sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Peregrinação, by Guilherme de Almeida


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Eis que me pego novamente apaixonado pelo haikai, aquela poesia curtinha de três versos que nasceu no Japão e tornou-se joia nas mãos do mestre Matsuo Bashô, louvado seja, esse santo andarilho que continua inspirando almas poéticas mundo afora.

Aqui no Brasil, foi Afrânio Peixoto (1875-1947) quem nos apresentou o haikai, em 1919, no prefácio de seu livro “Trovas Populares Brasileiras”:

"Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível".

São dele os seguintes versos: 

 ♣
Uma pétala caída
Que torna a seu ramo:
Ah! é uma borboleta!
 ♣
Na poça de lama
como no divino céu,
Também passa a lua

 
Ao lado de Peixoto, temos Guilherme de Almeida (1890-1969), um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, conhecido como o quarto “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Entre seus muitos méritos literários, consta o de ser um dos primeiros poetas brasileiros a escrever haikais. Eis alguns:
NOTURNO

Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.
TRISTEZA

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?
 PESCARIA

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.
DE NOITE

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Garimpei num sebo a obra Poesia Vária, do Guilherme de Almeida. Uma segunda edição bonita, encadernada, editada em 1963. Nela encontrei não só alguns de seus belíssimos haikais, mas também um texto maravilhoso intitulado Peregrinação, parte I do livro, de onde tirei alguns dos versos que você lerá a seguir.

No portal

Descalço em teu portal de hera e granito
minhas sandálias sujas de infinito.

Na peregrinação do meu destino,
fui um deus disfarçado em peregrino.

Sob passos de orgulho e de aventura,
calquei toda pureza e toda altura.

Indo de norte a sul, de leste a oeste,
pisei o céu com tudo o que é celeste.

Pisei, consciente, com meus pés de Acaso,
o sol, a lua, a estrela, a aurora, o ocaso.

a névoa, o raio, o arco-iris, a ave, o inseto,
a árvore, a sombra, a luz. O fumo, o teto...

Tudo o que era alto, tudo o que era puro
pisei, calquei sob o meu passo duro.

por entre flores ou por entre espinhos,
refletido na lama dos caminhos.

Descalço em teu portal de hera e granito
minhas sandálias sujas de infinito.


Segunda canção do peregrino


Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e dele fiz o meu bordão.

Foi minha vista e foi meu tacto:
constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.

Pois nem fantasmas, nem torrentes,
nem salteadores, nem serpentes
prevaleceram no meu chão.

Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei por que razão.

Mas, certa vez, parei um pouco,
e ouvi gritar: - “Aí vem o louco
que leva uma árvore na mão!”

E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, luzes, cores...
- Tinha florido o meu bordão.  

O manto cor do tempo



Eis que venho de longe e sou tão pobre!
não acreditas que eu apenas tenha
o manto cor do tempo, que me cobre.

É um trapo. Mas nas dobras da estamenha,
que andou de sol a sol, de lua a lua,
é bem possível que comigo venha,

preso aos ásperos fiapos de lã crua,
um pouco do que é o mundo e do que é a vida:
- laivos de céu azul; poeira da rua;

Restos de aro-íris. Pétala caída;
penugem que escapou à fuga alada
e alta das estações; fímbria perdida.

Do véu de noiva de uma estrela aluada;
farrapos de neblina e de folhagem;
migalhas de sol-posto e de alvorada;

Sobras levianas da libertinagem
do luar... – Venho de longe e sou tão pobre!
mas trago a eternidade na miragem

Do manto cor do tempo, que me cobre.

Última canção do peregrino


Eu fui o só
no caminho sem fim:
deixei apenas pó
atrás de mim.

Soprou do céu
da poeira que deixei
hão de fazer um véu,  
de ouro de lei.

Raios do luar
na poeira que depus
no meu rastro hão de achar
ninhos de luz.

Folha que cai
sobre a poeira que ergui
há de dormir onde – ai! –
eu não dormi.

Passos de alguém,
pisando a poeira, irão
acordá-la, e também
meu coração.

E há de ser bom,
útil, belo e feliz
o que for feito com
o pó que eu fiz.

Apenas eu
não mais, não mais terei
aquilo que foi meu:
porque passei.

Leia: Poesia Vária. Guilherme de Almeida. 2ª edição. Martins Editora, 1963.

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