domingo, 31 de março de 2019

Chuva com lembranças, by Cecília Meireles


.


Há tempos não passava uma manhã de sábado perambulando pelos sebos de São Paulo. Para quem gosta de livros, programa melhor não há para se fazer nessa cidade que vê, pouco a pouco, suas livrarias fechando as portas, fato triste que ocorre em todas as cidades, alguém há de explicar o motivo.

Mas os sebos parecem resistir, só não sabemos até quando, porque as mudanças acontecem num ritmo assustador, sobretudo para quem já não vive mais no mesmo ritmo da juventude. Quando tudo parece pedir urgência, ter um livro em mãos e um tempo razoável de ócio chega a parecer uma provocação, um desperdício de tempo que não acompanha a realidade da vida que se leva hoje.



Gosto dos sebos pelo ar de mistério que alguns deles possuem; gosto do cheirinho de mofo, da ordem desordenada de suas prateleiras, do silêncio, de abrir livros ao léu procurando dedicatórias, de ler passagens grifadas e anotações miúdas feitas a lápis nas páginas amareladas pelo tempo, meu voyeurismo literário.

E nessa última andança pelos sebos, em que não buscava nenhuma obra em particular, vejo sobre uma pilha de livros no chão um livrinho branco de capa dura com bonita ilustração de uma pessoa pedalando uma bicicleta, no que parece ser um final de tarde e que, para minha surpresa, descubro tratar-se da obra Escolha o seu sonho, de Cecília Meireles.




Abro o livrinho e está lá a dedicatória que o Luiz Carlos Cardozo fez à amiga Gigi em 1974, com amizade e votos de felicidade. Há quantos anos eu não ganho de presente um livro com uma dedicatória? – me pego pensando.

De Cecília Meireles não é preciso falar nada além do que já sabemos todos: foi uma de nossas excelsas poetisas. Mas o livrinho que tenho em mãos é uma seleção de crônicas publicadas no mesmo ano em que Cecília nos deixou, 1964. São todas belas, carregadas de poesia e domínio da língua que tanto me fascina nessa grande escritora.

Escolha o seu sonho, a que dá nome à obra é de fato uma das crônicas mais bonitas, porém decidi transcrever outra que muito me marcou pela beleza e que também traz um viés odepórico saudosista, ao tratar das lembranças das chuvas em nossas viagens. Vale muito a pena a leitura.
Chuva com lembranças



Começam a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que nem as borboletas ainda perceberam, e continuam a pousar, às tontas, de jasmim em jasmim. As pedras estão muito quentes, e cada gota que cai logo se evapora. Os meninos olham para o céu cinzento, estendem a mão – vão fazer outra coisa. (Como desejariam pular em poças d´água! – mas a chuva não vem...).

Nas terras secas, tanta gente a esta hora está procurando, também, no céu um sinal de chuva! E nas terras inundadas, quanta gente estará suspirando por um raio de sol!

Penso em chuvas de outrora: chuvas matinais que molham cabelos soltos, que despencam as flores das cercas, que entram pelos cadernos escolares e vão apagar a caprichosa caligrafia dos exercícios!



Chuvas de viagens: tempestade na Mantiqueira, quando nem os ponteiros do para-brisa dão vencimento à água; quando apenas se vê, na noite, a paisagem súbita e fosfórea mostrada pelos relâmpagos. Catadupas despenhando sobre Veneza, misturando o céu e os canais numa água única, e transformando o Palácio dos Doges num barco mágico, onde se movem pelos tetos e paredes os deuses do paganismo e os santos cristãos.




Chuva da Galileia, salpicando as ruas pobres de Nazaré, regando os campos virentes, toldando o lago de Tiberíades por onde andaram os apóstolos. Chuva pontual sobre os belos campos semeados da França, e na fluida paisagem belga, por onde imensos cavalos sacodem, com displicente orgulho, a dourada crina...

Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de eternas enchentes: a de 1811, que com o desabamento de uma parte do morro do Castelo soterrou várias pessoas, arrastou pontes, destruiu caminhos e causou tal pânico em toda a cidade que durante sete dias as igrejas e capelas estiveram abertas, acesas, com os sacerdotes e o povo a pedirem a misericórdia divina.




Uma, de 1864, que Vieira Fazenda descreve minuciosamente, com árvores arrancadas, janelas partidas, telhados pelos ares, desastres no mar, e “vinte mil lampiões de iluminação pública completamente inutilizados”.

