domingo, 24 de fevereiro de 2019

As viagens na Idade Média, parte II


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Na pegada dos peregrinos

Entre os viajantes mais assíduos, certamente, os peregrinos que, vestidos de túnicas rudes e mantos e “armados” com bastões (um simples bastão nodoso), se dirigiam de toda parte da Cristandade rumo às tumbas dos santos e dos mártires, mas também aos chamados “lugares santos”.
Os destinos preferidos, naturalmente, eram a Terra Santa – onde se visitavam as basílicas do Santo Sepulcro e do Calvário, de Belém e do Monte das Oliveiras – e Roma – onde eram veneradas as tumbas dos apóstolos Pedro e Paulo. Com o tempo, porém, surgiram em toda parte, do Mediterrâneo ao coração do continente, igrejas e catedrais que atraíam multidões de devotos.


Entre os santuários mais visitados estavam Santiago de Compostela na Espanha, São Martinho de Tours e a Catedral de Colônia, sede, desde a segunda metade do século XII, dos espólios dos Reis Magos, retirados da Basílica de Santo Eustórgio, em Milão, por ordem do Imperador Frederico Barbarossa, após terminar vitoriosamente o assédio de Milão.
Para ligar entre si todas essas localidades tão distantes havia estradas nem sempre de fácil utilização, longuíssimas, pouco frequentadas e cheias de perigos. A mais célebre, sem dúvida, é a Via Francígena que, partindo da França, chegava até Roma atravessando as árduas cordilheiras apenínicas.


A estrada era trafegadíssima e muito servida: foi calculado que, apenas na parte toscana, a média era de uma hospedaria a cada cinco quilômetros. Muitas vezes eram os próprios romeiros (romei, de Roma) que construíam estradas e pontes e, com seus deslocamentos, faziam a interação entre culturas e povos diversos.
Além do Caminho de Santiago e da Via Francígena, havia outros itinerários que ligavam igrejas e lugares de culto diferentes por características particulares. Uma “ramificação” da Francígena – a assim chamada “Via dos Abades” até agora pouco documentada historicamente – unia Pavia a Roma passando pelo Mosteiro de Bobbio, fundado em Val Trebbia em 614 pelo abade irlandês Columbano em um terreno recebido do casal real lombardo Agilulfo e Teodolinda.


Exatamente Bobbio e o Piacentino em geral se tornaram destinos obrigatórios para monges e peregrinos provenientes da Irlanda: contando com a hospedaria vizinha à Igreja de Santa Brígida em Placência – construída já em torno do ano de 861 – iam à abadia para rezar sobre o túmulo de São Columbano e depois prosseguiam passando por Pontremoli, a caminho da Cidade Eterna.

Muito popular era também o itinerário que ligava os principais santuários dedicados a São Miguel Arcanjo, cujo culto havia se difundido muito na Alta Idade Média, graças sobretudo às populações de origem germânica como os godos e os lombardos: partindo de Mont Saint-Michel na Baixa Normandia (onde no começo do séc. VIII foi construído um famosíssimo santuário ainda hoje destino de turistas de todas as partes do mundo), o percurso transpunha os Alpes, alcançava a Abadia de Saint-Michel no Val de Susa e depois, passando por muitos lugares ermos, cavernas e igrejas rupestres, chegava até o grande santuário em Gargano.


