terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A viagem ao Brasil de Marianne North


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Para quem gosta de ler, namorar vitrines de livrarias costuma ser um agradável passatempo. Numa de minhas últimas visitas à Martins Fontes da Avenida Paulista, uma obra me fisgou a atenção de imediato, não só por sua beleza gráfica mas também pelo título: A viagem ao Brasil de Marianne North, primorosa apresentação e organização de Julio Bandeira editado pela Sextante.

Tenho grande estima por obras que retratam o olhar de viajantes estrangeiros sobre o Brasil. Não sei bem o motivo, mas acredito que se deve ao fato de que, ao ler um relato de alguém de fora do meu país eu consiga enxergar diferentes perspectivas de minha própria cultura - cenas, costumes e hábitos que fazem tanto parte de nós que de tão habituados já nem conseguimos mais enxergar.


Para além da curiosidade que temos sobre o que pensam de nós, pesa mais o acervo histórico documentado nessas obras, não raro fontes únicas que testemunham um passado muitas vezes perdido com o avanço do tempo, ainda mais em um país como o Brasil, que tanto maltratou, e ainda maltrata, sua história e sua herança cultural.


Mas tratemos das coisas belas, como o legado artístico de Marianne North, pintora e viajante inglesa do século XIX que retratou o Brasil em sua majestosa natureza no período em que aqui viveu, entre os anos de 1872 e 1873.


Mulher viajada, Marianne chama a atenção num ambiente predominantemente masculino, o dos artistas viajantes e naturalistas que aqui aportaram a partir do século XIX: von Martius, Rugendas, Debret, Langsdorff, Saint-Hilaire, para citar os nomes mais aclamados. À parte sua reconhecida habilidade artística, Marianne North é também respeitada pela coragem em ser diferente numa época em que as mulheres não saíam perambulando pelo mundo.

E Marianne perambulou muito: lá prá cima pisou na Jamaica, Estados Unidos e no Canadá; prás bandas do Oriente visitou o Japão, a Índia e o Ceilão e mais prá baixo, a Austrália, a Nova Zelândia e a Tasmânia. Isso só para citar alguns, porque a lista é grande. Uma autêntica globe-trotter, como dizem lá na terra dela.


O livro organizado pelo Julio Bandeira, autor cheio de títulos acadêmicos que estuda e publica obras sobre os grandes artistas viajantes que visitaram o Brasil, é um encanto para os olhos, além de ser uma leitura agradável e repleta de informações interessantes sobre a arte não só da Marianne North mas também de seus pares viajantes.

Vale mencionar que o autor não se esqueceu de dedicar um capítulo a outras duas personagens femininas que também produziram trabalhos geniais na arte botânica, Maria Sybilla Merian (1647-1717) e Margaret Mee (1909-1988):


“Essas três mulheres parecem formar uma linhagem pela maneira corajosa como associaram a arte à natureza. Merian com guache, o meio empregado na quase totalidade das obras de Mee, cuja solidez das cores está mais próxima do óleo, a tinta preferida de North. Na opção das três na busca pela maior densidade de cores, está presente um dos elementos de associação possível entre artistas de tempos tão diferentes: para elas, a transparência da aquarela parecia ser insuficiente.”



Não é preciso dizer que a vida de Marianne North foi uma aventura, e o que nos interessa particularmente em sua narrativa é o período em que viveu no Brasil. Diz o Julio Bandeira que em 1872, no Rio de Janeiro, a artista


“vai quase todas as manhãs do Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, para o Jardim Botânico no bonde de tração animal. Carl Glasl, o diretor austríaco, ajuda Marianne North a configurar seu cavalete e a deixa usar a sua casa. Ela conhece Paquetá e o Corcovado. Reúne-se com Mr. Gordon, o gerente-geral das Minas de Morro Velho, em Minas Gerais, e a filha dele. É convidada a viajar com eles por Minas Gerais. Viaja a Petrópolis, Juiz de Fora, Ouro Preto, Teresópolis. É apresentada a D. Pedro I. Uma epidemia de febre amarela em 1873 faz com que ela desista de viajar para a Amazônia e decida voltar para a Inglaterra.”


Os diários de Marianne North foram publicados postumamente por sua irmã, Catherine Symonds, em 1892, na obra Recollections of a Happy Life- Recordações de uma Vida Feliz, e na obra que temos em mãos, o autor reproduz na íntegra os capítulos V e VI de suas memórias, que contemplam os meses em que a artista aqui viveu. Tirando as viagens pela Europa, a vinda ao Brasil foi sua segunda viagem para fora do continente europeu, após haver visitado a América do Norte e a Jamaica no ano anterior.


E o que dizer desses diários? Em primeiro lugar, temos em mãos um precioso testemunho odepórico que narra o olhar estrangeiro sobre um ainda exótico país tropical, uma chance de conhecermos a geografia e os costumes da gente daquele período, sem contar a botânica, o principal objetivo da viagem; em segundo lugar, temos a narrativa eurocêntrica de uma viajante da era vitoriana que não esconde suas opiniões de cunho fortemente preconceituoso, como podemos ver ao longo de todo o texto.


Para os padrões atuais do politicamente correto, há passagens que hoje soam absurdamente racistas, mas até nisso o texto tem sua importância histórica, e de uma maneira ou de outra, sejamos honestos, pouca coisa mudou efetivamente nesse campo, uma vez que o discurso não acompanha as atitudes de uma sociedade cada vez mais desequilibrada como a nossa.