Chuvas modernas, sem trovoadas, sem igrejas em prece, mas com as ruas igualmente transformadas em rios, os barracos a escorregarem pelos morros; barreiras, pedras, telheiros a soterrarem pobre gente! Chuvas que interrompem estradas, estragam lavouras, deixam na miséria aqueles que justamente desejariam a boa rega do céu para a fecundidade de seus campos...




Por enquanto, caem apenas algumas gotas aqui e ali, que nem as borboletas percebem. Os meninos esperam em vão pelas poças d´água onde pulariam contentes. Tudo é apenas calor e céu cinzento, um céu de pedra onde os sábios e avisados tantas coisas liam, outrora...

São Jerônimo, Santa Bárbara Virgem,
Lá no céu está escrito,
Entre a cruz e a água benta:
!Livrai-nos, Senhor, desta tormenta!”

Leia: Escolha o seu sonho. Cecília Meireles. Círculo do Livro: São Paulo, 1974.


domingo, 17 de março de 2019

As viagens na Idade Média, parte IV - final


.

Tabernas em comum

Voltando aos lugares ordinários para alojamento, se os mercadores, sobretudo em cidades como Veneza, acostumaram-se a se alojar em construções específicas, metade armazéns (os fondaci), os peregrinos e viandantes ocuparam as locandas que, caídas em desuso depois das invasões bárbaras ou transformadas em locais duvidosos, frequentados por pessoas sem dinheiro, passaram por uma verdadeira recuperação até tornar-se, no século XIV, o único ponto de referência para quem viajava.


Essas locandas não tinham nada a ver com nossos albergues. Na Europa Ocidental e Central, em geral, eram edifícios de pedra ou de madeira com uma única lareira, e hospedavam ao mesmo tempo pessoas e animais. O número de leitos oscilava entre três e vinte, colocados em círculo nos andares superiores, ao passo que nos inferiores se encontravam os estábulos, depósitos, cozinhas e salas de refeição.


Para os hóspedes mais endinheirados havia a possibilidade de ficar em quartos privados. Nas locandas mais equipadas, os leitos eram com baldaquino ou com rodinhas, com cobertas e lençóis, enquanto nas mais humildes o pernoite era em um simples colchão de palha.

Normalmente todos comiam juntos, sem distinção, e a comida era bastante frugal: vinho e pão, às vezes algum acompanhamento. Apenas hóspedes importantes podiam consumir refeições mais abundantes (com peixe e carne) em quartos separados.


Nas zonas menos desenvolvidas, como na Europa do leste, ou na Espanha – onde multidões de peregrinos acorriam pelos caminhos que levavam a Santiago de Compostela -, a situação era claramente pior: o antigo provérbio francês “O amor é como uma locanda espanhola: cada um encontra somente aquilo que leva consigo” é muito eloquente a esse propósito.

Nem todas as locandas eram iguais. As das cidades, em geral, eram melhores do que as rurais. Na Alemanha e na França, ademais, elas se distinguiam com base na tipologia dos fregueses: senhores a cavalo, cocheiros, forasteiros a pé. Existiam locandas para estudantes, operários, mulheres, enfermos e, obviamente, os bordéis.


Em todas, de qualquer modo, as condições higiênicas estavam muito longe das nossas. Água corrente não havia, os viajantes eram muitos e dormiam nas mesmas camas, em toda parte reinava a promiscuidade. Avistar piolhos se movendo sobre os colchões de palha não devia ser um espetáculo muito raro.


Tabernas e locandas – as primeiras com uma fama nitidamente péssima – eram lugares onde, além de pernoitar, se podia comprar mercadorias como em um verdadeiro mercado, o que explica por que, com a difusão dos comércios e a ascensão da classe mercantil na Baixa Idade Média, essa segunda “atividade” foi sendo deixada em segundo plano até desaparecer quase por completo.

Como se reconhecia uma locanda? Com certeza, ao menos a partir do século XIII, pela insígnia: em geral era uma coroa ou um barril com um círculo metálico suspenso, que indicava a venda de vinho. A isso, passou a ser cada vez mais comum acrescentar, da Baixa Idade Média em diante, o nome: “Da coroa”, “Ao Cervo”, e assim por diante. De resto, pela aparência não se distinguia muito das demais habitações.