Considerada lugar de encontro e de passagem para embarcar para a Terra Santa, Veneza muitas vezes é ignorada como destino de peregrinação. Mas a cidade, tanto dentro quanto um pouco fora (Marghera, Mestre, Caorle, Chioggia...), contava com muitas hospedarias para acolhimento não só daqueles que se preparavam para partir rumo ao Oriente, como também de quem queria ver as inúmeras relíquias guardadas em suas igrejas.
Um testemunho precioso a esse propósito é o de certo Leonardo Frescobaldi, que no seu relato de viagem escrito em 1394 conta:


Encontramos em Veneza muitos peregrinos franceses e venezianos e nos fizeram muitas homenagens [...]. Fomos visitar a Igreja da Virgem Santa Luzia, onde está exposto seu santíssimo corpo. No Mosteiro de São Zacarias, pai de São João Batista, em um altar belíssimo, estão expostas muitas relíquias, e ainda o corpo do dito São Zacarias, o de São Jorge e o de São Teodoro mártir. Na Igreja de São Jorge fora de Veneza vimos seu braço e o corpo de São Paulo, e a cabeça de Santa Felicidade. Na Igreja de São Cristóvão vimos o santíssimo corpo e também um joelho, que é um milagre ver. Na Igreja de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino fora de Veneza, vimos seu corpo inteiro e vimos ali um grande pedaço do lenho da Santa Cruz e um dedo de Constantino. Na Igreja de São Donato em Murano fora de Veneza, vimos na igreja uma arca enorme de pedra contendo cento e noventa e oito crianças, isto é, inocentes inteiros, ou seja, aqueles que Herodes mandou matar por Cristo e se via neles todos os golpes dos ferimentos, dizem que costumavam ser duzentas, mas, quando o rei da Hungria fez a paz com os venezianos, foram-lhe dadas duas dessas crianças.


O Vêneto inteiro estava no centro dos deslocamentos de peregrinos que chegavam através da Via Alemanha e da Via Ongaresca, respectivamente da área alemã e da eslava. E quem provinha daquelas nações, às vezes parava para ajudar a sistematizar as coisas para os próprios conterrâneos. Assim, por exemplo, em Treviso, havia oito hospedarias geridas por alemães. 

Fugindo do (próprio) mundo


Para fazer uma peregrinação eram necessários meses ou mesmo anos de caminhadas a pé ou no lombo de uma mula, em condições de segurança precária e contando com a hospitalidade de mosteiros ou de algum proprietário provado sensível.
Por sorte, podiam-se contar com alguma ajuda, como o Guia do peregrino compilado no século XII, que fornecia preciosas sugestões a quem decidia empreender tal viagem e sobretudo defendia a sacralidade do hóspede.


“Pobre ou rico, deve ser por todos recebido com caridade e cercado de veneração. Pois quem quer que o receba e procure diligentemente dar-lhe hospedagem, terá como hóspede não apenas São Tiago, mas o Senhor em pessoa, Ele que disse no Evangelho: ‘Quem acolhe um de vós, a mim acolhe’”.
Quem eram os peregrinos? Homens, com certeza, mas também mulheres, velhos e crianças, sãos e doentes que se encaminhavam para fazer um voto, para pedir perdão, para expiar algum pecado, para obter uma cura, procurar relíquias de santos, mas também (coisa bem menos edificante!) para... escapar dos próprios deveres. Havia até quem fizesse a viagem em nome de alguém impossibilitado de fazê-lo: ser peregrino, nesses casos, equivalia a um verdadeiro “trabalho”, muito bem remunerado.


Um extraordinário e precoce perfil das dificuldades e aventuras que faziam parte de uma peregrinação consta no célebre Itinerarium Egeriae (ou Peregrinatio Aetheriae, em uma variação do nome), relato de viagem aos lugares santos realizada, no final do século IV, por uma mulher chamada Egéria.

Da obra, descoberta em Arezzo no ano de 1884 em um códice manuscrito, resta, infelizmente, apenas a parte central: o resto perdeu-se. A excepcionalidade do achado, mais do que pela narrativa em si, reside na sua datação e no fato de ter sido escrito por uma mulher, muito provavelmente originária da costa atlântica da Espanha ou da Gália, dotada de discreta cultura e de conspícuos meios econômicos.

A viagem, de fato, dura quatro anos (a datação geralmente aceita é o período entre 381 e 384), durante o qual a autora, embebida de autêntico espírito cristão, faz anotações – a que dará forma definitiva apenas depois de retornar a seu país – que se revelam uma fonte preciosa para conhecer edificações, instituições e aspectos da liturgia daquela época.


