a hora em que se aperta de inexplicável receio o coração. Qualquer ruído nos causa sobressalto; ora, o grito aflito do zabelê nas matas, ora as plangentes notas do bacurau a cruzar os ares. Frequente é também amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.


Quem viaja atento às impressões íntimas, estremece malgrado seu ao ouvir, nesse momento de saudades, o tanger de um sino muito, muito ao longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossível. São insetos ocultos na macega, que trazem essa ilusão, por tal modo viva e perfeita, que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos fora a doudejar e a criar mil fantasias.
Para baixar a obra Cenas de viagem de Visconde de Taunay, clic aqui! 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Brazil 9000

.

Começo o ano indicando aos leitores/as do Odepórica um site muito legal: brazil900.com. Descobri sua existência ao ler um artigo sobre dois aventureiros norte-americanos, na revista Go Outside  de dezembro/2012.

Os dois malucos, Gareth Jones e Aaron Chervenak pretendem percorrer os 9000 km que separam o ponto mais ao norte do país, Monte Caburaí (não, não é mais o Oiapoque) na divisa com a Guiana, e o Chuí, ponto mais ao sul do Brasil. Nada de carro, nem moto, nem nada motorizado; o lance é queimar muita sola de sapato, pedalar bastante e remar canoa quando der. Uma aventura incrível, que começou no mês de setembro e terminará quando El de Arriba permitir.


A aventura é dividida em 3 grandes, enormes trajetos: o primeiro do Monte Caburaí a Belém (de canoa), 2.500km; o segundo vai de Belém ao Rio de Janeiro – a pé; e o terceiro trajeto vai do Rio ao Chuí, na fronteira com o Uruguai, 2000km pedalados em bicicleta. 


Nem vou escrever mais nada, está tudo lá no blog dos rapazes, fotos, vídeos e o diário atualizado dos perrengues da dupla, que não são poucos, como é possível prever nesse tipo de aventura. Boa viagem e Namastê!

Para ir direto ao site, clique no link abaixo.

brazil9000.com




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Brasil no olhar dos viajantes - documentário TV Senado

.

Repasso aqui o release de um programa que tem tudo a ver com a temática do Odepórica.




O BRASIL VISTO POR ELES

No dia 22 de dezembro, a TV Senado estreia o primeiro episódio da série Brasil no olhar dos viajantes, um documentário sobre os relatos das primeiras viagens feitas ao país e a influência que eles tiveram na construção da nossa imagem perante o mundo e entre os próprios brasileiros. No momento em que vários países voltam o olhar para o Brasil, seja por sua atuação no cenário econômico, seja pela preparação dos eventos grandiosos que estão por vir, Brasil no olhar dos viajantes retoma a questão da identidade nacional a partir dos relatos daqueles que primeiro tentaram decifrar este país.

O primeiro documentário percorre o período compreendido entre os séculos XVI e XVIII. Apesar da restrição imposta por Portugal para a vinda de outros navegantes europeus após o descobrimento, franceses e holandeses, em suas tentativas de colonização no território brasileiro, bem como os ingleses e alguns aventureiros, entre eles o alemão Hans Staden, deixaram registros de sua passagem por estas terras.

Pelos relatos de viagem, é possível entender a atmosfera criada pela descoberta do Novo Mundo. Navegadores, aventureiros, comerciantes e religiosos enfrentaram todo tipo de percalço e cruzaram o Atlântico em busca do “paraíso terrestre”. Lançaram-se mar adentro meses e meses rumo às terras ainda desconhecidas e se depararam com um mundo completamente diferente de tudo o que se sabia. Um cenário composto por uma paisagem exuberante e ameaçadora, “cheia de todo gênero de feras”, e por homens que viviam “como animais irracionais”, sem nenhum traço de civilidade, como eles próprios descreviam.

Brasil no olhar dos viajantes resgata esse contexto histórico e mostra como as narrativas de viagem produzidas lá fora influenciaram de modo significativo a formação da nossa identidade. O olhar estrangeiro sobre a forma de exploração desse imenso território e de suas riquezas naturais; o entendimento da relação entre exploradores e nativos; o olhar crítico sobre os costumes dos índios, dos colonos e sobre o comportamento lascivo das mulheres dos trópicos podem ser lidos em vários textos desses viajantes. Textos que circulavam pela Europa da época e acabaram tornando-se referências para nossos intelectuais séculos depois na construção da nacionalidade brasileira.