Os proprietários das tabernas, contrariamente ao que os clichês difundidos levariam a pensar, nem sempre eram pessoas de condição humilde. Havia, nessa categoria, também um conspícuo número de gente conhecida, rica e respeitada; isso, obviamente, se refletia na “fama” da locanda.

Em Florença, por exemplo, os Estatutos das Artes contemplavam três categorias de taberneiros: os melhores ofereciam comida e alojamento ao viajante e à cavalgadura; os médios hospedavam apenas uns ou outros; e os inferiores forneciam ou comida ou alojamento.


Naturalmente, não eram obrigados a acolher todo mundo, aliás, tinham o dever de manter distantes pessoas suspeitas não apenas por disposição legal (a obrigação específica apareceria somente no século XV), mas também porque seriam chamados a responder por eventuais crimes ou ações desonestas que essas pessoas cometessem. Antes de entrar no local, os hóspedes (salvo raras exceções) tinham de entregar as armas: se não o fizessem, o taberneiro podia recusar-se a atendê-los. 

Uma vez acolhidos, eles tinham de observar algumas normas de comportamento, sob pena de ser denunciados à autoridade competente. O jogo era proibido ao menos nos períodos das festas, assim como não eram permitidas apostas de bebidas, embriaguez, xingamentos e palavrões. O quanto essas regras eram de fato obedecidas, é impossível dizer.

Viagens fantásticas


As viagens na Idade Média, portanto, comportavam uma série de provas físicas significativas. Conseguir realizá-las sem danos era, em certo sentido, um empreendimento que nem todos eram capazes de levar a termo. Mas havia um outro tipo de viagem, a “espiritual”, feita na imaginação, em busca de terras prometidas, do paraíso, ou da Verdade. 

Era possível ser um viator (“viandante”, literalmente, “aquele que vai pela via”) por itinerários preestabelecidos, ou então um peregrinus (“peregrino”), não apenas no sentido espiritual e religioso. A viagem podia ser uma metáfora da vida, ou uma busca no mundo das ideias e das imagens mentais.


Um caso todo particular é a narrativa fantástica relacionada à navegação de São Brandão, um monge que realmente viveu no contexto histórico da Irlanda dos séculos V-VI, em sua grande parte ainda pagã e percorrida de Norte a Sul por missionários que pregavam o Evangelho e construíam mosteiros.
A trama da obra é simples. 

Depois de apresentar o protagonista, narra-se o seu encontro com o Abade Barinto, que o informa de uma viagem realizada com seu discípulo Mernoc em busca da misteriosa “Terra prometida dos santos”: uma ilha onde o sol nunca se põe, e não existe nem fome nem sede, e o ar é cheio de um perfume maravilhoso.


Ao ouvir isso, Brandão decide parir para encontrá-la. Tendo escolhido quatorze monges, depois de um jejum preparatório de quarenta dias, a comitiva zarpou em direção à Ilha de Santo Enda. 

Recebida a benção, os frades preparam um barco de madeira recoberta de couro, o curach, e iniciam uma viagem cheia de peripécias que os levará, por sete anos, a visitar as mesmas ilhas, cada ano por ocasião da mesma festividade: a Ilha das Ovelhas, a Ilha Baleia, a Ilha dos pássaros e a de Santo Abão, habitada por uma comunidade de frades dedicados ao silêncio. Os frades se mantêm graças à intervenção divina.


Navegando, Brandão e os seus enfrentam monstros marinhos, precisam abrir passagem no mar denso pelo gelo, assistem a épicos combates entre feras, desembarcam em uma ilha habitada por três comunidades diferentes cuja ocupação é cantar perpetuamente os salmos, recebem como dons frutos enormes capazes de nutri-los com seu suco.

E também se deparam com águas transparentes povoadas de peixes, encaram uma coluna de cristal infinita que surge do mar e toca o céu e são agredidos com projéteis ardentes atirados por ferreiros selvagens. Chegando às portas do inferno, encontram Judas preso a um rochedo no meio do mar: essa não é sua punição eterna, mas apenas um “refresco” momentâneo que lhe foi concedido pela clemência de Cristo, pois geralmente ele ferve como uma massa de chumbo derretido no interior da montanha infernal.


