domingo, 17 de setembro de 2017
Esperança do mundo, by Albert Camus
domingo, 15 de janeiro de 2012
Notas de viagem sobre a Argélia, by Albert Camus

Núpcias (Noces) e O verão (L’été) entram na categoria de ensaios da obra de Camus, mais conhecido na literatura por seus romances de títulos breves e de leitura arrebatadora: O estrangeiro (1942), A Peste (1947), A queda (1956), e O primeiro homem (publicada postumamente em 1995).
Nesses ensaios, relativamente curtos, Camus relata as impressões de suas viagens pela terra natal, a Argélia, num período que vai de 1934 a 1952, evocando lembranças de cidades marcantes em sua biografia, como Tipasa, Djemila, Orã e Argel. Nessas evocações, cenários se repetem: as ruínas, a natureza mediterrânea, o mar. A soma disso tudo ficou para sempre impregnada naquilo que se transformou Camus, e isso serve também para refletirmos sobre como somos afetados pelo lugar em que nascemos, talvez sem termos consciência de como a geografia de um lugar ou região, de alguma maneira, molda o nosso ser.

“À força de indiferença e de insensibilidade, pode acontecer que um rosto se incorpore à grandeza mineral de uma paisagem. Assim como certos camponeses da Espanha chegam a assemelhar-se às oliveiras de suas terras, assim também os rostos de Giotto, despojados das sombras irrisórias onde a alma se manifesta, terminam por incorporar-se à própria Toscana...”
Albert Camus era ainda muito jovem quando escreveu Núpcias, não tinha mais do que 25 anos, mas a pouca idade só serve para atestar a sua genialidade. Quando releio as passagens que fui marcando ao longo da leitura fico fascinado pelo domínio que ele possuía da escrita; a simplicidade de suas palavras e a maneira poética de descrever cenários e paisagens não conseguem esconder a profundidade de sua natureza filosófica, o que confere à sua leitura uma experiência literária fascinante.
Trabalho difícil é escrever sobre Núpcias, O Verão, porque nenhuma resenha sobre essa obra seria justa em relação à grandeza que ali se encerra. É como tentar explicar a um amigo o sentimento de transcendência vivido no alto de uma montanha depois de muitas horas de caminhada; qualquer tentativa será inútil, porque há coisas que só conseguem ser compreendidas através da experiência.
Penso, enquanto digito essas palavras, que tipo de leitor gostará tanto dessa obra quanto eu gostei; tenho o hábito de supervalorizar aquilo que me agrada aos sentidos: uma leitura, um filme, uma música, essas coisas que tocam a gente profundamente dependendo do nosso estado de espírito no momento em que elas aparecem em nosso caminho.
No caso do Camus, acho que me impressionei com esse texto porque o li com especial atenção, fruindo vagarosamente cada parágrafo, tentando captar toda a emoção, por vezes alegre, outras vezes melancólica, de um autor em começo de carreira, já dando sinais de que levava a vida mais a sério do que de fato se deveria levá-la – ou estarei eu errado? Estão ali, pontuando seu texto, as questões sempre presentes em sua obra, a solidão, a morte, o silêncio, o senso de justiça....
A lucidez de suas observações sobre as pessoas e a natureza, aliada à sua privilegiada inteligência filosófica faz com que passagens simples como a descrição de um banho de mar ganhem uma dimensão quase mágica: como alguém pode ser tão bom com as palavras? Camus consegue essa proeza, e com isso, com esse dom que lhe é peculiar, transforma lembranças de viagem em poesia.
O tipo de leitor que apreciará essa obra é aquele que busca entender o mundo para além de suas aparências. Será esse o seu caso? Pois então faça um teste: selecionei algumas passagens de Núpcias, O Verão aqui no Odepórica para que você possa por conta própria verificar se minhas impressões dessa obra são exageradas ou se tenho um pouco de razão naquilo que acabo de escrever. Boa viagem e Namastê.
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Núpcias em Tipasa
É preciso que eu fique nu e, depois, mergulhe no mar e que, ainda perfumado de essências da terra, possa lavá-las nas águas desse mesmo mar, estreitando em meu corpo o abraço pelo qual suspiram, lábio a lábio, há tão longo tempo, a terra e o mar. Uma vez dentro d’água, é o sobressalto, a subida de uma viscosidade fria e opaca, depois o mergulho no zumbido dos ouvidos, o nariz a pingar e a boca amarga – o nado, os braços envernizados de água, saídos do mar para se dourarem ao sol e movidos numa torção de todos os músculos, a corrida da água sobre meu corpo, a posse tumultuosa da onda pelas minhas pernas – e a ausência de horizonte.
Na praia, é a queda na areia, abandonado ao mundo, uma vez mais de volta a meu peso de carne e osso, embrutecido de sol, lançando de longe em longe um olhar para os meus braços, onde as poças de pele seca deixam a descoberto, à medida que a água escorre, a penugem loura e a poeira de sal.
Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direito de amar sem medida. Existe apenas um único amor neste mundo. Estreitar um corpo de mulher é também reter de encontro a si essa alegria estranha que desce do céu para o mar. Daqui a pouco, quando me atirar no meio dos absintos, a fim de que seu perfume penetre meu corpo, terei consciência, contra todos os preconceitos, de estar realizando uma verdade que é a do sol e que será também a de minha morte. Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou representando aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. (...)

