sábado, 28 de julho de 2018

Peregrinações no Japão, parte I. By J.M.Kitagawa


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Vez ou outra volto a reler alguns textos de fenomenologia da religião, uma área de estudo que me interessa em particular.   Tenho em mãos um excelente livro, Experience of the Sacred – readings in the Phenomenology of Religion, com textos de gente grande como Rudolph Otto, Max Scheller, Mircea Eliade e Paul Ricouer.

Apaixonado pelo Japão e sua cultura, fui de imediato atraído por um texto sobre peregrinações, escrito por J. M. Kitagawa que resolvo traduzir e publicar aqui no Odepórica, uma vez que o tema é pertinente com o perfil do blog.  

Kitagawa nasceu em 1915 em Osaka, no Japão, e aos 26 anos foi estudar teologia nos Estados Unidos, onde fez uma carreira brilhante na área dos estudos de religião, em particular em História da Religião, sendo um dos fundadores dessa área de estudo nos EUA. Faleceu em 1992, aos 77 anos de idade.             
 

Em toda tradição religiosa, a peregrinação reúne os mais variados atos religiosos e frequentemente características diversas e muitas vezes contraditórias, que são tanto espirituais quanto mundanas.

Viajar longas distâncias, visitando montanhas sagradas ou santuários, envolve dificuldade e resistência física, mas também aspectos prazerosos, tais como passeios e contato com novas amizades. De modo geral, os peregrinos são movidos por objetivos religiosos, tais como a veneração de divindades ou santos que estão consagrados em vários locais sagrados, obtendo mérito pela salvação de alguém, pagando penitência por um pecado, ou rezando pelo repouso dos espíritos dos falecidos, mas esses motivos religiosos são frequentemente misturados com o desejo de alcançar uma cura, boa sorte, o nascimento auspicioso de uma criança, prosperidade ou qualquer outro benefício mundano.

Mesmo as práticas ascéticas, que são geralmente impostas aos peregrinos, notavelmente a abstinência sexual e o jejum ou as restrições dietéticas são interpretadas como investimentos necessários para as almejadas recompensas, sem contar que a peregrinação proporciona um providencial alívio da enfadonha rotina diária das pessoas.



Além do mais, visto de uma perspectiva mais ampla, a peregrinação, que sedimenta a solidariedade de grupos religiosos, também estimula os negócios e o comércio, a disseminação de ideias e o intercâmbio intercultural. Não obstante essas características universais, que são compartilhadas pelas peregrinações de várias tradições, cada uma tende a mostrar um ethos próprio, que só pode ser compreendido dentro de seu contexto religioso e cultural.

No Japão, o desenvolvimento da peregrinação foi muito influenciado por fatores geográficos e topográficos tanto quanto os fatores religiosos e culturais. De acordo com o Shinto (Xintoísmo, religião nativa do Japão derivada do animismo e práticas xamânicas), o mundo inteiro é permeado pela natureza sagrada (kami), de modo que cada montanha, rio, árvore, rocha - assim como o ser humano - são potenciais objetos de veneração.

No que diz respeito à prática da peregrinação, ela teve pouca evidência no Shinto, uma vez que este era rigorosamente relacionado com a vida do clã (uji), que mais do que nunca estava estabelecido em uma localidade geográfica particular.



Para se ter uma ideia, em muitas comunidades rurais acreditava-se que o kami (espírito) das montanhas descia à terra e se transformava no kami do campo de arroz durante parte do ano e depois retornava às montanhas após a época da colheita. É concebível que, por esse motivo, algumas pessoas podem ter subido as montanhas com o intuito de vivenciar a morada mística do kami. Mas essas práticas eram espontâneas, não regularizadas como peregrinações nos primórdios do Shinto.

A introdução da civilização chinesa e do budismo durante o século VI a.C. trouxe à tona uma extensa mudança religiosa e cultural nos períodos subsequentes na história do Japão. Eventualmente, lá se desenvolveu três tipos de peregrinação principais após a fusão do Shinto nativo com as práticas e crenças populares do budismo e dos elementos do taoísmo chinês. São elas:

1-  Peregrinação à montanha sagrada
2-  Peregrinação aos templos e santuários, baseada na fé pelas divindades adoradas nesses locais;
3-  Peregrinação aos lugares sagrados baseada na fé em certos homens santos carismáticos, que por esse motivo consagraram os lugares com sua presença.



Veremos a seguir como esses tipos de peregrinação se desenvolveram no Japão e também vamos retratar as semelhanças e diferenças entre elas.

