sábado, 9 de maio de 2020

Tributo aos Guias de turismo: texto O Camarada, by Visconde de Taunay


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Em época de quarentena, redescubro tesouros escondidos em minha parca biblioteca. Puxo da estante uma pequena obra encadernada com tecido vermelho, garimpada em sebo e que já pertenceu à Biblioteca do Museu da Polícia Federal, como consta no carimbo quase apagado pelo tempo.

Trata-se de um livro editado em 1922, Céos e Terras do Brasil, do Visconde de Taunay, um autor que muito me agrada e de quem já tratamos brevemente aqui no Odepórica.

No pequeno texto que você irá ler, Taunay quase chega a fazer uma elegia a um camarada, que é como ele chama o profissional que hoje conhecemos (guardadas as devidas proporções), como guia de turismo, a pessoa que conduz e assiste viajantes e turistas onde a presença de alguém que conhece bem a região a ser visitada - ou explorada - se faz necessária. 

Fundamental é o papel desses profissionais, quando somos guiados pelas trilhas pouco ou nada demarcadas de um Parque Nacional ou pelas ruas desconhecidas de uma cidade nunca visitada. Por mais que alguém preze viajar sozinho, perdendo-se por paragens inexploradas, vai haver um momento em que seguir com os planos sem um desses guias é simplesmente impossível.

Sem um camarada como o que acompanhou Visconde de Taunay em suas incursões pelos sertões, não teríamos hoje, em nossas vidas de leitores, as mais preciosas obras literárias das narrativas de viagem. Não teríamos, sequer, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, quem muito deve a seus camaradas, em vários sentidos.  

Transcrevo esse texto, um pequeno tributo, a todos os/as camaradas que em muitas de minhas viagens foram profissionais excepcionais e fundamentais para a bem aventurada volta a casa. Sem eles, várias das melhores lembranças de minha vida não existiriam, pelo que sou eternamente grato.
 
O Camarada, by Visconde de Taunay



A bem de algum sossego de espírito e comodidade de corpo, quem viaja pelos alongados sertões do Brasil, precisa ter, em primeiro lugar, um bom e diligente camarada.

Sem ele tudo é tropeço, tudo estorvos e dificuldades; com a sua presença, perspicácia e experiência nada se torna insuperável, nada impossível ou desremediado.

Um camarada enérgico e inteligente, traquejado nas labutações da vida do deserto, observador cauteloso, não das belezas da natureza, mas de tudo quanto nela possa servir-lhe de auxílio e direção, um homem desses é quem substitui, embora em esfera limitada, as inúmeras regalias que a comunhão e o contato da sociedade civilizada nos podem proporcionar.

Dele e só dele é que depende quase unicamente esse bem estar relativo que o viajante busca com a prática conseguir em jornadas tão dilatadas e, senão rodeadas de perigo, cheias, pelo menos, de canseiras e necessidades, como sejam as que se fazem pelas vastas terras do interior.

É ele quem marca com antecedência o pouso e o prepara, desbastando-o logo das ervas mais altas e incômodas; quem levanta a barraca ou arma o toldo e suspende a rede; quem acende o lume; quem vai ao córrego buscar água; trata da comida; cuida dos animais; pensa-lhes as feridas; ata-lhes as cangalhas; arreia os cargueiros; os tange por diante, os socorre nos atoleiros; quem nos tremedais derruba a carga; torna a levantá-la, e tudo isso que representa interessante atividade nos inesperados episódios de um dia inteiro, de sol a sol, sem a menor demonstração de impaciência, sem o mais leve vislumbre de aborrecimento ou de fadiga.



As suas horas de descanso são tão bem aproveitadas, seus minutos tão bem calculados que, mal aponta a primeira barra da madrugada, já estão, quando tudo corre ao seu sabor, os cavalos e besta à soga, comendo em embornais a ração de milho, apanhados que foram em distante pasto. Ferve a água na tripeça para o café da manhã, e, ao chamado do amo, é logo servida a modesta e matutina refeição.

Nada o surpreende. Hábitos arraigados a vida vária e agitada lhe não consente. Ocasiões há em que as coisas lhe não correm às mil maravilhas; outras, em que desandam e como que de propósito se baralham.



Desapareça, por exemplo, um animal de carga ou de sela. É preciso então revolver grandes extensões, estudar o rasto, segui-lo às vezes léguas e léguas, bater matos e capões – afanoso trabalho, tanto mais de infernizar quanto para a viagem é um dia perdido, levantando-se com o sol alto o pouso, para ir-se pernoitar pouco adiante.

E, se na manhã seguinte se repetir o fato, como é usual, recomeça o mesmo lidar, reproduzem-se as mesmas pesquisas, peripécias idênticas, cada vez mais desesperadoras para a paciência mais experimentada e sofredora, e que, entretanto, em nada alteram e imperturbável serenidade do camarada.