(...) Ao entardecer, encaminhei-me para uma zona mais bem tratada do parque, toda ajardinada, situada à beira da estrada nacional. Ali, ao sair do tumulto dos perfumes e do sol, no ar agora refrescado pela tarde, o espírito se acalmava e o corpo, distendido, saboreava o silêncio interior que nasce do amor satisfeito.
Sentei-me num banco. Olhava o campo arredondar-se com o dia. Sentia-me saciado. Sobre mim, uma romãzeira deixava pender os botões de suas flores, cerrados e cheios de nervuras como pequeninos punhos fechados que contivessem toda a esperança da primavera. Havia alecrim, atrás de meu banco, mas eu percebia apenas o perfume do álcool. Colinas emolduravam-se entre as árvores e, mais longe ainda, um debrum de mar por cima do qual o céu, como vela enfunada, repousava toda a sua ternura. Sentia em meu coração uma estranha alegria, a mesma que nasce da consciência tranquila.
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O vento em Djemila
Há lugares onde o espírito morre a fim de que nasça uma verdade que é a sua própria negação. Quando estive em Djemila, havia vento e sol, mas isso é outra história. O que é preciso dizer, em primeiro lugar, é que ali reinava um vasto silêncio, pesado e compacto – algo semelhante ao equilíbrio de uma balança. Pios de pássaros, o som da flauta de três orifícios, um patear de cabras, rumores que vinham do céu e outros tantos ruídos compunham o silêncio e a desolação desses lugares.
(...) Por esse árido esplendor andáramos a vagar o dia inteiro. Pouco a pouco, o vento, que mal se percebia no inicio da tarde, pareceu-nos crescer com o passar das horas e ocupar novamente toda a paisagem. Soprava de uma abertura entre as montanhas longínquas, a leste, chegava apressado do fundo do horizonte e vinha cabriolar em cascatas por entre as pedras e o sol. Sem parar, zunia com força através das ruínas, girava num circo de pedras e de terra, banhava os montões de blocos devastados pelo granizo, envolvia cada uma das colunas com seu sopro e depois ia derramar-se com gemidos incessantes sobre o foro que se abria ao céu.
Sentia-me estalar ao vento como os mastros de um navio. Esvaziado pela metade, os olhos a arderem e os lábios crestados, minha pele secava a um ponto tal que não mais me pertencia. Antigamente, graças a ela eu decifrava a escritura do mundo. Nela o vento costumava traçar os sinais de sua ternura ou de sua cólera, aquecendo-a com seu hálito de verão ou mordendo-a com seus dentes de gelo. No entanto, tão longamente roçado pelo vento, sacudido durante mais de uma hora e aturdido de tanto resistir, acabei por perder a consciência do contorno do meu próprio corpo.
Tal um seixo polido pelas marés, assim estava eu, polido pelo vento, desgastado até a alma. Sentia-me parcela daquela força que me fazia oscilar; cada vez uma parte maior dela; até que finalmente eu era essa própria força, confundindo as pulsações do meu sangue com as grandes batidas sonoras do coração onipresente da natureza.

(...) Logo, difundido pelos quatro cantos do mundo, descuidado, esquecido de mim mesmo, sou este vento e, no vento, estas colunas e este arco, estas lajes que exalam quentura e estas montanhas pálidas que circundam a cidade deserta. E jamais senti com tanta intensidade, e a um só tempo, o desprendimento de mim mesmo e a minha presença no mundo.
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O verão em Argel
(...) Da caixa de Pandora, na qual fervilham os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo algum mais emocionante do que este. Porque a esperança, ao contrário do que se crê, equivale à resignação. E viver não é resignar-se.
Esta, acima de tudo, é a austera lição dos verões da Argélia. Mas a estação já estremece e o verão oscila. As primeiras chuvas de setembro, após tantas violências e obstinações, são como as primeiras lágrimas da terra libertada, como se, durante alguns dias, todo o país se envolvesse em ternura. Enquanto isso, desprende-se das alfarrobeiras um perfume de amor que invade toda a Argélia. À noite ou depois da chuva, o ventre regado por um sêmen com odor de amêndoa amarga, a terra inteira repousa de ter sido possuída pelo sol durante todo o verão. Então, novamente, esse odor consagra as núpcias do homem e da terra, despertando em nós o único amor verdadeiramente viril deste mundo: perecível e generoso.
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(...) Não existem muitas verdades das quais o coração tenha certeza. E eu compreendia bem a evidência dessa afirmativa, certo entardecer, quando a sombra começava a afogar as vinhas e as oliveiras dos campos de Florença numa grande tristeza muda. Mas nessa região a melancolia é apenas um comentário da beleza. E no trem que corria pela tarde adentro sentia qualquer coisa desatar-se em mim. Posso hoje duvidar de que aquela sensação, embora tivesse o rosto da tristeza, se chamasse felicidade?
Sim, a lição que seus homens ilustram, a Itália as prodiga também através de suas paisagens. Mas é fácil não atentar na felicidade, porquanto ela é sempre imerecida. Mesmo na Itália. E sua graça, embora súbita, nem sempre é imediata. Melhor do que qualquer outro país, a Itália nos convida a aprofundar uma experiência que dá a impressão de nos oferecer, logo de saída, em toda a sua plenitude. Isso porque, a princípio, é pródiga em poesia, para melhor esconder sua verdade.
