domingo, 25 de março de 2018

Viajando no Outono com Thoreau

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Estou na fase de reler Thoreau, precioso Thoreau! Leio trechos saltados de Walden, releio na íntegra o opúsculo Caminhando, que na edição da José Olympo tem uma excelente apresentação do Roberto Muggiati e começo a folhear um livreto garimpado em sebo, Selections from the journals, com algumas passagens selecionadas de seus diários – Thoreau escreveu muitos diários: catorze volumes, mais de dois milhões de palavras.

Resolvo fuçar a internet e descubro que uma editora portuguesa publicou um texto inédito por aqui, Maçãs Silvestres & Cores de Outono, uma bonita edição de 2016, um livro que eu possuía em versão eletrônica em inglês, mas que graça tem? Quero meus autores favoritos ali na estante, olhando prá mim todos os dias.




Percebo que muitas vezes escolhemos nossas leituras de acordo com nossas carências. Quando volto a ler Thoreau, como agora, é porque estou sentindo falta de um contato mais próximo com a Natureza; meu corpo reclama longas caminhadas, meus olhos procuram o céu alaranjado do por do sol, minha boca sente falta da água gelada das fontes, meus pulmões o ar fresco dos bosques. É hora de viajar, de renovar as energias, de tomar banho de cachoeira todos os dias, porque coisa melhor na vida não há.



Entramos há pouco no Outono, minha estação preferida. Um haicai que li e nunca me esqueci, do mestre Leminski:

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar



Abro o livro novo do Thoreau e o prefácio já me agrada:

“Thoreau considera que a Natureza é valiosa como elemento de beleza e de felicidade para o ser humano, e que este deve regressar a ela, como algo de que fez parte, redescobrindo-a e compreendendo o que perdeu na sua caminhada para o mundo industrial: o silêncio, a vida saudável, a contemplação, a tranquilidade, o respeito pelos animais e pelas plantas, bem como a vivência espiritual e transcendente que se obtém da comunhão com ela.”



Já me sinto mais leve. Deixo para depois a primeira parte do livro, um breve tratado sobre as maçãs silvestres, e vou direto para a segunda parte, com as notas que Thoreau escreveu sobre as cores de outono (lembrando que essa estação tem início no mês de Setembro no Hemisfério Norte):

“A transformação outonal dos nossos bosques ainda não deixou uma marca profunda na nossa literatura. Outubro mal coloriu a nossa poesia.



Um grande número de pessoas, as que passaram a vida em cidades e nunca se aventuraram a vir ao campo nesta estação, nunca viu isto: a flor, ou antes, o fruto maduro, do ano. Lembro-me de um passeio a cavalo que fiz com um desses citadinos, que, embora com quinze dias de atraso para os matizes mais resplandecentes, foi apanhado de surpresa, e não queria acreditar que pudesse haver outros ainda mais fulgurantes.

Até então, nunca ouvira falar deste fenômeno. Não só muitos dos habitantes das nossas cidades nunca assistiram a este espetáculo, como raros são os que não o esquecem de um ano para o outro.



A maioria parece confundir folhas que mudam de cor com folhas secas, como se confundissem maçãs maduras com maçãs podres. Penso que, quando a cor de uma folha se torna mais intensa, isso é a prova de que ela atingiu uma maturidade tardia e perfeita, correspondente à maturidade dos frutos.

Em geral, as folhas mais baixas e mais antigas são as primeiras a modificar-se. Porém, tal como o inseto de asas perfeitas e de cores vivas tem uma vida breve, também as folhas só atingem a maturidade para cair.”



Depois dessa introdução, o autor escreve sobre carvalhos, bordos, olmos, ervas e... folhas caídas. É preciso ler para entrar no clima, é uma leitura que encanta qualquer pessoa que ama estar em contato com a natureza, um manual de contemplação. 

Para finalizar, transcrevo um trecho de um diário datado de 1853 onde Thoreau fala um pouco sobre as estações do ano, um mini- tratado de saúde natural, retirado da biografia Thoreau: o rebelde de Concord, um excelente livro de August Derleth, fora de catálogo, publicado em 1964 pela Edições GRD.
 


Viva em cada estação como é de se esperar; respire o ar, beba a água, saboreie o fruto, e submeta-se à influência da cada uma delas. Deixe que sejam sua única dieta, sua flora medicinal. Em agosto, alimente-se de bagas, não de comidas secas e carnes, temperadas, como se estivessem a bordo, singrando o vasto oceano, ou num deserto do norte. Deixe que todos os ventos o açoitem.

Abra seus poros completamente, banhe-se nas águas da natureza, em todas suas correntes e oceanos, em todas as estações. Os miasmas e as infecções vêm de dentro, e não do exterior. O inválido, arrastado à beira do túmulo por uma vida artificial, em vez de absorver somente a grande influência que a Natureza é, bebe chás de ervas especiais, prosseguindo em sua vida artificial – poupa na goteira, mas desperdiça no gargalo...



Não tem amor à Natureza, nem à própria vida, e assim adoece e morre, e nenhum médico pode salvá-lo. Deixe que a primavera o reverdeça – amadureça com o outono... Beba a influência de cada estação como uma poção, uma panaceia verdadeira, feita com todos os remédios existentes, misturados para seu uso particular.

As poções do verão nunca fizeram um homem adoecer, como as que se empilham em suas adegas. Beba vinho, não o de suas garrafas, mas o da Natureza; não aquele conservado em peles de cabra ou porco, mas sim destilado dentro de frutas sadias...




Entregue à Natureza o cuidado do engarrafamento, conserva a preservação. Pois a Natureza inteira, a cada instante, faz tudo a seu alcance para que nos sintamos bem. Ela não existe senão para isso. Não lhe resistamos...

Se tivermos a mínima vontade de nos sentirmos bem, não ficaremos jamais doentes. Os homens descobriram – ou, pelo menos, acham ter descoberto -, a salubridade de somente umas poucas coisas silvestres, e não de toda a Natureza.

Ora, a “Natureza” é apenas o outro nome de “saúde” – as estações não são senão seus diferentes estágios. Alguns homens creem não se darem bem com a primavera, ou o verão, ou o outono, ou o inverno... O que se dá, porém, é que não estão bem consigo mesmos. (Diário, 1853)

Leia: Maçãs Silvestres & Cores de Outono. Henry David Thoreau. Trad. Luís Leitão. Antígona, Lisboa. 1a edição, 2016.

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