quarta-feira, 16 de maio de 2018

Diários de bicicleta, by David Byrne


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David Byrne, líder dos Talking Heads, importante banda pós-punk precursora do new wave dos anos 80, vez ou outra se aventura na escrita. Até onde pesquisei, quase tudo o que escreve está relacionado ao mundo da arte e da música.

A exceção veio com seu divertido livro Diários de Bicicleta, de 2009, cujo título imagino ser uma paródia do filme de Walter Salles, Diários de Motocicleta (2004), inspirado na obra De moto pela América do Sul, de Ernesto Che Guevara.  



David Byrne é um homem culto e bastante interessado pela questão da mobilidade urbana. Longe de ser um porta-voz dos direitos dos ciclistas ou movimentos afins, seu próprio exemplo lhe serve de meio e mensagem: onde quer que esteja, aonde quer que vá, leva sempre sua bicicleta desmontável, companheira em todos os momentos e situações.



E a magrela, na verdade, acaba sendo o gancho para suas memórias de viagem; ele pedala da página 19 à página 320 por diversos lugares do planeta.  Começa lá nos EUA, país onde “a maioria das cidades não é simpática às bicicletas – e nem aos pedestres”; em Berlin, tudo muda: a cidade lhe é agradável e evoluída, os ciclistas respeitados, tanto que o autor fica até um “pouco chocado” - palavras suas.

Como os alemães, até as bicicletas são práticas: geralmente pretas, poucas marchas, para-lamas e muitas vezes um cesto, “coisa que nenhum ciclista esportivo jamais sonharia acoplar à sua mountain bike nos EUA”.


Berlin rende quase 40 páginas no diário, o que já valeria a leitura, mas a viagem está apenas no começo. Próxima escala: Istambul. Diz o David que ele era um dos únicos a andar de bicicleta por lá, como em vários outros lugares: “(...) suspeito que a preocupação com o status possa ser o grande motivo por trás disso – em muitos países, andar de bicicleta significa pobreza. (...) em Las Vegas, as únicas pessoas que andavam de bicicleta por lá eram aquelas que haviam perdido tudo, provavelmente nos cassinos.”.



Vinte páginas separam Istambul de Buenos Aires. A partir daqui, a leitura nos interessa um pouquinho mais, só um pouquinho, porque vez ou outra o David faz comparações entre nós, brazucas e os hermanos lá de baixo. Vale ler um excerto do diário:

A Paris do hemisfério sul, dizem alguns – graças às suas largas avenidas, café e vida noturna agitada. A Avenida 9 de Julio é a mais larga do mundo, então tome essa, Barão Hausmann! Não fosse pelo obelisco cravado no meio dessa avenida, daria até para pousar um 747 bem no centro da cidade.



Buenos Aires fica o bastante ao sul para não se enquadrar na zona temperada, o que diferencia esta cidade, assim como Santiago no Chile, do outro lado dos Andes, de seus vizinhos mais ao norte. Existem enormes diferenças psicológicas também – os argentinos costumam se enxergar como um povo mais europeu e, por consequência, mais sofisticado do que seus vizinhos brasileiros.

Naturalmente, aham, os músicos e outros artistas não compartilham dessa postura esnobe, mas isso é algo que pode ser notado na arquitetura, culinária e até nas vestimentas.



Embora a Argentina e o sul do Brasil tenham sido colonizados por sucessivas ondas de imigrantes italianos e alemães, entre outros, os argentinos preferem negar a existência de elementos africanos em sua cultura, enquanto no norte do Brasil, esses elementos ainda são fortes e proeminentes, e os brasileiros costumam se orgulhar do sangue e cultura africanos em suas origens.

Quase não existem negros na Argentina, mas a influência deles continua lá, camuflada e renegada, mas intacta.



Da Argentina vamos ler as passagens mais interessantes sobre música, especificamente da música latina, mas isso pode ser apenas uma opinião minha, já que ele fala de música em muitas passagens, quase sempre de maneira breve, talvez para não cansar o leitor que não se interessa pelo tema.