Seus primeiros sortilégios são ritos do esquecimento: os loureiros rosados de Mônaco, Gênova cheia de flores e odores de peixe, e as tardes azuis da costa liguriana. Depois, enfim, Pisa, e uma Itália que perdeu o encanto um pouco vulgar da Riviera. Mas ela continua sendo fácil – e por que não cedermos, durante certo tempo, à sua graça sensual?
(...) Florença! Um dos únicos lugares da Europa onde compreendi que no íntimo de minha revolta havia um consentimento latente. Em seu céu, mesclado de lágrimas e de sol, aprendi a submeter-me à terra e a deixar-me abrasar na chama sombria de seus festejos. Eu sentia... mas como expressá-lo? Que desmesura era aquela? De que maneira consagrar a harmonia do amor e da revolta? A terra! Neste grande templo abandonado pelos deuses, todos os meus ídolos têm pés de barro.
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Excerto de “O verão”
(...) Nessas praias da Orânia, todas as manhãs de verão parecem ser as primeiras do mundo. Todos os crepúsculos dão-nos a impressão de serem os últimos, agonias solenes anunciadas ao pôr-do-sol através de uma derradeira luz que escurece todos os matizes.
O mar é ultramar; o caminho, cor de sangue coagulado; a praia, amarela. Tudo desaparece com o sol verde; uma hora mais tarde, a lua começa a jorrar das dunas. Nesses momentos, as noites se fazem incomensuráveis sob a chuva de estrelas. Por vezes cruzam-nas tempestades, e os relâmpagos escorrem sobre o dorso das dunas, empalidecem o céu, pondo na areia e nos olhos clarões alaranjados.
Mas nada disso se pode compartilhar. É necessário tê-lo vivido. Tamanha solidão e grandeza dão a esses lugares um rosto inesquecível. Ao nascer da madrugada frágil, passadas as primeiras vagas ainda negras e amargas, é um novo ser o que fende a água da noite, tão difícil de suportar.
A lembrança dessas alegrias não é uma saudade triste; por isso sei que eram boas. Tantos anos depois, ainda persistem em algum recanto de meu coração, que tem dificuldade de ser fiel. E hoje sei que sobre a duna deserta, se eu quisesse retornar, o mesmo céu continuaria derramando sobre mim sua carga de suspiros e estrelas. Porque aqui estão as terras da inocência.
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Leia: Núpcias, O Verão. Albert Camus. Meu exemplar, dos anos 80, foi editado pelo Círculo do Livro e custou menos do que uma entrada de cinema. Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Uma macumba no Brasil, by Albert Camus

Nessa passagem, Camus é levado a um ritual de macumba. Para quem não tem muita noção do que se trata, (e porque o termo é muito carregado de preconceitos) podemos de maneira muito simplista definir a macumba como sendo uma prática mágica, muito mais do que religiosa. Própria das religiões que chegaram ao Brasil com os negros africanos, a macumba é um ritual que envolve dança (e o transe a ela associado), cantos e cerimoniais que podem variar entre os grupos de praticantes (ou de escolas iniciáticas). Tem muita importância na macumba a comida, a bebida, os objetos mágicos, o vestuário, as imagens, e a hierarquia dos participantes.
No imaginário popular, a macumba (cujo termo vem do nome de um instrumento de percussão africano) acabou se transformando em sinônimo de feitiço e baixa magia, um “trabalho” que só pode ser anulado com um contra-feitiço. Para muitos, a macumba também serve para designar as religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda, um conceito totalmente equivocado. Se Camus usou o termo “macumba” foi porque no Rio de Janeiro se usava (não sei se ainda se usa) essa expressão para aquilo que na Bahia se conhece como Candomblé. Ao que parece, não há uma aplicação pejorativa do termo no contexto dessa narrativa em particular. E pelo que lemos na descrição ritual de Camus, o culto a que ele assistiu foi mesmo o do candomblé.
O ator negro de nome Abdias, quem levou Camus até o local onde se passa a narrativa é o escritor, jornalista e político Abdias do Nascimento, à época diretor do Teatro Experimental Negro, que encenara a peça Calígula, de Camus, com um elenco só de negros (informação que consta da nota sumária).
Para terminar, uma observação que não poderia deixar passar. Camus, ao escrever a seguinte afirmação “Echou (Exu), espírito do mal e deus africano” comete o grande erro de associar Exu com o mal, tal como fazem muitas religiões cristãs. Nem entrarei na questão da origem do preconceito associado a essa entidade da Umbanda. No Candomblé, por exemplo, Exu não é considerado uma entidade mas sim um Orixá, que pode ser interpretado como sendo um semi-Deus, devido a sua importância dentro dessa religião. Não importa a maneira como Exu é visto na Umbanda ou no Candomblé, a não ser o fato de que, sob nenhum aspecto, se deve relacionar Exu com algo negativo ou associado ao mal. Essa idéia não é nada mais do que o fruto da ignorância e do preconceito em relação à religião do próximo.
Boa viagem.
