segunda-feira, 8 de junho de 2020

A mão mágica de Hokusai, by James Michener


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Desde criança tenho fascinação pela “Grande Onda de Kanagawa”, a mais famosa xilogravura do mestre Katsushika Hokusai. Meus pais chegaram a ter uma reprodução dessa obra que permaneceu muitos anos exposta na parede da sala; lembro-me de ficar muitas vezes sentado no sofá admirando a pintura, sem nem mesmo saber que se tratava do Monte Fuji, ou que fosse obra de um artista japonês. 

Era um misto de fascinação pelo perigo imediato da onda que está prestes a engolir as embarcações e também pela beleza estética ali retratada, com a montanha e seu pico nevado ao fundo. Há um certo mistério nessa obra, algo que evoca imagens do inconsciente coletivo, uma vez que ela atrai a curiosidade de milhões de pessoas há quase dois séculos. Acredito que a Arte, como a Literatura, também tem o poder de nos transportar para qualquer lugar do mundo. 

Eu nunca visitei o Japão, mas tenho paixão pelas pinturas antigas de seus artistas e sempre que posso visito exposições, folheio livros de arte, ouço canções e me sinto transportado para o outro lado do planeta. Em época de quarentena, essas “viagens” ganham outro sentido...


O texto abaixo foi retirado de uma antiga edição da Revista Seleções de 1960, que comprei recentemente em um sebo e para minha surpresa a autoria é de James Michener, famoso romancista norte-americano, homem culto e muito viajado pelas bandas do Oriente (e de várias partes do mundo), autor dos clássicos Amor e Guerra nos Mares do Sul, As Pontes de Toko-Ri, Sayonara e Iberia, este último um diário de viagem onde ele explora a cultura, a história e a geografia da Espanha e de Portugal, vale muito a pena tentar conseguir um exemplar.  

O artigo de James Michener, cuja fama de estudioso da história é notável, narra de forma sucinta a vida desse gigante da arte japonesa, Katsushika Hokusai.  Michener publicou algumas obras que contemplam a arte do Japão, entre elas The Voice of Asia, The Floating World, Japanese Prints: From the Early Masters to the Modern e  The Modern Japanese Print: An Appreciation.
A mão mágica de Hokusai, by James A. Michener


Em 1804, um artista japonês arruinado, já na casa dos 40, chegou à conclusão de que precisaria de algum gesto espetacular para chamar a atenção para a sua obra. Com esse pensamento, traçou uma área diante de um templo da cidade de Iedo (hoje Tóquio) e dispôs-se a pintar o maior quadro já visto no Japão.

Fixando no chão com pedras uma folha de papel colado de 209 metros quadrados, amarrou um dos lados a uma viga de carvalho para poder içar o quadro quando estivesse pronto; depois, munido de grandes latas e tubos de tintas, vassouras e esfregões na ponta de paus, começou a trabalhar.

Arregaçando o quimono, que amarrou na cintura, e jogando fora as sandálias começou a movimentar-se rapidamente através do enorme papel, delineando um retrato do santo mais querido do Japão, Daruma, que uma vez ficou sentado tanto tempo a contemplar a natureza do mundo e o homem que seus braços definharam.


Não tardou que o pátio do templo se enchesse de pessoas admirando a rapidez com que o artista jogava as tintas em pinceladas imensas e aparentemente ao acaso. Ao anoitecer, quando os homens que manejavam as cordas içaram a viga de carvalho, a imensa superfície de papel revelou um retrato de Daruma de quase 18 metros de altura. Dizem que podia entrar um cavalo na boca do gigantesco santo.

O artista, Katsushika Hokusai, tinha conseguido o seu objetivo. Passou a ser comentado. Não contente com isso, pintou a seguir, com um pincel ordinário, dois pardais tão pequenos que só podiam ser vistos com uma lente de aumento. Essas façanhas chegaram ao conhecimento da corte e Hokusai foi convidado a exibir suas habilidades excepcionas.

Fez isso arrancando uma porta de papel e borrando com anil. Depois apanhou um galo e mergulhou-lhe os pés em tinta vermelha. Enxotando a ave através da porta estendida no chão, onde seus rastos produziram impressões semelhantes às folhas vermelhas do bordo, Hokusai exclamou:

- Folhas de outono nas águas azuis do Rio Tatsuta!


Na realidade, Hokusai era um artista muito cuidadoso e minucioso, que realizava meticulosos estudos experimentais antes de passar os seus desenhos para o papel. Tornou-se um dos mais famosos e estimados artistas do Japão e foi um dos últimos e mais talentosos adeptos da arte chamada ukiyo-e, que em uso comum significa pinturas ou gravuras em madeira representando cenas da vida diária.

O que Hokusai fez foi aperfeiçoar as convenções de milhares de anos e especializar-se em novas técnicas de gravura em madeira – cores, predominância do cenário sobre as figuras humanas, perspectiva – que produziram gravuras cujo efeito geral foi revolucionário.