Vale notar que podemos fazer vários recortes dentro desse relato, que não se limita apenas à observação da flora local, tema mais presente nessas páginas; nelas também é possível fazer uma leitura da sociedade e do papel dos negros escravizados, frequentemente chamados pela autora de “pretos preguiçosos”; a hospitalidade do povo brasileiro, que a autora reconhece e estima mas quase sempre com uma certa arrogância, deixando claro a superioridade inglesa seja no trato, seja na qualidade dos produtos aqui comercializados.


A culinária, tema hoje tão prestigiado, também aparece com frequência, com detalhes sobre o que era servido nas refeições, nem sempre ao gosto do freguês, embora pareça haver agradado mais do que desagradado:


“Dentro da casa, recebemos boa comida. Como tínhamos quase sempre o mesmo tipo de alimento em todos os lugares, vou relatar aqui em geral como era nosso sustento. Para o jantar, sopa, frango assado ou cozido e carne de porco, um arroz um tanto gorduroso e feijão, o alimento básico do país – alguns ingleses o consideram ‘muito pesado, sendo próprio apenas para cavalos’, mas eu sempre gostei; lembra o feijão francês, só que a fava é preta em vez de branca; no Brasil é sempre comido polvilhado com farinha, uma farinha moída grossa de milho ou de mandioca. Então, nos serviram o excelente queijo do país, que me lembrou o ‘fromage carré’ da Normandia, o qual era sempre comido com alguma compota conhecida pelo nome genérico de ‘doce’ e seguido pelo melhor dos cafés.”


Em tempo: Marianne teve o privilégio de ser recebida por D.Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina no palácio de Petrópolis, numa das passagens que mais me cativaram de suas recordações do Brasil. Não faltaram elogios ao imperador:


“(...) um homem que vale algum esforço para se conhecer, mesmo que fosse o mais pobre dos cavalheiros plebeus; ele é antes de tudo um gentleman, cheio de informações, possuindo um conhecimento abrangente que cobre todos os tópicos. Sua vida está mais para a de um estudioso que para aquela a que os príncipes estão, em geral, condenados a ter.”  

Separei algumas passagens dos diários para que você possa conhecer um pouquinho mais sobre a Marianne North, e quem sabe animá-lo/a a ler essa preciosidade da literatura odepórica produzida por uma das grandes mulheres viajantes do passado. Boa leitura!

PERNAMBUCO

Em 28 de agosto de 1872, lançamos âncora, ainda de dia, ao largo de Pernambuco, de onde vi o longo arrecife com o seu farol e o quebra-mar se estendendo entre nós e o continente, e me perguntei como um número tão grande de navios, com seus mastros enormes, conseguia entrar naquele porto.


Visto através de minha luneta, os edifícios da cidade se pareciam muito com os de qualquer outro centro urbano, mas para além deles havia bosques intermináveis de coqueiros, demonstrando claramente em que parte do mundo estávamos.


(...) É, muitas vezes, completamente impossível desembarcar durante dias seguidos em Pernambuco, mesmo assim, a gente vê nesse mar tempestuoso, cheio de tubarões, os pescadores nativos flutuando sobre um tipo tosco de jangada, parecido com um engradado, com as pernas dentro d’água.

(..) Como era domingo, as lojas estavam fechadas com tanto rigor como se fosse em Glascow. Vi pouca coisa para comprar, apenas papagaios, laranjas e bananas; não havendo senhoras na rua, estavam todas na igreja, e como meu amigo Quaker disse que não tiraria por nada o chapéu nesses templos de idolatria, não tentamos entrar naqueles prédios de certo mau gosto.

BAHIA


Desembarcamos também na Bahia e, depois de subir pelo íngreme zigue-zague que leva até o topo do penhasco, fizemos um novo passeio pelo país, que é selvagem, montanhoso e coberto por florestas exuberantes. O mercado era muito divertido e cheio de figuras estranhas. Negras robustas usando blusas bordadas decotadas (soltas), saias espalhafatosas e mais nada, exceto por um lenço vistoso ou algumas flores na cabeça. Elas vendiam papagaios, araras e saguis barulhentos, além de passarinhos maravilhosos, macacos e outros animais exóticos...


(...) Os preguiçosos eram carregados pelas ruas íngremes sentados em cadeiras, um tipo esquisito de palanquim, que ficava pendurado por um vão vergado e era levado nos ombros de dois homens; se o passageiro não se mexesse, poderia chegar ao topo do morro ileso. Nós não experimentamos, mas ficamos exaustos de caminhar a pé à inglesa e não lamentamos subir novamente a bordo do Neva. 

RIO DE JANEIRO


Bastaram mais dois dias para que o vapor nos levasse a salvo para a bela baía do Rio de Janeiro, que é certamente a mais bonita paisagem marítima do mundo: até Nápoles e Palermo devem se contentar com um segundo lugar em termos de beleza natural. Não conheço nada mais difícil para uma pessoa tímida que desembarcar pela primeira vez entre um povo e uma língua estranhos, sempre tive horror a isso; de forma que pedi ao bondoso comerciante belga que me ajudasse; e ele entregou-me aos cuidados de um de seus irmãos, este não só me desembarcou em seu escaler, como me colocou numa carruagem que me levou para o Hotel des Étrangers em Botafogo, nos arrabaldes da cidade.


