domingo, 3 de maio de 2020

Nikolai Vavilov - o botânico de Stalin, by Ute Eberle


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Nikolai Vavilov, geneticista russo (1887-1943) estudou em Cambridge, foi professor universitário, incansável pesquisador e grande viajante a serviço da ciência. Entre 1916 e 1933, época em que longas viagens eram literalmente uma aventura, Vavilov fez inúmeras expedições mundo afora: Iran, Afeganistão, Etiópia, China, países da América Central e do Sul, incluindo o Brasil, onde esteve entre dezembro de1932 e janeiro de 1933.

Foram mais de 50 países percorridos num período de duas décadas, onde coletou uma imensa quantidade de plantas e sementes levadas para a União Soviética para serem estudadas e reproduzidas – amostras de 50.000 variedades de plantas selvagens e 31.000 espécies de trigo, só para termos uma ideia da dimensão de seu trabalho.

O legado deixado por Nikolai Vavilov, um dos maiores - senão o maior etnobotânico que o mundo já viu-, precisa ser conhecido e sua memória preservada para todas as futuras gerações. O texto que transcrevo a seguir foi publicado na extinta Revista Geo, edição 48 da Editora Escala. Como irei me desfazer da revista, quis deixar registrada a matéria por considerá-la interessante para pesquisadores de botânica em particular e amantes de biografias fascinantes de um modo geral.

O botânico de Stalin, by Ute Eberle



A cela é estreita e desprovida de janela. Uma cama, uma mesa, três prisioneiros. O homem deitado no colchão imundo é Ivan Filatov. Seu crime? Seu tio operava um próspero negócio de madeira. Na União Soviética do início da década de 1940, isso bastava para ser rotulado como um explorador. Ao lado de Filatov encontra-se espremido Ivan Luppol, um filósofo cujos pensamentos desagradaram os governantes estalinistas.

O cheiro naquele cubículo em que os homens estavam presos há semanas devia ser horrível. Uma única lâmpada iluminava o teto. Todos ali, no porão da “Prisão Número 1”, na Rua Astrakhan, em Saratov, estavam condenados à morte. Só não sabia quando os capangas de Stalin levariam a cabo as execuções.

É bem possível que os dois Ivans já tivessem se desesperado há tempos se não houvesse um terceiro homem na cela: Nikolai Vavilov, um homem que não desistia rapidamente. Para distraí-los, ele sugeriu que proferissem palestras uns aos outros. Filatov discorreu sobre o comércio de madeira, Luppol sobre a história – mas falou aos sussurros para que os guardas não o ouvissem. No entanto, devem ter sido principalmente as narrativas de Vavilov que permitiram aos homens sonhar e se ausentar mentalmente por alguns momentos da prisão.

Vavilov era etnobotânico, talvez o maior que o mundo já conhecera. Ele viajou pelos cinco continentes para coletar plantas. Destemido, cruzou o Afeganistão com cavalos de carga; atravessou a Eritreia com uma caravana, e se emprenhou pelas selvas do Brasil. De todos os lugares ele trazia sementes e mudas – aos milhares; provavelmente enchendo instituições inteiras. Desse modo, ele criou a base para a maior coleção de sementes e plantas do mundo.

Foi um empreendimento ousado para uma meta descomunal, porque Vavilov não queria nada além de salvar o mundo da fome – especialmente a sua amada Rússia – por meio do cultivo de plantas que tivessem um rendimento extraordinário até mesmo nos solos inóspitos e agressivos de seu país.



Um sonho difícil de suplantar em grandiosidade; mas a história mostraria que Vavilov estava no caminho certo. Em bora ainda se passassem décadas até o conceito de “biodiversidade” tornar-se uma expressão comum e, mais tempo ainda até que a decodificação do primeiro genoma de uma planta desse certo, o russo já intuía que só a diversidade genética da flora poderia garantir em longo prazo a sobrevivência da humanidade.

Somente assim seria possível encontrar sempre novas plantas que resistissem até às condições mais extremas: terras fracas, secas, frio, pragas. Logo de início, Vavilov percebeu que tinha pouco tempo, pois em suas expedições no início do século 20, ele já tinha constatado o desaparecimento de espécies. Então passou a coletar amostras obstinadamente – mas não testemunharia como o seu tesouro botânico um dia ajudaria milhões de pessoas, tornando-se mais precioso a cada ano.

