terça-feira, 24 de outubro de 2017

Viagens, by Luiz Carlos Lisboa

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Luiz Carlos Lisboa é um dos meus escritores mais estimados. Suas palavras chegam sempre no momento em que precisamos de um norte, de alguém que nos guie na jornada quando a trilha se apresenta um pouco mais estreita. Vejo Lisboa como um mestre-artesão, que com seu ofício de escritor lapida palavras e as transforma em pensamentos inspirados, ideias que parecem surgir em momentos de profunda meditação.

Sua escrita fragmentária resulta em textos simples e bem elaborados, como em sua obra Nova Era, já resenhada aqui no blog, O Aprendiz da Madrugada e O Som do Silêncio, às vezes classificados como livros de poemas, embora eu os considere mais próximos dos aforismos, porque Lisboa é daqueles escritores que possuem a capacidade de condensar conceitos amplos e profundos em poucas palavras.

Como ensaísta, também se mostra um sábio: veja que belo seu texto intitulado Viagens, que retiro de seu livro de ensaios A Arte de Desaprender, talvez um dos escritos mais profundos que já tenha lido sobre a experiência da viagem.

Viagens

“Quanto mais longe viajamos, menos conhecemos”, dizia Lao-Tsé. A ideia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas, ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo tem seu preço. Imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver.

A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja-, mas a conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho, Nicolau de Cusa, Eckhart. Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal, Benet de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa absolutamente pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro ou pela busca incansável.

Esse é dos capítulos fascinantes da história das religiões, e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. Ekhart repetia com método e tranquilidade: “Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua divindade, mora eternamente em sua imagem, a alma”.


Esse tipo de mensagem afirma, através dos séculos, que o homem não precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. Isso não sugere a morte em vida, obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos hiperativos que controlam – ou julgam controlar - a sociedade humana, suas maravilhas e seus horrores. No “não ir à parte alguma” está contido, apenas, o “ficar para não fugir todo tempo”.

A razão pela qual “quanto mais longe viajamos, menos conhecemos” está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde estamos. Isso não se refere às viagens reais, mas ao ir e vir de cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades que executamos com imensa gravidade.

Por que ir lá aprender alguma coisa, se recusamos todo aprendizado aqui e agora, na modéstia deste minuto e desta circunstância? Empreender uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor dizendo, o que só pode ser feito imediatamente, não depois, pouco adiante ou mais tarde.



Caminhar, viajar, proporcionam prazer e são em si inofensivos. O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto, ou naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando simplesmente de lugar.

É ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, alma nobre. Calce seus leves sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da idolatria de si mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente no coração de Deus, naquele coração onde estará oculta de todos".

A tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente aquilo que se obtém com "um movimento do coração”. Essas referências hoje são mais difíceis de compreender que nunca, porque é o século de ação e de movimento – em círculos. Tudo o que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência.



A palavra de ordem não é inovar? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de certezas, de decisões rápidas, de conceitos formados, de ideias prontas. O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas, semeia antipatias.

Viajar para aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos, atrás do qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o que somos.

Deixamos tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência. Não há lugar para culpa, em tudo isso. É bastante ver o que fazemos, quando fazemos e como fazemos. Esse é um aprendizado insubstituível, que não pode ser encontrado nos livros, nos museus ou nas conferências.



Não aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste lugar aqui, onde estamos no instante em que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração".

Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século XX é proverbial.

As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar.



Permanecer, como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória.

A imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está excluída a tranquilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que pretende ser o conhecedor do mundo.

E nisso tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar pela última vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".

Leia: A Arte de Desaprender. Luiz Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1981.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

À margem da linha, by Paulo Rodrigues

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Muitos são os relatos de viagem que contemplam aquilo que nos estudos antropológicos se conhece como ritos de passagem ou de transformação. Um rito de passagem clássico, bastante estudado e de farta literatura acadêmica, é o da peregrinação, sobretudo a que contempla a visita aos lugares considerados sagrados: templos, mesquitas, catedrais, santuários, grutas, montanhas, rios, formações rochosas, só para citar os mais comuns.

