domingo, 3 de março de 2019

As viagens na Idade Média, parte III


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Sistematizações precárias

A Idade Média, sem dúvida, foi uma época de viagens. Mesmo, como vimos, em meio às dificuldades. Um dos maiores problemas enfrentados por quem quer que se pusesse em viagem, fosse mercador ou clérigo, rico ou pobre, consistia em encontrar alojamento.

Um problema que soberanos, reis e imperadores não tinham – sorte deles – uma vez que, da era carolíngia até a Baixa Idade Média, tinham decretado por lei que os mosteiros, as abadias e os grandes feudatários, tinham obrigação de hospedá-los (sempre que não existissem propriedades pertencentes ao governante) com toda a sua corte durante os inúmeros deslocamentos de uma ponta a outra de seus domínios.


Essa obrigação, conhecida como “direito de hospedagem”, com o tempo foi substituída por uma taxa anual ou recompensada em forma de isenções e privilégios.

Quanto ao resto, nos primeiros séculos da Idade Média quando, no fim das contas, a mobilidade era mais contida, era muito comum a hospitalidade gratuita. Com base no princípio, regulamentado pelas leis dos reinos romanos e bárbaros, de que o hóspede era sagrado e gozava da proteção do soberano, quem batia à porta de qualquer casa podia esperar receber, além de um teto sob o qual dormir, também alimento e água para si e seu cavalo ou sua mula.


Naturalmente, não infinitamente: dois, três dias no máximo (daqui vem, provavelmente, o famoso ditado segundo o qual o hóspede, depois de três dias, começa a feder). Depois disso, ou retomava sua viagem, ou procurava um trabalho para se manter. Oferecer hospedagem a um viajante também podia se revelar, de fato, dispendioso: principalmente nas áreas mais isoladas e escassamente mantidas, porém hospedar um forasteiro sempre constituía uma agradável novidade e era uma boa ocasião para saber o que acontecia em outras partes do mundo, ou ao menos uma cidade não muito distante.

Que a hospitalidade fosse considerada um dever não é uma novidade. Desde os tempos mais antigos, em quase todas as civilizações, havia formas gratuitas de hospedagem com base na convicção, por exemplo, no mundo greco-romano, e no mundo germânico, de que os deuses vagassem sobre a terra, assumindo veste de viajantes, recompensando ou punindo quem se mostrasse generoso ou avaro.


Já no século I, o historiador latino Tácito, em sua Germania – obra que descreve em detalhes os usos e costumes das tribos da Europa Centro-setentrional até então pouco conhecidos – destaca a acolhida como uma das qualidades maiores e mais genuínas dos germanos:

Nenhum outro povo possui mais destacado o senso de convivência e o da hospitalidade. Para eles é inadmissível não aceitar alguém em sua casa. Todos acolhem o hóspede em sua mesa, servida de acordo com os meios de que dispõem. Faltando alimento disponível, quem tinha oferecido a hospitalidade lhe indica uma outra casa e o acompanha até ela; mesmo sem convite, entram na casa vizinha e não há diferença: são acolhidos com a mesma deferência.

No que diz respeito à hospitalidade ninguém faz distinção entre pessoas conhecidas e desconhecidas. Quando o hóspede parte, é costume dar-lhe o que pedir, e a franqueza no pedir é equivalente. Os dons são para eles uma alegria, nem quem dá se sente em crédito, nem quem recebe, em dívida.


No início da Idade Média, as leis bárbaras (séc.VII) coletadas confirmam o dever da hospitalidade, que durava de dois a três dias e incluía alojamento, lugar para o fogo, água, lenha para queimar e capim para os cavalos. A comida, por sua vez, não estava incluída, e o hóspede devia providenciar por si, adquirindo-a em outro lugar, ou, se era afortunado, no mercado local. 

No direito dos francos era proibido acolher algumas categorias de pessoas que tinham se envolvido em delitos ou ações consideradas inaceitáveis: profanadores de tumbas, mulheres livres que haviam dormido com escravos e ladrões.


No direito lombardo, por sua vez, quem hospedasse um fugitivo – sobretudo se se tratasse exatamente de um escravo in fraida, “em fuga” – era punido com uma multa igual ao valor do próprio escravo. 

Essas disposições permanecem em vigor, com algumas variantes, por quase toda a Alta Idade Média, até o início do ano mil, embora, nas regiões mais periféricas daquele que, no meio-tempo, havia se tornado o Sacro Império Romano, se tendia a oferecer hospitalidade aos estrangeiros apenas em caso de mau tempo ou no inverno: em todo caso, o forasteiro era gentilmente convidado a acampar em área aberta a arranjar-se o que comer.