O ditador Josef Stalin, no entanto, não acreditava no sonho de Vavilov. Ele precisava de bodes expiatórios, porque na Rússia, mais uma vez, as pessoas estavam morrendo de fome e Stalin queria esconder o fato de que era a sua política de coletivização forçada que as estava matando como moscas. Por essa razão, ele aderiu ao maior adversário de Vavilov e apoiou, inclusive, as teorias aparentemente mais agradáveis do jovem e ascendente Trofim Lysenko, que pregava meios revolucionários para estimular o crescimento mais rápido de plantas – e mandou jogar Vavilov no cárcere, como traidor e fracassado.



Agora o homem que fazia tanta questão de etiqueta e roupas adequadas, a ponto de usar um terno de três peças e gravata na selva, vestia um saco esfarrapado, com buracos para a cabeça e os braços, e sandálias grosseiras de casca de árvore. Sua alimentação diária consistia em algumas colheradas de papa de cereais, sopa de tomates podres, um pouco de peixe salgado, e repolho. Seus ossos já despontavam por todos os lados há tempos. Ele sofria de diarreia e suas pernas estavam cobertas de edemas que coçavam. O homem que queria combater a fome no mundo ameaçava tornar-se sua vítima.

Pior ainda: em sua cela, Vavilov deveria ter ouvido falar que o exército alemão estava diante de Leningrado. Era nessa cidade que se encontrava o QG de seu banco de sementes; o núcleo de sua coleção. Desse modo, ele estava ameaçado de perder a própria vida e, literalmente, seus frutos. No entanto, o botânico havia superado muitas situações adversas em suas viagens. Ele ainda tinha esperança.

Foi bom que Vavilov não soubesse da terrível situação em que se encontrava a população de Leningrado. As tropas de Hitler mantinham a cidade sitiada desde o dia 8 de setembro de 1941: nada mais passava para dentro, nem comida, nem dinheiro, nem remédios. Enquanto as áreas residenciais eram alvos de constantes ataques de artilharia, os habitantes transformavam sua última farinha em pão, raspavam o fundo das latas de açúcar, e queimavam o resto do carvão que tinham. Era um inverno especialmente frio – até fevereiro de 1942, pelo menos 200.000 moradores da cidade tinham morrido de fome ou de doenças que seus corpos enfraquecidos não conseguiam mais combater.

No centro dessa desgraça, na opulenta Praça Isaak, localizava-se o “Instituto Nacional para o Cultivo de Plantas”, em cujo edifício baixo e deselegante estavam armazenados milhares de pacotinhos cheios de sementes, raízes e frutos, além de sacos de feijões e contêineres cheios de nozes, tubérculos, e cereais com elevado teor de proteínas – ao todo, várias toneladas de alimentos. Quanto tempo poderia levar até que essa informação se espalhasse pela cidade?


foto: fachada do Instituto Vavilov nos dias atuais (Luigi Guarino/Flickr/CC/)

Os funcionários do banco de sementes tinham conseguido esconder a tempo algumas amostras em uma fazenda experimental fora de Leningrado. Há quase dois anos tentavam adivinhar onde estaria seu chefe Vavilov – ninguém tinha ouvido falar dele desde que ele fora buscado por uma limusine preta para uma “reunião importante”, em Moscou.
Ainda assim, eles deram prosseguimento à missão que ele havia começado com tanto entusiasmo. Eles cuidavam das sementes, testavam sua capacidade de germinação, e as semeavam regularmente para renová-las.

Durante vinte e quatro horas por dia eles montavam guarda no edifício sem aquecimento, para evitar que leningradenses mortos de fome atacassem suas amostras experimentais, destinadas ao propósito muito maior de não salvar apenas alguns agora, mas milhões de pessoas mais tarde. Eles penduraram as caixas de cultivo no teto, para que os ratos, que tomavam conta da cidade desde que os desesperados habitantes haviam matado e comido seus gatos, não pudessem alcançá-las. E queimavam no porão toda madeira que encontravam para aquecer as batatas e impedir que congelassem e se tornassem inúteis.

Os próprios botânicos ficavam cada vez mais fracos. Alexander Shchukin morreu em sua mesa; nas mãos ainda segurava um pacote de amendoins que queria preparar para a semeadura. A perita em aveias Lilija Rodina também morreu de fome, como Dmitri Ivanov, que tinha acabado de transferir milhares de sacos de arroz para outros armazéns. Os colegas lamentaram as perdas – mas seguiram em frente. Mesmo perto da morte, não ocorreu a nenhum deles roubar os estoques de sementes.
Por que não? Isso só é compreensível quando se conhece a Rússia. E Nikolai Vavilov.


foto: Vavilov (casaco sobre o braço) visita a Estação Experimental Pavlovsk

A Rússia na qual Vavilov nasceu, no dia 25 de novembro de 1887, era um país de profundas desigualdades. De um lado, havia a opulenta corte do czar, com seu luxo e banquetes nos quais os convidados se deliciavam durante dias com pernis de ovelhas, veados assados, e gansos que brilhavam na própria gordura. 

