quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pic, o último romance de Jack Kerouac

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A maior surpresa que tive esse ano aconteceu no último final de semana de agosto. Estava procurando um livro que pudesse ler no domingo de uma só tirada, porque às vezes tenho essas vontades tolas de ler um romance em um dia ou dois no máximo.

Puxei da estante um Kerouac que nem me lembrava mais de haver comprado: Pic. Perfeito, pensei (e além do mais fazia tempo que não visitava meu autor predileto). Liguei um som baixinho, instrumental, para não me distrair com os ruídos externos e mergulhei na leitura. Sensacional, já vou adiantando.

Comecemos pelo título: Pic, que é o nome do narrador: Pictorial Review Jackson, um adorável menino negro de dez anos que nos relata, em primeira pessoa, a aventura de sair de casa no interior da Carolina do Norte rumo à costa oeste, uma aventura gigantesca para quem nunca havia saído de seu próprio quintal.

Kerouac situa a história nos anos 1940, época em que a segregação racial era muito pesada nos Estados Unidos; optou por escrever o romance da maneira como os negros falam, como um dialeto próprio, o que dá à narrativa uma dinâmica apropriada – os personagens são quase palpáveis e a empatia com o menino Pic, imediata.


A obra começou a ser escrita no início da década de 50, mas os biógrafos de Jack informam que ele a deixou encostada até o fim da vida, retomando a escrita poucos meses antes de falecer, em outubro de 1969. A obra foi publicada postumamente em 1971 e não foi bem recebida pelos críticos. Uma das críticas mais recorrentes recai sobre o uso mal empregado da fala dos negros americanos; por outro lado, há os que admiram a obra justamente pelo fato de Jack ter saído de sua zona de conforto e eu fico do lado dos que pensam assim.

Preciso dizer que a tradução da obra para o português, a cargo de Guilherme da Silva Braga, ficou divertida e cativante, lembrando muito a maneira de falar dos negros descendentes de escravizados das cidadezinhas coloniais de Minas Gerais. Veja uma passagem:

Vô, aquela noite tava muito escura porque a lua ficô encoberta pelas nuve assim que eu e o mano chegamo no bosque, e aquela lua não passava de uma bananinha de lua que brilhava fraca e franzina quando aparecia em meio às nuve. Tamém ficô frio, e eu tava quase tremendo. Achei que uma tempestade tava se armando pra me aquecê, porque pocas vez eu me senti tão bem como quando a gente se pôs a caminho.

Vamos ao enredo? Pic é um garoto negro, “o minino mais escuro, o minino mais preto que já tinha aparecido na escola”; sua mãe faleceu, seu pai sumiu do mapa há anos e seu irmão um dia foi embora e nunca mais voltou. A história que lemos é a que Pic conta ao seu avô, com quem vive e a quem muito estima.


Quando seu avô falece, o que acontece logo nas primeiras páginas, Pic é levado para a casa de uma tia onde o ambiente não lhe era favorável até que um dia aparece seu irmão mais velho, Slim, um saxofonista pobre e virtuoso, que veio de Nova Iorque exclusivamente para levá-lo embora. E é aqui que a aventura começa: Pic cai na estrada com o irmão e o que leremos daí em diante é puro deleite.

Um dos mais respeitados biógrafos de Kerouac, Gerald Nicosia (autor de Memory Baby: a critical biography of Jack Kerouac) afirma que quase todos os incidentes que se lê em Pic fazem referência a algum acontecimento da vida de Jack, inclusive a perspectiva de ver-se a si mesmo como um membro de outra raça (Jack era de origem franco-canadense), pelo que Pic pode ser enxergado como uma persona do autor.


A beleza dessa pequena novela, que mais se assemelha a um grande conto, está na visão de encanto que Jack procurava transmitir em suas obras. São os detalhes, o apreço às coisas simples da vida, a aventura do partir rumo ao desconhecido, a ânsia de novas descobertas que a vida na estrada oferece, a natureza, a solidão, o valor da amizade e da ternura... elementos que sempre estarão presentes na obra kerouaquiana.