Logo me senti em casa no Rio, bastando poucos dias para que tivesse um aposento grande e arejado no alto do hotel, com quarto de vestir e janelas cuja vista, a cada mudança do tempo, era um verdadeiro prazer para o estudo; tanto o Pão de Açúcar como o Corcovado, além da parte da baía, também faziam parte da paisagem.

O prédio era imaculadamente limpo e confortável, considerando as pessoas que o mantinham assim: uma mestiça norte-americana servia de camareira e tudo fazia com diligência; já um preto (escravo) era ainda mais rápido, e dava a impressão de que “gostava” do trabalho.


A cidade do Rio de Janeiro tem uma ótima aparência no seu parentesco com Espanha ou a Sicília, as casas tão cheias de cor e os balcões tão variados, assim como os telhados que se projetam com suas calhas e beirais muito coloridos e cobertos de ornamentos. Os habitantes têm o mesmo prazer que naqueles países em mostrar tapeçarias vistosas e flores brilhantes nos seus balcões e janela, a isso se somam papagaios e macacos que gritam e pulam quando a gente passa na rua, felizmente bem fora de seu alcance.


(...) É claro que (de novo), como faziam todos os outros visitantes do Rio, caminhei até o cimo do Corcovado e olhei para as nuvens, vendo ocasionalmente as nesgas do mas azul e das montanhas por entre elas, além das esplêndidas amarílis amarelas e brancas agarradas aos recantos inacessíveis da rocha; o caminho todo foi um sem- fim de maravilhas e belezas.


Foi nessa expedição que me encontrei, pela primeira vez, com Mr. Gordon e sua filha, que me convidariam para ir visitá-los em Minas Gerais, para onde voltariam dali a aproximadamente três semanas. Eu gostei tanto da aparência deles, do modo como me convidaram, que me pareceu uma grande oportunidade ver um pouco do interior do país, de maneira que disse que passaria lá duas semanas, o que os fez rir, e com razão, pois fiquei oito meses!

MINAS GERAIS


Ouro Preto, a capital da província, está cheia de conventos e me disseram que um deles tinha sido construído com a lavagem das cabeças dos negros, uma vez que, quando paravam de trabalhar no fim do dia nas minas, suas cabeleiras encarapinhadas estavam polvilhadas de ouro em pó, depois se lhes mandavam mergulhá-las nas pias batismais das igrejas – uma maneira original de se pagar o dízimo!

(...) Fizemos uma viagem curta até a “Cidade” de Santa Lucia (Luzia), um vilarejo muito pitoresco situado no topo de uma colina, acompanhado por um longo trecho pelo enrolamento do rio das Velhas, que por sua vez lembrou-me do rio Tweed e, salvo por algumas palmeiras, não parecia nem um pouco tropical. As igrejas, com suas torres de metal em forma de pimenteira, e os telhados das casas de um andar, lembravam, por sua vez, a Hungria.


(...) O colégio do Caraça lembrou-me um pouco o Hospício do Grande S. Bernardo, sem a neve. Fomos encontrar o Padre Superior Julio nos esperando e, depois de apearmos no pátio, acompanhou-me até um prédio mais abaixo e apresentou-me a uma senhora idosa e robusta com um lenço de seda amarrado na cabeça, que mais tarde descobri ser a chefe das lavadeiras.

(...) Ao longe, com a Serra dos Órgãos nos espiando acima dos limites verdejantes dos vales, pensei mais uma vez que nada no mundo poderia ser mais encantador que essa estrada maravilhosa...

Leia: A viagem ao Brasil de Marianne North (1872-1873). Julio Bandeira. Ed. Sextante. Rio de Janeiro, 2012.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Viagens com minha tia, by Graham Greene


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Disse Graham Greene que Viagens com minha tia foi o único livro que ele escreveu por diversão. E é isso o que ele nos entrega com essa novela de humor um pouco datado, publicada em 1969. Garimpei meu exemplar em um sebo, uma bonita 1ª edição em capa dura, de 1970, publicada pela Civilização Brasileira.

Considerado um dos grandes romancistas do século XX, Greene teve várias de suas obras adaptadas para o cinema. Sua escrita contempla o universo da espionagem e da política, sendo que o próprio autor trabalhou para o serviço secreto britânico, pelo que escreveu com muita propriedade sobre essa temática.



Convertido ao catolicismo em 1926, narrou a perseguição religiosa no México em 1938 nas obras The Lawless Roads (1939) e o aclamado O Poder e a Glória (1940); desse momento em diante a religiosidade também teve importância em seus escritos, embora não gostasse de ser tratado como um escritor católico, chegando a afirmar “não ser um escritor católico, mas um católico que escreve”.

O trabalho o levou a viajar para terras distantes a partir da década de 1930: Serra Leoa, Libéria, México, Havana e grande parte da América do Sul e da África. Sua estadia em Cuba, no final dos anos 1950, inspirou o romance Nosso Homem em Havana, um de seus grandes sucessos literários.

Outra obra que contempla sua produção odepórica, também muito conhecida e estimada, Jornada sem Mapas (1936), trata de sua viagem pelo interior da Libéria, quando trabalhava para a inteligência britânica. Atribui-se o título desse livro ao fato de que não existiam na época mapas do interior da Libéria e o insólito é que um mapa do governo norte-americano mostrava o país africano com o espaço todo em branco, contendo apenas a palavra “canibais”.