Em 1896, Mark Twain escreveu em seu livro The Innocents Abroad que o “czar era um homem que só precisava abrir a boca e navios saíam voando pelas ondas, trens corriam através de planícies, mensageiros se apressavam de aldeia para aldeia; centenas de telegramas transitavam entre os quatro cantos de um reino que era tão grande que ocupava um sétimo de mundo habitável, e incontáveis massas humanas ‘pulavam’ para atender aos seus desejos...”.

Na outra extremidade da escala social definhavam o enorme proletariado dos camponeses. Eles cultivavam os minúsculos campos que os latifundiários lhes concediam com arados medievais de madeira, que mal penetravam na terra; semeavam as variedades tradicionais de cereais, que rendiam muito pouco, já que a maioria dos camponeses não tinha nada para adubar o solo. 

Por hectare, eles colhiam menos de um terço do que os lavradores produziam na Alemanha, e menos da metade do que os franceses. Além disso, pragas e ervas daninhas sempre destruíam uma grande parte da mísera renda. Mesmo em anos bons, os camponeses muitas vezes ficavam sem comida antes da próxima colheita.

Nem de longe todos os anos eram bons. No milênio que precedeu o nascimento de Vavilov, a Rússia sofria, em média, uma catastrófica epidemia de fome a cada oito anos. A primeira vivenciada por Vavilov começou no longo e rigoroso inverno de 18910/91. Após uma colheita magra, 1892 trouxe um verão durante o qual não choveu durante cinco meses. Na região do rio Volga, os cereais, os vegetais e o capim para o gado secaram nos campos. 

foto: poster soviético de 1921: "Lembre-se daqueles que passam fome"

Enquanto os coletores do czar exigiam mais impostos dos camponeses – se necessário até espancando-os - 20 milhões de pessoas ficaram sem estoques de alimentos. Muitos se viram obrigados a comer o chamado “pão da fome” – uma repugnante massa de palha picada, gramíneas, cascas de árvores, areia e até esterco seco.

Hordas de mendigos perambulavam pelo país, difundindo difteria, febre tifoide e, especialmente, cólera. Alguns camponeses perdiam suas casas, consumidas por incêndios que eles eram fracos demais para apagar. Aquela epidemia de fome custou a vida de 400.000 pessoas. Na época, Vavilov tinha apenas cinco anos.

Embora crescesse em Moscou, onde seu pai se tornara um industrial bem sucedido, apenas uma geração separava Vavilov do proletariado. Seu avô ainda tinha sido servo em uma aldeia, e Vavilov sempre nutriria um senso de obrigação em relação ao proletariado. Em seu diário, quando jovem, ele jurou que dedicaria sua vida “a trabalhar pelo bem dos pobres e promover o conhecimento deles”.

Embora o pai quisesse que o filho entrasse no mundo dos negócios, Vavilov foi atraído pela Ciência. Primeiro ele flertou com a ideia de estudar medicina, mas acabou se decidindo pela Academia Petrovsky, em Moscou, a única escola de agronomia do reino.
Eram tempos agitados para os biólogos. 

Em 1865, Gregor Mendel havia provado que ervilhas e feijões – e, com isso, todas as plantas – repassavam às suas descendentes características que seguiam regras fixas. Sua descoberta foi revolucionária, embora praticamente ignorada. Somente 35 anos mais tarde ela seria redescoberta e confirmada por testes. Pela primeira vez, os agrônomos puderam cultivar controladamente novas variedades, em vez de confiar apenas em sua intuição. Quando tinham uma planta particularmente resistente à geada ou muito produtiva, eles podiam isolar essas propriedades por meio de cruzamentos e combinações selecionadas.



Vavilov reconheceu rapidamente que com o novo conhecimento podia criar plantas cultiváveis capazes de resistir até ao inóspito clima da Rússia. Homem robusto, com bigode cuidadosamente aparado e um otimismo quase indestrutível, ele rapidamente conquistou a atenção dos outros. “Assim que entrava em uma sala, ele parecia preenchê-la e se transformar no centro das atenções”, disse um conhecido. “Ele se movia com agilidade e parecia estar constantemente sob tensão.”