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Uma macumba no Brasil
Quando chego à casa da Sra. M., reina a inquietação. O “pai-de-santo” (padre e primeiro-bailarino), que devia organizar a macumba, consultou o santo do dia, que não deu sua autorização. Abdias, o ator negro, pensa, sobretudo, que ele não prometeu dinheiro suficiente para forçar a boa vontade do santo. Seu parecer é de que tentemos, no entanto, numa expedição a Caxias, aldeia dos arredores, a 40 quilômetros do Rio, e que procuremos uma macumba ao acaso. Durante o jantar, deixo que me expliquem as macumbas. São cerimônias cujo propósito parece constante: obter a descida do deus em si, por meio de danças e cantos. O objetivo é o transe. O que distingue a macumba das outras cerimônias é a mistura de religião católica e dos ritos africanos.
Como deuses ou santos, há Echou, espírito do mal e deus africano, mas também Ogoun, que é o nosso São Jorge. Há também santos Cosme e Damião, etc. ..., etc. ... O culto dos santos está integrado, aqui, nos rituais de possessão. Todo dia tem o seu santo, que não é festejado em nenhum outro dia, salvo por autorização especial do principal “pai-de-santo”. O pai-de-santo tem suas filhas (e filhos, suponho), cujos transes ele é encarregado de supervisionar.
Munidos dessas informações elementares, partimos. 40 quilômetros numa espécie de bruma. São 10 horas da noite. Caxias, que me faz pensar numa aldeia-exposição feita de stands. Detemo-nos na praça da aldeia, onde já se encontram uns vinte carros e muito mais gente do que imaginávamos. Mal paramos e um jovem mulato precipita-se diante de mim, oferecendo-me uma garrafa de aguardiente e perguntando se eu havia trazido Tarrou comigo. Ri às gargalhadas, faz brincadeiras, apresenta-me aos colegas. É poeta. Explicam-me, afinal, que ao saberem no Rio que iriam mostrar-me uma macumba (no entanto, haviam me recomendado segredo, que eu, inocentemente, guardei), muita gente quis aproveitar-se disso. Abdias faz algumas perguntas, e depois não se mexe mais. Ficamos ali, conversando no meio da praça. Aparentemente, ninguém mais trata de nada, e cada um sonha com as estrelas. De repente: precipitação geral. Abdias me diz que é preciso ir até a montanha. Embarcamos, rodamos durante alguns quilômetros por uma estrada esburacada, e, sem razão aparente, subitamente paramos. Espera, sem que ninguém pareça ocupar-se de nada. Depois, continuamos. De repente, o carro faz uma volta de 45 graus e toma um caminho de montanha. O carro sobe, arrasta-se, depois pára: a ladeira é abrupta demais. Descemos e caminhamos. O morro é liso, a vegetação escassa, mas parece que estamos em pleno céu, em meio às estrelas. O ar tem cheiro de fumaça. É tão pesado que se tem a impressão de tocá-lo com a testa.
Chegando ao topo da colina, ouvimos tambores e cantos bastante longínquos, mas que logo cessam. Caminhamos em direção ao som. Nem árvores nem casas, é um deserto. Mas num vão, vemos uma espécie de hangar, bastante amplo, sem paredes, com vigas aparentes. Estendidas pelo hangar há guirlandas de papel. De repente, entrevejo uma procissão de moças negras, que sobem em nossa direção. Estão vestidas de branco, de seda grosseira, a cintura baixa. Segue-as um homem, trajando uma espécie de casaca vermelha, com colares de dentes multicoloridos. Abdias o detém e o apresenta a mim. A acolhida é séria e cordial. Mas há uma complicação. Eles vão juntar-se a uma outra macumba, que fica a vinte minutos a pé, e gostariam que os acompanhássemos. Partimos. Consigo ver, numa encruzilhada, uma vela acesa, fincada em plena terra, umas espécies de nichos, nos quais estão metidas estátuas de santos ou de diabo (aliás, muito toscas e de estilo Saint-Sulpice) e uma cuia de água. Mostram-me Echou, vermelho e feroz, de faca na mão. O caminho que seguimos ondula através dos morros sob o céu cheio de estrelas. Os dançarinos e dançarinas precedem-nos, rindo e brincando. Tornamos a descer uma colina, atravessamos a estrada pela qual viemos e reescalamos um outro morro. Barracos de ramagem e de taipa, cheios de sombras que cochicham. Depois, o início da procissão imobiliza-se diante de um terreiro elevado e cercado de uma parede de bambus. No interior, ouvem-se tambores e cantos. Quando estamos todos reunidos, as primeiras mulheres sobem ao terreiro elevado e atravessam aos tropeços a porta de bambus. Depois, os homens.
Entramos num pátio cheio de detritos. De uma pequena casa de sapê e de taipa, à nossa frente, chegam cantos. Entramos. É uma cabana, bastante grosseira, cujas paredes, no entanto, são caiadas. O teto é sustentado por um mastro central, o chão de terra batida. Ao fundo, o pequeno alpendre abriga um altar, encimado por uma gravura representando São Jorge. Como essa, várias outras, parecidas, guarnecem os tabiques. A um canto, sobre um pequeno estrado, ornado de folhas de palmeira, os músicos: dois tambores baixos e um tambor longo. Havia uns quarenta bailarinos e bailarinas quando chegamos. Nós mesmos somos também uns quarenta, e respiramos, portanto, com dificuldade, espremidos uns contra os outros. Encosto-me num tabique e fico olhando.