A companhia parte novamente e encontra, em outra ilha, o eremita Paulo, que sobrevive coberto apenas com seus cabelos e pelos, graças à água milagrosa de uma fonte. Alimentados pela última vez, os viajantes chegam à sua meta. Aqui um jovem prediz ao santo que sua morte está próxima e o exorta a carregar o barco com frutos e brotos antes de partir de volta para casa. Chegando a sua pátria, e depois de narrar tudo que viu, Brandão entrega a alma a Deus.


A figura de Brandão é uma perfeita síntese tanto do peregrinus quanto do viator: como o primeiro, é estrangeiro em relação ao lugar aonde vai e precisa de sustento, no seu caso, oferecido pela providência; como o segundo, sabe que está cumprindo um caminho que lhe é indicado por Cristo e tem em Cristo a proteção que o guardará até alcançar sua meta.


A viagem de Brandão, assim como outros itinerários imaginários medievais (não por último, a Divina Commedia de Dante), oferece vários níveis de interpretação. De fato, pode-se entendê-la como a viagem de um monge que se entrega à providência divina movido pela curiosidade de ver o paraíso. Ou pode-se entender a narrativa como o simples relato de uma viagem. Mas talvez a melhor chave seja ler Brandão como um herói temerário, nisso muito moderno, que, desafiando as forças da natureza, chega a saborear os mistérios do conhecimento.

O mundo mágico do Preste João


Um pouco mais tarde, por volta do início do século XII, começaram a circular no Ocidente várias histórias lendárias sobre a existência, fora a Terra Santa e as Índias, de um poderoso rei chamado Presbyter Johannes, isto é, “Preste João”.

O primeiro a registrá-las por escrito foi, em 1147, o cronista austríaco Óton de Freising que, em sua Chronica, cita um “certo Preste João, que habita no Extremo Oriente além da Pérsia e da Armênia, rei e sacerdote, cristão como o seu povo, porém nestoriano”. O seu reino é imenso; situa-se nos confins da Ásia, onde nenhum ocidental jamais penetrou, sua terra era legendária e povoada de toda espécie de animais e plantas, de homens estranhos com características a meio-caminho entre o misterioso e o horrendo.


Preste João era riquíssimo: seu palácio infinito transbordava, segundo os relatos, ouro e pedras preciosas. Mas era também pio e generoso. Assim que soube da queda da Terra Santa na mão dos infiéis, teria, inclusive, partido para libertá-la. Era de tal modo virtuoso que até mesmo os seus súditos se acasalavam apenas para procriar e não existiam ladrões nem criminosos.

Verdade ou fantasia? Na segunda metade do século XII, o imperador de Bizâncio Manuel Commeno recebeu do elusivo rei uma suposta carta que, depois, veio parar no Ocidente com Frederico Barbarossa.

O escrito teve um sucesso tão grande que até Marco Polo, mais de um século depois, chegou a falar do Preste João como se o tivesse encontrado pessoalmente. O reino, na realidade, nunca existiu. Formou-se, com o tempo, na imaginação dos ocidentais que, jamais tendo chegado tão longe, extraíam informações a partir das histórias contadas pelos mercadores, por sua vez ouvidas dos guias de caravanas que se deslocavam ao longo da Rota da Seda.


Relatos que combinavam com o que tinham escrito os autores antigos, de Plínio a Solino, de Marciano Capela até os Padres da Igreja. Nesses relatos apareciam também seres estranhos dos confins da realidade: os monópodes, homens que tinham uma só perna e apenas um – enorme – pé, e viviam nas Índias;

Os blêmias na África, sem cabeça e com a face no peito;


Os panotis, dotados de orelhas longuíssimas...



Reunidas pelo grande enciclopedista Isidoro de Sevilha nos séculos VI-VII, essas cognições imaginárias forneceram – monstros à parte – a descrição do paraíso terrestre, situado pela tradição exatamente na Ásia. E proporcionaram aos que viveram na Idade Média um lugar mágico, quase um modelo a ser aspirado, mas que, como os sonhos, jamais poderia ser alcançado.

Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.

domingo, 3 de março de 2019

As viagens na Idade Média, parte III


.

Sistematizações precárias

A Idade Média, sem dúvida, foi uma época de viagens. Mesmo, como vimos, em meio às dificuldades. Um dos maiores problemas enfrentados por quem quer que se pusesse em viagem, fosse mercador ou clérigo, rico ou pobre, consistia em encontrar alojamento.