Confesso que ignorava totalmente a importância literária de Graham Greene, mas depois de conhecer um pouco melhor sua história de vida e também a relevância das viagens em suas obras, estou ansioso para me aprofundar em sua leitura.

O acaso me levou a conhecê-lo por sua obra mais leve, se cabe o termo. Em Viagens com minha Tia, Greene se diverte, como diz, contando a história de Henry Pulling, um monótono cinquentão inglês, bancário aposentado, que tem como hobby cultivar dálias em seu jardim suburbano.

No funeral da mãe, Henry se depara com Tia Augusta, a quem não via desde menino:

“Reconheci com certa dificuldade, graças a uma fotografia do álbum da família, minha tia Augusta, que chegara atrasada, vestida como só a falecida Rainha Mary, de saudosa memória, seria capaz de se vestir, se ainda estivesse viva e se adaptasse um pouco à moda atual. Espantei-me com seu cabelo ruivo e brilhante, penteado de maneira monumental, e com seus dois grandes dentes da frente, que lhe davam um vigoroso ar de Neandertal.”



Desse encontro entre tia e sobrinho surge uma divertida história cheia de mistérios, tramas e viagens além-oceano que levarão o aposentado Henry a abandonar sua vida sem graça e solitária para viver aventuras só imaginadas em livros e filmes policiais.

É certo que o charme dos personagens se deve à enorme diferença de personalidades e à hilária inversão de papéis entre eles: a tia de 75 anos, deliciosamente louca, uma Lucille Ball metida em espionagens, sexualmente ativa, que fala palavrões e que ama as viagens, uma cigana, e o sobrinho careta, celibatário, que nunca sai do bairro onde mora, em pleno final dos anos 60 e que vive de tristes lembranças familiares de um cotidiano sem nenhuma abertura para surpresas... Uma idosa que vive o presente de olho no futuro e o jovem (em comparação a ela) que mal vive o presente e se aprisiona no passado, para quem viajar pode ser uma enorme perda de tempo.

Mas as viagens acontecem aos montes ao longo da trama. A primeira é breve e não tão distante, com destino a Paris, com tempo suficiente para Henry ouvir as mirabolantes histórias de tia Augusta, que de tão extraordinárias parecem inventadas.  



A viagem a Paris serviu de aperitivo para a próxima, uma longa jornada pelo Expresso do Oriente. A partir desse momento fica evidente a noção de que Henry não viaja somente para acompanhar sua tia, mas também para dar um sentido à sua própria vida, claramente inspirado pelas aventuras de tia Augusta. É a clássica viagem de autodescoberta, facilitada pelo deslocamento da viagem externa.

“(...) lembrei-me de Southwood, com uma tolerância cordial... lugar onde eu próprio já não me sentia à vontade. Era como se eu tivesse fugido de uma prisão aberta, descendo por uma escada de corda e entrando num carro à minha espera, que me transportara para o mundo de minha tia, o mundo de personagens improváveis e acontecimentos imprevistos.”

Na viagem de trem, Henry conhece a jovem Tooley, uma adolescente hippie cuja companhia “era uma novidade muito interessante” e logo os dois se aproximam, apesar da diferença de idade entre ambos. Fuma, sem desconfiar, um cigarrinho de maconha com ela, e isso, somado a um comentário sobre minissaias e uma canção assobiada dos Beatles são as poucas passagens do livro que nos situam a época em que a ação transcorre.



Na segunda parte do livro o autor começa a amarrar as pontas soltas da trama, e os mistérios de tia Augusta começam a ser desvelados. Para isso, Henry é levado de navio para a América do Sul, ao encontro da tia, no Paraguai. Daqui em diante não posso continuar para não estragar a surpresa de um possível leitor da obra.

Viagens com minha Tia foi uma das obras de Greene adaptadas para o cinema em 1972, e coube a Maggie Smith o papel de Tia Augusta.

Para encerrar, gostaria de comentar uma passagem desse romance que me pareceu brilhantemente construída; trata-se de uma das histórias de Tia Augusta sobre um dos homens da família Pulling.



Para mim, Greene escreveu uma cena que, numa primeira leitura, pode parecer apenas uma inverossímil história criada pela fantasiosa cabeça de uma mulher que gosta de contar anedotas do passado. Mas depois de processar o que ela descreve ao sobrinho, veremos que existe ali uma maravilhosa filosofia de vida, a viagem como metáfora da própria existência.

Tomei a liberdade de pular alguns trechos apenas para encurtar um pouco o texto, sem contudo descaracterizar a narrativa.


Excerto do Capítulo VII  

Tia Augusta reserva dois leitos para o Expresso do Oriente, numa viagem de três noites rumo a Istambul. O diálogo entre ela e o sobrinho, Henry, segue abaixo:

- Mas se a senhora quer ir a Istambul, é muito mais fácil e mais cômodo tomar um avião.
- Só ando de avião quando não há nenhum outro meio de transporte.
- Mas não há perigo.
- É uma questão de preferência, e não de nervos. Sempre me senti perfeitamente segura naquelas engenhocas. Mas não aguento que me falem o tempo todo por meio de alto-falantes. Ninguém nos chateia numa estação de trens, mas os aeroportos sempre me lembram aqueles campos de férias organizados.

