terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A viagem ao Brasil de Marianne North


.


Para quem gosta de ler, namorar vitrines de livrarias costuma ser um agradável passatempo. Numa de minhas últimas visitas à Martins Fontes da Avenida Paulista, uma obra me fisgou a atenção de imediato, não só por sua beleza gráfica mas também pelo título: A viagem ao Brasil de Marianne North, primorosa apresentação e organização de Julio Bandeira editado pela Sextante.

Tenho grande estima por obras que retratam o olhar de viajantes estrangeiros sobre o Brasil. Não sei bem o motivo, mas acredito que se deve ao fato de que, ao ler um relato de alguém de fora do meu país eu consiga enxergar diferentes perspectivas de minha própria cultura - cenas, costumes e hábitos que fazem tanto parte de nós que de tão habituados já nem conseguimos mais enxergar.


Para além da curiosidade que temos sobre o que pensam de nós, pesa mais o acervo histórico documentado nessas obras, não raro fontes únicas que testemunham um passado muitas vezes perdido com o avanço do tempo, ainda mais em um país como o Brasil, que tanto maltratou, e ainda maltrata, sua história e sua herança cultural.


Mas tratemos das coisas belas, como o legado artístico de Marianne North, pintora e viajante inglesa do século XIX que retratou o Brasil em sua majestosa natureza no período em que aqui viveu, entre os anos de 1872 e 1873.


Mulher viajada, Marianne chama a atenção num ambiente predominantemente masculino, o dos artistas viajantes e naturalistas que aqui aportaram a partir do século XIX: von Martius, Rugendas, Debret, Langsdorff, Saint-Hilaire, para citar os nomes mais aclamados. À parte sua reconhecida habilidade artística, Marianne North é também respeitada pela coragem em ser diferente numa época em que as mulheres não saíam perambulando pelo mundo.

E Marianne perambulou muito: lá prá cima pisou na Jamaica, Estados Unidos e no Canadá; prás bandas do Oriente visitou o Japão, a Índia e o Ceilão e mais prá baixo, a Austrália, a Nova Zelândia e a Tasmânia. Isso só para citar alguns, porque a lista é grande. Uma autêntica globe-trotter, como dizem lá na terra dela.


O livro organizado pelo Julio Bandeira, autor cheio de títulos acadêmicos que estuda e publica obras sobre os grandes artistas viajantes que visitaram o Brasil, é um encanto para os olhos, além de ser uma leitura agradável e repleta de informações interessantes sobre a arte não só da Marianne North mas também de seus pares viajantes.

Vale mencionar que o autor não se esqueceu de dedicar um capítulo a outras duas personagens femininas que também produziram trabalhos geniais na arte botânica, Maria Sybilla Merian (1647-1717) e Margaret Mee (1909-1988):


“Essas três mulheres parecem formar uma linhagem pela maneira corajosa como associaram a arte à natureza. Merian com guache, o meio empregado na quase totalidade das obras de Mee, cuja solidez das cores está mais próxima do óleo, a tinta preferida de North. Na opção das três na busca pela maior densidade de cores, está presente um dos elementos de associação possível entre artistas de tempos tão diferentes: para elas, a transparência da aquarela parecia ser insuficiente.”



Não é preciso dizer que a vida de Marianne North foi uma aventura, e o que nos interessa particularmente em sua narrativa é o período em que viveu no Brasil. Diz o Julio Bandeira que em 1872, no Rio de Janeiro, a artista


“vai quase todas as manhãs do Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, para o Jardim Botânico no bonde de tração animal. Carl Glasl, o diretor austríaco, ajuda Marianne North a configurar seu cavalete e a deixa usar a sua casa. Ela conhece Paquetá e o Corcovado. Reúne-se com Mr. Gordon, o gerente-geral das Minas de Morro Velho, em Minas Gerais, e a filha dele. É convidada a viajar com eles por Minas Gerais. Viaja a Petrópolis, Juiz de Fora, Ouro Preto, Teresópolis. É apresentada a D. Pedro I. Uma epidemia de febre amarela em 1873 faz com que ela desista de viajar para a Amazônia e decida voltar para a Inglaterra.”


Os diários de Marianne North foram publicados postumamente por sua irmã, Catherine Symonds, em 1892, na obra Recollections of a Happy Life- Recordações de uma Vida Feliz, e na obra que temos em mãos, o autor reproduz na íntegra os capítulos V e VI de suas memórias, que contemplam os meses em que a artista aqui viveu. Tirando as viagens pela Europa, a vinda ao Brasil foi sua segunda viagem para fora do continente europeu, após haver visitado a América do Norte e a Jamaica no ano anterior.