Os dançarinos e dançarinas dispõem-se em dois círculos concêntricos, os homens no interior. Os dois pais-de-santo (o que nos recebe está vestido, como os dançarinos, com uma espécie de pijama branco) ficam de frente um para o outro no centro dos círculos. Na sua vez, cada um canta as primeiras notas de uma canção, que, imediatamente, todos retomam em coro, com os círculos girando no sentido dos ponteiros do relógio. A dança é simples: um bater de pés no qual se enxerta a dupla ondulação da rumba. Os “pais”, esses indicam apenas o ritmo. Meu intérprete me ensina que esses cantos rogam ao santo que autorize os recém-chegados no local. Entre os cantos, as pausas são bastante longas.
Perto do altar, uma mulher, que canta também, agita um sininho, de modo quase que ininterrupto. A dança está longe de ser frenética. De estilo medíocre, é pesada. No calor que aumenta cada vez mais, as pausas são quase insuportáveis. Eu observo:
1) que não se nota nos dançarinos a mais leve transpiração;
2) um branco e duas brancas que, aliás, dançam pior que os outros.
Em dado momento, um dos dançarinos adianta-se e me fala. Meu intérprete diz que me pedem para descruzar os braços, já que essa atitude impede o espírito de baixar entre nós. Dócil, fico de braços caídos. Pouco a pouco, as pausas entre os cantos diminuem, e a dança se anima. Trazem uma vela acesa, que se enterra no chão, no centro, perto de um copo d’água. Os cantos invocam São Jorge.
“Ele chega na luz da lua
Ele parte na luz do sol”
E ainda:
“Sou o campo de batalha do deus.”
Na verdade, um ou dois dançarinos já apresentam ares de transe, mas, se posso me atrever a dizê-lo, de um transe calmo: as mãos nos quadris, o passo rijo, o olhar fixo e átono. O “pai” vermelho despeja água em volta em volta da vela em dois círculos concêntricos e as danças recomeçam quase sem interrupção. De vez em quando, um dançarino ou uma dançarina deixa o seu círculo para vir dançar no interior, bem junto aos círculos de água, mas sem nunca atravessá-los. Eles precipitam o ritmo, contorcendo-se sobre si mesmos, e começam a emitir gritos desarticulados. A poeira sobe do chão, sufocante, tornando espesso o ar que já se cola à nossa pele. Cada vez mais numerosos, os dançarinos deixam o seu círculo para virem dançar em torno dos “pais”, que, por sua vez, dançam de forma mais rápida. (O pai branco, admiravelmente.)
Agora, tornam-se violentos, e, de repente, o pai vermelho se solta. Com o olhar inflamado, os quatro membros girando em torno do corpo, com os joelhos dobrados, coloca o seu peso alternadamente sobre cada perna, e acelera o ritmo até o final da dança, quando ele se detém, para olhar toda a platéia com um jeito fixo e terrível. Nesse momento, de um canto escuro, surge um dançarino, que se ajoelha e lhe estende uma espada embainhada. O pai vermelho tira a espada e faz com que gire a sua volta, com um ar ameaçador. Trazem-lhe um enorme charuto. Pouco a pouco, todos acendem charutos e fumam-nos, dançando. Retoma-se a dança. Um por um, os assistentes vêm prostrar-se diante do pai, com a cabeça entre as pernas.
Com o lado sem fio da espada, toca-lhes cada ombro, na diagonal; faz com que se levantem, toca-lhes o ombro esquerdo com o seu ombro direito, e depois inversamente; com violência, empurra-os então para a roda, movimento que, na maioria das vezes, desencadeia a crise, variando conforme os dançarinos: um negro grande, firme nas pernas, olhando para o mastro central, com um ar vago, tem apenas um estremecimento da nuca, que se repete interminavelmente. Vejo nele um ar de boxeador knock down. Uma branca gorda, com uma cara animal, uiva sem parar, mexendo a cabeça da direita para a esquerda. Mas umas jovens negras entram no transe mais terrível, com os pés colados ao chão, e o corpo todo percorrido por sobressaltos cada vez mais violentos, à medida que sobem para os ombros. A cabeça – esta se agita da frente para trás, literalmente decapitada. Todos gritam e urram. Depois, as mulheres começam, a cair.
Levantam-nas, apertam-lhes a testa, e elas recomeçam, até tornarem a cair. Atinge-se o auge no momento em que todos gritam, com estranhos sons roucos, que lembram latidos. Dizem-me que isto irá continuar até o amanhecer, sem mudanças. São 2 horas da manhã. O calor, a poeira e a fumaça dos charutos, o cheiro humano, tornam o ar irrespirável. Saio, trôpego, e respiro afinal deliciado o ar fresco. Amo a noite e o céu, mais do que os deuses dos homens.
Fonte:
Diário de Viagem: a visita de Camus ao Brasil. Albert Camus. Editora Record, s/ data, págs 86 a 94.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Diário de viagem de Albert Camus (1913-1960)
Há 50 anos um acidente de automóvel tirou a vida de um dos grandes escritores da língua francesa, Albert Camus. Confesso que pouco conheço de sua obra, a não ser uma leitura para fins acadêmicos de A Peste, numa aula temática sobre a morte de Deus na literatura. Tema profundo, leitura idem.
