quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Silêncio, by Erling Kagge

.


Se há alguém que pode escrever um ensaio sobre o silêncio, esse alguém é Erling Kagge, explorador, escritor e editor de livros norueguês que, no limitado círculo dos grandes viajantes e exploradores é conhecido como o primeiro homem a atingir os “três polos a pé”. Sim, três polos: com um amigo em 1990, explorou o ponto mais ao norte do planeta, no Ártico; dois anos depois caminhou 1.310 quilômetros pelo Polo Sul e depois de desbravar a Antártida, sozinho, foi se aventurar no ponto mais alto da Terra, o Monte Everest.

Em seu livro Silêncio: Na era do ruído, primeiro trabalho seu publicado no Brasil, Erling Kagge faz um pequeno ensaio sobre o silêncio depois de ter vivido essas aventuras e também, como gosta de lembrar, depois de ter se tornado pai de três meninas, hoje adolescentes.



O que dá um brilho especial ao texto do Erling é o equilíbrio entre suas narrativas de viagem física e suas viagens interiores, quando começa a explorar de fato a importância do silêncio não só em seus deslocamentos pelo mundo, mas também a necessidade de trazer essa experiência para a vida cotidiana. É a busca da resposta à questão: Que caminhos levam ao silêncio?



Diz o autor, lá no finalzinho do livro, que o silêncio é uma ferramenta para escapar do lugar onde você se encontra.  E é essa a sacada da obra: não é somente possível, mas senão necessário viajar para dentro de si sempre que puder, nem que seja por breves instantes, todos os dias, ou por períodos maiores, quando a vida permitir, cabendo a cada um a busca desse momento de silêncio que revela, que alimenta, que transforma... não por acaso, grandes mestres e pensadores buscaram a solidão e o silêncio em momentos cruciais da existência.



Embora esse livro não se enquadre na literatura odepórica, há muitas passagens e reflexões sobre a arte de viajar. Para quem acredita que as viagens podem ser oportunidades de aprender a enxergar a vida com novos olhos, essa obra trará muito proveito. Leitura recomendadíssima.


Quando não posso caminhar, escalar ou navegar pelo mundo, aprendi a trancá-lo do lado de fora. Foi um longo aprendizado. Somente quando percebi que tenho uma grande necessidade de silêncio eu pude começar a buscá-lo – e lá, enterrado sob a cacofonia de barulhos de trânsito e pensamentos, música e ruído de máquinas, iPhones e removedores de neve, ele estava à minha espera. O silêncio.


Acredito que todos podem encontrar o silêncio dentro de si. Ele está lá o tempo inteiro, mesmo quando existem vários sons ao redor de nós. Nas profundezas do mar, sob as oscilações e as ondas, tudo parece estar em silêncio. Postar-se debaixo do chuveiro e deixar a água escorrer pela cabeça, sentar-se em frente a uma fogueira crepitante, nadar em um lago no meio da floresta ou fazer uma caminhada por uma planície são experiências que podem ser percebidas como silêncio absoluto. Eu adoro essas coisas.



Trancar o mundo do lado de fora não significa dar as costas ao lugar em que você está, mas justamente o contrário: ver o mundo de uma forma um pouco mais nítida, manter-se na superfície e sentir amor pela vida.

O silêncio é reconfortante em si mesmo. É uma qualidade, uma exclusividade e um luxo. Uma chave capaz de abrir novas formas de pensar. Não vejo o silêncio como uma renúncia ou algo espiritual, mas como uma ferramenta prática para uma vida mais rica. Ou, de maneira um pouco mais atrevida: como uma forma de viver mais profunda do que, mais uma vez, ligar a TV para ver as notícias.



Por mais de um milênio, pessoas viveram sozinhas, muito próximas de si mesmas, como monges nas montanhas, eremitas, exploradores marítimos, pastores de ovelhas e descobridores que voltavam para casa, foram todas convencidas de que as respostas para os mistérios da vida podem ser encontradas no silêncio. A questão é essa. Você atravessa o oceano e, ao retornar, talvez encontre o que procurava dentro de você mesmo.

Quando se atribui valor a algo por todo esse tempo, deve haver boas razões para levá-lo a sério. Jesus e Buda recorreram ao silêncio para entender como deveriam conduzir a própria vida. Jesus no deserto e Buda na montanha à beira do rio. Jesus se apresentou perante Deus em silêncio. O rio ensinou Buda a escutar, a ouvir com o coração em silêncio. Com a mente aberta e receptiva.



Que caminhos levam ao silêncio? Eu acredito em viagens em meio à natureza. Deixar os aparelhos eletrônicos em casa, seguir por um rumo onde tudo é deserto ao seu redor. Passar três dias sozinho. Não falar com ninguém. Aos poucos você começa a redescobrir coisas a respeito de você mesmo. O importante, claro, não é o que eu acredito, mas que todos sigam pelo seu próprio caminho. Todos nós temos uma trilha a encontrar.


Leia: Silêncio: Na era do ruído. Erling Kagge. 1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. 

Nenhum comentário :

Postar um comentário