sábado, 30 de dezembro de 2017

Peregrinos cibernéticos no Caminho de Santiago

.          

Vou contar aqui um pouco do que vem acontecendo no ambiente das peregrinações a Santiago. Minha visão é a de um peregrino que aos trancos e barrancos chegou a Santiago de Compostela no inverno de 1995 após completar 28 dias de caminhada. Foi uma viagem muito sofrida fisicamente: bolhas, tendinites, gripe e vários dias sem tomar banho.

Dizem que aprendemos com os erros, não? Nem sempre. Eu que jurei nunca mais pisar em terras espanholas, dois anos depois estava de volta, dessa vez no verão. Sabe o calor do Rio em janeiro? Uma brisa, perto do insano calor que faz nas longas planícies das mesetas no verão espanhol. E mais uma vez, bolhas, tendinites e vários outros incômodos que uma longa viagem a pé acarreta.

Nessas duas aventuras o sofrimento físico foi um fator em comum. Etimologicamente, sofrer deriva do latim sufferre, “sob ferros”, ou seja, acorrentado, carregando peso. Essa dinâmica do sofrer tem uma relação muito estreita com a peregrinação. Em algum momento ela há de aparecer: as dores do corpo, das perdas, das partidas, da saudade de casa, cada um carrega a sua.



Na primeira página de um dos meus diários de viagem, copiei uma frase retirada de uma homilia que diz que “O sofrimento é a escola de simpatia do Espírito Santo”. Gostei dessa afirmação, que em sua simplicidade guarda uma profunda verdade: somente quem já sofreu saberá consolar quem sofre. Isso nos remete não só à figura do Cristo e dos santos, mas a todos os homens e mulheres de diversas tradições religiosas que encontraram a paz através do sofrimento. Sofrer faz parte do mistério da vida.

Toda essa reflexão me levou a meditar sobre a realidade que se vive hoje numa peregrinação milenar como a do Caminho de Santiago, na Espanha. O Caminho que conheci há vinte anos mudou em relação ao Caminho de hoje? Como fica a questão espiritual nessa época onde a rota se encontra, como dizem os espanhóis, saturada de turistas e carente de peregrinos?

Há muito que se discutir aqui. Comecemos com a questão da saturação do Caminho, que é real e que mudou completamente a experiência do caminhar quase solitário das décadas passadas, sobretudo nos meses de baixa temporada. Os refúgios, centros de acolhida de peregrinos (antes paroquiais e municipais, hoje quase todos particulares) converteram-se -salvo poucas exceções- em um lugar para descansar, tomar banho e dormir, como se faz nos hostels espalhados mundo afora.



Antigamente, o peregrino oferecia um donativo e agradecia; hoje, o peregrino exige, porque paga. Muitos hospitaleiros que vivem no Caminho lamentam que a primeira coisa que um peregrino ou uma peregrina perguntam quando chegam a um albergue é: “Tem Wi-Fi”? O acesso à Internet, quem imaginaria, é hoje mais importante do que um chuveiro com água quente e um colchão para descansar o corpo da fadiga da estrada.

Portanto, o cenário que temos é este: trilhas lotadas de turistas e peregrinos, albergues particulares cheios de gente, empresas que transportam sua mochila até a próxima etapa (para que sofrer?) e comerciantes nos povoados se aproveitando da ocasião, cobrando mais e oferecendo menos. O que isso tudo tem a ver com uma peregrinação? Será que existe espaço para a fé, para o Sagrado, para o Mistério?

Certamente há espaço e sempre haverá. Porque a relação do ser humano com a espiritualidade não se mede em Gigabytes; o contato com o Divino não se dá no Ciberespaço; não se acessa o Sagrado através de um Browser e não se conversa com Deus trocando e-mails. Vivemos numa fase de transição onde não sabemos ainda no que tudo isso irá se transformar, o que não nos impede de observar que algumas coisas já mudaram radicalmente nosso comportamento social e, no escopo desse texto, religioso/espiritual.



A peregrinação é em sua essência uma prática religiosa. Os peregrinos caminham em direção a um lugar sagrado, Locus Sanctus, a fim de prestar homenagem a um santo, agradecer uma dádiva recebida ou cumprir uma promessa. Num sentido amplo, é essa a proposta original. O auge das peregrinações a Santiago se deu na Idade Média e foi decaindo após o Renascimento até praticamente serem esquecidas nos séculos posteriores. A partir dos anos 1980, às vésperas de um mundo virtualmente conectado, o Caminho renasce e volta a brilhar como há muito não se via. Desde então, as estatísticas mostram que o número de peregrinos a Santiago aumenta a cada ano, e é indiscutível que a Internet, e mais recentemente as redes sociais, têm uma relação direta com esse enorme afluxo de gente que resolve cruzar a Espanha rumo à Galícia, terra do Apóstolo. Dê um Google em “Camino de Santiago”: mais de 15 milhões de resultados irão aparecer na tela. Não é pouca coisa.
           
Muito se discute hoje entre estudiosos do Caminho de Santiago acerca do perfil dos peregrinos atuais. E um dos hábitos mais criticados é o uso indiscriminado dos smartphones. Se por um lado a tecnologia veio para facilitar a vida de todos, por outro trouxe consigo mudanças que, à primeira vista, enfraqueceram o relacionamento interpessoal (ainda que essa afirmação seja bastante discutível).



Nos albergues, onde antes se dava o encontro de pessoas, as trocas de experiências sobre a jornada, onde antes se repartia o pão, agora se vê uma profusão de gente encasulada, atualizando suas redes sociais e procurando notícias sobre o mundo; a mesma coisa acontecendo nas mesas dos restaurantes, praças e qualquer lugar com Wi-Fi livre. Só o Caminho não basta a si mesmo.

