segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Viagens com minha tia, by Graham Greene


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Disse Graham Greene que Viagens com minha tia foi o único livro que ele escreveu por diversão. E é isso o que ele nos entrega com essa novela de humor um pouco datado, publicada em 1969. Garimpei meu exemplar em um sebo, uma bonita 1ª edição em capa dura, de 1970, publicada pela Civilização Brasileira.

Considerado um dos grandes romancistas do século XX, Greene teve várias de suas obras adaptadas para o cinema. Sua escrita contempla o universo da espionagem e da política, sendo que o próprio autor trabalhou para o serviço secreto britânico, pelo que escreveu com muita propriedade sobre essa temática.



Convertido ao catolicismo em 1926, narrou a perseguição religiosa no México em 1938 nas obras The Lawless Roads (1939) e o aclamado O Poder e a Glória (1940); desse momento em diante a religiosidade também teve importância em seus escritos, embora não gostasse de ser tratado como um escritor católico, chegando a afirmar “não ser um escritor católico, mas um católico que escreve”.

O trabalho o levou a viajar para terras distantes a partir da década de 1930: Serra Leoa, Libéria, México, Havana e grande parte da América do Sul e da África. Sua estadia em Cuba, no final dos anos 1950, inspirou o romance Nosso Homem em Havana, um de seus grandes sucessos literários.

Outra obra que contempla sua produção odepórica, também muito conhecida e estimada, Jornada sem Mapas (1936), trata de sua viagem pelo interior da Libéria, quando trabalhava para a inteligência britânica. Atribui-se o título desse livro ao fato de que não existiam na época mapas do interior da Libéria e o insólito é que um mapa do governo norte-americano mostrava o país africano com o espaço todo em branco, contendo apenas a palavra “canibais”.



Confesso que ignorava totalmente a importância literária de Graham Greene, mas depois de conhecer um pouco melhor sua história de vida e também a relevância das viagens em suas obras, estou ansioso para me aprofundar em sua leitura.

O acaso me levou a conhecê-lo por sua obra mais leve, se cabe o termo. Em Viagens com minha Tia, Greene se diverte, como diz, contando a história de Henry Pulling, um monótono cinquentão inglês, bancário aposentado, que tem como hobby cultivar dálias em seu jardim suburbano.

No funeral da mãe, Henry se depara com Tia Augusta, a quem não via desde menino:

“Reconheci com certa dificuldade, graças a uma fotografia do álbum da família, minha tia Augusta, que chegara atrasada, vestida como só a falecida Rainha Mary, de saudosa memória, seria capaz de se vestir, se ainda estivesse viva e se adaptasse um pouco à moda atual. Espantei-me com seu cabelo ruivo e brilhante, penteado de maneira monumental, e com seus dois grandes dentes da frente, que lhe davam um vigoroso ar de Neandertal.”



Desse encontro entre tia e sobrinho surge uma divertida história cheia de mistérios, tramas e viagens além-oceano que levarão o aposentado Henry a abandonar sua vida sem graça e solitária para viver aventuras só imaginadas em livros e filmes policiais.

É certo que o charme dos personagens se deve à enorme diferença de personalidades e à hilária inversão de papéis entre eles: a tia de 75 anos, deliciosamente louca, uma Lucille Ball metida em espionagens, sexualmente ativa, que fala palavrões e que ama as viagens, uma cigana, e o sobrinho careta, celibatário, que nunca sai do bairro onde mora, em pleno final dos anos 60 e que vive de tristes lembranças familiares de um cotidiano sem nenhuma abertura para surpresas... Uma idosa que vive o presente de olho no futuro e o jovem (em comparação a ela) que mal vive o presente e se aprisiona no passado, para quem viajar pode ser uma enorme perda de tempo.

Mas as viagens acontecem aos montes ao longo da trama. A primeira é breve e não tão distante, com destino a Paris, com tempo suficiente para Henry ouvir as mirabolantes histórias de tia Augusta, que de tão extraordinárias parecem inventadas.  



A viagem a Paris serviu de aperitivo para a próxima, uma longa jornada pelo Expresso do Oriente. A partir desse momento fica evidente a noção de que Henry não viaja somente para acompanhar sua tia, mas também para dar um sentido à sua própria vida, claramente inspirado pelas aventuras de tia Augusta. É a clássica viagem de autodescoberta, facilitada pelo deslocamento da viagem externa.

“(...) lembrei-me de Southwood, com uma tolerância cordial... lugar onde eu próprio já não me sentia à vontade. Era como se eu tivesse fugido de uma prisão aberta, descendo por uma escada de corda e entrando num carro à minha espera, que me transportara para o mundo de minha tia, o mundo de personagens improváveis e acontecimentos imprevistos.”

Na viagem de trem, Henry conhece a jovem Tooley, uma adolescente hippie cuja companhia “era uma novidade muito interessante” e logo os dois se aproximam, apesar da diferença de idade entre ambos. Fuma, sem desconfiar, um cigarrinho de maconha com ela, e isso, somado a um comentário sobre minissaias e uma canção assobiada dos Beatles são as poucas passagens do livro que nos situam a época em que a ação transcorre.