Com a participação de historiadores, sociólogos e pesquisadores, o documentário Brasil no Olhar dos Viajantes mostra os testemunhos de homens que viram um país ainda desconhecido, primitivo e exótico tecer as bases de sua sociedade e de sua história.


Brasil no olhar dos viajantes, 2012
Estreia: dia 22 de dezembro, às 21h30
Direção: João Carlos Fontoura
Duração (episódio): 60min
Reprises: sábado, 22 – 21h30 / domingo, 23 – 12h30 / segunda, 24 – 19h00
terça, 25 – 17h00 / sábado, 29 – 14h30/ domingo, 30 – 20h30/ segunda, 31 – 23h00


Sinopse: Documentário investiga os relatos dos estrangeiros que estiveram no Brasil entre os séculos XVI e XIX e mostra como eles contribuíram para consolidar a imagem do Brasil no exterior e entre os próprios brasileiros.

Assista às chamadas no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=MdmH0j9_sgU

https://www.youtube.com/watch?v=972Zw12pFRI

https://www.youtube.com/watch?v=abDPQIKrbic&list=UULgti7NuK0RuW9wty-fxPjQ&index=1




COMO SINTONIZAR A TV SENADO:

Canais: 07 NET, 118 SKY, 183 TVA, 903 Oi e 121 Via Embratel.
Em operação: Brasília Canal 51 UHF (Geradora da Rede) e 50.1 digital UHF; Gama (DF) Canal 36 UHF; São Paulo (SP) Canal 61.3 digital UHF; Salvador (BA) Canal 53 UHF; João Pessoa (PB) Canal 40 UHF; Recife (PE) Canal 55 UHF; Manaus (AM) Canal 57 UHF; Natal (RN) Canal 52 UHF; Macau (RN) TV Litorânea - canal 22- emissora de TV afiliada a TV Senado; Cuiabá (MT) Canal 55 UHF; Fortaleza (CE) Canal 43 UHF; Rio Branco (AC) Canal16 UHF; Rio de Janeiro (RJ) Canal 49 UHF (Zona Oeste).
Entrevistados da série

Jean Marcel Carvalho França
Professor de História do Brasil Colonial - Unesp

Sheila Moura Hue
Professora Visitante de Literatura da UERJ

Carmen Lícia Palazzo
Pesquisadora e Doutora em História pela UnB

Ronaldo Vainfas
Professor Titular de História Moderna da UFF

Evaldo Cabral de Melo
Historiador

Pedro Alvim
História da Arte

Paulo Knauss
Professor de História da UFF e Diretor-geral do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

Carlos Martins
Museólogo e pesquisador da Pinacoteca - SP

Victor Leonardi
Escritor e historiador

Dirceu Franco
Historiador do Instituto Hercule Florence

Karen Macknow Lisboa
Professora de História do Brasil da USP

Lacê Medeiros
Professor e pesquisador de Biologia da UnB.

Maria Angélica Madeira
Professora do Instituto Rio Branco e pesquisadora da UnB.

Mariza Veloso
Socióloga e professora do Instituto Rio Branco e da UnB.

sábado, 3 de novembro de 2012

Brasileza, by Patrick Corneau


.

Minhas caçadas literárias odepóricas têm rendido bons frutos. Um deles, grata surpresa: Brasileza- suítes brasileiras, deliciosa leitura que retrata de maneira muito simpática e honesta nosso povo brasileiro. O autor se chama Patrick Corneau, um professor universitário francês que andou perambulando pelas bandas de cá, imagino eu, na década passada, já que ele não informa a data, mas cita em notas de rodapé eventos desse período. Também não importa, o que interessa é que o Patrick conseguiu publicar um livro que traça um perfil surpreendentemente real daquilo que podemos chamar de ethos brasileiro – o conjunto de costumes e hábitos de um povo que acabam por conferir a ele uma identidade própria, que o diferencia de outras culturas.