Hoje um peregrino chega ao Caminho de Santiago sabendo tudo o que encontrará pela frente: paisagens, personagens conhecidos, as trilhas, as facilidades e dificuldades de cada etapa, tudo salvo na memória de um aparelho (ou “na nuvem”). Não há mais lugar para a surpresa, para o desconhecido. Não há nada de ruim nessa realidade. O Caminho é uma metáfora da vida; o que se vive na peregrinação a Santiago é uma suspensão da realidade, um rito de passagem, onde cada um encontrará justamente aquilo que procura ou necessita aprender.

Turista ou peregrino? Não importa. Muitos começam como turistas e terminam como peregrinos. Quando trabalhei como hospitaleiro voluntário por seis meses em refúgios paroquiais conheci alguns caminhantes ateus e muitos não católicos que se emocionavam apenas em observar os peregrinos devotos e começaram a frequentar as missas das igrejas dos pequenos povoados por onde passavam, porque isso, segundo eles, lhes trazia um grande sentimento de conforto e paz. 



Um peregrino judeu, norte-americano, me confessou que havia decidido fazer o Caminho porque achava que seria uma grande aventura: caminhar, beber e namorar. Com o tempo, no convívio com outros peregrinos, se sentiu tocado com a manifestação de fé dos colegas de jornada, a ponto de sentir uma grande vontade de comungar! Quando chegou a Santiago (chegamos juntos) não conseguia parar de chorar e abraçou a imagem do Santo no altar (um dos ritos de chegada em Santiago) como seu mais fiel devoto o faria. Coisas do Caminho.

Isso me traz à mente um texto de Martin Buber, filósofo austríaco conhecido como “profeta da relação” (ou do encontro) para quem o ser humano só se realiza na relação com o outro. Buber acreditava na unidade entre Deus, o homem e o mundo: uma comunhão. O outro dessa relação pode ser o homem, Deus, uma obra de arte, uma flor ou qualquer coisa que implique reciprocidade. Toda a vida atual, dirá o filósofo, é encontro; o essencial é vivido na presença:

A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o tu. Pois, no contato com cada tu, toca-nos um sopro da vida eterna.




Em um dos mais belos livros sobre a prática espiritual no Caminho de Santiago, Jose Antonio García-Monge diz que o Caminho nos faz porque nos dá ferramentas para fazermos: Tempo, Solidão, Silêncio, Integração, Encontros, Presença, Amor. A questão da alteridade permeia todo o texto, pelo que gostaria de compartilhar uma das passagens que mais me encantaram nessa obra:

Comecei a caminhar só. Como um longo e quilométrico monólogo, e descobri que sou muito mais do que eu mesmo. Esse encontro foi possível graças aos “tus” que são a base do caminho de minha vida. Graças à necessidade e ao desejo do outro. Graças à solidão sonora que repetia meu nome, não como um eco, mas com um acento novo de outra voz humana. Sou um eu-tu. Graças a ti. O risco vivido em comum, a refeição partilhada, a vista animadora, as marcas indicadoras de outras pessoas para as quais não fui algo, mas alguém, me fizeram aprender a personalizar. Não só as pessoas, mas também as coisas. Um caminho se converteu em um sussurro orientador, uma catedral de pedras em uma voz que me chama pelo nome, um santo em um homem. No fim, sei quem sou, como me chamo, porque pude escutar no silêncio da noite como me chamam. Ao responder, se inaugurou um eu-tu que me fez maior do que eu mesmo, sem deixar de ser quem sou.    



Não são os smartphones e os aparelhos de GPS que vão acabar com a peregrinação. Tampouco o excesso de turistas, a Internet e as redes sociais. Enquanto houver caminhantes, haverá Caminho, como se lê em um poema do século XIII (Codex Calixtinus):

La puerta se abre a todos, enfermos y sanos;
no sólo a católicos, sino aún a paganos,
a judíos, herejes, ociosos y vanos;
y más brevemente, a buenos y profanos.

Devemos, portanto, saudar as novas mudanças que chegam ao Caminho, porque elas fazem parte da vida, da nossa realidade. Conectados e desconectados, tradicionais e modernos, todos fazem parte da mesma busca. Acredito que um pouco da mágica transformadora se perde quando se apela com frequência para as facilidades da vida moderna: carros de apoio, transporte de mochilas, reservas antecipadas em hospedarias e albergues, pular etapas difíceis... a negação total do sacrificium (sacrum facere), o ato de manifestar o sagrado, uma afirmação da vida. Interessante refletir sobre isso, porque o Caminho é um reflexo da existência de cada ser. O que se faz lá, se faz aqui. Do que se foge lá, se foge aqui. Qual o papel do Sagrado em nossas vidas?  Essa é uma questão que cada um deve responder por si.



Sustento a ideia de que ainda há uma forte característica espiritual no ambiente contemporâneo da peregrinação a Santiago, apesar da massificação com a qual o Caminho aparece identificado nas últimas décadas o que, para alguns observadores do fenômeno, estaria acabando com a “essência” da peregrinação. Na realidade, o que parece estar mudando não é de fato a noção de que o Caminho esteja mais aberto ao profano, mas sim o fato de que os peregrinos contemporâneos estão se relacionando de maneira diferente com o sagrado. 

“O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa - aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa - não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.” (Luiz Carlos Lisboa, Nova Era).



Artigo publicado na Revista CREatividade- Revista da Cultura Religiosa- PUC Rio. Ano 2017, Número 2, edição intitulada CAMINHOS DO CRISTIANISMO HOJE.
Link para o texto original: Espiritualidade conectada no Caminho

Nenhum comentário :

Postar um comentário