Na segunda parte do livro o autor começa a amarrar as pontas soltas da trama, e os mistérios de tia Augusta começam a ser desvelados. Para isso, Henry é levado de navio para a América do Sul, ao encontro da tia, no Paraguai. Daqui em diante não posso continuar para não estragar a surpresa de um possível leitor da obra.

Viagens com minha Tia foi uma das obras de Greene adaptadas para o cinema em 1972, e coube a Maggie Smith o papel de Tia Augusta.

Para encerrar, gostaria de comentar uma passagem desse romance que me pareceu brilhantemente construída; trata-se de uma das histórias de Tia Augusta sobre um dos homens da família Pulling.



Para mim, Greene escreveu uma cena que, numa primeira leitura, pode parecer apenas uma inverossímil história criada pela fantasiosa cabeça de uma mulher que gosta de contar anedotas do passado. Mas depois de processar o que ela descreve ao sobrinho, veremos que existe ali uma maravilhosa filosofia de vida, a viagem como metáfora da própria existência.

Tomei a liberdade de pular alguns trechos apenas para encurtar um pouco o texto, sem contudo descaracterizar a narrativa.


Excerto do Capítulo VII  

Tia Augusta reserva dois leitos para o Expresso do Oriente, numa viagem de três noites rumo a Istambul. O diálogo entre ela e o sobrinho, Henry, segue abaixo:

- Mas se a senhora quer ir a Istambul, é muito mais fácil e mais cômodo tomar um avião.
- Só ando de avião quando não há nenhum outro meio de transporte.
- Mas não há perigo.
- É uma questão de preferência, e não de nervos. Sempre me senti perfeitamente segura naquelas engenhocas. Mas não aguento que me falem o tempo todo por meio de alto-falantes. Ninguém nos chateia numa estação de trens, mas os aeroportos sempre me lembram aqueles campos de férias organizados.

- Eu não estou muito acostumado a viajar pelo exterior. A senhora não vai gostar... 
- Comigo você aprende logo. Os Pullings sempre foram grandes viajantes. Acho que foi seu pai que me contagiou.
- A senhora deve estar enganada. Meu pai nunca saiu do centro de Londres.
- Ele viajou de uma mulher para outra, Henry. A vida inteira. Dá no mesmo. Novas paisagens, novos costumes. O acúmulo de recordações. Vida longa não é uma questão de anos. Um homem sem recordações pode viver cem anos e achar que sua vida foi muito curta. Seu pai me disse uma vez: “A primeira moça com quem dormi se chamava Rose. Por coincidência, trabalhava numa loja de flores. Parece que foi há um século”. E o seu tio também...

- Não sabia que eu tinha um tio.
- Era quinze anos mais moço do que seu pai e morreu quando você era criança.
- Ele viajava muito?
- No fim, as viagens ganharam uma forma estranha. (...) Seu tio era um bookmaker conhecido por Jo. Fez uma fortuna considerável, mas seu único desejo era sempre viajar mais. Queria retardar o ritmo da vida e achava, com razão, que as viagens fariam com que o tempo andasse menos depressa. Por isso resolveu dar a volta ao mundo.

Começou a viagem, por estranha coincidência, no Simplon Oriente, o mesmo trem que vamos tomar na semana que vem. Da Turquia, pretendia seguir para a Pérsia, Rússia, Índia, Malásia, Hong Kong, China, Japão, Havaí, Taiti, Estados Unidos, América do Sul, Austrália, talvez Nova Zelândia.

Num ponto qualquer, pegaria um navio de volta. Infelizmente foi retirado do trem logo no começo da viagem, numa maca, depois de um derrame.

- Que pena.
- Isso não modificou nem um pouco o seu interesse de viver muito. Naquela ocasião, eu estava trabalhando em Veneza e fui visitá-lo. Ele decidira viajar mentalmente, já que não podia fazê-lo fisicamente. Pediu que descobrisse uma casa com trezentos e sessenta e cinco quartos. Queria passar um dia e uma noite em cada um. Achava que, dessa maneira, a vida seria praticamente interminável.

(...) Encontrei uma casa velha, que já fora um palazzo, castello ou coisa parecida. Estava praticamente em ruínas. Contei os quartos. Dividindo o porão em quatro, com alguns tabiques, e somando o lavatório, o banheiro e a cozinha, o total subia a cinquenta e dois. Quando Jo soube, ficou encantado: um quarto para cada semana do ano. Tive que por uma cama em todas as peças até mesmo no banheiro e na cozinha. No lavatório não cabia uma cama, mas comprei uma poltrona confortável, com extensão para os pés.

Esse quarto podia ficar para o fim. Eu achava que Jo não viveria o bastante para ocupá-lo. Uma enfermeira o acompanharia, quarto após quarto, chegando de vez em quando com um certo atraso, para dar a impressão de uma viagem verdadeira.

- Mas que plano extraordinário!
- Funcionou às mil maravilhas. Quando Jo estava no décimo quinto quarto ele me disse que tinha a impressão de que já se mudara há pelo menos um ano. E se quinze quartos davam a impressão de um ano de vida, ele ainda tinha vários anos de viagens pela frente.

A enfermeira me disse que, no quarto dia depois de cada mudança, ele começava a ficar inquieto, ansioso por viajar de novo. No primeiro dia em um novo quarto, dormia mais do que o normal, cansado da viagem. Ele começou no porão, foi subindo aos poucos, até atingir o último andar, e já começava a falar numa segunda visita aos antigos aposentos: “Desta vez, seguiremos uma ordem diferente e sairemos noutra direção”.