E qual a melhor maneira de conhecer o caráter de um povo senão viajando e convivendo com os locais? Foi seguindo esse princípio que o professor e escritor francês Patrick Corneau, botou o mochilão às costas e se jogou pelos quatro cantos desse imenso país.


Seu livro apresenta três capítulos e confesso que não entendi bem a conexão com o termo “Suíte”- talvez tenha a ver com o significado do termo em francês (série, conexão) e que nós logo associamos ao jargão musical. Não entendi, mas achei bonito. Na Suíte Brasileira I (Aqui e Agora) é onde acontece a narrativa de viagem propriamente dita, onde conhecemos os deslocamentos do viajante francês.

O relato se costura entre cidades conhecidas, grandes capitais e depois o matão amazônico. Assim, a aventura começa por São Paulo, e passa nessa ordem pelas seguintes localidades: Rio, Parati, Salvador, Brasília, Iguaçu (com esticadinha ao Paraguai), Belo Horizonte, Ouro Preto, Fordlândia, Manaus, Belém e, finalmente, São Luiz do Maranhão.


Surpreende a qualidade das observações do Patrick sobre a cultura e os fatos históricos dos locais que ele visita; não há futilidade nem nas coisas fúteis como provar uma tigela de açaí, por exemplo; nenhum comentário surge sem que dele se aprenda alguma coisa interessante, sem que se agregue algo que nos ajude a construir pouco a pouco a imagem do povo dos trópicos formado de culturas tão diferentes e por isso mesmo tão complexo em sua própria compreensão. É possível, por conta disso, que ao estrangeiro seja mais fácil construir essa identidade brasileira, porque o olhar do outro vê coisas que nós, de tão habituados, já não mais conseguimos enxergar e, pior que isso, saibamos valorizar.

A empatia é imediata: o autor ama o Brasil e os brasileiros, e nós adoramos aqueles que nos amam e admiram, porque brasileiro de verdade tem o ego inflado que só. Mas nem vamos entrar nesse assunto, que é muito instigante mas que foge do nosso tema. Voltemos ao livro e às viagens. O Patrick deve ser muito organizado, além de inteligente e culto. Faz links interessantíssimos entre aquilo que vê e aquilo que leu e pesquisou. Leu bem, aliás; cita bons mestres que ainda hoje são referência nos estudos sobre o povo brasileiro, como Gilberto Freyre, Claude Lévi-Strauss e Sérgio Buarque de Holanda. E cita Clarice, duas vezes, porque tem bom gosto ou porque foi bem assessorado, disso não sei.


Como disse, sua viagem começa por São Paulo, cidade caótica, de trânsito indomável e à mercê da violência. A poluição e a falta de horizonte são fatores que obrigam o paulistano a buscar alternativas para sobreviver à falta de beleza e de espaço, numa cidade onde tudo acontece em direção ao céu, onde “tudo se apresenta sobre um único plano vertical como uma espécie de muro contínuo e cinzento de concreto”, observa muito bem o autor.

Diz o viajante que o que choca o olhar europeu, ao visitar São Paulo, não é a novidade, mas a precocidade das devastações do tempo. “O Novo Mundo é sempre novo, tanto que vestígios sucedem vestígios sem que o tempo traga uma valorização. Assim que um bairro é edificado às pressas – portanto mal na maioria das vezes -, o ciclo da degradação começa: as fachadas se descascam, a chuva e a poluição deixam manchas e sulcos, o estilo cai de moda, a ordem primitiva desaparece sob um novo frenesi de demolições.”


As observações e os comentários do Patrick ensinam a enxergar além das aparências, algo que se deve tentar praticar nos deslocamentos. Por exemplo, dizer que São Paulo é uma cidade feia é algo óbvio, ainda mais se no contexto houver uma comparação com outra cidade, como o Rio de Janeiro, cartão postal do país. Diz o autor que os que declaram que São Paulo é feia são vítimas de uma ilusão, uma vez que sua beleza selvagem não nasce de sua natureza urbana, e que somente a estética do caos pode nos ajudar a apreender esse monstro.

“Não, São Paulo nunca me pareceu feia, mas indomável, delirante e profética como o cenário de um filme-catástrofe e ébria de movimento, atarefada, ofegante... Finalmente, o que fascina nessa cidade, tão irritante para nossos hábitos de temperança, é essa surpreendente capacidade de fazer misturas, mestiçagens entre o primitivismo e a modernidade, ligando o que nós separamos.”