Em A Peste (publicada em 1947), Camus escreve sobre um acontecimento trágico ocorrido numa pequena cidade argelina chamada Oran. De uma hora para outra começam a aparecer ratos mortos, e logo ficamos sabendo que o povoado foi assaltado por uma epidemia. A primeira conseqüência disso foi o total exílio de seus habitantes: ninguém mais poderia sair da cidade antes que o fim da epidemia fosse decretado. A personagem que narra a história só revela sua identidade nas últimas páginas da obra, uma jogada genial do autor que com essa escolha conseguiu fazer com que o observador assumisse uma atitude imparcial, relatando objetivamente os eventos ocorridos em Oran por conta da peste.
Uma das leituras mais comuns dessa obra fenomenal é a de que Camus, ao narrar sobre a peste, intencionalmente criou uma alegoria sobre o nazismo; a peste, em si, pode ser interpretada como uma metáfora dos horrores praticados na 2ª Guerra, sobretudo no tocante à resistência francesa frente à ocupação nazista.
Outra leitura interessante sobre essa mesma obra segue uma abordagem mais filosófica: o comportamento do ser humano diante da morte, talvez um dos maiores tabus da humanidade. Partindo desse princípio, Camus vai discutir em vários momentos sobre o papel de Deus e da religião, trazendo à tona questões ainda hoje muito atuais. É interessantíssimo, por exemplo, comparar o que se passa na cidade de Oran, tal como narrado na obra de Camus, com os recentes acontecimentos no Haiti por conta do terremoto devastador que atingiu o país no começo deste ano. O comportamento dos que sobreviveram à tragédia haitiana, conforme podemos acompanhar pela imprensa (desespero, violência, exploração comercial), não difere em quase nada daquele narrado em A Peste. Um indício claro de que Camus conhecia muito bem a natureza humana.
Antes de começar a falar sobre os escritos de viagem de Camus, queria escrever sobre uma passagem de A Peste que tem relação com a temática do Odepórica e que aparece logo na abertura da obra. O narrador, antes de começar a contar sobre os acontecimentos curiosos ocorridos em decorrência da epidemia, descreve Oran, “uma cidade ordinária, simples prefeitura francesa na costa argelina”. Continua:
“Cidade feia, de aspecto sossegado. Com o tempo, vemos o que a distingue de tantas outras cidades comerciais, em todas as latitudes. Como supor uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, sem rumor de asas nem cair de folhas, lugar neutro, enfim? Percebemos no céu a mudança das estações. A primavera se anuncia apenas pela qualidade do ar e pelas cestas de flores que pequenos vendilhões trazem dos subúrbios; é uma primavera que se vende nos mercados. No verão o sol incendeia as casas muito secas e cobre os muros de cinza parda; então só podemos viver à sombra, as janelas fechadas. No outono, pelo contrário, há um dilúvio de lama. Os dias agradáveis só chegam no inverno.
Modo fácil de conhecer uma cidade é procurar saber como os indivíduos se comportam no trabalho, no amor, na morte.”
Genial a maneira como é descrita a pequena cidade, não? E a frase do último parágrafo acima é a “deixa” para começarmos a tratar do Diário de Viagem.
Albert Camus visitou a América do Sul em 1949. Veio da Europa pelo mar, e o Brasil foi o primeiro país visitado no continente. Aborreceu-se tanto com essa viagem que teve vontade de matar-se, escreve Otto Lara Resende na edição que tenho em mãos, o que certamente não foi escrito em sentido figurado: é clássica a afirmação de Camus de que “o suicídio é a única questão filosófica séria”.
Não sei se posso afirmar que o relato dessa viagem ao Brasil é uma leitura indispensável, mas estou certo de que essa obra irá interessar a dois tipos de leitores: os que apreciam Camus e sua produção literária, e aqueles que se interessam por literatura odepórica, principalmente as narrativas que contemplam o Brasil, como é o caso dessa. Nesse quesito, há algumas passagens nesse texto que primam por servir de testemunho histórico, de um país que apesar de haver crescido significativamente, ainda continua apresentando os mesmos tristes problemas de décadas passadas. Quer ver duas amostras? Vamos lá:
“Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos. A confusão e a anarquia deste trânsito só são compensadas por uma lei: chegar primeiro, custe o que custar.”
“O contraste mais impressionante é fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos, com as favelas, às vezes a cem metros do luxo, agarradas ao flanco dos morros, sem água nem luz, onde vive uma população miserável, negra e branca. As mulheres vão buscar água no sopé dos morros, onde fazem fila, e trazem de volta sua provisão em latas de alumínio, que carregam na cabeça como as mulheres kabiles. Enquanto esperam, passam diante delas, numa fileira ininterrupta, os animais niquelados e silenciosos da indústria automobilística americana. Nunca o luxo e a miséria me pareceram tão insolentemente mesclados. É bem verdade que, segundo um dos meus companheiros, ‘pelo menos, eles se divertem muito’.”
Meio triste pensar que essas observações sobre a nossa terra foram escritas há sessenta anos e que pouco mudou desde então – isso para não comentarmos o que mudou para pior, como a degradação da natureza e a violência, só para ficarmos na superfície dos problemas.
