quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Viajar, recordar... by Antero de Figueiredo

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Antero de Figueiredo, escritor português a quem muito admiro, publicou quatro narrativas de viagem que merecem fazer parte de qualquer boa coleção de obras de literatura odepórica: Recordações e Viagens, Jornadas em Portugal, Espanha – Páginas galegas  e Toledo- Impressões e evocações.

Em todas essas narrativas há um prefácio em que o autor disserta sobre o tema das viagens, dando ênfase às lembranças e recordações que ficam dessas experiências, à saudade, ao ato de partir e também ao de regressar, onde cabe a pergunta: o que trazemos das viagens depois que voltamos? Esse questionamento surge com frequência nos textos sobre viagem que Dom Antero nos deixou.

Abaixo transcrevo um excerto da obra Jornadas em Portugal, leitura agradável e inspiradora que pede para ser lida com calma e atenção. Inspire-se.

Que é a vida senão uma viagem?
Que são as viagens senão temas de recordação? Recordar!
O presente é inconsciente como a juventude: - só na idade refletida se mede o prazer que passou. O prazer é vivaz e efêmero; a recordação vem esmorecida, mas pousa e fica. A alegria vale, sobretudo, pelo fio de doçura que deixa na saudade nevoenta...

Quando fruímos um prazer, com a ardência do sol em chamas, estamos a preparar o luar desse gozo: o deleite brando e demorado de o relembrar. É como o sonho do amor, que se desdobra na ilusão lunar de recordar. Tudo ilusão!



Mas a ilusão é a mentira fecunda da vida. É a própria vida. A ilusão é a maior verdade, porque é a maior constante; é a maior beleza, porque universalmente, eternamente, atrai e seduz. O prazer vale um pouco pelo que é, e muito pelo que será. Quem goza, semeia saudade. O mais delicado perfume é o perfume do que foi perfume...

Recordar é acordar. Só acordados somos vivos. No presente somos mortos. Recordando, ressuscitamos. E então vivemos conscientemente a vida inconsciente que por nós correu. Recordar é poetizar. Tão nobre é o valor da recordação que, às vezes, recordar uma viagem comum é desvulgarizá-la, é engrandecê-la. 

Da realidade ficou apenas uma imagem depurada – a essência da verdade que existiu. A recordação superioriza, porque espiritualiza. O tempo é o poeta da saudade.

Enquanto se anda a pisar terras estranhas, vistas pela primeira vez, o espírito, entontecido pela cintilação do imprevisto, goza tão alarmado e sôfrego, que todo ele desliza, fugaz, pela fácil aparência irisada das coisas transitórias, as quais, passando por nós como relâmpagos, lá ficam para trás sem as termos vincado com o nosso comentário enternecido a invadi-las de entendimento e de estima penetrantes.

Só depois, mais tarde, refletindo, nos apercebemos do que vimos, do que sentimos, - mais tarde, quando analisamos, miúda, demorada e saboreadamente, as imagens belas trazidas conosco dessa correria luminosa e vertiginosa.

Tal qual a leitura de um livro profundo, que só se faz repassadamente, depois que o fechamos para pensar nele; tal qual um quadro que só começamos a ver bem, quando já o não olhamos – quando o não temos diante das pupilas que o viram, mas ante os olhos fechados que nele meditam...

Se voltamos a uma terra onde há muito estivemos, encontramo-nos lá com o que fomos. Então, pomo-nos a ver paisagens, pessoas e coisas, com outras paisagens, outras pessoas, outras coisas no fundo dos olhos... Acama-se o presente no passado. Monologamos. Monólogos, que, afinal, são diálogos de nós conosco próprios – entre o nosso sentir de ontem e o nosso sentir de hoje, entre o que somos e o que fomos.

E sofremos, dando-nos em espetáculo às coisas impassíveis que são os observadores irônicos da nossa alma débil de melancolia, ou açodada de arrebatamentos vãos. Tudo fraquezas!


Se amo ainda as terras que há muito não vi e as almas de que há muito me afastei, é a mim que eu amo do que de mim nessas terras ficou, do que do meu espírito a esses espíritos dei. Por onde passamos, de alma comovida e franca, deixamos sempre alguma coisa de nós; e a saudade, depois sentida, não é mais do que a pena do que já não somos – dos sonhos que não mais podemos de novo repetir...

Sofremos então, mas resignamo-nos com tristeza e doçura, a chorar e a sorrir: - sorriso que punge, choro que consola; e isto talvez seja o que se chama Saudade.

Viajar!
A ânsia da partida é um vinho forte, que nos excita; a serenidade do regresso, um leite morno, que nos acalma e nos amodorra gostosamente. Partir, afastar-se, ausentar-se para viagens novas, são prazeres que levam a dor pela mão...  esferas de oiro, a rolar no espaço azul, metade feitas de sol, metade feitas de treva.

Então nossa alma, amachucada pelos deuses da despedida, melancólica pelo afastamento, dorida pela ausência, começa a sentir chover em si uma morrinha lenta de mágoas imprecisas, vagas como neblinas, finas como gotas de água fria; e ver formar-se, desdobrar-se, entre o ponto da terra que deixamos e aquele em que estamos – a ver formar-se (tanto mais extensa, quanto mais afastados de pessoa querida) a planície da ausência, longa, rasa, calada, desolada, onde a nossa tristeza se queda e se pasma, e vai, como virgem louca, em sofredor silêncio, cravando, aqui e além, a flor miudinha e lilás da recordação pesarosa e o cardo roxo da saudade amarga, que laiva o chão de sombra violácea... 


O regresso é doce. Como há amizades suaves que só entendem bem após os tumultos dos amores descompassados, assim há modestas sombras de cantinhos de moradias liais, que somente se valorizam depois de os olhos se haverem deslumbrado com a falsa maravilha dos palácios de oiros rutilantes – tantas vezes mentirosos como miragens...

Dizia Demócrito: “Toma o cajado do viandante, abandona a casa paterna, expõe-te à má recepção que te faça o estrangeiro para, no regresso, saboreares o pão negro do teu lar”.

Excerto da obra Jornadas em Portugal, Antero de Figueiredo. Livrarias Aillaud e Bertrand. 2ª ed. 1918.

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