Além das casas privadas, a hospitalidade gratuita também era ofertada pela Igreja. Nos primeiros séculos da era cristã, de início no Oriente e depois no Ocidente, a obrigação de acolher os viajantes era exercida nos denominados xenodochia (ou seja, hospedarias), próximas aos mosteiros, mas separados deles para evitar perigosas distrações: como, porém, a obrigação da acolhida caridosa por parte dos mosteiros e das igrejas se estendia aos peregrinos e aos pobres, logo essas hospedarias já não eram mais suficientes.

Os xenodochia, com o tempo, se tornaram cada vez menos disponíveis para forasteiros e mais voltados à assistência dos pobres, dos órfãos e dos anciãos. Foi preciso esperar até o século XI para vê-los povoar-se novamente de peregrinos e viandantes de todo tipo.


A renovada mobilidade europeia a partir do ano mil marcou o nascimento- ou renascimento – de locandas e albergues. Com o aumento da população e das transações comerciais, de fato, também os pedidos de alojamento aumentaram desmedidamente, e a hospitalidade gratuita não era mais suficiente para satisfazer a demanda.

Também porque há tempos havia sido introduzido o costume de impor aos hóspedes o pagamento, pelo menos, das refeições. Mesmo assim nem sempre se encontrava lugar. Por ocasião das feiras populares e dos mercados, as cidades eram de tal modo tomadas que os viajantes tinham de pernoitar em alojamentos emergenciais ou a céu aberto.


Nesses casos, um bom alojamento era garantido apenas se se dispunha de um valor em dinheiros ou de bens para empenhar. Pela leitura de um sermão – estamos em 925 – do bispo Aton de Vercelli, que admoestava os fiéis contra a prática de hospedar apenas a quem se apresentava com bens preciosos, intui-se que havia quem se aproveitasse chegando a explorar a situação de necessidade para enriquecer.

Albergues militares


A partir do século XI, com a abertura do capítulo das “cruzadas”, um novo fenômeno invade a Europa: o das ordens cavalheirescas. Os pressupostos para seu nascimento foram lançados durante a reforma gregoriana, quando elaborou-se o conceito de militia christi, um exército de Cristo, preparado para defender até mesmo com as armas os princípios da Cristandade.

Fundada na sequência da conquista de Jerusalém (1099), as primeiras ordens eram, na verdade, compostas por leigos que viviam em comum, respeitando os votos de pobreza, castidade e obediência, mas jurando simultaneamente proteger os peregrinos e combater os infiéis. Não se tratava, portanto, de monges em sentido estrito: a Igreja, aliás, se recusou por muito tempo a reconhecer esses grupos como “ordens religiosas”, porque era contrária à ideia de que um monge pudesse pegar em armas.


Desses, tampouco faziam parte apenas cavaleiros, já que a maior parte dos membros se constituía de não nobres (os assim chamados servientes, de onde originou-se  o nossos termos “sargento”). 
A primeira a ser fundada foi a Ordem dos Cavaleiros de São João (cujo nome foi tomado da hospedaria homônima de Jerusalém); nascida leiga no ano de 1099, tornou-se religiosa apenas em 1154.

Nascida para fins de assistência, participou ativamente de todas as batalhas contra os muçulmanos. A mais importante foi a dos templários, que tinha o quartel-general na área do antigo Templo de Salomão (surgida em 1118, oficializada em 1163), ao passo que a última foi as dos teutônicos, nascida durante a terceira cruzada (1143) em São João de Acre e tornada oficial em 1199, outras ordens militares surgiram na Espanha durante a Reconquista.


O surgimento e o desenvolvimento das ordens religiosas militares foi também resposta aos inúmeros perigos que ameaçavam peregrinos durante as viagens. Elas os defendiam contra os assaltos dos ladrões e contra os infiéis, mas também lhes davam assistência em caso de epidemias, principalmente a peste.

As cruzadas determinaram deslocamentos em massa: centenas e centenas de pessoas que se moviam sobre as estradas, chegavam aos portos, pululavam nas cidades. A presença das ordens cavalheirescas na Terra Santa, portanto, foi essencial para garantir condições de hospitalidade satisfatórias: até aquele momento, de fato, quem se encaminhava ao Oriente Próximo podia contar com abrigos decadentes, com dezenas de pessoas amontoadas e imundos almofadões de feno.

Graças à criação de postos de assistência (mansiones) ao longo das estradas, nos portos e nas cidades, quem ia combater ou rezar nos lugares santos podia ao menos contar com uma acolhida melhor, mais espaço e condições higiênicas decisivamente melhores.

Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.


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