Concordou em deixar o lavatório para o fim: “Depois de todos esses quartos luxuosos – comentou – será divertido. Um pouco de falta de conforto mantém a gente em forma. Não quero ser um desses velhos excêntricos que andam pela primeira classe da Cunard, reclamando do caviar”.

Estava no quinquagésimo primeiro quarto quando teve o segundo derrame. Ficou paralítico de um lado e quase impossibilitado de falar.

Eu estava em Veneza, na ocasião, mas obtive permissão para deixar a companhia, por alguns dias, e Mr. Visconti me levou de carro ao palazzo de Jo. Estavam tendo um trabalho incrível com ele. Já passara sete dias no quinquagésimo primeiro quarto quando sofreu o derrame, mas o médico insistia para que ficasse na cama, sem se mover, pelo menos por mais dez dias. “Qualquer pessoa – disse o médico- daria Graças a Deus de poder ficar quieto”.

“É que ele quer viver o máximo possível” – expliquei ao médico.
- “Nesse caso, deve ficar onde está, até o fim. Se tiver sorte, poderá durar mais uns dois ou três anos”.

Contei a Jo o que o médico dissera. Ele respondeu algo que não entendi, passou bem a noite e a manhã seguinte. A enfermeira estava certa de que ele se resignara a ficar quieto. Deixou-o dormindo e foi tomar uma xícara de chá no meu quarto. De repente ouvimos um barulho estranho e forte, vindo de cima. Parecia que alguém estava trocando os móveis de lugar. Corremos para o andar de cima, e sabe o que encontramos? Jo Pulling saíra da cama.

Amarrara uma velha gravata listrada, de um de seus clubes, na alça da mala, porque não tinha mais forças nas pernas, e se arrastava pelo corredor, a caminho do lavatório, puxando a mala. Gritei para que parasse, mas não me deu a menor atenção. Era uma cena dolorosa. Ele se movia com lentidão, fazendo grande esforço.

O corredor era ladrilhado. Passar de um ladrilho a outro provocava-lhe uma incrível exaustão. Desfaleceu antes de o alcançarmos e lá ficou, ofegante. Para mim, o mais triste de tudo foi o laguinho de pipi que fez no ladrilho. Não convinha removê-lo antes do médico chegar. Colocamos um travesseiro embaixo da cabeça de Jo, a enfermeira deu-lhe uma pílula e disse: “Cattivo”. Isso significa: “Velho traquinas”.

Ele sorriu para nós duas e disse, “Parecia que não ia acabar mais” – e morreu antes da chegada do médico. Tinha lá suas razões para fazer aquela última viagem, desobedecendo às ordens do médico, que só lhe prometera poucos anos de vida.

- Ele morreu no corredor? – perguntei.
- Morreu viajando – disse minha tia, num tom reprovador – Como sempre desejou.

Leia: Viagens com Minha Tia. Graham Greene. Editora Civiização Brasileira. 1ª ed. Rio de Janeiro, 1970.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Wanderlust, by Rebecca Solnit. (uma introdução)


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Às vésperas de cair na estrada, procuro por uma leitura que me inspire na jornada que virá pela frente. Geralmente releio autores que já me acompanharam em outras aventuras, entre eles Paul Bowles, Phil Cousineau, Luiz Carlos Lisboa e Fernando Pessoa, porque viajar sem poesia não tem graça nem sentido.

Dessa vez puxo da estante um livrão de capa dura que comprei no outono de 2013, já muito folheado mas nunca lido com a atenção que merece: Wanderlust – A History of Walking, de Rebecca Solnit.

Wanderlust é uma palavra de origem alemã sem tradução literal para o português, traduzida como “ânsia ou desejo de viajar”. E pegando carona nesse bonito vocábulo, a autora buscou construir a história da caminhada, as origens do ato de caminhar.



Estou encantado com a leitura desse texto, que já considero um dos melhores que li sobre a temática da caminhada (mesmo sem ter terminado a leitura); a Rebecca se acerca muito de outros autores já escreveram sobre o tema, como Fredéric Gros em seu Caminhar,uma filosofia, Michel Onfray em sua Teoriada viagem ou Adriano Labbucci com seu Caminhar,uma revolução, escritores que já passaram aqui no Odepórica. 

O diferencial de Rebecca Solnit está na maneira como ela aborda o ato de caminhar e as viagens. Para a autora estadunidense, a caminhada hoje, na realidade das cidades norte-americanas, pode ser considerada um ato subversivo.



Ela explica o que muitos de nós já sacamos faz tempo: as cidades dos EUA (principalmente, mas não exclusivamente) não são mais pensadas para os caminhantes, tudo é voltado para o deslocamento por automóveis. Grandes avenidas, horrorosos centros comerciais-  todos iguais, numa padronização assustadora - imensas autopistas que cortam o país e destroem paisagens... e o motorista, que ao chegar a casa, se tranca em sua jaula segura repleta das facilidades oferecidas pela vida moderna, a mesma que o aprisiona em escritórios, automóveis e lares.