- Eu não estou muito acostumado a viajar pelo exterior. A senhora não vai gostar... 
- Comigo você aprende logo. Os Pullings sempre foram grandes viajantes. Acho que foi seu pai que me contagiou.
- A senhora deve estar enganada. Meu pai nunca saiu do centro de Londres.
- Ele viajou de uma mulher para outra, Henry. A vida inteira. Dá no mesmo. Novas paisagens, novos costumes. O acúmulo de recordações. Vida longa não é uma questão de anos. Um homem sem recordações pode viver cem anos e achar que sua vida foi muito curta. Seu pai me disse uma vez: “A primeira moça com quem dormi se chamava Rose. Por coincidência, trabalhava numa loja de flores. Parece que foi há um século”. E o seu tio também...

- Não sabia que eu tinha um tio.
- Era quinze anos mais moço do que seu pai e morreu quando você era criança.
- Ele viajava muito?
- No fim, as viagens ganharam uma forma estranha. (...) Seu tio era um bookmaker conhecido por Jo. Fez uma fortuna considerável, mas seu único desejo era sempre viajar mais. Queria retardar o ritmo da vida e achava, com razão, que as viagens fariam com que o tempo andasse menos depressa. Por isso resolveu dar a volta ao mundo.

Começou a viagem, por estranha coincidência, no Simplon Oriente, o mesmo trem que vamos tomar na semana que vem. Da Turquia, pretendia seguir para a Pérsia, Rússia, Índia, Malásia, Hong Kong, China, Japão, Havaí, Taiti, Estados Unidos, América do Sul, Austrália, talvez Nova Zelândia.

Num ponto qualquer, pegaria um navio de volta. Infelizmente foi retirado do trem logo no começo da viagem, numa maca, depois de um derrame.

- Que pena.
- Isso não modificou nem um pouco o seu interesse de viver muito. Naquela ocasião, eu estava trabalhando em Veneza e fui visitá-lo. Ele decidira viajar mentalmente, já que não podia fazê-lo fisicamente. Pediu que descobrisse uma casa com trezentos e sessenta e cinco quartos. Queria passar um dia e uma noite em cada um. Achava que, dessa maneira, a vida seria praticamente interminável.

(...) Encontrei uma casa velha, que já fora um palazzo, castello ou coisa parecida. Estava praticamente em ruínas. Contei os quartos. Dividindo o porão em quatro, com alguns tabiques, e somando o lavatório, o banheiro e a cozinha, o total subia a cinquenta e dois. Quando Jo soube, ficou encantado: um quarto para cada semana do ano. Tive que por uma cama em todas as peças até mesmo no banheiro e na cozinha. No lavatório não cabia uma cama, mas comprei uma poltrona confortável, com extensão para os pés.

Esse quarto podia ficar para o fim. Eu achava que Jo não viveria o bastante para ocupá-lo. Uma enfermeira o acompanharia, quarto após quarto, chegando de vez em quando com um certo atraso, para dar a impressão de uma viagem verdadeira.

- Mas que plano extraordinário!
- Funcionou às mil maravilhas. Quando Jo estava no décimo quinto quarto ele me disse que tinha a impressão de que já se mudara há pelo menos um ano. E se quinze quartos davam a impressão de um ano de vida, ele ainda tinha vários anos de viagens pela frente.

A enfermeira me disse que, no quarto dia depois de cada mudança, ele começava a ficar inquieto, ansioso por viajar de novo. No primeiro dia em um novo quarto, dormia mais do que o normal, cansado da viagem. Ele começou no porão, foi subindo aos poucos, até atingir o último andar, e já começava a falar numa segunda visita aos antigos aposentos: “Desta vez, seguiremos uma ordem diferente e sairemos noutra direção”.

Concordou em deixar o lavatório para o fim: “Depois de todos esses quartos luxuosos – comentou – será divertido. Um pouco de falta de conforto mantém a gente em forma. Não quero ser um desses velhos excêntricos que andam pela primeira classe da Cunard, reclamando do caviar”.

Estava no quinquagésimo primeiro quarto quando teve o segundo derrame. Ficou paralítico de um lado e quase impossibilitado de falar.

Eu estava em Veneza, na ocasião, mas obtive permissão para deixar a companhia, por alguns dias, e Mr. Visconti me levou de carro ao palazzo de Jo. Estavam tendo um trabalho incrível com ele. Já passara sete dias no quinquagésimo primeiro quarto quando sofreu o derrame, mas o médico insistia para que ficasse na cama, sem se mover, pelo menos por mais dez dias. “Qualquer pessoa – disse o médico- daria Graças a Deus de poder ficar quieto”.

“É que ele quer viver o máximo possível” – expliquei ao médico.
- “Nesse caso, deve ficar onde está, até o fim. Se tiver sorte, poderá durar mais uns dois ou três anos”.

Contei a Jo o que o médico dissera. Ele respondeu algo que não entendi, passou bem a noite e a manhã seguinte. A enfermeira estava certa de que ele se resignara a ficar quieto. Deixou-o dormindo e foi tomar uma xícara de chá no meu quarto. De repente ouvimos um barulho estranho e forte, vindo de cima. Parecia que alguém estava trocando os móveis de lugar. Corremos para o andar de cima, e sabe o que encontramos? Jo Pulling saíra da cama.

Amarrara uma velha gravata listrada, de um de seus clubes, na alça da mala, porque não tinha mais forças nas pernas, e se arrastava pelo corredor, a caminho do lavatório, puxando a mala. Gritei para que parasse, mas não me deu a menor atenção. Era uma cena dolorosa. Ele se movia com lentidão, fazendo grande esforço.