Por admirar o trabalho de Kerouac sou suspeito para resenhar qualquer uma de suas obras, mas confesso que não esperava muito desse texto, porque num primeiro momento senti desconforto com a linguagem coloquial, até mesmo caricata dos diálogos entre Pic e seu irmão, mas o fato é que a história é tão bem contada, tão vibrante, que no segundo capítulo você até esquece esse lance da linguagem e torce para que o garotinho se dê bem na vida.

Pelo que li em algum lugar, o final dessa novela não foi concluído, e embora fique mesmo essa impressão, não desaponta: fechei o livro com um sorriso bem grandão no rosto. Acho que Jack fez um bom trabalho.
Excerto capítulo 11: Fazendo as mala pra Califórnia

(...) “Primero a gente tem que atravessá cinco mil e duzentos quilômetro”, o Slim suspirô, e eu lembrei dessas palavra mais tarde. “Cinco mil e duzentos quilômetro”, ele disse, “por uma planície, um deserto e três cordilhera de montanha, no meio de toda chuva que resolvê caí do céu. Que Deus nos ajude!”.  

Bom, agente foi pra cama e dormiu nossa última noite naquela casa, e pela manhã vendemo as cama. “Agora tamo entregue à nossa própria sorte”, o Slim disse, e ele tinha razão. De tarde a gente dexô a casa vazia a não ser por uma garrafa de leite, e tamém pelas meia que eu tinha levado comigo dês da Carolina do Norte.

A Sheila tava com a mala dela, e eu e o Slim tinha cada um uma mala com todas nossas coisa. A gente foi pra rodoviária e comprô o bilhete da Sheila e esperô a hora do ônibus dela.




Quando o ônibus tava prestes a saí nós três nos sentimo triste e apavorado. “Lá vô eu noite adentro”, a Sheila disse quando viu o ônibus que dizia CHICAGO nele. “Vô e provavelmente não volto nunca mais. É como morrê pra ir pra Califórnia – mas lá vô eu. Vô, eu ainda não me esqueci desse momento.

“Cê vai revivê quando chegá”, o Slim disse com uma risada, e a Sheila disse que era o que ela torcia que acontecesse. “Não dexa nenhum cara mexê contigo nesse ônibus”, o Slim disse, “porque cê vai tá sozinha até que eu e o Pic apareça por lá, e eu não sei quando vai sê.”

“E eu vô tá esperando você, Slim”, e a Sheila começo a chorá. Bom, o Slim não chorô mas ele pareceu que ia chorá quando abraçô ela. Pobrezinha- eu senti pena dela naquela noite, porque eu amava ela muito, que nem o Slim tinha dito que eu ia amá naquela primera noite no bosque. Uma jove mãe que não sabia o que ia acontecê com ela no outro lado do país com todas aquelas noite sozinha pela frente enquanto eu e o Slim não chegasse. É como diz na Bíblia, Fugitivo e vagabundo serás na terra, a única diferença era que ela era uma garota. Eu passei a mão no rosto dela e disse prela nos esperá na Califórnia.

“Tomem cuidado com as carona”, ela disse. “Eu inda acho que o Pic é piqueno demais pruma viagem tão longa e não me sinto muito bem em relação a isso.”


Mas o Slim disse que ia cuidá bem de mim, cuidá do melhor jeito possível, e se ele não pudesse fazê aquilo então ninguém mais podia. Era assim que o Slim se sentia, ele tinha confiança e cuidava da gente. Aí ele e a Sheila se bejaro, e depois ela tamém me deu um bejo macio e doce e entrô no ônibus.

“Tchau, Sheila”, eu disse, e comecei a abaná, e me senti inda mais sozinho e assustado do que na hora que ela chorô, e tchau, tchau todo mundo tava dando tchau pra todo mundo ao redor do ônibus, e vô essa é a tristeza de viajá tão longe, de tentá vivê e fazê as coisa até o dia que você morre.

Leia: Pic: uma novela. Jack Kerouac. L&PM Editores, 2015.

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