O que maravilha é que ele tenha realizado isso numa idade em que a maioria dos homens já estão mortos ou aposentados. Muitas das gravuras coloridas que o mundo guarda ciosamente foram feitas quando ele já se encontrava na casa dos 80. Estava realizando um de seus trabalhos mais vigorosos quando morreu, com 89 anos.

Hokusai foi um trabalhador prodigioso, sendo-lhe atribuídos mais de 30.000 desenhos. Viveu em 93 casas diferentes, abandonando uma após outra quando ficavam sujas demais para limpar ou muito oneradas por aluguéis atrasados. Passou toda a sua vida na pobreza porque desprezava o dinheiro: pagava suas dívidas jogando aos negociantes maços de ienes sem contar.

Usou mais de 50 pseudônimos, abandonando-os também toda a vez que descobria algum novo princípio artístico merecedor de um novo nome. Mas é o seu último estilo, o do autêntico Hokusai, que é apreciado; o mundo rude, poderoso, maravilhosamente organizado, com aquele ar de desleixo que é uma pedra de toque da sua arte.


Hokusai foi um menino precoce e paupérrimo de Tóquio. Quando tinha 19 anos era entalhador em madeira. Foi sucessivamente livreiro, negociante de pimentas e pintor itinerante de bandeiras. Casou duas vezes e teve vários filhos que foram uma tribulação para ele, além de um neto cujas operações financeiras acabaram levando Hokusai à falência.

Seu consolo único era sua inteligente filha Oei, que foi uma das primeiras mulheres japonesas a se tornarem peritas em ukiyo-e e que deixou excelentes gravuras próprias.  Ela cuidava do pai e informa que um dia, quando ele já tinha mais de 80 anos, o encontrou no seu banco de desenho chorando porque, “mesmo nessa idade e apesar de todo o seu estudo e esforço, ainda não tinha aprendido realmente a desenhar as coisas como eram”.
Foi para Oei que Hokusai exclamou angustiado no seu leito de morte: - Se Deus pudesse conceder-me mais dez anos! Cinco mesmo! Então eu me tornaria um verdadeiro pintor!

Seus interesses eram tão vastos como o mundo. Escreveu excelentes poesias, foi um bom romancista e publicou muitas obras humorísticas. Aos 68 anos sofreu um ataque que devia tê-lo matado; mas tratou-se ele mesmo, restabelecendo-se, e escreveu e ilustrou um relatório médico sobre a sua autocura.


Se tivesse morrido aos 60 anos, Hokusai teria ficado conhecido principalmente por seus extraordinários volumes chamados Manga, palavra que deveria ser traduzida propriamente por Desenhando as Coisas Exatamente Como São, mas que veio a significar algo como Esboços da Vida.

Povoam as páginas desses 15 livros de gravuras em brochura milhares de seres humanos em todas as atitudes e condições da vida, surgem caranguejos do mar, aparecem fantasmas e flores. Homens mergulham no mar em sinos que prendem o ar para eles respirarem, enquanto cavalos nadam para mostrar os movimentos das pernas.

Arquitetura, história, animais selvagens, lutadores, guerreiros e fantasias mitológicas se misturam numa barafunda que é um prazer estudar.


Por sorte, Hokusai continuou vivo para realizar a sua vida. Entre as suas principais realizações desse período encontra-se Hokusai Gafu, uma coleção de esboços que contém o mais belo desenho de Hokusai – um grupo de cegos conduzindo-se uns aos outros através de um riacho.


Trinta e Seis Aspectos do Fuji, sua série mais famosa, contém duas imponentes vistas da montanha, uma durante uma tempestade e a outra com tempo claro, que são, com bons motivos, as prediletas do público, pois demonstram o formidável controle que Hokusai atingiu finalmente.


A Onda de Arrebentação em Kanagawa, uma obra de arte quase perfeita, também tem sido apreciada por gente de todo o mundo. É típica da série o fato de ter sido pintada principalmente com azul da Prússia, tinta que Hokusai começou a usar na velhice.

Com a idade de 75 anos Hokusai escreveu, num pós-escrito para um livro de desenhos, o que tem sido considerado um epítome da sua vida:


“Desde a idade de seis anos eu tive a mania de desenhar as formas das coisas. Quando cheguei aos 50 anos havia publicado uma infinidade de desenhos, mas tudo o que produzi ante da idade dos 70 anos não vale a pena ser levado em conta. Aos 73 aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza – dos animais, das plantas, das árvores, das aves, dos peixes e dos insetos. Consequentemente, quando tiver 80 anos terei feito progressos ainda maiores. Aos 90 penetrarei o mistério das coisas. E, quando tiver 110, tudo oque eu fizer, seja um ponto ou uma linha, terá vida. Peço àqueles que viverem tanto quanto eu verificarem se não cumpro a minha promessa”.

Assinou estas palavras com o seu último nome e o mais apropriado: Velho Louco por Desenho.
Fonte: SELEÇÕES do Reader’s Digest. Tomo XXXVII, Nbr18. Março de 1960.