Fecha o capítulo da Argentina a bordo de um voo da American Airlines:



O distinto som fanhoso do sotaque ‘norte-americano’ ecoa pelo avião enquanto volto para o norte. Estou voando pela American Airlines até Miami. As vozes exalam confiança e superioridade (elas não parecem vir de pessoas muito flexíveis ou de mente aberta, e não vêm mesmo). Depois de ouvir as vogais suaves e provocantes da América Latina, aminha própria língua me parece bruta, cruel e autoritária.

Uma paixão literária o leva a Manila, capital das Filipinas, no sudeste asiático. Ferdinand e Imelda Marcos são o assunto recorrente na maioria das quase quarenta páginas dedicadas àquele país. Parece muito? Parece, mas o que se lê é tão interessante que ao terminar a leitura fui pesquisar mais na internet sobre o casal. Aposto que muitos leitores fizeram o mesmo.




Fica evidente, pela pesquisa que fez sobre a construção mitológica do casal Marcos (Imelda chega a ser vista como uma deusa mãe provedora), que o autor se encantou pela história do povo filipino. Termina esse capítulo filosofando, e como adoro viajantes que filosofam, não resisto e transcrevo a passagem, veja que bonita:

Viver “dentro” de uma história, ser parte de uma narrativa, é muito mais satisfatório do que viver sem uma. Eu nem sempre sei qual é a narrativa, porque estou vivendo minha vida e nem sempre refletindo sobre ela, mas enquanto edito estas páginas estou consciente de que tenho uma certa vontade de ver minha caminhada, às vezes aleatória, como se tivesse um plano, um fim guiado por alguma história subjacente.



Imagino que se pudesse me afastar e olhar para a minha vida, eu veria que esta série de encontros e eventos não foram simplesmente aleatórios, que tiveram de acontecer do jeito que foi. Na medida em que a história é reescrita de novo e de novo, eu começo a imaginar que as nossas vidas aqui têm tantos fios narrativos possíveis – todos existindo ao mesmo tempo como universos paralelos – que o número de histórias humanas é certamente infinito.

Heroico, trágico, chato, catastrófico, ridículo e belo. Todos nós vivemos essas histórias e, quase sempre, nossa narrativa inclui mais de uma delas.



Talvez o capítulo que mais me envolveu nesses diários foi o que David Byrne escreveu sobre Sydney, na Austrália. E isso me surpreende porque, por alguma razão que me foge, não sinto a menor afeição ou qualquer tipo de interesse por esse país. E embora não tenha mudado meu apreço pela Austrália, achei divertidíssimo o capítulo a ela dedicado. Um trecho, assustador por sinal:

A Austrália é repleta de lembretes desagradáveis da indiferença da natureza em relação aos humanos. Há uma abundância de cobras e sapos venenosos, plantas espinhosas, aranhas tóxicas, poderosas correntes submarinas, poços de areia movediça e desertos infindáveis.



Há sempre algo à espreita, lembrando-lhe de que você é apenas um hóspede aqui. É quase como se o mato estivesse sentado como um crocodilo, de mandíbulas abertas, esperando que os desavisados e inocentes perambulem por ali.

(...) Em uma cidade grande como Sydney, pensa-se estar seguro. Sydney, no entanto, é o lar de uma das criaturas mais perigosas de todas – a aranha-de-teia-de-funil. Lidar com o burburinho urbano não perturbou nem um pouco esta aranha mortal. Ela adora lugares levemente úmidos, e uma toalha caída ao lado da piscina ou no banheiro lhe serve muito bem.



Nas palavras do escritor e climatologista Tim Flannery, uma vítima mordida é “imediatamente mergulhada em dor excruciante e logo começa a convulsionar em uma espuma de suor e saliva”. Humanos e adultos conseguem suportar por volta de trinta horas disto antes de morrer, mas crianças aguentam apenas uma hora.

(...) a Austrália é bela e sedutora, mas pisque e você já era – seja por conta de um desabamento, terremoto, incêndio ou alguma criatura venenosa.

Parece cena de um filme trash de horror, não é mesmo? E se você pensa que acaba por aí, se engana:



(...) Na região de Brisbane foi relatado que os cães locais têm se viciado em lamber sapos-cururus, cujas peles são venenosas, mas que (em pequena quantidade, uma lambidinha) dão barato em cachorros. Alguns cães infelizes exageram e acabam por ter convulsões com espasmos violentos, mas a maioria aprendeu a regular a quantidade de sapo que podem consumir – e depois que uma dose perde o efeito, eles às vezes voltam para pegar mais.