Outro relato interessante, dentro da infinita literatura sobre o tema, é o Libro d’Oltramare do franciscano Nicolau de Poggibonsi, que viveu no século XIV. O texto narra a aventurosa peregrinação realizada nos anos 1345-1350 de Veneza à Terra Santa e é riquíssimo de preciosas anotações, entre as quais a informação de que a casa de Maria, em Nazaré– ainda existente no ano 1289 -, tinha sido destruída e reduzida a pouco mais do que uma gruta.

A viagem, que durou cerca de cinco anos, levou-o a visitar a Palestina, Damasco, o Egito, a Península do Sinai, Chipre. Dali tentou retornar à sua pátria, mas a navegação, cheia de dificuldades, durou mais de quatro meses, durante os quais chegou a ser sequestrado por piratas. Tendo conseguido fugir, chegou em Veneza no fim de 1349, e, após uma estadia de alguns meses em Ferrara, pôde rever sua casa.


Mais tardio, mas não menos rico em detalhes- sobretudo no que diz respeito ais aspectos gastronômicos: descreve, de fato, as iguarias que lhe foram servidas durante a viagem -, o diário do milanês Pedro Casola (1427-1507) conta a viagem realizada em 1494 também à Terra Santa, a Jerusalém.

De caráter mais místico, porém, o relato da viagem a Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela do inglês Margery Kempe (1373 c.- post 1438), em que a narrativa é intercalada pelas orações e pelas “conversas” que teve com Cristo por mais de quarenta anos.


Mas a peregrinação não era uma prerrogativa apenas cristã: prevista como forma de devoção por quase todas as religiões, era um dever preciso de todo muçulmano, que devia ir, ao menos uma vez na vida, a Meca, a cidade santa do Islã.
Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

As viagens na Idade Média, parte I


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Quem viajava, na Idade Média? Foi para responder a essa questão que a historiadora italiana Elena Percivaldi escreveu o capítulo Viajando, de seu ensaio A Vida Secreta da Idade Média, editada em 2013 e publicada no ano passado aqui no Brasil, leitura que recomendo muito àqueles que, como eu, têm paixão pelo medievo.
  
O trabalho de Elena Percivaldi foi o de mostrar que, mesmo tendo vivido muitos séculos antes de nós, em um mundo em que nada se compara ao nosso, esses homens e mulheres da Idade Média guardam muitas semelhanças conosco.

De maneira didática, os capítulos vão tratar de temas comuns ao nosso próprio cotidiano, o que faz com que nos sintamos mais próximos àqueles antepassados: o papel da mulher, da criança e do ancião; o quarto de dormir; na cozinha e à mesa; os artistas e intelectuais; medos, terrores e tabus; a medicina; a morte; festas e folclores; a Igreja; os excluídos.

E, claro, há um capítulo dedicado à experiência da viagem na Idade Média. Por se tratar de um capítulo longo, irei postar aqui no Odepórica o texto completo em quatro partes. Leitura que vale a pena.
Viajando



Para nós, hoje, é inconcebível começar uma viagem sem ter em mãos, no mínimo, um mapa detalhado dos lugares que queremos visitar e sem saber com bastante precisão qual a distância que percorreremos e o que nos espera – que conforto teremos e quais serviços existem no local.

Os mais tecnológicos terão consigo um navegador via satélite de última geração, e os mais tradicionais um guia de viagem, mas ninguém mais se move no escuro. Na Idade Média não era bem assim.


Não havia o Guia 4 Rodas à disposição, nem indicação alguma sobre as distâncias, nem sequer uma bússola (foi introduzida, e lentamente, apenas a partir do séc. XII) para orientar-se em um espaço muitas vezes hostil e desconhecido. A medida de um itinerário, mais do que pela distância (em milhas, ou em mil passos duplos: um dado nem um pouco objetivo!) se dava pelos dias de caminhada necessários para percorrê-lo. E as estradas? Eram um percurso com obstáculos.