A chegada ao Rio, pela baía de Guanabara, foi descrita de uma maneira muito bonita e sem afetação, em que se percebe a irrepreensível qualidade literária de Camus. Observe:
“Às quatro da manhã, um estardalhaço no convés superior me desperta. Saio. Ainda está escuro. Mas a costa está muito próxima: serras negras e regulares, muito recortadas, mas os recortes são redondos – velhos perfis de uma das mais velhas terras do globo. Ao longe, luzes. Seguimos o litoral, enquanto a noite clareia, a água mal estremece, fazemos uma grande manobra e as luzes agora estão diante de nós, mas longínquas. Volto para o meu camarote. Quando torno a subir, já estamos na baía, imensa, um pouco fumegante no dia que nasce, com súbitas condensações de luz, que são as ilhas. A névoa desaparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o ‘Pão de Açúcar’, com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso. À medida que nasce a luz, vê-se melhor a cidade, espremida entre o mar e as montanhas, estendida no comprimento, interminavelmente estirada. No centro, prédios enormes. A cada instante, um ronco acima de nós: um avião decola no dia nascente, confundindo-se, de início, com a terra, elevando-se depois em direção a nós, passando por cima de nossas cabeças. Estamos no meio da baía e as montanhas, à nossa volta, fazem um círculo quase perfeito. Finalmente, uma luz mais sanguínea anuncia o raiar do sol, que surge por trás das montanhas a leste, em frente à cidade, e começa a subir, num céu pálido e fresco. A riqueza e a suntuosidade das cores que brincam sobre a baía, as montanhas e o céu, fazem calar a todos, uma vez mais. Um instante depois, as cores parecem as mesmas, mas é o cartão-postal. A natureza tem horror dos milagres longos demais.”
Belíssima descrição, para mim uma das passagens mais bonitas dessa obra. Prossigamos com a leitura. A presença de Albert Camus no Brasil foi muito esperada e sua agenda esteve cheia durante todo o tempo de sua estadia. Possivelmente foi o excesso de compromissos que fez com que essa viagem lhe fosse tão cansativa e desprovida de maiores encantos; temos que nos apegar ao fato de que o escritor visitou o país prioritariamente a trabalho, o que ameniza nossa opinião – levando-se em conta apenas aquilo que se lê em seus escritos de viagem – sobre sua personalidade aparentemente antipática. A verdade é que, no fundo, Camus deve ter tido muita paciência para, por conta de sua posição, ter que conversar com tanta gente chata do meio intelectual, ou será que não? (ao ser apresentado a um convidado numa recepção escreve o seguinte: “Um filósofo polonês do qual o céu, se for bom, me preservará”).
Num dos inúmeros jantares a que esteve presente, Camus faz um comentário interessante sobre o comportamento brasileiro; fora levado a jantar num restaurante, quando de sua chegada, por um trio: um jovem biólogo francês “furiosamente simpático” (Letarget), um poeta brasileiro (Augusto Frederico Schmidt) “enorme, indolente, com os olhos franzidos, a boca caída”, e um “señorito”, (não nomeado), para quem o Brasil “é um país onde só se trabalha, nada de viciados, aliás, não se tem tempo, trabalha-se, trabalha-se”, o que para nós chega a ser hilário. Eis a cena passada no restaurante:
“Com a ajuda do cansaço, me vem uma cólera tola e já afasto minha cadeira para retirar-me. Uma gentil intervenção de Letarget e também a simpatia que sinto, apesar de tudo, por esse curioso personagem-poeta, me retêm e faço um grande esforço para acalmar-me. ‘Ah’, diz o poeta, chupando os dedos, ‘é preciso muita paciência com o Brasil, muita paciência. ’ Digo apenas, como única vingança, que a mim não parecia ter-me faltado paciência até agora. (...) Apesar de tudo, o resto da refeição passa-se na calma, se bem que o poeta e o señorito não param de fazer apartes em português, nos quais julgo compreender que reclamam um pouco de mim. Além disso, essa grosseria, essa falta de modos, se expõe de forma tão natural que se torna amável.”
E Camus continua sua jornada carioca, cheia de encontros, alguns até lhe dão prazer, como o jantar em que é apresentado ao “poeta nacional” Manuel Bandeira, “pequeno homem extremamente fino” e a Kaïmi (Dorival Caymmi), “um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta”. Não resisto a transcrever um trecho desse encontro:
“Depois do jantar, Kaïmi, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido.”
No dia seguinte, após um passeio de lancha na Guanabara, conhece Murilo Mendes, por quem sentirá grande afinidade, descrito por ele como “poeta e doente” (era ex-tuberculoso, assim como Camus e Manuel Bandeira), de “espírito fino e resistente, um dos dois ou três que realmente me chamaram a atenção aqui.”.
Ainda no Rio de Janeiro, antes mesmo dos encontros relatados acima, Camus escreve sobre o dia em que foi assistir a um ritual de macumba, no município de Caxias, a quarenta quilômetros da capital fluminense. Como me pareceu particularmente interessante, a visão de um estrangeiro sobre um rito religioso brasileiro, vou transcrever as quatro páginas dessa passagem numa outra postagem.