Andar é subversivo porque se torna quase proibido! Os engenheiros urbanos pensam antes nos veículos motorizados e depois nos pedestres, ao ponto de não projetarem mais calçadas, e aqueles que decidem se aventurar numa caminhada, seja no acostamento (quando há) ou na própria estrada ou avenida, correm o risco de ter que se explicar às autoridades.



Diz a autora que ela descobriu sua voz como escritora depois que começou a viajar para o interior do país, longe da região costeira onde vive em São Francisco; em suas explorações a noção da existência de camadas históricas desses lugares lhe chamou a atenção.

Como participante de atos pacifistas contra o armamento nuclear, foi visitar alguns lugares onde antes eram feitos testes com armamentos pesados; passado o momento de loucura militar (pelo menos fisicamente nesses locais), o governo transformou o que antes eram desertos proibidos em parques naturais.



Só que antes desses parques, antes da tomada desses locais pelos militares, viviam fazendeiros ali e antes destes, provavelmente viveram os nativos mais tarde expulsos e o resto é história. São essas camadas históricas a que a autora se refere, insights surgidos após suas longas caminhadas.

Ao invés de escrever sobre a história desses locais visitados, Rebecca preferiu escrever sobre a caminhada em si. E um trecho pequeno dessa escrita é o que você lerá a seguir, um aperitivo antes da resenha que um dia farei sobre essa belíssima obra. Boa leitura.


Na marcha do pensamento

Caminhar, em teoria, é um estado no qual a mente, o corpo, e o mundo estão alinhados, como se fossem três personagens que finalmente conversam juntos, três notas que repentinamente formam um acorde.

Caminhar nos permite estar em nossos corpos e no mundo sem sermos ocupados por eles; uma liberdade para pensar sem nos perdermos em nossos pensamentos.

O ritmo da caminhada gera um tipo de ritmo de pensamento, e a passagem por uma paisagem ecoa ou estimula a passagem por uma série de reflexões. Isso cria uma estranha consonância entre a passagem externa e a interna, sugerindo que a mente também é uma espécie de paisagem e a caminhada é um meio de atravessá-la. 



Um novo pensamento frequentemente parece uma característica da paisagem que esteve ali durante todo o tempo, assim como os pensamentos estavam viajando, mais do que sendo criados em nossa mente, de modo que um aspecto da história da caminhada é a história do pensamento tornado concreto – pois os movimentos da mente não podem ser traçados, mas os dos pés podem.

Uma caminhada também pode ser imaginada como uma atividade visual, cada caminhada um passeio calmo o suficiente tanto para ver e refletir sobre as paisagens, como para assimilar o novo dentro do conhecido ou já visto. Talvez seja daí que venha a peculiar utilidade da caminhada para os pensadores.



As surpresas, a liberdade, e os esclarecimentos das viagens às vezes podem ser vivenciados simplesmente em uma volta no quarteirão ou dando a volta ao redor do mundo, não importando se a caminhada é próxima ou longínqua.

Talvez a caminhada possa ser chamada de movimento, não de viagem, pois é possível caminhar em círculos ou viajar através do globo estando imobilizado em um assento, e um certo tipo de wanderlust (a ânsia de viajar) só pode  ser aliviado pelos atos de movimento do corpo, não o movimento do carro, do barco ou do avião.



É o movimento, tanto quanto as paisagens que passam que parecem fazer as coisas acontecerem na mente, e é isso o que faz a caminhada ambígua e infinitamente fértil: ela é tanto o objetivo quanto o final, a viagem e o destino.

Leia: Wanderlust: A History of Walikg. Rebecca Solnit. Viking Penguin, 2000.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Peregrinação no Japão, parte II. By J.M.Kitagawa

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3-Peregrinação baseada na Fé em pessoas carismáticas

Ao lado das peregrinações às montanhas sagradas e aos santuários de várias divindades, também se desenvolveu no Japão a peregrinação inspirada pela fé em certos homens santos carismáticos.

É necessário lembrar que mesmo antes da introdução do budismo no país os japoneses veneravam vários tipos de pessoas carismáticas tidas como portadoras de poderes super-humanos.



Após a introdução do budismo, alguns dos notáveis budistas, como o Príncipe Regente Shotoku, quem no final do século 6 e começo do século 7 promoveu o budismo como sendo de facto a religião estatal, e Gyogi, um líder popular do budismo no século 8, quem, por conta de suas atividade filantrópicas e caráter santo foi chamado de Bodhisattva vivo, se tornaram ambos objetos de adoração por boa parte dos budistas piedosos. O mesmo aconteceu com muitos dos fundadores das escolas budistas, como Shinran (séc. XII) e Nicheren (séc XII).



É interessante notar que, diferentemente dos budistas chineses, cujos fundadores costumavam seguir os passos do Buda na Índia, pisando os locais sagrados onde este viveu e predicou, os japoneses tomaram por hábito peregrinar aos mausoléus dos líderes budistas, muitos dos quais  eram conhecidos pelas suas qualidades carismáticas.



O exemplo mais notável a esse respeito é o culto que se desenvolveu ao redor da memória de Kukai ou Kobo Daishi (774-835), sistematizador da escola budista esotérica chamada Shingon-shu.



Não é preciso falar muito sobre Kukai, cuja vida real foi enterrada sob camadas de lendas piedosas. O que é significante é o fato de que ele é lembrado pelos seus seguidores como o itinerante homem santo que visitou muitas áreas remotas do Japão, cavando poços, curando os doentes e produzindo vários milagres para ajudar os pobres e os oprimidos.