A Terra ao centro



Fiéis ao pensamento dos antigos, os sábios medievais tinham por certo que a Terra estava no centro do universo e que o Sol, a Lua e os vários planetas (eram conhecidos apenas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno: a épocas dos telescópios ainda não havia chegado) girassem em torno dela.

Essa concepção, fixada na Grécia por Aristóteles e por Ptolomeu, foi reelaborada em chave cristã no século XIII por Tomás de Aquino, que atribuiu a esse esquema um valor teológico fundamental. Segundo o frade dominicano, a Terra esférica se encontra no centro de um sistema de dez círculos (chamados também de céus) em perene movimento.



Cada céu é sede de um planeta, menos o mais externo, o Primum Mobile, que gira mais velozmente na medida em que está em contato próximo com Deus e transmite assim o movimento a todos os outros por meio de fileiras de anjos dispostos em ordem de hierárquica em cada céu individualmente.

Terra e Empireu são imóveis, mas por motivos opostos: a primeira, de fato, é imperfeita e dominada pelo mal, enquanto o segundo, puro e perfeito, é a sede de Deus. Dante se serviu desse complexo sistema de pensamento para elaborar sua Divina Commedia, o além e seu “paraíso”, a que acrescentou, em harmonia com a tradição, um inferno posto sob a terra e um purgatório disposto em oposição a Jerusalém: imaginando-o como uma ilha em forma de montanha, o poeta florentino foi dos primeiros a dar um vulto físico a um lugar que, na realidade, tinha sido introduzido havia pouco tempo na elaboração doutrinal da Igreja.



Um universo finito, portanto, tão distante do nosso a ponto de não parecer nem mesmo se tratar do mesmo. E tão granítico que passaram séculos – até as teorias heliocêntricas de Nicolau Copérnico (1473-1543) e as lentes de Galileu – antes que fosse questionado.
E a Terra, contrariamente ao que se pensa, era imaginada redonda segundo uma tradição intelectual científica que remontava aos antigos gregos. Eratóstenes (conservado graças às citações contidas na Naturalis Historia de Plínio o Velho), Estrabão e Ptolomeu (conhecidos graças a Sêneca) tinham calculado a curvatura do meridiano terrestre e suas teorias tinham sido retomadas pelos Padres da Igreja e, na primeira Idade Média, por dois grandes eruditos provenientes da Europa insular: o inglês Beda o Venerável, e o irlandês Virgílio, bispo de Salzburg.



Para esse último, a questão a ser debatida era, sobretudo, aquela que se relaciona com os “antípodas”, ou seja, os habitantes do outro hemisfério: Eles existem? Quem são? Provêm do nosso hemisfério e se transferiram para lá em uma época antiquíssima ou nasceram diretamente naquele lugar?

No primeiro caso, como podem ter passado através do equador sobrevivendo aos incandescentes raios solares? No segundo: Qual o destino deles se não conheceram a Revelação e, portanto, a salvação? São questões teológicas, certo. E levantam também mais de que uma suspeita de heresia. Mas que, em todo caso, sobre um ponto não deixam margem a dúvidas: habitado na região dos antípodas ou não, o mundo é esférico.



E os mapae mundi planos que aparecem nos códigos dos comentários de Macróbio e das obras de Isidoro de Sevilha? São, como hoje, simplesmente tentativas de “planisférios” que mostram em duas dimensões aquilo que, na verdade, possui três.

O centro do mundo terreno, na percepção comum, era Jerusalém, a “cidade santa” por excelência. Uma miniatura do século XIII conservada na biblioteca universitária de Upsala a representa como um círculo perfeito dividido em duas por uma cruz, cujos braços indicam as estradas principais. Uma representação fortemente simbólica, portanto, e de forte valor escatológico. Todo o mundo conhecido, de resto, era representado de maneira simbólica.