(...) pessoas morreram em decorrência deles também, porque, como os cachorros, uma lambida de um sapo-cururu pode estimular alucinações que duram por volta de uma hora, e algumas pessoas não são tão espertas como os cães.



Portanto, se você tem planos de visitar a Austrália num futuro próximo, não sucumba à tentação de lamber os sapos-cururus que por ventura cruzarem seu caminho. Não vale a pena o risco.

Mas nada disso parece intimidar nosso artista viajante. Talvez esse cenário “assustador” seja propício ao clássico chamado à aventura, de modo que, bastam poucos parágrafos na narrativa para vermos Mr. Byrne alugar um carro 4X4 e partir sozinho em direção ao Centro Vermelho, região inóspita do país, onde se encontra a famosa Ayers Rock – Uluru, para os aborígenes, além de Alice Springs, rodeada por centenas de quilômetros de deserto vermelho e Kings Canyon, a meio caminho entre Alice Springs e Uluru.



Não vou contar a aventura pela qual o autor passou nessa viagem pelo Centro Vermelho, uma delícia de ler, mas vou contar um fato curioso que não está no livro e achei bacana compartilhar. É sobre a mítica rocha, o Uluru, um dos cartões postais da Austrália. Retirei na íntegra lá na página do Wikipedia:

Há várias histórias de turistas que levaram para casa um pedaço do Monte Uluru e devolveram a lembrança alegando que traria azar. Eles dizem que foram amaldiçoados por levar uma parte do monumento, considerado sagrado para os aborígenes. O parque nacional australiano, responsável pela administração do monte, diz receber um pacote por dia, enviado de várias partes do mundo, com uma amostra do Uluru e um pedido de desculpas.



Portanto, peregrinos, um conselho: na Austrália, deixem os sapos em paz e nada de trazer pedrinhas de lembrança na volta a casa. Usem o bom senso, e isso vale para qualquer viagem.

Da fantástica aventura australiana, David Byrne voa a Londres e dessa jornada não tenho nada para comentar, afinal o que ainda não foi dito sobre a capital inglesa? Mais do mesmo, mais uma cidade grande do Velho Mundo. Passemos para outra.




São Francisco, América do Norte, nunca vi ninguém falar mal dessa cidade que ainda não conheci, mas pretendo um dia. De lá vamos ler (só um pouquinho) sobre as cidadezinhas próximas e também sobre o Vale do Silício e o nascimento, naquela região, das pequenas empresas chamadas pontocom (baseadas na internet).

Cita aqui e ali os beats, os hippies e a característica cena alternativa da cidade; atravessa a Golden Gate de ônibus para ir pedalar em Sausalito, diz que há umas trilhas bem bacanas por lá. Anoto a dica no meu caderninho, quem sabe um dia.

O resto do relato é gasto com visitas a galerias de arte e instalações de arte moderna, mas como isso não me comove muito, pulo logo para o próximo itinerário: Nova Iorque.



Nova Iorque é a cidade onde o autor vive, então não espere ler nada muito turístico sobre a metrópole, o que me parece ótimo, já que ele se dedica a estudar os tipos humanos, o comportamento dos nova-iorquinos e a questão da mobilidade urbana. Diz que faz tudo de bicicleta por lá, até sai à noite com ela. Será mesmo?

E é em Nova Iorque que David Byrne resolve encerrar seus diários. Com altos e baixos, acredito que Diários de bicicleta ganharia mais fôlego se o autor tivesse aparado algumas arestas, falha de um editor mais atento ao ritmo narrativo. Relatos de viagem são traiçoeiros: de modo geral, é uma literatura que permite grandes divagações, mas o uso exagerado delas pode deixar a leitura enfadonha.  

Em algumas passagens, as longas digressões de David Byrne sobre tópicos não relacionados à viagem em si chegam a cansar, mas nada que comprometa o livro como um todo, basta pular esses trechos, nem são tantos assim. No fim, a leitura vale a pena e não seria nada mal se um dia o David publicasse um segundo diário. Histórias para contar esse homem tem de sobra. Pode apostar.

Leia: Diários de Bicicleta. David Byrne. Editora Amarilys, 1ª ed. Barueri – SP, 2010.

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