Quando ainda era estudante, Vavilov empreendia excursões para coletar plantas e sementes e, após tornar-se professor em Saratov, aos 30 anos, ele começou a estender cada vez mais as suas viagens. Nas duas décadas seguintes, o pesquisador viajou para 52 países e enviou seus colaboradores para mais uma dezena deles.

Em suas excursões de pesquisa, Vavilov se concentrava principalmente em regiões altas e montanhosas onde, em sua opinião, cresciam as plantas mais versáteis e resistentes. Para coletar suas sementes, ele muitas vezes arriscava a própria vida.

Na Ásia central, seu cavalo disparou com ele por um estreito passo nas montanhas e quase lançou os dois ao abismo – mas Vavilov havia encontrado uma variedade de centeio que prosperava em grande altitude e no frio. No Irã, ele enfrentou torturantes 50ºC à sombra – e coletou uma espécie de trigo que crescia até nas crostas de uma salina.

No Nuristão, uma província do Afeganistão, as trilhas montanhesas eram tão inacessíveis que os cavalos de carga ficavam ensanguentados, porque caíam reiteradamente ou rolavam pelas encostas abaixo. No entanto, foi no Afeganistão que Vavilov coletou as sementes de quase 7.0000 plantas – de lentilhas pretas até uma cevada cor violeta. Na Argélia, ele descobriu cebolas de quase dois quilos; no Cazaquistão, florestas de macieiras silvestres; no Japão, nabos que pesavam 16 quilos. “De longe, eles podiam ser tomados por leitões”, escreveu ele.

Nessas viagens, ele foi preso diversas vezes por ser considerado um espião. Nativos locais atiravam nele ou o bombardeavam com pedras. Em uma travessia de rio ele quase se afogou, adoeceu de malária e febre tifoide; e, em uma tenda no nordeste da África a luz de sua lanterna atraiu tantas aranhas e escorpiões venenosos que “todo o chão parecia vivo”.


foto: final de dezembro de 1926: Nikolai Vavilov quer empreender uma expedição pela Abissínia, atual Etiópia - e recebe uma autorização do regente Ras Tafari. O botânico e o posterior imperador Haile Selassié entendiam-se perfeitamente bem.

No entanto, nessa excursão ele fez tantas descobertas que necessitou de quatro dias e noites para identificar as amostras dos despachos de volta à Rússia, “Minhas mãos ficaram dormentes com o preenchimento dos papeis alfandegários. Enviei 59 pacotes e, antes desses, outros 61 a partir de Adis Abeba, Djibuti e Dire Dawa – uma total de 120 pacotes do leste da África”.
    
Junto com sua equipe, o professor coletou 250.000 sementes e amostras de plantas na Ásia, América Latina, África, Europa e América do Norte – e documentou como a diversidade vegetal em algumas partes do mundo era muito maior do que em outras. Na Anatólia, por exemplo, ele notou diversas espécies de trigo; nos Andes, de batatas; e no sul da Ásia, uma grande variedade de arroz e cana-de-açúcar. 

Vavilov batizou essas regiões de “centros de origem”, por acreditar que no passado elas foram o berço da agricultura. Embora tenha se enganado nisso, os “hotspots” definidos por ele desempenham um papel relevante até hoje no estudo da biodiversidade.

Ele trabalhava incansavelmente e não se permitia um descanso. Quando o tempo disponível durante o dia era insuficiente, ele recebia estudantes após a meia-noite. Dizem que falava 15 ou até talvez 22 idiomas e dialetos. Quando seu intérprete de língua farsi se mostrou incompetente e beberrão durante uma expedição, ele o dispensou e a partir daquele momento levantava uma hora mais cedo “para estudar a gramática chata dessa língua” – e se comunicou por meio dela sem maior ajuda pelo resto da viagem.

Segundo suas anotações, a cada descoberta que fazia, ele se perguntava: “O que se pode fazer com isso na prática?”; “Como essas plantas podem ser utilizadas agora, imediatamente, para ajudar o meu país e todos aqueles que se matam, para produzir alimentos nesse planeta?”.

foto: O retrato de Nikolai Vavilov. (Dag Endresen/Flickr/CC/)

Vavilov estava tão obcecado que não queria se preocupar com nada além de sua pesquisa. Muito menos com política. Para isso, porém, ele estava vivendo no século errado. Em 1917, o czar foi derrubado do trono e, em outubro daquele ano, os bolcheviques, comandados por Lênin, assumiram o poder. Eles desconfiavam dos pesquisadores, frequentemente procedentes das classes mais distintas, mas Lênin também sabia que precisava deles se a Rússia quisesse sobreviver como um Estado.