Além disso, é amplamente aceito que Kukai não morreu e que ainda hoje ele está caminhando por lá, disfarçado de peregrino e ajudando aqueles que necessitam sua assistência.

Os devotos de Kukai devem ter visitado seu local de nascimento na ilha de Shikoku logo no começo do século 9,  sendo plausível que algum tipo de peregrinação formal nas “quatro províncias” (Shikoku) pode ter surgido nos séculos 12 ou 13. Entretanto, a prática atual de visitar os 88 santuários em Shikoku não foi firmemente estabelecida até meados do século 17.



Até onde podemos averiguar, a “Peregrinação em Shikoku” é um fenômeno complexo. Em muitos sentidos, ela tem notáveis similaridades com a peregrinação aos 33 Santuários de Kannon (Saigoku sanju-san-sho). Em ambos os casos os peregrinos vestem as mesmas indumentárias e seus cantos são semelhantes em forma e som.



Examinando mais de perto, contudo, fica evidente que o motivo central da “Peregrinação em Shikoku” não é a devoção aos 88 locais sagrados, que sem dúvida tronou-se uma característica própria, mas em vez disso, sua ênfase principal é o ato de “caminhar com Santo Kukai”. Dito isso, a “Peregrinação em Shikoku” é baseada na fé e na memória do homem santo carismático, Kukai, cujo bastão de caminhada é seu símbolo vivo.



Portanto, mesmo quando uma pessoa sozinha empreende a peregrinação, esta é chamada de peregrinação de dois (dogyoni-nin), querendo dizer, Santo Kukai e ela.

De acordo com a tradição, a peregrinação a Khikoku começa no Monte Koya, local do centro monástico estabelecido por Kukai. Espera-se que os peregrinos prestem homenagem ao mausoléu de Kukai, onde se crê que ele esteja dormindo até o momento de retornar ao mundo como o futuro Buda, Maitreya.



Do monte Koya, os peregrinos saem de um dos portos e cruzam o estreito para Shikoku de barco. Os 88 lugares sagrados estão espalhados pelas 4 províncias que constituem Shikoku. Historicamente, na província de Awa, que conta com 23 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para o despertar espiritual” (Hosshin no dojo); a província de Tosa, com 16 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para a disciplina ascética” (Shugyono dojo); a província de Iyo, com 26 locais sagrados é conhecida como “arena de exercício para a iluminação” (Bodai no dojo), e a província de Sanuki, com 23 locais sagrados é chamada de “arena de exercício para o estado de Nirvana” (Nehan no dojo).



Os locais sagrados são numerados de 1 a 88. Destes locais, os de números 19, 27, 60 e 66 são considerados “obstáculos” (seki-sho), e dizem que aqueles que cometeram alguma má ação recebem nesses pontos algum sinal ou presságio, tal como a aparição de um determinado pássaro.



Tal presságio indica que eles desagradaram Santo Kukai e por isso devem terminar ali sua peregrinação e começar tudo novamente. A princípio, o curso normal da peregrinação é iniciar pelo número 1 e terminar no templo 88, mas após completar o curso regular, pode-se empreender uma peregrinação adicional, desta vez seguindo a rota reversa.



É tomado como certo que a peregrinação completa é mais louvável. Entretanto, mesmo que feita parcialmente, como “os 10 locais sagrados” (jukka-sho mairi), “os 7 locais sagrados”  (nanaka-sho mairi) e os locais sagrados em “uma das quatro províncias” somente (ikkoku mairi) são tidos como muito benéficos.



Assim como no caso da Peregrinação aos 33 Santuários de Kannon, a Peregrinação em Shikoku é tanto feita individualmente ou por pequenos grupos familiares. Porém, há também muitos tipos de grupos formais e informais, os quais patrocinam grupos de peregrinação, tal como a Confraternidade devocional a Kobo Daishi (Daishi-ko) e a Confraternidade dos devotos de Shingon (Kongo-ko).



Igualmente notável é o desenvolvimento de confraternidades dedicadas à tarefa de oferecer hospitalidade e assistência aos peregrinos (set-tai-ko). Membros dessas confraternidades acreditam que oferecer hospitalidade aos peregrinos é o mesmo que servir a Santo Kukai.



Alguns desses grupos hospitaleiros vêm de lugares distantes, fretando barcos para o transporte de alimentos e outros itens, e levantando centros de hospitalidade em vários pontos ao longo da rota principal de peregrinação.



A popularidade da Peregrinação a Shikoku foi tamanha que desde o século 18 vários “88 mini-santuários de Shikoku” foram construídos em diversas partes do país, como Edo (Tokyo), Chita (perto de Nagoya), Soma (na atual prefeitura de Chiba) e a ilha de Shozu no Mar Interior de Seto.



Essas peregrinações de menor escala obviamente não são tão meritórias como a peregrinação original aos locais sagrados em Shikoku, mas são uma maneira de dar oportunidade àquelas pessoas que, de outra forma não seriam capazes de “caminhar com fé ao lado de Santo Kukai”.



Ainda que breve, esse retrato dos três tipos de peregrinação no Japão deixa claro que há tantas semelhanças quanto diferenças significativas entre elas.  O primeiro tipo, chamado de peregrinação às montanhas sagradas pode ser caracterizado por suas atividades corporativas sob a supervisão de um guia experiente.



