quarta-feira, 14 de março de 2018

Caminhar, uma revolução. By Adriano Labbucci


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Não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir que o caminhar. Caminhar é uma modalidade do pensamento - um pensamento prático.

É assim cheio de sabedoria que o político e escritor italiano Adriano Labbucci começa seu ensaio, defendendo a ideia de que o ato de caminhar nos ajuda a melhor compreender o mundo e nossas relações com os outros. Difícil discordar.



Para quem já leu outras obras sobre a temática da caminhada esse pequeno ensaio talvez pareça superficial e repetitivo, acrescentando pouco a tudo o que já se escreveu sobre o tema. Mas não é bem assim, felizmente. Por ser um texto curto, desses que conseguimos ler em uma tarde ou duas, terminamos a leitura com vontade de pesquisar mais sobre o assunto e, sobretudo, de sair caminhando pela cidade tendo em mente as lições aprendidas no livrinho.

Essa é a maior diferença entre a obra do Adriano Labbucci e a de outros autores que também escreveram sobre o tema: ele nos incita a caminhar, a olhar o mundo de maneira diferente, não da forma filosófico/transcendental de um Thoreau (Caminhada) ou de um filósofo romântico como Rousseau (Os devaneios do caminhante solitário), que tão belamente escreveram sobre a prática da caminhada, assim como outro pensador, o alemão Karl Gottlob Schelle(A arte de passear) que buscou conciliar o exercício filosófico com as preocupações cotidianas, todos eles citados no ensaio do italiano.



Labbucci caminha junto desses sábios homens do passado, mas não dispensa a companhia de seus contemporâneos: Robert Walser (The Walk), Hermann Hesse (Caminhada) e Bruce Chatwin (O rastro dos cantos), só para citar os mais marcantes, todos eles guias nessa jornada que é ao mesmo tempo, “meio e fim, travessia e meta”, como afirma o autor.

Enxergar o mundo de maneira diferente, como propõe Labbucci, implica em literalmente por os pés na estrada, andar pelas ruas, não de maneira aleatória, mas com um objetivo, uma meta, onde o perder-se faz parte do processo de aprendizagem; ele não nega os filósofos, pelo contrário, usa-os como guias porque, desde sempre,



“caminhar tem tudo a ver com pensar e com as questões fundamentais que estão na base da filosofia: quem somos, onde estamos, para onde vamos; porque caminhar exprime, como poucas experiências, essa abertura para o mundo e para si mesmo.”

Caminhar é conhecer o mundo e também a melhor oportunidade para conhecer-se a si mesmo. Repare bem como os relatos de viagem mais marcantes frequentemente apresentam viajantes que caminham muito: peregrinos, exploradores, escaladores... Travessias de desertos, de vales montanhosos, de cânions, florestas, explorações de cavernas, aventuras que exigem demasiado dos pés.



Claro que existem os navegadores e suas extraordinárias aventuras pelos mares e rios do mundo, mas há uma diferença: para caminhar basta um par de calçados e disposição, às vezes nem isso: basta a disposição. Quando perguntaram a Bruce Chatwin qual era o melhor modo de visitar um país, ele respondeu: de botas.

Ao longo do ensaio o autor italiano brinda-nos com as melhores passagens de obras fundamentais da literatura odepórica, confirmando que esse tipo de literatura de viagem vai muito além das simples narrativas sobre lugares, paisagens e aventuras; quando o escritor é bom, a leitura deixa de ser apenas um passatempo para se transformar numa lição de vida, como no trecho retirado da obra de Werner Herzog (Caminhando no gelo):



(...) existe uma absoluta e implícita convicção, uma convicção tão eloquente que não precisa de explicações: de que, para sermos merecedores daquilo que nos circunda e que nos é caro, precisamos movimentar o corpo pelos pés; que, movendo nossos pés, coisas e acontecimentos entram em movimento; e que tal movimento produz uma mágica harmonia.

Essa foi uma ideia que os latinos já haviam experimentado e condensado na máxima Solvitur ambulando (caminhando se resolve), nos lembra o autor. “Porque as coisas boas, importantes, as coisas que têm valor devem ser preparadas, atingidas, alcançadas a pé, para dar a elas o tempo de se abrirem para nós e, a nós, o tempo de lhes transmitir toda a energia do nosso caminhar.”



Caminhar, afirma Labbucci, é um ato de liberdade; caminhar nos faz livres.

(...) Esse é o espírito profundo de quem caminha: não deixar pegadas que o vento não possa apagar, não se acomodar sobre os passos dados, não se deixar prender, errar por outros caminhos, voltar ao caminho para mais uma vez buscar.



Deixo de fora, na esperança de que o leitor procure ler a obra, os capítulos finais do ensaio, onde o autor amarra esses conceitos e ideias de cunho filosófico com o momento atual, sobretudo a realidade dos grandes centros urbanos onde cada vez mais o caminhante, o flâneur e o próprio pedestre perdem espaço para os automóveis. Valendo-se de estudos do contexto Sócio-político, lança a questão: Estamos livres para caminhar nos dias de hoje? As respostas podem lhe surpreender.
O repouso de Bruce Chatwin (uma nota de rodapé, pág 115)



Elizabeth, sua mulher, levou para a Grécia, para Kardamili, as cinzas do marido, enterradas próximo a uma pequena capela bizantina, homenagem à igreja grego-ortodoxa para a qual tinha olhado com sincero interesse nos últimos anos de sua vida.

Chega-se a ela por uma trilha de terra batida e com degraus de pedra, que desde a cidade velha sobre me direção à colina através de bosques, olivais e com o mar embaixo que de repente aparece, preenchendo o horizonte.



Experimenta-se uma feliz sensação caminhando entre o verde do entorno e o azul do mar que parece tocá-lo. Chega-se em menos de uma hora, com as montanhas do Taígeto às costas, à frente uma extensão de água que confunde as suas cores com o céu; abaixo, a aldeia de Kardamili.



Nessa paisagem serena e encantada onde chega apenas o som dos sininhos do gado no pasto, aí repousa Bruce Chatwin. Fiel a determinadas ideias e propostas suas, nada que testemunhe sua presença, nem uma cruz, nem, à maneira oriental, uma pilha de pedras. Resta, para quem chega lá, apenas o eco dos passos dados ou a força da memória e das associações: é o que serve para caminhar. 

Leia: Caminhar: uma revolução. Adriano Labbucci. Martins Fontes, 2013.

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