E o que dizer desses diários? Em primeiro lugar, temos em mãos um precioso testemunho odepórico que narra o olhar estrangeiro sobre um ainda exótico país tropical, uma chance de conhecermos a geografia e os costumes da gente daquele período, sem contar a botânica, o principal objetivo da viagem; em segundo lugar, temos a narrativa eurocêntrica de uma viajante da era vitoriana que não esconde suas opiniões de cunho fortemente preconceituoso, como podemos ver ao longo de todo o texto.


Para os padrões atuais do politicamente correto, há passagens que hoje soam absurdamente racistas, mas até nisso o texto tem sua importância histórica, e de uma maneira ou de outra, sejamos honestos, pouca coisa mudou efetivamente nesse campo, uma vez que o discurso não acompanha as atitudes de uma sociedade cada vez mais desequilibrada como a nossa.


Vale notar que podemos fazer vários recortes dentro desse relato, que não se limita apenas à observação da flora local, tema mais presente nessas páginas; nelas também é possível fazer uma leitura da sociedade e do papel dos negros escravizados, frequentemente chamados pela autora de “pretos preguiçosos”; a hospitalidade do povo brasileiro, que a autora reconhece e estima mas quase sempre com uma certa arrogância, deixando claro a superioridade inglesa seja no trato, seja na qualidade dos produtos aqui comercializados.


A culinária, tema hoje tão prestigiado, também aparece com frequência, com detalhes sobre o que era servido nas refeições, nem sempre ao gosto do freguês, embora pareça haver agradado mais do que desagradado:


“Dentro da casa, recebemos boa comida. Como tínhamos quase sempre o mesmo tipo de alimento em todos os lugares, vou relatar aqui em geral como era nosso sustento. Para o jantar, sopa, frango assado ou cozido e carne de porco, um arroz um tanto gorduroso e feijão, o alimento básico do país – alguns ingleses o consideram ‘muito pesado, sendo próprio apenas para cavalos’, mas eu sempre gostei; lembra o feijão francês, só que a fava é preta em vez de branca; no Brasil é sempre comido polvilhado com farinha, uma farinha moída grossa de milho ou de mandioca. Então, nos serviram o excelente queijo do país, que me lembrou o ‘fromage carré’ da Normandia, o qual era sempre comido com alguma compota conhecida pelo nome genérico de ‘doce’ e seguido pelo melhor dos cafés.”


Em tempo: Marianne teve o privilégio de ser recebida por D.Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina no palácio de Petrópolis, numa das passagens que mais me cativaram de suas recordações do Brasil. Não faltaram elogios ao imperador:


“(...) um homem que vale algum esforço para se conhecer, mesmo que fosse o mais pobre dos cavalheiros plebeus; ele é antes de tudo um gentleman, cheio de informações, possuindo um conhecimento abrangente que cobre todos os tópicos. Sua vida está mais para a de um estudioso que para aquela a que os príncipes estão, em geral, condenados a ter.”  

Separei algumas passagens dos diários para que você possa conhecer um pouquinho mais sobre a Marianne North, e quem sabe animá-lo/a a ler essa preciosidade da literatura odepórica produzida por uma das grandes mulheres viajantes do passado. Boa leitura!

PERNAMBUCO

Em 28 de agosto de 1872, lançamos âncora, ainda de dia, ao largo de Pernambuco, de onde vi o longo arrecife com o seu farol e o quebra-mar se estendendo entre nós e o continente, e me perguntei como um número tão grande de navios, com seus mastros enormes, conseguia entrar naquele porto.


Visto através de minha luneta, os edifícios da cidade se pareciam muito com os de qualquer outro centro urbano, mas para além deles havia bosques intermináveis de coqueiros, demonstrando claramente em que parte do mundo estávamos.


(...) É, muitas vezes, completamente impossível desembarcar durante dias seguidos em Pernambuco, mesmo assim, a gente vê nesse mar tempestuoso, cheio de tubarões, os pescadores nativos flutuando sobre um tipo tosco de jangada, parecido com um engradado, com as pernas dentro d’água.

(..) Como era domingo, as lojas estavam fechadas com tanto rigor como se fosse em Glascow. Vi pouca coisa para comprar, apenas papagaios, laranjas e bananas; não havendo senhoras na rua, estavam todas na igreja, e como meu amigo Quaker disse que não tiraria por nada o chapéu nesses templos de idolatria, não tentamos entrar naqueles prédios de certo mau gosto.

BAHIA


Desembarcamos também na Bahia e, depois de subir pelo íngreme zigue-zague que leva até o topo do penhasco, fizemos um novo passeio pelo país, que é selvagem, montanhoso e coberto por florestas exuberantes. O mercado era muito divertido e cheio de figuras estranhas. Negras robustas usando blusas bordadas decotadas (soltas), saias espalhafatosas e mais nada, exceto por um lenço vistoso ou algumas flores na cabeça. Elas vendiam papagaios, araras e saguis barulhentos, além de passarinhos maravilhosos, macacos e outros animais exóticos...