Um problema que soberanos, reis e imperadores não tinham – sorte deles – uma vez que, da era carolíngia até a Baixa Idade Média, tinham decretado por lei que os mosteiros, as abadias e os grandes feudatários, tinham obrigação de hospedá-los (sempre que não existissem propriedades pertencentes ao governante) com toda a sua corte durante os inúmeros deslocamentos de uma ponta a outra de seus domínios.


Essa obrigação, conhecida como “direito de hospedagem”, com o tempo foi substituída por uma taxa anual ou recompensada em forma de isenções e privilégios.

Quanto ao resto, nos primeiros séculos da Idade Média quando, no fim das contas, a mobilidade era mais contida, era muito comum a hospitalidade gratuita. Com base no princípio, regulamentado pelas leis dos reinos romanos e bárbaros, de que o hóspede era sagrado e gozava da proteção do soberano, quem batia à porta de qualquer casa podia esperar receber, além de um teto sob o qual dormir, também alimento e água para si e seu cavalo ou sua mula.


Naturalmente, não infinitamente: dois, três dias no máximo (daqui vem, provavelmente, o famoso ditado segundo o qual o hóspede, depois de três dias, começa a feder). Depois disso, ou retomava sua viagem, ou procurava um trabalho para se manter. Oferecer hospedagem a um viajante também podia se revelar, de fato, dispendioso: principalmente nas áreas mais isoladas e escassamente mantidas, porém hospedar um forasteiro sempre constituía uma agradável novidade e era uma boa ocasião para saber o que acontecia em outras partes do mundo, ou ao menos uma cidade não muito distante.

Que a hospitalidade fosse considerada um dever não é uma novidade. Desde os tempos mais antigos, em quase todas as civilizações, havia formas gratuitas de hospedagem com base na convicção, por exemplo, no mundo greco-romano, e no mundo germânico, de que os deuses vagassem sobre a terra, assumindo veste de viajantes, recompensando ou punindo quem se mostrasse generoso ou avaro.


Já no século I, o historiador latino Tácito, em sua Germania – obra que descreve em detalhes os usos e costumes das tribos da Europa Centro-setentrional até então pouco conhecidos – destaca a acolhida como uma das qualidades maiores e mais genuínas dos germanos:

Nenhum outro povo possui mais destacado o senso de convivência e o da hospitalidade. Para eles é inadmissível não aceitar alguém em sua casa. Todos acolhem o hóspede em sua mesa, servida de acordo com os meios de que dispõem. Faltando alimento disponível, quem tinha oferecido a hospitalidade lhe indica uma outra casa e o acompanha até ela; mesmo sem convite, entram na casa vizinha e não há diferença: são acolhidos com a mesma deferência.

No que diz respeito à hospitalidade ninguém faz distinção entre pessoas conhecidas e desconhecidas. Quando o hóspede parte, é costume dar-lhe o que pedir, e a franqueza no pedir é equivalente. Os dons são para eles uma alegria, nem quem dá se sente em crédito, nem quem recebe, em dívida.


No início da Idade Média, as leis bárbaras (séc.VII) coletadas confirmam o dever da hospitalidade, que durava de dois a três dias e incluía alojamento, lugar para o fogo, água, lenha para queimar e capim para os cavalos. A comida, por sua vez, não estava incluída, e o hóspede devia providenciar por si, adquirindo-a em outro lugar, ou, se era afortunado, no mercado local. 

No direito dos francos era proibido acolher algumas categorias de pessoas que tinham se envolvido em delitos ou ações consideradas inaceitáveis: profanadores de tumbas, mulheres livres que haviam dormido com escravos e ladrões.


No direito lombardo, por sua vez, quem hospedasse um fugitivo – sobretudo se se tratasse exatamente de um escravo in fraida, “em fuga” – era punido com uma multa igual ao valor do próprio escravo. 

Essas disposições permanecem em vigor, com algumas variantes, por quase toda a Alta Idade Média, até o início do ano mil, embora, nas regiões mais periféricas daquele que, no meio-tempo, havia se tornado o Sacro Império Romano, se tendia a oferecer hospitalidade aos estrangeiros apenas em caso de mau tempo ou no inverno: em todo caso, o forasteiro era gentilmente convidado a acampar em área aberta a arranjar-se o que comer.