Portanto, ele nomeou Vavilov como diretor do Instituto em Leningrado (na época ainda Petrogrado), que o biólogo expandiria nos próximos anos como núcleo de uma rede de 400 institutos e estações de pesquisa espalhados por todo o país.

Por fim, cerca de 20.000 pessoas cuidavam das sementes e plantas colhidas ao redor do globo em estações que iam de Murmansk, no norte, ao Turcomenistão, no sul; de Kaunes, no oeste, a Vladivostok, no leste. Esses técnicos semeavam campos experimentais em diferentes zonas climáticas e analisavam as propriedades úteis das plantas que nasciam. Por meio de cruzamentos, eles pretendiam reunir o maior número possível de características positivas em variedades isoladas. Tudo isso, no entanto, levava tempo – e quando Lênin morreu, em 1924, o tempo começou a se esgotar para Vavilov.

O sucessor de Lênin, Josef Stalin, precisava de resultados rápidos, como seus capangas começaram a banir os maiores e mais experientes fazendeiros para a Sibéria, a partir de 1928/1929, e aldeias inteiras eram convertidas à força em fazendas coletivas, a fome revisitou a Rússia. Para aplacar a ira popular, Stalin prometeu safras cada vez mais rentáveis, graças às invenções de pesquisadores soviéticos. Para isso, ele deu a Vavilov um prazo de três anos para criar novas super variedades.  Mas o biólogo sabia que isso era impossível.

No entanto, havia um homem que garantia exatamente isso ao líder soviético. Trofim Lysenko era um pequeno funcionário em uma estação de aprimoramento de plantas no interior do Azerbaijão; “um homem magro, que nunca parede sorrir, e constantemente transmitia uma sensação de dor de dente”, escreveu o jornal do Partido “Pravda” em um artigo.

foto: Trofim Lysenko

Sua biografia agradava aos socialistas: Lysenko era filho de um camponês, que só havia aprendido a ler aos 13 anos. Além disso, o plano com o qual ele pretendia aumentar o rendimento das colheitas se encaixava bem na visão de mundo marxista. Baseado em uma tese do século 19, Lysenko declarou que podia “educar” as plantas: se cereais fossem obrigados a crescer no frio, por exemplo, eles produziriam descendentes resistentes a geadas.

Embora os estudos com que ele pretendia provar sua teoria fracassassem, Lysenko era um demagogo astuto e desonesto. Ele falsificou seus dados e convenceu Stalin de que sua abordagem resultaria em safras 40% mais gordas.

No entanto, os pesquisadores que acreditavam em hereditariedade genética, não conseguiram acompanhar essas fantasias de sucesso – e caíram em desgraça. No dia 11 de março de 1930, a polícia secreta de Stalin começou a montar um dossiê sobre Vavilov que, na época, ainda era um dos cientistas mais poderosos do país. Dali em diante, os agentes passaram a buscar provas de que o botânico agia como um traidor da pátria; por exemplo, ao viajar pelo mundo para coletar sementes à custa do Estado.

Com o passar dos anos, vários geneticistas desapareceram misteriosamente dos institutos – alguns foram executados, outros libertados novamente – mas o preço foi corroborar as alegadas atividades fraudulentas e traiçoeiras de Vavilov. Consequentemente, Stalin o proibiu de viajar para o exterior e infiltrou espiões em seu ambiente de trabalho.

foto: selo comemorativo lançado pelo correio soviético no centenário de nascimento de Vavilov

O pesquisador sentiu o perigo, mas embora pudesse ter fugido a tempo para o exterior, onde tinha muitos amigos e era festejado por seu trabalho, ele permaneceu fiel à sua pátria-mãe. “Queimaremos na fogueira, mas não negaremos nossas convicções”, teria jurado ele diante de colegas em 1939.

No dia 6 de agosto de 1940, a polícia secreta prendeu Vavilov e o acusou de alta traição. Nos onze meses seguintes, ele seria submetido a quase 400 interrogatórios, muitas vezes à noite e frequentemente até 13 horas seguidas, durante as quais ele era obrigado a ficar em pé. Por fim, ele admitiu ter pertencido a uma organização contrarrevolucionária.