A ênfase no ascetismo e nas disciplinas físicas implica em um caminho soteriológico (Soteriologia- parte da Teologia que estuda a salvação da humanidade) baseado no autopoder (jiriki – fé em si mesmo, no esforço próprio) ainda que traga em si um elemento de fé. E a noção de que as montanhas sagradas são os modelos do Paraíso dá um ímpeto enorme aos peregrinos que buscam um significado religioso de vida dentro da realidade da existência fenomenal.



O segundo tipo, a peregrinação baseada na fé em certas divindades tende a ser mais individualista e também carece da rigorosa ênfase ascética porque seu caminho soteriológico conta com o poder salvador das divindades.  (tariki – fé no poder externo, o Outro Poder). Mesmo que os peregrinos busquem uma experiência imediata de algum grau de salvação aqui na terra, eles aceitam a existência de uma realidade futura como a única arena de salvação.



Finalmente, o terceiro tipo, a peregrinação baseada na fé em homens santos carismáticos carrega algumas das características do primeiro e do segundo tipo mencionados antes. Mas sua característica única é demonstrada na noção de que o poder salvador já foi efetivado na vida de um homem santo carismático, que combina em si os papéis de divindade e de guia. Em outras palavras, o peregrino depende do Outro Poder (tariki), embora esse Outro Poder não esteja distante em uma realidade transcendental. O poder salvador, totalmente efetivado em uma pessoa, compartilha cada passo do peregrino terreno como um real “companheiro peregrino”.



É evidente que a tarefa do historiador da religião envolve muitas dificuldades especialmente quando se lida com um fenômeno complexo como a evolução da religião na Japão, país de diversas características homologadas de Budismo, Taoísmo, Shinto e crenças religiosas populares, símbolos, cultos e práticas.



Em tal situação, uma abordagem cabível poderia ser a de estudar uma forma significativa de culto religioso desenvolvido a partir da fusão de vários elementos. Neste ponto é nossa esperança que esse estudo primário dos três tipos de peregrinação possa ter jogado uma luz nas características devocionais da tradição religiosa japonesa.



sábado, 28 de julho de 2018

Peregrinações no Japão, parte I. By J.M.Kitagawa


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Vez ou outra volto a reler alguns textos de fenomenologia da religião, uma área de estudo que me interessa em particular.   Tenho em mãos um excelente livro, Experience of the Sacred – readings in the Phenomenology of Religion, com textos de gente grande como Rudolph Otto, Max Scheller, Mircea Eliade e Paul Ricouer.

Apaixonado pelo Japão e sua cultura, fui de imediato atraído por um texto sobre peregrinações, escrito por J. M. Kitagawa que resolvo traduzir e publicar aqui no Odepórica, uma vez que o tema é pertinente com o perfil do blog.  

Kitagawa nasceu em 1915 em Osaka, no Japão, e aos 26 anos foi estudar teologia nos Estados Unidos, onde fez uma carreira brilhante na área dos estudos de religião, em particular em História da Religião, sendo um dos fundadores dessa área de estudo nos EUA. Faleceu em 1992, aos 77 anos de idade.             
 

Em toda tradição religiosa, a peregrinação reúne os mais variados atos religiosos e frequentemente características diversas e muitas vezes contraditórias, que são tanto espirituais quanto mundanas.

Viajar longas distâncias, visitando montanhas sagradas ou santuários, envolve dificuldade e resistência física, mas também aspectos prazerosos, tais como passeios e contato com novas amizades. De modo geral, os peregrinos são movidos por objetivos religiosos, tais como a veneração de divindades ou santos que estão consagrados em vários locais sagrados, obtendo mérito pela salvação de alguém, pagando penitência por um pecado, ou rezando pelo repouso dos espíritos dos falecidos, mas esses motivos religiosos são frequentemente misturados com o desejo de alcançar uma cura, boa sorte, o nascimento auspicioso de uma criança, prosperidade ou qualquer outro benefício mundano.

Mesmo as práticas ascéticas, que são geralmente impostas aos peregrinos, notavelmente a abstinência sexual e o jejum ou as restrições dietéticas são interpretadas como investimentos necessários para as almejadas recompensas, sem contar que a peregrinação proporciona um providencial alívio da enfadonha rotina diária das pessoas.



Além do mais, visto de uma perspectiva mais ampla, a peregrinação, que sedimenta a solidariedade de grupos religiosos, também estimula os negócios e o comércio, a disseminação de ideias e o intercâmbio intercultural. Não obstante essas características universais, que são compartilhadas pelas peregrinações de várias tradições, cada uma tende a mostrar um ethos próprio, que só pode ser compreendido dentro de seu contexto religioso e cultural.

No Japão, o desenvolvimento da peregrinação foi muito influenciado por fatores geográficos e topográficos tanto quanto os fatores religiosos e culturais. De acordo com o Shinto (Xintoísmo, religião nativa do Japão derivada do animismo e práticas xamânicas), o mundo inteiro é permeado pela natureza sagrada (kami), de modo que cada montanha, rio, árvore, rocha - assim como o ser humano - são potenciais objetos de veneração.