Silencioso no mais das vezes, outras tagarela e cantador, depressa cria afeição àquele a quem ajuda mais do que serve e chama, por ponta solidariedade cimentada pela solidão, também de camarada. Cresçam os obstáculos, acumulem-se contrariedades, sobrevenham desgostos d’alma ou enfermidades do corpo, e tornar-se-á carinhoso companheiro, amigo fiel, auxiliar indispensável, sem o qual, em muitas ocorrências, prosseguir fora de todo impossível.

Se tiver cavalgadura, escancha-se nela e vai tocando os cargueiros que põe na estrada; senão, caminha atrás deles, de pés no chão, com passo firme e regular, desde os primeiros albores da risonha aurora até aos últimos clarões do melancólico e roxeado crepúsculo.  

Largo e caudaloso rio corta o caminho e o viajante não sabe nadar. Vestígios de ponte não existem; canoa nunca houve. Que fazer?

Não vacila um só instante o camarada. Depressa amarra os animais a um pau ou touceira; tira-lhes os arreios e cangalhas; despe-se. Abre o couro que dobrado em dois serve de liga às cargas; levanta-lhes as pontas; prende-as com embiras e cordas, e eis num ápice improvisada uma embarcação, decerto frágil e perigosa, mas naquela ocasião meio único de transpor a corrente.

É o que se chama uma pelota.



Enchei-a de carga, cair n’água e bracejar para a outra margem, levando entre os dentes a cordinha a que está presa a pelota, é coisa de minutos. 

Depois lá volta ele, rápido como um poraquê; ganha a praia e, aproveitando o tempo enquanto o couro está seco e duro, carrega passageiros, malas e selins; faz duas outras viagens redondas e por fim tange para o rio bestas e cavalos e os vai dirigindo na difícil transposição com gritos e varadas.

No pouso, embora tomadas todas as disposições para a viagem do dia seguinte, não descansa de todo o camarada.

Se pia uma jaó na mata próxima, lá se vai ele de gatinhas dar um tiro proveitoso a bem do jantar ou da ceia do amo. Se passa volitando uma abelha, e logo após outra e mais outra, lá começa sagaz revista dos troncos das árvores, e daí a pouco ressoa o machado, vibrado por valente braço; baqueia o madeiro e enchem-se os cornimboques (vasos feitos de chifre) de saboroso mel, sobremesa inesperada e que rompe a monotonia da diária e habitual pitança.

Quando a abelha for manduri, os olhos do camarada interrogam só a bifurcação do tronco e a nascença dos dois primeiros galhos. Quando jataí, cujos favos guardam os perfumes das flores, então estuda ele a base das árvores, bem junto ao solo e não tarda em descobrir um conezinho de terra preta e dura, que é a porta do cortiço.

Ao simples relancear de olhos, de pronto conhece se vale ou não a pena trabalhar de machado e derrubar o madeiro. Quando o funilzinho não tem mais de polegada de comprimento, dispensa ele o excesso de serviço; mas, para não perder de todo as passadas, põe por terra alguma palmeira e volta com o palmito ou doce, que é tão grato ao paladar, ou amargoso, ainda mais apreciado dos sertanejos.

Se o dia está calmo, não se esquece o camarada de preparar para o patrão a refrigerante jacuba; parte um pedaço de rapadura, dissolve-o n’água e junta-lhe farinha de mandioca ou de milho, caso seja esta bem fresca.
Esteja encoberto o tempo, meio incerto, cuida logo de fazer ferver a água. Apanha umas folhas de congonha do campo, tosta-as ligeiramente e assim prepara uma infusão de sabor agradável, talvez superior ao do mate.



Quando a estação é de chuvas, trata de levantar o toldo em terreno inclinado: estica com previdente cuidado as alças; bate bem as estacas que as prendem, reforçando-as com cunhas para que o pano resista ao esforço do vento, e cava em torno um rego que dê fácil escoamento às águas, preservando o interior do alagamento e umidade.

No inverno então, sem mais receio de aguaceiros, busca os lugares bem planos e arma uma espécie de tenda frouxa, que serve quase unicamente de abrigo contra o abundante sereno da madrugada.
Assim faz o camarada que entende de viajar; assim procede com espírito calmo, cauteloso e sempre refletido, em qualquer emergência que possa dar-se.

Levar, pois, consigo um homem desses é não só verdadeira felicidade para quem não está acostumado aos padecimentos de uma viagem pelo sertão, como até condição de êxito em arriscadas jornadas no interior das terras.
Essa fortuna a tive eu. Chamava-se Floriano dos Santos o camarada que, por mais de três anos, me serviu com inexcedível dedicação.

Sejam as linhas acima uma homenagem sincera a esse obscuro e precioso auxiliar que hoje não pertence mais ao mundo dos vivos, e cujo nome só em mim desperta reminiscências repassadas de uma gratidão, tanto mais íntima e nobre, quanto se refere a um ente que foi humilde e desconhecido de todos.

Céos e Terras do Brasil. Visconde de Taunay. 5ª ed. Livraria Francisco Alves, RJ. 1922


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