1.   Peregrinação à Montanha sagrada



Já pontuamos a importância das montanhas sagradas na vida religiosa do japonês primitivo. É significante notar nessa conexão que até mesmo após a introdução da civilização chinesa e do budismo as pessoas continuaram a venerar as montanhas assim como as moradas das divindades, e a prestar um respeito especial ao “homem austero” (gyo-ja), no qual se acreditava haver adquirido poderes super-humanos por conta do rigoroso treinamento ascético da montanha (sanrin-toso).

Entre os budistas, também se desenvolveu no século VIII um movimento chamado “Escola da Sabedoria Natural”, a qual buscou a Iluminação não através da meditação tradicional e das disciplinas monásticas, mas através de um contato junto à Natureza nas montanhas.



É sabido que alguns monges e leigos piedosos submetiam-se à prática da austeridade nas montanhas na intenção de adquirir poderes mágicos (siddhi). Enquanto isso, adivinhos xamânicos, curandeiros e ascetas, que antes não tinham qualquer conexão com o budismo, passaram a ter influência budista.

A relação deles com o budismo foi muito tênue, mas eles eram chamados de “praticantes budistas não ordenados” (ubasoku; upasaka)  e muitos alegaram possuir o poder de operar milagres por conta da práticas austeras na montanha.  O efeito combinado desses movimentos foi o aparecimento da então chamada Ordem dos Ascetas da Montanha (Shugendo- o caminho de poder espiritual pela ascese, escola do Mikkyo, o budismo esotérico japonês) que preservou muitos elementos do Shinto e das antigas tradições religiosas populares.



A popularidade dos ascetas das montanhas durantes os séculos XI e XII foi engrandecida pela crença prevalente entre os aristocratas de que a peregrinação às montanhas sagradas, especialmente aquelas de Kumano e Yoshino, poderiam habilitá-los a vivenciar aqui na terra uma amostra da Terra Pura (Jodo-Shu).  

Também era amplamente sustentado naquele tempo que os nativos Shinto kami (espíritos) daquelas montanhas eram na realidade manifestações das divindades budistas. Deste modo, acreditava-se que as peregrinações a essas montanhas, acompanhadas e guiadas pelos experientes ascetas locais, traziam proteção tanto das divindades xintoístas quanto das budistas simultaneamente.

Com o declínio da nobreza da corte na segunda metade do século XII, os ascetas das montanhas buscaram amparo entre guerreiros e outros plebeus através do estabelecimento das confraternidades devocionais (ko-sha) em várias partes do país.



A maioria dos membros dessas confraternidades pertencia aos grupos budistas e xintoístas, mas eles encontraram um ímpeto adicional em sua devoção nas deidades de certas montanhas sagradas que se encontravam quase sempre longe de seus lares. Um bom número dessas confraternidades continuou atuante até os nossos tempos.

A principal função desses grupos era a peregrinação às montanhas sagradas, sendo que a maioria deles não permitia a participação de mulheres, pelo que as confraternidades eram predominantemente masculinas. Eles consideravam a subida nas montanhas, conduzida por guias experientes, essencial para a disciplina física e espiritual, e assim a peregrinação era usualmente considerada uma cerimônia de iniciação para garotos que estavam entrando na vida adulta.

Eventualmente modelos miniatura de montanhas sagradas se estabeleceram em algumas partes do país para o benefício daqueles que não podiam fazer as verdadeiras peregrinações, e o culto às montanhas cresceu em popularidade atraindo idosos e também as mulheres.



Estima-se que na segunda metade do século dezenove havia 17.000 guias qualificados nas montanhas sagradas, o que significa que um número consideravelmente maior de ascetas estava atuando nesses lugares.

As três (assim chamadas) denominações da Seitas Shinto dos nossos dias – (1) Jikko-kyo (religião de “conduta prática”), (2) Fuso-kyo (religião de Fuso, que é o nome clássico do Monte Fuji), e (3) Ontake-kyo (religião do Monte Ontake) – são herdeiras diretas das tradições dos ascetas das montanhas, enquanto Fuji-kyo (confraternidade devocional do Monte Fuji), mais tarde renomeada como Maruyama-kyo, tornou-se uma sub-seita de outra denominação da Seita Shinto chamada Shinto Taikyo (o grande ensinamento do Shinto).

Assim, há muitos grupos de peregrinação às montanhas, formais e informais, indo desde aqueles que seguem as disciplinas mais estritas até os que beiram às atividades semi-recreacionais. 