Do Rio de Janeiro Camus segue para Recife, cidade que lhe agrada, descrita por ele como a “Florença dos Trópicos”; visita Olinda no dia seguinte e na volta a Recife oferecem-lhe uma festa popular, porém os cantos e as danças não lhe causaram interesse, uma “macumba-chique” - anota em seu diário. Nesse ponto da viagem, o escritor adoece com freqüência, e é possível que a gripe e o estado febril tenham lhe tirado ainda mais o ânimo de viajar, que já não era grande. Mesmo assim, fascina-se com um espetáculo do “bomba-menboi”, como escreve, “um balé grotesco, dançado por máscaras e figuras totêmicas, sobre um tema que é sempre o mesmo: a matança de um boi”, e dispara a narrar o acontecimento com a evidente noção de quem gostou do que viu.
De Pernambuco à Bahia, que lhe parece “uma imensa casbah (uma espécie de cidadela marroquina) fervilhante, miserável, suja e bela”; Prefere a baía de Salvador, avistada do seu quarto de hotel, à do Rio de Janeiro, “muito espetacular para o meu gosto”. E continua; “esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia”. Visita as igrejas da cidade, que são as mesmas de Recife, “um barroco harmonioso que se repete muito”. Diz que é a única coisa a ser vista neste país (a arte barroca) e que isso se vê depressa. Chega a questionar-se: “Será que sinto vontade de passar alguns anos no Brasil?”, resposta curta e grossa: “Não”.
A empreitada tropical continua. Volta ao Rio, visita Teresópolis e Petrópolis e pela primeira vez sente-se confortável com o clima do país, já que o calor das cidades (ainda que a viagem tenha ocorrido nos meses de julho e agosto) lhe atormenta. Viaja a São Paulo, “cidade estranha, Oran desmedida” e conhece Oswald de Andrade, que lhe expõe a teoria da antropofagia como visão do mundo.
Com Oswald de Andrade (Camus gostou do modernista) faz a viagem a Iguape, que ganhou certo destaque em suas notas de viagem (dessa ida à cidade, onde pode observar as festividades do Bom Jesus, saiu o material para o conto “A pedra que cresce”, de sua obra O exílio e o reino). Aqui Camus escreve quase em tom de humor a “aventura” do deslocamento, um verdadeiro “programa de índio”, como dizem. Afirma que o motorista se parece com Augusto Comte e passa a se referir a ele dessa forma espirituosa. O carro quebra, claro; Augusto Comte não é bom de mecânica, mas são salvos por um caminhoneiro de passagem. Almoçam em Piedade, “pequena aldeia sem graça”. (...) “Refeição brasileira, que não acaba mais, e que passa graças à pinga” – escreve. Augusto Comte erra o caminho e descobre que dirigiram 60 quilômetros além do destino, o que significava, naquelas condições, mais duas ou três horas de estrada.
Na passagem por Registro, uma nota peculiar: “verdadeira capital japonesa no meio do Brasil, onde tive tempo de ver casas de decoração frágil, e até mesmo um quimono”; chegam a Iguape no começo da madrugada. A viagem de 300 quilômetros levou dez horas. Mesmo cansado da viagem, Camus ainda assim reservou um elogio ao povo brasileiro; ao ser bem recebido pelas autoridades locais (apesar do horário avançado) faz a seguinte anotação: “Observo, mais uma vez, a refinada polidez brasileira, talvez um pouco cerimoniosa, mas que, mesmo assim, é melhor que a grosseria européia.”.E reclama, duas vezes, dos roncos ferozes e dos espirros de Augusto Comte, que lhe atrapalham o sono.
Depois de todas essas aventuras brasileiras, o renomado escritor ainda viaja ao Uruguai, Chile e Argentina, onde permanece poucos dias, “em pleno conflito psicológico”, como chega a escrever. “Este duro equilíbrio que a tudo resistiu desmoronou, apesar de todos os meus esforços. Dentro de mim, estão as águas esverdeadas, em que passam formas vagas, em que se dilui minha energia.” Camus tem consciência de que sofre de depressão, mas durante todo o tempo foi um verdadeiro cavalheiro ao tentar, frente a tantos compromissos profissionais aborrecidos, esconder de seus anfitriões os conflitos interiores que lhe atormentavam a alma.
Quarenta e oito dias depois de sua chegada ao Brasil, Albert Camus volta finalmente para casa. As últimas palavras de seu diário não são muito animadoras: “Doente. Bronquite, no mínimo. Telefonam para avisar que partimos esta tarde. Faz um dia radioso. Médico. Penicilina. A viagem termina num caixão metálico, entre um médico louco e um diplomata, em direção a Paris.”
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Leia: Diário de Viagem- a visita de Camus ao Brasil. A cópia que tenho em mãos saiu pela Editora Record, com uma capa horrenda, por volta de 1980 (não consta o ano de publicação) e tem uma boa nota sumária a cargo de Otto Lara Resende. Foi relançada em 1997 (4ª ed.) pela mesma editora.
Se puder e tiver vontade, leia A Peste, de Albert Camus. Procure a edição que venha com a tradução de Graciliano Ramos, daí você sai ganhando duas vezes, certo? A minha, garimpadinha num sebo pelo preço de um picolé, é da Ed. José Olympo, Coleção Sagarana,1973.