Começando pelo número dos continentes: três, número perfeito, correspondente à Europa, Ásia e África. No mapa eram desenhados ou como três círculos concêntricos divididos por uma nesga de água ou como uma língua de terra repartida em três por um T (novamente a cruz). E os confins? Eram bastante lábeis.

Ao Ocidente, o mapa-mundi terminava com as “Colunas de Hércules” que, situadas pouco além do Estreito de Gibraltar, delimitavam as terras e os mares conhecidos, e com elas as ambições cognoscitivas humanas. Ao Sul, o mundo terminava com os imensos desertos da África Setentrional, ao passo que ao Norte alguns relatos muito difundidos (como a Navigatio Sancti Brendani) deixavam entrever, além da névoa dos mares setentrionais, misteriosa terras onde o sol nunca se punha e, no meio do mare concretum (a calota polar?), a mítica Ilha de Thule. Mas o que causava mais fascinação mesmo era, sem dúvida, o Oriente.

A estrada e seus perigos



Antes de seguir as pegadas de algum viajante medieval, convém considerar brevemente as condições das estradas. Caídas em desuso as velhas artérias romanas e destruídas as pontes e outras infraestruturas construídas em época medieval, restavam, muitas vezes, apenas alguns caminhos malconservados e sem pavimentação que, com a chuva ou na primeira nevasca, transformavam-se em rios de lama, quando não em verdadeiros pântanos. Embora não fosse assim em toda parte.

Mas se é verdade que depois da queda do Império Romano no Ocidente, as guerras e as invasões barbáricas, as condições das estradas sofreram uma rápida decadência, é igualmente verdade que o tráfego não se interrompia absolutamente.



A partir do ano mil, com o aumento do povoamento decorrente da expansão demográfica, ao lado dos antigos traçados (ou pouco distante deles) foram construídas outras vias para conectar entre si os diversos vilarejos e permitir um transporte mais ágil das mercadorias e dos alimentos rumo aos mercados centrais.

Ao longo da estrada os perigos eram muitos. Além do risco decorrente das más condições dos percursos, não era raro encontrar brigantes e ser assaltado, ou até mesmo assassinado. Por isso se tentava, quando possível, manter-se nas estradas conhecidas e mais frequentadas, e evitar os caminhos marginais e principalmente os bosques, passíveis de encontros indesejáveis com animais ferozes.



Forçoso era, assim que o sol se pusesse, encontrar um refúgio: a casa de um camponês, uma pousada, na hospedaria de um mosteiro, ou, no pior dos casos, embaixo de uma árvore. O importante era não passar a noite ao relento. As condições higiênicas e climáticas, certamente, não eram as melhores. E o risco de contrair doenças estava sempre à espreita.

O tempo demandado pelo deslocamento, além disso, era realmente longo. Pôr-se em viagem significava, muitas vezes, deixar sua própria terra para nunca mais voltar: razão por que, antes de partir, era comum fazer um testamento. De fato, foi exatamente o temor pelos pericula in eundo et redeundo (perigos no ir e regressar) que impeliu, por exemplo, o trevisano Bartolomeu de Pizolo da Montebelluna a ditar, em 28 de fevereiro de 1350, o testamento antes de iniciar sua viagem a Roma: entre suas últimas vontades, predispunha uma soma para acolhimento dos mendigos, órfãos e viúvas.



Mais rápidos, mas não menos arriscados, eram os deslocamentos por via aquática, principalmente pelos rios. Relativamente fáceis para percorrer e velozes nos períodos de cheias, as vias fluviais eram utilizadas também durante a estação seca: as embarcações, então, eram tracionadas graças a um complexo sistema de cordas, por cavalos e bois que procediam lentamente pela margem.