No que diz respeito à prática da peregrinação, ela teve pouca evidência no Shinto, uma vez que este era rigorosamente relacionado com a vida do clã (uji), que mais do que nunca estava estabelecido em uma localidade geográfica particular.



Para se ter uma ideia, em muitas comunidades rurais acreditava-se que o kami (espírito) das montanhas descia à terra e se transformava no kami do campo de arroz durante parte do ano e depois retornava às montanhas após a época da colheita. É concebível que, por esse motivo, algumas pessoas podem ter subido as montanhas com o intuito de vivenciar a morada mística do kami. Mas essas práticas eram espontâneas, não regularizadas como peregrinações nos primórdios do Shinto.

A introdução da civilização chinesa e do budismo durante o século VI a.C. trouxe à tona uma extensa mudança religiosa e cultural nos períodos subsequentes na história do Japão. Eventualmente, lá se desenvolveu três tipos de peregrinação principais após a fusão do Shinto nativo com as práticas e crenças populares do budismo e dos elementos do taoísmo chinês. São elas:

1-  Peregrinação à montanha sagrada
2-  Peregrinação aos templos e santuários, baseada na fé pelas divindades adoradas nesses locais;
3-  Peregrinação aos lugares sagrados baseada na fé em certos homens santos carismáticos, que por esse motivo consagraram os lugares com sua presença.



Veremos a seguir como esses tipos de peregrinação se desenvolveram no Japão e também vamos retratar as semelhanças e diferenças entre elas.

1.   Peregrinação à Montanha sagrada



Já pontuamos a importância das montanhas sagradas na vida religiosa do japonês primitivo. É significante notar nessa conexão que até mesmo após a introdução da civilização chinesa e do budismo as pessoas continuaram a venerar as montanhas assim como as moradas das divindades, e a prestar um respeito especial ao “homem austero” (gyo-ja), no qual se acreditava haver adquirido poderes super-humanos por conta do rigoroso treinamento ascético da montanha (sanrin-toso).

Entre os budistas, também se desenvolveu no século VIII um movimento chamado “Escola da Sabedoria Natural”, a qual buscou a Iluminação não através da meditação tradicional e das disciplinas monásticas, mas através de um contato junto à Natureza nas montanhas.



É sabido que alguns monges e leigos piedosos submetiam-se à prática da austeridade nas montanhas na intenção de adquirir poderes mágicos (siddhi). Enquanto isso, adivinhos xamânicos, curandeiros e ascetas, que antes não tinham qualquer conexão com o budismo, passaram a ter influência budista.

A relação deles com o budismo foi muito tênue, mas eles eram chamados de “praticantes budistas não ordenados” (ubasoku; upasaka)  e muitos alegaram possuir o poder de operar milagres por conta da práticas austeras na montanha.  O efeito combinado desses movimentos foi o aparecimento da então chamada Ordem dos Ascetas da Montanha (Shugendo- o caminho de poder espiritual pela ascese, escola do Mikkyo, o budismo esotérico japonês) que preservou muitos elementos do Shinto e das antigas tradições religiosas populares.



A popularidade dos ascetas das montanhas durantes os séculos XI e XII foi engrandecida pela crença prevalente entre os aristocratas de que a peregrinação às montanhas sagradas, especialmente aquelas de Kumano e Yoshino, poderiam habilitá-los a vivenciar aqui na terra uma amostra da Terra Pura (Jodo-Shu).  

Também era amplamente sustentado naquele tempo que os nativos Shinto kami (espíritos) daquelas montanhas eram na realidade manifestações das divindades budistas. Deste modo, acreditava-se que as peregrinações a essas montanhas, acompanhadas e guiadas pelos experientes ascetas locais, traziam proteção tanto das divindades xintoístas quanto das budistas simultaneamente.

Com o declínio da nobreza da corte na segunda metade do século XII, os ascetas das montanhas buscaram amparo entre guerreiros e outros plebeus através do estabelecimento das confraternidades devocionais (ko-sha) em várias partes do país.



A maioria dos membros dessas confraternidades pertencia aos grupos budistas e xintoístas, mas eles encontraram um ímpeto adicional em sua devoção nas deidades de certas montanhas sagradas que se encontravam quase sempre longe de seus lares. Um bom número dessas confraternidades continuou atuante até os nossos tempos.

A principal função desses grupos era a peregrinação às montanhas sagradas, sendo que a maioria deles não permitia a participação de mulheres, pelo que as confraternidades eram predominantemente masculinas. Eles consideravam a subida nas montanhas, conduzida por guias experientes, essencial para a disciplina física e espiritual, e assim a peregrinação era usualmente considerada uma cerimônia de iniciação para garotos que estavam entrando na vida adulta.

Eventualmente modelos miniatura de montanhas sagradas se estabeleceram em algumas partes do país para o benefício daqueles que não podiam fazer as verdadeiras peregrinações, e o culto às montanhas cresceu em popularidade atraindo idosos e também as mulheres.



Estima-se que na segunda metade do século dezenove havia 17.000 guias qualificados nas montanhas sagradas, o que significa que um número consideravelmente maior de ascetas estava atuando nesses lugares.