Vavilov foi torturado? Ou ele teria apostado ousadamente em que a polícia secreta se contentaria com  a falsa confissão e o tratasse com clemência?

Nesse caso, seu plano falhou. No dia 9 de julho de 1941, um tribunal militar condenou Vavilov à morte. Os juízes precisaram de apenas cinco minutos para tomar a decisão. Embora um ano depois o pesquisador tenha tido sua pena comutada para 20 anos de internamento em um campo de trabalhos forçados, seu corpo já estava destruído. Em 24 de janeiro de 1943, Vavilov foi levado ao hospital da prisão rural com febre alta.

“Aos olhos do passado, vocês estão vendo diante de si o acadêmico Vavilov; mas aos olhos dos acusadores de hoje apenas um pedaço de m...”, ele mesmo teria dito ao se apresentar. Dois dias depois, o homem que queria vencer a fome no mundo morreu em consequência dos efeitos da desnutrição crônica.

foto: Cada caixinha contém uma amostra. Apesar da aparência antiga, as instalações são eficientes em conservar as sementes. (Dag Endresen/Flickr/CC/)

Seu banco de sementes, porém, sobreviveu. Quando o cerco a Leningrado terminou, após 900 dias, pelo menos meio milhão de habitantes estavam mortos, inclusive nove funcionários do Instituto. No entanto, os estoques de sementes continuavam quase completos e, com o que estava armazenado em outros institutos espalhados pelo país, os funcionários sobreviventes deram prosseguimento à missão de Vavilov. Um quarto de século depois de sua morte, 400 novas variedades já haviam resultado de sua coleção; entre elas uma variedade de grão-de-bico resistente a secas e pragas, e uma espécie de trigo precoce.

Graças ao rendimento adicional dessas culturas, o número das epidemias de fome nas repúblicas controladas pelos soviéticos caiu drasticamente.

Em 1979, calculou-se que em 80% das lavouras soviéticas cresciam plantas cujas sementes se originavam dos centros de pesquisa de Vavilov. Os rendimentos dessas espécies híbridas trouxeram ao Estado cinco milhões de toneladas de alimentos adicionais. A essa altura o pesquisador já tinha sido reabilitado há muito tempo.

foto: A herança científica sobreviveu à era de Stalin - ainda hoje o banco de sementes que leva o seu nome, em São Petersburgo, preserva as amostras de plantas.


O resto do mundo também se beneficiou. Embora hoje existam muitos bancos de sementes, incluindo o Global Seed Vault, na gelada ilha de Spitzbergen, o fato é que ali também só pode ser preservado o que foi colhido a tempo. No entanto, de acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) o mundo perdeu 75% de todas as plantas cultiváveis conhecidas desde os dias de Vavilov. Só nos Estados Unidos, desapareceram 660 de 688 variedades de feijão verde, além de 516 de 544 espécies de repolho, e 742 e de 798 espécies de milho, entre 1903 3 1983. No México, 80% das antigas variedades de milho sumiram; e nas Filipinas, onde os agricultores costumavam semear milhares de variedades de arroz – hoje só crescem duas, em 98% das lavouras.

São justamente essas monoculturas que são tão suscetíveis a grandes quebras de safras; por exemplo, por causa de pragas que invadem novas zonas de crescimento devido às alterações climáticas.

No banco de sementes de Vavilov, que até hoje é estatal, estão armazenadas sementes de plantas que já não existem mais em sua terra natal. Algum dia, seus genes poderão salvar a humanidade de uma catástrofe; especialmente porque os supermercados bem abastecidos dos países desenvolvidos encobrem o fato de que nos armazéns do mundo muitas vezes só há estoques de cereais para algumas poucas semanas.

A experiência das últimas décadas mostra que a salvação dos agricultores muitas vezes está no genoma de plantas cultiváveis aparentadas. Os botânicos, por exemplo, estão utilizando os genes do trigo selvagem para imunizar o trigo cultivável contra os ataques de uma espécie de fungo. E uma única amostra de uma espécie de arroz selvagem da Índia ajudou a desenvolver variedades resistentes a duas pragas que atacam as plantações na Ásia.
Exatamente como Vavilov suspeitava.

Em sua reconstrução dos acontecimentos que cercaram Nikolai Vavilov,  a jornalista científica Ute Eberle se baseou, entre outros, no livro de Peter Pringle: The Murder of Nikolai Vavilov, publicado em 2008.
autoria das fotos sem crédito tiradas da revista Geo: VIR/WhiteNightPress; Andreas Fechner; Hulton Dutch/Corbis


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