Entretanto, há viagens sem nenhum cunho espiritual ou religioso que têm a particularidade de transformar um vagamundo em outra pessoa, na clássica interpretação de que, ao fim da jornada, aquele que parte jamais será o mesmo ao retornar, uma transformação simbólica e reveladora, um novo ciclo de vida.

Em seu primeiro romance, À margem da linha, Paulo Rodrigues trabalhou com perfeição esse modelo de rito de passagem, contando a trajetória de um menino de dez anos que, ao lado do irmão mais velho, parte de casa numa longa jornada a pé em busca do pai.


  
O menino mais novo é o narrador da história; praticamente um miserável, sua família vive à margem de uma estrada de ferro e pouco sabemos de sua vida a não ser o fato de que, ao partir com Mano (seu irmão e guia) não deixa quase nada para trás, a não ser a mãe, mulher sofrida e abandonada pelo marido e mais dois irmãos, de quem fala com carinho. Uma dicotomia: não deixa quase nada, mas ao mesmo tempo deixa tudo; a decisão de partir provém não só do sofrimento, mas também do amor e da admiração que sente pelo irmão.

A viagem dos garotos se aproxima do drama vivido pelos retirantes nordestinos, igualmente vítimas da miséria, e talvez a busca pelo pai ausente seja apenas uma desculpa para justificar o abandono do lar. Na realidade, esse texto permite múltiplas interpretações e nisso reside seu encanto. O autor não dá nome ao narrador, nem tampouco ao seu irmão, se levarmos em conta que Mano é apenas uma referência, um grau de parentesco e não o nome de fato do seu companheiro de viagem. Dessa forma o texto se abre para que cada leitor se coloque no lugar de um ou de outro (Quem somos nós nessa história? Os que guiam ou os que são guiados?).



Os incidentes que aparecem em capítulos curtos e muito bem escritos (o autor costura lindamente as palavras) não irão surpreender o leitor, uma vez que quase nada de extraordinário transcorre na narrativa. Mas o pouco que acontece, nessa economia de emoções, se traduz numa enorme transformação na vida dos garotos, resultando em um final surpreendentemente belo.

A linha de trem, que serve de orientação aos meninos nessa viagem, pode ser entendida como uma metáfora da vida; é preciso tomar coragem para, em algum momento, desviar-se da rota e abandonar o ninho, estar aberto ao acaso e às surpresas escondidas nos caminhos. Quando isso acontece, um ciclo se fecha e a vida se renova. Algumas pessoas se arriscam (toda jornada implica riscos), outras não. E só no final da vida, naquele momento em que já não nos resta mais nada a não ser viver das lembranças, é que saberemos se tomamos as decisões certas quando o destino nos ofereceu seus desvios incertos e cheios de possibilidades.



“(...) Diante da agitação em que eu me encontrava, o Mano decidiu me explicar o quanto seria bom, dali pra frente, a gente se manter afastado das coisas desconhecidas. Com isso, eu refletia, ele queria gravar em minha mente a importância da nossa viagem, para que eu pudesse suplantar o medo e as incertezas com a força da convicção. Era como se me dissesse que devíamos manter o olhar firme, fixando num ponto lá adiante, onde os trilhos se juntam, a nossa meta. Do seu jeito confuso, mas preciso, o Mano determinou que seguiríamos em frente, desviando do caminho apenas o estritamente necessário.

Olhando o Mano caminhar alguns metros à minha frente, lembrei-me de um dia em que eu, bem pequeno, garimpando um caco de magnésia, lhe perguntei se aquilo era uma esmeralda. Foi a primeira e única vez que os olhos dele se encheram d’água ao me responder que isso não tinha importância, pois de todo modo, fosse joia ou vidro, era sempre uma beleza. Com isso, ele insinuou que as coisas têm sempre o valor que a gente lhes dá. E era nessa forma, eu intuí, que ele gostaria de moldar o meu espírito.

A partir daí, começamos a sair juntos à procura de tesouros perdidos, mas foi muito, muito tempo depois desse dia que comecei a alcançar a exata medida dos seus pensamentos, e a perceber que os seus ensinamentos iam sempre muito além das parcas palavras. (cap. 6, págs 33-34)”


Leia: À margem da linha. Paulo Rodrigues. Cosaic & Naify, 2001.