O corredor era ladrilhado. Passar de um ladrilho a outro provocava-lhe uma incrível exaustão. Desfaleceu antes de o alcançarmos e lá ficou, ofegante. Para mim, o mais triste de tudo foi o laguinho de pipi que fez no ladrilho. Não convinha removê-lo antes do médico chegar. Colocamos um travesseiro embaixo da cabeça de Jo, a enfermeira deu-lhe uma pílula e disse: “Cattivo”. Isso significa: “Velho traquinas”.

Ele sorriu para nós duas e disse, “Parecia que não ia acabar mais” – e morreu antes da chegada do médico. Tinha lá suas razões para fazer aquela última viagem, desobedecendo às ordens do médico, que só lhe prometera poucos anos de vida.

- Ele morreu no corredor? – perguntei.
- Morreu viajando – disse minha tia, num tom reprovador – Como sempre desejou.

Leia: Viagens com Minha Tia. Graham Greene. Editora Civiização Brasileira. 1ª ed. Rio de Janeiro, 1970.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Wanderlust, by Rebecca Solnit. (uma introdução)


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Às vésperas de cair na estrada, procuro por uma leitura que me inspire na jornada que virá pela frente. Geralmente releio autores que já me acompanharam em outras aventuras, entre eles Paul Bowles, Phil Cousineau, Luiz Carlos Lisboa e Fernando Pessoa, porque viajar sem poesia não tem graça nem sentido.

Dessa vez puxo da estante um livrão de capa dura que comprei no outono de 2013, já muito folheado mas nunca lido com a atenção que merece: Wanderlust – A History of Walking, de Rebecca Solnit.

Wanderlust é uma palavra de origem alemã sem tradução literal para o português, traduzida como “ânsia ou desejo de viajar”. E pegando carona nesse bonito vocábulo, a autora buscou construir a história da caminhada, as origens do ato de caminhar.



Estou encantado com a leitura desse texto, que já considero um dos melhores que li sobre a temática da caminhada (mesmo sem ter terminado a leitura); a Rebecca se acerca muito de outros autores já escreveram sobre o tema, como Fredéric Gros em seu Caminhar,uma filosofia, Michel Onfray em sua Teoriada viagem ou Adriano Labbucci com seu Caminhar,uma revolução, escritores que já passaram aqui no Odepórica. 

O diferencial de Rebecca Solnit está na maneira como ela aborda o ato de caminhar e as viagens. Para a autora estadunidense, a caminhada hoje, na realidade das cidades norte-americanas, pode ser considerada um ato subversivo.



Ela explica o que muitos de nós já sacamos faz tempo: as cidades dos EUA (principalmente, mas não exclusivamente) não são mais pensadas para os caminhantes, tudo é voltado para o deslocamento por automóveis. Grandes avenidas, horrorosos centros comerciais-  todos iguais, numa padronização assustadora - imensas autopistas que cortam o país e destroem paisagens... e o motorista, que ao chegar a casa, se tranca em sua jaula segura repleta das facilidades oferecidas pela vida moderna, a mesma que o aprisiona em escritórios, automóveis e lares.

Andar é subversivo porque se torna quase proibido! Os engenheiros urbanos pensam antes nos veículos motorizados e depois nos pedestres, ao ponto de não projetarem mais calçadas, e aqueles que decidem se aventurar numa caminhada, seja no acostamento (quando há) ou na própria estrada ou avenida, correm o risco de ter que se explicar às autoridades.



Diz a autora que ela descobriu sua voz como escritora depois que começou a viajar para o interior do país, longe da região costeira onde vive em São Francisco; em suas explorações a noção da existência de camadas históricas desses lugares lhe chamou a atenção.

Como participante de atos pacifistas contra o armamento nuclear, foi visitar alguns lugares onde antes eram feitos testes com armamentos pesados; passado o momento de loucura militar (pelo menos fisicamente nesses locais), o governo transformou o que antes eram desertos proibidos em parques naturais.



Só que antes desses parques, antes da tomada desses locais pelos militares, viviam fazendeiros ali e antes destes, provavelmente viveram os nativos mais tarde expulsos e o resto é história. São essas camadas históricas a que a autora se refere, insights surgidos após suas longas caminhadas.

Ao invés de escrever sobre a história desses locais visitados, Rebecca preferiu escrever sobre a caminhada em si. E um trecho pequeno dessa escrita é o que você lerá a seguir, um aperitivo antes da resenha que um dia farei sobre essa belíssima obra. Boa leitura.


Na marcha do pensamento

Caminhar, em teoria, é um estado no qual a mente, o corpo, e o mundo estão alinhados, como se fossem três personagens que finalmente conversam juntos, três notas que repentinamente formam um acorde.

Caminhar nos permite estar em nossos corpos e no mundo sem sermos ocupados por eles; uma liberdade para pensar sem nos perdermos em nossos pensamentos.

O ritmo da caminhada gera um tipo de ritmo de pensamento, e a passagem por uma paisagem ecoa ou estimula a passagem por uma série de reflexões. Isso cria uma estranha consonância entre a passagem externa e a interna, sugerindo que a mente também é uma espécie de paisagem e a caminhada é um meio de atravessá-la. 