(...) Os preguiçosos eram carregados pelas ruas íngremes sentados em cadeiras, um tipo esquisito de palanquim, que ficava pendurado por um vão vergado e era levado nos ombros de dois homens; se o passageiro não se mexesse, poderia chegar ao topo do morro ileso. Nós não experimentamos, mas ficamos exaustos de caminhar a pé à inglesa e não lamentamos subir novamente a bordo do Neva. 

RIO DE JANEIRO


Bastaram mais dois dias para que o vapor nos levasse a salvo para a bela baía do Rio de Janeiro, que é certamente a mais bonita paisagem marítima do mundo: até Nápoles e Palermo devem se contentar com um segundo lugar em termos de beleza natural. Não conheço nada mais difícil para uma pessoa tímida que desembarcar pela primeira vez entre um povo e uma língua estranhos, sempre tive horror a isso; de forma que pedi ao bondoso comerciante belga que me ajudasse; e ele entregou-me aos cuidados de um de seus irmãos, este não só me desembarcou em seu escaler, como me colocou numa carruagem que me levou para o Hotel des Étrangers em Botafogo, nos arrabaldes da cidade.


Logo me senti em casa no Rio, bastando poucos dias para que tivesse um aposento grande e arejado no alto do hotel, com quarto de vestir e janelas cuja vista, a cada mudança do tempo, era um verdadeiro prazer para o estudo; tanto o Pão de Açúcar como o Corcovado, além da parte da baía, também faziam parte da paisagem.

O prédio era imaculadamente limpo e confortável, considerando as pessoas que o mantinham assim: uma mestiça norte-americana servia de camareira e tudo fazia com diligência; já um preto (escravo) era ainda mais rápido, e dava a impressão de que “gostava” do trabalho.


A cidade do Rio de Janeiro tem uma ótima aparência no seu parentesco com Espanha ou a Sicília, as casas tão cheias de cor e os balcões tão variados, assim como os telhados que se projetam com suas calhas e beirais muito coloridos e cobertos de ornamentos. Os habitantes têm o mesmo prazer que naqueles países em mostrar tapeçarias vistosas e flores brilhantes nos seus balcões e janela, a isso se somam papagaios e macacos que gritam e pulam quando a gente passa na rua, felizmente bem fora de seu alcance.


(...) É claro que (de novo), como faziam todos os outros visitantes do Rio, caminhei até o cimo do Corcovado e olhei para as nuvens, vendo ocasionalmente as nesgas do mas azul e das montanhas por entre elas, além das esplêndidas amarílis amarelas e brancas agarradas aos recantos inacessíveis da rocha; o caminho todo foi um sem- fim de maravilhas e belezas.


Foi nessa expedição que me encontrei, pela primeira vez, com Mr. Gordon e sua filha, que me convidariam para ir visitá-los em Minas Gerais, para onde voltariam dali a aproximadamente três semanas. Eu gostei tanto da aparência deles, do modo como me convidaram, que me pareceu uma grande oportunidade ver um pouco do interior do país, de maneira que disse que passaria lá duas semanas, o que os fez rir, e com razão, pois fiquei oito meses!

MINAS GERAIS


Ouro Preto, a capital da província, está cheia de conventos e me disseram que um deles tinha sido construído com a lavagem das cabeças dos negros, uma vez que, quando paravam de trabalhar no fim do dia nas minas, suas cabeleiras encarapinhadas estavam polvilhadas de ouro em pó, depois se lhes mandavam mergulhá-las nas pias batismais das igrejas – uma maneira original de se pagar o dízimo!

(...) Fizemos uma viagem curta até a “Cidade” de Santa Lucia (Luzia), um vilarejo muito pitoresco situado no topo de uma colina, acompanhado por um longo trecho pelo enrolamento do rio das Velhas, que por sua vez lembrou-me do rio Tweed e, salvo por algumas palmeiras, não parecia nem um pouco tropical. As igrejas, com suas torres de metal em forma de pimenteira, e os telhados das casas de um andar, lembravam, por sua vez, a Hungria.


(...) O colégio do Caraça lembrou-me um pouco o Hospício do Grande S. Bernardo, sem a neve. Fomos encontrar o Padre Superior Julio nos esperando e, depois de apearmos no pátio, acompanhou-me até um prédio mais abaixo e apresentou-me a uma senhora idosa e robusta com um lenço de seda amarrado na cabeça, que mais tarde descobri ser a chefe das lavadeiras.

(...) Ao longe, com a Serra dos Órgãos nos espiando acima dos limites verdejantes dos vales, pensei mais uma vez que nada no mundo poderia ser mais encantador que essa estrada maravilhosa...

Leia: A viagem ao Brasil de Marianne North (1872-1873). Julio Bandeira. Ed. Sextante. Rio de Janeiro, 2012.

Nenhum comentário :

Postar um comentário