“Nessa turbulência, essa efervescência cuja razão não distinguimos claramente – uma espécie de condição natural -, mistura complexa de doçura e violência, de vida pública e de vida privada, de razão e afetividade, de individualismo e de clãs há uma ordem sutil que nos conduz necessariamente – se quisermos compreendê-la – a afinar nossa sensibilidade e nossa inteligência.”


Próxima parada: Rio de Janeiro. Mais uma vez, o óbvio, mas não há como não falar do Rio e dos cariocas sem falar da praia, a praia brasileira que “é um espetáculo terrestre luminoso, ensolarado, atmosférico, natal, (...) onde nosso corpo se esparrama, se dilata".

“Diz-se que Ipanema destronou Copacabana nos desfiles de tecidos minúsculos. Mas nada de seios de fora. Mal visto, esse gesto caracterizava outrora as escravas. (...) No ano passado, numa praia de Fortaleza, fui surpreendido pelo gesto de uma bela Lolita que, saindo da água, jogara com pudor sobre si uma saída de banho ligeiramente transparente como para esconder o esplendor de suas formas no espelho parabólico da concupiscência. Jean Baudrillard, fino observador, disse tudo: Os brasileiros (as) têm uma maneira de estar mais nus do que nós, pois eles estão nus por dentro. Nós apenas tiramos a roupa”.


Passagens interessantes sobre o Rio de Janeiro, numa delas me veio à memória velha canção dos Paralamas, aquela que diz – referindo-se à capital fluminense - “cidade que tem braços abertos num cartão postal, com os punhos fechados na vida real”, e o Rio me parece ser bem isso, realidade que se projeta país afora, com certeza, pois mudam as paisagens, os sotaques, mas o povo continua sendo o mesmo, compartilhando desde sempre as desigualdades sociais terceiromundistas.

É possível, tanto no Rio quanto em São Paulo enxergar a beleza implícita no contraste dessas desigualdades, e o jogo na verdade desse relato de viagem é esse, talvez a mensagem que o autor quis passar, a de que o Brasil continua a ser uma terra de contrastes, como sempre foi. Toque de poesia do autor:



“Rio, noite lá fora, jantar num clube chique na Urca. Beleza das favelas que se transformam em constelações de luzes multicolores, e escorrem dos morros para o mar como um diadema colocado sobre a cidade. Unidade sideral que se procuraria em vão durante o dia, emblema de inversões com as quais não se cessa de brincar aqui: é a miséria diurna que produz a maior beleza noturna, como se a injustiça social pudesse ser compensada, mesmo ‘esteticamente’.”

Em Parati o viajante encontra as portas das igrejas escancaradas...vem daí a deixa para falar de algo que me interessa particularmente, a religiosidade popular brasileira. Pela narrativa, imagino que o autor entrou naquela igreja de Parati no momento em que acontecia uma missa carismática, do tipo em que o povo se solta mais, cantando e até dançando, dependendo da maior ou menor exaltação do pároco. Se aqui já começamos a nos acostumar com a “performance” carismática, lá fora o lance ainda parece bem peculiar:



“Assistimos a uma pregação interativa: o padre interpela os fiéis, cita os Evangelhos, questiona, manda levantar a mão. Ele entoa em seguida um cântico, uma pequena orquestra o acompanha, a assembleia bate palmas e entra no embalo. O padre parece feliz com o ambiente, ele se volta para o fundo do coro e lança (em francês): ‘Então padre, você canta conosco?’. Sentado ao lado das crianças do coro, um velho padre francês balança timidamente a cabeça grisalha, com ar incomodado, embaraçado, sem dúvida por esse fervor bastante (demais) tropical. Esse catolicismo convivial explica-se em grande parte pelo caráter intimista que pode revestir no Brasil a devoção. Mais religiosidade do que religião, é um culto amável, quase fraterno, que não cabe bem no cerimonial e suprime as distâncias. Diz-se que mesmo a ponta do Vaticano, se se instalasse no Brasil, não resistiria à irreverência local e que em alguns dias o papa teria um apelido de camarada.” 