2 – Peregrinações baseadas na crença em certas Divindades



Na história religiosa do Japão, a popularização da peregrinação não ficou confinada às montanhas sagradas. Muitos religiosos, mulheres e homens leigos, certamente estimulados pelas peregrinações nas montanhas, também apreciavam a visita menos aventureira aos lugares sagrados das planícies, especialmente os templos budistas ou os santuários xintoístas onde certas divindades são cultuadas.

Essas peregrinações são motivadas não pelo desejo de se submeter às práticas ascéticas, mas pela devoção a um determinado Buda, Bodhisattva (bodhi = iluminado; sattva = ser) ou kami, a quem os peregrinos prestam homenagem, dão graças ou pedem favores especiais. Os templos que consagravam as estátuas das divindades mais conhecidas atraíam muitos peregrinos.

A peregrinação mais organizada de todas é a conhecida como “Peregrinação aos 33 Santuários no Japão Ocidental” (na parte ocidental do país, região de Kansai), em japonês, Saigoku Kannon ou Saigoku Sanjusansho, que foi baseada na devoção a Kannon (Avalokiteshvara, o Buda da Compaixão).



De acordo com uma lenda piedosa, o Imperador Kazan (que reinou de 984-986), após a morte de sua consorte, abdicou do trono e, trajando hábito sacerdotal, visitou os 33 santuários dedicados a Kannon. Embora essa lenda não seja confiável, é quase certo que dois sacerdotes Tendai, (Escola do budismo maaina, descendente da Escola chinesa do Sutra do Lótus) Gyoson e Kakuchu, peregrinaram no século XII pelos 33 santuários de Kannon.

Evidentemente, a julgar pelos registros dos séculos XIII e XIV, houve variações na seleção dos santuários dessa rota, ainda que exista um acordo na quantidade (33), por ser este um número sagrado. A atual característica dos 33 templos provavelmente foi estabelecida no século XV, época em que a peregrinação já não era mais monopolizada pelos bem-nascidos e pela classe religiosa.

Devido em grande parte às atividades dos líderes dos novos movimentos budistas que surgiram no século XIII, entre elas a Escola Terra Pura e o Nichiren, tanto os pobres quanto os ricos vieram a aceitar a crença de que estavam vivendo em um período de “degeneração da Lei do Buda” (mappô – período final da Boa Lei), pelo que sentiam uma urgente necessidade da graça e da misericórdia das divindades para o seu renascimento na Terra Pura após a morte.



Sem dúvida esse é o motivo de o Monte Nachi, tido como modelo da Terra Pura do Kannon na terra, ter sido escolhido como o ponto de partida da peregrinação.

Gradualmente, o vestuário do peregrino – chapéu de palha largo, rosário pendurado no pescoço, cajado, concha, um baldinho de madeira e um sino – passou a ser comum.

Na estrada os peregrinos entoam um canto rítmico de 33 versos, referenciando o poder miraculoso e compassivo de Kannon em um de seus 33 santuários; não raro os peregrinos mendigavam alimento e esmolas, maneira de garantir seu sustento durante a jornada.



Com o tempo, muitas outras formas de peregrinação budistas foram aparecendo, como a peregrinação aos 25 templos da Escola da Terra Pura, a peregrinação aos 100 templos da Escola Nichiren, e a peregrinação aos 100 templos no distrito de Higashiyama, ao longo das encostas mais baixas de Kyoto, antiga capital do Japão Imperial.

Ao contrário das peregrinações às montanhas sagradas, feitas em grupos e guiadas por um asceta experiente, a peregrinação aos templos das divindades pode ser feita individualmente. Apesar disso, muitas confraternidades surgiram em conexão com essas peregrinações e seus membros formam pequenos grupos de peregrinos para dar suporte mútuo e encorajamento aos companheiros de viagem.



Na tradição do Shinto, que também desenvolveu a prática da peregrinação durante os últimos séculos, a mais proeminente é a peregrinação ao Grande Santuário de Ise, dedicado à deusa do sol, Amaterasu-o-mikami. Essa peregrinação foi fomentada pela Confraternidade de Ise (Ise-ko), que seleciona por sorteio certos membros que irão representar outros em sua peregrinação a Ise, geralmente na primavera ou no outono.

A partida e o retorno são celebrados através de cerimônias especiais e banquetes são oferecidos a todos os membros. Uma vez que suas despesas são pagas pela confraternidade, que é mantida pelas taxas dos associados, os peregrinos de Ise – ou de outras peregrinações xintoístas semelhantes - não pedem esmolas nem alimento na caminhada. Fora isso, o objetivo da peregrinação a Ise é semelhante às peregrinações budistas, exceto que o objeto de devoção é uma divindade Shinto.

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