Um novo pensamento frequentemente parece uma característica da paisagem que esteve ali durante todo o tempo, assim como os pensamentos estavam viajando, mais do que sendo criados em nossa mente, de modo que um aspecto da história da caminhada é a história do pensamento tornado concreto – pois os movimentos da mente não podem ser traçados, mas os dos pés podem.

Uma caminhada também pode ser imaginada como uma atividade visual, cada caminhada um passeio calmo o suficiente tanto para ver e refletir sobre as paisagens, como para assimilar o novo dentro do conhecido ou já visto. Talvez seja daí que venha a peculiar utilidade da caminhada para os pensadores.



As surpresas, a liberdade, e os esclarecimentos das viagens às vezes podem ser vivenciados simplesmente em uma volta no quarteirão ou dando a volta ao redor do mundo, não importando se a caminhada é próxima ou longínqua.

Talvez a caminhada possa ser chamada de movimento, não de viagem, pois é possível caminhar em círculos ou viajar através do globo estando imobilizado em um assento, e um certo tipo de wanderlust (a ânsia de viajar) só pode  ser aliviado pelos atos de movimento do corpo, não o movimento do carro, do barco ou do avião.



É o movimento, tanto quanto as paisagens que passam que parecem fazer as coisas acontecerem na mente, e é isso o que faz a caminhada ambígua e infinitamente fértil: ela é tanto o objetivo quanto o final, a viagem e o destino.

Leia: Wanderlust: A History of Walikg. Rebecca Solnit. Viking Penguin, 2000.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Peregrinação no Japão, parte II. By J.M.Kitagawa

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3-Peregrinação baseada na Fé em pessoas carismáticas

Ao lado das peregrinações às montanhas sagradas e aos santuários de várias divindades, também se desenvolveu no Japão a peregrinação inspirada pela fé em certos homens santos carismáticos.

É necessário lembrar que mesmo antes da introdução do budismo no país os japoneses veneravam vários tipos de pessoas carismáticas tidas como portadoras de poderes super-humanos.



Após a introdução do budismo, alguns dos notáveis budistas, como o Príncipe Regente Shotoku, quem no final do século 6 e começo do século 7 promoveu o budismo como sendo de facto a religião estatal, e Gyogi, um líder popular do budismo no século 8, quem, por conta de suas atividade filantrópicas e caráter santo foi chamado de Bodhisattva vivo, se tornaram ambos objetos de adoração por boa parte dos budistas piedosos. O mesmo aconteceu com muitos dos fundadores das escolas budistas, como Shinran (séc. XII) e Nicheren (séc XII).



É interessante notar que, diferentemente dos budistas chineses, cujos fundadores costumavam seguir os passos do Buda na Índia, pisando os locais sagrados onde este viveu e predicou, os japoneses tomaram por hábito peregrinar aos mausoléus dos líderes budistas, muitos dos quais  eram conhecidos pelas suas qualidades carismáticas.



O exemplo mais notável a esse respeito é o culto que se desenvolveu ao redor da memória de Kukai ou Kobo Daishi (774-835), sistematizador da escola budista esotérica chamada Shingon-shu.



Não é preciso falar muito sobre Kukai, cuja vida real foi enterrada sob camadas de lendas piedosas. O que é significante é o fato de que ele é lembrado pelos seus seguidores como o itinerante homem santo que visitou muitas áreas remotas do Japão, cavando poços, curando os doentes e produzindo vários milagres para ajudar os pobres e os oprimidos.



Além disso, é amplamente aceito que Kukai não morreu e que ainda hoje ele está caminhando por lá, disfarçado de peregrino e ajudando aqueles que necessitam sua assistência.

Os devotos de Kukai devem ter visitado seu local de nascimento na ilha de Shikoku logo no começo do século 9,  sendo plausível que algum tipo de peregrinação formal nas “quatro províncias” (Shikoku) pode ter surgido nos séculos 12 ou 13. Entretanto, a prática atual de visitar os 88 santuários em Shikoku não foi firmemente estabelecida até meados do século 17.



Até onde podemos averiguar, a “Peregrinação em Shikoku” é um fenômeno complexo. Em muitos sentidos, ela tem notáveis similaridades com a peregrinação aos 33 Santuários de Kannon (Saigoku sanju-san-sho). Em ambos os casos os peregrinos vestem as mesmas indumentárias e seus cantos são semelhantes em forma e som.



Examinando mais de perto, contudo, fica evidente que o motivo central da “Peregrinação em Shikoku” não é a devoção aos 88 locais sagrados, que sem dúvida tronou-se uma característica própria, mas em vez disso, sua ênfase principal é o ato de “caminhar com Santo Kukai”. Dito isso, a “Peregrinação em Shikoku” é baseada na fé e na memória do homem santo carismático, Kukai, cujo bastão de caminhada é seu símbolo vivo.



Portanto, mesmo quando uma pessoa sozinha empreende a peregrinação, esta é chamada de peregrinação de dois (dogyoni-nin), querendo dizer, Santo Kukai e ela.

De acordo com a tradição, a peregrinação a Khikoku começa no Monte Koya, local do centro monástico estabelecido por Kukai. Espera-se que os peregrinos prestem homenagem ao mausoléu de Kukai, onde se crê que ele esteja dormindo até o momento de retornar ao mundo como o futuro Buda, Maitreya.