Em Salvador o viajante se pega olhando para o céu noturno em busca do Cruzeiro do Sul e a Bahia tem as noites mais lindas que alguém pode ver na vida.... isso quem diz sou eu, mas não são as estrelas do céu de Salvador que impressionam o viajante francês, senão os tambores do Olodum, os de lá do Pelourinho, “num ambiente superaquecido, apimentado pelo cheiro de suor, os rostos hesitando entre furor dionisíaco e terror místico, os dançarinos, em frente à orquestra, avançavam por ondas sucessivas, como imantados pela energia radiante das percussões”. Diz o Patrick que não é o rumor do trânsito que ritma Salvador, mas o bater incessante dos tambores que, de quando em quando e onde quer que se esteja, marca as horas. Impossível discordar dele.



Brasília, BSB, “asfalto e concreto demais, cidade matemática onde se sente que um samba não pode nascer”, escreve ele. Fiquei surpreso ao ler o que vem a seguir, uma passagem que tem muita afinidade com uma das canções mais marcantes e idolatradas da Legião Urbana, Faroeste Caboclo: “Uma cidade de faroeste, humana e suja, miserável e cheia de vida, com suas reverberações, seus ônibus, suas mães de família, trombadinhas... enfim, um repouso benfeitor para os aventureiros e para o olhar do visitante, uma cidade perfeita!”


Falar de Brasília é também falar de Niemeyer, evidentemente. Pois não há neste país cidade onde a arquitetura seja mais discutida do que na capital. Ame ou odeie (seu trabalho), Oscar Niemeyer é um gênio, mas nem por isso temos que gostar do seu estilo, de sua marca. Embora suas obras nem sempre agradem (como aquela pavorosa mão sangrenta no Memorial da América Latina, em Sampa), jamais alguém fica indiferente à presença de algum de seus inúmeros e representativos trabalhos. Tudo bem, nem Gaudí consegue agradar todo mundo sempre, então não tem problema.

E a questão é que a arquitetura brasiliense vai muito além das aparências, cheia de simbolismos que só. Curiosamente, o autor não se prende à arquitetura da capital, mas à imensidão mágica do céu do planalto central:


“Na Praça do Três Poderes, desesperado por não ter nada que se pudesse fotografar, entendo que ali estou pelo ‘amor ao céu’. Para o céu imenso de Brasília, ‘The Big Sky’ – diriam os americanos-, céu cuja doçura caída sabe-se lá de onde parece quase nos fazer esquecer a terra. Era então essa a finalidade da viagem? Seu oriente? A imensidão, simplesmente. Imantada pela visão nostálgica dessas nuvens de altitude ao mesmo tempo tão longe e tão perto, suspensas na vastidão de um céu original que parece ter sido pintado por Dalí ou Tanguy, entrevistas outrora em algum documentário e que me acenavam. O que havíamos esquecido não nos esquece. Sonhar, viajar, têm por base um sous-venir que não cessa, que persiste em sobrevir ao seio de tudo. Já que no mundo falta espaço, a dimensão é a atração dos turistas que nos tornamos. Só a Sibéria, a Antártida e o Saara podem rivalizar com a imensidão brasileira, mas o clima naqueles lugares é desastroso. É por isso que o governo brasileiro, em sua sabedoria, construiu Brasília e cravou suas florestas virgens de estradas...”

Por mais que tenha vontade de compartilhar cada passagem dessas suítes brasileiras, sinto que já escrevi mais do que deveria; já li muitos artigos e algumas obras de visitantes estrangeiros escrevendo sobre o Brasil, mas nenhum escritor me pareceu captar tão bem o ethos brasileiro quanto o Patrick Corneau.

Gostei demais de sua obra, que segue o estilo da escrita fragmentária, tipo de literatura onde “o narrador viajante desloca-se, com frequência sem transição, da nota histórica, lendária ou própria do guia do viajante para o devaneio poético, da descrição da monumentalidade ou da paisagem humana para uma micro-narrativa de enredo sentimental ou aventuroso, sempre fiel a uma estratégia da alternância, potenciando o caráter dinâmico de uma escrita fragmentária e de algum modo adotando a técnica do patchwork” (Maria de Fátima Outeirinho, “Fragmento e Narrativa de Viagem” em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6712.pdf).