E a canseira era tanta que às vezes os próprios marinheiros tinham de ajudar os animais. Apesar de tudo, barcos e barcaças cruzavam regularmente, por exemplo, as águas do Pó e de seus afluentes que, ligados a partir do século XI às outras vias hídricas da Planície Padana por um sistema de canais cada vez mais complexo, se impuseram na Idade Média como uma das principais e mais utilizadas vias de comunicação (juntamente com o Brennero), de todo o continente, unindo o Norte e o Centro da Europa com o Mediterrâneo.



Além disso, o mar. O Atlântico era sulcado em todos os sentidos pelos drakkar dos viquingues, que colonizavam as ilhas do extremo norte da Europa e chegavam até os umbrais do Novo Mundo, e antes ainda pelos currach (barcas de pele) dos monges irlandeses, que se deixavam levar pelas ondas e eram arrastados pelos ventos e pelas correntes aos lugares mais intransitáveis e inóspitos, onde fundavam novos mosteiros.

O Mediterrâneo, por outro lado, desde a Antiguidade utilizado para o tráfego comercial, voltou a ocupar uma posição central com o progressivo crescimento das repúblicas marítimas e durante as cruzadas.   A viagem de navio, de todo modo, não tinha nenhuma segurança, pois que ao risco (realmente alto) de naufragar somava-se a possibilidade (também essa não rara) de um encontro nada agradável com os piratas ou com os sarracenos.



Apesar dos perigos, em todo caso, para ir à Terra Santa convinha zarpar de Veneza: no verão, para chegar à meta bastavam cerca de vinte dias de navegação, pouco mais do que o dobro disso no inverno. Sempre era melhor do que atravessar as incertas estradas da Europa do Leste onde, além de ter de percorrer uma enorme distância, se corria o risco de encontrar os ferocíssimos salteadores eslavos.

Quem viajava, na Idade Média? Não apenas os mercadores. Antes de tudo príncipes, soberanos e imperadores, que passavam grande parte do tempo a deslocar-se entre as terras de seu domínio. Carlos Magno, por exemplo, embora tivesse escolhido Aachen como capital, não possuía uma corte permanente de uma região para outra de seu vastíssimo império, que media mais de um milhão de quilômetros quadrados.



Depois, pontífices e eclesiásticos que se deslocavam para participar de concílios e sínodos por toda a Europa. Para esses, naturalmente, a viagem era menos incômoda, graças ao uso de cavalos e carroças (na verdade, não era exatamente cômoda, e sujeita a contínuas sacudidas, avarias e tombamentos) e mais velozes para as repentinas trocas de cavalgadura.

A maior parte dos demais viajantes, fossem mercadores ou simples peregrinos, precedia a pé ou no máximo no dorso de uma mula e muito mais raramente a cavalo, até porque a utilização de animais obrigava a prover também o sustento deles e aumentava imensamente o já alto custo da viagem.



Entre os incômodos mais sentidos, enfim, estavam os inúmeros controles a que os viajantes eram continuamente submetidos nos “postos de parada” ao longo das estradas, nos estreitos e na entrada das cidades: e se não era nada agradável, nas aduanas, ter as bagagens revistadas pelos guardas, igualmente odioso era ter de pagar os pedágios cada vez que se cruzava uma ponte ou se entrava pelas portas de uma cidade.




Deviam ser muitos também que viam uma taverna isolada como um refúgio quente e confortante: foi o sentimento que teve, em 1483, o dominicano alemão Felix Faber quando, vencidos os Alpes para dirigir-se à Terra Santa, depois de ter atravessado florestas, corrido o risco de cair em profundas grotas nas montanhas e tropeçado nas raízes dos caminhos, deu de cara com uma pequena e solitária hospedagem entre Cortina e Dobbiaco: Finalmente a salvo bem no meio de uma vale arenoso e estéril onde, como ele nos informa, “muitos morriam de noite pelo frio e pela fome”.
Fonte: A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes, 2018.