Do monte Koya, os peregrinos saem de um dos portos e cruzam o estreito para Shikoku de barco. Os 88 lugares sagrados estão espalhados pelas 4 províncias que constituem Shikoku. Historicamente, na província de Awa, que conta com 23 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para o despertar espiritual” (Hosshin no dojo); a província de Tosa, com 16 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para a disciplina ascética” (Shugyono dojo); a província de Iyo, com 26 locais sagrados é conhecida como “arena de exercício para a iluminação” (Bodai no dojo), e a província de Sanuki, com 23 locais sagrados é chamada de “arena de exercício para o estado de Nirvana” (Nehan no dojo).



Os locais sagrados são numerados de 1 a 88. Destes locais, os de números 19, 27, 60 e 66 são considerados “obstáculos” (seki-sho), e dizem que aqueles que cometeram alguma má ação recebem nesses pontos algum sinal ou presságio, tal como a aparição de um determinado pássaro.



Tal presságio indica que eles desagradaram Santo Kukai e por isso devem terminar ali sua peregrinação e começar tudo novamente. A princípio, o curso normal da peregrinação é iniciar pelo número 1 e terminar no templo 88, mas após completar o curso regular, pode-se empreender uma peregrinação adicional, desta vez seguindo a rota reversa.



É tomado como certo que a peregrinação completa é mais louvável. Entretanto, mesmo que feita parcialmente, como “os 10 locais sagrados” (jukka-sho mairi), “os 7 locais sagrados”  (nanaka-sho mairi) e os locais sagrados em “uma das quatro províncias” somente (ikkoku mairi) são tidos como muito benéficos.



Assim como no caso da Peregrinação aos 33 Santuários de Kannon, a Peregrinação em Shikoku é tanto feita individualmente ou por pequenos grupos familiares. Porém, há também muitos tipos de grupos formais e informais, os quais patrocinam grupos de peregrinação, tal como a Confraternidade devocional a Kobo Daishi (Daishi-ko) e a Confraternidade dos devotos de Shingon (Kongo-ko).



Igualmente notável é o desenvolvimento de confraternidades dedicadas à tarefa de oferecer hospitalidade e assistência aos peregrinos (set-tai-ko). Membros dessas confraternidades acreditam que oferecer hospitalidade aos peregrinos é o mesmo que servir a Santo Kukai.



Alguns desses grupos hospitaleiros vêm de lugares distantes, fretando barcos para o transporte de alimentos e outros itens, e levantando centros de hospitalidade em vários pontos ao longo da rota principal de peregrinação.



A popularidade da Peregrinação a Shikoku foi tamanha que desde o século 18 vários “88 mini-santuários de Shikoku” foram construídos em diversas partes do país, como Edo (Tokyo), Chita (perto de Nagoya), Soma (na atual prefeitura de Chiba) e a ilha de Shozu no Mar Interior de Seto.



Essas peregrinações de menor escala obviamente não são tão meritórias como a peregrinação original aos locais sagrados em Shikoku, mas são uma maneira de dar oportunidade àquelas pessoas que, de outra forma não seriam capazes de “caminhar com fé ao lado de Santo Kukai”.



Ainda que breve, esse retrato dos três tipos de peregrinação no Japão deixa claro que há tantas semelhanças quanto diferenças significativas entre elas.  O primeiro tipo, chamado de peregrinação às montanhas sagradas pode ser caracterizado por suas atividades corporativas sob a supervisão de um guia experiente.



A ênfase no ascetismo e nas disciplinas físicas implica em um caminho soteriológico (Soteriologia- parte da Teologia que estuda a salvação da humanidade) baseado no autopoder (jiriki – fé em si mesmo, no esforço próprio) ainda que traga em si um elemento de fé. E a noção de que as montanhas sagradas são os modelos do Paraíso dá um ímpeto enorme aos peregrinos que buscam um significado religioso de vida dentro da realidade da existência fenomenal.



O segundo tipo, a peregrinação baseada na fé em certas divindades tende a ser mais individualista e também carece da rigorosa ênfase ascética porque seu caminho soteriológico conta com o poder salvador das divindades.  (tariki – fé no poder externo, o Outro Poder). Mesmo que os peregrinos busquem uma experiência imediata de algum grau de salvação aqui na terra, eles aceitam a existência de uma realidade futura como a única arena de salvação.



Finalmente, o terceiro tipo, a peregrinação baseada na fé em homens santos carismáticos carrega algumas das características do primeiro e do segundo tipo mencionados antes. Mas sua característica única é demonstrada na noção de que o poder salvador já foi efetivado na vida de um homem santo carismático, que combina em si os papéis de divindade e de guia. Em outras palavras, o peregrino depende do Outro Poder (tariki), embora esse Outro Poder não esteja distante em uma realidade transcendental. O poder salvador, totalmente efetivado em uma pessoa, compartilha cada passo do peregrino terreno como um real “companheiro peregrino”.



É evidente que a tarefa do historiador da religião envolve muitas dificuldades especialmente quando se lida com um fenômeno complexo como a evolução da religião na Japão, país de diversas características homologadas de Budismo, Taoísmo, Shinto e crenças religiosas populares, símbolos, cultos e práticas.



Em tal situação, uma abordagem cabível poderia ser a de estudar uma forma significativa de culto religioso desenvolvido a partir da fusão de vários elementos. Neste ponto é nossa esperança que esse estudo primário dos três tipos de peregrinação possa ter jogado uma luz nas características devocionais da tradição religiosa japonesa.