Viajar é responder a um chamado, escreve o Patrick Corneau, já finalizando seu texto na estimulante Suíte Brasileira III (Travelogue). O trecho que transcreverei abaixo é das coisas mais bonitas e mais profundas que já li sobre a arte de viajar, algo que eu adoraria ter escrito algum dia. Brasileza é uma obra para ser lida e relida com imenso prazer. Merci, Patrick!



Que proveito tirar da viagem senão o de assumir totalmente a condição de estrangeiro? A estranheza dos estrangeiros, mas também nossa própria estranheza? Um idioma que não compreendemos, uma sociedade e um cotidiano que parecem nos rejeitar, céus que não nos viram nascer. Nada para nos confortar. A viagem quebra em nós uma espécie de cenário interior. Não é mais possível dissimular: eis-nos desnudos. A cortina dos hábitos, a tessitura confortável dos gestos e das palavras em que o espírito se apazigua se ergue lentamente e desvela a face pálida da inquietude.

Ficamos reduzidos ao osso das coisas, e cada coisa nos remete a nossa angústia, a qual lhe dá sorrateiramente seu preço. O homem está face a face consigo mesmo. E é, no entanto, por aí que a viagem o ilumina. Um grande desacordo acontece entre ele e as coisas. Entre ele e essa parte de si mesmo à qual era acostumado e que não reconhece mais. Nessa falha, a música do mundo entra mais facilmente. Nesse despojamento de si, a menor árvore e o sorriso mais leve se tornam a mais terna e a mais frágil das imagens. De novo se aprofunda em nós, com que uma fome da alma, um fervor reencontrado: não estamos prestes a acolher os rostos dos homens enraizados em sua terra, os monumentos nos quais séculos se resumem. Por último, essa fração de nós mesmos desprendida da vida trivial onde rastejamos.


Para dar a cada ser e a cada objeto seu valor de milagre, foi-nos preciso pagar o imposto de um curto abandono. É um de meus exercícios favoritos quando viajo: mudar de pele, pegar um destino-minuto, entrar na vida de um outro e trocar sua opacidade pela minha. As oportunidades são múltiplas para quem não se resigna em ser si mesmo e que, como o Zelig de Woody Allen, entra no molde ou no papel que lhe propõem. Os restaurantes, principalmente quando o serviço demora, são perfeitos observatórios da diversidade humana e favorecem esse exercício de compaixão.

Assim era aquela pizzaria no centro de Manaus, onde parecia ter encalhado uma clientela de viajantes que não queriam se afastar de seus hotéis. As pessoas sozinhas são sempre mais interessantes: não solicitadas por uma conversação ou a presença de outrem, parecem menos protegidas. Um olhar que vagueia pelo salão diz mais do que uma conversa educada. Um gesto ligeiramente inesperado revela de repente uma existência com seu peso de fatalidade, suas dificuldades, suas falhas secretas. (...)


“A finalidade da viagem é a de sentir-se próximo dos Longínquos e consanguíneo dos Diferentes. Sentir-se em casa na concha dos outros. Como um bernardo-eremita. Mas um bernardo-eremita planetário. (citando Jacques Lacarriere, escritor viajante)”.
Saudades do Brasil...



No vôo noturno São Paulo/Paris, dois franceses se jogam pesadamente nos bancos à esquerda e à direita do meu. Com roupas de “mochileiros em férias”, eles começam tirando os sapatos, enrolando-se nas cobertas e botando os pés descalços na divisória entre nossos assentos. Um deles inclinou a poltrona antes da decolagem e passou os braços para trás do encosto, o que parecia incomodar o passageiro de trás. Apoderando-se de minhas duas braçadeiras (“é ‘meu’ lugar”), eles vão passar uma parte do vôo falando por cima de minha cabeça, passando revistas sem emitir o mínimo “com licença”.

Volta à França. Acabaram-se gentileza, sorrisos e boas maneiras. Bem-vindo ao mundo moderno da indelicadeza e da pangrosseria. Desgraça. Saudades do Brasil.
Leia: Brasileza: Suítes Brasileiras. Patrick Corneau. (trad. Mônica Cristina Corrêa). São Paulo: Perspectiva, 2007