As três (assim chamadas) denominações da Seitas Shinto dos nossos dias – (1) Jikko-kyo (religião de “conduta prática”), (2) Fuso-kyo (religião de Fuso, que é o nome clássico do Monte Fuji), e (3) Ontake-kyo (religião do Monte Ontake) – são herdeiras diretas das tradições dos ascetas das montanhas, enquanto Fuji-kyo (confraternidade devocional do Monte Fuji), mais tarde renomeada como Maruyama-kyo, tornou-se uma sub-seita de outra denominação da Seita Shinto chamada Shinto Taikyo (o grande ensinamento do Shinto).

Assim, há muitos grupos de peregrinação às montanhas, formais e informais, indo desde aqueles que seguem as disciplinas mais estritas até os que beiram às atividades semi-recreacionais. 

2 – Peregrinações baseadas na crença em certas Divindades



Na história religiosa do Japão, a popularização da peregrinação não ficou confinada às montanhas sagradas. Muitos religiosos, mulheres e homens leigos, certamente estimulados pelas peregrinações nas montanhas, também apreciavam a visita menos aventureira aos lugares sagrados das planícies, especialmente os templos budistas ou os santuários xintoístas onde certas divindades são cultuadas.

Essas peregrinações são motivadas não pelo desejo de se submeter às práticas ascéticas, mas pela devoção a um determinado Buda, Bodhisattva (bodhi = iluminado; sattva = ser) ou kami, a quem os peregrinos prestam homenagem, dão graças ou pedem favores especiais. Os templos que consagravam as estátuas das divindades mais conhecidas atraíam muitos peregrinos.

A peregrinação mais organizada de todas é a conhecida como “Peregrinação aos 33 Santuários no Japão Ocidental” (na parte ocidental do país, região de Kansai), em japonês, Saigoku Kannon ou Saigoku Sanjusansho, que foi baseada na devoção a Kannon (Avalokiteshvara, o Buda da Compaixão).



De acordo com uma lenda piedosa, o Imperador Kazan (que reinou de 984-986), após a morte de sua consorte, abdicou do trono e, trajando hábito sacerdotal, visitou os 33 santuários dedicados a Kannon. Embora essa lenda não seja confiável, é quase certo que dois sacerdotes Tendai, (Escola do budismo maaina, descendente da Escola chinesa do Sutra do Lótus) Gyoson e Kakuchu, peregrinaram no século XII pelos 33 santuários de Kannon.

Evidentemente, a julgar pelos registros dos séculos XIII e XIV, houve variações na seleção dos santuários dessa rota, ainda que exista um acordo na quantidade (33), por ser este um número sagrado. A atual característica dos 33 templos provavelmente foi estabelecida no século XV, época em que a peregrinação já não era mais monopolizada pelos bem-nascidos e pela classe religiosa.

Devido em grande parte às atividades dos líderes dos novos movimentos budistas que surgiram no século XIII, entre elas a Escola Terra Pura e o Nichiren, tanto os pobres quanto os ricos vieram a aceitar a crença de que estavam vivendo em um período de “degeneração da Lei do Buda” (mappô – período final da Boa Lei), pelo que sentiam uma urgente necessidade da graça e da misericórdia das divindades para o seu renascimento na Terra Pura após a morte.



Sem dúvida esse é o motivo de o Monte Nachi, tido como modelo da Terra Pura do Kannon na terra, ter sido escolhido como o ponto de partida da peregrinação.

Gradualmente, o vestuário do peregrino – chapéu de palha largo, rosário pendurado no pescoço, cajado, concha, um baldinho de madeira e um sino – passou a ser comum.

Na estrada os peregrinos entoam um canto rítmico de 33 versos, referenciando o poder miraculoso e compassivo de Kannon em um de seus 33 santuários; não raro os peregrinos mendigavam alimento e esmolas, maneira de garantir seu sustento durante a jornada.



Com o tempo, muitas outras formas de peregrinação budistas foram aparecendo, como a peregrinação aos 25 templos da Escola da Terra Pura, a peregrinação aos 100 templos da Escola Nichiren, e a peregrinação aos 100 templos no distrito de Higashiyama, ao longo das encostas mais baixas de Kyoto, antiga capital do Japão Imperial.

Ao contrário das peregrinações às montanhas sagradas, feitas em grupos e guiadas por um asceta experiente, a peregrinação aos templos das divindades pode ser feita individualmente. Apesar disso, muitas confraternidades surgiram em conexão com essas peregrinações e seus membros formam pequenos grupos de peregrinos para dar suporte mútuo e encorajamento aos companheiros de viagem.



Na tradição do Shinto, que também desenvolveu a prática da peregrinação durante os últimos séculos, a mais proeminente é a peregrinação ao Grande Santuário de Ise, dedicado à deusa do sol, Amaterasu-o-mikami. Essa peregrinação foi fomentada pela Confraternidade de Ise (Ise-ko), que seleciona por sorteio certos membros que irão representar outros em sua peregrinação a Ise, geralmente na primavera ou no outono.

A partida e o retorno são celebrados através de cerimônias especiais e banquetes são oferecidos a todos os membros. Uma vez que suas despesas são pagas pela confraternidade, que é mantida pelas taxas dos associados, os peregrinos de Ise – ou de outras peregrinações xintoístas semelhantes - não pedem esmolas nem alimento na caminhada. Fora isso, o objetivo da peregrinação a Ise é semelhante às peregrinações budistas, exceto que o objeto de devoção é uma divindade Shinto.