Além das casas privadas, a hospitalidade gratuita também era ofertada pela Igreja. Nos primeiros séculos da era cristã, de início no Oriente e depois no Ocidente, a obrigação de acolher os viajantes era exercida nos denominados xenodochia (ou seja, hospedarias), próximas aos mosteiros, mas separados deles para evitar perigosas distrações: como, porém, a obrigação da acolhida caridosa por parte dos mosteiros e das igrejas se estendia aos peregrinos e aos pobres, logo essas hospedarias já não eram mais suficientes.

Os xenodochia, com o tempo, se tornaram cada vez menos disponíveis para forasteiros e mais voltados à assistência dos pobres, dos órfãos e dos anciãos. Foi preciso esperar até o século XI para vê-los povoar-se novamente de peregrinos e viandantes de todo tipo.


A renovada mobilidade europeia a partir do ano mil marcou o nascimento- ou renascimento – de locandas e albergues. Com o aumento da população e das transações comerciais, de fato, também os pedidos de alojamento aumentaram desmedidamente, e a hospitalidade gratuita não era mais suficiente para satisfazer a demanda.

Também porque há tempos havia sido introduzido o costume de impor aos hóspedes o pagamento, pelo menos, das refeições. Mesmo assim nem sempre se encontrava lugar. Por ocasião das feiras populares e dos mercados, as cidades eram de tal modo tomadas que os viajantes tinham de pernoitar em alojamentos emergenciais ou a céu aberto.


Nesses casos, um bom alojamento era garantido apenas se se dispunha de um valor em dinheiros ou de bens para empenhar. Pela leitura de um sermão – estamos em 925 – do bispo Aton de Vercelli, que admoestava os fiéis contra a prática de hospedar apenas a quem se apresentava com bens preciosos, intui-se que havia quem se aproveitasse chegando a explorar a situação de necessidade para enriquecer.

Albergues militares


A partir do século XI, com a abertura do capítulo das “cruzadas”, um novo fenômeno invade a Europa: o das ordens cavalheirescas. Os pressupostos para seu nascimento foram lançados durante a reforma gregoriana, quando elaborou-se o conceito de militia christi, um exército de Cristo, preparado para defender até mesmo com as armas os princípios da Cristandade.

Fundada na sequência da conquista de Jerusalém (1099), as primeiras ordens eram, na verdade, compostas por leigos que viviam em comum, respeitando os votos de pobreza, castidade e obediência, mas jurando simultaneamente proteger os peregrinos e combater os infiéis. Não se tratava, portanto, de monges em sentido estrito: a Igreja, aliás, se recusou por muito tempo a reconhecer esses grupos como “ordens religiosas”, porque era contrária à ideia de que um monge pudesse pegar em armas.


Desses, tampouco faziam parte apenas cavaleiros, já que a maior parte dos membros se constituía de não nobres (os assim chamados servientes, de onde originou-se  o nossos termos “sargento”). 
A primeira a ser fundada foi a Ordem dos Cavaleiros de São João (cujo nome foi tomado da hospedaria homônima de Jerusalém); nascida leiga no ano de 1099, tornou-se religiosa apenas em 1154.

Nascida para fins de assistência, participou ativamente de todas as batalhas contra os muçulmanos. A mais importante foi a dos templários, que tinha o quartel-general na área do antigo Templo de Salomão (surgida em 1118, oficializada em 1163), ao passo que a última foi as dos teutônicos, nascida durante a terceira cruzada (1143) em São João de Acre e tornada oficial em 1199, outras ordens militares surgiram na Espanha durante a Reconquista.


O surgimento e o desenvolvimento das ordens religiosas militares foi também resposta aos inúmeros perigos que ameaçavam peregrinos durante as viagens. Elas os defendiam contra os assaltos dos ladrões e contra os infiéis, mas também lhes davam assistência em caso de epidemias, principalmente a peste.

As cruzadas determinaram deslocamentos em massa: centenas e centenas de pessoas que se moviam sobre as estradas, chegavam aos portos, pululavam nas cidades. A presença das ordens cavalheirescas na Terra Santa, portanto, foi essencial para garantir condições de hospitalidade satisfatórias: até aquele momento, de fato, quem se encaminhava ao Oriente Próximo podia contar com abrigos decadentes, com dezenas de pessoas amontoadas e imundos almofadões de feno.

Graças à criação de postos de assistência (mansiones) ao longo das estradas, nos portos e nas cidades, quem ia combater ou rezar nos lugares santos podia ao menos contar com uma acolhida melhor, mais espaço e condições higiênicas decisivamente melhores.

Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.